NOVO LIVRO DO PAPA BENTO XVI

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“Luce del mondo. Il Papa, la Chiesa e i segni dei tempi” (Luz do mundo. O Papa, a Igreja e os sinais dos tempos, em livre tradução) é o título com o qual está para ser publicado o livro que recolhe as conversas de Bento XVI com o jornalista e escritor alemão Peter Seewald.

A nova obra, editada em italiano pela Libreria Editrice Vaticana, será publicada ao mesmo tempo em outras línguas, nesta terça-feira, 23. Nos 18 capítulos que a compõe, agrupados em três partes – “Os sinais dos tempos”, “O pontificado”, “Para onde caminhamos” -, o Papa responde às mais acoloradas questões do mundo de hoje. Do livro, antecipamos alguns trechos.

A alegria do cristianismo
Toda a minha vida foi sempre atravessada por um fio condutor, este: o cristianismo dá alegria, amplia os horizontes. Definitivamente, uma existência vivida sempre e sobretudo a partir do “contra” seria insuportável.

Um mendigo
Naquilo que diz respeito ao Papa, também ele é um pobre mendigo diante de Deus, ainda mais dos outros homens. Naturalmente rezo, antes de tudo, sempre ao Senhor, ao qual sou ligado, por assim dizer, por antiga amizade. Mas invoco também os santos. Sou muito amigo de Agostinho, de Boaventura e de Tomás de Aquino. A eles, portanto, digo: “Ajuda-me!”. A Mãe de Deus, então, é sempre um grande ponto de referência. Nesse sentido, insiro-me na Comunhão dos Santos. Juntamente com eles, reforçado por eles, falo também com o Deus bom, sobretudo mendigando, mas também agradecendo; ou contente, simplesmente.

Capa do novo livro sobre o Papa Bento XVIAs dificuldades
Tinha levado isso em conta.  Mas, antes de tudo, devemos ser muito cuidadosos com a avaliação de um Papa, significativo ou não, quando ele ainda está vivo. Somente em um segundo momento se pode reconhecer qual lugar, na história em seu conjunto, tem uma determinada coisa ou pessoa. Mas que a atmosfera não seria sempre alegre era evidente, levando-se em conta a atual constelação mundial, com todas as forças de destruição que existem, com todas as contradições que nela vivem, com todas as ameaças e erros. Se eu tivesse continuado a receber sobretudo elogios, eu realmente deveria perguntar se estaria verdadeiramente anunciando todo o Evangelho.

O choque dos abusos
Os fatos não me causaram surpresa por completo. Na Congregação para a Doutrina da Fé, ocupei-me dos casos americanos; tinha visto também delinear-se a situação na Irlanda. Mas as dimensões, no entanto, foram um choque enorme. Desde a minha eleição à Sé de Pedro, havia repetidamente encontrado vítimas de abusos sexuais. Três anos e meio atrás, em outubro de 2006, em um discurso aos bispos irlandeses, havia pedido a eles “estabelecer a verdade acerca daquilo que havia acontecido no passado, tomar todos os atos necessários para que não se repetissem no futuro, assegurar que os princípios de justiça fossem plenamente respeitados e, sobretudo, curar as vítimas e todos aqueles que foram atingidos por esses crimes abomináveis”.

Ver o sacerdócio, de repente, manchado dessa maneira e, com isso, a própria Igreja Católica, foi difícil de suportar. Naquele momento, era importante, no entanto, não desviar o olhar do fato de que, na Igreja, o bem existe, e não sobretudo essas coisas terríveis.

Os mídia e os abusos
Era evidente que a ação dos mídia não seria guiada somente pela pura busca da verdade, mas que fosse também um prazer colocar a Igreja na berlinda e, se possível, desacreditá-la. E, todavia, era necessário que isto ficasse claro: desde que se trate de trazer luzes à verdade, devemos ser gratos. A verdade, unida ao amor entendido corretamente, é o valor número um. E, então, os mídia não teriam podido oferecer aqueles relatório se na própria Igreja o mal não existisse. Somente porque o mal estava dentro da Igreja, os outros puderam voltá-lo contra ela.

O progresso
Emerge a problemática do termo “progresso”. A modernidade procurou a sua estrada guiada pela ideia de progresso e de liberdade. Mas o que é o progresso? Hoje, vemos que o progresso pode ser também destrutivo. Por isso, devemos refletir sobre os critérios a adotar a fim de que o progresso seja verdadeiramente progresso.

Um exame de consciência
Para além de simples planos financeiros, um exame de consciência global é absolutamente inevitável. E a isso a Igreja procurou contribuir com a Encíclica Caritas in veritate. Não dá resposta a todos os problemas. Deseja ser um passo adiante para olhar as coisas a partir de outro ponto de vista, que não seja sobretudo aquele da factibilidade e do sucesso, mas do ponto de vista segundo o qual existe uma normatividade do amor pelo próximo que se orienta à vontade de Deus e não sobretudo aos nossos desejos. Nesse sentido, deveriam ser dados os impulsos para que realmente aconteça uma transformação das consciências.

A verdadeira intolerância
A verdadeira ameaça frente à qual nos encontramos é que a tolerância seja abolida em nome da própria tolerância. É o perigo de que a razão, a assim chamada razão ocidental, sustente ter finalmente reconhecido aquilo que é justo e avance assim a uma pretensão de totalidade que é inimiga da liberdade. Creio que é necessário denunciar com força essa ameaça. Ninguém é constrangido a ser cristão. Mas ninguém deve ser constrangido a viver segundo a “nova religião”, como se fosse a única e verdadeira, vinculante para toda a humanidade.

Mesquitas e burca
Os cristãos são tolerantes e, enquanto tal, permitem aos outros a sua peculiar compreensão de si. Alegramo-nos pelo fato de que, nos países do Golfo Árabe (Qatar, Abu Dhabi, Dubai, Quwait), há igrejas nas quais os cristãos podem celebrar a Missa, e esperamos que isso aconteça em todos os lugares. Por isso, é natural que também nós defendamos que os muçulmanos possam reunir-se em oração nas mesquitas.
Papa Bento com o jornalista e escritor alemão Peter Seewald

No que diz respeito à burca, não vejo razão para uma proibição generalizada. Diz-se que algumas mulheres não a usam voluntariamente, e que, na realidade, há uma espécie de violência imposta nisso. É claro que, com isso, não se pode estar de acordo. Se, no entanto, se desejasse usá-la voluntariamente, não vejo por que deveríamos impedi-lo.

Cristianismo e modernidade
O ser cristão traz em si algo de vivo, de moderno, que atravessa, formando-a e plasmando-a, toda a minha modernidade, e que, portanto, em um certo sentido, verdadeiramente a abraça.

Aqui é necessária uma grande luta espiritual, como desejei mostrar com a recente instituição de um “Pontifício Conselho para a nova evangelização”. É importante que busquemos viver e pensar o Cristianismo de modo tal que assuma a modernidade boa e justa, e, portanto, ao mesmo tempo, afaste-se e distinga-se daquilo que está se tornando uma contra-religião.

Otimismo
Se poderia pensar olhando com superficialidade e restringindo o horizonte ao mundo somente ocidental. Mas, se se observa com mais atenção – e é aquilo que me é possível fazer graças às visitas dos bispos de todo o mundo e também através de tantos outros encontros -, percebe-se que o cristianismo, neste momento, está desenvolvendo também uma criatividade de todo nova […].

A burocracia foi consumada e estancada. São iniciativas que nascem a partir do interior, da alegria dos jovens. O cristianismo, talvez, assumirá um rosto novo, talvez também um aspecto cultural diverso. O cristianismo não determina a opinião pública mundial, outros são a guia. E, todavia, o cristianismo é a força vital sem a qual também as outras coisas não poderiam continuar a existir. Por isso, com base naquilo que vejo e posso fazer experiência pessoal, sou muito otimista com relação ao fato de que o cristianismo encontre-se frente a uma dinâmica nova.

A droga
Tantos bispos, sobretudo aqueles da América Latina, dizem que, lá onde passa a estrada do cultivo e do comércio da droga – e isso acontece em grande parte daqueles países –, é como se um animal monstruoso e cativo estendesse a sua mão sobre aquele país para arruinar as pessoas. Creio que esta serpente do comércio e do consumo de droga que envolve o mundo seja um poder sobre o qual nem sempre chegamos a fazer uma ideia adequada. Destrói os jovens, destrói as famílias, leva à violência e ameaça o futuro de nações inteiras.

Também essa é uma terrível responsabilidade do Ocidente: tem necessidade de drogas e, assim, cria países que lhe forneçam aquilo que, então, terminará por consumi-los e destruí-los. Surgiu uma fome de felicidade que não pode saciar-se com aquilo que possui; e que, então, refugia-se, por assim dizer, no paraíso do diabo e destrói completamente o homem.

Na vinha do SenhorCom efeito, eu tinha um papel de liderança, mas nunca fiz nada sozinho e trabalhei sempre em equipe; assim como um dos muitos trabalhadores na vinha do Senhor, que provavelmente fez o trabalho preparatório, mas ao mesmo tempo é aquele que não é feito para ser o primeiro e assumir a responsabilidade por tudo. Entendi que, ao lado dos grandes Papas, devem estar também Pontífices pequenos que dão sua própria contribuição. Assim, naquele momento, eu disse aquilo que senti realmente […].

O Concílio Vaticano II ensinou-nos, com razão, que a estrutura da Igreja é constituída pela colegialidade; ou seja, o fato de que o Papa é o primeiro na partilha e não um monarca absoluto, que toma decisões sozinho e faz tudo por si só.

O judaísmo
Sem dúvidas. Devo dizer que desde o primeiro dia dos meus estudos teológicos ficou de algum modo clara a profunda unidade entre a Antiga e a Nova Aliança, entre as duas partes da nossa Sagrada Escritura. Compreendi que poderíamos ler o Novo Testamento somente em conjunto com aquilo que o precedeu, caso contrário não o teríamos compreendido. Então, naturalmente, tudo quanto aconteceu no Terceiro Reich atingiu-nos como alemães e tanto mais levou-nos a olhar para o Povo de Israel com humildade, vergonha e amor.

Na minha formação teológica, essas coisas foram interligadas e marcaram o caminho do meu pensamento teológico. Então ficou claro para mim – e também aqui em total continuidade com João Paulo II – que, no meu anúncio da fé cristã, devia ser fundamental essa nova conexão, amorosa e compreensiva, entre Israel e a Igreja, baseada no respeito ao modo de ser de cada um e da sua respectiva missão […].

No entanto, nesse ponto, também na antiga liturgia pareceu-me necessário uma mudança. Na verdade, a fórmula era tal que feria verdadeiramente os judeus e, certamente, não expressava de forma positiva a grande, profunda unidade entre o Antigo e o Novo Testamento.

Por esse motivo,  pensei que, na liturgia antiga, fosse necessária uma modificação, em particular, como eu disse, em referência ao nosso relacionamento com nossos amigos judeus. Modifiquei-a de modo tal que permanecesse contida a nossa fé, que Cristo é a salvação para todos. Não existem dois caminhos de salvação e, portanto, Cristo é também o Salvador dos judeus, e não apenas dos pagãos. Mas, também de modo tal que não se rezasse diretamente pela conversão dos judeus em um sentido missionário, mas para que o Senhor apresse o tempo da hora histórica em que todos seremos unidos. Por essa razão, os argumentos utilizados por uma série de teólogos polemicamente contra mim foram irresponsáveis e não fazem justiça ao que foi feito.

Pio XII
Papa Pio XIIPio XII fez todo o possível para salvar pessoas. Naturalmente nós podemos sempre perguntar: “Por que não protestou de maneira mais explícita?”. Creio que havia compreendido quais seriam as consequências de um protesto público. Sabemos que, devido a essa situação, pessoalmente sofreu muito. Sabia que, por si mesmo, deveria falar, mas a situação impedia-o.

Agora, pessoas mais razoáveis reconhecem que Pio XII salvou muitas vidas, mas argumentam que ele tinha ideias antiquadas sobre os judeus e que não estava à altura do Concílio Vaticano II. O problema, no entanto, não é esse. O importante é o que ele fez e o que tentou fazer, e creio que é preciso verdadeiramente reconhecer que era apenas um dos grandes justos e, como nenhum outro, salvou tantos e tantos judeus.

A sexualidade
Concentrar-se somente no preservativo significa banalizar a sexualidade, e essa banalização é precisamente a perigosa razão pela qual tantas e tantas pessoas não veem na sexualidade mais a expressão do seu amor, mas apenas uma espécie de droga, que administram por si só. Por isso, também a luta contra a banalização da sexualidade é parte do grande esforço para que a sexualidade seja valorizada positivamente e possa exercer o seu efeito positivo sobre o ser humano em sua totalidade.

Pode haver casos individuais justificados, por exemplo, quando uma prostituta usa um preservativo, e esse pode ser o primeiro passo rumo a uma moralização, uma primeiro ato de responsabilidade para desenvolver de novo a consciência do fato de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer. No entanto, essa não é a maneira verdadeira e adequada para vencer a infecção do HIV. É verdadeiramente necessária uma humanização da sexualidade.

A Igreja
Paulo, assim, não entendia a Igreja como instituição, como organização, mas como organismo vivo, no qual todos operam para o outro e um com o outro, sendo unidos a partir de Cristo. É uma imagem, mas uma imagem que conduz em profundidade e que é muito realista também somente pelo fato de que nós cremos que, na Eucaristia, verdadeiramente recebemos Cristo, o Ressuscitado. Se todos recebem o mesmo Cristo, então verdadeiramente nós todos somos reunidos neste novo corpo ressuscitado como o grande espaço de uma nova humanidade. É importante compreender isso, e, portanto, compreender a Igreja não como um aparato que deve fazer de tudo – embora o aparato pertença a ela, embora dentro dos limites –, mas antes como organismo vivente que provém do próprio Cristo.

A Humanae vitae
As perspectivas da Humanae vitae permanecem válidas, mas outra coisa é encontrar estradas humanamente percorríveis. Creio que serão sempre das minorias intimamente persuadidas pela justeza daquelas perspectivas e que, vivendo-as, ficam plenamente satisfeitas, de modo a tornar-se para outros fascinantes modelos a se seguir. Somos pecadores. Mas não devemos assumir esse fato como instância contra a verdade, quando aquela moral elevada não é vivida. Devemos procurar fazer todo o bem possível, e apoiarmo-nos e suportarmo-nos mutuamente. Expressar tudo isso também do ponto de vista pastoral, teológico e conceitual no contexto da atual sexologia e da pesquisa antropológica é uma grande tarefa para a qual devemos nos dedicar mais e melhor.

As mulheres
A formulação de João Paulo II é muito importante: “A Igreja não tem, de nenhum modo, a faculdade de conferir às mulheres a ordenação sacerdotal”. Não se trata de não desejar, mas de não poder. O Senhor deu uma forma à Igreja com os Doze e, então, com a sua sucessão, com os bispos e presbíteros (os sacerdotes). Não fomos nós que criamos esta forma da Igreja, mas é constitutiva a partir d’Ele. Segui-la é um ato de obediência, na situação atual talvez um dos atos de obediência mais pesados. Mas exatamente isso é importante, que a Igreja mostre não ser um regime arbitrário. Não podemos fazer aquilo que desejamos. Há, ao invés, uma vontade do Senhor para nós, à qual aderimos, também se isso é cansativo e difícil na cultura e na civilização de hoje.

Por outro lado, as funções confiadas às mulheres da Igreja são tão grandes e significativas que não se pode falar de discriminação. Seria assim se o sacerdócio fosse uma espécie de domínio, enquanto, ao contrário, deve ser completamente serviço. Se se dá uma olhada à história da Igreja, então se percebe que o significado das mulheres – de Maria a Mônica até Madre Teresa de Calcutá – é tão proeminente que, de muitas maneiras, as mulheres definem o rosto da Igreja mais do que os homens.

Os novíssimos
É uma questão muito séria. A nossa pregação, o nosso anúncio efetivamente é amplamente orientado, de modo unilateral, à criação de um mundo melhor, enquanto o mundo realmente melhor quase não é mais mencionado. Aqui devemos fazer um exame de consciência.

Claro, nós tentamos conversar com o público, dizendo-lhes o que está em nosso horizonte. Mas a nossa missão é, ao mesmo tempo, romper esse horizonte, ampliá-lo, e olhar as coisas últimas.

Os novíssimos (as últimas coisas) são como pão duro para os homens de hoje. Eles parecem irreais. Gostariam de colocar em seu lugar respostas concretas para o hoje, soluções para as tribulações cotidianas. Mas são respostas que ficam pela metade se também não permitem apresentar e reconhecer que eu me estendo para além desta vida material, que há um julgamento, e que há graça e eternidade. Nesse sentido, devemos também encontrar novas palavras e formas para permitir que o homem quebre a barreira de som do finito.

A vinda de Cristo
É importante que, em toda a época, esteja junto o Senhor. Que também nós mesmos, aqui e agora, estamos sob o juízo do Senhor e nos deixamos julgar pelo seu tribunal. Discutia-se acerca de uma dúplice vinda de Cristo, uma em Belém e uma no final dos tempos, até quando São Bernardo de Claraval falou de um Adventus medius, de uma vinda intermediária, através da qual Ele periodicamente entra na história.

Creio que tenha compreendido a tonalidade justa. Nós não podemos estabelecer quando o mundo acabará. Cristo mesmo disse que ninguém o sabe, nem mesmo o Filho. Devemos, no entanto, permanecer, por assim dizer, sempre permanecer esperando a sua vinda e, sobretudo, estarmos certos de que, nas dores, Ele está perto. Ao mesmo tempo, devemos saber que, pelas nossas ações, estamos sob o seu juízo.

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Nota da Sala de Imprensa da Santa Sé sobre a polêmica envolvendo as palavras do Papa Bento XVI sobre a camisinha.

Ao fim do capítulo décimo do livro Luz do mundo, o Papa responde a duas questões sobre o combate à AIDS e o uso de camisinhas, questões que remontam a discussões que seguiram algumas palavras ditas pelo Papa a respeito no curso de sua viagem à África, em 2009.
O Papa claramente reafirma que não pretendeu [em 2009] tomar uma posição sobre o problema das camisinhas em geral, mas simplesmente quis afirmar firmemente que o problema da AIDS não pode ser resolvido somente com a distribuição de camisinhas, pois muito mais tem de ser feito: prevenção, educação, auxílio, conselho, estar próximo das pessoas — tanto para que não se adoentem, mas também quando estão doentes.
O Papa observou que mesmo em meios não eclesiais há semelhante consciência, como ocorre com o chamado método “ABC” (abstinência – fidelidade – camisinhas), no qual os dois primeiros elementos (abstinência e fidelidade) são muito mais determinantes e fundamentais para a luta contra a AIDS, ao passo que a camisinha, em última análise, aparece como um atalho quando os outros dois elementos estão ausentes. Deve ficar claro, portanto, que a camisinha não é a solução do problema.
O Papa então amplia o foco, insistindo que concentrar-se apenas na camisinha é equivalente a tornar a sexualidade algo banal, perdendo seu sentido como uma expressão de amor entre pessoas, e tornando-a uma espécie de “droga”. Combater a banalização da sexualidade é “parte de um grande esforço para ver que a sexualidade é posivitamente compreendida, e pode exercer seus efeitos positivos na pessoa humana em sua totalidade”.
À luz desta ampla e profunda visão da sexualidade humana, e seus desafios modernos, o Papa reafirma que “naturalmente, a Igreja não considera a camisinha como uma solução autêntica e moral” ao problema da AIDS.
Logo, o Papa não está reformando ou mudando o ensinamento da Igreja, mas reafirmando-o, ao colocá-lo em um contexto do valor e da dignidade da sexualidade humana enquanto uma expressão de amor e responsabilidade.
Ao mesmo tempo, o papa considera uma situação excepcional na qual o exercício da sexualidade representa um verdadeiro risco à vida de outrem. Neste caso, o Papa não justifica moralmente o exercício desordenado da sexualidade, mas sustenta que o uso de uma camisinha a fim de diminuir o risco de infecção é “uma primeira hipótese de responsabilidade” e “um primeiro passo em direção a um modo diferente, um modo mais humano, de viver a sexualidade”, em vez de não usar a camisinha e expor a outra pessoa a uma ameaça à sua vida.
Neste sentido, o pensamento do Papa certamente não pode ser definido como uma guinada revolucionária. Numerosos teólogos morais e personalidade eclesiásticas de autoridade sustentaram, e ainda sustentam, posições semelhantes. Todavia, é verdade que, até agora, elas não foram ouvidas com tal clareza da boca de um Papa, mesmo se de forma coloquial, e não magisterial.
Bento XVI, portanto, corajosamente nos dá uma importante contribuição de esclarecimento e aprofundamento de uma questão que há muito é debatida. É uma contribuição original, pois, por um lado, permanece fiel aos princípios morais e demonstra lucidez em rejeitar a “fé na camisinha” como um caminho ilusório; por outro, mostra uma visão compreensiva e ampla, atenta a descobrir os pequenos passos — mesmo se apenas iniciais e ainda confusos — de uma humanidade muitas vezes empobrecida espiritual e culturalmente, em direção a um exercício mais humano e responsável da sexualidade.


Pe. Frederico Lombardi.
Porta-voz da Santa Sé
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O poder da oração e uma vitória da “cultura da morte”

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No dia 4 de outubro de 2010 (portanto, o dia seguinte ao do primeiro turno das eleições), o Diário Oficial da União publicava um “Termo aditivo ao Termo de cooperação n.º 137/2009”, um convênio celebrado entre a União Federal, através do Ministério da Saúde, e a Fundação Oswaldo Cruz (Rio de Janeiro). O objetivo declarado era prorrogar até 04/02/2011 o estudo e a pesquisa destinados a “despenalisar (sic) o aborto no Brasil” [1]. Lembremos que no início de 2009 a Fundação Oswaldo Cruz já havia lançado o filme “O fim do silêncio” produzido com R$ 80 mil fornecidos pelo Ministério da Saúde, um documentário “claramente a favor do aborto”, nas palavras da diretora Thereza Jessouroun [2]. Como se pode ver, a promoção do aborto pelo governo petista não parou nem mesmo em época eleitoral.

No dia 5 de outubro de 2010, durante a Santa Missa das 7 horas, Pe. José Augusto fez na TV Canção Nova uma corajosa pregação advertindo os cristãos sobre o Partido dos Trabalhadores: “os rumos da nação brasileira, estão prestes a mudar, e ela poderá mudar para o pior, para o lado pior, se nesse segundo turno, e eu vou falar com clareza, se o PT ganhar. Estou falando claro. Podem me matar, podem me prender, podem fazer o que quiser. Não tenho advogado nenhum. Podem me processar. Se tiver de ser preso, eu serei. Não tem problema. Mas eu não posso me calar diante de um partido, que está apoiando o aborto, e a Igreja não aprova” [3].

Não foi preciso esperar que o governo ou o PT viessem perseguir Pe. José Augusto. No mesmo dia, a Canção Nova apressou-se em dizer “não conheço esse homem” (Mc 14,71). Wellington Silva Jardim (conhecido como Eto), falando em nome da Fundação João Paulo II, mantenedora do Sistema de Comunicação Canção Nova, disse: “não autorizamos o pronunciamento público do sacerdote Padre José Augusto Souza Moreira sobre o Partido dos Trabalhadores, bem como a opinião do mesmo representa tão somente seu pensamento, não sendo em hipótese alguma o pensamento da instituição” [4]. Pergunto: como pode um cristão, sem renegar o seu Batismo, pensar a respeito do PT de maneira diferente daquela como falou Pe. José Augusto?

Naquele mesmo dia, Mons. Jonas Abib pediu, “em nome da Canção Nova, perdão por qualquer excesso”. E ainda: “É preciso ver nos irmãos o que nos une. A Canção Nova não vê cada candidato por suas bandeiras, mas os acolhe como filhos amados de Deus” [5]. Pergunto: É indiferente a bandeira a que um candidato pertença? Posso votar num candidato cujo partido defende explicitamente o aborto?

Ainda no mesmo dia 5 de outubro, Gabriel Chalita, eleito deputado federal graças a seu prestígio junto à Canção Nova, declarava à Folha de São Paulo que iria empenhar-se pessoalmente na defesa de Dilma Rouseff entre os religiosos, desfazendo “boatos” sobre a candidata. Segundo ele, “Dilma nunca disse ser a favor do aborto” (sic) [6]. Ora, isso é uma inverdade gritante! Em 4 de outubro de 2007, ela dizia explicitamente em uma sabatina feita pela Folha de São Paulo: “Eu acho que tem que haver a descriminalização do aborto. Hoje, no Brasil, isso é um absurdo que não haja… a descriminalização” [7]. E pelo simples fato de candidatar-se pelo PT, ela estava (e ainda está) obrigada a acatar uma resolução do 3º Congresso Nacional do PT (agosto/setembro 2007) que inclui a “defesa da autodeterminação das mulheres, da descriminalização do aborto e regulamentação do atendimento a todos os casos no serviço público” [8].

Quanto a isso, a Canção Nova silenciou-se. Nenhuma nota foi emitida para dizer que o pronunciamento de Chalita em favor do PT e de Dilma não representava o pensamento da emissora com a ajuda da qual ele se elegeu.

No dia 17 de outubro, a Polícia Federal, cumprindo uma liminar arbitrária do Ministro Henrique Dias (TSE), apreendeu em uma gráfica de São Paulo, a pedido de Dilma, PT e partidos coligados, cerca de dois milhões de exemplares do documento “Apelo a todos os brasileiros e brasileiras”, aprovado em 26/08/2010 pela Presidência e Comissão Representativa dos Bispos do Regional Sul 1 da CNBB [9]. O documento, que expõe fatos sobre a conexão indissolúvel entre o PT e o aborto, já havia subtraído muitos votos a Dilma no primeiro turno. Na impossibilidade de negar os fatos, o PT optou por amordaçar aqueles que os divulgavam.

No dia 20 de outubro, a Mitra Diocesana de Guarulhos, representada pelo Bispo Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, que havia encomendado a impressão dos folhetos, protocolou junto ao Tribunal Superior Eleitoral um pedido de revogação da liminar. Infelizmente a morosidade da Justiça favoreceu o PT. Somente em 30 de outubro, véspera do segundo turno, o Ministério Público Eleitoral manifestou-se pela revogação da liminar, com a devolução de todo o material apreendido à Mitra Diocesana de Guarulhos [10]. Argumentou que o material apreendido não constitui propaganda eleitoral, pois não foi elaborado por candidato ou partido político. E ainda: “A manifestação de pensamento sobre o aborto ou qualquer outro tema […] é assegurada pela ordem constitucional vigente e nada há de ilegal em escrutinar os posicionamentos dos partidos políticos, candidatos, apoiadores, sobre temas polêmicos, apenas porque se trata de período eleitoral” [11].

Ora, já houve o segundo turno das eleições (31 de outubro), Dilma Rousseff venceu com 56,05% dos votos válidos (contra 43,95% de José Serra) e até o dia de hoje o TSE ainda não deu uma decisão definitiva de mérito sobre a apreensão dos exemplares do “Apelo a todos os brasileiros e brasileiras”!

Some-se a isso o comportamento lamentável do bispo de Jales (SP) Dom Demétrio Valentini, que criticou asperamente o documento [12], acusou de manipulação eleitoral os seus irmãos no episcopado [13] e passou a apoiar publicamente Dilma Rousseff assinando um “Manifesto de cristãos e cristãs evangélicos/as e católicos/as em favor da vida e da Vida em abundância!” [14] O texto do manifesto nega que Dilma seja favorável ao aborto e ao “casamento” de homossexuais e apresenta a candidata como defensora da vida. Outros Bispos que assinaram o triste manifesto de apoio a Dilma: Dom Thomas Balduino, bispo emérito de Goiás velho, Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Felix do Araguaia (MT), Dom Luiz Eccel, Bispo de Caçador (SC), Dom Antonio Possamai, bispo emérito de Rondônia, Dom Sebastião Lima Duarte, bispo de Viana (MA) e Dom Xavier Gilles, bispo emérito de Viana (MA).

Este último esteve em Roma em 28 de outubro, em visita “ad limina apostolorum” e saudou o Papa Bento XVI em nome dos outros bispos presentes do Regional Nordeste 5 (Maranhão). O Santo Padre acolheu a saudação de Dom Gilles e lembrou aos Bispos o grave dever de emitirem um juízo moral, mesmo em matérias políticas, quando o exigirem os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas, como é o caso de projetos políticos que contemplam, “aberta ou veladamente, a descriminalização do aborto”. “Ao defender a vida – disse o Papa – não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambiguidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo” [15].

A intervenção do Papa a três dias das eleições não foi capaz, porém, de evitar o escândalo causado por aqueles bispos, a perseguição sofrida por outros, o silêncio e o temor de muitos. O resultado nós o conhecemos.

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O que foi feito de nossas orações?

“A oração fervorosa do justo tem grande poder. Assim, Elias, que era um homem semelhante a nós, orou com insistência para que não chovesse, e não houve chuva na terra durante três anos e seis meses. Em seguida, tornou a orar e o céu deu a sua chuva e a terra voltou a produzir o seu fruto” (Tg 5,16-18).

A oração tem eficácia garantida: “Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto; pois todo o que pede recebe; o que busca acha e ao que bate se lhe abrirá” (Mt 7,7-8).

Se a oração fervorosa é sempre atendida, nem sempre ela o é do modo que imaginamos. “É ele (Cristo) que, nos dias de sua vida terrestre, apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte” (Hb 5,7). Aparentemente seu pedido não foi atendido. No entanto, prossegue o texto: “e foi atendido, por causa da sua submissão”. Cristo foi salvo da morte, não deixando de morrer (como seria de se esperar), mas ressuscitando ao terceiro dia e sendo exaltado à direita do Pai.

Do mesmo modo, não devemos pensar que não foram atendidas nossas orações feitas em favor do Brasil nestas eleições. Não houve a derrota da candidata Dilma Rouseff, que tanto esperávamos. Mas “da mão do anjo, a fumaça do incenso com as orações dos santos subiu diante de Deus” (Ap 8,4). Os frutos dessas orações, aparentes ou invisíveis, presentes ou ainda por vir, são certos.

A prisão de Jesus foi um momento tenebroso. Ele próprio disse aos guardas: “É a vossa hora e o poder das trevas” (Lc 22,53). Mas em pouco tempo as trevas cederiam seu lugar à luz da ressurreição. A vitória do inimigo foi apenas aparente. Da morte de Cristo, brotou a redenção para o mundo.

Como ensina Santo Tomás de Aquino, “pertence à infinita bondade de Deus permitir males para deles tirar o bem” [16]. Aguardemos confiantes o bem que o Senhor pretende tirar desse mal tão grande que pesou sobre o país. Convém que não esmoreçamos nem na oração nem na ação em defesa da vida.

Anápolis, 16 de novembro de 2010.
Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz

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[1] Cf. Diário Oficial da União, n. 190, 4 out. 2010, seção 3, p. 88. in: http://www.in.gov.br/imprensa/visualiza/index.jsp?jornal=3&pagina=88&data=04/10/2010
[2] Cf. FILME reacende polêmica em torno do aborto. O Globo. 04 jan. 2009. in: http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/01/04/filme-reacende-polemica-em-torno-do-aborto-587883773.asp.
[3] Homilia completa em http://www.youtube.com/watch?v=-9nVdpqMgTc
[4] Wellington Silva Jardim. Nota Oficial da Fundação João Paulo II sobre as eleições 2010, 05 out. 2010, in: http://tv.cancaonova.com/mostramateria.php?id=6434
[5] Monsenhor Jonas Abib. Nota Oficial da Comunidade Canção Nova sobre as eleições 2010, 05 out. 2010, in: http://www.cancaonova.com/portal/canais/tvcn/tv/mostramateria.php?id=6431
[6] Daniela Lima. Chalita ajudará PT a avançar entre religiosos, 05 out. 2010, in: http://www1.folha.uol.com.br/poder/809871-chalita-ajudara-pt-a-avancar-entre-religiosos.shtml
[7]Sabatina Jornal Folha de S. Paulo, 4 out. 2007, in http://www.youtube.com/watch?v=TdjN9Lk67Io
[8] Resoluções do 3º Congresso do PT, p. 80. in: http://old.pt.org.br/portalpt/images/stories/arquivos/livro%20de%20resolucoes%20final.pdf
[9] http://www.cnbbsul1.org.br/arquivos/carta_presidencia_texto_oficial.pdf
[10] Cf. Vice-PGE é contra apreensão de panfletos da CNBB sobre aborto. 03 nov. 2010, in: http://noticias.pgr.mpf.gov.br/noticias/noticias-do-site/copy_of_eleitoral/vice-pge-e-contra-apreensao-de-panfletos-da-cnbb-sobre-aborto.
[11] Íntegra do Parecer in: http://noticias.pgr.mpf.gov.br//noticias/noticias-do-site/copy_of_pdfs/AC%20352620.pdf
[12] Cf. Desmonte de uma falácia. 07 out. 2010, in http://www.diocesedejales.org.br/palavradobispo/palavradobispo_detalhes.asp?id=1275
[13] Cf. Bispos e padres da Regional Sul-1 da CNBB são acusados de crime eleitoral. 05 out. 2010, in: http://www.dgnews.com.br/beta10/f?p=181:4:4706724637659107::NO:4:P4_ID,P4_PALAVRAS:22428,
[14] http://blogdadilma.blog.br/2010/10/manifesto-de-cristaos-e-cristas-evangelicosas-e-catolicosas-em-favor-da-vida-e-da-vida-em-abundancia.html
[15] Visita “ad limina apostolorum” dos Bispos do Regional Nordeste 5 do Brasil, in: http://press.catholica.va/news_services/bulletin/news/26281.php?index=26281&lang=po
[16]Suma Teológica, I, questão 2, artigo 3, resposta à primeira objeção.
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O perigo de conviver com hereges

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São Tomás de Aquino
Quaestiones quodlibetales, quodlibeto 10, q. 7, a. 1 (15), c.


Por duas razões não se deve manter relações com os hereges. Primeiramente, por causa da excomunhão, pois, sendo excomungados, não se deve ter relações com eles, da mesma maneira que com os outros excomungados. A segunda razão é a heresia. – Em primeiro lugar, por causa do perigo, para que as relações com eles não venham a corromper os outros, segundo aquilo da primeira epístola aos Coríntios (15, 33): “As más conversações corrompem os costumes”. E em segundo lugar para que não pareça se prestar algum assentimento às suas doutrinas perversas. Daí dizer-se na segunda epístola canônica de S. João (v. 10): “Se alguém vier a vós e não trouxer esta doutrina, não o recebais em vossa casa, nem o saudeis, pois o que o saúda toma parte em suas más obras”. E aqui a Glosa comenta: “Já que para isso foi instituída, a palavra demonstra comunhão com esse tal: de outro modo não seria senão simulação, que não deve existir entre cristãos”. Em terceiro e último lugar, para que nossa familiaridade [com eles] não dê aos outros ocasião de errar. Por isso, outra Glosa comenta a respeito dessa passagem da Escritura: “E se acaso vós mesmos não vos deixais enganar, outros, todavia, vendo vossa familiaridade [com os hereges], podem enganar-se, acreditando que esses tais vos são agradáveis, e assim crer neles”. E uma terceira Glosa acrescenta: “Os Apóstolos e seus discípulos usavam de tanta cautela em matéria religiosa, que não sofriam sequer a troca de palavras com os que se haviam afastado da verdade”. Entende-se, porém: excetuado o caso de alguém que trata com outro a respeito da salvação, com intuito de salvá-lo.
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NOVOS MÁRTIRES DA IGREJA NO IRAQUE

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“O incidente ocorreu num domingo, quando um grupo de homens armados invadiu a Igreja da Nossa Senhora da Salvação, a maior igreja cristã de Bagdá, e tomou dezenas de fiéis que assistiam à missa como reféns.
Após horas de impasse, a polícia iraquiana, auxiliada por forças americanas, invadiu a igreja. Pelo menos 52 pessoas foram mortas e outras 56 ficaram feridas.
Com janelas destruídas e paredes danificadas por explosões e balas, a igreja já reabriu suas portas e alguns fiéis retornaram para assistir a mais um serviço religioso.


Os cristãos vivem no Iraque há cerca de dois mil anos, mas desde 2003 a comunidade vem se reduzindo dramaticamente. Não há dados oficiais, mas segundo estimativas, o número caiu de 900 mil para a metade.
‘Antes da mudança no regime, há sete anos, não tínhamos massacres como este’, disse o bispo Metti Metok.
‘Claro que estamos preocupados com o futuro da nossa comunidade. Embora nós os encorajemos a ficar, eles nos perguntam: você garante as nossas vidas?'”




 
Caríssimos, essas cenas acontecidas no Iraque nos chocam a todos, entretanto sabemos que o Sangue dos Mártires é semente de novos cristãos.
Dar a vida pela Fé é um ato tão grande que livra o mártir de qualquer pena temporal do pecado e, pelo seu sangue derramado, é lavado de toda culpa, podendo adentrar no Paraíso sem sequer passar pelo purgatório.
Entretanto há critérios para se configurar um Verdadeiro Martírio e assim gozar do prêmio reservado aos heróis da Fé.
Vejamos:

“A palavra “mártir” provém do grego e significa “testemunha”. Ela foi empregada nos primeiros tempos do Cristianismo para indicar os Apóstolos e os primeiros discípulos que, tendo presenciado os milagres e a Ressurreição de Jesus, derramaram seu sangue para dar testemunho disso. Posteriormente, o termo foi utilizado num sentido mais amplo, para designar todos os cristãos que preferiram a morte a renegar sua Fé.

Na linguagem eclesiástica, a palavra “martírio” refere-se, pois, ao testemunho da verdade cristã, selada com o sangue, até o sacrifício da própria vida.

Tendo sido Nosso Senhor Jesus Cristo o Mártir por excelência, mártir é todo aquele que, à semelhança de Cristo, dá o testemunho da verdade com a  própria vida. Assim sendo, Santo Estêvão foi o primeiro mártir. “A história de Estêvão é uma repetição da história de Cristo. Ser santo (ou mártir), para os primeiros cristãos, era morrer não só por Ele mas como Ele …. Assim como o batismo significava morrer com Ele e ressurgir para a plenitude da vida eterna, o martírio era o selo de uma total conformidade do santo com Cristo” (1) .

O martírio constitui um ato supremo da virtude da fortaleza e o mais perfeito ato de caridade.

Características

De acordo com os teólogos, três são as condições para que haja verdadeiro martírio:

1 – Que se sofra verdadeiramente a morte corporal – O mártir é considerado a perfeita testemunha da Fé cristã, aquele que deu a prova absoluta de seu amor a Cristo. Ora, a vida é o maior bem natural do homem. Logo, dar a vida por Cristo é a maior prova de amor a Ele. Aquele que conserva a vida do corpo ainda não demonstrou de modo absoluto que despreza todas as coisas terrenas por amor de Cristo. Assim, antes de ter dado a vida pelo Senhor, ninguém pode ser chamado verdadeiro mártir. Por isso, aqueles que sofreram tormentos por amor a Deus, mas não até a morte, não podem ser chamados mártires no sentido perfeito e completo do termo. A Igreja não chama mártires senão aqueles que morreram por Cristo, e reserva o título de confessores àqueles que sofreram o exílio, a prisão, a perda dos bens, e mesmo a tortura para confessar sua Fé.

2 – Que a morte seja infligida por ódio à verdade cristã – A verdade da Fé cristã exige não só a adesão interna às doutrinas reveladas, mas também a profissão externa, por meio de palavras e de atos, mediante os quais se demonstra a própria fé. Todos os atos de virtudes, por se reportarem a Deus, são, de algum modo, profissões de fé, pois é através da fé que sabemos que Deus premia alguns atos e castiga outros.

Por isso, não somente a fé pode ser causa do martírio, mas toda virtude, contanto que se relacione com Deus; assim São João Batista é honrado como mártir por haver sustentado os direitos da fidelidade conjugal. Do mesmo modo, São João Nepomuceno foi canonizado como mártir por se recusar a violar o segredo da Confissão; e Santa Maria Goretti, para preservar a pureza.

Requer-se, portanto, que a morte seja infligida por um inimigo da Fé divina ou da virtude cristã. Por conseguinte, não são mártires, no sentido próprio do termo:

a – aqueles que suportaram a morte em virtude de moléstia contagiosa,  contraída de doentes dos quais tratavam por amor a Deus (estes podem vir a  ser considerados “confessores”);

b – os que sofreram a morte na defesa de uma verdade natural;

c – os que sofreram a morte na defesa da heresia.

Também é necessário, da parte do perseguidor, o ódio à Fé ou a toda outra boa obra, desde que ordenada pela Fé de Cristo. E quanto a isso, pouco importa que o perseguidor seja pagão, herege ou mesmo católico; basta que ele inflija a morte por ódio a uma virtude que se pode relacionar com a Fé; assim Santo Estanislau de Cracóvia, São Tomás de Cantuária e São João Nepomuceno foram postos à morte respectivamente por Boleslau, Rei da Polônia, Henrique II da Inglaterra e Wenceslau, Rei da Boêmia, que no entanto eram católicos.

Contudo, não é necessário que o perseguidor reconheça expressamente que age por ódio à fé; basta que este seja seu verdadeiro motivo, mesmo quando ele invocar um outro pretexto. É o que confirma a História, pois Nero começou a perseguição pretextando o incêndio de Roma em 64 dC., que ele atribuía caluniosamente aos cristãos.

3 – Que a morte seja aceita voluntariamente – Um adulto que é morto durante o sono, por ódio à Fé, normalmente não é verdadeiro mártir. Porém, muitos autores ensinam que um adulto que tenha abandonado tudo para seguir o Senhor, e é morto pelos inimigos da Religião enquanto está dormindo, em ódio à Fé cristã, é verdadeiro mártir, porque em sua entrega total estava implícita a aceitação voluntária de tudo o que viesse em conseqüência dessa entrega, inclusive a morte.

Na aceitação voluntária da morte está compreendida a ausência de resistência. Pois se a pessoa se defende, pode ser que tenha querido salvar a vida, não entregá-la. Defender a própria vida é legítimo (e em muitos casos é até obrigatório), mas não caracteriza o martírio.

Essa exigência faz levantar uma pergunta: se o soldado que morre numa guerra em defesa da Fé pode ser considerado mártir. Santo Tomás de Aquino parece indicar que se pode considerar como mártir o soldado que morre em uma guerra movida para a defesa da Fé.  Para que haja martírio, entretanto, é necessário uma guerra entre fiéis e infiéis, não por motivos políticos, mas por causa da Religião; então aqueles que lutam em prol da Religião católica, contra os infiéis, morrem mártires, porque a morte lhes é infligida por ódio à Fé . E sua resistência não é um obstáculo a seu título de mártir, porque, dizem os teólogos, eles lutaram primariamente não para defender suas vidas, mas por causa da Igreja e da verdadeira Fé contra os adversários de Cristo; eles não defendem sua vida senão secundariamente, na medida em que esta é necessária à Igreja e à Fé cristã.

Pode uma criança, ainda não dotada do pleno uso da razão, ser mártir? A resposta é positiva. Para que sejam mártires, basta que sejam mortas por Cristo, e isso mesmo no seio materno. Nesse sentido, convém lembrar o caso célebre dos Santos Inocentes, que a Igreja sempre honrou como mártires.

Nas causas de beatificação e canonização dos mártires são examinados todos esses elementos. Uma vez que eles sejam comprovados, fica dispensado o exame de heroicidade das virtudes e, algumas vezes, também a prova complementar dos milagres.

Eficácia e efeitos do martírio

1 – Justifica o pecador – O martírio confere o estado de graça ao pecador, seja ele adulto ou criança. Para o adulto, entretanto, é preciso que venha unido pelo menos a uma atrição ou contrição imperfeita dos pecados cometidos. Na aceitação voluntária da morte por amor de Deus ou da virtude já está implícita a dor pelos pecados.

Pessoas adultas não batizadas, mortas por ódio à Fé, são igualmente justificadas e vão para o Céu.

Explica-se isso porque  o martírio supre o batismo de água e produz os mesmos efeitos: apaga o pecado original, e os pecados atuais quanto à culpa e à pena. É o chamado “batismo de sangue” (cfr. Mt 10, 32 e 39). Entretanto, se o adulto é catecúmeno (em fase de preparação para ser batizado), ele deve, tanto quanto possível, receber o batismo de água antes do martírio.

Se se trata de um adulto já batizado, deve ele, se possível, confessar seus pecados a um padre, ou pelo menos lamentá-los e receber a Sagrada Comunhão, porque esses preceitos obrigam, em decorrência do direito divino, no momento da morte, e o mártir não pode ser dispensado. Ressaltamos que isso é requerido só quando há possibilidade, ou seja, no caso em que já se prevê o martírio e existem condições de se preparar para ele. Por exemplo, antes de ir a uma batalha, numa guerra de Religião.

2 – Destrói a culpa venial e a pena temporal de todos os pecados – Sendo um perfeito ato de caridade, o martírio destrói nos justos (ou seja, nos que estão em estado de graça) toda a culpa venial e toda a pena temporal devida pelos pecados passados. Por isso, todos os mártires entram imediatamente no Céu, sem passar pelo Purgatório.

3 – Produz um aumento na graça e na glória – O martírio confere ainda aos justos um aumento notável na graça e na glória.

4 –  Merece especial recompensa no Céu – Por fim, o martírio merece uma recompensa especial no Paraíso celeste, a que Santo Tomás chama uma alegria, um prêmio privilegiado, correspondente a uma privilegiada vitória.

Martírio espontâneo

Sendo o martírio um ato de virtude, é louvável oferecer-se espontaneamente para ser martirizado? Como explicar que a Igreja tenha visto nessa atitude uma pretensão e um perigo?

A razão dada pela Igreja é que não é permitido oferecer aos outros a ocasião de agir com injustiça; seria um pecado de cumplicidade. Entretanto, a Igreja aceitava como martírio esse fato quando se tratava daqueles que tinham tido a fraqueza de abjurar a Fé e queriam reparar sua falta. Os teólogos admitem que uma especial inspiração do Espírito Santo pode explicar essa iniciativa, assim como muitas outras causas, entre as quais Santo Tomás cita o zelo pela fé e a caridade fraterna.

São Gregório Nazianzeno resume numa sentença a regra a ser seguida nesses casos: procurar a morte é mera temeridade, mas recusá-la é covardia.

Tendo isso em vista, pode-se habitualmente desejar o martírio e pedi-lo a Deus? A resposta é que o próprio Nosso Senhor nos encorajou a isso. Por outro lado, os teólogos não têm trabalho nenhum em demonstrar que o desejo do martírio não compreende de nenhum modo a aceitação do pecado cometido pelo perseguidor, nem a menor cumplicidade com ele.

Em sentido contrário, é lícito fugir da ocasião de martírio? Sim, dizem os teólogos, e também disso nos deu exemplo Nosso Senhor Jesus Cristo fugindo dos fariseus, quando queriam apedrejá-Lo. Em certas circunstâncias, uma fuga dessas não pode, de nenhum modo, ser assimilada a uma negação da Fé; é mais bem uma confissão virtual, pois que é a aceitação de grandes males, como o exílio, por apego à Fé. Entretanto, os Bispos e aqueles que têm o encargo de almas não podem fugir, se sua fuga importa no risco de provocar a dispersão do rebanho.

Não se pode também provocar os perseguidores. Por isso é que quebrar ídolos foi condenado pelo Concílio de Elvira (ano 306). A provocação é lícita, caso pareça que ela venha de uma inspiração do Espírito Santo, ou se as circunstâncias mostrarem que o servidor de Deus devia agir desse modo pelo bem da fé e da Religião, ou por mandado da autoridade pública.

Exemplo de um grande Santo

Sobre o desejar o martírio e mesmo procurá-lo, convém lembrar o  magnífico exemplo de Santo Inácio de Antioquia, no século II, discípulo de São João Evangelista. Estando preso em Roma para ser executado, soube que cristãos eminentes tentavam libertá-lo e estavam rezando nessa intenção. Escreveu-lhes então no sentido de que desistissem de tal intento, estas belas palavras: “Peço-lhes que não dispensem uma bondade inoportuna em meu favor. Deixem que eu seja devorado pelas feras, através das quais chegarei à presença de Deus. Eu sou o trigo de Deus e é preciso que eu seja triturado pelos dentes dos animais selvagens para tornar-me puro pão de Cristo” (2). O que realmente se realizou.

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Não poderíamos terminar este artigo sem externar uma lamentação: o Coliseu, local do martírio de tantos cristãos, verdadeira relíquia da Cristandade, foi recentemente restaurado e reaberto… para espetáculos! Esse imponente monumento romano, erigido pelo Imperador Tito por volta do ano 80 dC., assistirá agora a outra sorte de espetáculos; não mais os proporcionados pelos milhares de homens, mulheres e crianças que enfrentaram as feras, derramando seu sangue por Cristo, mas por artistas de teatro encenando peças mundanas… (3)
Notas:

1 – Kenneth L. Woodward, A Fábrica de Santos, Editora Siciliano, 1992, p. 53.

2 – Kenneth L. Woodward, op. cit., p. 53.

3 – Cfr. “Folha de S. Paulo”,  20-7-00.”

Cf. site Lepanto.
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VIGÍLIA PAPAL CONTRA O ABORTO!

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O Santo Padre presidirá dia 27 de novembro uma Vigília pelos Nascituros e contra o Aborto. A Vigília será iniciada com as I Vésperas do Advento, na Basílica de S. Pedro. O Papa conclama a todos os bispos do mundo a se unirem em oração ao Sucessor de Pedro, com seus diocesanos.

Veja mais noticia:
“O Papa Bento XVI presidirá uma vigília na Basílica de São Pedro, em 27 de novembro, pela vida dos bebês ainda não nascidos. Sua Santidade, através dos núncios apostólicos, estendeu a todo o episcopado do mundo o convite a se associar à iniciativa, segundo a Rádio Vaticano, “a fim de estabelecer uma união espiritual com o Santo Padre e promover o compromisso e o testemunho eclesial por uma cultura da vida e do amor”.
Em época de pacto de silêncio sobre questões espinhosas por ocasião das eleições, não surpreende notar que o convite papal é simplesmente ignorado em terras brasileiras.”
(Cf. fratres in unum).

Em nossa Paróquia, atendendo ao apelo do Santo Padre e do nosso Bispo, nos uniremos em vigília a partir do meio dia, tendo o encerramento com as I Vésperas. Assim estaremos em comunhão com o Sucessor de Pedro em tempo real.

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