Entrevista com o ex-diretor do coral da Capela Sistina

ROMA, terça-feira, 21 de dezembro de 2010 (ZENIT.org) - Entre os novos cardeais que foram criados durante o consistório no último dia 20 de novembro, está Domenico Bartolucci, que foi diretor do Coral Capela Musical Pontifícia "Sistina".
Apesar de ter superado a idade de cardeais eleitores, com 93 anos, Bento XVI o acrescentou ao Colégio Cardinalício pela "generosidade e  dedicação no serviço", como afirmou ao anunciar o consistório. Suas obras foram publicadas em vários volumes. 
ZENIT: Como o senhor recebe esta nomeação?
Cardeal Domenico Bartolucci: Não esperava. É um sinal de amor do Papa pela música sacra, uma clara reivindicação evidente, especialmente neste momento de crise. Antes, a música era a alma da liturgia. Inclusive nas cidades pequenas - eu sou toscano, de uma cidadezinha chamada Borgo San Lorenzo -, todos cantavam nas praças, nas igrejas, nas procissões e escutando bandas musicais. Hoje, há jovens muito talentosos, mas a formação musical geralmente é inadequada. Não sei quem é o culpado, mas atualmente prevalece o estádio e as discotecas e tudo está reduzido ao mercado.
ZENIT: Como o senhor descobriu sua vocação à música?
Cardeal Domenico Bartolucci: Desde pequeno cresci junto a meu pai, que era um cantor de Igreja apaixonado. No seminário, a música era muito importante, ainda que, no meu caso, meus superiores me proibiam, por temer que isso me distraísse do estudo de grego e latim. Depois fui para Roma e fiquei encantado com a vitalidade das capelas musicais das basílicas. Fui nomeado vice-maestro de São João de Latrão e depois maestro da Capela Musical Liberiana de Santa Maria a Maior, como sucessor de Licinio Refice; em 1955, vice-maestro da Sistina, com Perosi. Estive com ele quatro anos e, quando ele faleceu, Pio XII me nomeou Diretor Perpétuo da Capela Musical Sistina. Apesar disso, quando cumpri 80 anos, substituíram-me do cargo.

ZENIT: Como foi este período como diretor da Capela Sistina?
Cardeal Domenico Bartolucci: A Sistina teve uma grande vitalidade até o Concílio. Lembro-me das belíssimas execuções com o Papa Pacelli e com o Papa João XXIII. Depois da reforma litúrgica, nossa contribuição nas liturgias papais foi redimensionada. Salvamo-nos com os concertos em todo o mundo, onde se pôde manter o patrimônio da Capela: viajamos à Áustria, Alemanha, Irlanda, França, Austrália, Canadá, Estados Unidos, Turquia, Polônia e Japão.
ZENIT: Como era o interesse de Pio XII pela música sacra?
Cardeal Domenico Bartolucci: O Papa Pacelli amava a música sacra e muitas vezes, para descansar, tocava violino. Com ele, as execuções eram justamente na Capela Sistina. Era uma figura extraordinária, de grande cultura e humanidade.
ZENIT: E na época de João XXIII? 
Cardeal Domenico Bartolucci: a Capela Sistina deve muito a João XXIII. Sob seu pontificado, foi aprovado por seu próprio interesse meu projeto de reforma. Com Perosi (seu predecessor na direção do coral da Capela Sistina) as coisas, lamentavelmente, também por causa de sua doença, eram degradantes. A Capela não tinha, por exemplo, uma estrutura fixa de cantores, uma sede ou um arquivo. Graças ao Papa João XXIII, reconstruímos tudo quase do zero e pudemos criar a Schola puerorum exclusiva para crianças. Com as crianças, no Natal, cantávamos no apartamento do Papa, diante do presépio. Era comovente.
 ZENIT: O senhor acredita que a música sacra poderá voltar ao que era antes?
Cardeal Domenico Bartolucci: Será preciso tempo. Já não existem os maestros de outras épocas porque já não se vê a necessidade de que existam. Esperemos. Bento XVI ama muito o canto gregoriano e a polifonia e quer recuperar o uso do latim. Entende que, sem o latim, o repertório do passado está destinado a ser arquivado. É necessário voltar a uma liturgia que dê espaço à música, ao gosto pelo belo e também à verdadeira arte sagrada.
ZENIT: Quais são seus autores preferidos, suas fontes de inspiração?
Cardeal Domenico Bartolucci: Para a música sacra, os grandes patriarcas são Palestrina e Bach. Palestrina foi o primeiro a intuir o que era o ajuste perfeito da polifonia ao texto sacro. Não foi por acaso que o Concílio de Trento se referiu a ele para estabelecer os cânones da música sacra. Bach também é grande, mas reflete mais o espírito dos nórdicos. Em todo caso, ambos mostram que a música se faz com os grandes cantos da Igreja. O Ocidente tem uma história musical riquíssima, compartilhada por muitas culturas orientais. Hoje existe a necessidade de recuperá-la.

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