Fundador da Agência Zenit é despedido pelos Legionários de Cristo



Salve Maria.

É de se esperar que, em mãos dos homens errados, a Agência Zenit transmita, eventualmente, notícias favoráveis aos modernistas… Segue notícia – divulgada por outra agência similar, a ACI – da demissão do fundador da Zenit, o qual, em entrevista, revela a briga (nos bastidores) dos Legionários de Cristo pelo controle total da Agência, com o óbvio intuito de manipular informações.


In Christo et Maria,


Marcel.



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ROMA, 29 Set. 11 / 01:24 pm (ACI/EWTN Noticias) Jesus Colina, fundador e diretor da agência católica de informação Zenit, comunicou sua renúncia a pedido do Conselho diretor da agência diante da decisão dos Legionários de Cristo de dar uma identidade mais institucional a este projeto editorial.A agência Zenit, criada há 14 anos como uma agência independente que busca informar sobre “o mundo visto desde Roma”, converteu-se em um ponto de referência na Internet, com edições cotidianas em 7 idiomas.Colina foi nomeado pelo Papa Bento XVI como consultor do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, e recebeu o prêmio da Fundação Path to Peace da Santa Sé nas Nações Unidas.


Em uma entrevista exclusiva concedida à agência ACI Prensa (do grupo ACI), em Roma, Colina explicou os detalhes desta situação. A seguir publicamos o diálogo com o jornalista.

ACI Prensa: Quais são os motivos de sua renúncia?

Jesus Colina: O atual presidente do Conselho da Zenit, o sacerdote Legionário de Cristo Óscar Náder, pediu-me este passo por considerar que minha pessoa, ligada a várias iniciativas católicas de comunicação, não oferece uma idéia clara da identidade institucional da agência Zenit que a partir de agora a congregação dos Legionários de Cristo quer comunicar.

ACI Prensa: Como você explica esta decisão?

Jesus Colina: Bom, na realidade acredito que esta decisão constitui o final de um caminho de perda de confiança mútuo começado já há alguns anos. A maneira em que a Legião de Cristo ocultou as informações sobre o padre Marcial Maciel, descobertas a conta-gotas pela imprensa, faz que rache a confiança nesta instituição por parte de um diretor de agência de notícias.Eu compreendo a dificuldade da situação em que se encontraram os superiores dos Legionários de Cristo. Agora em declarações públicas eles informaram que tinham provas das diferentes vidas do padre Maciel já anos antes de seu falecimento.Entretanto, apesar do comunicado emitido pela Santa Sé em 2006, inclusive em sua morte e depois de dela, eles seguiram apresentando-o como um exemplo de vida.Os superiores me convidaram à missa celebrada na capela do Centro de Estudos Superiores dos Legionários de Cristo, trinta dias depois do seu falecimento. Na homilia diante de centenas de religiosos o padre Maciel foi apresentado como um exemplo de vida a ser seguido. Isto é particularmente grave, pois uma coisa é evitar o escândalo ao informar sobre os crimes ou sobre a dupla vida (embora houvesse que dizer tripla ou quádrupla) do padre Maciel, e outra muito diferente é seguir mantendo esse mito de santidade que a congregação tinha promovido durante a vida dele.Além disso, dado que passaram anos desde o comunicado vaticano no qual se pedia ao padre Maciel que se retirasse e o reconhecimento público de suas mentiras e delitos, difundiu-se entre os religiosos e pessoas próximas aos legionários a impressão de que o Papa o havia castigado injustamente.Isto para mim é muito grave sobre tudo se tivermos em conta tudo o que fez este Papa pela congregação.

ACI Prensa: Mas, posto que em realidade foram os Legionários que pediram sua renúncia tudo leva a entender que eles também perderam a confiança em você.

Jesus Colina: Sim, indubitavelmente, a confiança é um sentimento que tem uma dupla direção, não pode ser unidirecional. Nos dois últimos anos, tudo o que viveu a congregação gerou tensões.Há dois anos a redação da Zenit pediu ao Conselho uma administração totalmente separada e transparente como garantia de independência ante qualquer acusação. A Zenit é uma agência que vive de donativos de seus leitores e deve ser capaz de explicar por quais mãos passa cada dólar.Apesar de que o Conselho tenha prometido um sistema assim, na prática isto não foi feito. Eu estou convencido moralmente de que o dinheiro que nos chegou dos leitores sempre ingressou totalmente à Zenit.Entretanto, formal e administrativamente não posso demonstrá-lo. Como se pode compreender, minhas contínuas queixas diante desta situação levaram a que os superiores dos Legionários também percam a confiança em mim. Esta confiança quebrou-se totalmente quando, para solucionar estas questões e oferecer um futuro editorial e uma maior representatividade eclesiástica, propus a entrada de outras realidades católicas no Conselho da Zenit. Esta proposta não só não foi escutada, mas além disto, precedeu minha demissão também .

ACI Prensa: Você conheceu bem o padre Maciel, inclusive publicou um livro-entrevista. Você sabia algo de sua vida privada?

Jesus Colina: Como a imensa maioria das pessoas que o conheceram, incluindo João Paulo II, nunca teria podido imaginar que ele fosse culpado dos delitos que agora puderam ser comprovados. Nos encontros que mantive com ele, sempre acreditei que me encontrava diante de um autêntico sacerdote. Este é o “enigma” do padre Maciel do que fala Bento XVI em seu livro. Não tive nunca dúvida sobre ele até que o Vaticano publicou o comunicado em que o convidava a retirar-se a uma vida de oração e penitência.O repasso de sua biografia e o crescimento impressionante das obras que fundou, levavam-me a acreditar que na origem deveria haver uma autenticidade cristã. Havia alguns detalhes que em ocasiões podiam surpreender-me, como por exemplo, um certo gosto pela aparência, mas eu o atribuía à sua origem cultural. Como tantas outras pessoas eu também vivi o choque de descobrir a mentira em uma pessoa que havia sido apresentada como modelo de vida.

ACI Prensa: Há 20 anos que você trabalha como correspondente em Roma e 14 desde que começou Zenit, que balanço você faz?

Jesus Colina: O caso Maciel e suas compreensíveis trágicas conseqüências não apaga a aventura humana, espiritual e profissional que vivem aqueles que têm a sorte de dedicar suas vidas a cobrir informativamente a vida do Papa e da Santa Sé.Como jornalista você vê as debilidades humanas, mas também vê muita santidade, uma imensa obra de caridade ao serviço dos mais necessitados. Pude conhecer João Paulo II e agora Bento XVI: dois personagens de uma talha espiritual e intelectual surpreendente.Toda esta profundidade e santidade não pode ficar ofuscada pelas mentiras do padre Maciel. Sinceramente conheço muitos sacerdotes e seminaristas Legionários de Cristo e considero que são autênticos cristãos, mártires em certo sentido da realidade que estão confrontando com tanto amor a Cristo e à Igreja.

Decálogo para colocar paus nas rodas do Papa Bento XVI‏

Caríssimos,

Salve Maria!
Um bom texto da Raffaela do PapaRatzinger Blog. Nele, ironicamente, a autora desmascara a astúcia das mídias mentem , enganam e dissimulam contra o papa e a Igreja.
Como dizia Voltaire: ” Minta, minta que alguma coisa fica!” Boa leitura. ( O google traduz)
Pe. Marcélo Tenorio







¿Eres un periodista? ¿Un experto? ¿Un blogger? ¿Un comentador o un editorialista? ¿Quieres debilitar, limitar o anular el efecto de toda visita pastoral, viaje apostólico, discurso, homilía o intervención del Papa Benedicto XVI? Estás en el lugar correcto.

He aquí las reglas de oro para hacer una tarea brillante. Sin embargo, presta atención: alguno podría acusarte de describir una realidad que no existe, pero esa es otra historia…



He aquí el decálogo, formado por diez hipótesis que prevén varias soluciones alternativas o complementarias entre sí. El blog se ha inspirado en el Catholic Herald, al que agradecemos por la excelente idea.


Sin embargo, si eres un periodista, un editorialista, un comentador o un blogger que ama la verdad y tiene afecto por el Papa, puedes leer esto y continuar haciendo exactamente lo contrario mientras te ríes un buen rato.


Decálogo del blog para poner palos en las ruedas al Papa Benedicto XVI


1) Prepara anticipada y escrupulosamente cada visita o viaje apostólico de Benedicto XVI:


a) construye una bella polémica sobre los costos del viaje;

b) identifica cuidadosamente las posibles temáticas (sacerdotes pedófilos, disminución de los fieles, desobediencia de los obispos, eventuales contrastes con protestantes, judíos, musulmanes);
c) actúa de tal modo que el viaje sea precedido por una escala de polémicas. Eventualmente, y en el último minuto, finge estar consternado por el comportamiento de los medios;

d) presenta el viaje como “el más difícil del Pontificado”;

e) da la máxima resonancia a las manifestaciones de protesta que se están organizando. Dispara las cifras que te ofrecen los organizadores e insinúa que los manifestantes serán más que los fieles;
f) avisa a tus lectores que las Misas y las Vigilias presididas por el Papa Benedicto estarán ciertamente desiertas;

g) pon en evidencia el hecho de que el Papa Benedicto no conoce la realidad de los diversos países que visita porque vive encerrado en el Vaticano (acariciando gatos, escribiendo libros y tocando el piano);
h) entrevista siempre a Hans Küng, una verdadera garantía;

i) pregunta siempre al Padre Lombardi si durante el viaje el Papa se encontrará con víctimas de sacerdotes pedófilos;

j) el día de la partida escribe un artículo absolutamente negativo sobre el viaje en el que precises que nadie está esperando al Papa, el cual será acogido con hielo siberiano;

k) si por casualidad el Papa visita Alemania, no olvides citar la famosa frase “Nemo propheta in patria”.


2) Cuando adviertes, durante el viaje, que la realidad es muy diferente de aquella que has descrito o estás describiendo:


a) no te desanimes;

b) si eres un periodista televisivo, entrevista siempre a quien te dice que prefería a Juan Pablo II o a quien está allí por curiosidad y no para ver a Benedicto XVI. Entrevista preferiblemente a sacerdotes o seminaristas;
c) muestra las imágenes de los manifestantes incluso si son cuatro gatos. En particular: ocupa la mitad de los pocos segundos que te concede el telediario para hablar de las manifestaciones y no de lo que hace o dice el Papa;
d) si eres un periodista de la prensa escrita, trata de no evidenciar que en las manifestaciones antipapa había sólo cuatro gatos y entrevista al portavoz de los manifestantes, el cual inflará las cifras según se le ocurra;
e) nunca hagas notar a los lectores que a las manifestaciones no han llegado las multitudes esperadas;

f) no pongas en evidencia, por el contrario, los números de los fieles que acuden a escuchar al Papa Benedicto;

g) recuerda que cada manifestante debe ser contado por dos y que cada fiel vale la mitad;

h) si durante la visita ocurre un episodio de ninguna importancia (falso atentado, falsas amenazas…), pon en evidencia eso y no la actividad del Papa;
i) si el Papa dice “defendamos la familia”, tú escribe: “Anatema del Papa contra las parejas de hecho”;

j) trata de simplificar al máximo y, si es posible, haz decir al Papa lo que no ha dicho y/o lo que crees haber escuchado sólo tú;
k) si el Papa se encuentra con víctimas de sacerdotes pedófilos tienes dos alternativas: o conviertes el encuentro en la única razón del viaje, o bien (es la tendencia predominante del 2011) ignoras el evento y sigues;
l) no olvides, sin embargo, avisar a tus lectores que el Papa no ha hablado explícitamente de sacerdotes pedófilos;

m) sin embargo, si el Papa habla de ello, finge no haberlo oído;

n) entrevista siempre a Hans Küng;

ñ) si el Papa te sorprende, no le des mucha satisfacción. Siempre puedes decir que este Pontífice tiene un lenguaje complejo que no llega al “hombre común”;
o) si tienes a tu disposición dos cifras sobre las presencias, indica siempre la que sea más baja;

p) pon en evidencia, al límite, que habían sí muchos fieles pero que probablemente estaban allí por curiosidad o porque pasaban allí casualmente;
q) no escribas nunca que extrañamente los fieles se mueven por la curiosidad sólo cuando está de por medio el Papa Benedicto;
r) si puedes, ignora totalmente el resto del viaje.


3) Cuando el viaje ha concluido y adviertes que has cometido, como siempre, una cantidad exagerada de errores:


a) trata de olvidar lo más pronto posible el viaje o la visita en Italia y no hables más del tema;

b) entrevista a Hans Küng para que ilumine a los lectores con su palabra.


4) Recuerda siempre que el tema “pedofilia en la Iglesia” es el argumento más popular de los últimos años:


a) aprovecha cada oportunidad que se presente;

b) quédate tranquilo: por lo general la Santa Sede no interviene en defensa del Papa, sobre todo en lo relativo a este argumento. Sigue adelante, seguro de la impunidad;

c) cuando se difunde la noticia de nuevas acusaciones al Papa (por ejemplo, una denuncia a La Haya), finge no saber que Ratzinger es el hombre que más ha hecho en las últimas décadas para combatir la plaga de los sacerdotes pedófilos;
d) no cites nunca las medidas y el ejemplo del Papa Ratzinger;

e) compórtate como si fuese la primera vez que el Papa es acusado de algo;
f) golpea al Papa en primera plana, preferiblemente con una foto de espaldas;
g) mencionada, de pasada, el caso del padre H, aunque haya sido abundantemente explicado;

h) cita también al hermano del Papa, aunque no tenga nada que ver con los cados de pedofilia verificados dentro del coro de Ratisbona;
i) es fundamental que no subrayes nunca que los casos de pedofilia de los que se trata han tenido lugar décadas atrás;

j) actúa de tal modo que el lector piense que el escándalo pedofilia ha nacido bajo el Pontificado ratzingeriano;

k) no cites nunca otros Pontificados;

l) no puntualices nunca que Ratzinger es el único Papa que se ha encontrado seis veces con víctimas de pedófilos;

m) entrevista a Hans Küng para que diga lo suyo;

n) cuando las cosas se ponen difíciles para la Iglesia, descarga toda la responsabilidad sobre Ratzinger, pero si adviertes que el viento cambia, escribe que los méritos no son sólo de Benedicto XVI;
ñ) nunca y por ninguna razón deberás escribir o pronunciar el nombre de Maciel;
o) continúa insistiendo con la apertura de los archivos fingiendo ignorar el bien hecho en estos últimos años;

p) entrevista al portavoz de las asociaciones de víctimas que más atacan al Vaticano;

q) hazte megáfono de los abogados de las víctimas y no concedas nunca a la otra parte el beneficio de la duda;

r) cuando el Vaticano calle (es decir, siempre) pero autorizados comentadores y editorialistas hagan notar que es absurdo culpar a Ratzinger, el Papa que más ha hecho contra los pedófilos, haz inmediatamente marcha atrás y no hables más de denuncias a la Haya;
s) insinúa que Benedicto XVI podría hacer mucho más, o bien que es demasiado duro y poco misericordioso hacia los culpables. En resumen: ¡actúa de tal modo que siempre tenga la culpa!
t) omite recordar que es desde 1988 que Ratzinger pide mayor severidad en el castigo a los culpables;

u) finge siempre ignorar que la Congregación para la Doctrina de la Fe es competente para los casos de pedofilia en el clero sólo desde el año 2001;
v) recuerda que, en relación a este tema, hay nombres que pueden ser dados y otros que, aún en vida y en salud, nunca deben ser involucrados.


5) Cuando el Papa pronuncia un importante discurso:


a) regla de oro: ¡ignóralo!

b) finge que no ha hablado, salvo para lamentarte por el hecho de que el Papa no se ha expresado sobre un determinado tema;
c) distorsiona el pensamiento del Papa cuando dice algo que no te gusta a ti o a tu editor;

d) intenta forzar algunos conceptos si las frases del Papa pueden ser interpretadas en favor de tu parte política o de la tu editor;
e) el “sí” a la vida debe convertirse en el “no a la píldora del día después”, el “sí” a la familia debe convertirse el “no a las parejas de hecho y en particular a las homosexuales”;

f) si el Papa “reprende” a los obispos de cierto país, defiende siempre a los prelados en nombre de la colegialidad;

g) cita siempre al Concilio e insinúa que el Papa quiere anular todos los documentos conciliares;

h) entrevista a Hans Küng para que recuerde una vez más haber sido perito conciliar;

i) recuerda siempre poner en evidencia que Benedicto XVI no hace y no dice nada que no haya ya hecho o dicho su predecesor;
j) si el Papa dice algo que va contra tu fe política o la de tu editor, corre a la plaza publica y grita: “¡Injerencia!”;

k) sin embargo, si el Papa llegara decir algo contra el partido que no te gusta a ti o a tu editor, reclama la advertencia papal, el anatema y la eventual excomunión. Haz presente que el Santo Padre y la Iglesia no pueden callar. Canta los “Hosanna” cuando Benedicto XVI se exprese como te gusta a ti y a tu editor;
l) remarca que Benedicto XVI no es un Papa político pero, si habla de ética, haz entender que comete una grave injerencia en los asuntos públicos de otro país;
m) al respecto, cita el otto per mille (ocho por mil) omitiendo, sin embargo, que va a la CEI y no al Vaticano.


6) Cuando se habla en televisión de Benedicto XVI:


a) pon en evidencia siempre que es distinto de su predecesor;

b) insinúa que tiene menos carisma o que, de hecho, no lo tiene;
c) entrevista a personas que declaren preferir a otros Papas;

d) si se está hablando del Papa Benedicto, actúa de tal modo que el discurso caiga sobre otros;

e) invita a sacerdotes, obispos y cardenales habilísimos en no hablar del Papa Benedicto;

f) si estás obligado a hacer un programa sobre Ratzinger, transmítelo a la mañana temprano o muy tarde por la noche;

g) introduce las directas con el Papa sólo cuando es necesario;
h) en lo posible graba los eventos y envíalos al aire más tarde por la noche (JMJ de Madrid docet);

i) finge maravillarte si el Papa hace algo inesperado;

j) recuerda a los telespectadores que cuando fue elegido te parecía frío por ser alemán;

k) remarca que es un profesor como si fuese un título de demérito;
n) trata de hacer que por la misma red, en la misma semana (mejor si es en el mismo día), el Papa Benedicto sea ridiculizado mientras su predecesor es recordado con afecto;

ñ) ¿acaso quieres dejar de entrevistar a Hans Küng?


7) Si salen a la luz hechos ocurridos antes del 19 de abril de 2005:


a) haz de tal modo que sea cuestionado el Papa Ratzinger;

b) recoge llamamientos para que el Papa intervenga en primera persona abriendo archivos o haciendo él mismo llamamientos también sobre hechos de los que él no puede tener conocimiento;
c) entrevista a Hans Küng.


8) Cuando se habla de la relación entre Benedicto XVI y las otras religiones o las otras confesiones cristianas:


a) ponte siempre, y en cualquier circunstancia, de parte de los protestantes;
b) cuando se trata de los amigos judíos, no dejes nunca de citar el hecho de que el Papa es alemán, que ha levantado la excomunión a los obispos lefebvristas, en particular a Williamson, que ha firmado el Summorum Pontificum;
c) evita como a la peste el recordar que la oración del Viernes Santo nunca ha sido modificada ni por Pablo VI ni por Juan Pablo II y que Benedicto XVI la ha cambiado para ir al encuentro de los judíos;
d) acepta sin reservas la tesis del silencio de Pío XII y recuerda que Benedicto XVI ha declarado venerable al Papa Pacelli, pero omite señalar que el proceso de beatificación ha sido abierto en 1967;
e) cuando se trata de los amigos musulmanes, cita siempre el discurso de Ratisbona como piedra de tropiezo;

f) haz siempre referencia a la lectio de Ratisbona llamándola, a elección, “gaffe”, “metedura de pata”, “incidente”;

g) por ninguna razón en el mundo deberás citar los progresos en el diálogo entre católicos y musulmanes nacidos después del discurso de Ratisbona;
h) no debes nombrar nunca a los hermanos ortodoxos;

i) si los citas, no recuerdes nunca el reacercamiento entre católicos y ortodoxos atribuyendo el mérito al Papa Benedicto;

j) entrevista a Hans Küng.


9) Si hay un aniversario particular relacionado con el Papa Benedicto:


a) regla de platino: ¡ignóralo!

b) actúa exactamente como has hecho el 29 de junio de 2011 (60° aniversario de ordenación): finge que es un día cualquiera para la Iglesia;
c) presta atención: comienza ya a pensar en el 16 de abril de 2012, día en que Benedicto XVI cumplirá 85 años;

d) por ninguna razón aquella fecha deberá convertirse en ocasión para celebrar al Papa o para constatar su frescura mental o su resistencia física;
e) prepárate desde ahora al evento insistiendo en la posibilidad de la renuncia;
f) al respecto, no dejes de escuchar la opinión de Hans Küng.


10) En lo que respecta a las multitudes que asisten a los eventos presididos por Benedicto XVI:


a) regla de diamante: ¡ignóralas!

b) finge no ver a los fieles que participan en el Angelus y en las audiencias generales;

c) si se presenta un fiel menos de los previstos, haz el titular y cuenta con el ábaco;

d) sin embargo, si las asistencias superan las expectativas, mira para otro lado y no hables más de eso;

e) insinúa que los fieles acuden por la novedad pero omite recordar que Benedicto es Papa desde hace seis años y medio;

f) para reforzar la tesis, concede el debido espacio a Hans Küng.


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Pe. PIO E O “AGGIORNAMENTO”



Vale a pena ler um trecho de um artigo do Fr. João, capuchinho de Morgon, na França, publicado na “Carta aos amigos de S. Francisco”, em 1999.

Salve Maria!

Pe. Marcelo Tenório


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“Modelo de respeito e de submissão a seus superiores eclesiásticos e religiosos, em particular por ocasião das perseguições contra ele próprio, o Padre Pio de Pietrelcina não podia ficar mudo ante um desafio nefasto à Igreja.
Antes mesmo do fim do concílio, em fevereiro de 1965, anunciaram-lhe que seria preciso em breve celebrar a missa segundo um novo rito “ad experimentum”, em língua vulgar, e elaborado por uma comissão litúrgica conciliar para responder às aspirações do homem moderno.
Antes mesmo de ter o seu texto sob os olhos, escreveu imediatamente a Paulo VI, pedindo-lhe fosse dispensado dessa experiência litúrgica e pudesse continuar a celebrar a Missa de São Pio V.
Tendo-se o cardeal Bacci deslocado para lhe levar esta autorização, Padre Pio deixou escapar esta queixa para o enviado do Papa: “O Concilio, por piedade, acabai com ele depressa!”
No mesmo ano, na euforia conciliar que prometia uma “nova primavera” para a Igreja e para o mundo, confiava a um de seus filhos espirituais: “Rezemos nesta época de trevas. Façamos penitência pelos eleitos.” E sobretudo por aquele que deve ser o supremo pastor da Igreja católica: toda a sua vida ele “se imolará” pelo Papa reinante, cuja fotografia figurará sempre entre as raras imagens da sua cela.
Quão significativas outras cenas: estas reações em face do “aggiornamento” que as ordens religiosas assimilaram no dia seguinte ao Vaticano II (citações extraídas duma obra munida de Imprimatur):
“O Padre Geral (dos franciscanos) veio de Roma antes do capítulo especial para as constituições, em 1966, para pedir ao Padre Pio orações e bênçãos. Encontrou o Padre Pio no corredor do convento: ‘Padre, vim para vos recomendar o capítulo especial para as novas constituições…’ Apenas ouviu “capítulo especial”, Padre Pio fez um gesto violento e gritou: ‘Não são senão parlapatices e ruínas!’ — ‘Mas que quereis, Padre? As novas gerações… os jovens evoluem à sua maneira… há novas exigências…’ — ‘É o cérebro e o coração que faltam, eis tudo, a inteligência e o amor.Em seguida avançou para a sua cela, deu meia-volta, e apontou o dedo dizendo: “Não nos desnaturemos, não nos desnaturemos! Quando Deus nos julgar, São Francisco não nos reconhecerá como filhos!”
Um ano depois, a mesma cena para o “aggiornamento” dos capuchinhos: “Um dia, confrades discutiam com o Padre Definidor Geral sobre a Ordem, quando o Padre Pio, tomando uma atitude espantosa, se pôs a gritar ao mesmo tempo que fixava o olhar longe: “Mas que estais prestes a fazer em Roma? Que combinais vós? Quereis mesmo mudar a Regra de São Francisco!” E o Definidor diz: “Padre, propõem-se estas mudanças, porque os jovens nada querem saber da tonsura, do hábito, dos pés descalços…” — “Expulsai-os! Expulsai-os! Mas quê? São eles que vão fazer um favor a São Francisco ao tomar o hábito e ao seguir o seu modo de vida, ou é antes São Francisco que lhes faz um grande dom?”
Se se considera que o Padre Pio foi um verdadeiro alter Christus, que toda a sua pessoa, corpo e alma, foi tão perfeitamente conforme quanto possível à de Jesus Cristo, esta recusa nítida das inovações da Missa e do “aggiornamento” deve ser para nós uma lição que reter.
É também notável que o Bom Deus tenha querido lembrar-se dele, seu fiel servidor, pouco tempo antes da imposição implacável das reformas do Concílio no seio da Igreja e da ordem capuchinha. E que Katarina Tangari, uma das suas filhas espirituais mais privilegiadas, tenha apoiado tão admiravelmente os padres de Ecône (seminário fundado por D. Marcel Lefebvre) até à sua morte, um ano após as sagrações episcopais.
E Padre Pio ainda era menos complacente em face da ordem — ou antes da desordem — social e política: “confusão de idéias e reino dos ladrões” (em 1966). Profetizou que os comunistas chegariam ao poder “por surpresa, sem desfechar golpe… Nós nos daremos conta disso da noite para o dia”. Chegou a precisar até, a Monsenhor Piccinelli, que a bandeira vermelha flutuaria sobre o Vaticano, “mas isso passará”.
Ainda aqui a sua conclusão coincide com a da Rainha dos Profetas: “Mas por fim o meu Coração Imaculado triunfará!” Como? Pela onipotência divina, certamente, mas provocada pelas duas grandes forças do homem: a oração e a penitência.
Foi a grande lição que Nossa Senhora nos quis lembrar com insistência, em Fátima, no princípio deste século: Deus quer salvar o mundo pela devoção ao Coração Imaculado de Maria, e não há nenhum problema, material ou espiritual, nacional ou internacional, que não possa ser resolvido pelo Santo Rosário e pelos sacrifícios.”


Inquisição: a lenda permanece. Parte II: A Igreja frente às heresias



Por Ronaldo Mota


A Igreja frente às heresias
“La découverte des hérétiques, souvent fortuite, jette le désaroi chez les fidèles, clercs et laïcs. Les premiers instruisent, persuadent ou condamnent. Les autres, troublés dans leur quiétude religieuse, réagissent avec viguer.” (H. Maisonneuve. op. cit. p. 22).
H. Maisonneuve, ao analisar a repressão da heresia, define bem quais foram as diferentes maneiras de reação de cada um dos setores dessa sociedade. Tanto o povo quantos as autoridades laicas reagiram com vigor. Aliás, como sabemos, esse vigor exigia muitas vezes a pena de morte. A Igreja também reagia, porém, procurava antes instruir, persuadir e só depois, caso isso não surtisse efeito, aplicar penas espirituais, como a excomunhão, por exemplo. As penas materiais, aplicadas pelo Estado, apenas foram exigidas pela Igreja quando o perigo das heresias chegar a um nível intolerável. E mesmo assim, ao contrário da Justiça civil, se fará grande insistência na necessidade de misericórdia para com os arrependidos.
“Cerca de cinqüenta anos antes da Cruzada contra os albigenses, usaram-se meios pacíficos para impedir a expansão da heresia. O historiador da Cruzada contra os albigenses, Belperron, denomina este período de “Cruzada Espiritual.” (N. Falbel op. cit. p. 47).
Nachman, ao falar sobre a “Cruzada Espiritual”, refere-se à primeira atitude da Igreja diante das heresias, situando seu início cinqüenta anos antes da Cruzada contra os albigenses (1209-1229). Entretanto, o movimento de evangelização dos albigenses revoltosos inicia-se muito antes, e não termina de forma alguma após a cruzada. Pois, como a Igreja visa sempre à conversão, a ação missionária permanece constante, tanto antes como durante a atuação do Tribunal do Santo Ofício.
Em 1119, no Concílio de Toulouse, a heresia cátara foi pela primeira vez notada e condenada oficialmente. Inocêncio II, que pontificou de 1130 a 1143, designa seu legado no Midi, o monge Henri Albéric, de Cluny, para combater a heresia[1]. Albéric, diante do grande problema que a heresia começava a criar naquela região, pede ajuda ao Bispo de Chartres, Geoffroy, e de São Bernardo. Eugênio III (1145-115), logo após tornar-se Papa, envia São Bernardo ao Longuedoc.
“Ao chegar a Toulouse, onde Henrique Lausanne convertera à heresia nobres, burgueses e, em particular, tecelões, São Bernardo consegue reavivar, com sua pregação, a fé católica, mas mesmo assim a heresia não foi extirpada.” (N. Falbel. op. cit. p. 56).
Os trinta anos seguintes a 1140 foi o período de mais rápido crescimento da heresia cátara, pois nessa época a igreja bogomil foi reformada, criando episcopados e enviando missões.[2] Em 1163, realiza-se um concílio em Tours, presidido pelo Papa Alexandre III, onde se buscou algum mecanismo social para impedir o crescimento dessa perniciosa heresia: “Les évêques et les prêtres dénonceront l’existence des « conventicules » ou réunions secrètes. Ils défrendront aux catholiques d’y assiter. Ils leur interdiront, sous menace d’excommunication, d’entretenir des relations avec les héretiques, afin que la solitude sociale de ces herétiques : solatio saltem humanitatis,les invite à se convertir.” (H. Maisonneuve. op. cit. p. 29).
Não encontramos, portanto, a figura lendária de um clero sanguinário, mas de um Papa que, ao mesmo tempo em que protege os cristãos dos perigos da heresia, quer converter os hereges. Todavia, nesse mesmo ano a instâncias do rei da França Luís VII, o qual se alarmava com o catarismo “estendendo-se como um cancro pelas províncias de França”, foi realizado um concílio em Lyon, no qual o Papa Alexandre III, para auxiliar o rei, ordenou que os senhores punissem os hereges com prisões e confiscação de bens.[3]
Entretanto, os cátaros não se abateram, mas muito pelo contrario, responderam desafiadoramente com o grande conventículo, em 1167, no qual Niketas, bispo cátaro, “sagra” diversos outros cátaros e assinala a cada um seu território de atuação. O movimento cátaro continua a crescer. Em 1177 o Conde de Toulouse, Raimundo V, pede auxílio ao Papa, solicitando uma missão cisterciense para a evangelização dos albigenses. A missão lhe é enviada e a heresia foi ainda condenada em 1178, no Concílio de Lambers. Entretanto, ela continua a expandir-se.
Por fim, em 1179, ocorre o Terceiro Concílio de Latrão. Nesse Concílio, o Papa Alexandre III lembra que a Igreja não realiza castigos cruentos mas, entretanto, o Estado tem o direito e o dever de reprimir as facções que perturbam a ordem e a moral pública.[4]Como notam B. Llorca[5] e F. Ayllón, esse Concílio representa a primeira medida de ordem geral da Igreja contra as heresias, medida que conduz também à criação do Tribunal do Santo Ofício, visto que o Estado tem o dever de combater as heresias, mas é a Igreja que deve julgar em questões religiosas. Para a efetivação dessas medidas, o Papa designa como seu legado no Longuedoc o abade de Clairvaux, Henrique, que envia pregadores para a região.
Nessa altura, contudo, a heresia já havia galgado o cume da sociedade, e tinha como defensores personagens da alta nobreza, de maneira que já se podia cogitar o surgimento de um Estado anticatólico no próprio seio da Cristandade Medieval. Henrique, o mesmo abade que enviara pregadores, organiza também uma cruzada, em 1181, contra Roger Trencavel II, senhor de Lavour, o qual tendo aderido à heresia negava-se a reprimi-la, fazendo dos seus domínios um reduto protetor dos heréticos. Porém, a cruzada termina sem grandes resultados. A heresia continua florescendo e a Igreja continua evangelizando o Longuedoc.
Em 1184, ocorre o Sínodo de Verona, no qual o Papa Lucio III elaborou o Decreto Ad abolendum. Tal decreto é a origem[6] da Inquisição Episcopal e, portanto, representa o próprio surgimento da Inquisição Medieval[7]. Nesse Decreto se condenavam os cátaros, os valdenses, os arnaldistas e outros grupos heréticos. Nele exigia-se que os bispos visitassem ao menos duas vezes por ano as cidades e aldeias de suas dioceses onde, com o auxílio de pessoas honestas e bem reputadas, recolheria informações para descobrir os focos heréticos. Exigia-se, sob pena de excomunhão, que os barões e senhores jurassem auxiliar a Igreja. Exigia-se também que os habitantes jurassem denunciar ao bispo os suspeitos de heresia. Os acusados seriam exortados a reconciliar-se com a Igreja e com a sociedade; aqueles que se negassem seriam excomungados e relaxados ao poder secular, o qual lhe aplicaria as sanções de acordo com as leis do Direito comum.
Entretanto: “La Décretale de Lucius III a peu de succès. Les hérétiques continuent à fleurir, notamment dans I’Italie du Nord. Les évêques sont inertes : les Papes souvent très indulgents. En 1196, l’empereur Henri VI demande à Célestin III d’excomunier les Séparatistes, lui promettant son appui. L’Église avait perdu de vue le danger.” (G. Deromieu. op. cit. p. 5, o negrito é nosso). G. Deromieu compreende bem a situação. Muitos bispos não trabalhavam para combater a heresia, os Papas mostravam-se muito indulgentes, a heresia expandia-se e novamente o poder secular alarmava-se.
Em 1198 sobe ao trono pontifício Inocêncio III, que foi eleito e imediatamente enviou missionários ao Longuedoc.
“O Papa Inocêncio III preferia a conversão à perseguição. Os cátaros, porém, não se convertiam facilmente, uma vez que a crescente propagação da heresia no Sul da França e no Norte da Itália fazia com que acreditassem no predomínio dela sobre a Igreja Católica.” (N. Falbel. op. cit. p. 47).
Inocêncio III percebeu que um dos motivos que permitia um tão grande crescimento do catarismo no Longuedoc era a má conduta de muitos clérigos dessa região, os quais se preocupavam mais com questões políticas – as ditas querelas feudais – do que com a evangelização de seu povo. Sabendo disso, Inocêncio III empreendeu a tarefa de reformar tal clero, escolhendo para essa batalha os monges da ordem cisterciense. Enviou, pois, sucessivamente duas missões de cistercienses ao Longuedoc[8].
Em 1200, reuniu-se um Concílio em Avignon, no qual se decidiu que, em cada paróquia, deveria haver uma comissão composta por um padre e dois ou três leigos íntegros, que jurariam denunciar todos que passassem à heresia, ajudassem ou escondessem os hereges.[9] Com esse Concílio, o Papa deu novo impulso à Inquisição Episcopal. Todavia, devido ao apoio das autoridades locais, principalmente do Conde de Toulouse, Raimundo VI, o catarismo continuou fazendo progressos.
Em 1203, Inocêncio III enviou, para auxilio na luta contra os albigenses, seu legado Pedro de Castelnau, também monge cisterciense. Porém, Castelnau logo comunicou ao Papa seu desencorajamento: naquela região, muito corrompida, a heresia era antes defendida que reprimida pelas autoridades, pois até Raimundo VI auxiliava abertamente o catarismo. Por fim, constatando que não podia esperar o auxílio de Raimundo VI, Castelnau o excomungou. O Papa confirmou a excomunhão em maio de 1207. Como resposta à excomunhão, Castelnau foi assassinado em janeiro de 1208, por ordem de Raimundo VI.[10] O Papa, então, convocou uma cruzada contra os albigenses, a qual terminou apenas em 1229 com o Tratado de Paris.
A Igreja, no decorrer de todos esses anos, procurou antes de tudo converter os hereges. Isso fica patente pelas numerosas missões enviadas ao Longuedoc – local mais afetado pelo catarismo. Ainda pouco antes da Cruzada, por volta de 1203, chegaram em Roma D. Diego de Azevedo, Bispo de Osma, e Sto. Domingos de Gusmão, os quais vinham pedir permissão ao Papa para evangelizar os Cumans. O Papa negou-lhes o pedido, ordenando-lhes que fossem para o sul da França auxiliar os missionários cistercienses a converter os hereges.[11]
A Cruzada, contudo, havia demonstrado a que proporção chegara o problema das heresias. Exigia-se, portanto, além do movimento missionário, uma maior organização no combate a elas. Após o Tratado de Paris, o Concílio de Toulouse (1229) fez uma codificação de prescrições observadas contra os albigenses.[12] Em 1231, o Papa Gregório IX publicou uma constituição na qual, visando os abusos das autoridades estatais, declarou que os problemas da fé interessam essencialmente aos vigários diocesanos e aos seus legítimos representantes.[13] No mesmo ano, o senador romano Annibaldo publicou um estatuto contra os heréticos, onde pela primeira vez apareceu o termo latino inquisitor (inquisidor). A Constituição do Papa e a legislação do senador Annibaldo formaram os Estatutos da Santa Sé,[14] que serão enviados a todos os bispos. Contudo, Gregório IX constatou que os bispos, por diversos motivos, não se dispuseram a fazer a devida aplicação desses Estatutos. Em vista disso, em 1232, com a Bula Ille humani generis, o Papa delegou o encargo de inquisidor aos frades da Ordem dos Pregadores (dominicanos), de modo que o tribunal deixou de ser episcopal e passou a ser um tribunal monástico ligado diretamente ao Papa.
É dessa forma, portanto, que surgiu o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, isto é, da luta entre sociedade e heresia, entre Igreja e heresia, dentro de um determinado conjunto de relações entre Igreja e Estado. A necessidade de regrar a reação da sociedade contra as heresias, evitando massacres populares ou abusos políticos por parte do Estado, levou a Igreja, no decorrer de quase um século, a moldar um tribunal que se dedicasse especificamente ao problema das heresias.
“El Tribunal del Santo Oficio surgió gradualmente, como respuesta a la conyuntura histórica que generó la necesidad de legislar y unificar los procedimientos en el combate contra la herejía.” (F. Ayllón. op. cit. p. 67).
Havia, além dos problemas sociais, a necessidade de livrar a sociedade das perniciosas doutrinas heréticas. Contudo, para um lendólogo moderno, que tem a visão turvada pelo relativismo ou pelo superficial e grosseiro ateísmo, torna-se difícil compreender não só os problemas gerados pela heresia como também a própria complexidade histórica. Todavia, os problemas eram evidentes. Tão evidentes, que até protestante Henry Charles Lea, referindo-se aos cátaros, foi obrigado a afirmar: “Essa era a crença cuja rápida difusão através do midi da Europa encheu a Igreja de um terror plenamente justificado. Por mais horror que nos possam inspirar os meios empregados para combatê-la, por mais piedade que devamos sentir por aqueles que morreram vítimas de suas convicções, reconhecemos sem hesitar que, nas circunstâncias, a causa da ortodoxia era a da civilização e do progresso. Se o catarismo se houvesse tornado dominante, ou pelo menos igual ao catolicismo, não há dúvida de que sua influência teria sido desastrosa” (H. C. Lea. Histoire de l’Inquisition au Moyen-Age. vol. I. Paris, 1986-1988, p. 121 apud J. B. Gonzaga. op. cit. p. 111).
Mesmo sendo tão grande o perigo representado pela heresia e sendo os tempos tão rudes – como constata J. B. Gonzaga ao analisar a sociedade e a Justiça criminal comum medieval – a Igreja sempre procedeu misericordiosamente, só aceitando os meios empregados pelo braço secular quando não lhe restava outro meio possível de reação.
Alguns aspectos do Processo Inquisitorial
Além de esquecer fatores históricos importantes para o conhecimento da Inquisição, a lenda procura ainda pintar o processo inquisitorial com a mais negra tinta, dando-lhe um aspecto tenebroso. A História, por outro lado, não permite tal obscurantismo – o estudo do processo inquisitorial demonstra claramente que a Igreja foi benéfica, pois seu objetivo principal não era perseguir, condenar e torturar o herege, mas sim tentar diligentemente trazê-lo de volta à Igreja e ao grêmio da sociedade.
“Le réflexe de défense est d’abord pastoral. C’est dans la nature de choses. L’Eglise a toujours prêché l’Evangile, conformément à la mission qu’elle a reçue du Christ. La prédication est de sa nature persuasive et désintéressée. Cet aspect pastoral est essentiel. Comme il n’est pas le plus spectaculaire, on le perçoit mal. Il convient toutefois de ne pas l’oublier.” (H. Maisonneuve. op. cit. p. 159).
É exatamente por isso que o primeiro procedimento da Inquisição era o Sermão Geral[15], no qual o Inquisidor pregava à população instruindo-a sobre os perigos e a perversidade da heresia, exortando-a a denunciar os hereges. O segundo procedimento é o Tempo de Graça, período que ia de quinze dias a um mês, destinado àqueles que haviam se arrependido e queriam confessar-se. Quando a heresia era manifesta, o crime era sancionado através de penas canônicas, às quais muitas vezes se acrescentava uma peregrinação.
“Aqueles cuja falta se tinha ignorado até então e que se denunciavam espontaneamente podiam ser dispensados de qualquer pena ou sofriam apenas uma penitência bastante ligeira e secreta, a critério do juiz.” (G. Testas e J. Testas. op. cit. p. 35).
Tal maneira de atuação já demonstra quão suave foi a Inquisição frente ao Direito comum da época. Visto que, como nos lembra J. B. Gonzaga, as penas da Justiça comum possuíam dois sentidos: vindicativo e utilitário.
“Antes de tudo, merecia castigo, com valor de vingança, aquele que violara a lei posta pela vontade do soberano. Por acréscimo, buscava-se, através da pena, alguma dentre várias possíveis utilidades. A sanção capital era desde logo útil porque eliminava uma pessoa malfazeja. A mais saliente e constante utilidade procurada, todavia, encontrava-se na idéia de escarmento, com vistas à manutenção da ordem pública: a punição imposta ao criminoso devia ser exemplar, irradiando-se pela coletividade, a fim de incutir pavor e convencer os cidadãos de bem se comportarem;
Inexistia, no Direito comum, a noção de pena regeneradora, destinada ao aperfeiçoamento moral do condenado. (J. B. Gonzaga. op. cit. p. 131 – o negrito é nosso).
Com o Direito da Igreja surge, porém, uma situação nova. Como se visa o bem do herege, procura-se antes de tudo um meio de regenerá-lo, e não de matá-lo. Deste modo, a prisão que, no Direito comum, era apenas uma medida processual,[16] torna-se agora uma pena, que visa levar o condenado à reflexão e ao arrependimento. Verifica-se, portanto, a atuação benéfica do Direto da Igreja, que ao utilizar a noção de pena regeneradora enriquece e melhora a própria noção de Direito Penal.
O próximo passo é a convocação do suspeito. Passado o tempo de graça, aqueles que foram denunciados e não se confessaram, serão convocados e submetidos a interrogatório pelo Inquisidor. Caso o acusado confessasse, sendo a confissão considerada a melhor das provas, ele receberia sanções canônicas, evidentemente mais rigorosas que aquelas destinadas a quem confessasse no tempo de graça, mas escapava, todavia, de ser relaxado ao braço secular, onde certamente sofreria a pena capital. Se sobre o acusado pesassem fortes provas e após todo o interrogatório, permeado de exortações e conselhos para que confessasse, ele recusava-se a confessar, só então o Tribunal recorria a expedientes mais violentos. O acusado era submetido à prisão preventiva, em alguns lugares impunha-lhe jejuns prolongados ou privavam-lhe do sono.[17] Durante todo o período da prisão, o acusado recebia visitas de familiares ou de pessoas honradas que lhe aconselhavam confessar e arrepender-se, ou ainda do inquisidor que lhe prometia ser misericordioso caso ele confessasse o crime. Tudo isso era empreendido simplesmente porque o objetivo da Igreja era converter o herege e integrá-lo novamente à sociedade. Se o objetivo fosse apenas vindicativo e utilitário – como no Direito comum – todo esse processo seria mais comodamente simplificado com a aplicação da pena de morte.
E se apesar de todos esses esforços o acusado negava-se terminantemente a confessar?
Em 1252, Inocêncio IV publica o decreto Ad Extirpanda[18], segundo o qual autorizava a utilização da tortura pela Inquisição. É esse um dos pontos nos quais a lenda ultrapassa todos os limites ficcionais. Ela pinta, ou melhor, borra de modo fantástico esse fato histórico. Nasce assim, portanto, a imagem do monge ignorante, feroz e sádico… A lenda não lembra, porém, que um tribunal que recusava a tortura, como fez a Inquisição até 1252, era algo extraordinário na História da Humanidade. Realmente, Inocêncio IV havia cedido às exigências do Direito comum e aceitado o uso de tortura, porém, frisando que essa deveria ser utilizada com prudência.[19]
A tortura, como nos lembra J. B. Gonzaga, era um expediente normal e comumente aceito na época, sendo empregado inclusive até fins do século XIX. Nos Tribunais Eclesiásticos, devido à prudência da Igreja, essa prática foi sem dúvida muito mais branda que no Direito secular.[20] A Igreja exigia que um médico estivesse sempre presente às seções, nas quais os pacientes não podiam ser jamais mutilados ou sofrer perigo de vida. A tortura só podia ser aplicada uma única vez e cada suplício não podia durar mais que meia hora. A confissão feita durante a seção de tortura não tinha nenhum efeito condenatório, devendo ser confirmada longe da ocasião de tortura.[21]
“Al respecto, cabe precisar que la Inquisición no inventó ningún instrumento de tormento, se limitó a emplear algunos de los que eran de uso común en su tiempo; su utilización fue mínima y, en las pocas oportunidades que fue considerada necesaria, se graduaba a la contextura física, edad, estado de salud y faltas atribuidas al procesado.” (F. Ayllón. op. cit. p. 62).
Além de ser evitado e utilizado apenas no último caso, o abrandamento que esse expediente sofre ao ser utilizado pela Inquisição fica evidente quando comparamos entre si os métodos inquisitoriais e os métodos do Direito comum: “Na Justiça secular, supliciava-se com meticulosa crueldade e repetidas vezes, para extorquir do réu a confissão de culpa; mas este resistia tenazmente, porque sabia que, se reconhecesse o crime, receberia uma condenação vindicativa e expiatória, com penas requintadamente atrozes, destinadas a fazê-lo sofrer muito e a escarmentar o povo.” (J. B. Gonzaga. op. cit. p. 127).
Ora, na Justiça canônica, além de uma aplicação da tortura totalmente diversa do Direito comum, a confissão e o arrependimento levavam à absolvição e não à condenação. Por isso, tanto no sistema processual quanto no sistema penal da Inquisição, houve, devido ao objetivo visado pela Igreja, um abrandamento no tratamento dado tanto ao acusado quanto ao condenado.
“À força de ouvirmos falar sobre os “rigores” punitivos da Inquisição, causa espanto verificar como o seu arsenal repressivo era incomparavelmente mais brando, ou menos severo, do que o da Justiça comum. Muito se decepcionará quem espera encontrar grandiosas maldades no sistema penal dos tribunais inquisitoriais.” (J. B. Gonzaga. op. cit. p. 127).
Por fim, se o acusado conseguisse enquadrar-se em todas as inúmeras prescrições previstas pela Igreja, ele poderia ser submetido à tortura. Caso a suportasse, o Inquisidor podia interpretar essa grande resistência como prova de sua inocência e libertá-lo. Entretanto, como nos lembra F. Ayllón, esses casos de tortura ocorreram poucas vezes. E finalmente, quem primeiro pôs em questão a utilidade da tortura foi a Igreja e não o Direito comum, pois já no Directorium Inquisitorum – um dos mais importantes manuais de inquisidores, juntamente com a Practica Inquisitionis de Bernard Gui – escrito na segunda metade do século XIV, o Inquisidor Nicolau Eymerick perguntava-se qual seria a utilidade da tortura, tão vulgarizada no Direito comum. Pois, segundo ele, a tortura levava os fracos a confessarem tudo, mas não conseguia nada dos hereges corajosos.[22] Além do que, como vimos, a Inquisição não utilizava a confissão sob tortura.
Por outro lado, se o acusado não confessasse seu erro e se recusasse pertinazmente a renegá-lo, ele seria relaxado ao braço secular. E nesse caso, como sabemos, a tradição[23] que remonta inclusive ao tempo do Império Romano, era a pena de morte. Todavia, relaxá-lo ou não ao poder secular estava nas mãos do Tribunal Eclesiástico, o qual visava antes de tudo regeneração e a justiça, assim como está expresso pelo Diretório de Béziers de 1246:
“Efforcez-vous d’amener les héretiques à se convertir, montrez-vous pleins de mansuétude à l’egard de ceux qui en manifesteraient l’intetion… Ne procédez à aucune condamnation sans preuves nettement établies. Il vaut mieux laisser un crime impuni que de condamner un innocent”.[24]
A entrega do herege ao braço secular – último recurso possível da Igreja em prol da manutenção da ordem, da moral e da salvação das almas – não implicava necessariamente, caso o herege não fosse reincidente, na morte pois, a todo momento, o inquisidor estava atento e se o herege se arrependia, ainda que só diante do cadafalso, era novamente devolvido à Igreja, que o livrava da pena capital.
Além do mais, é sabido – não pela lenda, mas pela História – que o número de condenações à morte foi pequeno.
La pena capital se aplicó en pocos casos, debido a la benignidad en el uso de la entrega al brazo secular mostrada por los inquisidores. En realidad, lo que buscaban los pontífices no era sancionar con mayor severidad a los herejes sino más bien impedir la injerencia de las autoridades civiles en materias que, por razones obvias, debían quedar reservadas a la Iglesia.” (F. Ayllón. op.cit. p. 61 – o negrito é nosso).
Por incrível que pareça, o próprio H. C. Lea chegou a afirmar: “eu estou convencido de que o número de vítimas que pereceram na fogueira é bem menor do que normalmente se imagina. O fato de queimar viva, deliberadamente, uma criatura humana, tão só porque ela crê diferentemente de nós, é uma atrocidade tão dramática e de um horror tão pungente que terminamos por aí ver o traço essencial da atividade da Inquisição. Torna-se pois necessário observar que, entre os modos de repressão empregados por força das suas sentenças, a fogueira foi relativamente o menos usado.” (H. C. Lea. Histoire de l’Inquisition au Moyen-Age. vol. I. Paris, 1986-1988, p. 121 apud J. B. G. Gonzaga. op. cit. p. 137 – o negrito é nosso).
A declaração de H. C. Lea é extremamente interessante: primeiro, porque é a afirmação de um historiador protestante e abertamente contra a Inquisição e contra a Igreja, declarando claramente que a fogueira foi a pena menos usada; segundo, porque o autor revela um dos motivos pelos quais ele é tão contrário à Inquisição, ou seja, a sua incompreensão do problema histórico, visto afirmar que uma pessoa era condenada apenas porque discordava da religião vigente, quando na verdade, como vimos, os hereges, e principalmente os cátaros, não apenas discordavam em seu interior, mas trabalhavam abertamente ou secretamente pela destruição da Igreja Católica e do Estado, pois os consideravam obra de Satanás. Além do que, o povo e o Estado – protegendo-se contra as heresias – anteciparam-se à Igreja numa violenta reação contra elas, decorrendo disso o dever da Igreja de regrar essa reação; e em terceiro lugar, por referir-se ao que “se imagina” normalmente sobre a Inquisição.
Ora, essa última afirmação exige uma pergunta: por que normalmente se imagina a Inquisição como uma espécie de cruel maquina de matar? Seria, talvez, porque corre por aí uma lenda negra que trabalha para que as pessoas sejam tão imaginativas?
Conclusão
Alguns autores mais sérios, que não sofrem dos prejuízos ideológicos de Llorente, Sabatini ou Lea, tentando compreender historicamente o que foi a Inquisição, afirmaram ser ela um fruto da mentalidade da época; um fruto do sentimento medieval.
Nós, porém, poderíamos acrescentar que a Inquisição não foi apenas fruto de uma mentalidade, mas de uma situação social particular. Fizemos o possível para expor, dentro dos limites desse pequeno artigo, alguns dos problemas sociais gerados pelas heresias, os quais sem dúvida foram os responsáveis imediatos pelo surgimento da Inquisição.
Não há dúvida de que o desejo da Igreja de ensinar a verdade e combater o erro sempre existiu. Entretanto, num primeiro momento, apesar do perigo representado pelas heresias, a Igreja procurou vencer o erro com a espada espiritual, só aceitando outros meios, que não os espirituais, quando o problema fugia a seu controle e punha em perigo toda a sociedade. A própria sociedade, observa Nachman Falbel,[25]considerava o herege mais perigoso que o infiel, pois seu espírito proselitista tinha a possibilidade não só de perder as almas, mas também de destruir a sociedade cristã por dentro. Por isso, a atuação das heresias suscitou não só a reação da Igreja como também da população e do Estado.
“Las herejías eran entendidas como una violación del bien común al atacar la doctrina cristiana sobre la que se basaba la sociedad. Esto obligaba a la actuación de las autoridades civiles en defensa del orden social; pero sería a las eclesiásticas a las que les correspondiese definir, por motivaciones teológicas, la pureza de la fe.” (F. Ayllón. op. cit. p. 49).
A Igreja Católica, porém, esteve atenta ao seu verdadeiro objetivo, que era manter integra a cristandade e converter o herege, por isso esforçou-se por agir o mais misericordiosamente possível.
Não queremos negar com isso que tenham existido inquisidores rudes e sem caridade, mas apenas constatar que a existência desses foi uma exceção e não uma regra. E mais, foi uma exceção que contrastava com o próprio espírito da Igreja.
“Hay que tener en cuenta, contra la opinión predominante en nuestra época, que la mayoría de los inquisidores medievales no eran hombres ignorantes sino verdaderos expertos en materia teológica, con costumbres austeras; inclusive, llegaban en numerosos casos a la santidad.” (F. Ayllón. op. cit. p. 74).
“Por outro lado, a sua respeitabilidade derivava do fato de destacaram-se pela erudição e conduta exemplar.” (N. Falbel. op. cit. p. 18).
Além do mais, se alguns inquisidores fugiram ao espírito indicado pela Igreja, não lhes faltaram punições. Um exemplo disso foi Conrad de Marbourg. Esse padre secular havia sido incumbido de aplicar os Estatutos da Santa Sé em territórios alemães. Contudo, foi muito rude na sua atuação, gerando protestos que chegaram ao Papa Gregário IX. Este, após apurar as reclamações, expediu ordens para suspendê-lo de suas funções. Outro caso é o de Robert le Bougre, que fora cátaro e convertera-se ao catolicismo, tornando-se posteriormente dominicano. Devido ao seu zelo no combate ao catarismo, acabou sendo nomeado Inquisidor Geral da França. Os bispos locais, porém, recorreram ao Papa alegando excessos e abusos cometidos por ele. O Papa ordenou um inquérito e, diante de abusos neste apurados, destituiu Robert de seu cargo e condenou-o à prisão.[26] Com isso, o Papa Gregório IX indicava claramente como deveria agir um inquisidor, com misericórdia, justiça e caridade, desejando sempre a conversão do herege, assim coma exigia o Diretório de Beziers, em 1246, e toda a tradição da Igreja.
Esse pequeno artigo teve como objetivo lembrar fatores históricos importantes e essenciais para o conhecimento da Inquisição. Fatores que as lendas, como já dissemos, não têm interesse em relatar, pois embora eles sejam importantes para uma maior compreensão da História, não são igualmente importantes para os objetivos ideológicos dos criadores de fábulas.
Referências:
AYLLÓN, Fernando. El Tribunal de la Inquisición; De la leyenda a la historia. Lima, Fondo Editorial Del Congreso Del Perú, 1997.
WALSH, William T. Personajes de la Inquisición. Madrid, Espasa-Calpe, S. A., 1963.
DEROMIEU, Georges. L’Inquisition. Paris, Presses Universitaires De France, 1946.
MILANO, Ilarino da. Eresie Medioevali; Scritti Minori. Itália, Maggioli Editore – Rimini, 1983.
FALBEL, Nachman. Heresias Medievais. São Paulo, Ed. Perspectiva S. A., 1977.
GONZAGA, João B. G. A Inquisição em seu mundo. São Paulo, ed. Saraiva, 1993.
MAISONNEUVE, Henri. L’Inquisition. Paris, ed. Desclée, 1989.
TESTAS, Guy e TESTAS, Jean. A Inquisição. São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1968.
LLORCA, Bernardino, S. J. Manual de História Eclesiástica, vol. I. Porto, Edições ASA, 1960.


[1] N. Falbel. op. cit. pg. 47.
[2] Idem, p. 38.
[3] Guy Testas e Jean Testas. A Inquisição. São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1968, p. 10.
[4] F. Ayllón. op. cit. p. 52.
[5] Bernardino Llorca, S. J. Manual de História Eclesiástica, vol. I. Porto, Edições ASA, 1960, p. 326.
[6] G. Testas e J Testas. op. cit. p. 11.
[7] G. Deromieu. op. cit. p. 4.
[8] H. Maisonneuve. op. cit. p. 38.
[9] G. Testas e J. Testas. op. cit. p. 11.
[10] Idem, p. 12.
[11] Idem, p. 11.
[12] Idem, p. 15.
[13] G. Testas e J. Testas. op. cit. p. 15.
[14] Idem, p. 16.
[15] H. Maisonneuve. op. cit. p. 47.
[16] J. B. Gonzaga. op. cit. p. 135.
[17] G. Testas e J. Testas. op. cit. p. 38.
[18] H. Maisonneuve. op. cit. pp. 49-50.
[19] Idem, p. 50.
[20] J. B. Gonzaga. op. cit. p. 124.
[21] H. Maisonneuve. op. cit. p. 50.
[22] G. Testas. e J. Testas. op. cit. p. 39-40.
[23] H. Maisonneuve. op. cit. pg. 52.
[24] Idem, p. 49.
[25] N. Falbel. op. cit. p. 43

A aproximação da Maçonaria e do Comunismo com a Igreja Católica, no período de 1917 a 1991

Marcelo Fedeli – Setembro de 2011


Este é o primeiro de uma série de artigos que tratará das tentativas de infiltração tanto da maçonaria como do comunismo nos meios católicos no período de 1917 a 1991.
 
I – INTRODUÇÃO
Voltando o olhar do alto da janela deste 2011 para o Século XX, notamos um conjunto de acontecimentos significativos ocorridos no ano de 1917 que, concretamente, marcaram toda a História do mundo por quase 100 anos.
De fato em 1917 ocorreu:
1º – de 13 de Maio a 13 de Outubro de 1917: aparições de Nossa Senhora em Fátima, pedindo a recitação do Terço diariamente, conversão, penitência e a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração. Além destes pedidos, anunciou a famosa profecia da expansão dos “erros da Rússia” pelo mundo caso os homens não se emendarem e uma mensagem ainda hoje envolta em mistério;
2º – 27 de Maio 1917: Promulgação do Código do Direito Canônico,incluindo novas condenações à Maçonaria. A partir deste fato a Maçonaria muda de tática em relação à Igreja e, ao invés de continuar a combatê-la frontalmente, resolve dela se aproximar e nela se infiltrar para mais facilmente destruí-la;
– 24 de Junho de 1917: manifestação maçônica na Praça de S. Pedro, em Roma, celebrando os 200 anos da fundação da 1ª Grande Loja na Inglaterra, com uma grande faixa em que se lia: Satanás reinará no Vaticano, e o Papa será seu escravo” [A. Socci, II Quarto Segreto, Rizzoli, 5ª Edição, Fevereiro de 2010, p. 179].
4º – 25 de Outubro de 1917: Lênin toma o poder na Rússia instaurando o regime comunista.
Tudo isto ocorreu naquele 1917!…
Paralelamente, dentro da própria Igreja, a heresia do Modernismo, condenada formalmente pelo Papa S. Pio X em 1907, começa a ressurgir, tímida e discretamente dos subterrâneos das sacristias, dos mosteiros e das Faculdades de Teologia onde se escondera e abrigara, e passará a contribuir nas futuras décadas, de forma cada vez mais clara e concreta, através dos seus sequazes, para o diabólico programa da aproximação com a Santa Igreja daqueles seus dois ferrenhos inimigos: a Maçonaria e o Comunismo.
Mais de quarenta anos depois, o Concílio Vaticano II derrubou algumas dasúltimas barreiras, facilitando ainda mais essa colaboração entre os Modernistas, a Maçonaria e o Comunismo, uma vez que não condenou o Comunismo e que, em suas secções, foram ouvidos pedidos formais de bispos para anular as antigas condenações àquela seita secreta, sem que tenha havido qualquer indignação e objeção na Sala Conciliar. Durante a elaboração do novo Código Canônico, iniciada a pedido do Papa João XXIII em 1959, e concluída no pontificado de João Paulo II, os Modernistas tudo farão para eliminar as condenações à Maçonaria constantes do Código de 1917.
E por que juntar Maçonaria, Comunismo e Modernismo nessa verdadeira trama contra a Igreja Católica, nela se infiltrando para mais facilmente destruí-la? Simplesmente porque essas três ideologias têm como princípio fundamental comum o CULTO DO HOMEM, ou seja, têm uma versão antropocêntrica,evolucionista, naturalista, gnóstica ou panteísta do universo, total e diametralmente contrária ao Credo in unum Deum, Patrem omnipoténtem, Factorem cæli et terræ, Visibílium omnium et invisibílium, primeiro artigo doCREDO e, conseqüentemente, contrária aos seus subseqüentes artigos.
Essa “união espiritual” — e material — entre Maçonaria, Comunismo eModernismo na ‘aproximação’ visava, em última escala, subjugar a Igreja aos seus princípios revolucionários. Pretendia assim substituir as verdades eternas reveladas por Deus e defendidas milenarmente pela Santa Igreja, pelos seus fugazes princípios relativistas, naturalistas, evolucionistas e igualitários. Em outras palavras aquela “união espiritual” pretendia fazer uma verdadeira revolução na Igreja e nas relações desta com o mundo e com todas as outras seitas e religiões, para disto surgir uma nova sociedade mundial, fraternal, sem Deus e suas ‘mesquinhas’ leis contra a liberdade dos homens. O plano atingiu seu ápice no Concílio Vaticano II e na aplicação dos princípios deste nos anos imediatamente posteriores àquele evento.
A Maçonaria, a partir de 1917, começou a se apresentar com mais vigor como uma sociedade que absolutamente nada tinha contra a Igreja, que jamais pretendera destruí-la, que nunca fora anti-clerical – pelo contrário! – que receberia de braços abertos até os clérigos de toda a hierarquia, para unir os princípios da caridade cristã aos seus próprios princípios. Com essa miscelânea, ela se propunha a estabelecer uma nova ordem mundial, de paz e amor fraterno, e ecumênica, conforme os termos que o presidente americano Roosevelt usou em carta ao Papa Pio XII — seu old and good friend — em dezembro de 1939 e que este Papa incluiu na sua Mensagem de Natal daquele mesmo ano.
Por outro lado, o Comunismo implantado na Rússia por Lênin, marcou uma cruel e incansável perseguição, durante décadas e décadas, à Igreja, passando pelos ditadores e públicos assassinos Stalin e Khrushchev e seus sucessores. Essa crudelíssima perseguição foi ampliada para a China e para todos os demais países subjugados pelo Comunismo em todos os continentes, particularmente na Europa durante e após a II Guerra Mundial.
Concretamente, a ‘aproximação’ do Comunismo com a Igreja — ou vice e versa — será iniciada durante o pontificado do Papa João XXIII, atingindo seu auge também no Concílio Vaticano II e na Ost-Politik do Papa Paulo VI. A perseguição à Igreja, contudo, não cessará com aquela aproximação. Esta continuará na Rússia e em todos os países subjugados à tirania do Comunismo. Na Europa Oriental, a perseguição violenta à Igreja cessou com a inesperada ruína do império soviético em 1991, graças a Deus. Nos países dominados por governos Socialistas e Comunistas, infelizmente, a perseguição à Igreja, ou a sua doutrina, continua até hoje.
Por sua vez, a Maçonaria tanto urdira pela extinção das condenações constantes do Código de Direito Canônico de 1917, que acabou tendo seu nome excluído do Código de 1983. Entretanto, ela foi novamente e explicitamente condenada, pelo adendo que fez ao Código o Cardeal Josef Ratzinger, então Prefeito da Congregação da Fé, e aprovado pelo Papa João-Paulo II.
E o Modernismo?… Parece continuar respirando graças aos ares que, embora enfraquecidos, ainda sopram do Concílio Vaticano II. Deste as novas gerações não têm quase nenhum conhecimento, não recebendo tanto, por isso, suas maléficas influências. Há quem diga que ele desaparecerá com os últimos Modernistas do século passado que ainda hoje vivem.
O fim desta batalha, porém, não significa fim da batalha que os filhos da serpente sempre manterão contra a Igreja. Outras batalhas virão, pois a “inimizade entre os filhos da Virgem e os filhos da serpente”, anunciada nas Escrituras, durará até o fim dos tempos. Nunca, porém, as ‘portas do inferno prevalecerão contra a Igreja’, como Nosso Senhor nos prometeu.
Evidentemente os artigos a serem aqui apresentados não esgotam a matéria, e devem ser entendidos como um resumo, um início, para futuros e mais aprofundados estudos.
Pedimos ao Imaculado Coração de Maria as graças necessárias para que tudo o que aqui vier a ser escrito seja para a maior glória de Deus, para a salvação das almas e exaltação da Santa Romana Igreja. Esperamos também que a consagração da RÚSSIA ao Imaculado Coração de Maria, último pedido de Nossa Senhora em Fátima, em outubro de 1917, seja realmente atendido pelo Santo Padre da forma como Ela mesmo estabeleceu.

Um homem decisivo nas negociações Roma – FSSPX

Uma contribuição especial por Harry Griffin


A Santa Sé propôs à Sociedade de São Pio X um preâmbulo que deve preceder um reconhecimento canônico. Algumas mentes pensantes estão curiosas sobre qual será a decisão do Superior Geral, o Bispo Bernard Fellay. Em 7 e 8 de outubro de 2011, ele vai reunir as principais autoridades da obra fundada pelo Arcebispo Lefebvre em Albano Laziale, Itália, a poucos metros de distância da residência pontifícia de Castel Gandolfo. Entre esses, um personagem decisivo: o Bispo Alfonso de Galarreta.

O bispo de nacionalidade espanhola tem viajado o mundo desde sua consagração episcopal pelo Arcebispo
Lefebvre com a idade de apenas 31 anos. Ele já tinha visto com seus próprios olhos os estragos que o espírito do Concílio tinha causado em seu seminário diocesano, em La Plata, Argentina, a instituição que ele deixou para entrar em Ecône, cujo fundador detectou suas qualidades muito cedo – nomeando-o Superior de distrito e escolhendo-o primeiramente como um daqueles que deveriam ser consagrados . Se ele é, por um lado, o mais discreto dos quatro bispos da Fraternidade, ele é, ao mesmo tempo, o que mais ascende em autoridade dentre eles. O exílio em Londres de seu colega britânico só tem aumentado essa aura.Alguns dos padres da Sociedade vão mais longe ao dizer que eles vêem o Arcebispo Lefebvre neste prelado, ao mesmo tempo sereno, animado, caloroso, pragmático, e firme na fé.

Em cada situação delicada, ele é chamado por seu superior, da qual é próximo.
Em 2008, é a ele que foi dado o encargo de anunciar, em Econe, a decisão de não se dobrar ao ultimato apresentado pelo Cardeal Castrillón Hoyos. No ano seguinte, ele substituiu o BispoWilliamson como líder do seminário argentino de La Reja, em uma atmosfera tempestuosa. Alguns meses depois, ele é escolhido para dirigir, de forma notável, a comissão de especialistas reunidos para a discussão com aqueles escolhidos pela Congregação para a Doutrina da Fé. Ao mesmo tempo, ele é o bispo de referência de todas as comunidades religiosas amigas da Fraternidade, mas não parte delas.


Este homem de fé, que nunca foi influenciado pelas ondas de várias dissensões com as quais a Fraternidade tem sido confrontada, terá a sua palavra a dizer nestas discussões. Ele conhece bem a Fraternidade. Ele também conhece bem a Roma, depois de ter debatido com seus representantes. Ele sabe, portanto, até que ponto a Santa Sé está querendo ir. Sua opinião será, sem dúvida, ouvida com grande atenção.



Fonte: Rorate Caeli

Tradução: Marcel Ozuna

MORAL CATÓLICA: PRAIAS, PISCINAS E DANÇAS



Praias e Piscinas – Pe. Ricardo Félix Olmedo

Nestes tempos difíceis para as almas e também para nosso apostolado, é bom lembrar aos nossos irmãos no sacerdócio os princípios que uma sã moral impõe no que se refere às férias de verão e às idas às praias e piscinas…
Talvez para alguns pareçam um pouco rigorosas, mas são apenas as regras sempre ensinadas pela Igreja para proteger do pecado as almas, que tementes a Deus, desejam viver em tudo de acordo com os Mandamentos do divino Salvador…

Padre Ricardo Félix Olmedo (Professor de Moral e Direito Canônico no Seminário Internacional Nuestra Señora Corredentora da FSSPX na Argentina)
 

PRAIAS E PISCINAS

 

O banho ao ar livre em praias e piscinas é higiênico e saudável, pode ser uma honesta forma de recreação; em si mesmo não é mau e, portanto, lícito. Contudo, com a desculpa de ser por motivos de higiene, saúde ou descanso, são cometidos, hoje, gravíssimos escândalos. [1]

Não se trata de coibir uma natural, lícita e saudável expansão, nem o uso dos bens que Deus outorgou ao homem para sua conveniente higiene e para a recreação do corpo e do espírito; mas de forma alguma é permitido, e é pecado grave, que, aproveitando-se dessas ocasiões, os costumes honestos sejam abandonados, consinta-se no desenfreio dos vícios, dê-se lugar ao nudismo sem pudor e se pervertam as almas pelo escândalo…
A causa de graves equívocos acerca do que é permitido e do que é proibido nesse tema, com gravíssima ruína para as almas é algumas vezes o respeito humano, outras vezes é um conceito deturpado da higiene ou da elegância, muitas vezes, é a sensualidade e a concupiscência.
Convém, pois, assinalar os princípios morais a que deve ser submetida essa atividade.
A conduta que a virtude do pudor impõe ao católico, a todo o momento e lugar é o primeiro ponto a ser destacado.
Pio XII, falando do tema, dizia que: “É muito evidente que a origem e a finalidade das roupas é a exigência natural do pudor, entendido tanto em seu sentido amplo (que inclui também a devida consideração para com a sensibilidade dos outros diante dos objetos repugnantes à vista), quanto, sobretudo, como uma tutela da honestidade moral e escudo contra a desordenada sensualidade. A estranha opinião que atribui ao relativismo desta ou daquela educação o sentido do pudor, que chega a ser considerado como uma deformação do conceito da realidade inocente, um falso produto da civilização e até um estímulo à desonestidade e uma fonte de hipocrisia, não está apoiada em nenhuma razão séria; pelo contrário, essa opinião encontra uma explícita condenação na conseguinte repugnância daqueles que talvez tenham se atrevido a adotá-la como filosofia de vida, confirmando desta forma a retidão do sentido comum manifestado nos costumes universais. O pudor, considerado em seu significado estritamente moral, qualquer que seja a sua origem, se baseia na inata e mais ou menos consciente tendência de cada indivíduo de defender um bem físico próprio, da indiscriminada concupiscência dos outros, a fim de reservá-lo, com prudente seleção de circunstâncias, aos sábios fins do Criador, por Ele mesmo posto debaixo do escudo da castidade e da pudicícia. Esta segunda virtude, a pudicícia – cuja sinônima “modéstia” (de modus, medida, limite), talvez expresse melhor a função de governar e dominar as paixões, particularmente as sexuais – é a natural defesa da castidade, sua valiosa defesa, posto que modera os atos proximamente conexos com o objeto próprio da castidade. Como uma escolta avançada, o pudor se faz sentir no homem desde o momento em que este adquire o uso da razão, inclusive antes mesmo que aprenda a noção de castidade e seu objeto, e lhe acompanha durante toda a vida, exigindo que determinados atos, em si honestos, porque divinamente dispostos, estejam protegidos pelo véu da discrição e pela reserva do silêncio, como para conciliar-lhes o respeito devido à dignidade de seu grande fim. ‘É, portanto, justo que o pudor, como depositário de bens tão preciosos, reivindique para si uma autoridade superior sobre toda outra tendência ou capricho e que presida a determinação das formas de vestir.’[2]
Acrescenta o Sumo Pontífice que, “do mesmo modo que a natureza pôs em cada criatura um instinto que a impulsiona e a leva a defender sua própria vida e a integridade de seus membros, assim a consciência e a graça (que não destrói, e sim aperfeiçoa a natureza), infundem nas almas uma espécie de sentido que as coloca em constante vigilância contra os perigos que ameaçam a sua pureza. Isto é especialmente característico da jovem cristã. Lê-se na paixão das Santas Perpétua e Felicidade – considerada como uma das mais apreciadas obras da antiga literatura cristã – que no anfiteatro de Cartago, quando a mártir Víbia Perpétua, lançada ao ar por um touro feroz, caiu novamente na arena, seu primeiro cuidado e primeiro gesto foram o de arrumar a sua túnica, que se havia rasgado por um lado, para tratar de cobrir-se, mais atenta ao pudor do que à dor…” [3]
A virtude do pudor se constitui, assim, uma guardiã vigilante da castidade perfeita de qualquer cristão…, e se a higiene pessoal responde a imperativos físicos, e a boa presença (que serve à moda no vestir) põe em manifesto todo um conjunto de razões psicológicas e estéticas, sempre o pudor terá primazia sobre estas exigências, porque somente ele é de ordem espiritual.
Todo católico, através do Batismo, foi elevado à condição de filho de Deus, e seu corpo se constitui em “templo do Espírito Santo”. Daí decorre que tudo o que venha a empanar a sua pureza constituirá num atentado àquela condição e a esta dignidade de seu corpo.
Além disso, a desordem deixada na natureza por causa do pecado original, impõe um cuidado especial na forma de vestir, e que, sem deixar de lado os progressos da moda, sempre deve ser respeitada de modo absoluto: “não se deve jamais proporcionar uma ocasião próxima de pecar[4], e por isso Pio XII advertia com uma pergunta, a respeito da moda indecente, desonesta: “Não existe uma moda que, ante os nossos olhos, se manifesta audaciosa e maldosa para uma jovem cristianamente educada…? Trajes tão exíguos que mais parecem feitos para pôr em relevo aquilo que deveriam velar…”.[5]
Em relação a esse tema é necessário repetir o que já afirmava São Paulo: “os que temos por mais vis membros, a estes cobrimos com mais decoro…, porque os que em nós são mais honestos não têm necessidade de nada”[6], do que se conclui que, segundo a doutrina e a prática dos teólogos[7], há uma distinção entre as distintas partes do corpo:
a) Partes honestas: aquelas que de acordo com um sadio costume, sem ofender o pudor, se expõem ao olhar de todos (o rosto, as mãos, os pés).
b) Partes menos honestas: as que, segundo o uso recebido e o sadio costume, costumam se cobrir (as pernas, o peito, parte dos braços, o pescoço, as costas).
c) Partes desonestas (ou torpes): as que em todas as nações cultas, por pudor natural, sempre se cobrem (são os órgãos genitais e as partes próximas a eles). [8]
Baseado nessas premissas, de modo geral se deve dizer que “é moralmente lícito para o homem, a mulher e as crianças, banhar-se tanto no mar, como no rio e inclusive nas piscinas…”
Contudo, a tal princípio devem ser incluídos outros que preservem dos riscos que o mesmo implica e que correspondam às suas circunstâncias: “em nome da higiene, da saúde ou do necessário lazer – dizia numa Pastoral sempre atual, o Bispo de Cádiz-Ceuta – tomem sem problemas seu banho de mar, homens, mulheres e crianças. Porém, o façam com a separação conveniente, as necessárias precauções e as devidas cautelas. O uso dos banhos mistos deve ser vedado para qualquer pessoa cristã.[9]
Sem prejuízo de algumas explicitações que damos mais abaixo, transcrevemos, acerca destas “precauções e cautelas”, as diretivas de outra pastoral, dada pelo Arcebispo de Valladolid, no dia 8 de julho de 1950, também de perene vigência: “… que todos os nossos fiéis saibam: 1) Que todas as roupas de banho devem sempre ser honestas, e que o maiô [10]certamente não o é. 2) Que todos aqueles que nas praias ou fora delas exibem a nudez provocativa pecam com um duplo pecado de imodéstia e de escândalo. E é sabido o que a respeito do escandaloso disse Jesus Cristo: “Mais valeria que se lhe colocasse uma pedra de moinho ao pescoço e lhe atirassem no fundo do mar”. Tão forte é a sentença que, sobre os escandalosos, formulou o Mestre divino. 3) Que as praias em que se banham promiscuamente, homens e mulheres, e a nudez é provocativa, constituem de si ocasião de pecado grave para aqueles que a freqüentam. 4) Que nas praias deve haver completa separação de sexo para aqueles que estejam em traje de banho. Se esta separação não existe, ninguém pode estranhar que homens e mulheres sejam mutuamente objeto de tentação e de perigo para a limpeza de suas almas. 5) Que é muito doloroso e lamentável que as pessoas que nas praias se distinguem por sua imodéstia não sejam somente as mundanas, livres e atrevidas ou duvidosas, mas também outras dadas, exteriormente ao menos, à piedade, e às vezes as que comungam com freqüência e têm seu nome ligado às instituições beneficentes ou piedosas.” [11]
E a razão é que o nudismo e a excessiva liberdade usada em tais lugares constituem uma ocasião voluntária de pecado grave ao qual ninguém tem o direito de se expor sem cair em pecado… Além disso, não se pode pensar que tal perigo diminui com o hábito, segundo o axioma que diz ab assuetis nulla fit passio, porque no homem, especialmente nos jovens, o espetáculo contínuo de praias e/ou piscinas, ainda que proximamente não suscite por acaso os baixos estímulos maldosos, enfraquece sempre o pudor natural e faz com que um se permita, com facilidade, muitas pequenas faltas. Assim, as paixões não diminuem, e sim aumentam em tais lugares, onde ao relaxamento físico se une o relaxamento espiritual. Por isso, com muita razão o Papa Pio XII advertia: “Não se iludam em crer que suas almas são insensíveis às tentações, invencíveis aos atrativos e aos perigos. É verdade que o hábito contínuo costuma fazer com que o espírito esteja menos submetido a tais impressões…; mas imaginar que todas as almas, tão inclinadas ao sentimento, podem tornar-se insensíveis aos incentivos que assaltam a imaginação, que, cercados com os atrativos do prazer, atraem e prendem a si mesmos a atenção, seria supor ou estimar que se possa diminuir ou fazer cessar a maligna cumplicidade que aquelas insidiosas instigações encontram nos instintos da natureza humana decaída e desordenada.” [12]
O Episcopado argentino, preocupado também pela onda de imoralidade nestes temas, ditou em junho de 1933, um Decreto que em sua parte pertinente diz:
“Considerando com grande dor de nossas almas os gravíssimos danos espirituais que leva ao povo cristão a difusão da imoralidade pública em todas as suas manifestações; e tendo presente as instruções e decretos emanados da Santa Sé durante estes últimos anos; além disso, querendo estabelecer em alguns pontos normas práticas e concretas, que sirvam tanto aos fiéis como aos diretores de almas para ajustar os costumes externos de uma vida verdadeiramente cristã:
Os Bispos, reunidos para velar pelo bem das almas que Nos foram destinadas, estabelecemos que não são conformes com a conduta cristã:
1) “Nem a promiscuidade simultânea de sexos nas piscinas públicas de natação e em certas diversões em que o traje é completamente inadequado para estar fora da água…” [13]
Neste contexto, podemos dizer, então, que:
Os banhos tomados com pessoas do mesmo sexo serão lícitos desde que se utilizem as regras de decência e dignidade nos modos, postura, trajes, etc.
Não se pode aceitar qualquer tipo de traje de banho senão: 1) somente aquele que seja honesto conforme às partes do corpo que devam ser cobertas. 2) De tal tecido e cor que evite o aderir-se ao corpo, mostrando, insinuando ou transparecendo o que não se deve mostrar. 3) Que, atendidas as circunstâncias do ambiente e das pessoas que os usam não sejam escandalosos e/ou provocativos para os demais.
Na praia ou fora da piscina deve-se permanecer sempre coberto. Se alguém deseja tomar banho de sol, deverá se afastar das pessoas do sexo oposto, e de maneira que se proteja completamente da curiosidade ou ocasião de pecado… [14]
Não é lícito a um católico ir a piscinas públicas, por causa da aglomeração de pessoas, menor espaço físico, frivolidade, leviandade e liberdade excessiva que o ambiente favorece.
Para o banho nas piscinas privadas, deve-se respeitar sempre a separação dos sexos, e em casas de família, entre os irmãos, pode ser lícita a não separação dos sexos na infância, sempre tomando cuidado dos perigos de pecado nos jogos mistos.
De maneira particular, deve acrescentar-se que não estão livres do pecado (inclusive mortal) os que: a) procuram em tais ações ou ocasiões um fim desonesto; b) prevêem (ou devendo ter previsto, não o fizeram) que sua atitude pode provocar escândalo; c) com sua atitude foram ocasião de violação de outras obrigações (de pai, de mãe, de sacerdote, etc.); d) vendo que tais banhos são ocasião de pecado, não desistem deles; já que se por razões pessoais (temperamento, fraquezas, …) tais lugares ou situações se constituem em ocasião de pecado voluntário, há obrigação absoluta que se renuncie a eles.
Nem a moda, nem a higiene ou a comodidade, nem o pensar que o comportamento, posturas, modos ou vestido não causam nenhum dano aos outros, não pode ser a última norma de conduta. Para tais argumentos respondia Pio XII com estas sábias e prudentes palavras: “a moda não é nem pode ser a regra suprema de nossa conduta; acima dela e de suas exigências existem leis mais altas e imperiosas, princípios superiores e imutáveis, que em nenhum caso podem ser sacrificados por causa do prazer ou do capricho… Caso se torne um perigo grave e próximo para a salvação da alma, não é, certamente, higiênica para seu espírito, e é seu dever renunciar. E se, por um simples prazer pessoal ninguém tem direito de pôr em perigo a vida pessoal do outro, não será ainda menos lícito comprometer a salvação da alma? Que sabem eles sobre a impressão que causam nos outros? Quem garante que os outros não sofrem incitações perversas? Não conhecem bem a fundo a fragilidade humana nem a forma como sangram as feridas produzidas na natureza pelo pecado de Adão, com a ignorância na inteligência, a malícia na vontade, com avidez de prazer e com fraqueza diante do bem aparente que nasce nas paixões dos sentidos…”[15]
Em resumo, um bom católico não discute sobre o limite do que é permitido e do que é proibido; deve ter a sua norma de conduta orientada pela sua fé. Deve deixar que todo o seu exterior transpareça a vida divina que leva na sua alma, e, portanto, no tema particular que nos ocupa, está obrigado a: 1) recusar sempre usar adornos que sejam desonestos ou pouco honestos; 2) vestir apenas o que, sem cair no ridículo, expresse a reserva e a delicadeza própria de toda pessoa virtuosa; 3) abster-se de ir a lugares onde se ponham em perigo a virtude, a vida honesta, e a bondade dos costumes…; 4) e, sobretudo, acima do sentimento do pudor natural e quase inconsciente, deve cultivar de forma cuidadosa, conscientemente, em todo tempo e lugar, a virtude cristã do pudor e da modéstia.
A.M.D.G.

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A DANÇA

Na sociedade cheia de contradições em que vivemos, a dança se transformou para quase toda a juventude, algo quase necessário, e para não poucos, a coisa mais importante de suas vidas. O fim de semana é esperado com ansiedade e planejado cuidadosamente com muita antecedência, de maneira que todo o ano está organizado em torno dessas reuniões mundanas, festas, noitadas, boates, discotecas, etc., onde os jovens esgotam seus corpos e pervertem suas almas desde a meia-noite até a madrugada, por meio da dança[16], com conversas frívolas quando não abertamente más incluindo bebidas e até drogas…
“A moral da Igreja é imutável e o que ontem era vaidade, ocasião próxima de escândalo ou de pecado, o é hoje e o será sempre”, ensinava com toda razão Dom Antonio de Castro Mayer em sua sempre vigente e mais atual que nunca, carta pastoral sobre os “Problemas do Apostolado Moderno”[17]. Por isso é importante um juízo acertado sobre a dança e as suas circunstâncias, que sirva, tanto aos pastores de almas como aos fiéis devotos que vivem no mundo, para julgar e obrar segundo a reta razão e os princípios perenes da moral católica.
§ 1. NOÇÕES PRÉVIAS
O Cardeal F. Roberti define a dança como “um conjunto de movimentos rítmicos com os quais se expressam sentimentos de entusiasmo, especialmente de alegria”[18], e assim entendido, conforme a sã teologia moral deve-se afirmar que a dança não é em si intrinsecamente má[19]. Como também não o são a música e a poesia.
Pode-se então considerar a dança como uma atividade honesta de distração, expressão ou manifestação de alegria da alma, realizada por movimentos corporais compassados, e até como a expansão de um culto religioso…: “chegam os primeiros cristãos, ainda impregnados dos usos pagãos, diz um autor, introduzindo a dança nos ritos da Igreja…” E é significativo que os primeiros monges se chamassem coristas[20]. Recorde-se aqui a dança do rei David diante da arca da aliança e outras ações semelhantes que conta o Antigo Testamento[21], como também alguns bailados ou danças folclóricas, individuais ou em grupo, ainda que de ambos os sexos, por ocasião de festas civis em que os participantes giram e realizam movimentos separadamente…, e ainda alguns outros que poderíamos chamar danças da corte ou de salão até a metade do século XVIII.
Mas também existem danças más, como aquelas que nos conta a mesma Sagrada Escritura, a de todo o povo hebreu diante do bezerro de ouro, ou a de Salomé, filha de Herodíades, no dia do aniversário de Herodes[22], e as que aparecem a partir do século XVIII e XIX. É então que “se deu uma grande revolução nas danças de salão, desde o ponto de vista moral, quando a dança na qual o cavalheiro toca apenas a mão da dama chegou a uma nova espécie em que o casal, em um abraço apertado, movimenta-se em giros contínuos, como a valsa, a polca, a mazurca, etc.”[23] O século XX nos trouxe uma maior decadência, com o advento do tango, o fox trote, o charleston, até os mais modernos denominados com nomes extravagantes de origem indígena, ou melhor, negro-americanos, como o mambo, o cha-cha-cha, o rock and roll e mais recentemente, também méxico-americanos, como a rumba, etc.
Se é certo que a dança é uma demonstração lícita de alegria e ainda mesmo de piedade, por causa do pecado original e da ferida da concupiscência, a mesma se torna facilmente em uma ocasião de desordens passionais, e por isso o Espírito Santo adverte ao católico: que “não freqüentes o trato com a bailarina, nem a escutes, se não queres perecer ante a força de sua atração”[24], e que a dança é o símbolo da impiedade: “os ímpios tocam o pandeiro e o tambor e dançam ao som dos instrumentos musicais; passam em delícias os dias de sua vida, mas na hora da morte vão ao inferno”[25].
Por isso sempre foi preocupação dos Padres da Igreja e do Magistério por meio dos Concílios de todas as épocas, dos Papas e também dos Bispos, advertir o que a moral cristã tem a dizer a respeito da dança. Citando aqui dois exemplos, transcrevemos o que afirmou o Concílio de Laodicea no século IV, em seu cânon 53: “os cristãos que assistem às bodas não devem nem saltar nem bailar, senão participar com decência à comida ou à ceia, como convém a todo cristão”, e Bento XV, em sua encíclica “Sacra propediem”: “não falemos dessas danças – umas más, outras piores – exóticas que, saídas da barbárie, invadiram pouco a pouco os salões mais elegantes, sem que seja possível encontrar nada mais a propósito que elas para acabar com o último rastro de pudor”[26].
Com essas premissas, consideremos os princípios morais que devem regular esta atividade do homem.
§ 2. PRINCÍPIOS MORAIS
Como toda ação humana, a dança recebe sua primeira qualificação moral de seu “objeto”e depois de seu “fim” e de suas “circunstâncias”.
Já adiantamos que há danças que em si são boas, há outras más e convém aqui precisar essa condição que as fazem más por seu objeto.
Para descobrir os princípios que resultam aplicáveis neste ponto, deve-se assinalar, em primeiro lugar que, sendo a dança uma ação humana cujo objeto são os movimentos exteriores do corpo humano, deverá sempre estar regulada pela virtude. Sobre isso, ensina Santo Tomás: “a virtude moral consiste em regular as ações humanas conforme à razão. E não há dúvida de que os movimentos exteriores do homem são também susceptíveis de tal ordenação, visto que o império da inteligência chega aos órgãos externos”[27]
Para isso existe uma virtude especial, potencial da temperança (que regula os movimentos difíceis do corpo), chamada “modéstia” que, entre outras coisas, é a que modera “o que pertence aos movimentos e ações corporais, isto é, para que sejam feitos com decência e honestidade”[28].
Mas, além disso, Santo Tomás trata explicitamente sobre a dança em seu comentário ao livro de Isaías, quando este fala da mundanidade das mulheres israelitas[29] e se pergunta “se é possível dançar sem pecado”[30], para responder que “a dança em si mesmo [secundum se], não é má, e tudo depende do fim a que alguém se propõe no mesmo bailar e das circunstâncias que podem fazer desta ação um ato de virtude ou um vício”. Para que não ofenda a Deus, o doutor Angélico exige que “não seja pessoa que possa dar escândalo, como um clérigo ou religioso, que seja unicamente para exteriorizar a alegria, como nos casamentos ou circunstâncias parecidas, que se dance com pessoas honestas e o sejam também os cânticos, e, além disso, não haja gestos muito atrevidos ou livres. Mas quando se dança para provocar a lascívia ou com outras circunstâncias inadequadas, é claro que se trata de um ato vicioso”[31].
(a) O ato de bailar e seu objeto:
Aplicadas estas noções a nosso tema, pode-se dizer que pela modéstia – virtude que propriamente se encarrega de submeter à razão os movimentos exteriores do homem – é que são retificados os movimentos da dança.
Em outras palavras, a dança será moralmente boa e modesta, se seus movimentos – objeto mesmo da ação humana de “bailar” – têm decência e honestidade; e guardarão a decência e honestidade quando se dança; se há beleza, harmonia nos movimentos do corpo; se no bailar guarda-se a razão, que expressa, com movimentos proporcionados, os afetos ordenados, a sã alegria da alma.
Por isso, destaca com razão Santo Tomás que “os movimentos exteriores são certos sinais da disposição interior”…, e Santo Ambrósio diz que no estado do corpo se vê a disposição da alma; e que é certa expressão do espírito o movimento do corpo”[32].
(i) Danças intrinsecamente más ou desonestas em si
Pelo contrário, será uma dança má, moralmente má, quando seus movimentos forem desonestos, sensuais, indecentes, quando não expressarem proporção nem harmonia, quando forem sinal de desordem da alma.
Assim, entende-se por que a Igreja, os moralistas, destacaram que algumas danças são más em si mesmas, por sua própria natureza.
E o são entre outras razões? 1º) pelos “gestos livres ou atrevidos”; 2º) porque o contato dos que dançam se estende por todo o corpo, 3º) porque são expressão de comoções corporais e de atos sensuais, 4º) porque impõem um estreito abraço entre o casal que dança, 5º) pelas atitudes, gestos provocativos, posturas, aproximações, e/ou modo de tratar-se que proíbe o mais elementar pudor, 6º) pela “significação” (por exemplo, imoral e impura, etc.) que têm, etc.
Lembremos mais uma vez do Papa Bento XV, quem, depois de lamentar-se da indecência dos vestidos femininos e a falta de recato dos bailes, referindo-se a estes, falava sobre “essas danças – se uma má outra pior – que, saídas da barbárie, irromperam faz pouco tempo os salões mais elegantes, sem que seja possível encontrar coisa mais a propósito do que essa para acabar com o último rastro de pudor”…[33], Pio XI, por sua vez, se queixava sobre este tema, nos seguintes termos: “observamos também como passaram dos limites do pudor a frivolidade das mulheres e das meninas, especialmente… ao dançar[34]”; e Pio XII, em numerosas ocasiões aludiu a dança moderna como meio poderoso de corrupção juvenil, particularmente da mulher.[35]
Entre outras danças modernas[36] condenadas temos as seguintes: “o tango[37], o fox-trot, o turkey-trot, o kamel-trot, o schymmy, o check-to-check, o one-step, o two-spep, o Boston, o blues, o samba, o charleston, o jazz, o boogy-woogey, o cha-cha-cha, o calipso, o twist, o rock-and-roll[38], o guapachá, o kanndidance, etc.”[39], e outros que vão surgindo de todas as partes, como a cumbia, o quarteto, o tecno, o hardcore, o beat, progressivo, etc.
Estas danças constituem um pecado grave e verdadeiro escândalo em si mesmo, e ninguém pode, com tranqüilidade de consciência, cooperar com essa obra má, seja organizando-as ou tomando parte nelas, ou facilitando o lugar para que sejam realizadas, ou assistindo como mero espectador, ou convidando a outros, ou aprovando-os, ou permitindo – quem tenha autoridade sobre outros – que seus filhos, alunos e empregados assistam.
(ii) Danças menos honestas e más por serem ocasião próxima de pecado grave:
Além destas danças intrinsecamente más, os moralistas destacam a existência de outras, menos honestas ou não honestas, quanto ao objeto. “São essas danças, dizem, em que não apenas o cavalheiro toca a mão da dama, mas em que o par, num abraço apertado, se movimenta em giros contínuos, como a valsa, a polca, a mazurca, o chotis, a redowa, a habanera, etc…”[40]
Estes toques entre pessoas de sexos opostos não são considerados maus em si pelos moralistas nem pelo Magistério. Assim, o artigo 35 dos Estatutos sinodais da diocese de Québec (Canadá), promulgado no século XIX, após condenar o tango, o fox-trot e outros do mesmo gênero como “lascivos em si mesmos”, acrescentava, “Condenamos… também as danças que são lascivas pela maneira de bailar, como a valsa, a polka, que se dançam em nossos dias ordinariamente de uma maneira lasciva. Nós as reprovamos energicamente como ocasiões próximas de pecado; e as proibimos expressamente…, de forma que (o que Deus não permita), quem ousar tomar parte ou permitir a seus filhos ou a seus empregados tomar parte nelas, ou os deixe dançar em sua casa, será réu de um pecado grave de desobediência”[41].
Trata-se então nestes casos, de movimentos que não encerram uma malícia intrínseca, mas que, pelo modo como se realiza ordinariamente, com o contato dos corpos e giros velozes, são ocasião próxima objetiva de pecar.
A questão que se coloca nesta segunda classe de danças é a seguinte: são estas ocasião universal próxima de pecado grave, referindo-nos sobretudo aos jovens, ou podem dar-se circunstâncias que atenuem a excitação que produzem, de tal forma que não suponham perigo e tornem lícita a assistência a elas?
Merkelbach e Noldin destacam que estas danças são – igual que as más em si – gravemente desonestas pelo perigo de pecar. “Sobretudo, ensina o primeiro, pelo modo de dançar, por exemplo levando apertado o peito da mulher contra o peito do homem, de tal forma que parece que a jovem está nos braços do homem. Tudo o que provoca movimentos desordenados, ainda que não necessariamente desonestos, como consta pelo testemunho dos que dançam, e parece que é assim, devido a que o pensamento se distrai com outras coisas e necessariamente tem que atender aos movimentos rítmicos (na valsa, no galope, chotes, mazurca, cotillón, etc.)”[42]. Noldin, por sua vez, afirma que “algumas danças que estão na moda no nosso tempo tem um perigo maior pelo abraço apertado como se realizam, contudo, geralmente não se pode dizer que sejam gravemente desonestas nem, portanto, de si, proibidas como ocasião próxima”[43], palavras que devem ser entendidas corretamente, isto é, que estas danças não são más intrinsecamente, o que é certo teoricamente falando, mas na prática são gravemente más por ser em ocasião próxima universal em razão das circunstâncias…
No mesmo sentido e com uma visão real das coisas, Gury-Ferreres, afirmam que “entre eles (os bailes desonestos em razão do modo de dançar), consideram muitos os que na Espanha se designam como a valsa, a mazurca, o galope, a polka, o chotis, a americana ou habanera, nos quais aumenta o perigo na mesma ordem em que vão sendo ensinados”[44]. E acrescentam que “o perigo provém de um duplo motivo: da íntima união dos corpos do homem e da mulher, e de que os que dançam se perdem entre a multidão, abandonados a si mesmos, dando lugar a uma maior liberdade para conversas indecentes [majorem libertatem habeant verba minus casta proferendi], quando todas as circunstâncias contribuem a incitá-los a pecar; e quanto mais familiaridade existe entre os que dançam, mais perigosas são estas danças e devem ser evitadas de qualquer modo”[45].
A estas razões podemos acrescentar outras que resultam de princípios morais aceitos por todos os autores e que destacam estes atos como perigo próximo de pecado grave e dos quais todos estão obrigados a afastar-se por não serem necessários:
a) O abraço das partes menos honestas – ou menos excitantes – não é em si desonesto ou intrinsecamente mau, ao menos levemente mau (objetivamente), não sendo nunca lícito, enquanto não exista causa proporcionada que compense o perigo que leva consigo (nos referimos ao que se realiza entre pessoas de distinto sexo, não familiares);
b) Os tatos, os abraços morosos e prolongados de determinadas partes, como são as costas, os braços, a cintura, costumam ser ocasião próxima de pecado.[46]
c) As danças, pelos contatos e abraços estreitos e demorados em determinadas partes do corpo como costumam ser realizados, são enormemente perigosos e causa de múltiplas tentações, sendo muitos os que pecam por sua causa.
d) Se olhar as partes menos honestas de uma mulher é pecado venial, mesmo que não seja demoradamente, forçosamente são pecado os toques e certamente graves se são prolongados e apertados.
e) Não sendo, contudo, ações em si mesmo más, para realizá-las são necessárias haver uma causa proporcionada, tanto mais grave quanto maior for o perigo, e assim, só será admissível esta assistência ou participação como ocasião de algum festejo familiar ou social inevitável (exigências do cônjuge, casamento, festa pátria, evento diplomático), e que sejam feitos os resguardos necessários para não transformar em remota a ocasião próxima que estes bailes suscitam;
f) Não se nega que possam existir jovens (de ambos os sexos) para os quais a dança possa não ser um perigo próximo (o que não quer dizer que não pequem por cooperação e escândalo) ou porque seu temperamento é menos excitável, ou porque algumas circunstâncias, em alguns casos, atenuem este perigo, ou porque a assistência seja ocasional e tenham uma sólida formação religiosa.
g) Prescinde-se em tudo isto da intenção luxuriosa ou de deleite diretamente buscado, o qual se existe, ainda que não seja perfeito, é sempre pecado mortal[47].
De tudo o que foi exposto pode-se propor o seguinte princípio para estas danças menos honestas: as danças menos honestas ou desonestas pelo modo de realizá-las, entre pessoas de sexo oposto, ordinariamente jovens, realizadas de modo habitual, constituem por si mesmas perigo próximo de pecado grave, e só serão lícitas por causa proporcionalmente grave e postas as condições que tornem remota a ocasião.
§ 3. AS DANÇAS E SUAS CIRCUNSTÂNCIAS
Toda ação humana recebe sua segunda qualificação moral das circunstâncias que a rodeiam, e desta norma não está isenta a dança, ao que são aplicáveis os princípios gerais sobre a matéria. Deles, nos parece necessário recordar aqui, dois principais: a) um ato mau em si não se torna bom pela reta intenção do agente ou pelas circunstâncias boas que o rodeiam, e b) um ato bom ou indiferente, pode se tornar mal pelo fim do agente ou pelas circunstâncias.
Pode-se falar de circunstâncias objetivas e de circunstâncias subjetivas, segundo que afetem a qualquer homem ou mulher em toda ocasião, ou que afetem somente a determinadas pessoas em razão de alguma condição pessoal.
(a) O fim do agente:
Recordemos novamente a sentença de Santo Tomás: a dança em si mesma [secundum se] não é má, e tudo depende do fim a que alguém se propõe na dança mesma… que seja unicamente para exteriorizar a alegria, como nos casamentos ou circunstâncias parecidas…”[48]
Igual maneira de pensar é a de outro doutor da Igreja, São Francisco de Sales: “para dançar licitamente é necessário que seja por recreação e não por afeição[49]. Pergunta-se também São Francisco em que ocasiões se pode dançar, respondendo que será lícito “quando por condescender ou para agradar à honesta conversação em que alguém se encontra, a prudência e a discrição a façam aconselhável, porque a condescendência… faz boas as coisas indiferentes, e as perigosas permitidas…[50]
Porém se o que se procura é o deleite ou complacência dos sentidos, o prazer da carne, sendo ordinariamente que estes são legítimos só dentro do matrimônio para seu fim próximo, a dança não é lícita, e é gravemente pecaminosa a causa de se colocar voluntariamente em ocasião de pecado de luxúria.
Em outra ordem de coisas, e considerando o fim perseguido, a Igreja condena os chamados “bailes de caridade”, que se organizam para recolher fundos para obras pias[51].
(b) Circunstâncias objetivas:
Devem ser consideradas aqui as seguintes:
(i) As pessoas:
Nunca é lícito às pessoas consagradas (sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos “consagrados”), em razão da sua dignidade, dançar, organizar, assistir ou incitar outras pessoas a participarem dos bailes.
Para os leigos, quando lhes seja lícito fazê-lo pelas razões já apontadas, deve-se considerar também que: não é lícito dançar com pessoas estranhas, de duvidosa ou má reputação ou que não tenham boa intenção.
Estão condenados pela Igreja os bailes infantis[52], e deve afastar-se dos bailes modernos[53] os adolescentes de ambos os sexos.
Apenas a presença dos pais – qualquer que seja a idade dos jovens – pode fazer com que algumas vezes desapareçam algumas grosserias externas escandalosas e chamativas, porém não livra da malícia intrínseca nem os perigos próximos que, por si só, tem alguns bailes. Cabe a eles, enquanto os filhos estão sob sua responsabilidade, proibir, organizar ou assistir os bailes desonestos ou menos honestos[54].
A diversidade ou igualdade de sexo nos bailes não encerra de si mesmo malícia alguma, salvo o perigo de tentação ou intenção libidinosa…
(ii) Os vestidos e os perfumes
É também uma das mais freqüentes circunstâncias de tentação contra a castidade, a grave falta de modéstia na forma de se vestir, em particular, das mulheres jovens, nas ocasiões de assistir festas ou nos lugares de baile. O homem geralmente é muito mais sensível que a mulher a este tipo de provocação.
Aqueles que por sua falta de modéstia no vestir são ocasião de tentação ou escândalo para terceiros no baile, tornam-se responsáveis moralmente do pecado a que induzem com sua imoderação no vestir.
O uso de fantasias nem sempre devem ser reprovados como ilícitos em si, a não ser que haja má intenção ou que seja ocasião de outros pecados…, ainda que, em igualdade de condições com os outros (os sem fantasia), são mais perigosos, particularmente em lugares fechados.
E ainda devem ser considerados como circunstância moralmente má, que muitas vezes os perfumes que as mulheres usam (e também alguns homens) se elaboram com drogas e/ou produtos que adormecem os reflexos, excitam a sensibilidade…
(iii) O ritmo da música e a letra das canções
As danças modernas, em que geralmente os dançarinos não se tocam, nem por isso são menos perigosas. Devem ser igualmente proibidas, além dos motivos já expressados, de acordo com o motivo que aqui consideramos. E uma primeira causa desta proibição moral é o ritmo da música que se utiliza em tais danças, que influenciam grandemente e de modo desordenado sobre as paixões da alma e sobre os sentidos corporais.
Está comprovado que o ritmo “beat”, base musical de todas as danças modernas, produz gravíssimas alterações no sistema nervoso, secreções anormais, estímulo da sensualidade, depressão da inteligência e da razão que desemboca no erotismo, na violência e até no suicídio[55].
Também são circunstâncias que tiram a bondade da dança, as canções que se utilizam e que têm letra sensual ou que incitam ao suicídio ou a qualquer outro pecado…
(iv) O lugar e o ambiente:
Não é mesma coisa os bailes familiares, somente entre parentes, e os que se realizam em casas particulares onde amigos e amigas se reúnem para se divertir, sobretudo por motivo de casamento e/ou aniversários, e que costumam ter uma condição particular especial: a de estender aos que não são familiares, e sim, amigos de amigos, vizinhos e estranhos que aparecem como “penetras”…
É evidente que o baile numa casa de família ou familiar, que se dá diante dos pais e pessoas mais velhas, tem menos perigo do que os que acontecem em outros lugares, desde que o que se dance seja honesto; porém advertimos que somente o lugar, ou uma circunstância, não torna bom o que por seu objeto é mau…
Se for lugar mau, não se pode ir de modo algum, e é o que acontece nos atuais lugares dançantes, seja qual nome for: bares, discotecas, boates, pubs etc., e isto pelas seguintes razões: são lugares normalmente fechados, escuros, com utilização de luz branca e raios laser, pouca iluminação, e onde há um jogo de luzes manipulado constantemente e de tal modo que produz desinibição, estados de excitação das paixões que levam a pecar, levam a uma ruptura com a realidade e perda de toda capacidade de controle, ou seja, perturbações tais que produzem um “curto circuito” nas faculdades conscientes como faz a droga alucinógena.
Porém, também os lugares abertos podem ser circunstâncias más, e ainda agravantes, quando o ambiente é tal que afete a moral e os bons costumes, ou quando degenera em histeria coletiva, atritos, atos de violência ou imoralidade, como ocorrem nos chamados “festivais” ou “concertos” de música beat de grupos ou “bandas” famosas que acontecem em estádios de futebol, centros esportivos ou similares, teatros, etc., para centenas e até milhares de jovens que se amontoam para vê-los em suas contorções frenéticas, escutarem suas canções muitas vezes imorais, para moverem-se agitadamente numa massa amorfa que conduz prontamente a esse histerismo coletivo de que falamos, atos de nudez e ainda sexuais em público, sem freio e sem inibição alguma, quando não se drogam ou praticam outras ações aberrantes…
O “ambiente” que existe nestes bailes modernos é também um grave obstáculo para legitimar a concorrência de um católico: a presença de toda classe de pessoas, sua frivolidade, seu desejo de se divertir sem nenhum freio, a falta de controle dos responsáveis pelo lugar, a falta de modéstia dos vestidos, muitas vezes acompanhados com um show de streepers(nudismo de homens e/ou mulheres), venda de álcool, quando não droga, etc…
(v) Tempo:
Há três aspectos que fazem do tempo uma circunstância má da dança: a freqüência, os horários, o tempo sagrado.
De tal modo se apoderou esta “diversão” da sociedade, em particular dos jovens, que aparece como algo absolutamente necessário em toda reunião familiar, festa profana ou fim de semana. Tudo termina – senão quando começa também – e deve ser amenizado com um baile, e baile moderno como os que descrevemos mais acima.
É um dado evidente que os jovens, nas noites dos fins de semana, “devem” sair para dançar com os amigos…
Esta freqüência faz esquecer os deveres da vida, faz com que a paixão se inflame, o pudor se debilite e o horror ao mal desapareça cada vez mais…
Some-se a isso o tema do horário. Para ninguém passa despercebido o perigo de que os bailes aconteçam à noite e terminem às altas horas da madrugada[56]. Ambas as coisas, horário e duração, combinadas, produzem um enervamento que acaba com toda a reserva moral, e costuma ser a causa de outros pecados que se cometem depois de uma “noitada” cheia de paixão e desenfreio…
Também tem importância assinalar a imoralidade dos bailes realizados nas épocas consagradas a honrar Deus de um modo particular, particularmente no tempo da Quaresma… Alguns Concílios regionais chegaram a proibi-los – e se tratava logicamente de bailes honestos – durante as funções do culto…
(c) Circunstâncias subjetivas:
Todo o anterior foi descrição e princípios morais relativos de circunstâncias objetivas, exteriores ao sujeito e ao mesmo baile considerado em si.
Devemos dizer algo do aspecto subjetivo, ou seja, atender ao próprio sujeito, sua condição pessoal e que pode ser também um obstáculo para assistir ou participar dos bailes…
Não nos referimos à intenção ou fim que pode perseguir quem dance, do qual já falamos mais acima, e sim, supondo a retidão neste ponto, e a honestidade do mesmo baile, de uma questão de temperamentos e sensibilidade pessoal tanto daquele que dança, como daquele que assiste.
O que para alguns pode não ser ocasião de pecado, pode ser para outros, devido ao seu temperamento, sua sensibilidade, e neste sentido, quem corre o risco de pecar, sendo a ocasião do baile normalmente voluntária, deve abster-se do mesmo.
O mesmo deve dizer-se se o risco de pecar vem não da própria condição, mas sim de terceiros que concorrem: não pode escandalizar-se o próximo pela forma de dançar, de vestir-se, etc.
§ 4. RESPOSTAS A ALGUMAS OBJEÇÕES
Para concluir, deve-se responder algumas objeções que levantam os jovens para justificar sua assistência, organização e diversão nos bailes modernos. Não são todas as que se escutam, mas são suficientemente representativas no modo de pensar da juventude de nossa época e mesmo de nossos ambientes tradicionais:
1) Eu não peco porque não danço com má intenção:
É necessário reconhecer o justo direito que o homem tem de uma sã diversão, mas isso não torna bom o que é de si mau. Dançar com boa intenção; qual é essa boa intenção? Está dirigida pela modéstia e pela temperança? Será realmente boa, ou “aparentemente” boa e não um verdadeiro bem[57] o que se está buscando? E ainda, admitindo a retidão da intenção, ela não pode mudar de nenhum modo a natureza das coisas, não pode fazer que o que é naturalmente mau, moralmente, seja bom. Se os bailes são maus ou menos honestos em si, se as circunstâncias que o rodeiam são más não é lícito dançar nem assistir a tais diversões…
2) Há muitas pessoas que dançam e são boas, inclusive melhores que muitas outras que vão à Igreja:
Este argumento é um verdadeiro sofisma: estas pessoas poderão ser boas em muitas outras coisas, talvez em todas as outras, mas nisto de dançar não o são…, e, portanto, não têm a verdadeira bondade cristã, não são católicos virtuosos. Chamar de bom ao que não é integralmente bom é não falar com propriedade, é esquecer aquele princípio que nos recorda Santo Tomás: “a ação não será absolutamente [simpliciter] boa se todas as bondades não se concentram nela, porque o bem, como diz Dionísio, resulta da integridade da causa, e o mal, de um só defeito singular”[58], e mais clara e explicitamente o diz o apóstolo Santiago: “Porque qualquer um que houvesse guardado toda a Lei, e faltasse em um só ponto, tornou-se culpado de tudo”[59]. Deve-se negar em absoluto que um jovem ou uma jovem possa ser muito bom nem propriamente bom diante de Deus se freqüenta estes bailes modernos…
3) Há jovens que são muito piedosos, que freqüentam os sacramentos, que vão à Missa todos os domingos e, contudo, vão aos bailes; portanto esta diversão não será tão má nem pecaminosa como se afirma:
A verdadeira piedade corresponde em “prestar submissão e reverência a Deus como Pai”, ensina Santo Tomás[60]. Essencialmente, portanto, ao amor de Deus importa primeiramente a obrigação de cumprir seus mandamentos[61]… Tomar parte nos bailes modernos vai diretamente contra o sexto mandamento, porque, na melhor das hipóteses, é pôr-se em perigo próximo de quebrantá-lo sem necessidade. Dançar e ser verdadeiramente piedoso é tão impossível como fazer um círculo quadrado… Que os jovens dancem habitualmente e depois freqüentem os sacramentos nos faz suspeitar de muitas confissões e comunhões sacrílegas: não pode haver verdadeiro arrependimento em quem se confessa de ter participado nestes bailes e não faz nada para afastar-se deles… Se essas são suas disposições, de nada valem a absolvição do sacerdote. Sua confissão e comunhão nesse estado é um verdadeiro sacrilégio…
Além disso, alguém deve se perguntar: depois de ter assistido a esses bailes e lugares, tenho mais vontade de rezar? Tenho grandes desejos de virtude? Volto para casa em paz com a minha consciência e com Deus? Sinto-me “melhor” depois de ter dançado sem parar e de modo sensual e frenético durante longas horas da noite? A piedade e o baile são absolutamente incompatíveis.
4) Há alguns sacerdotes que nada dizem sobre o baile, e inclusive que afirmam que se se dança sem má intenção, não há pecado:
É possível que existam, e se é assim, estão erradíssimos. Esses tais não são nem bons sacerdotes nem bons confessores. Pelo contrário, são perigosíssimos, lobos disfarçados em pele de cordeiro que enganam os jovens, cometem uma falta grave de caridade contra eles, e se fazem responsáveis por grandes pecados, próprios e também daqueles que agem conforme seus conselhos.
Porém pode ocorrer também que seu conselho ou explicação tenha sido de um caso geral quando em realidade correspondia a um caso em particular em uma circunstância concreta, e que retirada do contexto tenha se transformado, por razões que preferimos não indagar, em um princípio geral. Em absoluto, não é impossível que o confessor, em um caso particular, autorize a ir dançar, como no caso, por exemplo, de uma mulher casada, verdadeiramente piedosa que pergunta se pode acompanhar seu esposo em um baile de fim de ano – homem rude e de costumes frívolos – porque este está decidido a pensar que se esta não vai com ele, ficará dançando com outras…Nessas circunstâncias, é provável que autorize, tomadas as devidas precauções e para evitar males e pecados maiores, que podem ocorrer no referido baile. Porém isto não permite fazer de tal permissão um princípio geral…
5) É melhor ir dançar que ir a lugares escondidos, como fazem certos casais, porque isso é muito mais perigoso e dá muito mais o que falar:
Dançar não é “melhor” do que ir a “outro lugar escondido…”. Melhor é comparativo de bom, e, portanto, na essência, pode-se dizer que dançar “é menos mal” do que fazer o que fazem alguns…
Ser uma coisa pior que outra, não faz da última boa ou lícita… Além disso, não é inevitável uma ou outra ação: dançar ou a outra… Há muitos jovens que se divertem de maneira saudável sem necessidade de alguma dessas coisas…, e o católico deve buscar esta maneira de se divertir…
6) Se não se dança, se não se freqüenta os lugares de baile, não se consegue casar e nenhum jovem quer ficar solteiro. Ou freira ou casada, dizia alguém, e como não tivesse vocação para freira, então…:
Argumentos semelhantes escutávamos faz algum tempo de um jovem: “ir às discotecas para conseguir uma namorada…”
É num lugar como este que se pode conseguir um(a) namorado(a) verdadeiramente católico(a) tradicionalista?[62] Procurar uma namorada ou um namorado em meio a um baile ou freqüentando as “discotecas” é fora de toda lógica cristã, e não pode ser concebido pensamento assim num jovem católico bem formado.
O casamento concebido dessa forma – se é que verdadeiramente os que vão a esses lugares querem conseguir um(a) esposo(a) – será como dizia um Sumo Pontífice, um “casamento de filme que retirou do homem o respeito pela mulher e desta o respeito por si mesma”; definitivamente, um casamento que não estará fundado em princípios verdadeiramente católicos…, e não se diga que logo o “converterão” ao tradicionalismo…
Faz muitos anos, quando os colégios católicos eram verdadeiramente tais, um ancião e santo religioso, dava este conselho aos alunos que iriam ingressar: “rapazes, não procurem uma namorada na rua”, ensinamento que é reflexo de puro senso comum católico: quem se deixa “abordar” por um desconhecido numa via pública mostra, além de pouco juízo, que tem princípios liberais; e este princípio pode ser aplicado com muito mais razão em relação às “boates”, “discotecas”, “pubs” ou como queiram chamar estes lugares de baile moderno. Quando se deseja um esposo ou uma esposa católica, que seja pai ou mãe católica para criar filhos católicos, jamais o encontrarão nesses lugares, e o mais provável, é que quem se conhece dessa forma e chega a se casar esteja trocando os planos que Deus tinha para ele…
Em todo o caso, sempre será válida a resposta a este argumento capcioso, aquela de São Paulo: “non sunt facienda mala ut veniant bona” (não se deve fazer um mal para se obter um bem) .
7) Todas vão, sou a única que nunca posso ir..:.
Era o argumento de uma menina colegial ainda, que acabava de entrar na adolescência e reclamava com o pai, que lhe proibia de ir dançar com suas amigas aos sábados…
O progenitor havia apresentado inúmeros argumentos, mas não havia utilizado o único verdadeiramente válido e importante: dê graças a Deus por ser a única que no dia seguinte poderá despertar com a consciência tranqüila por não ter pecado indo a esses lugares, por não ter-se colocado em ocasião voluntária de pecar gravemente…
O espírito liberal que invade tudo nos faz pensar que porque todos vão dançar, por ser a maioria que resolveu que é lícito a dança, as suas circunstâncias se transformam, como por arte de magia, em algo bom, conveniente e até necessário… Afastemos de nós este raciocínio falso, semelhante ao que levou à morte a Nosso Senhor Jesus Cristo: “… e todos gritavam a uma voz: Faze morrer este [e] gritavam mais forte: Crucifica-o, crucifica-o…!”[63] Que todos fossem dançar, jamais se poderia fazer bom o que é mau em si mesmo ou por suas circunstâncias ou ocasião…
8) Finalmente, também escutamos dizer que talvez se possa deixar os jovens em uma semi-ignorância que talvez haja, prevendo que quem freqüenta estes lugares não está em condições de parar de ir a eles e se corre o risco de converter em pecado formal algo que não vêem assim, e que se apresenta como pecado material para eles…:
Quem pensa assim tem uma falsa caridade e nenhum conhecimento da moral católica. A caridade se fundamenta na verdade, e ocultá-la, dissimulá-la, não dizê-la nestes casos é consentir no pecado alheio, favorecê-lo, não afastar do pecado a quem deve e pode ser afastado.
Para a teologia moral a semi-ignorância não existe, e não conhecemos nenhum moralista que utilize esse termo em nenhum caso…
Os autores falam apenas em “ignorância”, e a definem, em ordem à moralidade dos atos humanos, da seguinte forma: “falta de devido conhecimento em um sujeito capaz”[64], e que dividem, referindo-se ao sujeito que pode tê-la como “ignorância invencível”, que é aquela que não pode ser desvanecida ou porque de nenhum modo se dá conta do erro ou porque suas tentativas por fazê-la desaparecer foram em vão (perguntando aos outros, estudando o caso etc.)[65], ou como “ignorância vencível” que é aquela que poderia e deveria desvanecer com uma diligência razoável (consultando, refletindo, etc.).
Se a ignorância invencível escusa de pecado por ser totalmente involuntária, e, portanto inculpável, não ocorre o mesmo com a ignorância vencível que é sempre culpada, e, portanto pecado, em maior ou menor grau de acordo com a negligência em averiguar a verdade.
É bom lembrar as reflexões simples que faz um teólogo conhecido em nosso meio hispânico: “a razão da culpabilidade é porque é sempre voluntária. O agente percebe sua ignorância e nada faz – ou muito pouco – para averiguar seus deveres. Contudo, é certo que diminui um pouco o ato voluntário e o faz, por conseguinte, menos culpado; a não ser que a ignorância seja afetada, neste caso aumenta a malícia do ato pela perversa disposição da vontade do pecador, que não quer interar-se de seu dever para não ver-se obrigado a cumpri-lo”[66].
Poderíamos apresentar aqui a possibilidade de uma consciência provável na qual os motivos em que se baseiam o juízo não garantam a certeza, mas também não são suficientes para tornar honesto o ato de dançar. Em outras palavras, tentar justificar a licitude da dança porque se duvida se é lícito ou não, havendo argumentos tanto para dizer que sim ou que não. A consciência provável, ensinam os teólogos, é aquela em que se afirma como sendo somente provável que algum ato é lícito ou ilícito, mas com temor do que lhes é contrário. Seria algo semelhante à opinião, e os autores modernos assimilam a consciência provável à duvidosa (ainda que, em sentido estrito, a consciência duvidosa seja a suspensão do juízo do intelecto que não assume nenhuma das partes contraditórias). Na prática, a solução é a seguinte: esta consciência provável ou duvidosa se reduz também à consciência vencivelmente errônea; com efeito, quem ignora desta forma conhece a sua ignorância e não pode ter certeza de seus juízos. E a consciência vencivelmente errônea, assim como a provável ou duvidosa, não é regra legítima para atuar: “Nunca a consciência duvidosa nem a consciência vencivelmente errônea podem ser a norma reta de uma ação” ensinam os moralistas. Falando de outra maneira, “não é permitido seguir a consciência vencivelmente errônea já seja que mande ou permita algo, nem agir contra ela, senão que é preciso retirar o erro antes de agir”.
“O homem deve se valer de uma séria solicitude para ter uma consciência certa”, e por isso os jovens devem se informar a respeito de seus deveres morais, particularmente neste em que estamos tratando: a dança; e por sua vez, aos pastores lhes urge pregar, ensinar e aconselhar neste assunto e não podem deixar os jovens na ignorância…, nem numa suposta “semi-ignorância”; pelo contrário, fazem-se culpados de uma gravíssima negligência em seus deveres pastorais e responsáveis pelos pecados que aqueles cometerem por não terem sido retirados de seu desconhecimento ou erro sobre este tema.
Ensina Santo Tomás que “a ignorância implica na privação da ciência, a saber, enquanto falte para alguém a ciência daquelas coisas que por natural aptidão pode saber e algumas destas se está obrigado a saber, como aquelas sem cuja ciência não se pode exercer com segurança o devido ato; pelo que todos estão obrigados a saber comumente as coisas que são de fé e os preceitos gerais do direito; e cada um em particular as que dizem respeito ao seu respectivo estado…”[67].
E assim, aos jovens lhes está imposto o dever – insistimos – de interrogar, de informar-se acerca do modo de se divertir cristianamente e a respeito da licitude ou não dos bailes modernos… Sua ignorância neste ponto de nenhum modo pode ter-se como “invencível” ou “inculpável”, porque facilmente podem obter o conhecimento que precisam sobre o particular…: “pela negligência, a ignorância de algo que alguém está obrigada a saber que é pecado…, [e] a ignorância vencível é sim um pecado, se versa a respeito de coisas que se está obrigado a saber”[68].
Por isso afirma com toda razão o Doutor Angélico que “se a razão ou a consciência é errônea por um erro direto ou indiretamente voluntário no tocante às coisas que alguém está obrigado a saber, tal erro não exime de pecado a vontade que segue a razão ou a consciência errônea”[69]. Os jovens devem formar-se moralmente…, os sacerdotes devem formá-los nestes temas morais!
Diz-se ainda na objeção que “quem freqüenta estes lugares não está em condições de acabar com eles e corre o risco de converter-se em pecado formal algo que não vêem assim, e que hoje não passa de pecado material para eles”.
Várias coisas devem ser consideradas aqui: 1) A falta de “condições”(?) para cortar com esta ocasião provém de uma falta de firmeza na vontade? 2) Ou não querer fazê-lo, quer dizer, deixar de ir dançar, porque acreditam que não é pecado? 3) Ou, por que apesar de tudo não vão deixar de ir? E no segundo caso: 4) Que classe de ignorância é a sua para que se possa dizer que é apenas pecado material?
Se se está atento ao que foi explicado, vê-se claramente que a questão da “ignorância” é um problema de “inteligência”, e, portanto, se o problema é a fraqueza da vontade (interrogação 1), o remédio é fortalecê-la pelos meios adequados, porém não é deixá-los expostos a uma ocasião que produz piores males dos que se supõe.
Se é porque simplesmente não irão deixar de ir (interrogação 3), ainda que saibam de sua malícia, o único que resta é negar-lhes a absolvição…
Mas se seu juízo “supostamente” bom sobre as danças modernas é por ignorância, ou em todo caso por erro (interrogações dois e quatro), como se deve resolver o problema? A ignorância nestes casos nunca é invencível porque com um mínimo de esforço – que por outro lado é obrigação do jovem –, pode chegar a conhecer algo que é necessário para sua “vida moral”, e, portanto nunca excusa de pecado formal. O que deve ser feito, nos ensina Santo Afonso: “é obrigação do confessor alertar ao que está na ignorância culpável de algum de seus deveres, já provenham eles da lei natural ou da lei positiva. Quando esta ignorância é inculpável, deve-se fazer uma distinção: se alguém ignora as coisas necessárias para se salvar, é de todo evidente que devemos retirá-lo do erro[70], e aqui se trata de cumprir com o sexto mandamento…, cujos violadores, ensina São Paulo, não entrarão no reino dos céus. Assim, não se pode falar em deixar que o jovem cometa, nesses casos, pecado material, isto é, que quebrante involuntariamente a lei de Deus porque não existe tal ignorância invencível: ele deve conhecer suas obrigações morais e o sacerdote tem obrigação de instrui-lo sobre o tema.
9) Mas é necessário se divertir na vida, não é possível viver virtuosamente sem ter um momento de relaxamento, pelo que é lícito dançar:
Certamente que a recreação é necessária ao homem e conforme a reta razão, e ensina Santo Tomás que o contrário é vício: “é obrar contra a razão não participar da alegria comum e impedir a recreação amena dos outros”[71].
Na vida é necessário certo repouso, e para consegui-lo fazem falta as distrações que o proporcionem e “essas atividades, segue ensinando o doutor Angélico, em que se busca o prazer do espírito se denominam… festas, e é necessário usá-las para descanso da alma[72].
A virtude que regula esta atividade é a “eutrapelia”, que retifica, segundo a reta razão, estas diversões, porque “se, sob o pretexto de diversão, comete-se uma ação imoral em si mesmo ou nociva para o próximo em matéria grave, temos um pecado grave”[73].
É por isso que destaca Santo Tomás que, nestas diversões é necessário considerar três coisas: “antes de tudo é necessário não buscar o dito prazer em coisas torpes ou nocivas; convém, além disso, não perder a gravidade do espírito; e em terceiro lugar devemos considerar que a brincadeira [a diversão] deve acomodar-se à dignidade da pessoa, circunstâncias de lugar, tempo etc., ou como diz Cícero, “algo digno do homem e do momento”. Tudo isto ponderado pela reta razão”[74].
E assim pode existir “excesso em razão das circunstâncias, como divertir-se em tempo e lugar indevido, ou em forma que vai contra a dignidade da pessoa e de seus negócios, e isto pode ser às vezes pecado mortal pela veemência do afeto que se põe… menosprezando os preceitos de Deus ou da Igreja”[75].
E nossa dignidade é a de ser filhos de Deus, irmãos de Cristo, por quem fomos redimidos pelo preço de seu Sangue divino e nos vem a salvação, herdeiros do Céu se cumprirmos seus mandamentos de amor…
Assim se explica que “uma diversão má em si mesma, nunca está autorizada; uma diversão má não é lícita se escolhida por nenhum preço, [e também] uma diversão orientada para o mal, deve igualmente ser proibida, … e a causa dessa proibição é que, o que ama, ou quer o perigo sem a menor necessidade, é, pela mesma razão, considerado desejoso do mau que se lhe está unido; porque, em segundo lugar, toda lei, assim como veda sua violação, proíbe tudo aquilo que leva a sua transgressão. Esquivar-se da ocasião próxima não é, pois, um simples conselho, mas um preceito imposto por Deus mesmo”[76].
§ 5. DANÇAS HONESTAS
Depois de tudo o que foi dito, a juventude hoje em dia pode praticar algum tipo de dança? Trata-se, obviamente, de determinar em primeiro lugar se existem danças moralmente honestas por seu objetivo, segundo os critérios dados por Santo Tomás, aos que já fizemos referência, e que é nossa referência segura sobre o tema, e que então sejam legítimas como expressão de uma alegria cristã… Porém a isso deve ser acrescentado também, se compreendemos tudo o que foi dito até agora, circunstâncias “boas”, no sentido moral do termo.
Para que a dança seja honesta e lícita, é necessário que, sendo expressão de uma sã alegria da alma, seus movimentos sejam ordenados de acordo com a reta razão, com arte, harmonia e conforme o que buscam exteriorizar, afastada toda a sensualidade, indecência, atrevimento ou liberdade de gestos, giros e/ou atitudes que possam levar à lascívia. Devem ser danças decentes, isto é, diz S. Afonso, “sem que mediem atos, posturas, movimentos ou contatos contrários à pureza”[77].
Assim fica excluído como danças honestas a dança abraçada, que põe em contato os corpos (em particular os peitos) dos dançarinos, pelo perigo próximo de sensualidade em que se colocam os participantes…
A estas “qualidades objetivas” devem somar-se: 1) o motivo honesto dos que concorrem e dançam: um casamento, uma festa familiar etc…; 2) lugar decente: casa particular, ou lugar aberto (por exemplo, como são as danças em praças públicas por motivos de festas patronais) e não público (pelos perigos que implicam se são fechados, estreitos, e além da índole dos assistentes, aglomeração etc.); 3) na presença de pessoas mais velhas, respeitáveis, de costumes honestos; 4) com pessoas decentes, ou seja, virtuosas e que saibam conduzir-se conforme os costumes católicos em tais circunstâncias; 5) por pouco tempo[78] e em horários convenientes; 6) com vestimenta cristã; 7) com retidão de intenção; ou seja, com a única finalidade de divertir-se por um momento honestamente…
Estas qualidades encaixam-se perfeitamente nesses bailes regionais ou danças populares, expressão de arte rítmica, de agilidade e destreza, que haviam nos povoados, festas cívicas ou patronais, e até com a presença do padre paroquial.
Eram, entre outros da mesma índole, as danças e os bailes folclóricos da Espanha e da América Latina que aconteciam durante a época colonial[79] e até tempos mais próximos, as danças “criollas” que aconteciam no interior do nosso país[80] e que, atualmente são consideradas como relíquias de costumes de um passado que não se deseja recuperar.
Nada pode ofender a moral cristã a respeito de tais costumes, e talvez alguém se pergunte se, fora desses tipos de danças, hoje poderia dar-se o título de “honesto” e por conseqüência, “lícito” a alguma das danças que os jovens atuais usam em suas festas ou entretenimentos. A resposta é clara: se há a possibilidade de aplicar ao mesmo tempo todas as condições e circunstâncias descritas acima, pode-se praticá-las, salvo proibição para aquelas que, ainda que todas as normas tenham sido cumpridas, as referidas danças sejam uma ocasião pessoal de pecado por motivos subjetivos.

[1] É bom recordar aqui o que era ensinado aos bispos do mundo inteiro em uma carta da Sagrada Congregação do Concílio no ano de 1954: “Ninguém desconhece, com efeito, como, principalmente durante o período de verão, em qualquer lugar que seja, contemplam-se espetáculos que não podem deixar de ofender a vista e o espírito de quem não renunciou à virtude cristã e ao humano pudor. Não só nas praias e nos lugares de veraneio, mas também em quase toda a parte, nas ruas das cidades, privada e publicamente, e, com freqüência, mesmo também nas igrejas, generalizou-se um vestuário indigno e desavergonhado, que põe a juventude – facilmente inclinada ao vício – em gravíssimo perigo de perder sua inocência, máximo ornamento e o mais precioso de sua alma e de seu corpo. O ornamento feminino, se ornamento pode chamar-se, e os vestidos femininos, ‘se vestidos podem chamar-se quando nada apresentam que possam defender o corpo nem mesmo o próprio pudor’ (a), freqüentemente são de tal feitio que mais parecem servir à desonestidade que ao pudor. A isso soma-se que toda malícia e desonestidade, privada e pública, é apregoada descaradamente nos periódicos, revistas e folhetos ou onde há mais afluência de gente, oferecendo-lhes de forma animada e colorida nas telas dos cinemas, de maneira que já não só a incauta e débil juventude, mas até mesmo os de idade provecta, sentem-se empolgados pelas mais insanas solicitações. Ninguém ignora como, de tudo isso, derivam grandes males, com seus subseqüentes perigos, para a moralidade pública. Surge, pois, a necessidade de que não somente se recomende a todos como algo bom a beleza do pudor apresentada em sua luz própria, mas também se reprima e, até mesmo, proíba-se, na medida do possível, os atrativos e excitações dos vícios; e finalmente que todos retornem à devida severidade de costumes, porque, como disse o máximo orador romano: ‘Com freqüência vemos serem vencidos no pudor, àqueles que nenhum argumento pudera vencer’ (b). Todos compreendem bem como nos achamos diante de um problema gravíssimo, do qual depende não só, e principalmente, a virtude cristã, como também a saúde mesma do corpo, e, ainda, o vigor e fortaleza da sociedade humana. Razão teve o antigo poeta ao dizer: ‘Princípio do pecado é já quando os corpos se apresentam publicamente desnudos.’ (c); por tudo isto, este assunto, como facilmente se vê, diz respeito não somente à Igreja, senão também aos que governam a sociedade, pois todos devem desejar que não se debilitem nem se rompam as forças corporais ou as defesas da virtude. E, principalmente a vós, aos que o Espírito Santo colocou para reger a Igreja de Deus, considerareis isto com a máxima atenção, cuidando e promovendo tudo aquilo que possa contribuir para a melhor defesa do pudor e para a melhoria dos costumes cristãos: ‘Pois todos somos templos de Deus porque se nos infundiu o Espírito Santo que nos consagrou, o vigilante e reitor deste templo é o pudor, que não deverá permitir que nele penetre nada de impuro ou profano, para que não seja ofendido aquele Deus que aí habita e, então, abandone a sua morada.’ (d) Pois então, todos compreendem bem como, pelo modo atual de vestir-se, especialmente entre as mulheres e as jovens, faz-se grave ofensa à modéstia que ‘é companheira do pudor e cuja companhia é a melhor defesa da castidade’(e). Por tudo isso é de necessidade absoluta o avisar e exortar da melhor forma possível a todas as classes de pessoas, mas, singularmente, à juventude, para que cuidem de evitar os perigos de tantas ruínas que, por sua total oposição à virtude cristã e à humana, podem pô-las em gravíssimo perigo. Quão belo é o pudor, a mais brilhante pérola dos costumes! Razão é, portanto, para que não seja ofendida nem violada por fáceis lisonjeios e atrativos dos vícios que nascem daquelas maneiras de vestir ou de outras ações, já referidas, e que os homens de bem não podem mais que lamentar.”
a) Sêneca, De ben. VII; b) Cícero, Tusc., II, 21; c) Ênio, apud Cícero, Tusc., IV, 33; d) Tertuliano, De Cultu Fem., II, 1; e) S. Ambrósio, De Off., I, 20.
[2] Alocução ao Primeiro Congresso Internacional de Alta Costura, de 8 de novembro de 1957.
[3] Idem nota anterior.
[4] Idem nota anterior.
[5] Idem nota anterior.
[6] “Et quæ putamos ignobiliora membra esse corporis, his honorem abundatiorem circundamus… Honesta autem nostra nullius egent” (1 Cor. XII, 23-24).
[7] Cfr. Merkelbach, B. (O.P.) em “Quæstiones de Castitate et Luxuria”, edição 4ª, ano 1936, edit. La Pensée Catholique, Bélgica, p. 71; Prümmer, em “Manuale Theologiæ Moralis, t. II, nº 691, p. 534, ed. Herder, ano 1961; Noldin em seu complemento “De Sexto Præcepto et Usu Matrimonii” à “Summa Theologiæ Moralis”, nº 48, p. 50, ed. Oeniponte (Pustet), ano 1907, ed. 9ª, Ratisbona; Loiano S. (O.M.C.), em “Institutiones Theologiæ Moralis ad normam Iuris Canonici”, vol. V, nª 127, p. 147, ed. Marietti, ano 1952, etc.
[8] Dizem-se desonestas não secundum se, porque nada do que foi criado por Deus é desonesto, senão porque como objeto de abraço, toques, beijos e/ou olhares, ordinariamente terminam, pela sua própria natureza, em atos desonestos ( “Terminare actus deshonestos natæ sunt”)
[9] Pastoral de 21 de julho de 1951, citada pelo Pe. Blanco Piñán em “Alegrai-vos no Senhor – a Igreja e os costumes e diversões modernas”, ed. Fax, Madri, ano 1957, p. 223.
[10] Em francês “maiô” significa traje de banho, mas em português, a palavra é utilizada como traje de banho de uma só peça e que na época começava a utilizar-se, em que, assinalando o contorno das formas do corpo, deixava também descobertas as pernas, os braços, as costas, parte do peito…
[11] Citada pelo Pe. Piñán, o. c., p. 222.
[12] Alocução à Juventude Feminina da Ação Católica, de 22 de maio de 1941, citada em “O Problema da Mulher, Ensinamentos Pontifícios”, ed. Paulinas, Bs. Aires, nº60, p. 54.
[13] Publicado na Revista “Criterio” nº 285, p. 473 nota.
[14] Por suposto que não é lícito nem mesmo nesta circunstância tomar banho de sol completamente desnudo.
[15] “Alocução ao Primeiro Congresso Internacional de Alta Costura”, de 8 de novembro de 1957.
[16] E mais…, segundo um artigo publicado em um jornal de Buenos Aires, em que se conta a organização de festas durante todo o fim de semana. Com o título “Siga a festa… até qualquer hora… maratonas de música eletrônica que se organizam em casas de campo e discotecas para dançar de dia”, o jornal “La Nación”, do dia 3 de março de 2003, informa a respeito dos chamados “after hours… onde o pôr do sol não determina o fim da festa, em que nada parece ser suficiente, e agora alguns se estendem até às 21:00 h…”. Vale a pena transcrever algumas das declarações transcritas pelo mesmo jornal. Uma mulher, de trinta e cinco anos de idade, diz: “De segunda a sexta-feira tenho uma vida supernormal. Trabalho de recepcionista e vivo com meus pais. Mas, os fins de semana são para mim de um desfrute total”… Um jovem, por sua vez, afirma: “… para muita gente isto é uma festa. E não ponha o meu nome, pois minha mãe pensa que estou jogando uma partida de futebol em um clube campestre…” Um estudante assinala que “aqui cada um está em seu mundo… a mim me encanta esta agitação. [sic] de dançar até qualquer hora.”, e outra mulher diz: “Ontem me levantei às 6:00 h. Trabalhei o dia todo; à noite, fui dançar e depois fui a uma reunião… Como agüento? Isso não se pergunta”… Curiosamente, e como por casualidade, na mesma página, o jornal traz um artigo sobre a substituição – por razões de custo – da droga “extasis”, que invadiu as festas de dança na década de 90, por outro alucinógeno que se vende nas lojas veterinárias. Ali se fala de “a droga do desenfreio e a dança sem fim… que tem as propriedades de um anestésico, com a diferença de que a pessoa continua desperta [sic]. Os rapazes e as moças dançam, mas não sentem o corpo. E se alguém os golpeia ou os toca, não o percebem, porque a droga anula uma das defesas naturais do organismo”… “O efeito que provoca é definido por seus consumidores – assinala o artigo – como de separação do corpo e da mente. Não é droga de marginais e no último ano houve um aumento considerável de consultas por consumo de ketamina (é o nome da droga)”. A notícia conclui que “segundo um estudo da Food and Drug Administration dos Estados Unidos, o uso prolongado de Ketamina pode provocar delírio, amnésia, deterioramento da função motora e problemas respiratórios potencialmente mortais”.
[17] Ed. Livraria Católica Ação, Buenos Aires, 1959, nº 53, pg. 94.
[18] Em seu “Dicionário de Teologia Moral, editorial Liturgia espanhola”, Barcelona, 1960, verbete “O baile”.
[19] Outras definições desta “ação humana” têm sido dadas, entre elas transcrevemos as seguintes: “A dança vem a ser um conjunto de movimentos compassados, posturas, gestos e atitudes…, sendo o essencial o movimento do corpo e como fundamento uma certa intensidade de afetos anímicos que não podem expressar-se suficientemente com toda a linguagem”(Pe. Rufino Villalobos Bote, em “Es pecado bailar? No es pecado bailar?” ed. Difusora Del Libro, Madrid, pg. 23-24); “Uma sucessão de saltos e passos regrados por uma cadência” (Littré, cit. por Villalobos Bote, 1. c.) , “O baile é um movimento do corpo que se faz, segundo uma cadência ordinariamente ao som de instrumentos ( Pe. Guerin, cit. por Villalobos Bote, 1. c.).
[20] Vicente Hernández, em “El Baile”, ed. Studium, Madri, ano 1961, pág. 14.
[21] Entre outros, o de Maria (Ex. XV, 20), o da filha de Jefté (Jud. XII, 34), e o da mesma Judit (Jud. XV, 15)
[22] Ex. XXXII, 15 e ss.; Mc. VI, 17-29.
[23] Card. Roberti, 1.c.
[24] Ecli. IX, 4.
[25] Jó, XXI, 12-13.
[26] Encíclica “Sacra propediem” de 6 de janeiro de 1921, em “encíclicas Pontifícias”, ed. Guadalupe, t. I, pág. 975.
[27] S.T. II-II, q.168, a. 1.
[28] S.T. II-II, q. 160, a. 2
[29]. Is. III, 16: “Et dixit Dominus: pro eo quod elevatae sunt filiæ Sion, et ambulaverunt extento collo, et nutibus oculorum ibant, et palaudebant, ambulabant pedibus suis, et composito gradu incedebant” (“E disse o Senhor: Pois que as filhas de Sião se elevaram, e andaram com a cabeça emproada, lançando olhares [desavergonhados], caminhando [afetadamente] a passo miúdo, e caminhavam dançando fazendo ruídos com os pés”) .
[30] “quæritur de ludis chorealibus, utrum sine peccato exerceri possint, propter illud quod dicit, et plaudebant: arguit enim tamquam peccatum”.
[31] In Is. III, cap. 3: “… Ad quod quidem dicendum, quod ludus secundum se non est malus; aliter enim in ludis non esset virtus quæ dicitur eutrapelia: sed secundum quod ordinatur diverso fine, et vestitur diversis circumstantiis, potest esse actus virtutis et vitii. Quia enim impossibile est semper agere in vita activa et contemplativa; ideo oportet interdum gaudia curis interponere, ne animus nimia severitate frangatur, et ut postmodum homo promptius vacet ad virtutum opera. Et si tali fine fiat de ludis cum aliis circumstantiis, erit actus virtutis, et poterit esse meritorius, si gratia informetur. Istæ autem circumstantiæ videtur in ludo choreali observandæ præcipue: ut non sit persona indecens, sicut clericus, vel religiosus: ut sit tempore lætitiæ, ut liberationis gratia, vel in nuptiis, et hujusmodi: ut fiat cum honestis personis, et cum honesto cantu; et quod gestus non sint nimis lascivi, et si qua hujusmodi sunt. Si autem fiat ad provocandum lasciviam, et secundum alias circumstantias indebitas, constat quod actus vitiosus erit”.
[32] S.T. II-II, q. 168, a. 2 ad 1.
[33] Encíclica “Sacra Propediem”, de 6 de janeiro de 1921, publicada em “Encíclicas Pontifícias”, ed. Guadalupe, Bs. Aires, t. 1, pág. 975.
[34] Encíclica Übi Arcano”, de 23 de dezembro de 1922, em “Encíclicas…”, t. 1, pág. 1005.
[35] Entre outros, ver: “Discurso aos recém-casados”, de 24 de junho de 1940, “Alocução às mulheres italianas”, de 21 de outubro de 1945; “Alocução à União de mulheres católicas”, de 24 de junho de 1949…
[36] Não podemos aqui descrever as características das danças cujos nomes colocamos em seguida, mas podemos caracteriza-las de um modo geral dizendo que são os antepassados “mais ou menos próximos do ”.
[37] Entre outros documentos do Magistério que explicitamente condenam o “tango”, transcrevemos o de D. Chollet, Arcebispo de Cambrai na Semana religiosa da Diocese de 20 de março de 1920: “O tango, o fox-trot e outras danças análogas são diversões imorais por sua própria natureza. Estão proibidos pela própria consciência em toda parte e sempre, anteriormente a quaisquer condenações episcopais e independentemente delas. Semelhantes condenações agregam somente uma nova obrigação de não praticá-las. Sendo estas danças imorais por sua própria natureza, são também proibidas quando por um subterfúgio se conservam nelas as figuras e trocam somente o nome”. (cit. por Vicente Hernández, o.c., p. 58).
[38] O termo “rock and roll”, que identifica um novo ritmo de música e de dança, foi inventado por um “disc-jockey” de Cleveland (E.U.A.), mas o que a maioria ignora é que esta expressão descreve os movimentos do corpo durante as relações sexuais” (Pe. Jean-Paul Régimbal, em seu artigo “O Rock’nd Roll” publicado na revista Verbo da Argentina, nº 246, setembro de 1984, pág. 65 e seg.).
[39] Cf. também, Pe. Vicente Hernández, em o.c., pág. 80.
[40] Cf. Vicente Hernández, o.c., pág. 91.
[41] Citado por Rufino Villalobos Bote, em o.c., pág. 150-151.
[42] Em suas “Quæstiones pastorales, ”, II, b, cit. por Vicente Hernández em o.c., pág. 93, nota 68.
[43] Em “Summa Theologiæ Moralis”, t. 3, n. 421, pág. 437, ed. Herder, ano 1951.
[44] Em “Compendium Theologiæ Moralis”, ed. Subirana, Barcelona, ano 1910, t. 1, nº 242, pág. 184.
[45] Idem nota anterior.
[46] Entre outros, cfr.: Santo Afonso Maria de Ligório em “T.M. lib. 3, n. 423; Noldin, em “De sexto Præcepto” (ed. Pustet, Roma, ano 1907), n. 51 e ss.; Prümmer, o.c. t. 2, n. 694; Zalba, “Theologiæ Moralis Summa”, ed. Bac, Madri, ano 1957, n. 461 e.; etc.
[47] Santo Afonso, o. c., Lib. 3, n. 415.
[48] In Is. III, cap. 3.
[49] “Introdução à Vida Devota, edições Dictio, Bs. Aires, ano 1980, cap. XXXIX, pág. 251.
[50] Idem nota anterior.
[51] Concílio Plenário Limense da América Latina, aprovado por Leão XIII em 1/1/1900: “799… Reprovamos as coletas de esmolas, que com o nome de Bailes de caridade, autorizam um vício contrário à verdadeira caridade, a qual é mãe e tutora da honestidade de costumes e da moderação cristã, e de nenhuma maneira da mundana dissolução…”
[52] Idem nota anterior: “758. Reprovamos o abandono dos pais, que, concedendo a seus filhos absoluta liberdade no trato com pessoas de sexo diferente, não protegem bastante a sua pureza contra os perigos que a rodeiam, não evitam os namoros precoces, e não robustecem nem fomentam em seus corações o amor à castidade. Por isso, declaramos dignos de igual reprovação aos promotores e fautores dos bailes infantis, e gravissimamente encarecemos no Senhor aos pais, que não exponham seus filhos a tamanhos perigos, ainda que para buscar desculpas para os pecados, apresentem não poucos pretextos, com aparência de honestidade”.
[53] Incluímos neste conceito de “bailes modernos”, todos os descritos em nossa exposição até agora.
[54] Idem nota anterior. “759. Condenamos terminantemente…, os bailes e espetáculos desonestos, pouco honestos ou perigosos, e declaramos que se desviam do caminho da salvação, os pais que, seja com seu exemplo, seja com sua negligência em repreender a seus filhos, ou em afastá-los eficazmente destes perigos, se tornam cúmplices e fautores de tamanhas iniqüidades”.
[55] Transcrevemos aqui parte de um trabalho – já antigo e superado ‘do Pe. J. P. Regimbal (OSST) sobre os efeitos físicos e morais da música rock: “a) As conseqüências físicas: numerosos estudos têm sido empreendidos para avaliar os diversos efeitos da música rock depois de graves traumatismos de ouvidos, vista, coluna vertebral, sistema endócrino e sistema nervoso dos ouvintes assíduos deste tipo de música. Bob Larson e uma equipe médica de Cleveland revelaram vários sistemas convincentes em mais de duzentos pacientes: Temos mostrado que esta música pode ter como efeitos conseqüências físicas assombrosas: mudanças na pulsação e na respiração, secreção acrescentada das glândulas endócrinas, em particular a glândula pituitária que regula os processos vitais no organismo. Quando aumenta a música a laringe se contrai, quando abaixa se distende. O metabolismo de base e a porcentagem de açúcar no sangue se modifica ao longo da audição. Pode-se então pensar em “jogar”sobre o organismo humano como se toca um instrumento musical, e de fato certos compositores de música se propuseram manipular o cérebro provocando um curto circuito nas faculdades conscientes tal como faz a droga. O ritmo predominante do rock e do pop condiciona primeiro o corpo e logo estimula certas funções hormonais do sistema endócrino. Estes efeitos aumentam com a intensidade da música. Além dos 80 decibéis o efeito é desagradável, além dos 90 se torna prejudicial. Ora, nos concertos rock tem sido medido de 106 a 108 decibéis no centro do salão e cerca de 120 perto da orquestra; os especialistas também descobrem nos jovens problemas de audição próprios dos adultos com mais de cinqüenta anos, assim como um aumento inquietante das doenças cardiovasculares ou problemas de equilíbrio. Nos problemas visuais a intensidade de iluminação especial e a utilização de raios laser têm produzido danos irreversíveis nos olhos de alguns participantes.” O professor Paul Zenier, da Universidade de Purdue, explica: “…certas discotecas estão equipadas com efeitos laser. Se o raio penetra no olho pode produzir uma queimadura na retina com formação de uma mancha cega e permanente. Além disso, os raios de luz animada que aparecem ao ritmo da música, produzem vertigens, náuseas e fenômenos alucinantes”. Autoridades sérias têm denunciado isto, em particular o fez o governo britânico, que mandou publicar uma advertência em um folheto de segurança em meios escolares. O célebre músicoterapeuta Adam Knieste, no informe de um estudo realizado durante dez anos sobre os efeitos da música rock, escreveu: “O problema central causado pela música rock nos pacientes que eu tenho tratado, deriva claramente da intensidade do ruído, o qual provoca a hostilidade, esgotamento, narcisismo, pânico, indigestão, hipertensão… O rock não é um passatempo inofensivo; é uma droga mais mortal que a heroína e que envenena a vida de nossos jovens”. No plano sexual, a equipe médica de Bob Larson afirmava categoricamente: “As vibrações de baixa freqüência, devidas à amplificação da guitarra baixo, às quais se agrega o efeito repetitivo do beat, produzem um efeito considerável sobre o líquido cérebro-espinhal. Por sua vez, este líquido afeta diretamente a glândula pituitária que regula a secreção de hormônios. O resultado global é um desequilíbrio dos hormônios sexuais e suprarenais, assim como uma mudança radical da taxa de insulina no sangue, de maneira que as diversas funções de controle das inibições morais caem abaixo do tolerável ou estão completamente neutralizadas.
b) As conseqüências psicológicas: Se tão graves são os efeitos fisiológicos, os efeitos psicológicos o são mais ainda. Não há quem se submeta impunemente durante um tempo prolongado à influência despersonalizadora do rock, que não sofra traumatismos psicológicos afetivos profundos. Basta-nos enumerar dez que se repetem quase sempre nas análises médicas e psiquiátricas dos doutores Mac Raferty, Gramby Bline, Barnard Saibel, Walter Woight, assim como Frank Garlok, Tom Allen e outros em diversos trabalhos: 1) Modificação das reações emotivas que vão da frustração à violência incontrolável; 2) Perda de controle, tanto consciente como reflexo, das capacidades de concentração; 3) Diminuição considerável do controle da vontade sobre impulsos do subconsciente; 4) Superexcitação neuro-sensorial que produz histeria, euforia, sugestividade e inclusive alucinação; 5) Transtornos sérios da memória, das funções cerebrais e da coordenação neuro-muscular; 6) Estado hipnótico ou cataléptico que converte a pessoa em uma espécie de zumbi ou robô; 7) Estado depressivo que vai desde a neurose até a psicose, sobretudo quando se combinam música e droga; 8) Tendências suicidas e homicidas aumentadas com a audição quotidiana e prolongada da música rock; 9) Automutilação, autoimolação e autocastigo, sobretudo nas grandes concentrações; 10) Impulsos irresistíveis de destruição, de vandalismo e de levantes de descontentes, depois de concertos e festivais de rock”.
[56] Não faz muito tempo, um governador da Província de Buenos Aires, Argentina, decretou a obrigatoriedade de se fecharem os lugares de dança às 3:30 h da madrugada. A medida gerou tal oposição pública que deveu deixar-se sem efeito o decreto correspondente, voltando ao horário habitual de fechamento às 6:00 h da manhã.
[57] Conf. S. T. I-II, q. 18, a. 4 ad 1.
[58] S.T. I-II, q. 18, a. 4 ad 3.
[59] Sgo. II, 10: “quicumque autem totam Legem servaverit, offendat autem in uno, factus est omnium reus”.
[60] S.T. II-II q. 121, a. 1.
[61] Jn. XIV, 21: “Quem recebe os meus mandamentos, e os observa, esse é o que me ama”.
[62] Ver nosso artigo sobre o noivado, onde falamos do tema de ser “tradicionalista” como uma condição para ambos os noivos na extraordinária circunstância da crise atual da Igreja.
[63] Lc. XXIII, 18-21.
[64] “Teologia Moral para seculares, do Pe. Royo Marin (OP), t. I, n. 45, p. 49 (Ed. BAC).
[65] Usando as palavras de Santo Tomás: “a ignorância invencível é aquela que não pode superar-se por nosso próprio esforço” (studio superari non potest).
[66] Idem nota anterior, n. 46, p. 51.
[67] S.T. I-II, q. 76, a. 2.
[68] Idem nota anterior.
[69] S.T. I-II, q. 19, a. 6.
[70] “Prática do confessor” pg. 51, ed. El Perpétuo Socorro, Madri. Ver também sua Teologia Moral L. VI, nº 610 e 611.
[71] S.T. II-II, q. 168, a. 4.
[72] S.T. II-II, q. 168, a. 2.
[73] S.T. II-II, q. 168, a. 3.
[74] S.T. II-II, q. 168, a. 2.
[75] S.T. II-II, q. 168, a. 3.
[76] F. A. Vuillermet (OP), o.c., pág. 40.
[77] “Theologiæ Moralis”, L. 3, n. 429.
[78] “À vida é suficiente pouca recreação” ensina Santo Tomás (S.T. II-II, q. 168, a. 4). Ver o que dissemos sobre a diversão”.
[79] Ainda que não todos, porque alguns, como o “fandango”provocaram a proibição explícita “que pessoa alguma de qualquer dignidade, caráter, qualidade ou condição que seja possa acorrer a semelhantes danças em casas particulares”, sob pena de excomunhão maior para todos, além de severíssimas multas e até prisão (Decreto do bispo de Buenos Aires, datado do dia 30 de junho de 1746.
[80] Na Argentina, país de origem do autor do presente artigo (N.T.).
Fonte: Beneditinos

A beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual

Pierre de Craon Lejeune



INTRODUÇÃO


O conceito de belo é sem dúvida, de todos os conceitos que interessam o homem, o mais interessante e o mais fecundo. Um grande número de pessoas é incapaz de se dedicar ao estudo e ao conhecimento de grandes verdades especulativas, por meio de observações longas e que exigem tempo, paciência e, muitas vezes, grande capacidade de abstração. Mas até as inteligências mais simples são capazes de ver que algo é belo e de se alegrarem com isso.

Admiravelmente, e de modo quase paradoxal, o conceito de belo possui uma ligação estreita com conceitos bem altos, a saber: de verdade, de bem, de ordem, de harmonia, de perfeição.

Todas as épocas sempre se interessaram pela beleza e nossa época não foge deste interesse.

De fato, o mundo moderno é obcecado pela beleza. Todos nós somos quotidianamente atacados por uma avalanche de apelos que buscam nos convencer de que a maior preocupação dos homens deve ser a saúde e a estética.

Contraditoriamente, nunca se defendeu tanto a ruptura das regras estéticas como na arte moderna. Octavio Paz, analisando a modernidade e a arte moderna, afirma “que a modernidade é uma espécie de autodestruição criadora” (Octávio Paz, Los hijos del limo, Tajamar Editores, Santiago, 2008, pág. 13). “Apaixonada por si mesma e sempre em guerra consigo mesma, não afirma nada permanente nem se fundamenta em qualquer princípio: a negação de todos os princípios, a mudança perpétua, é o seu princípio.Nossa época exaltou a juventude e seus valores com tal frenesi que fez deste culto, se não uma religião, uma superstição; entretanto, nunca se envelheceu tanto e tão rápido como agora. Nossas coleções de arte, nossas antologias de poesia e nossas bibliotecas estão cheias de estilos, movimentos, quadros, esculturas, novelas e poemas prematuramente envelhecidos” (Ibidem, págs. 15-16). (…)

Bem diferentes eram os princípios que regiam o pensamento medieval sobre o mundo e a ordem que existe nele, sobre a beleza e sobre o modo de agir das criaturas.
A Idade Média recebeu da Antiguidade sua problemática em matéria de estética. Entretanto, ela lhe deu uma amplitude nova, integrando aos bons princípios que a filosofia antiga possuía uma visão do homem, do mundo e de Deus, própria da religião Católica. Assim, a Igreja levou a especulação estética a um nível de originalidade incontestável.

A questão do belo, assim como da verdade e do bem, encontra nos princípios de São Tomás uma resposta muito sólida e de grande rigor científico.

A finalidade deste nosso trabalho – que de modo algum se pretende exaustivo e será publicado pouco a pouco, por partes – é de estudar aqueles princípios ensinados pela Igreja e pela filosofia tomista, que permitem compreender melhor o que é a beleza e de vê-la melhor, não somente no conjunto dos seres irracionais, mas também no homem, na sua vida moral e na sua alma e, finalmente, em Deus.

É preciso que confessemos que Deus é a própria vida em plenitude, que tudo percebe e entende; que não pode morrer, corromper-se ou mudar-se; que não é dotado de corpo, mas é espírito, sumamente poderoso, justo, belo, ótimo e o mais feliz entre todos os espíritos” (Santo Agostinho, De Trinitate, X, 4, 6).

Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei!” (Santo Agostinho, Confissões, X, 7, 38).

Expondo os princípios que se relacionam com a beleza e com a arte, bem como as relações que existem entre a arte e a moral e de que modo nós podemos atribuir beleza aos atos humanos, esperamos tornar mais clara para os leitores a sabedoria com que Deus criou todas as coisas.

Só amamos aquilo que conhecemos e, quanto mais conhecemos a criação, mais podemos conhecer e amar Aquele que a criou.

A ciência deve ser empregada como se fosse certo andaime pelo qual se vai subindo a estrutura da caridade, que permanece para sempre, mesmo depois da destruição da ciência. Se ela é usada com um fim de caridade, é altamente útil; utilizada por si mesma sem esta finalidade, não somente é supérflua, mas também certamente perniciosa” (Santo Agostinho, Epist. LV, c. 21, 39).

A ORDEM DO MUNDO E A BELEZA QUE DELA DECORRE


Existem duas perfeições que, nos seres, provêm das relações que existem entre eles: são aordem e a beleza.

1. A ordem


A ordem é definida como a disposição adequada, conveniente, de vários seres unidos em direção a um fim comum.

Assim, para haver ordem é necessário haver três coisas:

1º. Uma pluralidade de seres, que é a matéria da ordem.

Não é possível existir ordem quando existe somente um ser. Para haver ordem é preciso haver vários seres que possam ser organizados entre si.


2º. Uma disposição adequada, conveniente, o que é a forma da ordem.

Essa organização não pode ser qualquer uma, mas deve estar de acordo com as características de cada ser, com as condições de cada um. Em uma escola, por exemplo, as coisas estão bem dispostas quando os professores têm o conhecimento necessário para ensinar os alunos, possuem uma distribuição de aulas a serem dadas conforme a possibilidade que têm, os alunos comportam-se adequadamente, respeitam os professores e funcionários, não há sujeira no chão, a biblioteca possui os livros necessários ao estudo dos alunos, os alunos são punidos quando agem mal e recompensados quando agem bem, etc. No corpo há boa disposição das partes quando o coração envia sangue suficiente para os membros e órgãos, o cérebro comanda os movimentos sem impedimento, o sistema digestivo recebe a quantidade de alimento necessária ao organismo e o digere bem para ser distribuído no corpo, os rins filtram e o fígado metaboliza as substâncias tóxicas, etc. Quando existe uma boa disposição das partes, então todos reconhecem que existe ordem. Quando essa boa disposição está ausente, então dizemos que existe confusão.

3º. Um fim comum, que é o porquê das coisas serem dispostas de certo modo, e a normasegundo a qual a ordem existente é julgada e avaliada.
No corpo humano, os órgãos e membros têm uma disposição particular com a finalidade de preservar a vida do indivíduo. A ordem de um escritório visa à boa execução dos trabalhos da empresa, a sua eficiência nos negócios. No exército, os soldados são organizados de um modo próprio para vencer a guerra. Se essa finalidade é alcançada, então é porque a ordem foi bem determinada. O fim é, então, usado também como norma, como regra para avaliar se as partes de um todo foram bem ordenadas.

A ordem exige, então, uma boa disposição das partes para alcançar um fim comum a elas. Por isso somos obrigados a concluir que somente um ser inteligente pode
ordenar algo. Quem não atribuísse uma causa inteligente a uma obra ordenada seria considerado um insano. Ninguém pode dizer que uma casa fora construída pelo acaso e não por um arquiteto. Um ser que coloca ordem nas coisas obrigatoriamente deve conhecer as relações que existem entre elas e dispô-las umas em relação às outras de um modo adequado para conseguir o fim desejado. Conhecer as relações entre as partes exige compreender a natureza delas, ver as influências que umas podem ter sobre as outras, saber distinguir nelas o que é causa e o que é ocasião, etc. O conhecimento da natureza das partes de um todo, o que elas são em si, das influências que podem existir de umas sobre as outras e da conveniência delas para alcançar um fim, só pode ser feito por um ser inteligente.

Na natureza encontramos muitos seres que, sem terem inteligência, realizam obras de grande ordem, que nos causam enorme admiração. Vemos aranhas que tecem teias bem eficazes para caçar insetos, peixes que lançam água pela boca para derrubar besouros que estão sobre as folhagens das árvores e comê-los quando caem no rio, lobos que fazem armadilhas em conjunto para caçar, mesmo árvores que lançam mão de métodos admiráveis para economizar água nos períodos de seca e cristais magníficos que se formam após fenômenos geológicos.

Mas esta ordem que brilha nas obras realizadas pelos seres sem inteligência deve ser referida àquele que criou todos eles, Deus, e que lhes deu um ser capaz de agir com ordem. Os seres inteligentes, Deus inclusive e com mais forte razão, podem realizar obras ordenadas não somente por si mesmos, mas também por meio de outros seres, na medida em que os dirige e os dispõe à realização de tais obras. Sem qualquer estudo prévio, os animais fazem coisas extraordinariamente inteligentes, mas sem o saber.

As abelhas, por exemplo, fazem suas colmeias com alvéolos hexagonais onde a parede de um alvéolo serve para outro alvéolo. Não há entre os alvéolos espaço perdido e a forma hexagonal é mais econômica do que se elas usassem alvéolos em forma de prisma triangular ou quadrangular. Para fechar os alvéolos elas fazem fechamentos em forma de losango. Quando o físico René-Antoine Feichant de Reaumur (1683-1757) notou que a angulação de fechamento dos alvéolos era constante, não variava, ficou intrigado. Mandou buscar alvéolos na Alemanha, na Suíça, na Inglaterra, no Canadá, e até na Guiana. Todos apresentavam o losango de fechamento dos alvéolos com o mesmo ângulo. O astrônomo francês Jean-Dominique Maraldi (1709-1788) mediu com maior precisão os ângulos de fechamento dos alvéolos e viu que o ângulo menor tinha 70º 32’ e o maior tinha 109º 28’, o que tornava o alvéolo mais econômico: máximo de volume para um mínimo de material usado na sua construção.
É óbvio que não foram as abelhas que descobriram, por conta própria, esta alta geometria. Elas não conhecem até hoje, que se saiba, como usar os recursos do Cálculo Diferencial…

Intrigantes, estas geômetras irracionais! O curso de Matemática, da escola primária até o fim do ensino médio, feito durante 11 anos, não fornece a um jovem, aplicado e inteligente, recursos suficientes para que ele possa resolver o problema dos alvéolos das abelhas, que elas resolvem tão “espontaneamente” (Cf. Malba Tahan, As Maravilhas da Matemática, Edições Bloch, Rio de Janeiro, 1972, págs. 105-112).

Isso nos leva a fazer uma segunda observação. A ordem, enquanto tal, só pode ser conhecida pela inteligência. Somente a inteligência percebe as relações que existem entre as partes ordenadas de um todo e o fim ao qual elas estão dirigidas. Assim, para reconhecer se algo é ordenado, devemos identificar o fim desejado pelo autor e a relação que determina a disposição das partes. O físico René-Antoine Feichant de Reaumur notou as relações matemáticas, geométricas, que existiam entre os alvéolos das colmeias com um fim preciso: obter o máximo de volume para um mínimo de material usado na sua construção. E ele reconheceu esta ordenação porque tinha inteligência. As abelhas constroem seus alvéolos com esta ordem admirável, mas são incapazes de saber que o fazem, porque não têm inteligência. Mas mesmo sem inteligência, constroem suas colmeias com precisão matemática, seja na Suíça, seja na Guiana. Bem intrigantes estas geômetras irracionais!

Havendo falta desta consideração da inteligência, mesmo as coisas mais bem ordenadas podem parecer aleatórias, como vemos afirmarem os ateus, que se lançam contra a ordem existente no mundo. “O injusto disse em si mesmo que queria pecar; não há temor de Deus ante seus olhos. (…) As palavras de sua boca são iniqüidade e engano; não quis instruir-se para fazer o bem” (Salmo 35, 2.4). “Quão magníficas são, Senhor, as tuas obras! Quão insondável é a profundidade dos teus desígnios! O homem insensato não conhecerá, e o néscio não compreenderá” (Salmo 91, 6-7).

Ao compararmos o comportamento dos ateus e das abelhas, não há dúvida: a verdade está com as abelhas!

2. A beleza


Explicar o belo é uma tarefa difícil. Platão já havia escrito na República: “O provérbio tem razão, Sócrates, o belo é difícil” (República, l. IV).

A causa desta dificuldade é múltipla. Como dissemos, o conceito de belo está intimamente ligado, e como que misturado, a vários outros grandes conceitos, cuja análise é delicada. Além disso, ele é muito complexo, e os inúmeros elementos que ele engloba exigem, para serem bem distinguidos e definidos, muito cuidado e precisão.

Mas é justamente pelo fato da beleza ser objetiva, de ter uma definição imutável, que nós podemos estudá-la usando os instrumentos que a Filosofia tomista nos dá.

Não se venha dizer que a Idade Média permaneceu fria a tudo aquilo que diz respeito à beleza, e que a lógica austera da filosofia tomista conseguiu fechar todos os horizontes ao belo.

A época em que São Tomás de Aquino viveu foi aquela que nos deu as mais magníficas catedrais, com vitrais que enchiam as igrejas de luz. Os novos modos de construção permitiam abrir imensas janelas decoradas, que tornavam as grandes naves das igrejas mais luminosas, brilhando com belos raios coloridos quando o sol incidia nelas. E não somente as catedrais chamam nossa atenção até hoje, e movem milhões de turistas todos os anos a visitá-las, como também os castelos, palácios, os edifícios civis, as pinturas, iluminuras, esculturas e objetos de uso quotidiano, todos datando da “Idade das Trevas”…

É verdade que São Tomás de Aquino não tratou da beleza com a mesma profundidade e com o mesmo desenvolvimento que ele deu à Metafísica, à Lógica, à Teologia. Mas não deixamos de encontrar em seus escritos várias observações sobre a beleza e os elementos que a constituem.

Existem noções metafísicas tão simples e universais que elas não podem ser definidas. Podemos descrevê-las, mas como são coisas que ultrapassam qualquer categoria, não podem ser colocadas em uma definição. Tais são as definições, por exemplo, de ser, ato,potência, verdadeiro, uno, bem, etc.

Mas a beleza é algo à parte. Ela se compõe de vários elementos que podem ser analisados.

Uma das melhores definições do belo dadas na Idade Média é a de Santo Alberto Magno, mestre de Santo Tomás de Aquino, definição que permanecerá célebre e exemplar: “A natureza do belo reside universalmente na viva luz que a forma difunde sobre as partes bem proporcionadas da matéria, ou sobre as diversas potencialidades, ou sobre as diversas operações materiais” (Santo Alberto Magno, Super Dionysium de divinis nominibus, IV, 72; in Opera Omnia, XXXVII/1, p. 182). Ou, de modo mais breve: A beleza é o resplendor da forma na proporção da matéria.

Esta definição exprime tão bem o que é a beleza, que ela merece ser explicada em detalhes.

a) Matéria e forma


A filosofia de Aristóteles reconhece nos seres corpóreos dois princípios substanciais, duas causas intrínsecas: matéria e forma, causa material e causa formal. A filosofia clássica elaborou e empregou vastamente estas duas noções, aprofundando-as e tornando-as mais sutis.

Utilizemos uma estátua como comparação para compreender melhor estes dois princípios constitutivos dos seres materiais. Este exemplo da estátua é o mais conhecido quando se trata de explicá-los, porque é um dos mais simples.

Uma estátua depende, para existir, da matéria com que é feita e da forma (a qual, neste exemplo, é mera figura exterior) que faz com que seja o que é. Sem mármore não existe estátua, muito menos sem figura, sem seu desenho exterior.

Uma estátua de Júpiter pode ser feita de mármore, de bronze, de madeira; e de um mesmo bloco de mármore posso fazer um Júpiter, um Apolo, uma Diana. De onde se vê que a matéria é indiferente à forma, e a forma é indiferente à matéria. São, pois, coisas distintas, princípios distintos do ser. Vê-se, também, que a forma é o que diferencia, o que determina: uma estátua de Júpiter, não de Diana. Também se vê que a matéria da estátua não pode existir sem a forma. Uma estatua de Apolo é mármore (ou bronze, madeira, gesso…) com forma de Apolo. O mármore sozinho não constitui estátua alguma, e não há figura de Apolo que não esteja posta em algum mármore (ou madeira, gesso…). A existência da estátua depende da matéria e da forma. Ambas, então, constituem a estátua, são causas que constituem a estátua , causas intrínsecas dela.

Mas temos que refinar o conceito de forma usado nesta comparação da estátua. Como diz um ditado latino, toda comparação é imperfeita.

A forma é mais importante do que a matéria. A matéria tem menos importância em relação à forma. Vale a pena observar que a língua inglesa inverteu o sentido destas palavras por uma curiosa mudança semântica, que revela o caráter inglês: “this is material to the fact” significa que algo é realmente importante; “this is only a formality” significa que algo não tem importância.

Mas suponhamos que a estátua em questão fosse de ouro. Ela valeria muito dinheiro, mesmo sendo mal esculpida. O mesmo vale para o caso em que tivéssemos uma estátua em gesso bem esculpida e outra em mármore esculpida com um pouco menos de técnica: ainda assim a estátua em mármore valeria mais em relação à estátua de gesso. Por que, se a matéria é menos importante que a forma? Isso parece ir contra o que acabamos de dizer.

Porque o mármore ou o ouro têm seu próprio ser físico antes de se ser estátua, mas a figura, a aparência de Apolo ou Júpiter, não. O mármore é substância e sua figura é um acidente, e “a substância prima sobre o acidente”.

Mas o mármore, para ser substância “mármore” precisa de algo que o faça mármore e não outra coisa. Este algo chama-se “forma substancial”. Mármore não é madeira ou ar, e para explicar essa diferença é necessário recorrer não a uma matéria determinada (mármore) e a uma forma acidental, uma figura exterior (de Apolo, Júpiter ou Diana), mas ao que se denomina matéria-prima (ou matéria absolutamente indeterminada) e forma substancial(princípio primeiro pelo qual a matéria se torna tal matéria). “Esses princípios intrínsecos são, na plena acepção da palavra, princípios, isto é, aquilo de que procede o corpo, real e primeiramente, e que não supõe nada anterior a ele. São, portanto, realidades metafísicas” (Régis Jolivet, Tratado de Filosofia, tomo I, Livraria Agir, Rio de Janeiro, 1969, p. 335).

A matéria é aquilo que Platão denominava uma espécie de não-ser, um puro “com o que” as coisas são feitas e que, por si mesmo, não é nada de feito, um princípio absolutamente indeterminado, incapaz de existir por si mesmo, mas capaz de existir por outra coisa, aforma.

A forma é um princípio ativo, que determina essa matéria puramente passiva, mais ou menos como a forma impressa pelo escultor determina a argila. A forma, unida à
matéria, constitui com ela uma única coisa feita e existente, uma única e só substância corpórea, à qual permite não só ser isto ou aquilo (ter tal natureza específica) mas também existir, mais ou menos como a forma impressa pelo escultor permite à estátua ser o que é.

Por causa desta analogia com a forma exterior de uma estátua (“forma acidental”), Aristóteles chamou de forma (“forma substancial”), num sentido inteiramente especial e técnico, este princípio interior de que tratamos, e que determina a substância corpórea no seu próprio ser.

Em resumo, a causa material é aquilo de que as coisas são feitas, enquanto a causa formal é aquilo que faz da coisa o que ela é.

A doutrina de Aristóteles, que faz de cada ser corpóreo um composto de matéria (hyle) e de forma (morphè), foi denominada hilemorfismo.

Esta doutrina salva a realidade material das coisas, bem como a existência de uma distinção de natureza ou de essência entre os corpos que consideramos como de espécies diferentes; mostra que nos corpos sem vida e nos seres vivos irracionais existe a presença de um princípio substancial imaterial, mas que difere dos espíritos propriamente ditos, porque é incapaz de existir sem a matéria; permite compreender a união, no ser humano, da matéria e de uma alma espiritual, que é a forma do corpo humano, mas que difere das outras formas substanciais pelo fato de existir sem a matéria.

É a forma imaterial que faz com que as coisas sejam inteligíveis.

Nossa inteligência é imaterial.

O mundo visível é material.

Se este mundo visível fosse constituído unicamente por matéria, como querem os materialistas, seria impossível conhecê-lo com nossa inteligência imaterial.

Há algo imaterial nas coisas – a forma substancial delas – que se une à matéria para constituir cada ser individual e que permite que possam ser conhecidos por nossa inteligência imaterial.

Na filosofia de Aristóteles e de Santo Tomás, toda substância corpórea é um composto de duas partes substanciais complementares, uma passiva e, em si mesma, absolutamente indeterminada (matéria), outra ativa e determinante (forma) (Cf. Jacques Maritain, Introdução geral à Filosofia, Agir Editora, 15ª. edição, 1987, p. 110).

A matéria não existe por si mesma, mas por sua forma substancial, e a forma existe na matéria. De modo que o que existe real e verdadeiramente é o composto de dois princípios, um ser material individual, seja ele qual for.

Aristóteles firma-se nestas noções inteligíveis, mas não imagináveis, esclarecendo que matéria e forma são dois princípios essencialmente incompletos, feitos um para o outro, e que se unem diretamente para constituir os corpos individuais. A matéria servirá, também, para distinguir os múltiplos indivíduos da mesma espécie: ela é princípio de individuação.

A matéria-prima dos corpos é impossível de ser representada por nossa imaginação. Tudo o que temos em nossa imaginação são imagens de seres diversos que conhecemos, todos constituídos por matéria já unida a uma forma. Mas a inteligência compreende o que ela significa: o que existe de indeterminado, de passivo nos corpos.

Todas as dificuldades com que se debateu a especulação grega até Aristóteles provinham sobretudo da incapacidade em que se achavam os pensadores (…) de se libertar das representações imaginativas, para conceber apenas na inteligência realidades que, não sendo seres materiais, mas somente princípios de ser, só podem ser acessíveis à razão metafísica [isto é, não podem ser imaginadas, representadas na imaginação, mas concebidas somente na inteligência]” (Régis Jolivet, Tratado de Filosofia, tomo I, Livraria Agir, Rio de Janeiro, 1969, p. 334).

Fazendo uso das noções aristotélicas de matéria e forma ao definir a beleza, Santo Alberto Magno deu uma base filosófica sólida, um fundamento metafísico a ela, afirmando que a beleza pertence a tudo o que existe. A beleza é algo que está realmente nas coisas, e não é o fruto passageiro de uma impressão subjetiva, de um entusiasmo lírico.

b) Resplendor da forma


Os escolásticos, seguindo os antigos, viam o resplendor como uma característica essencial da beleza:

A clareza pertence à essência da beleza” (Santo Tomás de Aquino, Comment. in lib. de Divin. Nomin., lect. VI).

A luz embeleza, porque sem luz todas as coisas são feias” (Santo Tomás de Aquino,Comment. in Psalm., Ps. XXV, 5).

A beleza […] consiste numa certa claridade e na devida proporção” (Santo Tomás de Aquino, Summa Theologica II-II, q. 180, a. 2, ad 3).

Nossa inteligência conhece a verdade das coisas. Somente um ser inteligente consegue ver a ordem que existe num conjunto de outros seres, como explicamos acima. Os seres da criação podem ser conhecidos pela inteligência por causa da forma substancial imaterial que os constitui, sendo o princípio próprio de inteligibilidade de algo. As criaturas podem ser conhecidas pela inteligência do homem porque cada uma possui sua forma substancial própria.

Toda forma é um vestígio, um raio de luz que Deus pôs em cada ser criado, pela qual nossa inteligência pode ser iluminada.

Toda forma, pela qual cada coisa tem o ser, é uma certa participação da claridade divina. (…) Cada realidade é bela e boa de acordo com sua própria forma” (Santo Tomás de Aquino, Comment. in lib. de Divin. Nomin., c. 4, lect. V).

Deus projeta um brilho que é a causa da beleza nas coisas. Esta luz e esta clareza, que provêm de Deus, contêm e se tornam a essência e a beleza das criaturas. É por isso que as criaturas são belas, pela essência radiante que têm, e que é uma participação da clareza divina. Elas mostram uma consonância com seu fim, que é Deus, uma consonância na composição que têm e, em terceiro lugar, uma consonância nas relações que têm com as outras criaturas.

O ser das coisas é uma certa luz (Cf. Santo Tomás de Aquino, Comment. in Liber de causis, prop. 6, lect. 6).

Quando conhecemos bem alguma coisa, dizemos que ela está clara para nós.

Ora, se está claro é porque tem luz.
Assim, o resplendor de que se trata aqui é um resplendor de inteligibilidade: esplendor daverdade, diziam os platônicos; esplendor da ordem, dizia Santo Agostinho (De vera relig., cap. 41); esplendor da forma, dizia Santo Tomás de Aquino na sua linguagem precisa de filósofo; resplendor da forma, dizia Santo Alberto Magno nesta definição que analisamos.

A clareza é a propriedade que um corpo possui de se mostrar de modo manifesto. É a facilidade de algo ser percebido pelos sentidos, o fato de não se esconder, mas de se manifestar. Um ser belo é limpo, evidente, claro para a vista e o ouvido.

Todo ser é a realização de uma essência. Aquilo que aprendemos pelos nossos conceitos sob um estado de universalidade existe realmente, mas nas próprias coisas, sob um estado de individualidade, não sob um estado de universalidade. Assim, por exemplo, há na realidade uma natureza humana (animal racional), que se encontra tanto em Pedro, como em Paulo e João etc., que não existe em si mesma ou em estado separado, mas somente nestes sujeitos individuais e identificada com cada um deles.

Quando um ser se mostra tal como ele é, tal como Deus o fez, então a sua forma própria resplandece nele. Em todo ser que existe é possível ver o resplendor da forma que dispôs a matéria seguindo as leis da proporção.

Deus distribuiu suas perfeições em cada ser da criação, em cada indivíduo do gênero humano. Cada pessoa é única, com qualidades próprias que Deus distribuiu para que brilhem para os outros: “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus” (São Mateus 5, 16).

Quando alguém se mostra realmente como um homem, como um animal racional, que deseja naturalmente conhecer a causa das coisas e que tem um senso natural de admiração quando as conhece, que coloca questões e busca respostas, quando a sua racionalidade se manifesta exteriormente por um comportamento inteligente, pelo uso de vestes, por exemplo, que tornam mais evidentes aquelas coisas que o homens têm como próprias e que os diferenciam dos animais, e não de roupas que exaltam sua animalidade e aquilo que ele possui em comum com os animais, então aí brilha diante dos homens a luz que Deus pôs em cada um.

Cícero, o orador romano, insiste sobre a beleza que pode e deve existir nas ações humanas: “Nós dizemos belo aquilo que corresponde à excelência do homem na medida em que se distingue dos outros animais” (Cícero, De Officiis, I, c. 27), ou seja, uma conduta em consonância com a inteligência. É por isso que os pecados contra a castidade, mais que os outros pecados, são ditos serem feios: porque quando o homem os comete ele se afasta maximamente do que é um comportamento conduzido pela inteligência e se inclina mais ao que é bruto. “O que é honesto possui uma beleza espiritual e é desejável”, diz Cícero (De Officiis, c. 5).

Quando alguém faz uma ação virtuosa, a ordem interna que existe na alma dele é manifestada exteriormente e é tão mais bem manifestada quanto mais a obra é bem feita e quanto maior é a retidão interna da alma. E na simplicidade de uma só ação ou de uma frase proferida podemos conhecer a ordem (ou a desordem) daquela alma. A boca fala da abundância do coração: “Assim como o cuidado que se tem da árvore se dá a conhecer no fruto, assim a palavra manifesta o pensamento do homem” (Eclesiástico 27, 7).

Em Nosso Senhor, e depois nos santos, a ordem que havia no interior resplandeceu exteriormente em ações bem proporcionadas, tornou-se claramente inteligível diante dos outros homens. Por isso suas obras foram belas, e os judeus dirão de Cristo: “Tudo tem feito bem; faz ouvir os surdos e falar os mudos” (S. Marcos 7, 37).

Quando um rapaz resolve usar um brinco, pintar o cabelo ou deixá-lo crescer, ou faz qualquer coisa semelhante para chamar a atenção dos outros, então ele busca brilhar por meio de uma luz estranha à luz que Deus pôs nele e se apaga, fazendo-se menos o que ele realmente é. Ora, “não se acende uma lâmpada e se põe debaixo do alqueire, mas sobre o candeeiro, a fim de que dê luz a todos os que estão na casa” (São Mateus 5, 15).

Uma moça que se veste não para ressaltar a sua humanidade, mas sim aquilo que tem em comum com os animais, apaga a luz que Deus pôs nela e que deveria brilhar diante dos homens: “O que é o sol para o mundo, quando nasce nas alturas de Deus, assim é a bondade duma mulher virtuosa para o ornamento da sua casa” (Eclesiástico 26, 21).

Nossa época exaltou a juventude e seus valores com tal frenesi que fez deste culto, se não uma religião, uma superstição; entretanto, nunca se envelheceu tanto e tão rápido como agora” (Octávio Paz, op. cit., pág. 16).

c) Na proporção da matéria


Para ser belo, um objeto deve possuir partes harmoniosamente unidas. Eis porque a beleza consiste na proporção das partes de um ser.

A natureza nos oferece inúmeros exemplos de uma harmoniosa organização dos seres.

O filósofo e matemático René Descartes (1596-1650) descobriu uma espécie de curva chamada espiral logarítmica. Ela foi estudada pelo geômetra Jacques Bernoulli (1654-1705) e por isso é chamada também de espiral bernoulliana.
“Asseguram os geômetras que a bernoulliana (…) apresenta uma propriedade notável:Cresce, conservando-se semelhante a si própria, e exprime, desse modo, o crescimento harmonioso. Jacques Bernoulli tinha verdadeiro fanatismo pela espiral logarítmica, e considerava-a como uma das sete maravilhas da Matemática” (Malba Tahan, op. cit., págs. 60-61; itálicos no original).

Terminou pedindo que um pequeno arco desta espiral fosse gravado em seu túmulo, com a seguinte inscrição: Eadem numero mutata resurgo – Mudada no número, ressurjo a mesma.

Esta espiral está presente em uma infinidade de conchas e flores.

Encontramos também na natureza uma outra espiral, chamada espiral de Arquimedes. Esta espiral aparece na disposição geométrica das manchas coloridas que o pavão ostenta em sua cauda.

A sucessão de Fibonacci inicia-se com os números 0 e 1, que são básicos e constituem os seus primeiros termos. Os termos seguintes da sequência têm a seguinte regra de formação: cada termo é a soma dos dois que o precedem.
0, 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55 …

Ela se mostra de modo bastante notável na Botânica.

“Notaram os observadores que o tronco de uma árvore normal, a partir do tronco inicial, desdobra-se em galhos de acordo com a chamada lei fibonacciana. Do solo sai um tronco; do tronco surgem dois; desses dois surgem três; esses três formam cinco; dos cinco partem oito; e assim por diante. E a árvore, ao crescer, ao multiplicar seus ramos, não se afasta dessa lei” (Malba Tahan, op. cit., pág. 246).

Mais ainda. O número de ouro, equivalendo a 1,618 e simbolizado pela letra grega Φ, se encontra também na Botânica.

De que modo as plantas devem dispor de seus ramos a fim de que as folhas recebam o máximo de exposição à luz solar?

“Os ramos são ordenados de modo que nunca se superponham, isto é, um ramo não pode impedir que suas folhas façam sombra nas folhas que estão abaixo. Os ramos brotam do tronco seguindo um certo ângulo chamado ângulo ideal que é calculado com o auxílio do número Φ. Esse ângulo ideal é 360º dividido pelo quadrado de Φ. O quociente será: 137º 30’28’’ (valor aproximado). Esse ângulo é designado pela letra grega alfa: α” (Malba Tahan,op. cit., pág. 247).
O esquema seguinte mostra, por ordem numérica, o surgimento das folhas em um ramo e o ângulo entre as folhas: entre as folhas 1 e 2 temos α aproximadamente igual a 137,5º = 85º + 52,5º, e este ângulo permanece constante entre as folhas 2 e 3, 3 e 4, 4 e 5, etc… A próxima folha a nascer sempre conserva esta angulação em relação à folha anterior.
A beleza é o resplendor da forma na proporção da matéria.
Assim, existe uma relação entre a proporção e a clareza. Elas constituem o essencial da beleza. Por isso, elas devem constituir uma certa unidade. A proporção das partes resulta da combinação e da ordenação que há entre elas, e que são o efeito da forma. Para a aparência exterior dos corpos, isso é evidente porque refletem a ordem que têm por meio da luz ambiente. Quanto às formas interiores, ou essências das coisas, pode-se dizer que este esplendor é precisamente a fascinação de sua inteligibilidade.
Deste modo se unem clareza e harmonia, resplendor e proporção, permitindo que conheçamos objetivamente a beleza de uma coisa.

PE PIO – ESPECIAL – ENCERRAMENTO

Caríssimos, encerramos aqui nossa homenagem a este tão grande santo, patrono do nosso blog.

Que todos os filhos espirituais de S. Padre Pio saibam que estivemos ,quase que 24 horas ,

rezando

incansavelmente por eles.

Que nosso querido Pai S. Pio nos conduza a todos para o céu.

Pe. Marcélo Tenorio


1. Bênção do Santíssimo


2. O Santíssimo : Encerramento da Vigília de Adoração.

3. Bênção com a Relíquia do Pe. Pio ( Sangue)

4. A Santa Missa

PE PIO – ESPECIAL: Multidão não quer deixar Pe. Pio


(…)Tarde da noite cogita-se em fechar a igreja, para dar uma folga aos carabineiros e à polícia, mas é inútil. A multidão se comprime no adro, grita, pressiona, obriga a reabri-la. 
Durante os quase 4 dias em que fica exposto à homenagem póstuma, mais de 100.000 pessoas desfilam ante os restos mortais de Padre Pio, para o último e comovido adeus.

É o mundo inteiro chorando diante do mais humilde e manso de seus “profetas”. (…)

(Olivo Cesca, PADRE PIO, o santo do terceiro milênio, Editora Myrian)