Autor: Ian Gibson
Tradução: Carlos H. Wolkartt

Parece mentira que o menosprezam
e que a Igreja o tenha abandonado.

Tive a infelicidade de nascer no seio de uma seita protestante, cujo culto ignorava contundentemente o latim. Essa língua era dos católicos, da missa, do Vaticano, dos falsos cristãos com seu Papa, seu clero celibatário, sua transubstanciação, seu nefasto sistema de confissão oral, sua Virgem Maria, suas indulgências, suas bulas, seus conventos... Nós, que nos considerávamos os autênticos servos de Jesus, rejeitávamos esse idioma, remetendo-nos exclusivamente à famosa versão inglesa da Bíblia, conhecida como “do rei Jaime” (The authorised king James version), editada no século XVII e tida como um dos maiores monumentos da língua inglesa.

Vítima de tal estupidez, terminei meus estudos universitários sem jamais ter aberto a Bíblia Vulgata. E demorou algumas décadas para dar-me conta do grave prejuízo que havia causado na minha formação cultural a exclusão daquele latim eclesiástico sem o qual nada se compreende do nosso idioma. Exclusão que hoje se estende, ironicamente, à verdadeira cristandade, ao haver cometido a Igreja o – a meu juízo – imenso, para não dizer imperdoável, erro de permitir a supressão do latim da missa e assim contribuir para o desaparecimento de um idioma universal que hoje certamente seria característica para os nossos jovens.

Universal, sim, quem negará? Não posso deixar de citar a leitura que fiz quando ainda adolescente, de um livro do autor anglo-francês Hilaire BellocO caminho para Roma (The path to Rome). Livro que não voltei a ver desde então, embora saiba que ainda é editado. Não se tratava do caminho para a verdade católica – o título não era figurativo –, mas de uma viagem real – uma peregrinação – sobre as planícies e montanhas, do leste da França (Belfort, se não me engano) à Cidade Eterna. Recordo-me em especial do elogio que ali se fazia à missa latina, que podia ser ouvida igualmente entre o povo mais simples de qualquer país da Europa –Belloc era um grande europeísta – e na própria Catedral de São Pedro. Isso sim era universalidade e, para os fiéis, um consolo e um orgulho. Disso sabia muito bemJames Joyce, cujo dever para com o latim da Igreja se reflete na primeira página de Ulises, com a paródia da missa encenada por Buck Mulligan («Introibo ad altare Dei...»).

O latim clássico era outra coisa... um sofrimento para alunos e professores. Como usar com os jovens a linguagem complexa de Virgílio e Horácio? Como convencer-lhes da importância, necessidade ou obrigação de conhecer casos nominativos e ablativos, declinações, verbos depoentes e gerúndios? Como ajudar-lhes a superar tanta dificuldade gramatical?...

Perdoem-me a insistência, mas queria arremessar uma pequena lança em favor do latim, do qual nos nutrimos todos os dias sem ao menos darmos conta dele. Dizem que se trata de uma língua morta. Não é assim. O latim atualizado está mais pujante que nunca; é a irreconhecida língua franca de muitíssimos milhões de seres humanos. Parece mentira que se menospreze, que se tem ensinado tão mal e que mesmo a Igreja o tenha, de certa forma, abandonado. Se esta nota induzir alguém a abrir a Vulgata e lá fazer uma pequena descoberta de verão, me darei por super satisfeito.

Fonte:
http://christifidei.blogspot.com/

2 comentário (s):

Fernando Gonçalves Farias Neto disse...

Magnífico texto. Curto e direto!

Gustavo disse...

Já li o texto em inglês e a tradução está ótima. A igreja erro muito mesmo quando tirou o latim da missa, para a nossa infelicidade...

JMJ.
Gustavo

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