sábado, junho 16, 2012 |
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Providencialmente, enquanto folheava o livro “Não! Entrevistas de José Hanu com Monsenhor Lefebvre”, tradução portuguesa, publicada em Lisboa, pelas Edições Roger Delraux, no ano de 1978, do original francês datado de 1977, deparei nas suas páginas 249 a 252 com o trecho infra publicado (os destaques são meus), o qual expressa na perfeição o que Monsenhor Lefebvre entendia como sendo a “experiência da Tradição” e em simultâneo a atitude que o santo e grande arcebispo tinha face à Igreja institucional.
Com a fundação da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, Monsenhor Lefebvre jamais pretendeu estabelecer uma super-Igreja paralela e/ou alternativa, mas antes criar um meio de socorrer, auxiliar e servir a Igreja institucional, num período de tremenda perturbação desta última (o pós-Vaticano II), mediante a reafirmação e a difusão da perene Tradição Católica assente na Missa Tradicional de rito latino-gregoriano e no magistério eclesial constante.
Assim, Monsenhor Lefebvre nunca fez depender a concretização da “experiência da Tradição” do prévio fim do Missa de rito paulino, do termo dos erros trazidos pelo Vaticano II como a liberdade religiosa, o ecumenismo ou a colegialidade, ou ainda da cessação de certos comportamentos públicos antitradicionais dos próprios Papas (em 1988, negociou infrutiferamente a regularização canónica da FSSPX, já depois do primeiro encontro inter-religioso de Assis, ocorrido em 1986 sob a égide de João Paulo II). Ao invés, a consecução da “experiência da Tradição”, pelo bem e graças que traria à Igreja institucional, é que conduziria ao progressivo erodir de tais erros e, no médio/longo prazo, à desaparição dos mesmos.
Deste modo, pelo exposto, é deplorável que na actualidade haja no campo tradicionalista quem ainda não tenha percebido o que está em jogo na questão da regularização canónica da FSSPX, preferindo optar pela defesa de posições aberrantes de cariz neo-sedevacantista ou cripto-sedevacantista, que Monsenhor Lefebvre seria o primeiro a repudiar sem quaisquer hesitações.
***
“Santo Padre, aceitai a experiência da Tradição”
José Hanu - Algumas pessoas pretenderam descrever a vossa entrevista com o Papa… A acreditarmos nelas, foi “tempestuosa e patética”…
Monsenhor Lefebvre - Dizem-se tantas coisas!
JH - Nós não vamos, Monsenhor, tentar destrinçar a incrível meada das múltiplas intervenções, por vezes rocambolescas, que vos levaram até Paulo VI… De resto, talvez nem vós mesmo sejais capaz de esclarecer isso!
ML - O essencial foi essa audiência ter tido lugar…
JH - No entanto, enviastes ou não, antes de serdes recebido, uma carta ao Santo Padre, digamos que arrependida? Houve quem publicasse textos que o levam a pensar…
ML - De facto, redigi algumas linhas de que não guardei cópia; indiquei simplesmente, e sobretudo, a Sua Santidade que se eu era para ele causa de sofrimentos, o lamentava imensamente. Era, continua a ser a expressão da verdade…
Mas não assumi compromisso algum.
JH - Tínheis preparado essa entrevista?
ML - Certamente! Tenho sob os olhos as notas que tinha escrito num papel.
Queria chamar a atenção do Santo Padre para vários pontos.
Por exemplo, queria dizer-lhe:
“Santo Padre, os actos da Santa Sé depois do Concílio, e realizados em nome do Concílio, põem-nos um dilema cruciante. Com efeito, estes actos apoiam-se numa doutrina que se afasta cada vez mais do magistério solenemente afirmado por todos os predecessores de Vossa Santidade.
“Encontramo-nos, pois, divididos entre a fidelidade ao magistério de sempre e a fidelidade à Santa Sé e à Vossa pessoa.”
Queria dizer-lhe igualmente:
“A atitude adoptada pela Santa Sé em relação ao mundo, isto é, aos não-católicos, aos não-cristão, aos ateus, e mesmo aos inimigos declarados da Igreja como os mações e os comunistas, é oposta à que a Igreja sempre teve, quanto à protecção da sua Fé e da vida da Graça.
“Esta atitude de falso ecumenismo e de falso diálogo destrói a Fé católica, arruína o espírito missionário.
“É este espírito novo que está na origem da reforma litúrgica, de todas as outras reformas, como a da Bíblia e a do ensino catequético.
“Esta atitude, se a adoptarmos, obriga-nos a afastar-nos do magistério dos vossos predecessores.”
Queria desenvolver o seguinte ponto:
“As relações da Santa Sé com o episcopado estão doravante fundadas em princípios que impedem o exercício do poder do Sumo Pontífice. A anarquia que daqui resulta é tal, que o Papa e os Bispos já não conseguem exercer a sua autoridade pessoal de direito divino.
“A lei do número introduziu-se no governo da Igreja, contrariamente à doutrina sempre ensinada.
“Este afastamento, entre a doutrina de sempre e os actos actuais da Santa Sé apoiados no Concílio, lançou a Igreja numa tal confusão, que numerosos fiéis no mundo inteiro estão saturados das novidades e das mudanças realizadas, particularmente no que se refere ao Sacerdócio e à Liturgia.
“Estes fiéis, mais numerosos do que se julga, e muitos clérigos e Bispos que não ousam afirmar publicamente, suplicam de joelhos a Vossa Santidade que os autorize, no meio de todas as experiências actuais, a fazer também a experiência do que se fez durante séculos.”
Tinha previsto concluir da seguinte maneira:
“Não rejeiteis, Santo Padre, estas boas vontades decididas a servir a Deus, a Igreja e o Sucessor de Pedro.
“A hora é muito grave.
“Se Vossa Santidade nos obriga a uma escolha crucial entre Ela e os seus predecessores, obrigar-nos-á a escolher os seus predecessores em quem está a Igreja viva de sempre pelo magistério e pela Tradição apostólica, porque nós não queremos tornar-nos nem heréticos nem cismáticos, mas permanecer fiéis à Igreja católica Romana de sempre.”
Eis o que eu tinha preparado. Eis o que eu queria dizer ao Papa!
A cólera de Paulo VI
JH - Mas não decorreu a audiência como tínheis imaginado?
ML - Pouco…
Logo que me encontrei na presença de Sua Santidade, ajoelhei-me, e levantei-me para descobrir um rosto atormentado e febril. O olhar, a atitude geral, eram pouco encorajadores…
Assim, em vez de dizer logo o que tinha previsto, julguei necessário deixar rebentar a trovoada:
“Santo Padre, escuto-vos!”
As reprovações que Paulo VI imediatamente me dirigiu encheram-me de consternação: mostraram, à evidência, quanto o Papa tinha sido prevenido contra mim, quanto tinham pretendido virar contra ele as minhas críticas ao Vaticano II, em acusações à sua própria acção:
“Vós condenais-me! - dizia ele, por exemplo. - Afirmais que eu sou ao mesmo tempo modernista e tradicionalista! Ergueis os fiéis contra o Papa!”
Eu esperava que, logo que passasse este primeiro impulso, me pudesse exprimir longamente e como desejava…
Quando ele observou: “Não dizeis nada? Falai!”, comecei a desenvolver os pontos que acabo de lhe referir, insistindo no facto de não ser o chefe dos tradicionalistas, mas um católico entre outros, perturbado, dilacerado…
Infelizmente, e eu bem o sentia, se o Santo Padre me escutava, o seu espírito não estava pronto a abrir-se aos meus argumentos… Quando cheguei a falar-lhe dos meus seminaristas de Êcone, interrompeu-me bruscamente:
“Não preparais bons padres: mandai-los assinar um juramento contra o Papa!”
Era inacreditável! Quem lhe teria dito tal coisa? Quando nós ensinamos em Êcone, e segundo a Tradição, o enorme respeito ao Sucessor de Pedro!
Estava aterrado… Ele disse-me:
“Que devo fazer, se me condenais? Devo demitir-me? É isso que quereis? Quereis ocupar o meu lugar?”
Como não devia ele sofrer, de facto, para me fazer tais perguntas!
Eu sofria com ele, pela Igreja. Juntei as minhas forças para lhe dizer:
“Oh! Santo Padre! Não faleis assim!”
“Peço-vos: tendes a solução dos problemas nas Vossas mãos. Basta que digais uma só palavra aos Bispos, de modo que dêem aos tradicionalistas o acesso aos lugares do culto…
“Pensai na desordem na Igreja hoje. Temos actualmente vinte e três orações eucarísticas…”
Paulo VI ergueu os braços aos Céu:
“Mas muitas mais! - exclamou. - Muitas mais!”
Eu recomecei:
“Então, se é assim, Santo Padre, por que não devolver os lugares de culto à Missa de São Pio V? Por que não fazer a experiência da Tradição com a formação de padres?”
Paulo VI abanou a cabeça para me dizer:
“Não vos posso dar uma resposta. Tenho de consultar a Cúria… Verei, reflectirei… É tempo de nos separarmos… Mas antes, rezemos juntos…”
E rezámos o Pai Nosso, o Veni Sancte Spiritus, e uma Ave Maria… Depois, Sua Santidade acompanhou-me até à porta do seu gabinete…
Infelizmente estava certo disso - o nosso combate ia continuar.
Fonte: A Casa de Sarto - Maio 23, 2012
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