sexta-feira, agosto 03, 2012 |
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Recebi por e-mail um antigo artigo do Zenit com citações de Adélia Prado sobre a Santa Missa. É interessantíssimo ver como a alma poética consegue superar os limites estreitos do racionalismo e perceber a profundidade teológica que muitos teólogos sem fé jamais ousariam afirmar.
Ao defender o esmero com as celebrações litúrgicas e a beleza como uma «necessidade vital» que deve permeá-las, a escritora brasileira Adélia Prado afirma que «a missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum».«A missa é a coisa mais absurdamente poética que existe. É o absolutamente novo sempre. É Cristo se encarnando, tendo a sua Paixão, morrendo e ressuscitando. Nós não temos de botar mais nada em cima disso, é só isso», enfatiza.Poeta e prosadora, uma das mais renomadas escritoras brasileiras da atualidade, Adélia Prado, 71 anos, falou sobre o tema da linguagem poética e linguagem religiosa essa quinta-feira, em Aparecida (São Paulo), no contexto do evento «Vozes da Igreja», um festival musical e cultural.Ao propor a discussão do resgate da beleza nas celebrações litúrgicas, Adélia Prado reconheceu que essa é uma preocupação que a tem ocupado «há muitos anos». «Como cristã de confissão católica, eu acredito que tenho o dever de não ignorar a questão», disse.«Olha, gente – comentou com um tom de humor e lamento –, têm algumas celebrações que a gente sai da igreja com vontade de procurar um lugar para rezar.»Como um primeiro ponto a ser debatido, Adélia colocou a questão do canto usado na liturgia. Especialmente o canto «que tem um novo significado quanto à participação popular», ele «muitas vezes não ajuda a rezar».«O canto não é ungido, ele é feito, fazido, fabricado. É indispensável redescobrir o canto oração», disse, citando o padre católico Max Thurian, que, observador no Concílio Vaticano II ainda como calvinista, posteriormente converteu-se ao catolicismo e ordenou-se sacerdote.Adélia Prado reforçou as observações, enfatizando que «o canto barulhento, com instrumentos ruidosos, os microfones altíssimos, não facilita a oração, mas impede o espaço de silêncio, de serenidade contemplativa».Segundo a poeta, «a palavra foi inventada para ser calada. É só depois que se cala que a gente ouve. A beleza de uma celebração e de qualquer coisa, a beleza da arte, é puro silêncio e pura audição».«Nós não encontramos mais em nossas igrejas o espaço do silêncio. Eu estou falando da minha experiência, queira Deus que não seja essa a experiência aqui», comentou.«Parece que há um horror ao vazio. Não se pode parar um minuto». «Não há silêncio. Não havendo silêncio, não há audição. Eu não ouço a palavra, porque eu não ouço o mistério, e eu estou celebrando o mistério», disse.De acordo com a escritora mineira (natural de Divinópolis), «muitos procedimentos nossos são uma tentativa de domesticar aquilo que é inefável, que não pode ser domesticado, que é o absolutamente outro».«Porque a coisa é tão indizível, a magnitude é tal, que eu não tenho palavras. E não ter palavras significa o quê? Que existe algo inefável e que eu devo tratar com toda reverência.»Adélia Prado fez então críticas a interpretações equivocadas que se fizeram do Concílio Vaticano II na questão da reforma litúrgica.«Não é o fato de ter passado do latim para a língua vernácula, no nosso caso o português, não é isso. Mas é que nessa passagem houve um barateamento. Nós barateamos a linguagem e o culto ficou empobrecido daquilo que é a sua própria natureza, que é a beleza.»«A liturgia celebra o quê?» – questionou –. «O mistério. E que mistério é esse? É o mistério de uma criatura que reverencia e se prostra diante do Criador. É o humano diante do divino. Não há como colocar esse procedimento num nível de coisas banais ou comuns.»Segundo Adélia, o erro está na suposição de que, para aproximar o povo de Deus, deve-se falar a linguagem do povo.«Mas o que é a linguagem do povo? É aí que mora o equívoco», – disse –. «Não há ninguém que se acerca com maior reverência do mistério de Deus do que o próprio povo».
«O próprio povo é aquele que mais tem reverência pelo sagrado e pelo mistério», enfatizou.«Como é que eu posso oferecer a esse povo uma música sem unção, orações fabricadas, que a gente vê tão multiplicadas e colocadas nos bancos das igrejas, e que nada têm a ver com essa magnitude que é o homem, humano, pecador, aproximar-se do mistério.»Segundo a escritora brasileira, barateou-se o espaço do sagrado e da liturgia «com letras feias, com músicas feias, comportamentos vulgares na igreja».«E está tão banalizado isso tudo nas nossas igrejas que até o modo de falar de Deus a gente mudou. Fala-se o “Chefão”, “Aquele lá de cima”, o “Paizão”, o “Companheirão”.»«Deus não é um “Companheirão”, ele não é um “Paizão”, ele não é um “Chefão”. Eu estou falando de outra coisa. Então há a necessidade de uma linguagem diferente, para que o povo de Deus possa realmente experimentar ou buscar aquilo que a Palavra está anunciando», afirmou.Para Adélia Prado, «linguagem religiosa é linguagem da criatura reconhecendo que é criatura, que Deus não é manipulável, e que eu dependo dele para mover a minha mão».Com esse espírito, enfatizou, «nossa Igreja pode criar naturalmente ritos e comportamentos, cantos absolutamente maravilhosos, porque verdadeiros».Ao destacar que a missa é como um poema e que não suporta enfeites, Adélia Prado afirmou que a celebração da Eucaristia «é perfeita» na sua simplicidade.«Nós colocamos enfeites, cartazes para todo lado, procissão disso, procissão daquilo, procissão do ofertório, procissão da Bíblia, palmas para Jesus. São coisas que vão quebrando o ritmo. E a missa tem um ritmo, é a liturgia da Palavra, as ofertas, a consagração… então ela é inteirinha.»«A arte a gente não entende. Fé a gente não entende. É algo dirigido à terceira margem da alma, ao sentimento, à sensibilidade. Não precisa inventar nada, nada, nada», disse Adélia.E encerrou declamando um poema seu, cujo um fragmento diz:Ninguém vê o cordeiro degolado na mesa,
o sangue sobre as toalhas,
seu lancinante grito,
ninguém”.
Fonte: http://www.padredemetrio.com.br/2011/05/a-missa-e-como-um-poema-nao-suporta-enfeite-nenhum/
Indicação: Dr. Marcos Polon
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2 comentário (s):
Reverendo Padre, a tua bênção.
Este post é interessante à medida que mostra que mesmo os artistas atuais ficam perplexos com o problema dos abusos litúrgicos praticados contra a Missa.
No entanto, muitos católicos desconhecem que a escritora Adélia Prado não é exatamente uma adepta da doutrina católica de sempre; isso se nota nos seus pronunciamentos tanto de caráter artístico quanto de cunho religioso.
Explico.
O discurso artístico de Adélia Prado, pelo que notei neste pronunciamento, parece afim ao Pós-Modernismo, que preza não só por uma irracionalidade tosca como também pelo recurso ao binômio complexidade (caótica) - contradição, o qual é estranho ao ensino católico tradicional que não admite que uma coisa seja o extremo oposto dela mesma, como também não admite o caos que provoca a desordem.
No que concerne à religião, Adélia Prado é muito ligada a movimentos que se passam por "católicos e conservadores" mas que, na verdade, pregam um modernismo disfarçado, a saber: Opus Dei e Comunhão e Libertação; sobre este último movimento, tem uma matéria bem esclarecedora (e estarrecedora) no link a seguir:
http://www.montfort.org.br/old/index.php?secao=cadernos&subsecao=religiao&artigo=modernimo-giusani&lang=bra
Adélia Prado também chegou a elogiar o péssimo Mestre Eckhart, um dos destruidores da filosofia medieval que pregava uma doutrina notadamente gnóstica, dialética ("se o mundo é ser, Deus é não-ser", é nada, e vice-versa...) em contraposição à analogia do ser defendida por Santo Tomás de Aquino. Eckhart foi inclusive condenado pelo Papa João XXII no século XIV.
É de se espantar, portanto, como quantos desconheçam que as influências de Adélia Prado não têm raízes autenticamente católicas.
Passo agora a comentar algumas das frases contidas nesta entrevista, publicada com louvor pelo site macielista Zenit:
- "A missa é a coisa mais absurdamente poética que existe."
Há aí uma distorção de significados. Missa é sacrifício - a renovação do sacrifício de Cristo no Calvário - e não uma "expressão artística". Este é justamente o cerne das desculpas que os liturgistas modernistas usam para apôr à Missa os "enfeites" contestados pela Adélia Prado.
- " "O canto não é ungido, ele é feito, fazido, fabricado. É indispensável redescobrir o canto oração", disse, citando o padre católico Max Thurian, que, observador no Concílio Vaticano II ainda como calvinista, posteriormente converteu-se ao catolicismo e ordenou-se sacerdote. "
Desconhecia que Max Thurian se converteu ao catolicismo. Como quer que seja, convém apontar que ele foi um dos que cooperaram com a fabricação da equívoca e ecumênica Missa nova de Paulo VI. Ora, a contribuição de Thurian para a revolução litúrgica (contestada em parte pela escritora) foi protestante, e como protestante, não na sua posterior condição de padre católico (católico??). Então, a crítica de Adélia Prado à "música litúrgica fabricada" perde credibilidade por ela usar argumentos de um dos que justamente ajudaram a "fabricar" a nova Missa, em ruptura com o que a Igreja sempre celebrou.
(continua...)
(continuação)
- " Segundo a poeta, "a palavra foi inventada para ser calada. É só depois que se cala que a gente ouve. A beleza de uma celebração e de qualquer coisa, a beleza da arte, é puro silêncio e pura audição" (...) "Parece que há um horror ao vazio. Não se pode parar um minuto". «Não há silêncio. Não havendo silêncio, não há audição. "
Aqui se vê que Adélia Prado cai no erro de recorrer à contradição. Som (audição) e silêncio são conceitos frontalmente contrários. Primeiro, quando ela afirma que a palavra foi feita para "ser calada". Ora, se se cala, não há palavra alguma! São duas coisas conceitualmente opostas...
Segundo, quanto à questão silêncio vs. audição. Um debatedor de boa formação tomista (ou ao menos em Física) usaria a diferença entre som (salutar) e ruído para explicar que a contemplação dos fiéis é prejudicada porque o som sacro de antigamente foi trocado pelos ruídos modernos, e não para justificar uma contradição entre audição e silêncio como se "os contrários fossem iguais". Ou, na pior das hipóteses, ao menos dizer que o fiel deve se silenciar para seu silêncio ser então preenchido pelos sons celestes - nunca, no entanto, insinuando uma contradição, tal como Adélia parece fazer...
- "Eu não ouço a palavra, porque eu não ouço o mistério, e eu estou celebrando o mistério(...)"
Adélia Prado recorre ao conceito protestante de Liturgia: "todos são celebrantes, padre é só o que preside". Isso, no que pese ela não afirmar isso com todas as letras...
- " De acordo com a escritora mineira (natural de Divinópolis), "muitos procedimentos nossos são uma tentativa de domesticar aquilo que é inefável, que não pode ser domesticado, que é o absolutamente outro". "
Adélia Prado insinua que a Missa, o culto a Deus, é algo "selvagem". Animaliza o divino. Coisa muito afim a um vulgar escritor naturalista do século XIX...
- "Porque a coisa é tão indizível, a magnitude é tal, que eu não tenho palavras. E não ter palavras significa o quê? Que existe algo inefável e que eu devo tratar com toda reverência." "
Parece que esta frase saiu de um sentimentalista protestante, ou mesmo algum pregador da RCC, não de um católico "conservador".
Também noutro trecho de sua entrevista, Adélia Prado faz a contumaz confusão entre o problema de essência da Missa e o já batido argumento modernista "conservador" de que "o problema é a interpretação do Concílio", também mencionando o problema litúrgico como se tivesse surgido meramente "da passagem do latim para o vernáculo". Coisa bem ao gosto dos Legionários de Cristo, que controlam a agência Zenit...
Concluindo sobre Adélia Prado: nem tudo o que reluz é ouro.
No mais, espero não ter embaraçado a quem quer que seja; apenas achei útil fazer um alerta quanto a ideias de um artigo publicado no site Zenit como sendo católicas, quando na verdade não o são.
In Christo et Maria,
Marcel Ozuna.
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