O MODERNISMO DE OLAVO DE CARVALHO

 
 
 
 
 
 
Fernando Schlithler‏
 
“E aconteceu que, tendo Jesus acabado este discurso, estavam as multidões admiradas da sua doutrina, porque os ensinava, como quem tinha autoridade, e não como os seus escribas e os fariseus”. (Mat 7, 28-29)[1]
 
“Rogo-vos, irmãos, que não percais de vista aqueles que causam dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes, e apartai-vos deles. Porque estes tais não servem a Cristo Senhor Nosso, mas ao seu ventre; e com palavras doces e com adulações, enganam os corações dos simples. Porquanto a vossa obediência em toda a parte se tornou notória. Alegro-me, pois, em vós. Mas quero que sejais sábios no bem, e simples no mal. E o Deus da paz esmague logo a Satanás debaixo de vossos pés. A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco.”
(Rom 16, 17-20)[2]
 
“Este testemunho é verdadeiro. Portanto, repreende-os asperamente, para que sejam sãos na fé, não dêem ouvidos a fábulas judaicas nem a mandamentos de homens que se afastam da verdade.
(Tit 1, 13-14)[3]
 
“E, na verdade, esta providência do Supremo Pastor foi em todo o tempo necessária à Igreja Católica; porquanto, devido ao inimigo do gênero humano nunca faltaram homens de perverso dizer (At 20,30), vaníloquos e sedutores (Tit 1,10), que caídos eles em erro arrastam os mais ao erro (2 Tim 3,13).
(Papa São Pio X, Encíclica Pascendi Dominici Gregis)
 
 
  1. 1.      Introdução.
 
 
Em 1907 o Papa São Pio X declarou, com toda autoridade papal, no Motu Proprio Praestantia Scripturae que estão excomungados latae sententiae todos aqueles que defenderem os erros da heresia modernista, condenados no decreto Lamentabili Sine Exitu e na encíclica Pascendi Dominici Gregis.
 
Desde então muita coisa aconteceu.
O modernismo infiltrou-se na Igreja e nos seminários. E também em toda a sociedade por meio dos livros, jornais, filmes, arte e música.
 
Ocorreram duas guerras mundiais.
 
O modernismo tentou até se camuflar sob a forma da Nova Teologia, também condenada pelo Papa Pio XII na encíclica Humani Generis.
E, por fim, lamentavelmente triunfou no Concílio Vaticano II. E quem afirma isso não é nenhum “tradicionalista”, mas sim Jean Guitton, filósofo modernista e amigo íntimo do Papa Paulo VI:
 
“Quando leio os documentos concernentes ao Modernismo, tal como ele foi definido por São Pio X, e quando os comparo com os documentos do Concílio Vaticano II, não posso deixar de ficar desconcertado. Porque, o que foi condenado como uma heresia em 1906,  foi proclamado como sendo e devendo ser doravante a doutrina e o método da Igreja. Dito de outro modo, os modernistas em 1906 me aparecem como precursores. Meus mestres faziam parte deles [os modernistas]. Meus pais me ensinavam o Modernismo. Como São Pio X pode repelir os que agora me aparecem como precursores?” (Jean Guitton, Portrait du Père Lagrange, Éditions Robert Laffont, Paris, 1992, p.55-56).[4]
 
Quem não conhece esses documentos de São Pio X nem a história do modernismo e do Concílio Vaticano II simplesmente não entende a situação atual da Igreja e do mundo.
Uma descrição do estado de coisas atual que não leve isso em conta não passará de uma fábula, de uma alienação, de uma “segunda realidade” – termo usado por certo filósofo alemão e ateu do qual também trataremos a seguir.
 
O surgimento de uma heresia, via de regra, provoca uma reação por parte dos católicos. Para desvirtuar essa reação, muitas vezes, os partidários da heresia criticam alguns de seus pontos a fim de dissimular sua própria adesão. Tecem então uma descrição enviesada e camuflada do estado de coisas e da própria heresia, levando em conta somente aspectos parciais desta, quando ao mesmo tempo a defendem ao fazer essa mesma descrição. Eles montam uma versão “metonímica” da heresia, não raro se valendo de uma linguagem igualmente metonímica para interpretá-la[5].
 
 
Uma heresia nunca aparece sozinha. Está sempre cercada de versões atenuadas, mitigadas e camufladas, que somente fingem uma oposição a ela. Sempre foi assim durante toda a história da Igreja. É como uma mancha num tecido: há um centro onde ela é bem densa, irradiando-se e atenuando-se concêntrica e gradualmente ao seu redor. Assim foi com o arianismo, com o jansenismo…
 
Uma carta respondida pelo Prof. Orlando Fedeli em nosso site apresenta diversos elementos históricos que bem demonstram nossas afirmações:
“Quando surgiu o arianismo, nasceu logo o semi-arianismo, que, por ser mais moderado, arrastou muito mais gente para a heresia. Com o jansenismo, nasceu, pior que ele, o semi-jansenismo. Para “cristianizar” o liberalismo, houve quem lançasse o “liberalismo católico”. E os Papas condenaram os dois: o liberalismo e o liberalismo dito católico. Depois do socialismo ateu, alguns tentaram lançar o “socialismo cristão”, que foi condenado pelo Papa Pio XI na encíclica Quadragesimo Anno, mostrando que catolicismo e socialismo são termos antagônicos, e que ninguém pode ser católico e socialista ao mesmo tempo. Essas foram as palavras de Pio XI”[6].
 
 
Foi assim também na Revolução Francesa. Uma corrente da maçonaria – materialista e racionalista – se ocupava da parte destrutiva. Parte que eles mesmos chamavam de “a faxina sangrenta”. Essa era a corrente responsável pelo clima de anarquia, destruição e de crimes presentes na revolução, produzindo um estado de desorientação geral. Essa era a corrente de “esquerda”.
 
A outra corrente – espiritualista, mística e de “direita” – buscava manipular os descontentes e desorientados, fornecendo-lhes uma falsa oposição, uma falsa orientação, que não passava de uma solução agravante do problema. Essa era a corrente mística da maçonaria. Esses eram os martinistas, discípulos de Louis Claude de Saint-Martin – o “filósofo desconhecido” – que por sua vez era discípulo de Martinez de Pasqually, uma figura misteriosa que surgiu na Europa no século XVIII, pouco antes da Revolução e que ensinava uma prática de magia conhecida como teurgia. Martinez de Pasqually pregava em lojas maçônicas contra o racionalismo e materialismo. Mas, para certos autores ingênuos ou comprometidos, essas pessoas eram inofensivas.
 
Essa corrente maçônica ficou então responsável pela “restauração”exatamente o nome dado ao período histórico consequente à Revolução.“Restauração” era uma palavra código que para os ingênuos significava restauração da monarquia, mas na verdade, segundo a doutrina gnóstica domartinismo, queria dizer “restauração do homem no estado de inocência primeva”… Ou seria restauração da experiência original?
 
Para que a estratégia dos inimigos da Igreja obtivesse êxito, era necessário que eles mesmos impedissem a verdadeira orientação e oposição diante da situação. Por isso, criaram uma falsa oposição que, ao fornecer uma falsa orientação para os descontentes e perplexos, fazia a desorientação triunfar.
 
Assim, Joseph de Maistre – maçom martinista que fingia ser católico – forneceu à covarde e exilada nobreza francesa uma interpretação anestesiante sobre a Revolução. Ele a considerava um castigo divino. Portanto, sendo a Revolução vontade de Deus de nos castigar, não poderíamos lhe opor resistência, pois seria ir contra a vontade divina. Tremendo sofisma. Era justamente o tipo de autoengano que a consciência pesada da nobreza precisava para afastar qualquer sentimento de remorso por sua covardia em ter fugido ao dever da batalha, mesmo que essa lhes custasse a vida. Era exatamente o que era necessário para fazer o liberalismo da Revolução Francesa triunfar na sociedade, aniquilando de vez o que restava da ordem social católica.
 
 
Segundo a TFP (que nos anos 50 curiosamente se chamava “Sociedade Joseph de Maistre”), essa corrente mística não passava de uma inofensiva “maçonaria de sacristia”… Claro. Afinal, essa tal macumba teúrgica que eles praticavam era muito séria, muito “católica”. Era macumba ultramontana, comsacralidade! Então não tinha mal algum. Se havia “sacralidade”, talvez a própria TFP pudesse praticá-la, pelo jeito…
 
E na TFP há uma sociedade secreta, chamada Sempre Viva, de fundo martinista, descoberta e denunciada pelo Professor Orlando Fedeli[7].
Houve também um sujeito chamado René Guénon, na primeira metade do século XX. Ele também era conhecido como Sheikh Abdel Wahed Yahia, como “bispo” Palingenius da “Igreja Gnóstica” ou simplesmente René Guénose. Escrevia também, com pseudônimos nas revistas “La Gnose” e numa revista antimaçônica, a “La France Chrétienne Antimaçonnique”. Nessa revista – antimaçônica – ele escrevia com o pseudônimo de “Le Sphinx”. Ah sim, me esqueci: ele era maçom.
 
Assim também foi e é com a heresia modernista em nossos dias. Há diversas correntes – umas mais a esquerda, outras mais ao centro, outras à direita – dentro do modernismo, que aparentemente brigam entre si. Dentre elas, a Teologia da Libertação, RCC, Neocatecumenato, Comunhão e Libertação, Arautos do Evangelho, TFP. Sim, por que Plínio Correa de Oliveira tinha uma filosofia modernista burlesca baseada em Bergson[8]. E toda a ação da TFP no Brasil serviu e serve para fazer triunfar o modernismo do Concílio Vaticano II e da Missa Nova. Qualquer oposição entre esses grupos não passa de briga de família.
 
De fato é bem curioso, mas coerente com a história das heresias, haver hoje certos denunciadores do materialismo, do esquerdismo e até do modernismo que apreciem abertamente pessoas ligadas a essa maçonaria mística. Bem suspeito.
Seriam também maçons?! Teriam eles a intenção de destruir a Igreja?
Não.
Imagine!
Que horror!
Quanta imaginação!
 
Para não prolongar por demais este trabalho, e não sendo nosso objetivo analisar as intenções de todos aqueles que defendem as heresias de forma velada, apresentamos a seguir um trecho da Encíclica Humanum Genus do Papa Leão XII:
 
“11. O que Nós dissemos, e estamos para dizer, deve ser entendido com respeito à seita dos Maçons tomada genericamente, e tanto quanto ela compreende as associações aparentadas a ela e confederadas com ela, mas não dos seus membros individuais. Pode haver pessoas entre eles, e não poucos que, embora não livres da culpa de terem se enleado em tais associações, ainda assim não são eles mesmos parceiros em seus atos criminosos nem conscientes do objetivo último que eles estão se esforçando por alcançar. Do mesmo modo, algumas das sociedades afiliadas, talvez, de modo algum aprovem as conclusões extremas que eles iriam, se consistentes, abraçar como conseqüências necessárias de seus princípios comuns, se a sua própria maldade não os enchesse de horror. Alguns deles, novamente, são levados pelas circunstâncias dos tempos e lugares ou a visar coisas menores do que os outros normalmente tentam ou do que eles mesmos desejariam tentar. Eles não devem, entretanto, por esta razão, ser considerados como estranhos à federação maçônica; porque a federação maçônica deve ser julgada não tanto pelas coisas que ela tem feito, ou concluído, quanto pela soma de suas opiniões pronunciadas.” [9].
 
Podemos também concluir que alguém que tenha admiração e adesão às ideias de autores maçons, ao defender princípios maçônicos, divulgando-os em sua obra ainda que não participe de suas cafonas lojas e ridículos rituais, pode ser considerada como não estranha à maçonaria. Pois suas ações ao serem conduzidas de acordo com tais princípios, contribuem – quer queiram ou não, pouco importa – para a ação dessa entidade na sociedade.
 
Bom, mas voltando dessa breve digressão, necessária para esclarecer nossos opositores, há um fulano por aí, chamado Olavo de Carvalho.
 
 
Olavo se apresenta como jornalista, astrólogo, filósofo, husserliano, voegeliniano, lonerganiano, lavelliano, filo e ex-guénon-schuoniano, filoevoliano, ex-tariqueiro, ex-idrieshahniano, ex-comunista, zubiriano, independente, ecumênico radical, judeu, brasileiro, redneck, muçulmano, budista, hindu, protestante, brega, liberal em economia, tradicionalista e conservador em religião, anarquista em moral, mais anarquista ainda em educação, radicalmente nacionalista e protecionista e tudo o mais que os globalistas odeiam em política (sobretudo em comércio) internacional, contra o governo mundial e, dizem, até cambista de ingressos de jogo de baseball[10]. Dizem também que se diz católico. É eclético, ou como diriam alguns… chiclético. Varia de acordo com o sabor do momento.
 
Parece não conhecer muito de história também. Pois numa nota de rodapé do seu livro “Jardim das aflições”, escreveu:
“Sim, pois como poderia estar integralmente comprometida com a Revolução [francesa] a entidade [maçonaria] que tinha entre seus membros de destaque um Saint-Martin, um De Maistre?”. [11] 
 
Ou será que conhece?!
Não pense bobagem caro leitor! O que é isso! Como pode? Olha o respeito.
Como pensar uma coisa dessas de alguém que denuncia muitos problemas reais (e que são, de fato, bem reais) como a psicopatia esquerdista, o marxismo cultural e o Foro de São Paulo? Porém esse é só um recorte dos problemas reais que afligem hoje nossa sociedade e o mundo em geral. É só parte do problema. Digamos assim, é só a parte esquerda do problema.
 
São apenas sintomas de uma crise maior. Crise esta que escapa misteriosamente à descrição do estado de coisas dada por esse filósofo. Talvez por ele – inconscientemente ou não – compactuar com ela.
 
Olavo também se diz contra o modernismo e o Concílio Vaticano II.
Mas será mesmo?
 
Será que ele é contra o modernismo, condenado nos documentos supracitados por São Pio X e por Pio XII? Será que ele é mesmo contra o Concílio Vaticano II, no qual o modernismo triunfou em seus documentos através da fenomenologia[12]?
 
Resta-nos somente agora descer ao abismo de Olavo de Carvalho, ao emaranhado confuso que tornou sua alma turva para a realidade e para a sã doutrina, para então vermos se voltamos de lá com algumas “pérolas cristalinas”, como diria, em estilo bem cafona, um de seus ex-alunos. E também – e principalmente – para tentar resgatá-lo dessa turva confusão em que se afoga. Bem como a todos seus alunos, em especial àqueles que fazem parte do clero.
 
Pois disse Sócrates logo no início da República de Platão: “kateben”. “Eu desci”. E que o ateu, modernista e gnóstico Eric Voegelin repetiu com seu sotaque carregado “I went down”.
  1. 2.      Descida ao abismo filosófico de Olavo de Carvalho: o modernista filósofo.
 
a)      O Agnosticismo (bem mal) mitigado de Olavo.
São Pio X começa a exposição sobre a doutrina modernista explicando o erro filosófico sobre o qual ela se fundamenta: o agnosticismo. Pois um erro filosófico sempre leva inevitavelmente a um erro teológico, um erro sobre a religião. Com bem disse Garrigou-Lagrange: “Um erro quanto à noção primeira da verdade provoca um erro em tudo mais.”.[13]
 
“Começando pelo filósofo, cumpre saber que todo o fundamento da filosofia religiosa dos modernistas assenta sobre a doutrina, que chamamos agnosticismo.Por força desta doutrina, a razão humana fica inteiramente reduzida à consideração dos fenômenos, isto é,  só das coisas perceptíveis e pelo modo como são perceptíveis; nem tem ela direito nem aptidão para transpor estes limites. E daí segue que não é dado à razão elevar-se a Deus, nem conceder-lhe a existência, nem mesmo por intermédio dos seres visíveis. Segue-se, portanto, que Deus não pode ser de maneira alguma objeto direto da ciência; e também com relação à história, não pode servir de assunto histórico. Postas estas premissas, todos percebem com clareza qual não deve ser a sorte da teologia natural, dos motivos de credibilidade, da revelação externa. Tudo isto os modernistas rejeitam e atribuem ao intelectualismo, que chamam ridículo sistema, morto já há muito tempo. Nem os abala ter a Igreja condenado formalmente erros tão monstruosos” [grifo nosso] (Papa São Pio X – Encíclica Pascendi Dominici Gregis).
Olavo de Carvalho defende também uma forma de agnosticismo: a fenomenologia[14]. Ele afirma que a verdade está na experiência original, individual e não pode ser apreendida com exatidão por meio de ideias, juízos e palavras. Ele afirma que quando a experiência é abstraída em idéia, conceito e exposta em palavras, ela perde sua exatidão. Ou seja, a razão não pode conhecer a realidade, não capta a verdade, apenas se aproxima dela, sempre com alguma distorção. Vejamos o que diz Olavo a seguir:
 
“Nós quando raciocinamos não lidamos com o material puro da experiência. Nós lidamos com suas formas consolidadas repetidas na memória. Essas formas por sua vez podem não ser muito fiéis à experiência originária, porque voce submeteu a experiencia originária a um processo de abstração, voce separou certos pontos e gaurdou só certos esquemas. Em cima desses esquemas voce criou uma expressão verbal. A expressão verbal, tão logo voce conseguiu formulá-la, ela se torna por sua vez independente dos próprios esquemas depositados na memória. Tanto é assim que quando nós falamos cada palavra que nós estamos usando evoca de algum modo alguma experiência originária e algum esquema depositado na memória. Mas será que quando eu falo eu preciso que todas as imagens da onde eu tirei essas palavras perpassem pela minha memória? Não! Eu uso todas as palavras direto. Nessas várias transições dos sentidos para a memória, da memória para a fala, da fala para a discussão, da discussão para a depuração dialética, da depuração dialética para a prova, você olha quanto se pode perder aí. Ou seja,a experiência originária desaparece e era isso mesmo o famoso protesto de Husserl ‘nós temos que voltar às coisas’. Chega de idéias, de palavras, de conceitos. Nós temos que voltar a onde nós tiramos tudo isso. (“A filosofia e seu inverso” – aula do seminário de filosofia de 18 de fevereiro de 2012  http://www.youtube.com/watch?v=lk4oMi3B5wY).
 
Foi a fenomenologia de Husserl que os padres do Concílio Vaticano II aplicaram como método em seus documentos. Sobre isso o Pe. Kobler escreveu dois livros que serviram como base para o Professor Orlando Fedeli em seu trabalho “A religião no Concílio Vaticano II”[15]. Trabalho que demonstra como essa filosofia é contrária ao Catolicismo.
E é sobre a fenomenologia de Husserl que Olavo afirma o seguinte delírio:
 
 
Eu acho mesmo que a Fenomenologia é uma mensagem divina, é um poder divino isso aí. Quem entra por ali não sai mais, não sai porque este é o caminho para cima, para cima e para o todo. Para fora do todo não tem nada.” (Preleção XX em “Edmund Husserl contra o psicologismo”,www.4shared.com/document/Xvsi6WJo/CARVALHO_Olavo_-_Edmund_Husser.htm).
 
O mesmo erro agnóstico é exposto na apresentação do livro “Os EUA e a Nova Ordem Mundial – Um debate entre Alexandre Dugin e Olavo de Carvalho”:
“Segundo Prof. Olavo de Carvalho, nenhuma filosofia jamais pode alcançar a expressão exata da verdade. Tão logo os filosofemas – as intuições básicas que compõe a substância do pensamento filosófico – sejam afirmados em juízos e os juízos expressos por meio de palavras, aparece o descompasso entre o dito e o intuído. (“Os EUA e a Nova Ordem Mundial”, p. 20-21 – Vide Editora – 2012).
 
O curioso é que, assim como Husserl, Olavo afirma através de juízos, idéias e palavras que os juízos, idéias e palavras não podem captar nem expressar a realidade adequadamente. Se ele afirma isso com palavras, como pode ter isso como certo, como pode considerar que tal inadequação é mesmo real? Tremendamente autocontraditório. Se houvesse de fato essa inadequação, jamais haveria como termos notícia dela, nem, portanto, como expressá-la em palavras.
 
É como se Olavo quisesse provar por A+B que A+B não prova nada. Um absurdo. É exatamente como o símbolo gnóstico e alquímico Ouroboros que mostra uma serpente ou dragão tentando engolir o próprio rabo. É também como aquelas figuras de Escher[16], feitas para causar uma ilusão de ótica. Não passa de absurdo e ilusão.
 
Essa autocontradição é típica da escola pirrônica da Grécia Antiga, também conhecida como ceticismo e denunciada por São Pio X sob a forma de agnosticismo. O pirronismo diz ser impossível ao homem o conhecimento da realidade. Se assim fosse, como seria possível conhecer e afirmar com certeza que ao homem é impossível conhecer a realidade? É autocontraditório.
 
Assim como é autocontraditório o relativismo, que diz que a verdade não existe. Ora, é verdade que a verdade não existe? Se sim, a afirmação é falsa. Se não, a afirmação também é falsa.
Um enunciado autocontraditório é aquele que nega, em sua própria afirmação, o conteúdo que ele mesmo afirma. Ele se auto-aniquila exatamente como a serpente ou dragão de Ouroboros. Logo, não pode ser verdadeiro. É o início da destruição da lógica e da razão. É um sofisma que funciona para entorpecer a consciência, mediante um autoengano, eximindo o sujeito da culpa real que sente por não subordinar-se à verdade, por não querer reconhecer uma verdade desagradável. Não passa de uma pegadinha diabólica. E é o princípio que está por trás de toda a gnose[17].
 
A partir de seu agnosticismo, já podemos ver de onde vem o relativismo religioso de Olavo, que será analisado mais à frente. Relativismo igualmente condenado pelo magistério infalível da Igreja, incluindo o Papa São Pio X nos documentos supracitados.
 
Conclui-se portanto que, em seus artigos e livros, Olavo apenas finge combater o relativismo moderno. Ele combate um erro com uma versão mitigada do mesmo erro, fazendo o erro triunfar. Trata-se, portanto de uma solução agravante, que ele mesmo reconhece ser tática dos revolucionários[18].
 
E é exatamente do agnosticismo que São Pio X mostra que surge a doutrina sobre a “experiência originária” que como vimos, Olavo defende e sobre a qual trataremos mais abaixo.
 
b)      Olavo palpiteiro.
 
São Pio X mostra então como o agnosticismo afirma que “Deus não pode ser de maneira alguma objeto direto da ciência, e é exatamente isso que Olavo defende:
“Se há um Deus onipotente, onisciente e onipresente, é óbvio que não podemos conhecê-Lo como objeto, ou mesmo como sujeito externo, mas apenas como fundamento ativo da nossa própria autoconsciência, maximamente presente como tal no instante mesmo em que esta, tomando posse de si, se pergunta por Ele.” (Carvalho, Olavo de – O Deus dos palpiteiros http://www.olavodecarvalho.org/semana/090318dc.html).
 
O nome do artigo em que ele escreveu essa baboseira está bem adequado à sua noção de Deus. Não são apenas Dawkins e Dennet que falam como palpiteiros sobre Deus. O Deus que Olavo concebe como parte do sujeito, “maximamente presente” na autoconsciência não é o Deus verdadeiro, mas também o Deus de um palpiteiro. Trata-se inequivocamente de um caso de projeção inversa: Olavo atribui a outros um erro que é seu[19]. Projeção causada por uma falta descarada de autoconhecimento, pois é sintoma de não querer compreender que seu modo de conhecer a Deus é de palpiteiro. Veremos no decorrer deste trabalho que a projeção é uma característica constante na obra de Olavo.
 
E, para piorar, Olavo diz logo depois que é Santo Agostinho quem ensina isso!
Ao contrário do que Olavo pensa, Santo Agostinho afirma no livro X, capítulo VI, das Confissões que:
 
“O homem interior conheceu estas coisas pelo ministério do exterior; eu, enquanto homem interior, conheci estas coisas, eu, eu enquanto espírito, por meio do capacidade de sentir do meu corpo. Interroguei o conjunto do universo acerca do meu Deus, e ele respondeu-me: ‘Não sou eu, mas foi ele que me fez’.”[20]
Veja como Santo Agostinho é bem diferente de Olavo. A ideia que Olavo tem de Santo Agostinho é a de um personagem de sua fantasia e não a do santo real. Essa visão distorcida sobre Santo Agostinho foi típica de Lutero, dos jansenistas e também dos modernistas.
 
 
Quem acha que o intelecto não pode conhecer a realidade, dizendo ela ser acessível somente à experiência intuitiva, acabará inevitavelmente caindo no erro de acreditar que também Deus não pode ser conhecido racionalmente, isto é, objetivamente. Para Olavo, as outras faculdades cognitivas, como a abstração, o raciocínio, seriam apenas “acessórias”:
 
“Como, para o nosso filósofo, a intuição é o modo de conhecimento da realidade, em comparação ao qual as outras faculdades cognitivas são acessórias, então, este descompasso implica na inadequação incontornável entre a apreensão do real – intuitiva, em essência – e sua transmissão em palavras num sistema de filosofia efetuada, por definição, de forma discursiva.” (Os EUA e a Nova Ordem Mundial, pp. 20-21 – Vide Editorial – 2012).
 
Se Deus não pode ser pensado como objeto, por onde o homem iria conhece-lo? Onde se manifestaria a existência de Deus para o homem? Se não é objetivamente, só poderia ser subjetivamente. Só restaria a experiência individual e intuitiva da “autoconsciência”, levando a pensar Deus não como objeto, mas como sujeito:
 
 
“Por exemplo, a hipótese do Deus mau [i.e., o gnosticismo] tem esse problema: Deus é mau, e o condeno porque ele é mau. Isto quer dizer que eu sou bom. E de onde saiu minha bondade? Se Deus é tão mau, porque ele fez um sujeito bom? Isso quer dizer que o que você está vendo no mundo é apenas o retrato da maldade desse suposto Deus, e não de sua própria bondade. Sua bondade está ausente do mundo, e o indivíduo que assim se sente não se reconhece naquilo que acontece. Se ele percebe que há algo de bom nele, verá sinais dessa bondade em tudo quanto é lugar. Mas como ele [o gnóstico] começa a falar de Deus como objeto, e não também como sujeito – é um Deus que está fora e acima dele, e não um Deus que está fora dele, mas está dentro dele também, ao mesmo tempo -, então cria essa ruptura e essa visão “teatral” da realidade. É o mundo como um palco que você está assistindo, e você está fora. Isso é falso, falso na base.” (Apostila que acompanha a vídeo aula “Advento do Cristianismo” – p. 54 – É Realizações – 2003)
 
Antes de explicarmos como Deus não pode ser sujeito no homem, vejamos algo bem interessante: Olavo acusa os gnósticos de verem a Deus como objeto, o que não é verdade. Para os gnósticos há duas divindades: uma falsa e má que seria o demiurgo, criador do mundo, responsável pela materialidade, pela articulação intelectual dos seres (que corresponde ao Deus conhecido objetivamente pela luz natural da razão e pela revelação, ou seja, o Deus verdadeiro como ensina o Catolicismo); e outra verdadeira, consubstancial ao homem, mas aprisionada pelo demiurgo no mundo criado, na matéria. Para a gnose, Deus está aprisionado no corpo e alma humanos, portanto se identificando com ele ainda que de uma maneira dialética. Portanto, segundo a gnose, Deus está dentro do homem (presença que os gnósticos identificam como uma “centelha divina”) exatamente a ideia que Olavo pretende opor ao gnosticismo. Ao fazer um recorte seletivo e metonímico, Olavo combate apenas um aspecto parcial do gnosticismo. Ao julgar o gnosticismo todo em função dessa visão metonímica, Olavo opõe como solução ao gnosticismo uma ideia também gnóstica. Ou seja, ao fingir combater a gnose, Olavo oferece uma falsa solução da qual a própria gnose sai triunfante.
 
Deus não pode ser em nós sujeito nunca. Isso é falso e falso na base. Aliás, é tese panteísta e gnóstica. O panteísta acredita que está imerso em Deus, consubstancial a Ele. O gnóstico acredita também nisso, mas de outro modo: sua verdadeira natureza divina estaria aprisionada, encoberta pela prisão da matéria e da alma racional. Bem curioso, pois Eric Voegelin, um dos gurus de Olavo, também acredita nessa tese delirante e gnóstica da consubstancialidade de todos os seres. Mas, deixemos isso para depois.
 
É óbvio que Deus, em sua substância, em sua essência, não pode ser conhecido naturalmente. Deus é infinitamente transcendente a todas as criaturas.  Porém, pelo exame das criaturas pode ser objeto de conhecimento sim e o Concílio Vaticano I condenou com excomunhão quem negue isso.
 
Tanto é que logo em seguida São Pio X reafirma a condenação feita aos que negam o conhecimento objetivo de Deus:
“Se alguém disser que o Deus, único e verdadeiro, criador e Senhor nosso, por meio das coisas criadas não pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, seja anátema (De Revel. Cân. 1)”.
 
Como ensina a Igreja Católica, no sujeito humano há apenas uma imagem (pela natureza) e semelhança (pela graça santificante, quando em estado de graça) de Deus. Todas as perfeições da criatura humana, todas as qualidades, assim como de toda a criação, existem em Deus em grau infinito e perfeitíssimo. É por isso que, conhecendo a criação, conhecemos verdades sobre Deus: que Deus é Motor Imóvel, Causa não causada de todas as coisas, Ser necessário, Ser Infinito, Perfeição Infinita, Bondade Infinita, Verdade Infinita, Beleza Infinita, Sabedoria Infinita. Tudo isso pode ser conhecido pela luz natural da razão, sem auxílio da Revelação. E são verdades imutáveis sobre Deus, expressadas perfeitamente nas cinco vias de São Tomás, que não podem nem jamais serão refutadas. Assim como 2+2=4 é verdade hoje, ontem e sempre, essas provas também o são. E, além disso, conhecemos a verdade não como sujeito, mas como objeto, pois toda verdade é objetiva. Tomamos notícia de Deus através do exame das criaturas.
 
A verdade é a correspondência ou adequação entre a ideia do sujeito cognoscente e o objeto conhecido. A verdade está formalmente no sujeito cognoscente enquanto ideia e ontologicamente no objeto conhecido, do qual ela é abstraída. A verdade, portanto, é objetiva e não pessoal ou subjetiva.
 
 
  1. 3.      Descida ao abismo doutrinal: O erro sobre a doutrina e o dogma.
 
a)      Olavo contra o decreto Lamentabili de São Pio X:
Vejamos abaixo um dos erros condenados no decreto “Lamentabili”:
“Cristo não ensinou um determinado corpo de doutrina, aplicável a todos os tempos e a todos os homens; inaugurou em vez certo movimento religioso que se adapta, ou que deve ser adaptado aos diversos tempos e lugares.” (Papa São Pio X – Decreto Lamentabili).
Contrariando São Pio X e sendo alvo direto das condenações do decreto “Lamentabili”, Olavo de Carvalho em várias afirmações defende esse erro:
 
“No Evangelho tem doutrina? Não tem doutrina nenhuma, tem uma narrativa.” (Apostila que acompanha a vídeo aula “Advento do Cristianismo” – p. 23 – É Realizações – 2003)
“Você não vê uma exposição doutrinal no Evangelho inteiro. O Evangelho é uma primeira narrativa de um fato, e só.” (Idem, p. 33)
 
“Pelo lado cristão, é preciso ter tido muitos concílios e ter estabilizado um certo corpo de doutrina(…)”(Idem, p. 51)
“(…) Primeiro a pessoa não tem idéia do que seja uma religião. Acreditam que a religião seja um negócio de fé. A religião [enquanto] uma doutrina na qual você acredita sem ter razões para acreditar. Todo mundo acha que a religião é isso. Até quem acredita em religião acredita. Eu digo: nenhuma religião é isso. Entre o surgimento do Cristianismo e a formulação da doutrina cristã passaram-se alguns séculos. O Cristianismo não aparece sob uma forma de doutrina, aparece sobre uma forma de uma série de acontecimentos com um impacto formidável ao qual só muito gradativamente as pessoas dão uma expressão doutrinal. Ou você consegue imaginar, pelo menos vivenciar imaginativamente esses acontecimentos para você, vamos dizer conseguir de algum modo penetrar na atmosfera originária daquela religião ou você nunca vai saber o que é a religião. Se você pegar: o que que é o judaísmo, é um conjunto de crenças? Eu digo: não, é a história real do povo judeu ao longo dos milênios (…) conservada na memória coletiva. Ou você consegue conceber isso ou você nunca vai saber o que é judaísmo. Agora, todo mundo discute religião acreditando que é um formulário de crenças prontinha no qual ou você acredita ou não acredita. Que estupidez é essa? As religiões são o único elemento criador de civilização. Não tem outro, não existiu nem vai existir outro jamais. Então as pessoas acham que elas podem inventar uma civilização em laboratório? Eu digo: elas vão produzir monstros. E olha: se você pensar, há 200 anos nós temos feito isso. Nós temos inventado sociedades que são monstros. O que que é a ‘maravilhosa sociedade liberal da revolução francesa’? ‘Ah, nos vamos libertar a humanidade da opressão’. Daí assim, em três meses você mata mais gente do que a inquisição espanhola tinha matado em quatro séculos. E daí ‘não, isso aí tá errado, nós temos que inventar outra, não, vamos fazer a socialista, porque esses caras eram uns burgueses vendidos. Chega o socialismo e mata mil vezes mais gente.” [grifo nosso] (Carvalho, Olavo de – O Brasil perante os conflitos da nova ordem mundial – Palestra na OAB – 2004http://www.youtube.com/watch?v=UpqFxWMAa8U )
 
 “Por exemplo, se você pegar assim: “a doutrina cristã é verdadeira e as outras são falsas”. Ora, a doutrina cristã é um negócio que só começou a existir muito tempo depois. O Cristianismo não é uma doutrina. O cristianismo é uma sequência de fatos que aconteceram. Dos quais os intérpretes posteriores vão gradativamente extraindo com maior ou menor felicidade uma doutrina.A formação da doutrina cristã ainda não terminou. Ela vem ao longo de discussões que aparecem sobretudo nos concílios e que ainda não terminou de ser formulada. Então você não pode dizer que existe uma doutrina cristã originária. Não havia doutrina nenhuma. Você tinha ali a pessoa real do Cristo presente atuando. Como é que você transforma uma história verdadeira, quer dizer, uma biografia miraculosa numa doutrina? Você está entendendo? É tão difícil você extrair uma doutrina da vida do Cristo quanto mais difícil é você extrair uma doutrina da sua própria vida. Transforma sua vida numa doutrina. O que que a sua vida afirma, o que que ela nega? Bom, essa transposição não é impossível, mas ela é bastante difícil. Tá certo? Então, se fosse depender duma doutrina cristã só começaria a existir cristãos depois de alguns milênios, você tá entendendo? O Cristianismo não é uma doutrina. É a presença de um indivíduo que é o Verbo de Deus encarnado e no qual tudo depende da atitude que você tenha perante esse indivíduo, perante esse homem. O sujeito que interpreta a fé no sentido de crença é um idiota completo. Pessoas como Kant por exemplo jamais entendeu o que é Cristianismo. Aliás a maior parte das pessoas que discutem isso – sobretudo jornalista e professor universitário – olha, devia tudo voltar para o jardim da infância. Por que crer ou não crer numa doutrina subentende que a doutrina exista. Como não existia doutrina nenhuma não havia no que crer. Então quando se fala de fé, é a confiança que as pessoas tinham num indivíduo. Não é uma atitude doutrinal de crer ou não crer, aceitar, acreditar ou não acreditar. Não: é confiar ou não confiar. Quer dizer, a fé como crença já é um sentido muito degradado e posterior à palavra.Como é o único que as pessoas conhecem porque só tomaram conhecimeto do cristianismo através do seu reflexo na cultura de massa. Não tem a menor idéia do que tenha sido a experiência originária, não tem um pouco de imaginação para conceber o que que teria sido o cristianismo antes de existir doutrina cristã. Então eles colocam, eles tomam o seu próprio erro de ótica, a sua própria ilusão de ótica e colocam a fé como crença e imaginam até que existemm várias doutrinas e que existem várias fés conforme o sujeito acredite na doutrina cristã, acredite na doutrina islâmica, etc. Tudo isso é de uma vulgaridade e de uma estupidez fora do comum.”[grifo nosso] (Sexto bate papo com Olavo de Carvalho (lado A) – http://www.youtube.com/watch?v=T855mHxnaIw) 
                          
Se a doutrina teria surgido depois, Cristo não teria sido seu autor. Portanto, as afirmações de Olavo caem no erro supracitado, condenado pelo decretoLamentabili. Se Cristo não ensinou uma doutrina, o que seria então a doutrina católica? Ela seria então um fruto de um esforço posterior de interpretação dos acontecimentos da vida de Cristo, tese igualmente condenada no mesmo decreto:
 
“Os dogmas que a Igreja apresenta como revelados não são verdades caídas do Céu; são uma certa interpretação de fatos religiosos que a inteligência humana logrou alcançar à custa de laboriosos esforços.” [grifo nosso] (Papa São Pio X – Decreto Lamentabili).
 
O mesmo erro é afirmado por Olavo na sua vídeo-aula “Advento do Cristianismo”:
“As religiões de fato não começam com doutrina, nenhuma começa com doutrina. Começam com um fato. O que este fato diz? As pessoas que participaram, que estavam lá perto, não seriam capazes de expor o que aquele fato dizO conteúdo intelectual, doutrinal, leva séculos para se expressar. É um tremendo esforço de interpretação que se faz depois, porque a doutrina se forma depois Tanto que a fase de formalização pode ser considerada até o momento de decadência da religião, e é um negócio até perigoso.” (Apostila que acompanha a vídeo aula “Advento do Cristianismo” – p. 33 – É Realizações – 2003)
 
Olavo claramente diz que a doutrina é fruto de um “tremendo esforço de interpretação” posterior de um “fato”. A frase dele é essencialmente idêntica à condenada por São Pio X. Não há como escapar da condenação. Negar isso seria um claro sinal de um autoengano grosseiro, causado por uma dissonância cognitiva[21].  Neste caso, se alguém arranjar alguma desculpa para não querer constatar esse fato, aí sim poderíamos dizer se tratar de um “tremendo esforço de interpretação que se faz depois”. Um tremendo esforço para retroativamente dar às palavras de Olavo ou de São Pio X um sentido diferente das quais elas evidentemente possuem.
 
E, para piorar, Olavo considera, junto com seu guru igualmente modernista e, além disso, ateu, Eric Voegelin, que a formalização doutrinária pode ser considerada uma decadência, o que é um absurdo e uma ofensa a Igreja Católica. (Trataremos mais adiante sobre essa questão).
 
Vejamos outros exemplos desse tipo de afirmações errôneas e modernistas de Olavo, para que não se diga que se tratou apenas de uma única frase tirada de um contexto:
“[Aluna: A doutrina é, então, um esforço de interpretação desses documentos: evangelhos, cartas…].
 
[Olavo] Posterior. Uma doutrina tem que se expressar em linguagem estabilizada, conceitual e dotada de universalidade.” (Apostila que acompanha a vídeo aula “Advento do Cristianismo” – p. 33 – É Realizações – 2003)
“[Aluno: Eu pensei assim: quando você já tem um conhecimento da doutrina religiosa, não precisa de um fato desses].
 
[Olavo] Mas a doutrina religiosa aparece milênios depois. É isto que é importante entender. A doutrina cristã foi sendo elaborada ao longo dos tempos pelos concílios, pelos papas, pelos doutores, etc. Note bem que não houve propagação de doutrina. Você sabe o que é o ‘evangelho’? Evangelho quer dizer ‘uma narrativa’, é uma notícia, uma notificação de algo que aconteceu. O que Cristo mandou eles fazerem? Ele disse: ‘Olha, você vai e conta para os outros o que aconteceu. ’ Não se trata de pregação doutrinal. A pregação doutrinal começa aos poucos, com os apologistas, já quase um século depois. Todo o esforço retórico foi feito em seguida; a gente conhece toda a história dele, e pode recompor passo a passo. A apologética cristã, o que é? É a defesa retórica de uma doutrina já mais ou menos assentada, e conhecemos a história disso passo a passo. E tudo isso não tem nada com o Evangelho, é muito posterior.” (Apostila que acompanha a vídeo aula “Advento do Cristianismo” – p. 30-31 – É Realizações – 2003)
“[Aluno: O Sermão da Montanha não seria o embrião de uma doutrina cristã?]
[Olavo]: Não, a doutrina só pode ser elaborada posteriormente, isso tanto no cristianismo quanto em qualquer religião.” (Apostila que acompanha a vídeo aula “Advento do Cristianismo” – p. 31 – É Realizações – 2003)[22].
 
Isso tudo é tão falso, mas tão falso, que só posso desconfiar de duas hipóteses: ou Olavo nunca leu as Escrituras, ou as leu de maneira brutalmente viciada e enviesada. Pois não é possível. Somente um escotoma intelectual, uma lesão na inteligência provocada por uma recusa de perceber a realidade (decorrente do autoengano que é o fruto torto de uma dissonância cognitiva) é que poderia explicar uma coisa dessas.
 
Vejam logo abaixo, o trecho do Evangelho de São Mateus logo após e referente ao Sermão da Montanha ou das Bem-Aventuranças:
“E aconteceu que, tendo Jesus acabado este discurso, estavam as multidões admiradas da sua doutrina, porque os ensinava, como quem tinha autoridade, e não como os seus escribas e os fariseus”. (Mat, 7, 28-29)
E também:
 
“E foram a Cafarnaum; e tendo entrado no sábado na sinagoga, ensinava. E ficavam admirados com a sua doutrina, porque os ensinava, como quem tinha autoridade, e não como os escribas”. (Marcos 1, 21-22)[23]
 
Cristo ensinava uma doutrina. Os ensinamentos de Cristo são doutrina e essa doutrina é o Cristianismo. Que doutrina Cristo ensinaria que não fosse justamente o… Cristianismo?! Se Olavo acredita que o Cristianismo não é doutrina, então, deve acreditar que a doutrina que Cristo aqui ensinava era outra. Qual era, para Olavo, a doutrina que Cristo ensinava então? Provavelmente Olavo deve achar que essa doutrina seja a gnose, de acordo com os delírios do toxicômano René Guénon e do líder de seita Frithjof Schuon. Por mais que Olavo critique certos aspectos marginais do delirante e cafonaperenialismo, continua aderindo a princípios dessa escola até hoje, como por exemplo, o do “núcleo comum de todas as religiões”, que seria a gnose[24].
 
Os trechos nos Evangelhos (não só neles, mas em todos os livros do Antigo e do Novo Testamento) que mostram que Cristo ensinava doutrina e que aquele ensinamento lá escrito é doutrina são tantos que, para não ocupar muito espaço, fiz um apêndice com alguns deles no final do artigo.
 
Evidentemente, a doutrina da Igreja Católica foi ensinada, sim, por Nosso Senhor Jesus Cristo. Os concílios, papas e doutores apenas explicitam, ressaltam com maior precisão aquilo mesmo que Cristo ensinou nos Evangelhos e na tradição dos apóstolos. E é somente o Papa que tem poder para fazer isso, poder que lhe foi dado por Cristo (Mt 16, 18-19).
E Cristo não mandou “Olha, você vai e conta para os outros o que aconteceu” [sic]. Cristo mandou “Ide, pois, ensinai todas as gentes, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mat. 28,19). Uma série de acontecimentos não pode ser ensinada, só pode ser contada. Se Cristo mandou ensinar, logo não se trata de contar, mas de ensinar uma doutrina, um corpo de verdades. Se contar fosse ensinar toda vizinha fofoqueira seria phd em pedagogia.
 
 
Olavo depois afirma, erroneamente, que o dogma não faz parte da doutrina. E em outra afirmação se contradiz, dizendo que o dogma é sim parte da doutrina ao falar que o dogma é uma transposição/tradução doutrinal problemática em si. Vejamos como ele enrola seus alunos:
 
“O dogma é um fato, ele não é doutrina” (Apostila que acompanha a vídeo aula “Advento do Cristianismo” – p. 33 – É Realizações – 2003)
“(…)o dogma é uma tradução doutrinal da religião.[trecho completo reproduzido mais abaixo] (Programa TrueOutspeak – 12 de março de 2007 –http://www.olavodecarvalho.org/midia/070312true.html
 
“Quanto ao aspecto dogmático, o que que é o dogma? O dogma é uma transposição verbal das experiências fundamentais que deram origem àquela religião.[nota: i.e., das experiências originárias] Quer dizer, certas experiências, a passagem do Cristo sobre a terra, os milagres que ele operou, a sua morte e ressurreição, etc. Quer dizer, tudo isto forma um conjunto de acontecimentos. Esses acontecimentos que são, vamos dizer, a essência da religião cristã. E destes acontecimentos se produz então um testemunho. Esse testemunho é passado às gerações e ele então se torna objeto de fé. A fé não significa necessariamente a crença numa doutrina. A fé é sobretudo a confiança na pessoa. Quando você acredita por exemplo no parto virginal de Maria, não acredita nisso como uma doutrina, acredita nisso como um depoimento, feito pela própria Maria, desde que você não tem motivo algum pra duvidar da honestidade ou da sanidade da testemunha da qual Deus deu provas mais do que suficientes da santidade. Então, a confiança naquela pessoa é que se torna esse elemento de fé. Mais tarde é a confiança que as pessoas depositam na própria pessoa de Jesus Cristo. Quando ele pergunta às pessoas “Quem sou Eu?” E o indivíduo responde “Você é o Filho de Deus vivo, você é o Logos encarnado, etc etc” então significa que eu estou confiando que você é isso porque você diz que é isso e você age como se fosse, tá entendendo? Então note bem que esse tipo de confiança é a base de todo o testemunho histórico. Todo testemunho histórico se baseia em última análise na confiança que você tem num testemunho humano ou num documento que é apenas a versão escrita de um testemunho humano. De modo que a confiabilidade que está implícita na fé religiosa ela não é maior, não é mais arriscada do que qualquer confiabilidade que você tem num testemunho histórico. Quando esse pessoal que fala, opõe-se a fé e razão, a fé e ciência isso é tudo um bando de analfabeto. (…)”.(Programa TrueOutspeak – 12 de março de 2007 – http://www.olavodecarvalho.org/midia/070312true.html).
 
“A medida que o tempo passa, este conteúdo inicial da fé vai sendo objeto de discussões e a medida que tem discussões é preciso esclarecer qual é o sentido exato da fé. Quer dizer: nós temos fé nisto e não naquilo. Acreditamos nisso e não naquilo. Às vezes os próprios adversários da religião fazem certas cobranças. Em função dessas cobranças foi que se desenvolveu o dogma. Quer dizer, é engraçado que o dogma surge em resposta aos críticos da religião e em seguida eles reclamam que a religião é dogmática. O dogma não é senão uma tentativa de expor em linguagem racional e organizada o conteúdo inicial, vamos dizer, da confiança em Nosso Senhor Jesus Cristo. É claro que essa transposição doutrinal ela é problemática em si. Tão problemática que ela surge de um problema, ela surge da oposição que tem a religiãoSe ninguém tivesse reclamado contra a religião católica não existiria nenhum dogma católico. Durante vários anos, vários séculos praticamente não havia dogma nenhum. Havia a confiança direta no testemunho dos apóstolos os quais por sua vez tinham a confiança no testemunho do próprio Jesus Cristo e da Santa Virgem. Aos poucos é que o conteúdo cognitivo deste ato de confiança foi sendo transposto sob forma doutrinal. Então é importantíssimo entender isso: a religião não é a doutrina. A religião é aquela experiência originária dos acontecimentos miraculosos e da confiança que esses atos inspiram naqueles que são os beneficiados por eles ou que os assistem. Isto que é a religião. O dogma é uma expressão muito secundária. O dogma não é a religião, o dogma é uma tradução doutrinal da religião. Essa tradução é absolutamente necessária por quê? Por causa das discussões e por causas das objeções. Porém em seguida o próprio fato de você responder às objeções é usado como objeção. Quer dizer, quando um nego diz: ‘a religião é dogmática’ eu digo ‘ mas a religião não é dogmática porque quer. Foram vocês que transformaram, que nos obrigaram a expor isto num dogma, e agora tão reclamando? Então, agora é preciso entender que o dogma em si ele não é a religião, ele é apenas a transposição doutrinal da religião. Então, eu também não vejo como se livrar do dogma, assim, a longo prazo. Quer dizer, enquanto a experiência inicial da religião tá viva e presente, ninguém vai pensar em fazer aquilo um dogma.” (Programa TrueOutspeak – 12 de março de 2007 –http://www.olavodecarvalho.org/midia/070312true.html ).
 
Vejam só! Olavo diz que o dogma é somente uma “tentativa de expor em linguagem racional e organizada” a experiência original. Algo que é uma tentativa é algo passível de erro por definição. Portanto não pode ser infalível. Com isso, ele nega a infalibilidade do dogma. É claro, quem acredita que quando algo é formulado em juízos, idéias e palavras perde seu conteúdo verdadeiro, real, não vai acreditar na infalibilidade do dogma. Como veremos mais adiante, isso é modernismo puro.
 
 
Além do mais, como já foi dito, quem afirma que a realidade não pode ser apreendida e expressa com exatidão através de juízos, ideias e palavras, afirmando essa mesma inanidade através de juízos, ideias e palavras, não tem nem como afirmar qualquer coisa que seja. E quem lê e ouve o que uma pessoa dessas diz, por conclusão lógica e inevitável, não pode ter nunca como certo que ela está dizendo exatamente a verdade. Como confiar no que diz e escreve alguém que toma um princípio autocontraditório como premissa de seu próprio discurso?
 
Essa definição de dogma como um fato, além de não ser correta, é contraditória com o que o mesmo Olavo disse depois. Primeiro ele diz que dogma não é doutrina, depois que o dogma é “transposição doutrinal”. Esse erro sobre o dogma já vem de longe e foi explicado pelo Professor  Orlando Fedeli em seu trabalho “A Gnose Tradicionalista de René Guénon e Olavo de Carvalho”[25].
 
Na verdade, dogmas são verdades que Deus nos revelou e que a Igreja confirma como revelados, obrigando-nos a crer neles, porque Deus não pode errar, nem pode nos enganar. Portanto, o dogma faz parte da doutrina católica.
 
 
Por exemplo, há o dogma que afirma que a Igreja Católica é a única religião verdadeira, e que fora da igreja não há salvação, como proclamou o IV Concílio de Latrão.[26]
Veja como na verdade ele continua defendendo a tese gnóstica da Igreja sem dogmas[27] quando diz:  “Então, eu também não vejo como se livrar do dogma, assim, a longo prazo. Quer dizer, enquanto a experiência inicial da religião tá viva e presente, ninguém vai pensar em fazer daquilo um dogma”(Programa TrueOutspeak – 12 de março de 2007 – http://www.olavodecarvalho.org/midia/070312true.html ) Ou seja, Olavo defende, ainda que utopicamente, a idéia delirante e gnóstica de uma Igreja sem dogmas. Ainda que essa tenha existido apenas no início do Cristianismo e que, segundo ele mesmo, não haja perspectiva de se livrar do dogma. E para piorar: ao definir a religião como “aquela experiência originária” e logo depois dizer que se a experiência original estiver viva, ninguém pensará em fazer dela um dogma, afirma claramente que a religião que afirmasse dogmas estaria morta.
 
 O dogma então seria a morte da experiência originária, e esta a morte da religião. O dogma “cristalizaria”, “petrificaria” a experiência, aniquilando-a. Os gnósticos cátaros não diriam diferente. Nem os padres da herética teologia da libertação.
 
Aliás, isso vai mesmo contra o próprio Olavo que, defendendo que todas as religiões “tradicionais” são verdadeiras, nega continuamente o dogma “fora da igreja não há salvação” e de que a religião católica é a única verdadeira. Ora, ele mesmo se contradiz. Se Olavo acredita numa hora que o dogma é um fato e afirma que acredita no conteúdo de outras religiões, ele mesmo nega o que deveria considera um fato: de que a Igreja Católica é a única verdadeira e que fora dela não há salvação.
 
“Eu não desconfio de nenhum dado da Revelação, nem da Revelação judaica, nem da islâmica, nem da budista, de nenhuma. Essa gente não está aí para mentir.”(Apostila que acompanha a vídeo aula “Advento do Cristianismo” – p. 45 – É Realizações – 2003)
 
São Pio X mostrou muito bem como essa doutrina delirante leva de fato ao indiferentismo religioso:
 
“Cumpre, entretanto, desde já, notar que, posta esta doutrina da experiência unida à outra do simbolismo, toda religião, não excetuada sequer a dos idólatras, deve ser tida por verdadeira. E na verdade, porque não fora possível o se acharem tais experiências em qualquer religião? E não poucos presumem que de fato já se as tenha encontrado. Com que direito, pois, os modernistas negarão a verdade a uma experiência afirmada, por exemplo, por um maometano? Com que direito reivindicarão experiências verdadeiras só para os católicos? E os modernistas de fato não negam, ao contrário, concedem, uns confusa e outros manifestamente, que todas as religiões são verdadeiras. É claro, porém, que eles não poderiam pensar de outro modo.” (Papa São Pio X – Encíclica Pascendi Dominici Gregis)
 
E esse erro aparece exatamente em decorrência do erro do agnosticismo, que por sua vez, conduz à doutrina da experiência original e à doutrina do símbolo que, autocontraditoriamente, se opõem a toda formalização doutrinária.
“Postas estas premissas, todos percebem com clareza qual não deve ser a sorte da teologia natural, dos motivos de credibilidade, da revelação externa.” (Papa São Pio X – Encíclica Pascendi Dominici Gregis)
 
“A religião, quer a natural quer a sobrenatural, é mister seja explicada como qualquer outro fato. Ora, destruída a teologia natural, impedido o acesso à revelaçãoao rejeitar os motivos de credibilidade, é claro que se não pode procurar fora do homem essa explicação. Deve-se, pois, procurar no mesmo homem; e visto que a religião não é de fato senão uma forma da vida, a sua explicação se deve achar mesmo na vida do homem. Daqui procede o princípio da imanência religiosa. Demais, a primeira moção, por assim dizer, de todo fenômeno vital, deve sempre ser atribuída a uma necessidade; os primórdios, porém, falando mais especialmente da vida, devem ser atribuídos a um movimento do coração, que se chama sentimento. Por conseguinte, como o objeto da religião é Deus, devemos concluir que a fé, princípio e base de toda a religião, se deve fundar em um sentimento, nascido da necessidade da divindade.”( Papa São Pio X – Enciclica Pascendi Dominici Gregis)
 
 
Reproduzimos abaixo uma explicação sobre o que são os verdadeiros fundamentos racionais da fé e da religião, que Olavo e os modernistas repudiam. Esses trechos foram tirados do artigo, publicado no site Montfort, sobre o “Modernismo do fundador do movimento Comunhão e Libertação”[28]. Este artigo explica que a apologética tradicional da Igreja Católica sempre teve como objeto:
 
“(…) a demonstração dos preâmbulos da fé, dos motivos de credibilidade, verdades ao alcance da razão natural que dão a certeza de se estar aderindo à verdadeira religião. Procurava-se primeiro demonstrar a existência de Deus e depois a origem divina da religião católica. A Summa Contra Gentiles, de São Tomás de Aquino, é um exemplo clássico de trabalho apologético dessa natureza. Uma característica importante das demonstrações é que as mesmas se baseavam em fatores externos ao homem, o que obteve plena aprovação do magistério eclesiástico.”[29]
Tanto que é que, como já citamos, o Concílio Vaticano I puniu com excomunhão quem negasse ser possível tal demonstração.
Continuando:
 
 “A questão da origem divina da religião católica, enquanto certeza ao alcance da razão natural é defendida por Pio XII na Encíclica Humani Generis, que censura os erros da Nova Teologia.
O caráter externo dos fatores implicados na demonstração também é apresentado pelo Papa:
‘Ademais, por vezes, pode a mente humana encontrar dificuldade mesmo para formar juízo certo sobre a credibilidade da fé católica, não obstante os múltiplos e admiráveis indícios externos ordenados por Deus para se poder provar certamente, por meio deles, a origem divina da religião cristã, exclusivamente com a luz da razão.’
Os “indícios externos”, objetivos, aos quais Pio XII se refere são enumerados de maneira explícita por Leão XIII, na Encíclica Immortale Dei:
 
‘Quanto a decidir qual religião é a verdadeira, isso não é difícil a quem quiser julgar disso com prudência e sinceridade. Efetivamente, provas numerosíssimas e evidentes, a verdade das profecias, a multidão dos milagres, a prodigiosa celeridade da propagação da fé, mesmo entre os seus inimigos e a despeito dos maiores obstáculos, o testemunho dos mártires e outros argumentos semelhantes, provam claramente que a única religião verdadeira é a que o próprio Jesus Cristo instituiu e deu à sua Igreja a missão de guardar e propagar.”’[30]
 
A religião católica é a única cujo mesmo Deus conhecido pela luz natural da razão, enquanto o Ser Absoluto, Ato Puro, etc., é o mesmo da Revelação: “Eu sou aquele que é” (Ex 3, 13-15), ou seja, Ser.
O exame sincero da verdade, da realidade, leva inexoravelmente à conclusão de que a única religião verdadeira é a Católica.
 
Todas as outras religiões colocam contradições na divindade. Identificam Deus com o mundo, ou exageram na distinção entre Deus e mundo, concebendo uma divindade contrária, dialética e aprisionada no mundo e no homem. Ou seja, possuem uma noção falsa de divindade, que não corresponde ao Deus verdadeiro. Logo, os que têm tal convicção adoram um falso deus, i.e., o demônio.
  1. 4.      Descida ao abismo religioso: o modernista crente e seu erro sobre a fé.
a)      O fideísmo (bem mal) mitigado de Olavo de Carvalho.
 
Ao erro fideísta de Kant, que diz que a fé não tem fundamento racional algum (erro condenado pelo Concílio Vaticano I[31]), Olavo opõe outro erro, exposto acima, que é seu agnosticismo. Aliás, como já mostramos no início, esse é exatamente o procedimento fundamental de toda a direita: oferecer falsas soluções. Opor-se a um erro com outro erro, ou até com o mesmo erro, só que atenuado, mitigado, produzindo uma solução agravante.
Afirmar que Deus não pode ser conhecido como objeto é negar que ele possa ser conhecido racionalmente, pois todo conhecimento é objetivo e racional. Como mostramos, Olavo defende um Deus que se manifesta no sujeito enquanto sujeito, via intuição, e que, nas suas próprias palavras, não pode ser conhecido como objeto.
Desse erro, deriva seu erro sobre a Fé que consiste em negar que ela seja uma questão de acreditar numa doutrina, ou seja, nas verdades ensinadas pela Igreja Católica, mas sim numa adesão à pessoa de Jesus Cristo.
 
No livro Iota Unum, de 1985, Romano Amerio fez um estudo sobre as mudanças que o Concílio Vaticano II quis introduzir na Igreja. O próprio Olavo recomendou esse livro para ver “que desgraça” (palavras dele mesmo) foi o Concílio Vaticano II e que “dele nada se aproveita” (Programa TrueOutspeak de 20 de julho de 2009 – http://www.olavodecarvalho.org/midia/090720true.html ).
 
Neste livro, ao falar sobre as mudanças sobre a Fé, Romano Amerio denuncia exatamente o mesmo erro defendido por Olavo. Amerio cita um documento promulgado pelos bispos franceses em 1968, que afirma que a fé não é uma adesão a verdades reveladas, corretas e infalivelmente ensinadas pela doutrina da Igreja, mas uma “adesão de todo o ser à pessoa de Jesus Cristo.” Tese essa que, como Amerio afirma, se afasta da tradição da Igreja Católica:
 
“ ‘Durante mucho tiempo se ha presentado la fe como una adhesión de la inteligencia esclarecida por la gracia y apoyada por la palabra de Dios. Hoy, se ha regresado a una concepción más conforme con el conjunto de las Escrituras. La fe se presenta entonces como una adhesión de todo el ser a la persona de Jesucristo. Es un acto vital y ya no solamente intelectual, un acto que se dirige a una persona y ya no solamente a una verdad teórica; de este modo no podría ser puesta en peligro por dificultades teóricas de detalle.’ Puesto que la fe consiste en esa tensión vital, subsiste mientras ésta subsista, independientemente de aquello que se crea.
 
            Esta doctrina se aparta de la tradición de la Iglesia. (…)” (Amerio, Romano, Iota Unum – Estudio sobre las transformaciones de la Iglesia Católica en el siglo XX – p. 266-267 –  Editora Criterio Libros – Madrid – 2003)
Olavo defende o mesmo erro sobre a fé que o Concílio Vaticano II provocou. Erro esse que, de fato, tomando as palavras do próprio Olavo, foramdevastadores e uma desgraça. E tem gente que acredita que o Olavo é contra o Concílio Vaticano II.
De fato, Olavo, seu conceito de fé é mesmo uma desgraça.
Vejamos mais alguns de seus delírios modernistas:
 
 
“(…) O pessoal pensa que a fé consiste em você acreditar na doutrina cristã. Não é isso. A fé consiste em você acreditar na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo e nas promessas que ele faz. (…) Então é a confiança que você tem numa pessoa. Agora, a tradução disso em termos doutrinais é um negócio complicadíssimo que leva muitos anos. E que a maior parte das pessoas pode nem compreender sem nem por isso deixar de ter fé. Quer dizer, a confiança numa pessoa é uma coisa simples, é uma atitude simples e direta. Agora, a concordância com uma doutrina depende de você ter estudado essa doutrina. E, aliás, a formulação da doutrina pode ser muito problemática. Não existe formulação perfeita de doutrina nenhuma. Então por exemplo, vamos supor: você confia numa pessoa. Você confia na sua mãe, confia na sua namorada, confia na sua mulher, no seu pai. Agora se você disser, se eu perguntar assim: exponha no papel por que que você confia. É difícil né? É da mesma coisa: por que que você confia em Nosso Senhor Jesus Cristo? ‘Bom, confio porque ele fez milagres, porque ele me curou, porque ele disse isso, disse aquilo’. Quer dizer, por mais que você diga, não expressa a coisa inteira. E ademais, se a fé fosse confiar numa doutrina, quer dizer, aceitar uma doutrina, quer dizer, por mera crença, seria uma imbecilidade. Vamos dizer, a doutrina é uma estrutura. Agora , o que enche essa estrutura de vida é a verdadeira fé, quer dizer, é a confiança que você tem na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Como toda confiança humana ela é vacilante, ela sobe, ela desce, tem hora que perde. A dúvida, o enfraquecimento da fé faz parte da dialética da própria fé. [interlocutor] ‘ E volta com mais força depois’ [Olavo]: Volta com mais força. Mas é como qualquer outra confiança humana. (…)”(Programa TrueOustspeak de 21 de maio de 2007 –http://www.youtube.com/watch?v=HVtK1Mxw7fE)
 
A definição mesma da “fé” como crença numa doutrina é perversão do sentido da palavra. A doutrina cristã formou-se ao longo dos séculos. Os primeiros fiéis confiaram em Jesus antes de saber nada a respeito dela. Não acreditavam numa doutrina, confiavam num homem.E por que confiavam nele? Ele próprio explicou isso. Quando João Batista, da cadeia, manda perguntar se Ele é o enviado de Deus ou se seria preciso esperar por outro, Jesus não responde com nenhuma doutrina, mas com fatos: “ Vão e contem a João as coisas que vocês ouvem e veem: os cegos enxergam, e os paralíticos andam; os leprosos ficam limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e os pobres recebem boas notícias. E bem-aventurado é aquele que não se ofende comigo .” O que esses versículos ensinam é que a fé é apenas a confiança em que Aquele que devolveu a vida a alguns mortos pode devolvê-la a muitos mais. É um simples raciocínio indutivo, um ato da inteligência racional fundado no conhecimento dos fatos e não uma aposta no escuro. A única diferença entre ele e qualquer outro raciocínio indutivo é que a conclusão a que ele conduz traz em si uma esperança tão luminosa que toda a tristeza e o negativismo acumulados na alma se recusam a aceitá-la.” (“O natal não é para os covardes” http://www.olavodecarvalho.org/semana/051222jb.htm )
 
“Então quando se fala de fé, é a confiança que as pessoas tinham num individuo. Não é uma atitude doutrinal de crer ou não creraceitar, acreditar ou não acreditar. Não: é confiar ou não confiar. Quer dizer, a fé como crença já é um sentido muito degradado e posterior à palavra.”(http://www.youtube.com/watch?v=T855mHxnaIw). 
                          
O Papa São Pio X no seu Catecismo Maior ensina exatamente o contrário:
“A fé é uma virtude sobrenatural, infundida por Deus, em nossa alma, pela qual nós, apoiados na autoridade do mesmo Deus, acreditamos que é verdade tudo o que Ele revelou e por meio da Santa Igreja nos propõe para crer [grifo nosso].
O Papa São Pio X ensina, portanto, junto com toda a história da Igreja, com todo o Magistério da Igreja, (incluindo o Concílio de Trento, infalível e do qual Olavo é contra[32]) que a fé é sim uma crença. Note que São Pio X usou os mesmos termos “acreditar” e “crer”, que Olavo repudia.
 
Portanto, vemos claramente que a noção de fé de Olavo é que é na verdade um “sentido muito degradado e posterior à palavra”. Conclui-se daí que Olavo sofre realmente de projeção inversa. Ele atribui aos outros, i.e., ele projeta nos outros um erro que é na verdade seu: o de defender um falso sentido de fé, degradado e posterior à palavra. Exatamente o sentido de fé que vem da heresia modernista, do século XX. E de fato, como o próprio Olavo já deu a entender mais acima quando falamos do livro Iota Unum, esse conceito é uma desgraça.
 
b)      Olavo de Carvalho contra São Pio X: a doutrina da experiência original.
 
 
Mas, segundo Olavo de Carvalho, é o Papa São Pio X quem defende um conceito degradado de fé.
Não bastasse isso, para Olavo de Carvalho, São Pio X seria então um “idiota completo”:
O sujeito que interpreta a fé no sentido de crença é um idiota completo.” (Sexto bate papo com Olavo de Carvalho (lado A) –http://www.youtube.com/watch?v=T855mHxnaIw).
E não me venha querer autoenganar-se dizendo que Olavo se referia apenas a Kant e aos kantianos. Pois a frase é bem clara: quem “interpreta a fé no sentido de crença é um idiota completo”.
 
São Pio X afirma isso, obviamente, amparado também no Concílio de Trento, infalível e dogmático. Concílio que, delirantemente, Olavo considera suspeito de gnosticismo. Novamente, um caso evidente de projeção inversa. Ele atribuiu ao que é infalivelmente católico um defeito pessoal: o gnosticismo.
 
Olavo então diz que quem aceitou a fé como crença:
“Não tem a menor idéia do que tenha sido a experiência originária, não tem um pouco de imaginação para conceber o que que teria sido o cristianismo antes de existir doutrina cristã.” (Sexto bate papo com Olavo de Carvalho (lado A) – http://www.youtube.com/watch?v=T855mHxnaIw).
 
 
Olavo defende, junto a todos seus gurus modernistas, como Bergson, Husserl, Blondel e Voegelin a tese gnóstica de que existe uma “experiência original”, inefável, impossível de ser expressa adequadamente em palavras, i.e., formalizada em doutrina (desculpem-nos termos que repetir as citações):
 
“Então é importantíssimo entender isso: a religião não é a doutrina. A religião é aquela experiência originária dos acontecimentos miraculosos e da confiança que esses atos inspiram naqueles que são os beneficiados por eles ou que os assistem. Isto que é a religião. O dogma é uma expressão muito secundária. O dogma não é a religião, o dogma é uma tradução doutrinal da religião.” (Programa TrueOutspeak – 12 de março de 2007 –http://www.olavodecarvalho.org/midia/070312true.html).
O Papa São Pio X na Pascendi Dominici Gregis condena essa mesma doutrina da experiência original:
 
 
“Há ainda outra face, além da que já vimos, nesta doutrina da experiência, de todo contrária à verdade católica. Pois, ela se estende e se aplica à tradição que a Igreja tem sustentado até hoje, e a destrói. E com efeito, os modernistas concebem a tradição como uma comunicação da experiência original, feita a outrem pela pregação, mediante a fórmula intelectual. [nota: i.e., o dogma]
 
Por isto a esta fórmula, além do valor representativo, atribuem certa eficácia de sugestão, tanto naquele que crê, para despertar o sentimento religioso quiçá entorpecido, e restaurar a experiência de há muito adquirida, como naqueles que ainda não creem, para despertar neles, pela primeira vez, o sentimento religioso e produzir a experiência. Por esta maneira a experiência religiosa abundantemente se propaga entre os povos: não só entre os existentes, pela pregação, mas também entre os vindouros, quer pelo livro, quer pela transmissão oral de uns a outros. Esta comunicação da experiência às vezes lança raízes e vinga; outras vezes se esteriliza logo e morre. O viver para os modernistas é prova de verdade; e a razão disto é que verdade e vida para eles são uma e a mesma coisa. E daqui, mais uma vez, se infere que todas as religiões existentes são verdadeiras, do contrário já não existiriam.” (Papa São Pio X, Encíclica Pascendi Dominici Gregis).
 
E ao definir seu conceito de tradição – que surpresa! – ele dá o mesmo conceito falso e modernista condenado por São Pio X:
“Tradição vem do latim traditio, que significa ‘trazer’, ‘entregar’. Tradição significa tornar o passado presente através da revivescência das experiências interiores que lhe deram sentido”. [grifo e negrito nosso] (Carvalho, Olavo de – “A filosofia e seu inverso” – pp. 173-174 – Vide Editorial – 2012).
 
Isto é, reviver, restaurar a experiência original.
Sobre seu erro contra a fé e a doutrina, reproduzo novamente um trecho do artigo “O modernismo do fundador do movimento Comunhão e Libertação, Mons. Luigi Giussani”:
“Ora, a verdade revelada, objeto da fé, assim como a verdade em geral pode dar-se no intelecto de dois modos: em sentido ontológico, quando se refere às coisas em si (Cristo, Nossa Senhora, etc.); ou em sentido lógico, quando se apresentam como proposições conceituais afirmativas ou negativas. Portanto, a verdade revelada é, simultaneamente, uma realidade (verdade ontológica) e uma doutrina (verdade lógica). Tal é a explicação de Pe. Álvaro Calderón, teólogo argentino da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Porém, o caráter doutrinal do objeto da fé é tipicamente negado pela Nova Teologia, como se pode notar no trecho supracitado, recebendo, portanto, a crítica de Pe. Calderón:

Entendido isso, podemos então discernir em seu primeiro rebento o subjetivismo de toda a nova teologia: se alguém negar que o objeto da fé seja também uma doutrina, anathema sit[33]porque já é modernista. neoteólogo insiste sempre em que o objeto da fé não é uma doutrina, mas uma realidade; repete que Deus não revelou especulações acerca d’Ele, mas se revelou a Si mesmo; fala, enfim, da verdade revelada só em sentido ontológico e nunca em sentido lógico. Como toda mentira, tem um pedaço verdadeiro; e é bem feita, com a parte verdadeira mais brilhante, pois quem não prefere ver a Deus no céu que ler a Suma eternamente? Mas é uma mentira péssima, porque na terra não há acesso ao Verbo divino senão nos verbos mentais da doutrina revelada. Certamente é Cristo mesmo quem habita pela fé em nossos corações (Ef 3, 17), mas habita por uma fé recebida 

ex auditu pela pregação (Rm 8, 17): Não há acesso à realidade divina senão pela doutrina.[CALDERÓN, Pe. Álvaro. A candeia debaixo do alqueire: questão disputada sobre a autoridade doutrinal do magistério eclesiástico a partir do Concílio Vaticano II. Rio de Janeiro: Sétimo Selo, 2009, p. 163.]

 
Portanto, é pela Doutrina Cristã que se pode ter acesso à realidade divina e aqueles que se descuidam de aprendê-la cometem “falta grave”, como ensina São Pio X em seu catecismo. Contudo, a tese modernista de que o cristianismo não é uma doutrina tem uma importância muito grande no pensamento de Mons. Giussani, conforme indica Michele Brambilla [membro do movimento Comunhão e Libertação]:
 
‘O outro motivo pelo qual padre Giussani – numa época de grande secularização – trouxe tantos jovens de volta à Igreja foi frisar um conceito tão simples quanto negligenciado: que o cristianismo não é uma doutrina, não é nem uma religião, mas é o anúncio de um fato. Num certo momento da história, um homem se disse Deus.[BRAMBILLA, Michele. Aquele dia, numa calçada de Milão. Acessado em 30/09/2009 de Comunhão e Libertação: http://www.catolicanet.net/sitepassos/pagina.asp?cod=372&tipo=0] “” [34]
Muitíssimo esclarecedora a citação do Pe. Calderón da FSSPX. Ela vai direto ao ponto. Parece até que foi feita sob medida para o Olavo.
 
 
Vejam então que Olavo defende o mesmo erro de Mons. Giussani. Isso não é novidade, aliás, pois em 2002, Olavo fez a seguinte afirmação numa entrevista:
Não creio que haja um movimento conservador na Igreja além da “Comunhão e Libertação” de D. Luigi Giussani. Os outros movimentos são apenas espuma na superfície — uma imagem caricatural do conservadorismo, muito conveniente aos que o odeiam. (Carvalho, Olavo de – “Um filósofo na mídia é um jesuíta entre antropófagos” em http://www.olavodecarvalho.org/textos/bulgara.htm)
 
Quanta bobagem. Na verdade, é Olavo que defende com seu modernismo fenomenológico e teológico, uma caricatura de Catolicismo, uma gnose com linguagem cristã na qual tudo o que pode haver de catolicismo e de filosofia verdadeira não passam de “espuma na superfície”. Uma filosofia e um catolicismo muito conveniente aos inimigos da Igreja. Uma filosofia e um catolicismo dignas de inimigos da Igreja.
 
Ou seja, trata-se novamente de um caso inequívoco de projeção inversa. Parece que o “famoso” psicólogo, astrólogo, homeopata e amigo de Olavo, Juan Alfredo de César Müller[35] de fato, não o ajudou muito. O que esperar de um fulano que acredita num negócio chamado “psicomagia”[36]? Apsicomacumba de Müller parece ter só contribuído para alimentar a projeção inversa de Olavo.
 
Olavo também afirma que os dogmas existem somente em oposição aos erros de seu tempo, o que é falso.
 
Vemos claramente aí um erro similar ao guru de Olavo, Eric Voegelin, em seu livro Ordem e História v. III – Platão e Aristóteles. Voegelin afirma que a filosofia não tem como objetivo expressar a verdade, mas apenas combater os erros, sofismas do seu tempo:
A filosofia não é uma doutrina da ordem reta, mas a luz da sabedoria que incide sobre a luta; e a ajuda não é uma informação sobre a verdademas o esforço árduo para localizar as forças do mal e identificar a sua natureza. Pois metade da batalha é vencida quando a alma consegue reconhecer a forma do inimigo e, consequentemente, sabe que o caminho que deve seguir leva na direção oposta. Platão trabalha na República, portanto, com pares de conceitos que indicam o caminho lançando sua luz tanto sobre o bem como sobre o mal. Seu filósofo não existe num vazio social, mas em oposição ao sofista. A justiça não é definida no abstrato, mas em oposição às formas concretas que a injustiça assume. A ordem reta da pólis não é apresentada como um “estado ideal”, mas os elementos da ordem reta são desenvolvidos em oposição concreta aos elementos de desordem a sociedade circundante. E a forma, o eîdos, da arete na alma cresce em oposição aos muitos eide de desordem na alma.” (Voegelin, Eric, “Ordem e História vol. III – Platão e Aristóteles”. p. 123-124 – Edições Loyola – 2009)
A verdade não teria expressão positiva, pois como o próprio Olavo de Carvalho disse em sua aula “A filosofia e seu inverso”, todas as questões filosóficas jamais teriam resposta definitiva, pois estariam acima da capacidade humana de responder. Ora, se elas estão acima da capacidade natural do homem, são, por definição, sobrenaturais. Veja como ele confunde o natural com o sobrenatural. É exatamente a confusão entre natural e sobrenatural que os modernistas fazem. E veja como está diretamente ligado a (e mais uma prova de) seu agnosticismo.
 
“(…) As perguntas que Sócrates faz não são somente de natureza teórica, elas não se referem à física nem à metafísica, nem à política. Elas se referem a tudo isto ao mesmo tempo. Então são ao mesmo tempo perguntas de ordem metafísica, perguntas de ordem moral, perguntas de ordem política e assim por diante. Então elas não têm um domínio especializado ao qual elas se referem. Elas se referem à totalidade da experiência humana. Então o que Sócrates procura demonstrar é que este “miolo”, por assim dizer, este “fundo” – mais tarde Ortega y Gasset usaria a expressão maravilhosa “fundo insubornável do ser humano”. Então Sócrates procura demonstrar que você pode fazer a pessoa se instalar, desde aquela superfície de opiniões correntes, ela pode recuar até a profundidade do seu ser e descobrir ali esse “fundo insubornável”. Esse “fundo insubornável” não vai lhe dar imediatamente o acesso à verdade, mas vai criar a abertura para a verdade. E esta abertura fará que o indivíduo prossiga na busca da verdade. Verdade que ele não chegará a possuir porque todo momento em que se desafia Sócrates a dizer o que ele pensa mesmo, o que ele faz? Ele expõe uma teoria? Não. Ele conta um mito. Ou seja, ao contar um mito, ele está dizendo ‘as verdades que nós estamos buscando elas transcendem o entendimento humano e nós não podemos possuí-las intelectualmente de uma maneira plena. ’ Nós podemos entrevê-las através de símbolos obscuros. Mas que são obscuros mas que ao mesmo tempo nos iluminam. (…) “(“A filosofia e seu inverso” – aula do seminário de filosofia de 18 de fevereiro de 2012  http://www.youtube.com/watch?v=lk4oMi3B5wY)
 
 
É evidente que no homem há naturalmente um desejo de bem, de verdade, que desperta questões sobre o sentido da vida, etc. Há um desejo natural de Deus, como ensina a doutrina da Igreja. Podemos pela luz natural da razão responder satisfatoriamente a essas questões, embora somente do ponto de vista natural. Porém, para Olavo, responder a esses anseios é impossível. Pode-se apenas entrevê-los, por entre nuvens obscuras de símbolos, sem nunca chegar numa certeza definitiva. Pode-se apenas buscar a verdade, mas nunca possuí-la. Essa teoria da “busca da verdade” é tão absurda quanto a hipótese de que Deus houvesse criado o sapo com fome de mosquito, mas não houvesse criado o mosquito. Seria uma crueldade imposta por Deus às criaturas.
 
Portanto, seria um Deus maligno. Um Deus que cria uma natureza incompleta, que não pode atingir sua finalidade natural com seus próprios meios. Deus teria feito algo ontologicamente imperfeito, com um defeito natural. Logo, o mal seria ontológico – o que é tese gnóstica. Por isso para Voegelin e Olavo, o mal seria expressão positiva, e o bem, negativa.
 
Como vimos mais acima, isso é falso, pois a Igreja afirma (e pune com excomunhão quem contradisser esta verdade) que o homem, pela luz natural da razão, pode sim conhecer verdades sobre Deus. Pode chegar a certezas plenas e irrefutáveis de que Deus é o Sumo Bem, Motor Imóvel, Ato Puro, Causa não causada de todos os entes, etc.
 
A Igreja ensina que o primeiro homem foi criado por Deus em estado de graça, adornado com dons preternaturais[37], para atingir não só a um fim natural, mas sobrenatural: conhecer, amar e servir a Deus nessa vida para gozá-lo eternamente no Céu.
 
Porém a finalidade sobrenatural não é necessária em si à natureza humana. Tanto é que a Igreja ensina que Deus infundiu a graça no homem e quis lhe dar o céu por pura bondade e não por nenhuma necessidade ou merecimento da natureza humana.
 
A natureza humana não necessita do sobrenatural. Há certamente um desejo de verdade e bem infinitos na natureza humana, mas esses são satisfeitos naturalmente pelo que se conhece de Deus apenas pela luz natural da razão, e pela pratica da lei natural. É claro, entretanto, que um estado puro de natureza nunca existiu, pois Adão foi criado em estado de graça. E é claro também que, por causa do pecado original, o homem tem grande dificuldade para praticar a lei natural.
 
A finalidade sobrenatural do homem pressupõe a sua finalidade natural que é conhecer, amar e obedecer a Deus nessa vida, pelo que se conhece dEle pela luz natural da razão. Não só a pressupõe, como a eleva e aperfeiçoa.
 
Segundo Olavo, o desejo de verdade e de bem não teriam fundamento na realidade objetiva, exterior ao homem, mas num “fundo insubornável do ser”, num “senso profundo da verdade” imanente no homem. É um erro bem típico da direita. Mons. Giussani fala que “a inexauribilidade da resposta para as exigências constitutivas do nosso eu é estrutural, é de tal modo inerente à nossa natureza que representa a sua característica de ser.” [38]. “Doutor” Plínio Correa de Oliveira fala de uma “câmara obscura” onde estaria o “senso do ser” [39], que equivale ao que Olavo chama de “senso profundo da verdade”. Josef Pieper defende essa mesma ideia de uma busca sem fim, negando a possibilidade de qualquer “verdade acabada” nessa vida [40].
 
O aristotelismo-tomismo ensina claramente que a inteligência e a vontade humanas são ontologicamente feitas para a verdade e para o bem e só são ativadas pelos sentidos, i.e., pela assimilação dos dados exteriores, objetivos.
 
Não é a toa que Olavo rejeita a verdadeira teoria do conhecimento, ensinada por São Tomás. Olavo defende equivocadamente a teoria da iluminação divina interior para o conhecido da realidade, defendida pelos agostinianos.[41]
 
Outro erro de Voegelin, guru de Olavo, é dizer que a justiça não é definida no abstrato, i.e., não tem base na metafísica. O que é um erro bem grave e bem moderno.
Assim os dogmas não seriam expressões positivas e infalíveis da verdade revelada, mas deveriam ser vistos apenas em relação aos opositores da religião, ao mal de cada época, em função da situação concreta de conflito e tensão da qual ele surgiria. Trata-se de uma tese relativista sobre o dogma.
 
Ou seja, ensina que a verdade e o bem são sempre negações, privações da mentira e do mal. Exatamente o contrário do que ensina o bom senso e a Metafísica verdadeira – a aristotélico-tomista – que afirma que a verdade e o bem são positivos e a mentira e o mal são negações, privações deles.
 
Consequentemente para Voegelin e Olavo, a filosofia e teologia de São Tomás de Aquino – o aristotelismo-tomismo – não teria validade universal, mas deveria ser vista apenas como um grande e maravilhoso esforço de combate aos erros do seu tempo. Bem o contrário do que a Igreja ensinou. Basta ler a encíclica Aeterni Patris de Leão XIII e a própria Pascendi Dominici Gregis de São Pio X que no seu final indica os remédios contra o modernismo: estudar e seguir a doutrina de São Tomás de Aquino.
 
Os dogmas não existem apenas para refutar os opositores da Igreja. Eles não existem apenas como negação aos erros de seu tempo, nem devem ser julgados somente em relação aos erros do tempo em que foram formulados, como uma mera oposição, expressão negativa a uma situação concreta positiva como se não tivessem nenhuma expressão positiva. Eles afirmam com precisão exata e infalível verdades reveladas nas quais sempre se acreditou no Cristianismo e de cuja adesão depende nossa salvação. Eles são sim uma expressão positiva da verdade e não existem apenas em referência ao erro que querem refutar.
 
O Papa Pio XII, na encíclica Humani Generis, na qual são condenados os erros dos continuadores do modernismo, combate uma posição muito similar à de Olavo de Carvalho:
 
“E alguns mais audazes sustentam que isso se pode fazer e se deve fazer, porque os mistérios da fé, afirmam os tais, não se podem exprimir por meio de conceitos adequadamente verdadeiros, mas somente por meio de conceitos aproximativos e sempre mutáveis, através dos quais a verdade se manifesta, sim, mas ao mesmo tempo necessariamente se deforma.” (Papa Pio XII – Encíclica Humani Generis).
 
“É claro, do que dissemos, que essas tendências não somente levam ao relativismo dogmático, mas de fato já o contém. Relativismo esse que é por demais favorecido pelo desprezo que mostram para com a doutrina tradicional e para com os termos em que ele se exprime. Todos sabem que as expressões desses conceitos, usadas tanto no ensino das aulas como no mesmo Magistério da Igreja, podem ser melhoradas e aperfeiçoadas; é por outra parte bem sabido que a Igreja nem sempre usou constantemente determinadas expressões; é evidente também que a Igreja não pode estar ligada a um qualquer efêmero sistema filosófico; mas tais noções e tais expressões que com geral consenso foram através dos séculos encontrados e formuladas pelos doutores católicos para chegar a algum maior conhecimento e inteligência do dogma, sem dúvida que não se apoiam em um fundamento tão caduco. Apoiam-se, sim, em princípios e noções deduzidas de um verdadeiro conhecimento das coisas criadas; e na dedução de tais noções, a verdade, revelada como estrela, iluminou por meio da Igreja a inteligência humana. Portanto não é de estranhar que algumas dessas noções tenham sido usadas em Concílios Ecumênicos, e que deles tenham recebido tal sanção que a ninguém é lícito afastar-se delas.” (Papa Pio XII – Encíclica Humani Generis).
E tem gente que acredita ainda que Olavo de Carvalho é um filósofo antimodernista, católico e muito sério.
  1. 5.      Descida ao abismo teológico: o modernista teólogo e sua doutrina do símbolo.
Junto ao erro exposto acima sobre a doutrina está ligado diretamente outro erro: a doutrina do simbolismo.
“Para o Prof. Olavo de Carvalho, é possível falar em filosofias abertas e fechadas, ou seja, em filosofias que permite uma maior aproximação da experiência intuitiva de apreensão do real e aquelas outras que se cristalizam mais facilmente em estruturas discursivas rígidas, com alto grau de auto-referencialidade. Este elemento de abertura surge ainda revalorizado em virtude da concepção da filosofia como símbolo, já que o símbolo remete ao objeto simbolizado, mas não pode traduzi-lo perfeitamente, o que de certo modo é o estatuto das sentenças filosóficas, no entender do autor. (“Os EUA e a Nova Ordem Mundial”, p. 21 – Vide Editora – 2012).
 
Essa é exatamente a doutrina simbolista do modernismo, baseada em Bergson. Vejam como a noção de dogma de Olavo, já citada acima, se encaixa muito bem com aquela condenada por São Pio X:
 
“Outra adaptação: o filósofo tem por certo de que as representações da fé são puramente simbólicas; o crente afirma que o objeto da fé é Deus em si mesmo; conclui pois o teólogo: logo as representações da realidade divina são simbólicas. Segue-se daqui o simbolismo teológico. São erros enormes deveras; e quanto sejam perniciosos vamos ver de um modo luminoso, observando-lhes as consequências. E para falarmos desde já do simbolismo, como os símbolos são: símbolos com relação ao objeto, e instrumentos com relação ao crente, dizem os modernistas que o crente, antes de tudo, não deve apegar-se demais à fórmula, que deve servir-lhe só no intuito de unir-se com a verdade absoluta, que a fórmula ao mesmo tempo revela e esconde; isto é, esforça-se por exprimi-la, sem jamais o conseguir.
 
(…) “Assim pois, na doutrina dos modernistas, chegamos a um dos pontos mais importantes, que é a origem e mesmo a natureza do dogma. A origem do dogma põem-na eles, pois, naquelas primitivas fórmulas simples que, debaixo de certo aspecto, devem considerar-se como essenciais à fé, pois que a revelação, para ser verdadeiramente tal, requer uma clara aparição de Deus na consciência. O mesmo dogma porém, ao que parece, é propriamente constituído pelas fórmulas secundárias. Mas, para bem se conhecer a natureza do dogma, é preciso primeiro indagar que relações há entre as fórmulas religiosas e o sentimento religioso.
 
Não haverá dificuldade em o compreender para quem já tiver como certo que estas fórmulas não têm outro fim, senão o de facilitarem ao crente um modo de dar razão da própria fé. De sorte que essas fórmulas são como que umas intermediárias entre o crente e a sua fé; com relação à fé, são expressões inadequadas do seu objeto e pelos modernistas se denominam símbolos; com relação ao crente, reduzem-se a meros instrumentos.”
 
Não é portanto de nenhum modo lícito afirmar que elas exprimem uma verdade absoluta; portanto, como símbolos, são meras imagens de verdade, e portanto devem adaptar-se ao sentimento religioso, enquanto este se refere ao homem; como instrumentos, são veículos de verdade e assim, por sua vez, devem adaptar-se ao homem, enquanto se refere ao sentimento religioso. E, pois que este sentimento tem por objeto o absoluto, apresenta infinitos aspectos, dos quais pode aparecer, hoje um, amanhã outro e da mesma sorte como aquele que crê pode passar por essas e aquelas condições, segue-se que também as fórmulas, que chamamos dogmas, devem estar sujeitas a iguais vicissitudes, e por isso também a variarem.” (Papa São Pio X – Encíclica Pascendi Dominici Gregis)
 
Ora, conforme Olavo,
“Ou você consegue imaginar, pelo menos vivenciar imaginativamente esses acontecimentos para você, vamos dizer, conseguir de algum modo penetrar naatmosfera originária daquela religião ou você nunca vai saber o que é a religião.” (Carvalho, Olavo de – O Brasil perante os conflitos da nova ordem mundial – Palestra na OAB – 2004 http://www.youtube.com/watch?v=UpqFxWMAa8U)
 
Essa doutrina do símbolo é exatamente a mesma de Eric Voegelin, guru de Olavo:
“No entanto, a intimidade do símbolo e a experiência de tensão são facilmente perturbadas especialmente quando o símbolo é abstraído da experiência originária e transformado em um componente linguístico de doutrina. Transformar símbolos em doutrinas transforma condensações de participação em um campo difuso da realidade em instrumentos de cognição. A realidade, Voegelin escreve, não é externa à consciência e, portanto, não é um objeto de cognição. É um processo no qual os seres humanos estão situados e que é iluminado a partir de dentro” [grifo nosso] [42].
 
Vejam só: para Voegelin a realidade é interna à consciência, i.e., subjetiva. Portanto, como o próprio texto afirma, ela não pode ser objeto de conhecimento pois não é objetiva. Por mais que Voegelin e os voegelinianos refutem isso dizendo que a realidade está no “intermédio”, no “in-beetween”, entre os “pólos de tensão sujeito-objeto”, essa noção de “intermédio” não passa de uma dissimulação, de uma reformulação mitigada do subjetivismo, como se mostra acima.
 
Para Voegelin a doutrina, o dogma deformam a realidade, a experiência original (Voegelin, Eric “Reflexões Autobiográficas”. pp. 147 e 165 – É Realizações – 2008). A partir daí podemos entender melhor porque Olavo considera a doutrina e dogma um sinal da morte da experiência original, um sinal da morte da religião.  Erro que, como já dissemos, decorre do agnosticismo fenomenológico de Olavo que considera que as ideias, juízos e palavras deformam a realidade. Ou seja, a razão, o intelecto engana o homem com ilusões, mentiras. Por isso que Olavo tem que rejeitar a verdadeira teoria sobre a inteligência (aristotélico-tomista). Assim, ao defender uma falsa teoria sobre o conhecimento, finge ser a favor dele, quando na verdade é contra. Ele defende a palavra “intelecto”, mas a ideia que ele tem sobre ele é falsa.
 
Além disso, é impossível afirmar que há uma “realidade” pré-doutrina sem afirmar isso através de uma doutrina que a explique. Quando se diz que antes de toda doutrina há uma experiência e que devemos nos ater à experiência considerando a doutrina uma “cristalização” dela, já se está formulando também uma doutrina. Essa doutrina é a doutrina da experiência e do símbolo, condenada por São Pio X na Pascendi
Essa doutrina afirma a ideia de que toda ideia ou doutrina cristaliza a experiência. Essa é uma ideia cristalizada, i.e., fixa e afirmada com certeza? Ou ela não capta também com exatidão a experiência, a realidade? Se sim, a afirmação está errada. Se não, a afirmação está igualmente errada. É uma afirmação autocontraditória, pois é agnóstica e relativista.
Além de defender essa doutrina delirante, Voegelin revela exatamente um dos fundos dissimulados da doutrina modernista: o ateísmo.
 
 
“Há muito tempo lembro-me de um aforismo de Eric em uma dessas ocasiões: ‘É claro que Deus não existe. Mas temos de acreditar nele’. Eu entendi, eu pensei, o conceito do símbolo indispensável” [grifo nosso] [43].
“Mas, ao dizermos isso, observe também que não estamos lidando com um simples negador de Deus, que beligerantemente argumenta que não há Deus e que deixa claro que está em guerra com a religião, quando estamos lidando com Voegelin. Estamos lidando com um pensador extremamente sofisticado, ou seja, com uma pessoa que não é de forma alguma um ateu agressivo. Voegelin compreende tanto a necessidade da religião, e o papel que ela desempenha na vida do homem e da sociedade, bem como o fato de que a religião é uma das expressões simbólicas da estrutura da consciência humana, que é eclipsada ao custo da decência e civilidade humanas. Na verdade, é devido a este último ponto que Voegelin fala tão deliberadamente e até mesmo de forma positiva sobre a religião, apesar de ser da opinião de que “não há Deus”, e nesse processo intriga muitos de seus seguidores bem como seus adversários, sobre seus verdadeiros pontos de vista” [grifo nosso] [44].
 
Voegelin era ateu. A crença em Deus não passaria de um elemento do papel teatral necessário para o homem adequar-se as necessidades da sociedade, da vida, aos “mistérios da consciência”. Trataremos mais abaixo sobre isso.
  1. 6.      Descida ao mais profundo abismo da “unicidade subterrânea do ser”: o mundo encantado de Eric Voegelin ou Olavo de Carvalho no país das maravilhas (ou das fadinhas). Abismo do qual colheremos ainda mais “pérolas cristalinas” de heresia e alucinação.
É claro que uma pessoa que adere a tais erros terá uma noção totalmente fantasiosa e delirante sobre a religião:
“[Stella: mas, p.e., dentro da religião em geral as pessoas são dogmáticas …]
[Olavo de Carvalho]: Mas a religião é brincadeira, você não sabe? A religião é um (montão (?)) de estorinhas de fada que, já que você não vai entender, então você imita e faz aquela estorinha de fada igualzinho, supondo-se que algum dia você entenda. A religião faz parte, vamos dizer, do folclore. Folclore são estorinhas que, para que não fossem perdidas, são transmitidas a uma massa de ignorantes que repetissem servilmente, é uma espécie de memória, a religião popular é memória de certos simbolismos, e só.” (Preleção XX em “Edmund Husserl contra o psicologismo”,www.4shared.com/document/Xvsi6WJo/CARVALHO_Olavo_-_Edmund_Husser.htm.)
 
Quer dizer então que o Sr. Olavo de Carvalho gosta de brincar de fadas?!?!
Bonito.
Muito bonito!
Que coisa mais romântica…
Vai ver que, como Olavo considera a religião também como uma “experiência original”, deseja como os românticos retornar à infância… Por isso gosta de brincar… Mas de um modo tão estranho!
E os alunos que ele diz terem se convertido através dele? Consequentemente, devem ter aprendido a brincar de conto de fadas também. Pobrezinhos.
 
Olavo, se o senhor gosta de brincar de fadinhas, duendes, hobbits ou qualquer porcaria do tipo, não nos coloque junto nisso, por favor! Não coloque o Catolicismo nesse seu delírio só para dar ares de normalidade a essa sua perversão pessoal sobre a religião.
Olavo, largue já esse vício de jogar RPG[45]! Não tem cabimento!
 
Novamente vemos aí um caso de projeção inversa: brincadeira é isso que Olavo faz com a religião e com a filosofia, e não elas em si mesmas. Brincadeira é o que ele faz com seus alunos. Para ele religião é RPG, quando na verdade é ele quem está brincando com a realidade como se fosse um RPG.
Olavo, pare de brincar com coisa séria! Pare de jogar RPG com a sua vida e com a dos outros!
 
 
Religião não é brincadeira. E heresia também não.
Religião não é RPG existencial, embora o ateu Eric Voegelin tenha querido vê-la deste modo na introdução a sua saga ficcionalOrdem e História Vol. IO sistema de RPG predileto da direita brasileira, no qual Olavo deseja se inserir não como personagem (por mais que não consiga passar de um), mas como “dungeon master” [46].
 
Na introdução a sua saga ficcional/sistema/universo de RPG, “Ordem e História”, Eric Voegelin dá uma das premissas sobre as quais ele funda toda essa saga:
 
Seja o homem o que for, ele sabe que é uma parte do ser. A grande corrente do ser, em que ele flui e flui nele, é a mesma corrente a que pertence tudo aquilo que flutua até a sua perspectivaMovemo-nos em uma comunidade encantada em que tudo o que vem ao nosso encontro tem força, vontade e sentimentos, em que animais e plantas podem ser homens e deuses, em que homens podem ser divinos e deuses são reis, em que o diáfano céu da manhã é o falcão Hórus e o Sol e a Lua são seus olhos, em que a unicidade subterrânea do ser é um condutor de correntes mágicas de forças boas ou más que alcançarão subterraneamente o parceiro superficialmente inalcançável, em que as coisas são as mesmas e não são as mesmas, e podem se transformar uma nas outras. (Voegelin Eric. “Ordem e História I – Israel e a Revelação” p. 47 – Edições Loyola – 2009)
 
Que lindo! Um mundo encantado em que animais e plantas podem ser homens e deuses, em que jumentos podem ser filósofos e filósofos podem ser fadas, pois tudo pode ser tudo! Tudo sendo um só e mesmo ser. Tudo sendo Deus. Tese gnóstica? Imagina.
É impressionante como os direitistas gostam de ler e brincar de contos de fadas.
Há quem diga que os diretores de cinema George Lucas e Steven Spielberg estão disputando os direitos da obra de Voegelin para filmá-la. Especula-se que superará em bilheteria e em babaquice às sagas Guerra nas Estrelas, Senhor dos Anéis, Crônicas de Nárnia e Harry Potter juntas. A direita nerd entrará em transe. Há o risco de que o escathon seja imanentizado em seus cérebros de tanto delírio que o filme pretende causar.
 
Talvez, se Olavo se esforçar, possa ser contratado por George Lucas para interpretar o papel de algum personagem encantado do “mundo imaginalis” de Eric Voegelin. Já que ele mesmo deu a entender que gosta de brincar de fadas, não é mesmo? Só não me convidem para assistir a esse filme, pois assistir a uma cena dessas pode deixar qualquer pessoa com uma tremenda indigestão.
 
Ler toda essa baboseira de Olavo e Voegelin me deu uma boa noção sobre o “script” que os “estrutura existencialmente” i.e., que orienta o pensamento e a ação de todo esse pessoal. Eles seguem um “roteiro” de filme brega para organizar a ideia que fazem da realidade, do mundo, da sociedade e de si mesmos. Eles se posicionam no mundo enquanto personagens desse delírio. E muitos de seus alunos não têm ideia de que estão sendo ensinados a serem personagens de uma “trama” delirante, na qual todos os seres são consubstanciais entre si, na qual Deus é sujeito no homem. Aderindo a essa “trama”, sacrificam suas personalidades genuínas. Sacrificam aquilo que Deus realmente quer que façam das suas vidas.
 
Para explicar esse delírio cretino de consubstancialidade do ser e de mundo encantado, cito novamente o trabalho fundamental que o Professor Orlando Fedeli escreveu sobre a fenomenologia em “A Religião do Concílio Vaticano II”:
 
“De tudo isso se conclui que consciência, eu, pessoa, não são seres, mas fluxo sem substância, sem fundo. Por isso diz Mounier que pessoa “não tem fundo”,é um movimento e não ser substancial, pessoa, como a divindade de Jacob Boehme, seria um “ungrund”.
 
Mais ainda. Para a Fenomenologia, o eu empírico seria ilusório, pois seria apenas uma subsistência aparente de um eu transcendental único, superior. Uma “presença”—uma manifestação da Scheckinah, como dirá o cabalista judeu Martin Buber. Como o repetirá Monsenhor Giussani.
 
Assim como num arquipélago, cada ilha, se pensasse, ver-se-ia como ser isolado, individualizada pelo mar, assim cada pessoa empiricamente se percebe como um ser individualizado, como sujeito isolado. Na realidade, se se retirasse o mar, as ilhas do arquipélago ver-se-iam reduzidas a um só continente. Do mesmo modo, abstraindo-se o “mar” da razão e da matéria, que nos enganam, nosso eu empírico passa a ser visto fenomenologicamente como um único Eu transcendental. Como um só Eu coletivo, monadológico. Daí ter se definido a Fenomenologia como a revelação da “razão universal da humanidade”, como disse Monsenhor Zilles.”[47]
 
As “ilhas”, i.e., os seres como se apresentam a nós – os “parceiros”, na terminologia de Voegelin  seriam ilusórios, “inalcançáveis” na “superfície”. No fundo, num “subterrâneo”, seriam um só continente, um só e mesmo ser, consubstancial e unívoco. Exatamente a tese de Voegelin. Exatamente a tese gnóstica: por trás da aparência dos seres, da materialidade, da individualidade, dos sentidos, da razão, estaria oculta a divindade original, que seria o “todo”.
 
Essa ideia sobre o “EU transcendental” é ensinada por Olavo nas suas aulas sobre a fenomenologia de Husserl:
 
 
“Daí Husserl diz, ‘Que Deus que nada, isso aí é o EU transcendental’, porque é a universalidade da consciência humana, não é uma questão subjetiva mais. Isto não é Deus ainda, mas isto é o modo; isto é Cristo, não é Deus.
 
Quer dizer, Descartes apelou direto para Deus, eu digo, bom, não deixa de estar certo, mas isso aí é muito pouco para ser Deus ainda, tem uma etapa intermediária aí, não é?
Isto se chama o EU transcendental, é a Consciência Transcendental, que é a consciência universal, que é uma só em todas. Você subiu lá, já está no plano do universal e não desce mais, mas isto é o Cristo propriamente dito, isto é o Logos. Você pode formular a objeção cética porque você tem o tipo de consciência que se superpõe a todos os objetos, a todas as modalidades de consciência e a todas as modalidades de consciência reflexiva, desde o ponto de vista da universalidade total! É só por isso que você pode formular esta objeção, senão você estaria preso dentro do conhecimento que tem! E você não está!”[grifo nosso] (Preleção XX em “Edmund Husserl contra o psicologismo”, www.4shared.com/document/Xvsi6WJo/CARVALHO_Olavo_-_Edmund_Husser.htm).
 
 
Olavo identifica o “eu transcendental” com Cristo, exatamente como os modernistas do Concílio Vaticano II. E, para piorar, diz que Cristo não é Deus, o que é uma heresia.
Essa questão sobre o “Eu transcendental” é analisada em pormenores no já citado “A religião do Concílio Vaticano II” do Professor Orlando Fedeli. Evidentemente não podemos reproduzir a explicação toda. Portanto, reproduzimos apenas uma parte e voltamos a recomendar a leitura desse trabalho:
 
“Um Eu transcendental só pode significar que nosso eu pessoal é simplesmente algo relacionado e dependente de um EU superior, na ordem do ser, o qual subsistiria em cada eu particular. E essa mesma doutrina, de caráter claramente gnóstico, fora já defendida pelos filósofos do idealismo e pelos românticos, e, depois, foi ela esposada por Jung.
 
(…)
 
“Jung também falava de eu coletivo. Todos os homens, todos os eus, como já dissemos, seriam como as ilhas de um arquipélago, formadas pelo mar da materialidade e da razão. Eliminando-se – ou fazendo uma epoché do mar da matéria e da razão—, as ilhas do arquipélago deixariam de ser ilhas ficando a lume o continente do qual elas eram partes emersas. Daí, ter se tornado famoso o slogan de que nenhum homem é uma ilha. Subterraneamente seríamos um só continente. Um só eu.
 
Para os fenomenologistas cristãos, esse Eu único transcendental coletivo seria o que eles chamavam de Communio.
 
A Communio—a consciência que a Igreja teria de si mesma – seria um Eu coletivo transcendental identificado com Cristo glorioso ressurrecto. Daí, hoje, se excluir das igrejas o crucificado, substituindo-o pela imagem de Jesus ressurrecto, Eu transcendental, eu da Communio. Daí, muitos sacerdotes crerem que Jesus está realmente presente na comunidade e não nas espécies consagradas, que seriam apenas um veículo para criar o espírito coletivo da comunidade. O Eu transhumano monadológico e transcendental do Eu coletivo dos fiéis reunidos em assembléia. Daí, quando o sacerdote exprime o desejo de que Deus esteja com os fiéis, estes responderem : “Ele está no meio de nós”. A presença real de Cristo eucarístico estaria na comunidade e não na hóstia consagrada.
 
O corpo eclesial, a consciência coletiva da comunidade, seria um Ego coletivo numa nova identidade própria, algo totalmente novo. A Communio –a comunidade eclesial — seria o Povo de Deus formado pela fusão dos eus dos fiéis num único Ego transcendental que seria o Eu de Cristo (Cfr Padre John f. Kobler, Vatican II and Phaenomenology, Martinus Nijhoff Publishers, Dordrecht, Boston, Lancaster, 1985, p. 133).
 
Foi com o Vaticano II que se desenvolveu a ideia de que a “communio” seria “uma “co-presença” com o Cristo vivo, com o seu povo, e entre seus membros. Essa unidade vital de mentes e de vidas podia ser chamada uma intersubjetividade “realizada”. Nessa fundamentação, seguir-se-á uma posterior ultrapassagem para outros cristãos e para a humanidade como um todo” (Padre John f. Kobler, Vatican II and Phaenomenology, Martinus Nijhoff Publishers, Dordrecht, Boston, Lancaster, 1985, p. 48).
 
Dessas ideias nasceria a noção de Igreja de Cristo subistente nas várias religiões cristãs, e, depois, a noção de Igreja Universal como união de todas as religiões. Por isso, a Igreja –ego cósmico—como diz a Lúmen Gentium, teria a missão de reunir todo o gênero humano num só Eu cósmico.”[grifo nosso][48]
Fica evidente, portanto, a “profunda sintonia” entre Olavo de Carvalho e o modernismo.
  1. 7.      Retornando do abismo olavético.  
 
 
Após essa jornada ao abismo, voltamos com muitas “pérolas” do olavismo e de sua doutrina consubstancial, o voegelinianismo. Também voltamos com algumas questões.
 
Uma pergunta que poderia ser feita é se de fato Olavo tem alguma influência no chamado “conservadorismo católico”. Este artigo já vai muito longe para discorrermos sobre o assunto, assim apresentamos apenas uma citação do Pe. Paulo Ricardo para comprovarmos a necessidade deste artigo:
“Então, para quem quiser conhecer e estudar eu aconselho muito os dois sites dele [Olavo de Carvalho]: (…) onde ele dá um curso de filosofia online, que é muito interessante, muito bom, que eu aconselho. Eu mesmo sou inscrito nesse curso de filosofia, faço o curso de filosofia dele.(http://www.olavodecarvalho.org/depoimentos.html).
Fica aqui a pergunta: o que será que o Pe. Paulo Ricardo, aluno e amigo de Olavo de Carvalho, tem a dizer sobre tudo isso?
Esperamos sinceramente que quando o Pe. Paulo Ricardo converse com Olavo sobre religião, não esteja jogando RPG, brincando de contos de fadas, duendes… Nem de hobbits.
Esperamos que o Pe. Paulo Ricardo não tenha caído totalmente nessa conversa psicodélica e lisérgica, digna da breguice e grosseria de hippies em acampamento em São Tomé das Letras.
 
Esperamos que esteja apenas sendo confundido por esse astrólogo e “rpgista” existencial.
Esperamos que o Pe. Paulo Ricardo não esteja sob nenhum feitiço ou psicomacumba de nenhum astrólogo modernista.
Deus queira que não.
Deus queira que ele abra os olhos.
E também os olhos dos alunos, leitores e expectadores de Olavo e do Pe. Paulo Ricardo.
  1. 8.      Conclusão.
 
 
De tudo que foi analisado acima, o que podemos concluir sobre a ação de Olavo de Carvalho, substancialmente falando?
A primeira coisa que ele faz é agregar com seu discurso pessoas descontentes e capazes de opor resistência aos erros atuais. Pessoas perplexas com a situação atual e bem dispostas a conhecer a verdade. Olavo então instrumentaliza a perplexidade dessas pessoas, fornecendo-lhes análises sofisticadas sobre sintomas ou aspectos parciais da crise, desviando assim o foco da causa real do problema. Esses descontentes, ansiosos por uma resposta que apazigue sua perplexidade e angústia, ficam maravilhados e satisfeitos frente a esse diagnóstico de sintomas, tão bem desenvolvido e sofisticado (sobre a psicopatia esquerdista, corrupção ideológica da linguagem, o marxismo cultural, Foro de São Paulo, etc.). Diagnóstico que, por seu nível intelectual bem mais alto, contrasta muito com o baixíssimo nível dos grosseiros e estereotipados lugares-comuns do esquerdismo, ateísmo e relativismo, tão correntes em nossa sociedade. Então, quando Olavo aprofunda a questão, ao explicar o pano de fundo por trás desses problemas parciais, usa como chave de leitura exatamente o modernismo, causa de toda a crise atual. Deste modo, o modernismo, que deveria estar sendo combatido, sai triunfante.
 
Dando como solução aos problemas gerados pela crise aquilo que faz parte de sua própria causa, Olavo oferece uma solução agravante.
 
Essa, aliás, como já dito, é a estratégia de toda direita. A TFP agiu e age de maneira idêntica. Finge opor-se ao modernismo do Concílio Vaticano II e à Missa Nova, ao mesmo tempo em que seu fundador Plínio Correa de Oliveira ensinava uma forma tosca e burlesca de modernismo e impedia a publicação no Brasil do livro de Arnaldo Xavier Silveira sobre o Novus Ordo, mediante um acordo traidor com Dom Paulo Evaristo Arns.
Qualquer oposição que Olavo apresente ao modernismo, ao Concílio Vaticano II e a Missa Nova não passa de “espuma de superfície”, para usar um termo do próprio Olavo.
Portanto suas ações, seus fins concretos fazem corpo com quem tem uma estratégia planejada para destruir a Igreja.
 
Portanto, Olavo não se opõe ao jogo feito pelos inimigos da Igreja. Ele é uma das peças desse mesmo jogo, quer queira ou não.
Pois como dissemos no início, quem é responsável pelo clima de desorientação geral da sociedade deve também ser responsável por criar uma falsa orientação, para que a desorientação triunfe.
 
Assim agem os inimigos da Igreja, assim age a maçonaria.
Há quem diga – não se sabe se por ingenuidade ou por dissonância cognitiva – que após a polêmica com o professor Orlando Fedeli, Olavo teria mudado de posição e até se convertido ao Catolicismo.  Na verdade, como ele saiu muito mal da polêmica, teve que passar a defender os mesmos erros de maneira mitigada. E é isso que também procuramos mostrar com esse trabalho.
 
Essa impressão sobre sua mudança de posição talvez tenha se dado pelo fato de, após a polêmica, Olavo ter passado a falar bem menos de Guénon e Schuon, dizendo ter agora mais ressalvas do que antes em relação à obra desses gnósticos – quando na verdade continua aderindo a seus princípios, considerando-os grandes autores “espirituais”. É certo que passou a ter muito mais críticas a esses autores, porém somente a aspectos marginais de suas obras. Olavo continua acreditando na tese gagá do “núcleo comum de todas as religiões”. Inclusive passou a ter certas críticas a Guénon, sem ter reconhecido o mérito de o Professor Orlando Fedeli tê-las feito antes na polêmica que tiveram[49].
Convém lembrar também do que o próprio Papa São Pio X, no seu Catecismo Maior, ensina sobre a excomunhão:
 
“230. Quem são os excomungados?
Os excomungados são aqueles que por faltas graves são fulminados com excomunhão pelo Papa ou pelo Bispo, e portanto são separados, como indignos, do corpo da Igreja, a qual espera e deseja a sua conversão.
 
231. Deve-se temer a excomunhão?
Deve-se temer a grandemente a excomunhão, porque é o castigo mais grave e mais terrível que a Igreja pode infligir aos seus filhos rebeldes e obstinados.
 
232. De que bens ficam privados os excomungados?
Os excomungados ficam privados das orações publicas, dos Sacramentos, das indulgências, e excluídos da sepultura eclesiástica.” (São Pio X. “Catecismo Maior de São Pio X” pg. 81, Edições Santo Tomás – Serviço de Animação Eucarística Mariana – 2005).
Que Nossa Senhora de Fátima nos livre de todas as heresias. Tanto as da esquerda, quanto as da direita e as do centro.
In Corde Jesu, semper.
Fernando Schlithler
11 de fevereiro de 2013.
 
APÊNDICE
 
Trechos do Novo Testamento sobre a doutrina de Cristo.
 
Basta procurar na edição online da Vulgata pelos termos doctrinadoctrinae ou doctrinam e encontraremos numerosas citações.
 
Seguem abaixo algumas delas:
 
“E ficaram todos tão admirados, que se interrogavam uns aos outros, dizendo: Que é isto? Que nova doutrina é esta? Pois ele manda com autoridade até aos espíritos imundos, e obedecem-lhe.” (Marcos 1, 27)
 
“E ensinava-lhes muitas coisas por meio de parábolas, e dizia-lhes segundo a sua doutrina (Marcos 4, 22)
 
“E, chegando o sábado, começou a ensinar na sinagoga; e muitos dos que o ouviam admiravam-se da sua doutrina, dizendo: Donde vem a este todas estas coisas? E que sabedoria é esta, que lhe foi dada? E como se opera, tais maravilhas pelas suas mãos?” (Marcos 6,2)
 
 “Ouvindo isto, os príncipes dos sacerdotes e os escribas, procuravam o modo de o perderem; porque o temiam, visto que todo o povo admirava a sua doutrina.” (Marcos 11,18)
 
“E dizia-lhes em sua doutrina:  guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com roupas largas, e de serem saudados nas praças” (Marcos 12,38)
 
“E foi a Cafarnaum, cidade da Galiléia, e ali os ensinava aos sábadosE espantavam-se da sua doutrina, porque a sua palavra era com autoridade” (Luc 4, 31-32)
 
 
 “Jesus respondeu-lhes e disse: minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, reconhecerá se minha doutrina vem de Deus, ou se falo de mim mesmo.” (João 7, 16-17)
 
 “e perseveraram na doutrina dos Apóstolos, e na comum fração do pão, e nas orações”. (At 2, 42)
 
“E, tendo-os conduzido, os apresentaram no conselho. E o príncipe dos sacerdotes os interrogou, dizendo: Expressamente vos ordenamos que não ensinásseis nesse nome; e eis que tendes enchido Jerusalém da vossa doutrina; e quereis tornar-nos responsáveis pelo sangue desse homem.” (At, 5, 27-28)
 
“Então o procônsul vendo este fato, creu, admirando a doutrina do Senhor’ (At, 13, 12)
 
“E tendo-o tomado, levaram-no ao Areópago, dizendo: Podemos nós saber que nova doutrina é essa que pregas? Porque nos andas metendo pelos ouvidos umas coisas novas; queremos, pois, saber que vem a ser isto.” (At 17, 19)
 
 “quem tem o ministério, exerça o ministério; quem tem a doutrina, ensine” (Rom 12,7)
 
 “Ora, nós não recebemos o espírito deste mundo mas o Espírito que vem de Deus, para conhecermos as coisas, que por Deus foram nos dadas; as quais também anunciamos não com as palavras doutas de humana sabedoria, mas com a doutrina do Espírito, adaptando o espiritual ao espiritual. Mas o homem animal não percebe aquelas coisas que são do Espírito de Deus, porque, para ele, são uma estultícia, e não as pode entender; porque elas ponderam-se espiritualmente.” (1 Cor 2,12-14)
 
“Assim, pois, irmãos, se eu for ter convosco falando em diversas línguas, de que vos aproveitarei eu, se vos não falar ou com revelação, ou com ciência, ou com profecia, ou com doutrina?” ( 1 Cor 14, 6)
 
 “Prega a palavra, insiste a tempo e fora de tempo, repreende, suplica, admoesta com toda a paciência e doutrina. Porque virá tempo em que muitos não suportarão a sã doutrina, as multiplicarão para si mestres conforme os seus desejos, levados pelo prurido de ouvir. E afastarão os ouvidos da verdade, e os aplicarão às fábulas”.  (2 Tim 4, 3-4)
 
“aderindo firmemente à palavra fiel que é segundo a doutrina; para que possa exortar segundo a sã doutrina, e refutar os que a contradizem” (Tit 1,9)
 
“Faze-te a ti mesmo um modelo de boas obras em tudo, na doutrina, na integridade, na gravidade” (Tit 2,7)
 
“Todo o que se aparta e não permanece na doutrina de Cristo, não tem Deus; o que permanece na doutrina, este tem o Pai e o Filho. Se alguém vem a vós e não traz esta doutrina, não o recebais em vossa casa, nem o saudeis. Porque quem saúda, participa das suas obras más” (2 João 1, 9-11)
 
 
 

[1] “et factum est cum consummasset Iesus verba haec admirabantur turbae super doctrinam eius erat enim docens eos sicut potestatem habens non sicut scribae eorum et Pharisaei” (Mat 7, 28-29)
[2]“rogo autem vos fratres ut observetis eos qui dissensiones et offendicula praeter doctrinam quam vos didicistis faciunt et declinate ab illis huiusmodi enim Christo Domino nostro non serviunt sed suo ventri et per dulces sermones et benedictiones seducunt corda innocentium vestra enim oboedientia in omnem locum divulgata est gaudeo igitur in vobis sed volo vos sapientes esse in bono et simplices in malo Deus autem pacis conteret Satanan sub pedibus vestris velociter gratia Domini nostri Iesu Christi vobiscum” (Rom 16, 17-20)
[3]“testimonium hoc verum est quam ob causam increpa illos dure ut sani sint in fide non intendentes iudaicis fabulis et mandatis hominum aversantium se a veritate” (Tit 1, 13-14)
[4] apud Fedeli, Orlando. “Jean Guitton e o Modernismo no Concílio Vaticano II: Resposta ao parecer de Brescia” in http://www.montfort.org.br/jean-guitton-e-o-modernismo-no-concilio-vaticano-ii-resposta-ao-parecer-de-brescia-2/
[5] Aliás, Olavo de Carvalho denuncia essa “linguagem metonímica”. Pena que ele tenha tão pouca “autoconsciência” para detectar seu próprio pensamento metonímico.
[8]  Idem.
[10]“Eu sou ecumênico radical: católico- protestante- islâmico – judaico- budista- hinduísta. Eu acredito que essas religiões têm todas um núcleo de verdade metafísica que é eterno, revelado, que o ser humano não poderia ter inventado” (Olavo de Carvalho, A Miséria do Materialismo, entrevista à revista República, Ano IV, n* 40, fevereiro de 2000, p. 96) e também: http://www.olavodecarvalho.org/textos/compideo.htm
[11] Carvalho, Olavo de. “Jardim das Aflições – de Epicuro à Ressurreição de César: Ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil”. p. 239 – É REALIZAÇÕES. 2º edição. 2000)
[13] GARRIGOU-LAGRANGE, Pe. Réginald. La Nouvelle Théologie où va-t-elle? Angelicum 23, 1946, apud HIRPINUS. A “Nova Teologia”: os que pensam que venceram. Rio de Janeiro: Permanência, 2001, p. 54.
[14] Para uma explicação detalhada sobre a fenomenologia e sua origem na gnose pietista ver o quinto capítulo da segunda parte de “A religião do Concílio Vaticano II” do Professor Orlando Fedeli em http://www.montfort.org.br/a-religiao-do-concilio-vaticano-ii-parte-ii-2/#Cap5_fenomenologia
[15] v. Kobler, Fr. John F.  Vatican II, Theophany and the Phenomenon of Man, Peter Lang Publishing, New York, San Francisco. Bern, Frankfurt am Main, Paris, London, 1991 e Kobler, Fr. John F. Vatican II and Phenomenology, – Reflections on the Life-World of the Church, Martinus Nijhoff Publishers 1985, Dordrecht e também o já citado trabalho minucioso que o Professor Orlando Fedeli fez a partir do estudo desses livros em “A religião do Concílio Vaticano II”em http://www.montfort.org.br/a-religiao-do-concilio-vaticano-ii-parte-i-2/
[17] Agnosticismo e gnosticismo não são propriamente conceitos contrários. O agnosticismo afirma ser impossível a razão conhecer a Deus. O gnosticismo pressupõe o agnosticismo, pois também diz ser impossível a razão conhecer a Deus. Porém, afirma que há uma outra forma de conhecimento, portanto irracional, para se conhecer a Divindade verdadeira. Divindade considerada, autocontraditoriamente como absolutamente incognoscível. Essa forma de “conhecimento do incognoscível” é a gnose.
[19] O próprio artigo já é também uma falsa refutação aos grosseiros ateístas Richard Dawkins e Daniel Dennet. É a técnica da solução agravante. Não somente os esquerdistas a usam, mas também os modernistas, como se pode ver.
[21] Dissonância cognitiva é um conceito desenvolvido nos anos 50 pelo psicólogo Leon Festinger, referente ao estado de desconforto, tensão psicológica que ocorre sempre quando uma pessoa se encontra numa contradição entre aquilo que pensa ou acredita e sua conduta real.  “A dissonância produz um desconforto mental que pode ir desde pequenos remorsos na consciência até uma angústia profunda; as pessoas não descansam até que elas encontrem um modo de reduzi-la.” É muito comum a pessoa que se encontra nessa situação, para reduzir o desconforto, ao invés de reconhecer a contradição e abandonar a falsa convicção reconhecendo o erro e aderindo a verdade (subordinando sua conduta à verdade, por mais dolorosa que essa seja), tentar mediante o autoengano iludir-se desenvolvendo uma espécie de “síntese dialética” entre as posições contraditórias (subordinando seu juízo sobre a realidade à sua conduta). Ou seja, ela conta uma mentira para si mesma e esforça-se (violentando sua consciência) para acreditar nela e afastar o desconforto, buscando suprimir da memória a verdade desagradável que ela não quer reconhecer. É um tipo de (des)ajustamento psicológico que está na base dos distúrbios neuróticos e psicóticos. V. Travis, Carol; Aronson, Elliot – “Mistakes were made (but not by me) – why we justify foolish beliefs, bad decisions, and hurtful acts” – Harcourt books – 2007). Vejam como se assemelha ao caso de Olavo de Carvalho se dizer contra o agnosticismo/relativismo e ter procurado combater esse erro defendendo uma forma mitigada do mesmo.
[22] Note que há um engano na própria pergunta do aluno. Pois a doutrina nem surgiu posteriormente, nem ela está em “germe”, latente nos Evangelhos. Um corpo estável de doutrina foi sim ensinado por Cristo e está sim nos Evangelhos, como prova a citação de Mat. 7, 28. Tanto é que o decreto Lamentabili também condena o seguinte erro: “Os dogmas, os sacramentos e a hierarquia, tanto em sua noção quanto em sua realidade, não passam de interpretações e evoluções do pensamento cristão que, por meio de incrementos externos, desenvolveram e aperfeiçoaram um pequeno germeque existia em estado latente no Evangelho”.
[23] “et stupebant super doctrina eius erat enim docens eos quasi potestatem habens et non sicut scribae” (Mar 1, 22)
[24] v. Sexto bate papo com Olavo de Carvalho (lado A) – http://www.youtube.com/watch?v=T855mHxnaIw
[25]“De fato, a existência de uma gnose ou philosophia perennis mostra que a religião e o dogma não são a última palavra em matéria de espiritualidade, e que a “fé” tende, em última análise, a desembocar num conhecimento direto que elimina toda a necessidade de “crença”, pois traz uma certeza, nas palavras de Guénon, ‘mais forte ainda que uma certeza matemática’” (Carvalho, Olavo de, apud“A gnose tradicionalista de René Guénon e Olavo de Carvalho” emhttp://www.montfort.org.br/a-gnose-tradicionalista-de-rene-guenon-e-olavo-de-carvalho-2/
[26] Para uma exposição detalhada sobre como as Escrituras, Cristo e sua única Igreja sempre ensinaram isso, leia o artigo de Marcelo Andrade “Fora da Igreja não há salvação” (http://www.montfort.org.br/fora-da-igreja-nao-ha-salvacao-2/ ) que inclui diversas citações.  Sobre a questão da ignorância invencível, o texto do Prof. Orlando Fedeli em http://www.montfort.org.br/old/index.php?secao=cartas&subsecao=apologetica&artigo=20040817204256&lang=bra
[27] Sobre isso leia o trabalho escrito pelo Professor Orlando Fedeli: “A gnose tradicionalista de René Guénon e Olavo de Carvalho” emhttp://www.montfort.org.br/a-gnose-tradicionalista-de-rene-guenon-e-olavo-de-carvalho-2/
[28]“O modernismo do fundador do movimento comunhão e libertação” em  http://www.montfort.org.br/o-modernismo-do-fundador-do-movimento-comunhao-e-libertacao-mons-luigi-giussani-2/
[29] Idem.
[30] Idem.
[31] Aliás, o fideísmo foi condenado por causa dos tradicionalistas como De Bonald e o já citado gnóstico, membro da maçonaria mística de linha martinistae que fingia ser católico Joseph de Maistre. Eles defendiam o fideísmo contra o racionalismo propagado pela maçonaria materialista (exatamente a técnica da solução agravante como já mencionada). Qualquer semelhança com o modus operandi de Olavo não é mera coincidência. Olavo aprecia muito esses autores, bem como todos os autores ligados a ala mística da maçonaria como o próprio Saint-Martin, Jacob Boehme, Faibre D’Olivet, Maurras, Guénon, Evola, ou seja, toda essa ralé gnóstica de inimigos da Igreja. “El Concilio Vaticano, además, puso término al tradicionalismo, definiendo la posibilidad de demostrar la existencia de Dios mediante la razón humana”  (Tredici, J. “Historia de La Filosofia”, p. 256 – Editorial Difusion – Buenos Aires 1943).
[32]Eu acho, e isto é uma teoria minha, eu acho que várias mudanças que houve na Igreja Católica a partir sobretudo da Reforma, eu acho que houve uma influência gnóstica. Eu acho que houve uma influência gnóstica na Companhia Jesuítica, por exemplo. Mas essa é uma hipótese, eu não tenho certeza disso. (…) Então, eu sei que, quanto a um católico atual, um católico conservador atual, você fala: ‘Olha, houve uma influência gnóstica no Concílio de Trento’. O cara quer te matar, porque isso é o contrário de tudo o que ele pensa. E ele vai dizer: ‘Olha, eu sou aqui um tridentino, então…’. E eu digo: ‘Espere aí. Mas tinha negócio gnóstico lá.’ Eu não estou dizendo que teve, mas que parece que teve.” (Olavo de Carvalho, Aula de 10.02.2001 do Seminário de Filosofia de São Paulonão revisada pelo autor, Fita 1, Lado B, negritos nossos)”.( http://www.montfort.org.br/old/cadernos/voegelin.html ).
“(…) É no Concílio de Trento que vira tudo doutrina mesmo: “Fechou aqui, a doutrina é essa e tem que repetir igualzinho”. Por que se fechou assim? Para reagir à Reforma Protestante, que tomou a direção exatamente inversa: não tinha mais nenhuma doutrina, cada um pensava de um jeito. É curioso que, nesse sentido, pode ser que a doutrina católica seja até a mais correta no seu conteúdo, mas formulá-la e fechá-la daquele jeito, naquele momento, em oposição a um movimento que estava expandindo o cristianismo sem muita doutrina, aquilo foi um desastre, (…)” (Apostila que acompanha a vídeo aula  “Advento do Cristianismo” – p. 60 – É Realizações – 2003).
[33]  Cabe uma explicação: não se trata, obviamente, de um anatematismo proferido pelo Pe. Calderón, pois apenas aos papas é reservado esse poder. Ao demonstrar claramente ser modernista a tese que nega que o objeto da fé seja também uma doutrina, Pe. Calderón apenas tira a conclusão lógica de que quem defender tal tese, por ser inequivocamente modernista, incorre em excomunhão segundo os documentos de São Pio X citados no início deste artigo.
[34]“O modernismo do fundador do movimento comunhão e libertação” em  http://www.montfort.org.br/o-modernismo-do-fundador-do-movimento-comunhao-e-libertacao-mons-luigi-giussani-2/
[36]  Müller, Juan Alfredo César de. “Psicomagia: a nova parapsicologia” – Editora Brasiliense – 1987.
[37] TANQUEREY, Pe. Adolphe. “A vida espiritual explicada e comentada.” p. 78 – Aliança Missionária Eucarística Mariana – 2007.
[38] Giussani, Luigi. “O senso religioso” – p. 76 – Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro – 2000.
[40] Pieper, Josef “Que é filosofia”. Edições Loyola  São Paulo. 2007.
[42]“However the intimacy of symbol and the experience of tension are easily disturbed especially when the symbol is abstracted from the originating experience and turned into a linguistic constituent of doctrine. Transforming symbols into doctrines turns condensations of participation in a diffuse field of reality into instruments of cognition. Reality, Voegelin writes, is not external to consciousness and so not an object of cognition. It is a process within which humans are situated and that is illuminated from within.” (Cooper, Barry; Emberley, Peter in Strauss, Leo; Voegelin, Eric “Faith And Poltical Philosophy: The Correspondence Between Leo Strauss and Eric Voegelin1934-1964”. p. xviii – University of Missouri Press, 1993)
[43]“I have long remembered an aphorism of Eric’s at one of these occasions: “Of course there is no God. But we must believe in Him.”I understood, I thought, the concept of the indispensable symbol.”http://voegelinview.com/all-Current-Articles/eric-voegelin-a-recollection-pt-3.html
[44]“But, as we say this, notice also that we are not dealing with a simple-minded denier of God, who belligerently argues that there is no God and who makes it plain that he is at war with religion, when we are dealing with Voegelin.  We are dealing with an extremely sophisticated thinker, that is to say, with one who is by no means aggressively atheist.
Voegelin understands both the need for religion, and the role that it plays in man’s life and in society, as well as the fact that religion is one of the symbolic expressions of the structure of human consciousness which is eclipsed at the cost of human decency and civility. Indeed, it is owing to this latter point that Voegelin speaks so knowingly and even positively about religion, despite his being of the view that ‘there is no God,’ and in the process puzzles many of his followers as well as opponents about his true views
”.
http://www.thefreelibrary.com/Eric+Voegelin%27s+immanentism%3A+a+man+at+odds+with+the+transcendent%3F-a0201086898
 
[45]RPG (Role-Playing Game) é um jogo de representação de papéis, onde todos os participantes, exceto um – denominado Mestre – escolhem, formam e representam um personagem, dentro de um mundo imaginário (ou não), seguindo algumas regras. Esses jogadores não jogam uns “contra” os outros, e sim, uns “com” os outros. Nesse jogo o importante não é vencer, e nem sequer competir, mas sim, a diversão, ou seja, o aspecto lúdico do jogo”.(http://www.jogodeaprender.com.br/rpg_oq.html).
[46]“Mestre de jogos” é o responsável por dirigir e narrar o jogo de RPG para os que jogam como personagens.
[47] v. Fedeli, Orlando “A religião no Vaticano II” parte II em  http://www.montfort.org.br/a-religiao-do-concilio-vaticano-ii-parte-ii-2/
[48] Idem.
 
Cf:
 

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FRASE ECUMÊNICA DO PAPA FRANCISCO FAZ MUÇULMANO CONVERTIDO ABANDONAR A IGREJA

Magdi Allam, muçulmano convertido, deixa a Igreja Católica por conta do enfraquecimento de sua posição contra o Islam.

Uma grande personalidade muçulmana da Itália, que se converteu ao catolicismo, e foi batizado pelo Papa Bento XVI anunciou na segunda (25 de março)  que irá abandonar a Igreja Católica em protesto por conta da postura enfraquecida da Igreja perante o islamismo.

Egípcio de nascimento, Magdi Cristiano Allam, 61, um proeminente jornalista e um ferrenho crítico do Islam, entrou publicamente na Igreja Católica no dia 22 de março de 2008, durante a Vigília Pascal, recebendo o batismo diretamente do Papa Bento XVI.
Depois de sua conversão, Allam fundou um pequeno partido de direita que perdeu as eleições gerais da Itália em abril do ano passado.

Escrevendo na segunda, no jornal Il Giornale, Allam explicou que ele considera sua conversão ao catolicismo terminada “em sintonia com o fim do pontificado de Bento XVI.”

“A ´papolatria´ que tem inflamado a euforia por Francisco I e tem rapidamente esquecido Bento XVI foi a última palha jogada em todo o quadro de incerteza e dúvida sobre a Igreja”, ele escreveu.

Na sexta, Francisco pregou para “intensificar o diálogo entre as várias religiões”,  particularmente o Islam.

Allam, que tem chamado o islam de “ideologia intrinsicamente violenta”, disse que sua principal razão para abandonar a Igreja foi o ensinamento do “relativismo religioso, em particular a legitimação do islam como uma verdadeira religião”.

“ A Europa terminará sendo subjugada pelo Islam”, ele alertou no Il Giornale, a menos que “encontre a coragem de denunciar a incompatibilidade do Islam com a nossa civilização e os direitos humanos fundamentais”, e “banir o Corão que incita ódio, violência e morte aos não-muçulmanos”. Os europeus também precisam condenar a SHARIA como um crime contra a humandidade” e “parar a difusão das mesquitas”.

Allam disse que permaneceria como um cristão, mas que ele não acreditava mais na Igreja.

A conversão surpresa de Allam foi orquestrada pelo Arcebispo Rino Fisichella, atual presidente da Conselho Pontifical para a Nova Evangelização, que “pessoalmente acompanhou” a aproximação do intelectual muçulmano para a Fé Católica.

Na época, o porta-voz do Vaticano, Rev. Francisco Lombardi, informou que a conversão de Allam foi o resultado de uma “jornada pessoal” e não pretendeia ser uma messagem direta contra os muçulmanos.

O principal intelectual muçulmano envolvido no diálogo interreligioso com o Vaticano, Aref Ali Nayed, criticou a cerimônia pública da conversão como um “modo triunfalista de marcar pontos” e disse que isso levantou “sérias dúvidas” sobre a política da Igreja Católica em relação ao Islam.

Tradução: Antônio Manuel

Cf.

huffingtonpost

“LEFÈBVRE ESTAVA CERTO!” – DIZ AMIGO ÍNTIMO DE PAULO VI


  



” Lefèbvre estava certo!”

Diz amigo íntimo do Papa Paulo VI

No dia 11 de outubro de 1992 – o 30º aniversário da abertura do Segundo Concilio do Vaticano – o jornal italiano “La Stampa” publicou uma entrevista com Jean Guitton, 91 anos, homem francês de letras, amigo de João XXIII, e confidente de Paulo VI desde seu primeiro encontro em 1936 até a morte do segundo em 1978. A entrevista mostra um católico Liberal, como seu amigo Papa Paulo VI, dividido entre a crença no mundo moderno e a crença na Fé Católica. As contradições podem ser percebidas, linha por linha. Que sonho amável, resolvê-las! Mas se a Igreja Católica continuar a seguir semelhantes guias, ela só poderá despedaçar-se. Aqui está a entrevista como publicado em “La Stampa” …

Guitton: No dia que o Conselho abriu eu estava tremendo de emoção. Por toda minha vida eu tinha sonhado com um Concílio que encararia as grandes questões do Século 20: ecumenismo, progresso, direitos das mulheres.. E assim foi, e eu fui o primeiro leigo na história a participar em um Concílio da Igreja Católica. Isso foi a trinta anos atrás.. (emociona-se). “O Concílio foi perfeito. Mas em sua aplicação, quantos erros! A Fé enfraqueceu. Mesmo a verdade perdeu força. A Igreja católica abandonou proclamar-se a Única Igreja Verdadeira. Orou junto com Protestantes, com outras religiões. Nos seminários, Freud, Marx, Lutero tomaram o lugar de Aquino, Ambrósio, Agostinho.(Os destaques são nossos)

Essa é a razão pela qual Lefebvre agiu sozinho, por conta própria?

G: Paulo VI e o Papa Wojtyla deram-me a tarefa de encontrar uma solução, para evitar o cisma. Eu falhei. Falar de Êcone é muito doloroso para mim. PORQUE, QUANDO VOCÊ SE DEBRUÇA SOBRE ISTO, LEFEBVRE ESTAVA CERTO. (Os destaques são nossos)


Em que sentido ele estava certo? 

G: A verdade não pode mudar. Se é branco, não pode tornar-se cinzento, vermelho nem roxo. E se a Igreja possui a verdade, permanece idêntica a si mesma sob sua história. Quando Lefebvre disse que o Concílio não pode mudar declarações solenes da Igreja, em verdade, ele dizia coisas que nós temos que concordar. Mas Lefebvre buscou sustentar-se em um caminho equivocado. Confundiu pertencer à Igreja com pertencer a um partido.(Os destaques são nossos)


Que outras desvantagens há no período depois do Concílio? 

G: Anarquia: o cura não obedecendo o sacerdote da paróquia, o sacerdote não obedecendo o bispo, nem o bispo o cardeal. O catecismo sendo confiado a qualquer um que se apresente. Olhe, a próxima porta para mim aqui em Paris, existem duas paróquias – eles não dizem as mesmas coisas. Pergunte-se, que coerência pode haver em um catecismo confiado a qualquer pessoa?(Os destaques são nossos)


O Novo Catecismo irá resolver as dificuldades? 

G: Este é justamente o problema. Como os católicos podem ter que esperar trinta anos para descobrir o que é correto e errado, fazer ou acreditar? O novo catecismo devia ter chegado três minutos depois do Concílio, não trinta anos mais tarde. 

Existem outras desvantagens? 

G: A crise de vocações. Uma vez o Concílio terminado, pensei que os seminários encheriam outra vez. Em vez disso… E então, viemos a pensar que sinceridade era suficiente para fazer um cristão. Mesmo se você é um ladrão ou um homossexual. Você necessita verdade. Arrependimento. Fé.(Os destaques são nossos)


Há uma perda da Missa Latina? 

G: Sim. Em latim eu expressei as emoções de 60 anos de minha vida como um católico. Mesmo que Paulo VI tenha sofrido com a mudança da liturgia, ele disse para mim: devemos sacrificar nossos sentimentos, fazer o Evangelho compreensível para todos. Tinha razão. Mas o Concílio não aboliu o Latim: ele deixou a liturgia livre. Somente mais tarde a Missa Tridentina foi tratada como uma peça de museu.

Quais foram as vantagens do Concílio? 

G: Diálogo. Por dois mil anos antes do Concílio, tudo que a Igreja católica fez foi condenar. Agora este método foi mudado: em vez de condenação, ela escuta. O diálogo com não-católicos continua hoje mais que nunca: com Anglicanos, com Protestantes; com Ortodoxos, agora que a Rússia Soviética tornou-se de S. Petersburgo. Mesmo relações regulares com o mundo imenso de incrédulos nunca foram tão intensas. 

Qual foi a mais excelente inovação do Concílio? 

G: Liberdade religiosa. Eu me lembro dos cardeais divididos em dois partidos. Os progressistas diziam: a religião deve ser baseada num ato de liberdade. Eu concordei. Soube que Sartre tinha atacado o problema, mas sem resolver ele: porque não há liberdade sem Deus, nem Deus sem liberdade. A linha progressista prevaleceu. 

E os conservadores foram derrotados. Quem eram eles?

G: O principal era Ottaviani. Uma mente clara, excelente, límpida. Ele falava latim lindamente. Lembro-me que nós tínhamos que determinar em que ponto uma família católica torna-se numerosa. Alguém disse, “é numerosa quando há quatro crianças.” “Não, quando há doze”, gritou replicando, “Contrariamente, eu não teria nascido.” Disse-o em latim, é claro.

Que outra personalidade deixou impressões em você? 

G: Wiszinsky. O primaz da Polônia era um homem excepcional. Na direita. 

E sobre Wojtyla? 

G: Ele foi pupilo de Wiszinsky. Eu não sei a que grupo ele pertenceu. Eu digo a você, ninguém sonhou que ele fosse se tornar Papa.

Por que Paulo VI quis que você, um leigo, participasse do Concílio?

G: Houve uma grande afeição entre nós, uma grande amizade. É misterioso como algumas pessoas combinam bem uma com o outro. A primeira vez que eu encontrei com ele foi em um 8 de setembro, ele era bispo… foi como um lampejo de relâmpago. Fez-me prometer que cada 8 de setembro, eu iria e o encontraria. Isso é o que eu fiz durante 27 anos. Quando tornou-se Papa eu disse a ele: “Sua eminência, eu ofereço minhas despedidas. Ele me respondeu, “O quê? Eu não tenho nenhum coração? Eu posso não amar você? Não, eu necessitarei do seu conselho mais que nunca.” 

O que ele disse a você no tempo do Concílio? 

G: A noite depois de minha participação, ele presenteou-me com um relógio, dizendo “Hoje foi um dia histórico. Você foi um dia histórico. Usará este relógio para lembrar-se que este tempo é um sopro comparado com a eternidade.” Eu fiquei exultante… radiante de alegria! 

O que mais ele disse a você? 

G: Que sofria. Seguia o trabalho do Concílio em circuito fechado de televisão. Sentiu no seu coração a divisão entre os Cardeais, soube das manobras táticas que se seguiam. 

Quem manobrava? Os conservadores ou progressistas?

G: Ambos. Havia 2000 bispos. Cada Parlamento possuía homens astutos tentando por meios mais ou menos honestos influenciar os outros. 




O que você lembra do fim do Concílio? 

G: Agora que minha vida está quase terminada eu posso introduzi-lo em um segredo. Paul VI imaginou-se como um moribundo no campo de batalha. A responsabilidade esmagou-o. Um dia ele disse a mim: “Deixa-nos encontrarmo-nos depois da morte.” Foi o homem mais solitário no mundo. Estava sozinho com Deus. Posso ver, o Concílio foi o acontecimento do século. De Gaulle também disse assim para mim. Elogiei-o por salvar a França. Respondeu, “Ah, mas você participou do Concílio.” 

Tivemos 30 anos de dificuldade para a Igreja. Nós hoje ainda podemos nos chamar de cristãos?

G: Estes anos foram o triunfo de violência, a glorificação do sexo, da televisão, do dinheiro. O maior inimigo do Cristianismo não é o ateísmo, que é visível e tangível. O inimigo invisível é a indiferença. 

E sobre consumismo, capitalismo? 

G: Capitalismo é como uma gravata. Pode ser usada tanto para melhorar minha aparência ou como para me estrangular. 

Você disse que o Comunismo não está morto, e levantará outra vez em alguma outra forma. 

G: Eu iria mais longe. O comunismo não é, como tal, contra o Cristianismo. Torna-se assim quando apóia o ateísmo. Os primeiros cristãos tinham suas propriedades em comum. 

O Cristianismo está moribundo? 

G: A Igreja está passando através de uma crise terrível. Mas crise é sua condição essencial. Deus deseja esta condição. A Igreja já estava em crise quando S. João escreveu o Apocalipse. Mas se houvesse de restar um só cristão no mundo, a Igreja permaneceria viva nele. Perceba, nossa era é a da decadência. É como disparar uma flecha. A flecha deve ser puxada para trás antes de poder ser atirada adiante. Veja, hoje estamos sendo pressionados para trás. Mas estamos na véspera de grandes mudanças. O próximo século será a idade da nova evangelização, e a luz irá encher a Igreja mais uma vez. Mas os meus olhos não estarão mais aqui para ver isto.(Os destaques são nossos)

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Padre Barthe: Uma análise sobre a eleição do Papa Francisco



Caríssimos
Salve Maria!
Aqui está uma boa análise que o Revmo. Pe. Barthe, capelão da peregrinação do Summorum Pontificum a Roma, faz sobre a eleição do Papa Francisco.
Boa leitura.

Cf.
A eleição do primeiro Papa de nome Francisco está sendo vista como uma grande mudança. Essa é também sua opinião?
– Fundamentalmente, não. Infelizmente, não. Eu quero dizer que o contexto dessa eleição é o de uma crise, sem nenhum precedente na história da Igreja, da fé, da transmissão da fé, da catequese, crise que não cessa de crescer. Ela está ligada a um desmantelamento da liturgia romana que a reflete e a acentua. Ela se propaga, além disso, por uma secularização (e um apagamento) do clero e dos religiosos, e uma perda espantosa em todo mundo do sentido do pecado, que banaliza, em resumo, a secularização do ponto de vista moral. Falava-se antigamente de crentes não praticantes. Ora, hoje, na França e em um certo número de países do Ocidente, a prática se tornou residual e, além disso, os praticantes que restam estão longe de serem todos crentes. No resto do mundo, principalmente nos países onde o número de padres é grande e mesmo crescente, a alta da heterodoxia e da ausência da formação teológica é mais que angustiante. Essa tempestade que sacode a Igreja no seio da ultra-modernidade e de um mundo agressivamente secularizado reduz consideravelmente o acontecimento da eleição pontifical de 13 de março, aliás importante. Mas  a realidade maciça permanece a mesma: o barco faz água por todos os lados, para citar o Papa precedente.
– Quem é o Papa Francisco?
– Ele nasceu em 1936 na Argentina, de uma família de imigrantes italianos (ele tem 76 anos, ou seja, em alguns meses a mesma idade que tinha João XXIII quando eleito Papa). Ele entrou nos jesuítas, foi provincial de sua ordem na Argentina, de 1973 a 1979. João Paulo II o nomeou bispo auxiliar de Buenos Aires em 1992, depois coadjutor (com direito de sucessão) em 1997. Ele se tornou arcebispo da capital da Argentina em 1998, cardeal em 2001 e verdadeiro chefe da Igreja da Argentina.
Mas, eu imagino que é seu perfil eclesiástico que você me pede. Formalmente, é um puro produto do molde inaciano, pelo menos do molde inaciano para superiores. O novo Papa é um homem de personalidade muito forte, tendo um poderoso sentido de autoridade. Já compararam sua personalidade com Pio XI mas, de minha parte, eu o compararia antes ao Cardeal Benelli, que dominou longo tempo a Cúria de Paulo VI.
Jesuita muito fiel a seus deveres, ele é um asceta, que levanta ao nascer do dia, faz todo dia uma hora de oração. Tendo uma enorme potência de trabalho, uma memória espantosa, uma inteligência sutil, ele tem uma notável capacidade de controle direto daquilo que ele comanda (praticamente nunca teve secretário particular). Dito isso, é mais difícil governar a Igreja universal do que a Igreja da Argentina, sobretudo aos 76 anos, vivendo desde a idade de 21 anos com praticamente um pulmão só, e estando em todo caso de fato cansado de uns anos para cá. Quanto a endireitar uma situação eclesial, que poderia fazê-lo hoje em dia? O Papa Francisco deixa uma diocese, aquela de Buenos Aires, afligida por uma grave crise de vocações e minada pela secularização, à imagem de tantas dioceses em terras que pertenceram antigamente à cristandade.
É um intelectual, um homem culto, e que sabe eminentemente vulgarizar: ele se esforça por falar com uma grande simplicidade; ele se obrigava mesmo, na Argentina, a expressões em gíria. Seus ataques repetidos contra uma religião diluída são muito consistentes. Isso quer dizer também que ele sabe perfeitamente se comunicar, exceto que seu caráter abrupto pode lhe pregar peças. Ele presta a maior atenção às nomeações que faz, como  comprovou nos postos de responsabilidade que ele exerceu como provincial dos jesuítas e como primaz da Argentina, e “fazedor” de bispos desse país. Sua importância moral cresceu ainda após 2005, já que se soube rapidamente que ele se tinha beneficiado, por ocasião do conclave que elegeu Joseph Ratzinger, de todos os votos de “oposição” ao decano do Sagrado Colégio de então. Na Argentina, ele era considerado como quase Papa, aquele que o teria sido se, diante dele, não se tivesse encontrado o Prefeito do antigo Santo Ofício. Deve-se dizer também que salvo pela intensidade da vida espiritual, sua personalidade é muito diferente daquela do Papa precedente.
– É portanto um “progressista”?
– Não! O Cardeal Bergoglio não parecia com outro cardeal jesuíta de muito forte personalidade, o Cardeal Martini, que foi dado como papabile até que ele fosse atingido pelo Mal de Parkinson. Do mesmo modo que seria preciso compreender que o Papa Ratzinger não era um “tradicionalista”, mas um homem de “centro-direita” – perdoem-me essa nomenclatura bastante inadequada mas que tem a vantagem da rapidez – muito atento a todo tipo de reivindicações tradicionais que ele fazia suas em parte, sobretudo do ponto de vista litúrgico, é preciso entender bem que o novo Papa não é um “progressista”.
Por isso é preciso estudar um pouco seu perfil político e social. A Argentina é um país que foi marcado por um fenômeno político muito específico, o peronismo, do qual não sei se se pode fazer entrar pura e simplesmente na categoria dos populismos, tanto o leque de sensibilidades dos partidários de Juan Péron, que ia do fascismo a uma esquerda muito avançada, era grande. Jorge Mario Bergoglio era um peronista engajado de centro direita, um católico peronista, pode-se dizer. Ele foi membro desde o fim dos anos 1960 (quer dizer, mais ou menos na data de sua ordenação) de uma organização peronista chamada OUTG (Organização Única da Transferência Geracional), que não se engajava na luta armada, mas que se consagrava à formação de jovens líderes desse movimento extremamente social, ainda que radicalmente hostil ao marxismo. No fim de 1974, quando era provincial dos jesuítas há um ano, ele confiou o controle da Universidade Jesuíta del Salvador a antigos membros dessa organização, que acabava de ser dissolvida. Critica-se frequentemente a Jorge Mario Bergoglio seu apoio à junta militar que afastou Isabel Peron em 1976. É preciso compreender que ele foi daqueles que quiseram preservar a herança social do peronismo. A reformulação que ele operou em seguida de seu percurso em um livro de entrevistas famoso, El Jesuita, publicado em 2010, é evidentemente uma obra de circunstância, mas ela não é falsa na insistência que ele usa para afirmar que sua linha sempre foi a preocupação dos pobres, a organização em seu favor das estruturas sociais e a evangelização nesse sentido.
– Parece ter sido mal visto pelos governantes argentinos atuais que poderiam estar na origem da retomada das acusações sobre sua colaboração com o regime de Videla.
– De fato, sua atitude muito crítica diante do governo “burguês” dos Kirchner se dirigia ao mesmo tempo sobre a fraqueza da política social e sobre o questionamento do fundamento católico da Argentina (ver, por exemplo, seu livro Ponerse la patria al hombro,   Tomar a pátria sobre os ombros, 2004) com tomadas de posição bem conhecidas contra o aborto e o casamento homossexual. Sua defesa da moral da família e da vida foi muito decidida. Poder-se-ia sonhar com uma revalorização da Humanae Vitae, encíclica muito esquecida hoje, e com uma catequese denunciando a contracepção? Suas declarações sobre a vida na Argentina foram mais nacional-católicas, pode-se dizer, que a dos bispos franceses, mas também mais tímidas quanto à presença nas manifestações. Poder-se-ia até mesmo sustentar que o Cardeal de Buenos Aires se tornou na Argentina uma potencia de inspiração alternativa de centro esquerda.
Assim, em todo esse percurso, pode-se dizer que ele passou do centro direita do peronismo ao centro esquerda do pessoal eclesiástico, onde o situam sua eleição “perdida” de 2005 e de suas afirmações em El Jesuita. Tudo isso explica sua atitude mais que reservada em relação à Teologia da Libertação, e por isso diante da tendência dos jesuítas que, sob o generalato do Padre Arrupe (1965-1985), apoiou mais ou menos essa teologia. Do mesmo modo que essa aceitava o marxismo, excetuado o ateísmo, Jorge Mario Bergoglio só aceitava da Teologia da Libertação que a “opção preferencial pelos pobres”. Jorge Mario Bergoglio participou na luta de João Paulo II e pelo Cardeal Ratzinger contra essa teologia enquanto marxistizante (com duas instruções da Congregação para a Doutrina da Fé sobre esse tema, de 1984 e 1986). Ele se tornou bispo por ocasião da reviravolta da tendência do episcopado da América Latina, graças a uma política de nomeações episcopais que foi selada pela Conferência geral do Episcopado latino americano em Santo Domingo, em 1992. Assim Jorge Mario Bergoglio se aproximou de prelados mais conservadores que ele, que trabalharam contra essa teologia na Argentina, Angelo Sodano, núncio no Chile e Leonardo Sandri, núncio na Venezuela e depois no México. Estes se tornaram em seguida personagens chave da Cúria wojtyliana e muito recentemente, atores decisivos de sua elevação ao trono de Pedro.
Para responder de outra maneira a sua questão anterior, poder-se-ia dizer que a eleição de Jorge Mario Bergoglio ao Sumo Pontificado é semelhante ao que seria a eleição de Andre Vingt-Trois, mas com afinidades mais “liberais” que as do Cardeal de Paris, como a proximidade com o Cardeal Hummes, que foi arcebispo de São Paulo e Prefeito da Congregação para o Clero, ou com o Cardeal Kasper.
– Poder-se-ia dizer então que ele é “conciliar”?
– Seria ainda necessário especificar, pois o leque dos conciliares é aliás ainda maior do que o dos peronistas.
Conciliar e talvez mesmo ultra conciliar, o novo Papa o é, em matéria de ecumenismo e de relações com as religiões não cristãs, ou pelo menos com o judaísmo. Ele se interessa muito à colegialidade em todos os níveis. Para o resto, as novidades não o interessam muito. Ele não é, por exemplo, nem um pouco tentado pelas exegeses bíblicas neobultmannianas ou pelas eclesiologias heterodoxas de certos confrades jesuítas. Ele é aliás preservado disso pelo seu modo de funcionamento teológico muito simples. Sua teologia é espiritual e prática. É talvez aqui que vai aparecer uma dificuldade: é uma banalidade dizer que o último concílio produziu um enorme terremoto teológico, alguma coisa de muito indefinível que é preciso defender ativamente, ou ao menos assumir, ou então “interpretar” ou ainda ultrapassar. As duas últimas hipóteses parecem excluídas para ele, as duas primeiras implicam, em seu nível de responsabilidade, em poder “manter a rota”.
Evidentemente, o novo Papa responderá a um desejo de reativação da colegialidade episcopal reclamada por uma boa parte do episcopado. Mas esse é um dos paradoxos desta eleição, como observava Jean-Pierre Denis, de La Vie: os cardeais quiseram ao mesmo tempo uma reforma da Cúria – o que quer dizer concretamente uma retomada de um governo forte – e mais descentralização. É um pouco contraditório. Na minha opinião, a anarquia intrínseca à situação posconciliar se encarregará de contrabalançar o que a autoridade romana, sendo “conciliar”, queira fazer de muito forte.
– E a liturgia? E o Motu Proprio? e a Fraternidade São Pio X?
– É preciso ver. É mais que evidente que o novo Papa tem uma sensibilidade litúrgica muito diferente daquela do Papa precedente. Antes da abertura do Conclave, nos últimos dias, eu segui com atenção um jornal italiano chamado Il Fatto Quottidiano, que in extremis, torpedeava o papabile delfim de Bento XVI, Angelo Scola, Arcebispo de Milão. Aliás, esse jornal publicou um artigo sobre o tema: “Os cardeais não querem de modo algum um papa lefebvrista”. É preciso entender esse adjetivo à italiana: favorável a um “retorno” litúrgico. Em outras palavras, a “reforma da reforma” vinda do alto, aquela do Papa vai estacionar. Resta a “reforma da reforma” vinda da base, dinamizada pelas celebrações de missas tradicionais, que podem ser entravadas, mas que é impossível de sufocar, como se podia fazer nos “anos de chumbo”.
Além disso, o novo Papa é um político inteligente, pragmático em suas alianças, complexo, secreto, e que gosta de surpreender. A Missa de Entronização prova isso. Como de resto ele não tem, no momento, oposição séria pela direita (essa é uma das lições desse surpreendente conclave: o ratzinguerismo puro, que já tinha mostrado uma grande fraqueza, como que evaporou), ele pode se permitir gestos em direção do mundo tradicional em sentido largo: aqule dos padres identitários, as comunidades conservadoras, um mundo que pesa na Itália, na França, nos Estados Unidos e em outros lugares. Será que ele pode sentir o descompasso entre os altos responsáveis eclesiásticos e a expectativa daquilo que se chamou o “novo catolicismo”?
É notório que o arcebispo de Buenos Aires aplicou o Summorum Pontificum na Argentina como o “aplicaram” a maioria dos bispos franceses… Bastaria aliás deixar as coisas como estão para que o caráter teoricamente obrigatório do Motu Proprio submerja num profundo sono. Mas há os jovens padres, as vocações de espírito tradicional, as comunidades Ecclesia Dei, a expectativa de toda uma ala de fiéis de paróquia, em suma, um conjunto de ingredientes com os quais o Papa Francisco, que os conhece mal, vai provavelmente negociar, sem dúvida por meio de pessoas interpostas.
A FSSPX? Sua passividade para negociar e se instalar “dentro” desde junho último é conveniente para ela, talvez, mas prejudica enormemente a Igreja hoje. Como quer que seja, o tempo das intermináveis negociações certamente acabou. Você pode me dizer que, se voltam as excomunhões, isso vai mudar pouca coisa. Que a FSSPX seja “fora” enquanto os padres revoltados austríacos estejam “dentro”, tira todo efeito às sanções. Tanto mais que, como a “reforma da reforma” de que falávamos, se posso dizer, a integração da FSSPX em uma sociedade eclesial cada vez mais fraca pode também se fazer na base.
Minhas previsões são prudentes, como você vê.
– Talvez, por outro lado, o senhor tenha “luzes” sobre a maneira com que se produziu essa eleição, que pegou todo mundo de surpresa?
– Ninguém tinha previsto isso entre os analistas e comentaristas. Então, o que aconteceu? Se acreditarmos nos jornais mais bem informados, e se tomarmos as confidências indiretas dos cardeais, parece que, desde o primeiro escrutínio, os partidários do Cardeal Scola, o candidato com o melhor currículo entre os papabili da continuidade ratzingueriana, constataram que ele estava bem abaixo dos cerca de quarenta votos de partida que eles esperavam. Terão se reportado ao Cardeal Erdò, de Budapeste? Logo saberemos. Mas, por outro lado, viu-se que os promotores curiais de uma candidatura “de mudança”, entre outros os Cardeais Sodano, Sandri, Re, a “velha Cúria”, como se diz, aliados ao Cardeal Bertone, tinham trocado a candidatura do Cardeal Scherer, de São Paulo por aquela bem mais eficiente do Cardeal Bergoglio e que se uniram a eles, entre outros, os cardeais americanos. O segredo tinha sido cuidadosamente guardado. O golpe teatral tem algumas semelhanças com aquele de outubro de 1962, nos primeiros dias do Concílio Vaticano II. Do mesmo modo que, na época,  a Cúria pacelliana desmoronou como por um sopro, também sumiram, oito anos de “restauração” ratzingueriana. Em todo caso, no Sacro Colégio. Note bem que certo número de promotores da eleição do novo Papa sabem muito bem que ele não lhes servirá de instrumento. Eles fazem lembrar do Príncipe Salina, do Guepardo  , que salva o que aquilo que pode dos ganhos, fazendo o papel do fogo: “Para que tudo fique como antes, é preciso que tudo mude”.
Tudo muda? Verdadeiro ou falso, isso foi sentido, vivido e explicado assim em campo, principalmente pela mídia, que só destacam das coisas da Igreja aquilo que lhes convém. Para continuar a metáfora com o Vaticano II, poder-se-ia dizer que houve o Concílio e o “espírito do Concílio”, que amplificou o movimento inovador, há o risco de vermos o Papa Francisco e o “espírito do Papa Francisco”, que vai tentar amplificar a evolução.
– Então o senhor é otimista ou pessimista?
– Eu não tenho que ser nem um nem outro, como se eu me colocasse acima disso. Bem entendido, eu não escondo que eu lamento o fato de que a época precedente parece se fechar como um parêntese. Mas eu não acredito de nenhum modo que estamos voltando aos anos mais “conciliares” do ponto de vista litúrgico, do espírito do clero, estc. E depois, uma vez mais, a “purificação”, aquela das contas do IOR, o bando vaticano, ou aquela das rocambolescas histórias de “vazamentos” não é o verdadeiro problema. O verdadeiro problema, colossal, é o da situação do catolicismo, cinquenta anos depois do Vaticano II: ela é catastrófica. E portanto, mesmo se todos os bispos do mundo abandonassem carro e motorista e tomassem o metro ou a bicicleta, isso não mudaria nada disso.

Mas no fundo, a vítima do que acaba de acontecer poderia bem ser a “hermenêutica da continuidade”. Ora, pode-se observar que a tentativa à qual presidia Joseph Ratzinger desde o “Colóquio sobre a Fé” de 1985, embora permitindo profundos questionamentos muito promissores, tinha também o inconveniente do bloqueio sobre uma linha conservadora. Bom, agora, nós nos encontramos diante do Concílio, em pessoa. Nós nos encontramos diante da reforma litúrgica, com ou sem “abusos”, pouco importa, sem véu, diante da reforma litúrgica pura e simples. E a verdadeira discussão pode continuar sobre os pontos que apresentam dificuldades, educadamente, é verdade, mas diretamente. Você vê, ainda uma vez, vão me acusar de ser muito otimista…

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Guerardini: INFABILIDADE NÃO É “PAPOLATRIA”

Teníamos esta entrada en carpeta desde antes de la elección de Francisco. La pensamos como complementaria de Newman contra la «papolatría». El p. Iraburu parece escandalizarse por el uso de «papolatría» pues sería un término empleado por los protestantes del siglo XVI para denostar a los católicos fieles. Ciertamente es falso que los católicos adoremos al Papa como a Dios. No existe una «papolatría» en sentido propio y formal. Pero sí existe una «papolatría» que es un error por exceso respecto del Romano Pontífice y su función en la Iglesia, con diversas manifestaciones, sean teóricas o prácticas. 

En esta entrada, Gherardini alude a una «papolatría» entendida como «infalibilismo». La infalibilidad es un carisma de la Iglesia y del sucesor de Pedro, mientras que el infalibilismo es una desvirtuación y una extensión del abusiva carisma petrino más allá de los límites de la Revelación. Es también una actitud no exenta de servilismo, típica en cierto modo de la mentalidad cortesana que ha sido efecto y causa de exageraciones que en último término van contra los dogmas relativos al Primado, la Iglesia y su Jerarquía.Haciendo un poco de historia, debemos decir que la expresión «papolatría» se empleó durante el Sacrosanto Concilio Ecuménico Vaticano II (recordemos que a Iraburu le gusta poner énfasis en «sacrosanto»). La usó en el Aula Conciliar el Obispo Emil-Josef De Smedt (Brujas, Bélgica) quien fuera parte del Secretariado para la Unidad Cristiana y miembro de una Comisión que redactó esquemas que luego se convertirían en documento oficiales del último Concilio. Y en el mismo sentido, también la utilizó durante el Concilio Máximo IV Saigh, Patriarca de Antioquía y todo el Oriente y cardenal de la Iglesia Católica.El término «papolatría», bien entendido, ha adquirido carta de ciudadanía en la Iglesia. Y su uso es legítimo siempre que se precise adecuadamente su definición. A impulsos del entusiasmo papólatra ya estamos viendo otro signo de «papolatría»: el atribuir a hechos y dichos del otrora cardenal Jorge M. Bergoglio un valor equivalente al de actos pontificios. Es un error de funestas consecuencias. 
A este respecto, parece muy apropiado considerar cuidadosamente las palabras del dogma: «El Romano Pontífice, cuando habla “ex cathedra”, esto es, cuando en el ejercicio de su oficio de pastor y maestro de todos los cristianos, en virtud de su suprema autoridad apostólica, define una doctrina de fe o costumbres como que debe ser sostenida por toda la Iglesia, posee, por la asistencia divina que le fue prometida en el bienaventurado Pedro, aquella infalibilidad de la que el divino Redentor quiso que gozara su Iglesia en la definición de la doctrina de fe y costumbres.

 Por esto, dichas definiciones del Romano Pontífice son en sí mismas, y no por el consentimiento de la Iglesia, irreformables.»Palabras sopesadas con extremo rigor. No sólo no divinizan a un ser humano, sino que, en el acto mismo de reconocerle un carisma que ningún otro hombre posee, ponen límites claros y condiciones estrictas en el ejercicio del mismo. El Papa, en efecto, «no por el hecho de ser papa» (simpliciter papatus ex auctoritate), es absolutamente infalible.»Tal vez haya llegado el momento de decir con sinceridad y firmeza lo que reiteradamente se declaró en el pasado, reciente y lejano, acerca de la necesidad de liberar al papado de esa especie de «papolatría», que no contribuye a honrar al Papa y a la Iglesia. No todas las declaraciones papales son infalibles, no todas pertenecen al mismo nivel dogmático. 

La mayor parte de los discursos y documentos papales, aun cuando tocan el campo doctrinal, contienen enseñanzas comunes, orientaciones pastorales, exhortaciones y consejos, que en la forma y en el contenido, están muy lejos de la definición dogmática. Esta no existe sino cuando se presentan las condiciones establecidas por el Vaticano I.


— Es necesario que el Papa hable «ex cathedra»: la expresión toma su significado de la función ejemplar y moderadora que, desde el principio, hizo del Obispo de Roma el maestro de la Iglesia universal y de la misma Roma el «locus magisterii». En uso desde el siglo II como símbolo de la función magisterial del obispo, la cátedra devino, luego, en el símbolo de la función magisterial del Papa.Hablar «ex cathedra» significa, por tanto, hablar con la autoridad y la responsabilidad de la persona que goza de la jurisdicción suprema, ordinaria, inmediata y plena sobre toda la Iglesia, y cada uno de sus fieles, pastores incluidos, en materia de fe y costumbres, pero no sin reflejos e incluso efectos disciplinarios.


— «Omnium Christianorum pastoris et doctoris munere fungens»: la frase hace explícito el contenido de «ex cathedra». Fuentes bíblicas neo-testamentarias y documentos de la Tradición confluyen en la definición del Vaticano I para afirmar que la infalibilidad del magisterio papal sólo surge cuando el Papa enseña la Revelación divina y hace obligatorias sus enseñanzas para todos.


— «Pro suprema sua Apostolica auctoritate »: es la razón formal de su magisterio infalible y universal. Tal razón es debida a la sucesión apostólica del Papa a Pedro, que entonces fue el primero, pero no el único, obispo de Roma, y Papa, en cuanto obispo de Roma. A todo sucesor suyo en la «cátedra romana» compete  todo cuanto Cristo había dado a Pedro, «ratione office, non personae». Es por ello menos correcto decir «infalibilidad personal del Papa» en vez de «infalibilidad papal». Empero, si se quiere insistir, como hace alguno, en la «infalibilidad personal», se debe distinguir siempre, en el Papa, la «persona pública» de la «privada», recordando que la «persona pública» viene determinada por su oficio.

— «Doctrinam de fide vel moribus»: debe tratarse de una verdad que se ha de creer y cualificada de la existencia cristiana, directamente contenidas o no, en la Revelación divina. Un objeto diverso de la enseñanza papal no puede pretender estar cubierto por el carisma de la infalibilidad, el cual se extiende tanto como la Revelación misma.— «Per assistentiam, divinam»: no cualquier intervención del Papa, no una simple advertencia, no una enseñanza cualquiera, están asegurados por la asistencia del «Espíritu de la verdad» (Jn.14, 17; 15, 26), sino solamente aquel que, en armonía con las verdades reveladas, manifiesta que el cristiano debe, en cuanto tal, creer y poner en práctica.Sólo con el pleno y absoluto respeto de las mencionadas condiciones, el Papa recibe la garantía de la infalibilidad; puede, por tanto, recurrirse a ella cuando se intenta obligar al cristiano en el ámbito de la fe y de la moral. Y también cabe agregar, de toda intervención papal y de las palabras que la expresan, debe resultar, junto al respeto de las condiciones indicadas, la voluntad de definir una verdad como directa o indirectamente revelada, o bien de definir una cuestión «de fide vel moribus», con la que toda la Iglesia deberá luego uniformar su propia enseñanza. 

Cf:

Dois cardeais eleitores violaram o segredo do conclave?

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Como eu tinha escrito aqui no dia 16 de março, as “confidências” – feitas diante de cerca de 5000 jornalistas… – do nosso Papa Francisco sobre um episódio do conclave, mesmo que elas não traiam – nem moralmente nem juridicamente – o segredo da assembleia e o juramento, arriscavam “inspirar outros” cardeais eleitores a se arriscarem em suas [próprias] confidências… E foi o que aconteceu!
Num registro relativamente menor, o cardeal Roger Mahony, Arcebispo emérito (mas pouco meritório) de Lós Angeles (Califórnia), escreveu sobre seu blog, na data de 17 de março:
“Quando nós entramos, enfim, na Capela Sistina, em 12 de março, eu hesitava ainda entre dois ou três candidatos. Entretanto, quando a primeira cédula nos foi distribuída e quando veio o momento de nele inscrever-se um nome, alguma coisa poderosa [something powerful] – e estranha – aconteceu. Eu peguei minha caneta e comecei a escrever. Entretanto, minha mão foi conduzida por não sei que força espiritual superior [by some greater spiritual force]. O nome sobre a cédula simplesmente aconteceu. Eu ainda não havia reduzido minha escolha a um só nome: mas isso foi dado para mim. Eu o escrevia, depois eu me pus a tremer profundamente. Foi então que eu compreendi que o Espírito Santo estava [presente] plenamente na obra da Igreja de Jesus Cristo, e que meu papel não era o de “escolher” o novo sucessor de Pedro, mas “de escrever” seu nomeum nome que me havia sido dado.”
MXR03-POPE-RESIGNATION+Eu não teria a temeridade de glosar sobre este “estranho” fenômeno de escritura automática. Eu deixo isso a alguém mais sábio que eu. Eu observo, entretanto, que o cardeal, sem o citar explicitamente, votou em primeiro escrutínio para o cardeal Bergoglio. Isso seria, juridicamente falando, uma traição ao juramento? Eu de nada sei. O que eu acho é que o Cardeal Mahony tem sim um “problema”.
De outro lado, e num registro objetivamente maior, o Cardeal Walter Kasper, eleitor em alguns dias…, ele violou o segredo do conclave e traiu o juramento. Veja o que ele declara numa entrevista a dada ao blog Catholic Conclave e publicada em 18 de março:
“O Cardeal Bergoglio foi desde o início meu candidato e desde o início do conclave eu votei nele. Ele representa um novo começo para a Igreja (sic!), para uma Igreja humilde e fraterna que está aqui para as pessoas, que se volta à sua fonte: o Evangelho.”
A Igreja acaba de passar das trevas para a luz e o Cardeal Kasper é um dos que acenderam essa chama… Piedoso. Dessa vez, a declaração viola o juramento. Mas ela recai sob a pena canônica de excomunhão latae sentenciae? Eu o ignoro. Deixo aos sábios o cuidado de o dizer, mas o Cardeal Kasper e seu colega o Cardeal Mahony são responsáveis perante Deus dos atos que eles acabam de praticar por suas declarações. Rezemos para que o Todo Poderoso tenha misericórdia deles.
Tradução: Vitor Finotti
Cf.