O MODERNISMO DE OLAVO DE CARVALHO

 
 
 
 
 
 
Fernando Schlithler‏
 
“E aconteceu que, tendo Jesus acabado este discurso, estavam as multidões admiradas da sua doutrina, porque os ensinava, como quem tinha autoridade, e não como os seus escribas e os fariseus”. (Mat 7, 28-29)[1]
 
“Rogo-vos, irmãos, que não percais de vista aqueles que causam dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes, e apartai-vos deles. Porque estes tais não servem a Cristo Senhor Nosso, mas ao seu ventre; e com palavras doces e com adulações, enganam os corações dos simples. Porquanto a vossa obediência em toda a parte se tornou notória. Alegro-me, pois, em vós. Mas quero que sejais sábios no bem, e simples no mal. E o Deus da paz esmague logo a Satanás debaixo de vossos pés. A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco.”
(Rom 16, 17-20)[2]
 
“Este testemunho é verdadeiro. Portanto, repreende-os asperamente, para que sejam sãos na fé, não dêem ouvidos a fábulas judaicas nem a mandamentos de homens que se afastam da verdade.
(Tit 1, 13-14)[3]
 
“E, na verdade, esta providência do Supremo Pastor foi em todo o tempo necessária à Igreja Católica; porquanto, devido ao inimigo do gênero humano nunca faltaram homens de perverso dizer (At 20,30), vaníloquos e sedutores (Tit 1,10), que caídos eles em erro arrastam os mais ao erro (2 Tim 3,13).
(Papa São Pio X, Encíclica Pascendi Dominici Gregis)
 
 
  1. 1.      Introdução.

FRASE ECUMÊNICA DO PAPA FRANCISCO FAZ MUÇULMANO CONVERTIDO ABANDONAR A IGREJA

Magdi Allam, muçulmano convertido, deixa a Igreja Católica por conta do enfraquecimento de sua posição contra o Islam.

Uma grande personalidade muçulmana da Itália, que se converteu ao catolicismo, e foi batizado pelo Papa Bento XVI anunciou na segunda (25 de março)  que irá abandonar a Igreja Católica em protesto por conta da postura enfraquecida da Igreja perante o islamismo.

“LEFÈBVRE ESTAVA CERTO!” – DIZ AMIGO ÍNTIMO DE PAULO VI


  



” Lefèbvre estava certo!”

Diz amigo íntimo do Papa Paulo VI

No dia 11 de outubro de 1992 – o 30º aniversário da abertura do Segundo Concilio do Vaticano – o jornal italiano “La Stampa” publicou uma entrevista com Jean Guitton, 91 anos, homem francês de letras, amigo de João XXIII, e confidente de Paulo VI desde seu primeiro encontro em 1936 até a morte do segundo em 1978. A entrevista mostra um católico Liberal, como seu amigo Papa Paulo VI, dividido entre a crença no mundo moderno e a crença na Fé Católica. As contradições podem ser percebidas, linha por linha. Que sonho amável, resolvê-las! Mas se a Igreja Católica continuar a seguir semelhantes guias, ela só poderá despedaçar-se. Aqui está a entrevista como publicado em “La Stampa” …

Guitton: No dia que o Conselho abriu eu estava tremendo de emoção. Por toda minha vida eu tinha sonhado com um Concílio que encararia as grandes questões do Século 20: ecumenismo, progresso, direitos das mulheres.. E assim foi, e eu fui o primeiro leigo na história a participar em um Concílio da Igreja Católica. Isso foi a trinta anos atrás.. (emociona-se). “O Concílio foi perfeito. Mas em sua aplicação, quantos erros! A Fé enfraqueceu. Mesmo a verdade perdeu força. A Igreja católica abandonou proclamar-se a Única Igreja Verdadeira. Orou junto com Protestantes, com outras religiões. Nos seminários, Freud, Marx, Lutero tomaram o lugar de Aquino, Ambrósio, Agostinho.(Os destaques são nossos)

Essa é a razão pela qual Lefebvre agiu sozinho, por conta própria?

G: Paulo VI e o Papa Wojtyla deram-me a tarefa de encontrar uma solução, para evitar o cisma. Eu falhei. Falar de Êcone é muito doloroso para mim. PORQUE, QUANDO VOCÊ SE DEBRUÇA SOBRE ISTO, LEFEBVRE ESTAVA CERTO. (Os destaques são nossos)


Em que sentido ele estava certo? 

G: A verdade não pode mudar. Se é branco, não pode tornar-se cinzento, vermelho nem roxo. E se a Igreja possui a verdade, permanece idêntica a si mesma sob sua história. Quando Lefebvre disse que o Concílio não pode mudar declarações solenes da Igreja, em verdade, ele dizia coisas que nós temos que concordar. Mas Lefebvre buscou sustentar-se em um caminho equivocado. Confundiu pertencer à Igreja com pertencer a um partido.(Os destaques são nossos)


Que outras desvantagens há no período depois do Concílio? 

G: Anarquia: o cura não obedecendo o sacerdote da paróquia, o sacerdote não obedecendo o bispo, nem o bispo o cardeal. O catecismo sendo confiado a qualquer um que se apresente. Olhe, a próxima porta para mim aqui em Paris, existem duas paróquias – eles não dizem as mesmas coisas. Pergunte-se, que coerência pode haver em um catecismo confiado a qualquer pessoa?(Os destaques são nossos)


O Novo Catecismo irá resolver as dificuldades? 

G: Este é justamente o problema. Como os católicos podem ter que esperar trinta anos para descobrir o que é correto e errado, fazer ou acreditar? O novo catecismo devia ter chegado três minutos depois do Concílio, não trinta anos mais tarde. 

Existem outras desvantagens? 

G: A crise de vocações. Uma vez o Concílio terminado, pensei que os seminários encheriam outra vez. Em vez disso… E então, viemos a pensar que sinceridade era suficiente para fazer um cristão. Mesmo se você é um ladrão ou um homossexual. Você necessita verdade. Arrependimento. Fé.(Os destaques são nossos)


Há uma perda da Missa Latina? 

G: Sim. Em latim eu expressei as emoções de 60 anos de minha vida como um católico. Mesmo que Paulo VI tenha sofrido com a mudança da liturgia, ele disse para mim: devemos sacrificar nossos sentimentos, fazer o Evangelho compreensível para todos. Tinha razão. Mas o Concílio não aboliu o Latim: ele deixou a liturgia livre. Somente mais tarde a Missa Tridentina foi tratada como uma peça de museu.

Quais foram as vantagens do Concílio? 

G: Diálogo. Por dois mil anos antes do Concílio, tudo que a Igreja católica fez foi condenar. Agora este método foi mudado: em vez de condenação, ela escuta. O diálogo com não-católicos continua hoje mais que nunca: com Anglicanos, com Protestantes; com Ortodoxos, agora que a Rússia Soviética tornou-se de S. Petersburgo. Mesmo relações regulares com o mundo imenso de incrédulos nunca foram tão intensas. 

Qual foi a mais excelente inovação do Concílio? 

G: Liberdade religiosa. Eu me lembro dos cardeais divididos em dois partidos. Os progressistas diziam: a religião deve ser baseada num ato de liberdade. Eu concordei. Soube que Sartre tinha atacado o problema, mas sem resolver ele: porque não há liberdade sem Deus, nem Deus sem liberdade. A linha progressista prevaleceu. 

E os conservadores foram derrotados. Quem eram eles?

G: O principal era Ottaviani. Uma mente clara, excelente, límpida. Ele falava latim lindamente. Lembro-me que nós tínhamos que determinar em que ponto uma família católica torna-se numerosa. Alguém disse, “é numerosa quando há quatro crianças.” “Não, quando há doze”, gritou replicando, “Contrariamente, eu não teria nascido.” Disse-o em latim, é claro.

Que outra personalidade deixou impressões em você? 

G: Wiszinsky. O primaz da Polônia era um homem excepcional. Na direita. 

E sobre Wojtyla? 

G: Ele foi pupilo de Wiszinsky. Eu não sei a que grupo ele pertenceu. Eu digo a você, ninguém sonhou que ele fosse se tornar Papa.

Por que Paulo VI quis que você, um leigo, participasse do Concílio?

G: Houve uma grande afeição entre nós, uma grande amizade. É misterioso como algumas pessoas combinam bem uma com o outro. A primeira vez que eu encontrei com ele foi em um 8 de setembro, ele era bispo… foi como um lampejo de relâmpago. Fez-me prometer que cada 8 de setembro, eu iria e o encontraria. Isso é o que eu fiz durante 27 anos. Quando tornou-se Papa eu disse a ele: “Sua eminência, eu ofereço minhas despedidas. Ele me respondeu, “O quê? Eu não tenho nenhum coração? Eu posso não amar você? Não, eu necessitarei do seu conselho mais que nunca.” 

O que ele disse a você no tempo do Concílio? 

G: A noite depois de minha participação, ele presenteou-me com um relógio, dizendo “Hoje foi um dia histórico. Você foi um dia histórico. Usará este relógio para lembrar-se que este tempo é um sopro comparado com a eternidade.” Eu fiquei exultante… radiante de alegria! 

O que mais ele disse a você? 

G: Que sofria. Seguia o trabalho do Concílio em circuito fechado de televisão. Sentiu no seu coração a divisão entre os Cardeais, soube das manobras táticas que se seguiam. 

Quem manobrava? Os conservadores ou progressistas?

G: Ambos. Havia 2000 bispos. Cada Parlamento possuía homens astutos tentando por meios mais ou menos honestos influenciar os outros. 




O que você lembra do fim do Concílio? 

G: Agora que minha vida está quase terminada eu posso introduzi-lo em um segredo. Paul VI imaginou-se como um moribundo no campo de batalha. A responsabilidade esmagou-o. Um dia ele disse a mim: “Deixa-nos encontrarmo-nos depois da morte.” Foi o homem mais solitário no mundo. Estava sozinho com Deus. Posso ver, o Concílio foi o acontecimento do século. De Gaulle também disse assim para mim. Elogiei-o por salvar a França. Respondeu, “Ah, mas você participou do Concílio.” 

Tivemos 30 anos de dificuldade para a Igreja. Nós hoje ainda podemos nos chamar de cristãos?

G: Estes anos foram o triunfo de violência, a glorificação do sexo, da televisão, do dinheiro. O maior inimigo do Cristianismo não é o ateísmo, que é visível e tangível. O inimigo invisível é a indiferença. 

E sobre consumismo, capitalismo? 

G: Capitalismo é como uma gravata. Pode ser usada tanto para melhorar minha aparência ou como para me estrangular. 

Você disse que o Comunismo não está morto, e levantará outra vez em alguma outra forma. 

G: Eu iria mais longe. O comunismo não é, como tal, contra o Cristianismo. Torna-se assim quando apóia o ateísmo. Os primeiros cristãos tinham suas propriedades em comum. 

O Cristianismo está moribundo? 

G: A Igreja está passando através de uma crise terrível. Mas crise é sua condição essencial. Deus deseja esta condição. A Igreja já estava em crise quando S. João escreveu o Apocalipse. Mas se houvesse de restar um só cristão no mundo, a Igreja permaneceria viva nele. Perceba, nossa era é a da decadência. É como disparar uma flecha. A flecha deve ser puxada para trás antes de poder ser atirada adiante. Veja, hoje estamos sendo pressionados para trás. Mas estamos na véspera de grandes mudanças. O próximo século será a idade da nova evangelização, e a luz irá encher a Igreja mais uma vez. Mas os meus olhos não estarão mais aqui para ver isto.(Os destaques são nossos)

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Padre Barthe: Uma análise sobre a eleição do Papa Francisco



Caríssimos
Salve Maria!
Aqui está uma boa análise que o Revmo. Pe. Barthe, capelão da peregrinação do Summorum Pontificum a Roma, faz sobre a eleição do Papa Francisco.
Boa leitura.

Cf.
A eleição do primeiro Papa de nome Francisco está sendo vista como uma grande mudança. Essa é também sua opinião?
– Fundamentalmente, não. Infelizmente, não. Eu quero dizer que o contexto dessa eleição é o de uma crise, sem nenhum precedente na história da Igreja, da fé, da transmissão da fé, da catequese, crise que não cessa de crescer. Ela está ligada a um desmantelamento da liturgia romana que a reflete e a acentua. Ela se propaga, além disso, por uma secularização (e um apagamento) do clero e dos religiosos, e uma perda espantosa em todo mundo do sentido do pecado, que banaliza, em resumo, a secularização do ponto de vista moral. Falava-se antigamente de crentes não praticantes. Ora, hoje, na França e em um certo número de países do Ocidente, a prática se tornou residual e, além disso, os praticantes que restam estão longe de serem todos crentes. No resto do mundo, principalmente nos países onde o número de padres é grande e mesmo crescente, a alta da heterodoxia e da ausência da formação teológica é mais que angustiante. Essa tempestade que sacode a Igreja no seio da ultra-modernidade e de um mundo agressivamente secularizado reduz consideravelmente o acontecimento da eleição pontifical de 13 de março, aliás importante. Mas  a realidade maciça permanece a mesma: o barco faz água por todos os lados, para citar o Papa precedente.
– Quem é o Papa Francisco?
– Ele nasceu em 1936 na Argentina, de uma família de imigrantes italianos (ele tem 76 anos, ou seja, em alguns meses a mesma idade que tinha João XXIII quando eleito Papa). Ele entrou nos jesuítas, foi provincial de sua ordem na Argentina, de 1973 a 1979. João Paulo II o nomeou bispo auxiliar de Buenos Aires em 1992, depois coadjutor (com direito de sucessão) em 1997. Ele se tornou arcebispo da capital da Argentina em 1998, cardeal em 2001 e verdadeiro chefe da Igreja da Argentina.
Mas, eu imagino que é seu perfil eclesiástico que você me pede. Formalmente, é um puro produto do molde inaciano, pelo menos do molde inaciano para superiores. O novo Papa é um homem de personalidade muito forte, tendo um poderoso sentido de autoridade. Já compararam sua personalidade com Pio XI mas, de minha parte, eu o compararia antes ao Cardeal Benelli, que dominou longo tempo a Cúria de Paulo VI.
Jesuita muito fiel a seus deveres, ele é um asceta, que levanta ao nascer do dia, faz todo dia uma hora de oração. Tendo uma enorme potência de trabalho, uma memória espantosa, uma inteligência sutil, ele tem uma notável capacidade de controle direto daquilo que ele comanda (praticamente nunca teve secretário particular). Dito isso, é mais difícil governar a Igreja universal do que a Igreja da Argentina, sobretudo aos 76 anos, vivendo desde a idade de 21 anos com praticamente um pulmão só, e estando em todo caso de fato cansado de uns anos para cá. Quanto a endireitar uma situação eclesial, que poderia fazê-lo hoje em dia? O Papa Francisco deixa uma diocese, aquela de Buenos Aires, afligida por uma grave crise de vocações e minada pela secularização, à imagem de tantas dioceses em terras que pertenceram antigamente à cristandade.
É um intelectual, um homem culto, e que sabe eminentemente vulgarizar: ele se esforça por falar com uma grande simplicidade; ele se obrigava mesmo, na Argentina, a expressões em gíria. Seus ataques repetidos contra uma religião diluída são muito consistentes. Isso quer dizer também que ele sabe perfeitamente se comunicar, exceto que seu caráter abrupto pode lhe pregar peças. Ele presta a maior atenção às nomeações que faz, como  comprovou nos postos de responsabilidade que ele exerceu como provincial dos jesuítas e como primaz da Argentina, e “fazedor” de bispos desse país. Sua importância moral cresceu ainda após 2005, já que se soube rapidamente que ele se tinha beneficiado, por ocasião do conclave que elegeu Joseph Ratzinger, de todos os votos de “oposição” ao decano do Sagrado Colégio de então. Na Argentina, ele era considerado como quase Papa, aquele que o teria sido se, diante dele, não se tivesse encontrado o Prefeito do antigo Santo Ofício. Deve-se dizer também que salvo pela intensidade da vida espiritual, sua personalidade é muito diferente daquela do Papa precedente.
– É portanto um “progressista”?
– Não! O Cardeal Bergoglio não parecia com outro cardeal jesuíta de muito forte personalidade, o Cardeal Martini, que foi dado como papabile até que ele fosse atingido pelo Mal de Parkinson. Do mesmo modo que seria preciso compreender que o Papa Ratzinger não era um “tradicionalista”, mas um homem de “centro-direita” – perdoem-me essa nomenclatura bastante inadequada mas que tem a vantagem da rapidez – muito atento a todo tipo de reivindicações tradicionais que ele fazia suas em parte, sobretudo do ponto de vista litúrgico, é preciso entender bem que o novo Papa não é um “progressista”.
Por isso é preciso estudar um pouco seu perfil político e social. A Argentina é um país que foi marcado por um fenômeno político muito específico, o peronismo, do qual não sei se se pode fazer entrar pura e simplesmente na categoria dos populismos, tanto o leque de sensibilidades dos partidários de Juan Péron, que ia do fascismo a uma esquerda muito avançada, era grande. Jorge Mario Bergoglio era um peronista engajado de centro direita, um católico peronista, pode-se dizer. Ele foi membro desde o fim dos anos 1960 (quer dizer, mais ou menos na data de sua ordenação) de uma organização peronista chamada OUTG (Organização Única da Transferência Geracional), que não se engajava na luta armada, mas que se consagrava à formação de jovens líderes desse movimento extremamente social, ainda que radicalmente hostil ao marxismo. No fim de 1974, quando era provincial dos jesuítas há um ano, ele confiou o controle da Universidade Jesuíta del Salvador a antigos membros dessa organização, que acabava de ser dissolvida. Critica-se frequentemente a Jorge Mario Bergoglio seu apoio à junta militar que afastou Isabel Peron em 1976. É preciso compreender que ele foi daqueles que quiseram preservar a herança social do peronismo. A reformulação que ele operou em seguida de seu percurso em um livro de entrevistas famoso, El Jesuita, publicado em 2010, é evidentemente uma obra de circunstância, mas ela não é falsa na insistência que ele usa para afirmar que sua linha sempre foi a preocupação dos pobres, a organização em seu favor das estruturas sociais e a evangelização nesse sentido.
– Parece ter sido mal visto pelos governantes argentinos atuais que poderiam estar na origem da retomada das acusações sobre sua colaboração com o regime de Videla.
– De fato, sua atitude muito crítica diante do governo “burguês” dos Kirchner se dirigia ao mesmo tempo sobre a fraqueza da política social e sobre o questionamento do fundamento católico da Argentina (ver, por exemplo, seu livro Ponerse la patria al hombro,   Tomar a pátria sobre os ombros, 2004) com tomadas de posição bem conhecidas contra o aborto e o casamento homossexual. Sua defesa da moral da família e da vida foi muito decidida. Poder-se-ia sonhar com uma revalorização da Humanae Vitae, encíclica muito esquecida hoje, e com uma catequese denunciando a contracepção? Suas declarações sobre a vida na Argentina foram mais nacional-católicas, pode-se dizer, que a dos bispos franceses, mas também mais tímidas quanto à presença nas manifestações. Poder-se-ia até mesmo sustentar que o Cardeal de Buenos Aires se tornou na Argentina uma potencia de inspiração alternativa de centro esquerda.
Assim, em todo esse percurso, pode-se dizer que ele passou do centro direita do peronismo ao centro esquerda do pessoal eclesiástico, onde o situam sua eleição “perdida” de 2005 e de suas afirmações em El Jesuita. Tudo isso explica sua atitude mais que reservada em relação à Teologia da Libertação, e por isso diante da tendência dos jesuítas que, sob o generalato do Padre Arrupe (1965-1985), apoiou mais ou menos essa teologia. Do mesmo modo que essa aceitava o marxismo, excetuado o ateísmo, Jorge Mario Bergoglio só aceitava da Teologia da Libertação que a “opção preferencial pelos pobres”. Jorge Mario Bergoglio participou na luta de João Paulo II e pelo Cardeal Ratzinger contra essa teologia enquanto marxistizante (com duas instruções da Congregação para a Doutrina da Fé sobre esse tema, de 1984 e 1986). Ele se tornou bispo por ocasião da reviravolta da tendência do episcopado da América Latina, graças a uma política de nomeações episcopais que foi selada pela Conferência geral do Episcopado latino americano em Santo Domingo, em 1992. Assim Jorge Mario Bergoglio se aproximou de prelados mais conservadores que ele, que trabalharam contra essa teologia na Argentina, Angelo Sodano, núncio no Chile e Leonardo Sandri, núncio na Venezuela e depois no México. Estes se tornaram em seguida personagens chave da Cúria wojtyliana e muito recentemente, atores decisivos de sua elevação ao trono de Pedro.
Para responder de outra maneira a sua questão anterior, poder-se-ia dizer que a eleição de Jorge Mario Bergoglio ao Sumo Pontificado é semelhante ao que seria a eleição de Andre Vingt-Trois, mas com afinidades mais “liberais” que as do Cardeal de Paris, como a proximidade com o Cardeal Hummes, que foi arcebispo de São Paulo e Prefeito da Congregação para o Clero, ou com o Cardeal Kasper.
– Poder-se-ia dizer então que ele é “conciliar”?
– Seria ainda necessário especificar, pois o leque dos conciliares é aliás ainda maior do que o dos peronistas.
Conciliar e talvez mesmo ultra conciliar, o novo Papa o é, em matéria de ecumenismo e de relações com as religiões não cristãs, ou pelo menos com o judaísmo. Ele se interessa muito à colegialidade em todos os níveis. Para o resto, as novidades não o interessam muito. Ele não é, por exemplo, nem um pouco tentado pelas exegeses bíblicas neobultmannianas ou pelas eclesiologias heterodoxas de certos confrades jesuítas. Ele é aliás preservado disso pelo seu modo de funcionamento teológico muito simples. Sua teologia é espiritual e prática. É talvez aqui que vai aparecer uma dificuldade: é uma banalidade dizer que o último concílio produziu um enorme terremoto teológico, alguma coisa de muito indefinível que é preciso defender ativamente, ou ao menos assumir, ou então “interpretar” ou ainda ultrapassar. As duas últimas hipóteses parecem excluídas para ele, as duas primeiras implicam, em seu nível de responsabilidade, em poder “manter a rota”.
Evidentemente, o novo Papa responderá a um desejo de reativação da colegialidade episcopal reclamada por uma boa parte do episcopado. Mas esse é um dos paradoxos desta eleição, como observava Jean-Pierre Denis, de La Vie: os cardeais quiseram ao mesmo tempo uma reforma da Cúria – o que quer dizer concretamente uma retomada de um governo forte – e mais descentralização. É um pouco contraditório. Na minha opinião, a anarquia intrínseca à situação posconciliar se encarregará de contrabalançar o que a autoridade romana, sendo “conciliar”, queira fazer de muito forte.
– E a liturgia? E o Motu Proprio? e a Fraternidade São Pio X?
– É preciso ver. É mais que evidente que o novo Papa tem uma sensibilidade litúrgica muito diferente daquela do Papa precedente. Antes da abertura do Conclave, nos últimos dias, eu segui com atenção um jornal italiano chamado Il Fatto Quottidiano, que in extremis, torpedeava o papabile delfim de Bento XVI, Angelo Scola, Arcebispo de Milão. Aliás, esse jornal publicou um artigo sobre o tema: “Os cardeais não querem de modo algum um papa lefebvrista”. É preciso entender esse adjetivo à italiana: favorável a um “retorno” litúrgico. Em outras palavras, a “reforma da reforma” vinda do alto, aquela do Papa vai estacionar. Resta a “reforma da reforma” vinda da base, dinamizada pelas celebrações de missas tradicionais, que podem ser entravadas, mas que é impossível de sufocar, como se podia fazer nos “anos de chumbo”.
Além disso, o novo Papa é um político inteligente, pragmático em suas alianças, complexo, secreto, e que gosta de surpreender. A Missa de Entronização prova isso. Como de resto ele não tem, no momento, oposição séria pela direita (essa é uma das lições desse surpreendente conclave: o ratzinguerismo puro, que já tinha mostrado uma grande fraqueza, como que evaporou), ele pode se permitir gestos em direção do mundo tradicional em sentido largo: aqule dos padres identitários, as comunidades conservadoras, um mundo que pesa na Itália, na França, nos Estados Unidos e em outros lugares. Será que ele pode sentir o descompasso entre os altos responsáveis eclesiásticos e a expectativa daquilo que se chamou o “novo catolicismo”?
É notório que o arcebispo de Buenos Aires aplicou o Summorum Pontificum na Argentina como o “aplicaram” a maioria dos bispos franceses… Bastaria aliás deixar as coisas como estão para que o caráter teoricamente obrigatório do Motu Proprio submerja num profundo sono. Mas há os jovens padres, as vocações de espírito tradicional, as comunidades Ecclesia Dei, a expectativa de toda uma ala de fiéis de paróquia, em suma, um conjunto de ingredientes com os quais o Papa Francisco, que os conhece mal, vai provavelmente negociar, sem dúvida por meio de pessoas interpostas.
A FSSPX? Sua passividade para negociar e se instalar “dentro” desde junho último é conveniente para ela, talvez, mas prejudica enormemente a Igreja hoje. Como quer que seja, o tempo das intermináveis negociações certamente acabou. Você pode me dizer que, se voltam as excomunhões, isso vai mudar pouca coisa. Que a FSSPX seja “fora” enquanto os padres revoltados austríacos estejam “dentro”, tira todo efeito às sanções. Tanto mais que, como a “reforma da reforma” de que falávamos, se posso dizer, a integração da FSSPX em uma sociedade eclesial cada vez mais fraca pode também se fazer na base.
Minhas previsões são prudentes, como você vê.
– Talvez, por outro lado, o senhor tenha “luzes” sobre a maneira com que se produziu essa eleição, que pegou todo mundo de surpresa?
– Ninguém tinha previsto isso entre os analistas e comentaristas. Então, o que aconteceu? Se acreditarmos nos jornais mais bem informados, e se tomarmos as confidências indiretas dos cardeais, parece que, desde o primeiro escrutínio, os partidários do Cardeal Scola, o candidato com o melhor currículo entre os papabili da continuidade ratzingueriana, constataram que ele estava bem abaixo dos cerca de quarenta votos de partida que eles esperavam. Terão se reportado ao Cardeal Erdò, de Budapeste? Logo saberemos. Mas, por outro lado, viu-se que os promotores curiais de uma candidatura “de mudança”, entre outros os Cardeais Sodano, Sandri, Re, a “velha Cúria”, como se diz, aliados ao Cardeal Bertone, tinham trocado a candidatura do Cardeal Scherer, de São Paulo por aquela bem mais eficiente do Cardeal Bergoglio e que se uniram a eles, entre outros, os cardeais americanos. O segredo tinha sido cuidadosamente guardado. O golpe teatral tem algumas semelhanças com aquele de outubro de 1962, nos primeiros dias do Concílio Vaticano II. Do mesmo modo que, na época,  a Cúria pacelliana desmoronou como por um sopro, também sumiram, oito anos de “restauração” ratzingueriana. Em todo caso, no Sacro Colégio. Note bem que certo número de promotores da eleição do novo Papa sabem muito bem que ele não lhes servirá de instrumento. Eles fazem lembrar do Príncipe Salina, do Guepardo  , que salva o que aquilo que pode dos ganhos, fazendo o papel do fogo: “Para que tudo fique como antes, é preciso que tudo mude”.
Tudo muda? Verdadeiro ou falso, isso foi sentido, vivido e explicado assim em campo, principalmente pela mídia, que só destacam das coisas da Igreja aquilo que lhes convém. Para continuar a metáfora com o Vaticano II, poder-se-ia dizer que houve o Concílio e o “espírito do Concílio”, que amplificou o movimento inovador, há o risco de vermos o Papa Francisco e o “espírito do Papa Francisco”, que vai tentar amplificar a evolução.
– Então o senhor é otimista ou pessimista?
– Eu não tenho que ser nem um nem outro, como se eu me colocasse acima disso. Bem entendido, eu não escondo que eu lamento o fato de que a época precedente parece se fechar como um parêntese. Mas eu não acredito de nenhum modo que estamos voltando aos anos mais “conciliares” do ponto de vista litúrgico, do espírito do clero, estc. E depois, uma vez mais, a “purificação”, aquela das contas do IOR, o bando vaticano, ou aquela das rocambolescas histórias de “vazamentos” não é o verdadeiro problema. O verdadeiro problema, colossal, é o da situação do catolicismo, cinquenta anos depois do Vaticano II: ela é catastrófica. E portanto, mesmo se todos os bispos do mundo abandonassem carro e motorista e tomassem o metro ou a bicicleta, isso não mudaria nada disso.

Mas no fundo, a vítima do que acaba de acontecer poderia bem ser a “hermenêutica da continuidade”. Ora, pode-se observar que a tentativa à qual presidia Joseph Ratzinger desde o “Colóquio sobre a Fé” de 1985, embora permitindo profundos questionamentos muito promissores, tinha também o inconveniente do bloqueio sobre uma linha conservadora. Bom, agora, nós nos encontramos diante do Concílio, em pessoa. Nós nos encontramos diante da reforma litúrgica, com ou sem “abusos”, pouco importa, sem véu, diante da reforma litúrgica pura e simples. E a verdadeira discussão pode continuar sobre os pontos que apresentam dificuldades, educadamente, é verdade, mas diretamente. Você vê, ainda uma vez, vão me acusar de ser muito otimista…

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Guerardini: INFABILIDADE NÃO É “PAPOLATRIA”

Teníamos esta entrada en carpeta desde antes de la elección de Francisco. La pensamos como complementaria de Newman contra la «papolatría». El p. Iraburu parece escandalizarse por el uso de «papolatría» pues sería un término empleado por los protestantes del siglo XVI para denostar a los católicos fieles. Ciertamente es falso que los católicos adoremos al Papa como a Dios. No existe una «papolatría» en sentido propio y formal. Pero sí existe una «papolatría» que es un error por exceso respecto del Romano Pontífice y su función en la Iglesia, con diversas manifestaciones, sean teóricas o prácticas. 

En esta entrada, Gherardini alude a una «papolatría» entendida como «infalibilismo». La infalibilidad es un carisma de la Iglesia y del sucesor de Pedro, mientras que el infalibilismo es una desvirtuación y una extensión del abusiva carisma petrino más allá de los límites de la Revelación. Es también una actitud no exenta de servilismo, típica en cierto modo de la mentalidad cortesana que ha sido efecto y causa de exageraciones que en último término van contra los dogmas relativos al Primado, la Iglesia y su Jerarquía.Haciendo un poco de historia, debemos decir que la expresión «papolatría» se empleó durante el Sacrosanto Concilio Ecuménico Vaticano II (recordemos que a Iraburu le gusta poner énfasis en «sacrosanto»). La usó en el Aula Conciliar el Obispo Emil-Josef De Smedt (Brujas, Bélgica) quien fuera parte del Secretariado para la Unidad Cristiana y miembro de una Comisión que redactó esquemas que luego se convertirían en documento oficiales del último Concilio. Y en el mismo sentido, también la utilizó durante el Concilio Máximo IV Saigh, Patriarca de Antioquía y todo el Oriente y cardenal de la Iglesia Católica.El término «papolatría», bien entendido, ha adquirido carta de ciudadanía en la Iglesia. Y su uso es legítimo siempre que se precise adecuadamente su definición. A impulsos del entusiasmo papólatra ya estamos viendo otro signo de «papolatría»: el atribuir a hechos y dichos del otrora cardenal Jorge M. Bergoglio un valor equivalente al de actos pontificios. Es un error de funestas consecuencias. 
A este respecto, parece muy apropiado considerar cuidadosamente las palabras del dogma: «El Romano Pontífice, cuando habla “ex cathedra”, esto es, cuando en el ejercicio de su oficio de pastor y maestro de todos los cristianos, en virtud de su suprema autoridad apostólica, define una doctrina de fe o costumbres como que debe ser sostenida por toda la Iglesia, posee, por la asistencia divina que le fue prometida en el bienaventurado Pedro, aquella infalibilidad de la que el divino Redentor quiso que gozara su Iglesia en la definición de la doctrina de fe y costumbres.

 Por esto, dichas definiciones del Romano Pontífice son en sí mismas, y no por el consentimiento de la Iglesia, irreformables.»Palabras sopesadas con extremo rigor. No sólo no divinizan a un ser humano, sino que, en el acto mismo de reconocerle un carisma que ningún otro hombre posee, ponen límites claros y condiciones estrictas en el ejercicio del mismo. El Papa, en efecto, «no por el hecho de ser papa» (simpliciter papatus ex auctoritate), es absolutamente infalible.»Tal vez haya llegado el momento de decir con sinceridad y firmeza lo que reiteradamente se declaró en el pasado, reciente y lejano, acerca de la necesidad de liberar al papado de esa especie de «papolatría», que no contribuye a honrar al Papa y a la Iglesia. No todas las declaraciones papales son infalibles, no todas pertenecen al mismo nivel dogmático. 

La mayor parte de los discursos y documentos papales, aun cuando tocan el campo doctrinal, contienen enseñanzas comunes, orientaciones pastorales, exhortaciones y consejos, que en la forma y en el contenido, están muy lejos de la definición dogmática. Esta no existe sino cuando se presentan las condiciones establecidas por el Vaticano I.


Dois cardeais eleitores violaram o segredo do conclave?

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Como eu tinha escrito aqui no dia 16 de março, as “confidências” – feitas diante de cerca de 5000 jornalistas… – do nosso Papa Francisco sobre um episódio do conclave, mesmo que elas não traiam – nem moralmente nem juridicamente – o segredo da assembleia e o juramento, arriscavam “inspirar outros” cardeais eleitores a se arriscarem em suas [próprias] confidências… E foi o que aconteceu!
Num registro relativamente menor, o cardeal Roger Mahony, Arcebispo emérito (mas pouco meritório) de Lós Angeles (Califórnia), escreveu sobre seu blog, na data de 17 de março:
“Quando nós entramos, enfim, na Capela Sistina, em 12 de março, eu hesitava ainda entre dois ou três candidatos. Entretanto, quando a primeira cédula nos foi distribuída e quando veio o momento de nele inscrever-se um nome, alguma coisa poderosa [something powerful] – e estranha – aconteceu. Eu peguei minha caneta e comecei a escrever. Entretanto, minha mão foi conduzida por não sei que força espiritual superior [by some greater spiritual force]. O nome sobre a cédula simplesmente aconteceu. Eu ainda não havia reduzido minha escolha a um só nome: mas isso foi dado para mim. Eu o escrevia, depois eu me pus a tremer profundamente. Foi então que eu compreendi que o Espírito Santo estava [presente] plenamente na obra da Igreja de Jesus Cristo, e que meu papel não era o de “escolher” o novo sucessor de Pedro, mas “de escrever” seu nomeum nome que me havia sido dado.”
MXR03-POPE-RESIGNATION+Eu não teria a temeridade de glosar sobre este “estranho” fenômeno de escritura automática. Eu deixo isso a alguém mais sábio que eu. Eu observo, entretanto, que o cardeal, sem o citar explicitamente, votou em primeiro escrutínio para o cardeal Bergoglio. Isso seria, juridicamente falando, uma traição ao juramento? Eu de nada sei. O que eu acho é que o Cardeal Mahony tem sim um “problema”.
De outro lado, e num registro objetivamente maior, o Cardeal Walter Kasper, eleitor em alguns dias…, ele violou o segredo do conclave e traiu o juramento. Veja o que ele declara numa entrevista a dada ao blog Catholic Conclave e publicada em 18 de março:
“O Cardeal Bergoglio foi desde o início meu candidato e desde o início do conclave eu votei nele. Ele representa um novo começo para a Igreja (sic!), para uma Igreja humilde e fraterna que está aqui para as pessoas, que se volta à sua fonte: o Evangelho.”
A Igreja acaba de passar das trevas para a luz e o Cardeal Kasper é um dos que acenderam essa chama… Piedoso. Dessa vez, a declaração viola o juramento. Mas ela recai sob a pena canônica de excomunhão latae sentenciae? Eu o ignoro. Deixo aos sábios o cuidado de o dizer, mas o Cardeal Kasper e seu colega o Cardeal Mahony são responsáveis perante Deus dos atos que eles acabam de praticar por suas declarações. Rezemos para que o Todo Poderoso tenha misericórdia deles.
Tradução: Vitor Finotti
Cf.