O HÁBITO FAZ O MONGE?

Essa matéria saiu na Fonte abaixo com o título de ” deus da transformação”
O medo de ser “para sempre o mesmo” faz de Guilherme Coelho o homem-revolução, criador do Vivencial Diversiones, ex-guru da contracultura, que virou monge católico”

Lendo isso não pude deixar de me lembrar de uma janela que existe lá no Santo Anselmo, em Roma…João XXIII, que ” adorava” janelas, também gostava muito daquela…

Boa leitura…
Rezemos pela Igreja e pelo Papa.



As viagens do beatle George Harrison à Índia reverberaram como um trovão místico numa comunidade rural alternativa em Carpina, Zona da Mata Norte, onde cogumelo valia mais que feijão. Vivendo o desapego em sua forma mais idealista, o pós-adolescente Guilherme Coelho inspirou-se no mergulho transcendental do guitarrista inglês e tomou fôlego para seguir a rota internacional que virou febre entre hippies como ele. Em meados da década de 1960, iniciou os preparativos para a travessia rumo ao Nepal, epicentro espiritual da geração flower power, onde pretendia virar monge budista.
O caminho era tortuoso e caro para alguém cujo patrimônio não passava de um punhado de roupas de algodão coloridas. De São Paulo, esticaria até o Porto de Santos, onde tentaria embarcar com um grupo de amigos em algum navio até a Europa. O resto do trajeto seria percorrido de ônibus ou em caronas até a Índia e, por fim, atravessaria a fronteira até o destino sonhado por mochileiros esotéricos.
Guilherme pediu, em vão, ajuda à mãe, vendeu artesanato, mas o projeto naufragou por falta de dinheiro. Desolado, saiu do mato e foi passar uma temporada de reflexão no Sítio Histórico de Olinda, onde ficaria bem mais que o esperado. Chorando as pitangas na casa da amiga e artista plástica Silvia Pontual, falou do desejo frustrado de virar monge no país pobre e frio em plena Cordilheira do Himalaia.“Sabia que Olinda tem um mosteiro?”, devolveu ela, apontando para a construção barroca no final da rua, onde há mais de 400 anos estão a Igreja e o Mosteiro de São Bento.
No sábado seguinte, Guilherme entrou pela primeira vez na igreja.“Era uma missa do evangelho totalmente diferente, a Missa dos Jovens, celebrada por dom Inácio Osmindo. Tinha uma mistura dos musicais Hair e Jesus Cristo Superstar. Era participativa, com muita música e instrumentos. Era quase uma ópera rock. Fiquei fascinado”. Saiu direto para uma conversa com o abade do mosteiro, a quem revelou a ideia fixa de não mais sair dali.
Raspou os cabelos compridos, tirou a barba, eliminou as túnicas psicodélicas para virar monge, só que bem longe da Ásia e do budismo. Em 1968, foi para o retiro católico ilhado pelas ladeiras de Olinda para abraçar a primeira parte de sua vida monástica, passando quatro anos na completa clausura depois de assistir àquela missa do sábado.

Desfrutaria como poucos daquele pedaço mais indiano da cidade, mas, a partir de 1974, também faria dele palco aberto de liberdade, transgressão e, acima de tudo, transformação. Atrelando a já profunda espiritualidade a uma personalidade bem politizada, ajudaria a fundar a celebrada companhia teatral Vivencial Diversiones, da qual foi ator e diretor durante uma década intensa e não menos conturbada.
a liberdade sem precedentes
No recolhimento da ordem beneditina, viveu os primeiros anos entre incontáveis orações e horas a fio de estudos teológicos e filosóficos. “Foi um período muito bom. Não era uma fuga, era uma busca”. Liberado da clausura sob a bênção liberal do então arcebispo de Olinda e Recife, dom Helder Camara, Guilherme foi enviado com outros monges para morar nos aposentos da Igreja da Boa Hora, onde passou a atuar como missionário em flancos de ajuda social.
De volta às ruas e livre dos votos obrigatórios de monge, migrou para o trabalho comunitário de base, auxiliando famílias carentes, mendigos e até ensinando linguagem corporal a garotas de programa. Guilherme conheceu a Arma (Associação de Rapazes e Moças do Amparo), espécie de braço cultural da igreja, onde comungou do teatro como instrumento de aproximação.


Ensaiavam peças de medalhões da dramaturgia, como Hermilo Borba Filho e Jean Genet, ao mesmo tempo em que improvisavam com intervenções em cenas recheadas de nudez, homossexualismo, violência, política, erotismo e uma gororoba de temas espinhosos para os anos de chumbo do regime militar. No Rio de Janeiro, o grupo Dzi Croquettes já antecipava que a contracultura poderia ter vez no palco principal. A turma do teatro de Olinda achou que, se ainda sobrava em paz, a cidade deles faltava em escândalo.
Em 1974, sob a direção de Guilherme e a bandeira da provocação, o espetáculo Vivencial I teve a estreia no auditório do Colégio São Bento, instituição igualmente católica e vizinha ao mosteiro. Além de dar nome ao grupo, a encenação causou todo tipo de reação, menos o desprezo. Nas barbas da Igreja, chocaram as primeiras famílias locais, mas despertavam furor no público sedento por ousadia. “Não houve rompimento. Criticávamos a Igreja, mesmo participando dela. Isso só acontecia porque dom Helder dava essa liberdade”.
Em pouco tempo, a trupe liderada pelo ex-monge testou todos os limites da tolerância conservadora, atraindo jovens fora da Arma, que nunca atuaram antes. “Guilherme tinha o poder de transformar. Quando entrei no Vivencial, fazia balé clássico, era do Corpo de Baile, minha família era católica e queria que eu fosse freira. Mas, em 1977, eu estava com os peitos de fora. Ele pegou uma fruta verde e me virou pelo avesso”, recorda a atriz Ivonete Melo, 67, que chama o diretor de “meu guru”.
Misturando a calma monástica e a verve provocativa de intelectual, o diretor de fala mansa influenciava os atores sem forçar a barra: “Entrei no grupo com 16 anos depois de ver o primeiro espetáculo. Era bem burguesinha de Boa Viagem. Eu não sabia de nada. Ele falava as coisas, explicava, mas nunca tentava catequizar. Era tudo natural”, emenda Suzana Costa, 56, também atriz e produtora cultural, que integrou o Vivencial nos quatro primeiros anos de existência.
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Ao assumir o timão criativo da companhia, Guilherme metia o bedelho no figurino, na luz e no cenário, confeccionados pelos próprios integrantes, além de administrar as finanças e os egos dos integrantes. Na casa alugada pelo grupo com o dinheiro das apresentações, o clima era de liberdade sem precedentes. “Não tinha essa história de homem vestir roupa de homem ou mulher vestir roupa de mulher. Naquela época, isso era impensável. Hoje, isso foi incorporado pelo mercado da moda”, lembra o diretor, que saiu de casa aos 14 anos, depois de brigar com o pai por conta da roupa que usava em João Pessoa, onde nasceu e passou a adolescência. Filho de um conservador dentista das Forças Armadas, Guilherme flanava pela capital paraibana de calça jeans e camisa vermelha, algo impensável no seio de uma família tradicional há 50 anos: “Era coisa de bicha naquela época. E ele era extremamente homofóbico. Brigamos e fui embora para a vida”.
Guilherme incorporou como poucos a falta de amarras naquele ambiente tropicalista da companhia teatral. Amava homens e mulheres com mesmo apetite, algo comprovado pelos seis filhos que teve de três relacionamentos diferentes. “Jogava em todos os cantos, mas me preservava um pouco. Já tive quatro mulheres ao mesmo tempo. Era pior que Mr. Catra (risos)”, brinca, comparando-se ao cantor de funk carioca e poligâmico confesso. “Ele era a mãe, o pai, o irmão e o amante ao mesmo tempo. Era carismático, levantava o ego de todo mundo, ao mesmo tempo em que era louco. Estudava o tempo todo, ensinava conversando”, lembra Ivonete.
Na terceira e última fase, a trupe comprou um terreno e levantou a sede no Complexo Salgadinho, Olinda, área cercada de mangue, onde os espetáculos teatrais abriam as noites para shows de variedades, terminando com as apresentações de travestis. No mesmo palco baixinho comungavam com harmonia cenas de streaptease, recitais de poesia marginal ou apresentações de improviso de artistas iniciantes como o cantor Lenine.
O Vivencial se dissolveu aos poucos em meio a desgastes internos envolvendo, sobretudo, a gestão financeira. “Guilherme queria construir apartamentos no primeiro andar pra que os atores morassem lá. Alguém questionou, já que os shows lotavam nos fins de semana e os cachês não aumentavam”, lembra Ivonete Melo.
Três décadas depois da última apresentação, em 1983, o rastro libertário do Vivencial ainda é explorado em teses acadêmicas, pesquisas e homenagens. A história do grupo também é extraída como “referência de construção” do premiado longa-metragem Tatuagem, como prefere classificar o diretor Hilton Lacerda. No filme, traços da personalidade e da trajetória de Guilherme Coelho encontram recorte no personagem Clécio, interpretado por Irandhir Santos, que incorpora o líder da fictícia companhia teatral Chão de Estrelas: “Clécio e Guilherme se aproximam na maneira paternalista com que lideravam os grupos, ao mesmo tempo em que permaneciam o tempo todo na zona de conflito. Eram autoritários no trabalho, mas se dedicavam demais, eram solidários. Para os dois, tudo era questão de transformação”, situa Lacerda.
Guilherme e parte dos ex-atores aparecem em uma pequena ponta da película, como espectadores de uma encenação do Chão de Estrelas: “Tudo é mentira e tudo é verdade no filme. Mas o espírito do Vivencial e de Guilherme estão ali”, comenta Suzana Costa. “Enquanto você não conversa com Guilherme pessoalmente, não percebe o quanto é delicado e sedutor”, completa Hilton, que destaca o pioneirismo e a coragem dos ex-integrantes na utilização do corpo como instrumento de mudanças política e de gênero.
Guilherme diante do painel com imagens antigas do grupo e algumas peças do figurino original.
“o sol feriu a terra e a chaga se alastrou”
A natureza hedonista da época, no entanto, tinha seu preço. Naquele início da década de 1980, a sexualidade latente começara a ruir com as primeiras notícias trágicas envolvendo amigos próximos. O mentor da anarquia sem fim entendeu que era hora de acionar o freio de emergência: “Se eu tivesse ficado em Pernambuco, tinha morrido de Aids. Com certeza. Tive que dar um tempo e sair daquele furacão”. Guilherme deixou o Vivencial pouco antes do último suspiro do grupo, e foi passar uma quarentena no Rio de Janeiro, na casa da mãe.
A calmaria veio em forma de um convite de trabalho na Universidade Católica de Brasília, para onde mudou-se em 1985 com cinco dos seis filhos, a então mulher Edna e o histórico familiar “zerado”, acima de qualquer suspeita, diante dos novos vizinhos do plano piloto. “Em Brasília, fui buscar noção de família, de universidade, de educação para os meninos, de uma qualidade de vida que a cidade proporcionava”.
Graças a uma formação sólida dos tempos de clausura e aos quatro cursos de graduação que concluiu naquela fase da vida – é formado em teologia, filosofia, pedagogia e sociologia – o ex-hippie virou professor universitário. Aos 63 anos, leciona várias disciplinas na área de humanas em duas universidades privadas da capital federal.
Letícia Coelho, 19, filha caçula da meia dúzia de herdeiros, nasceu em Brasília dentro de uma célula familiar estruturada, mas igualmente avessa a um padrão conservador: “A nossa casa sempre foi um ambiente muito aberto. Meus pais são pessoas livres, nunca tiveram pudores com nada. Crescemos dessa forma. É engraçado porque meu pai é um porra-louca que não fuma e não bebe”.
Filha do casamento de Guilherme com Edna Gomes, também ex-atriz do Vivencial, a caçula é sócia da mãe numa loja de calçados. Ela lembra de um episódio simbólico da infância, quando um irmão, que hoje é ator, resolveu picotar com tesoura uma calça presenteada pelo pai, customizando a peça ao seu jeito. “Eles foram ao shopping e encontraram um amigo do meu pai, que estranhou e perguntou se ele não via nada de errado na roupa do meu irmão. Ele disse que meu irmão se sentia bem daquele jeito, se expressava daquela forma. É besteira, mas isso é a cara dele”.
Há dez anos, uma inquietação atravessou a rotina da figura paterna. Separado da última mulher e vendo a maioria dos filhos crescidos, teve um lampejo que o transportou de volta à missa do sábado à tarde em Olinda: “Achava que família era para a vida inteira. Mas vi que estava sobrando. Meus filhos tinham projetos de vida individuais. Foi quando procurei algo que estava em aberto na minha vida, que era a questão monástica. Justamente aquilo que tinha abandonado no passado”.
No Mosteiro São Bento da Reconciliação, em Novo Gama, Goiás, onde mora há dez anos.
Desde então, concilia a universidade com a segunda etapa de sua vida de monástica, desta vez sem a clausura da primeira experiência. Mora no Mosteiro São Bento da Reconciliação, em Novo Gama, Goiás, distante 50 quilômetros de Brasília, onde ainda dá aulas três vezes por semana. Compartilha com mais oito monges uma rotina diária de sete orações, atendimentos à população, com acolhimento a pessoas carentes e consultas espirituais, que funcionam como conversas individuais e reservadas, além de muita leitura.
Como o mosteiro não recebe um único centavo da Igreja, os monges se dividem em tarefas de um cotidiano sustentável através da venda de artesanato, agricultura e doações. Guilherme dorme numa “cela” individual, como chamam os cômodos simples, com cama, mesa, um guarda-roupa e um computador. “Não preciso mais do que isso. É suficiente”, diz. A mudança, da qual garante não se arrepender, proporcionou um conforto espiritual que faltava na casa espaçosa do plano piloto. Uma escolha que, a exemplo de outras anteriores, teve seu custo: “Comigo ele é o personagem pai. O personagem monge eu não me aproximo muito. Nunca fui ao mosteiro”, entrega a filha mais nova.
Guilherme Coelho escapa empolgação ao descrever uma missão que, se não é tão difícil como a rota hippie do Nepal, ao menos lhe traz o aditivo da novidade. Ainda sem data de regresso, deve embarcar nos próximos meses para Portugal, no intuito de povoar dois mosteiros em ruínas que estão sendo restaurados nas cidades de Évora e Braga. “Toda vez que eu volto a Pernambuco, encontro as pessoas com os mesmos valores, a mesma aparência. Sempre fui uma metamorfose. Quem não viaja vira uma pessoa mimética. Tenho medo de ficar cristalizado”.


André Duarte (texto) / Alcione Ferreira e Ed Alves (fotos)