UM ANO DE PONTIFICADO, UM ANO DE CONFUSÃO



Alejandro Sosa Laprida

O estranho pontificado do Papa Francisco. 02/02/14.
Como católico, é sumamente doloroso ver-me obrigado por minha consciência a emitir críticas ao papa. E a verdade é que seria muito bom se a situação da Igreja estivesse normal e eu não encontrasse, por conseguinte, nenhum motivo para formulá-las. Desafortunadamente, somos confrontados com o fato incontestável de que Francisco, em apenas um ano de pontificado, realizou incontáveis gestos atípicos e efetuou um sem-número de declarações cheias de novidades e por demais preocupantes. Os fatos em questão são tão abundantes que não é possível tratá-los todos no marco necessariamente restringido deste artigo. Ao mesmo tempo, não é tarefa simples limitar-se a escolher só alguns deles, já que todos são portadores de uma carga simbólica que os torna inauditos aos olhos do observador atento, indicando uma situação eclesial sem precedentes na história. Depois de árduas reflexões, retive cinco que me parecem ser os melhores indicadores da tonalidade geral que é possível observar neste novo pontificado.

Esses fatos se agrupam em cinco temas diferentes: o islã, o judaísmo, a laicidade, o homossexualismo e a maçonaria. Depois de havê-los expostos nessa ordem, na intenção de destacar em que medida são indicadores de uma inquietante anomalia no exercício do magistério e da pastoral eclesiais, apresentarei de maneira mais sucinta outra série de ditos e feitos que permitirão ilustrar ainda mais, se acaso fosse possível, a heterodoxia radical que resume os princípios e a práxis bergoglianos.
1. A questão do islã
Em 10 de julho de 2013, Francisco enviou aos muçulmanos de todo o mundo uma mensagem de felicitações pelo fim do ramadã. Devemos deixar claro que se trata de um gesto jamais produzido na Igreja Católica antes do Concílio Vaticano II. E devemos acrescentar que nenhum papa havia dirigido semelhantes saudações aos maometanos antes do pontificado de Francisco. A razão é muito simples, e certamente manifesta para qualquer católico que não perdeu completamente o sensus fidei: os atos das outras religiões carecem de valor sobrenatural e, objetivamente considerados, não podem senão privar os seus adeptos do único caminho de salvação: Nosso Senhor Jesus Cristo. Como não estremecer-se de espanto ao escutar Francisco dizer aos adoradores de “allah” que “somos chamados a respeitar a religião do outro, seus ensinamentos, seus símbolos e seus valores”? É impossível deixar de comprovar a distância intransponível que existe entre esta declaração e o que nos ensinam os Atos dos Apóstolos e as epístolas de São Paulo… Que se deva respeitar as pessoas que se encontram nos falsos cultos, isso não se discute, mas que se promova o respeito às falsas crenças que negam a Santíssima Trindade das Pessoas Divinas e a Encarnação do Verbo de Deus é algo insustentável do ponto de vista do magistério eclesiástico e da revelação divina. No entanto, é mister reconhecer que neste ponto não se pode atribuir a Francisco o título de inovador, já que não fez mais que continuar com a linha revolucionária introduzida pelo Concílio Vaticano II, o qual pretende, na declaração Nostra Aetate sobre a relação da Igreja com as religiões não cristãs (hinduísmo, budismo, islã e judaísmo), que “a Igreja Católica não rejeite nada do que é verdadeiro e santo nessas religiões. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas (…). Exorta os seus filhos a que (…) através do diálogo e da colaboração com os sequazes de outras religiões (…) reconheçam, conservem e promovam os bens espirituais e morais e os valores socioculturais que entre eles se encontram”. Palavras que provocam estupor, já que é algo manifestamente absurdo pretender que se deva “colaborar” com gente que trabalha ativamente para instaurar credos e muitas vezes costumes que são contrários aos do Evangelho. Como não ver nesse “diálogo” tão mentado uma profunda desnaturalização da única atitude evangélica, que é a de anunciar ao mundo a Boa Nova de Jesus Cristo, q

ue nos disse claramente o que devemos fazer como discípulos: “É-me dado todo o poder no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado” (Mt. 28, 18-20)? Esta noção de “diálogo” com as demais religiões carece de todo fundamento bíblico, patrístico e magisterial, e de fato não é mais que uma impostura tendente a desvirtuar o autêntico espírito missionário, que consiste em anunciar aos homens a salvação em Jesus Cristo, e de nenhuma maneira em um utópico “diálogo” entre interlocutores situados em pé de igualdade, enriquecendo-se reciprocamente e pretendendo buscar juntos a verdade. Essa pastoral conciliar inovadora fundada em um “diálogo” inscrito em um contexto de “legítimo pluralismo”, de “respeito” às falsas religiões e de “colaboração” com os infiéis não é mais que uma pérfida emboscada armada pelo inimigo do gênero humano para neutralizar a obra redentora da Igreja. A esse respeito, basta citar a única situação de autêntico “diálogo” que as Escrituras nos relatam, logo no início, a fim de alertar prévia e definitivamente sobre seu caráter intrinsecamente contaminado: trata-se do “diálogo” que Eva travou no jardim do Éden com a serpente, que haveria de desembocar na queda do gênero humano (cf. Gen. 3, 1-6). Poderíamos dar uma lista interminável de citações do Novo Testamento, dos Santos Padres e do magistério da Igreja para refutar a patranha segundo a qual os falsos cultos devem ser objeto de um “respeito sincero” às suas “maneiras de agir e viver, seus preceitos e suas doutrinas”, e para provar que, diferentemente das pessoas que os professam e que naturalmente devem ser objeto de nosso respeito, de nossa caridade e de nossa misericórdia, de nenhum modo as falsas doutrinas religiosas merecem “respeito”, que em ditas religiões não se encontra nenhum elemento de “santidade” e que os elementos de verdade que podem conter estão subordinados ao serviço do erro.

Deve-se reconhecer que Francisco é perfeitamente coerente em sua mensagem com o que o documento conciliar disse acerca dos muçulmanos, a saber, que “a Igreja olha também com estima para os muçulmanos, que adoram ao Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração”. Pois bem, qualquer que seja a sinceridade dos maometanos na crença e na prática de sua religião, não por isso é menos falso sustentar que “adoram ao único Deus”, “que falou aos homens” e que “a cujos decretos procuram submeter-se de todo o coração”, pela simples razão de que “allah” não é o Deus verdadeiro, que Deus não falou aos homens através do Alcorão e que seus decretos não são os do islã. Trata-se de uma linguagem inédita na história da Igreja e que contradiz vinte séculos de magistério e de pastoral eclesiais. Essa prática heterodoxa conduziu aos múltiplos encontros inter-religiosos de Assis, onde se alentou aos membros dos diferentes cultos idolátricos a rezar às suas respectivas “divindades” para obter “a paz no mundo”. Falsa paz, naturalmente, uma vez que se persegue com injúrias o único Senhor da Paz e Redentor do gênero humano, assim como a sua Igreja, única Arca de Salvação. E esta noção enganosa de “diálogo” conduziu igualmente aos últimos pontífices a mesquitas, sinagogas e templos protestantes, nos quais, pelo gesto e pela palavra, deram destaque a esses falsos cultos e não hesitaram em denegrir publicamente à Igreja de Deus criticando a atitude “intolerante” da que Ela havia dado mostras no passado. Vejamos um exemplo recente desta nova mentalidade ecumênica malsã, sincretista e relativista, condenada solenemente por Pio XI em sua encíclica Mortalium Animos de 1928: em 19 de janeiro, por ocasião da Jornada mundial dos migrantes e refugiados, Francisco se dirigiu a uma centena de jovens refugiados em uma sala da paróquia do Sagrado Coração, em Roma, dizendo-lhes que é necessário compartilhar a experiência do sofrimento, para logo acrescentar: “que aqueles que são cristãos o façam com a Bíblia, e que aqueles que são muçulmanos o façam com o Alcorão. A fé que vossos pais vos inculcaram vos ajudará sempre a avançar”. Esta nova práxis conciliar é efetiva e plenamente escandalosa, por um duplo motivo: por um lado, mina a fé dos fiéis confrontados com essas falsas religiões valorizadas por seus pastores; por outro lado, compromete as possibilidades de conversão dos infiéis, que se veem confortados em seus erros precisamente por aqueles que deveriam ajudá-los a livrar-se deles anunciando-lhes a Boa Nova da salvação, recebida dAquele que dissera ser “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo. 14, 6).
2. A questão do judaísmo
A primeira carta oficial de Francisco, enviada no mesmo dia de sua eleição, foi dirigida ao grande rabino de Roma. Fato por demais surpreendente. A primeira carta de seu pontificado enviada aos judeus! Acaso esta decisão obedeceu a um imperativo evangelizador premente, a saber, uma proclamação inequívoca do Evangelho, destinada a curá-los de sua tremenda cegueira espiritual, um convite solene a que reconheçam por fim a Jesus de Nazaré como seu Messias e Salvador? Nada disso. Francisco evoca a “proteção do Altíssimo”, fórmula convencional e vazia de conteúdo, destinada a ocultar as divergências teológicas intransponíveis que separam a Igreja da Sinagoga, para que suas relações avancem “em um espírito de ajuda mútua e ao serviço de um mundo cada vez mais em harmonia com a vontade de seu Criador”. Há duas perguntas que um leitor prevenido não pode deixar de formular. A primeira é: como conceber uma “ajuda mútua” com um inimigo que não tem senão um objetivo em mente, a saber, a aniquilação do cristianismo, e isto há quase dois mil anos? Em que cabeça pode caber o absurdo segundo o qual os judeus desejariam “ajudar” a Igreja, fundada segundo eles por um impostor, por um falso messias, o qual constitui o principal obstáculo ao advento do que eles aguardam, e a propósito do qual Nosso Senhor advertiu-lhes: “Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis” (Jo. 5, 43)? Terrível profecia que São Jerônimo comenta dizendo que “os judeus, tendo desprezado a verdade em pessoa, aceitarão a mentira aceitando o Anticristo” (Epist. 151, ad Algasiam, quest. II), e Santo Ambrósio que “isso mostra que os jud

eus, que não quiseram crer em Jesus Cristo, crerão no Anticristo” (in Psalmo XLIII).

Agora que o obstáculo político encarnado pela Cristandade foi suprimido pela onda revolucionária, assistimos à supressão progressiva do obstáculo religioso, a saber, o papado, contaminado há mais de cinquenta anos pelo vírus da modernidade revolucionária. Esse obstáculo à manifestação do “homem da iniquidade”, esse misterioso estorvo de que fala São Paulo (2 Tes. 2, 7), que retarda sua vinda e que não é outro que o poder espiritual romano, isto é, o papado, segundo a tradição exegética. Basta esse obstáculo ser removido para que o ímpio se manifeste (2 Tes. 2, 8). A penetração das ideias revolucionárias em Roma não é em absoluto uma questão de fantasias conspiradoras nem o resultado de uma imaginação desbocada: os que trabalharam ativamente para realizar o aggiornamento da Igreja, isto é, com vista à sua adaptação ao mundo moderno – o objetivo principal do Concílio Vaticano II, sua “linha geral” (Paulo VI, Ecclesiam Suam, 1964, nº 52) – não têm escrúpulo em admiti-lo. Assim o cardeal Suenens não mediu palavras: “O Vaticano II, é o 1789 na Igreja” (citado por Mons. Lefebvre, Ils l’ont découronné, Clóvis, 2009, p. 10). Essas são palavras de quem fora uma das figuras mais relevantes do último concílio e um dos quatro moderadores nomeados por Paulo VI. O padre Yves Congar O.P., nomeado por João XXIII, em 1960, consultor da Comissão Teológica Preparatória, e logo depois, em 1962, perito oficial no concílio, no qual fora também membro da citada Comissão Teológica, foi sem dúvida alguma o teólogo mais influente da assembleia conciliar, ao lado do jesuíta Karl Rahner. O famoso dominicano declarou, referindo-se à colegialidade episcopal, que no Concílio “a Igreja efetuou pacificamente sua Revolução de Outubro” (Vatican II. Le concile au jour le jour, deuxième session, Cerf, p. 115), reconheceu que a declaração Dignitatis Humanae sobre a liberdade religiosa disse “materialmente outra coisa que o Syllabus de 1864, até aproximadamente o contrário (La crise dans l’Eglise et Mgr. Lefebvre, Cerf, 1976, p. 51) e admitiu que esse texto, no qual havia trabalhado, “procurava mostrar que o tema da liberdade religiosa estava presente na Escritura. Porém não o estava” (Eric Vatré, La droite du Père, Guy Trédaniel Editeur, 1995, p. 118). E segundo o cardeal Ratzinger, “o problema do Concílio foi o de assimilar os melhores valores de dois séculos de cultura liberal. São valores que, embora surgidos fora da Igreja, podem encontrar um lugar – purificados e corrigidos – em sua visão do mundo e isso é o que sucedeu” (Jesus, nov. 1984, p. 72). Este mesmo cardeal não hesitou em afirmar, em relação à constituição pastoral Gaudium et Spes sobre as relações da Igreja com o mundo moderno, que se pode considerar esse texto como um “anti-Syllabus, na medida em que representa uma tentativa de oficialmente reconciliar a Igreja com o mundo tal como ele se tornou depois de 1789” (Les principes de la théologie catholique, Téqui, 1987, p. 427).
A segunda pergunta que surge acerca da carta enviada por Francisco ao grande rabino de Roma é a seguinte: como imaginar que uma falsa religião (o judaísmo talmúdico, corrupção do judaísmo veterotestamentário), estruturada na rejeição, condenação e ódio de Jesus Cristo, possa estar “a serviço de um mundo cada vez mais em harmonia com a vontade de seu Criador”? Tamanho absurdo dispensa comentários… Mas se encontra naturalmente em perfeita consonância com a modificação da oração pelos judeus da Sexta-feira Santa, que João XXIII se apressou em efetuar em março de 1959, apenas quatro meses depois de sua eleição, suprimindo os termos “perfidis” e “perfidiam” aplicados aos judeus, e que seria depois suprimida definitivamente do novo missal aprovado por Paulo VI em abril de 1969 e promulgado em 1970. Eis aqui a nova oração nele contida: “Oremos pelos judeus, aos quais o Senhor nosso Deus falou em primeiro lugar, a fim de que cresçam na fidelidade de sua Aliança e no amor do seu Nome”. Oração que, a propósito, merece algumas observações:
1. Não se menciona a necessidade da conversão dos judeus a Jesus Cristo.
2. O termo “aliança” insinua que a “antiga” ainda estaria em vigor.
3. Todo “progresso” no amor de alguém implica um amor já presente; pois bem, como poderiam “progredir” no amor do Pai se negam o Filho?
4. E como poderiam “progredir” na “fidelidade de sua Aliança” se persistem em rejeitar a Jesus Cristo, sacerdote perfeito e cordeiro sem mancha, que selou uma Nova Aliança entre Deus e os homens ao imolar-se na Cruz?
A conclusão é evidente: encontramo-nos diante de uma nova teologia que marca uma ruptura profunda com a que teve curso na Igreja desde suas origens até o Vaticano II e que a antiga oração pela conversão dos judeus, eliminada
da liturgia latina, expressava de maneira luminosa: “Oremos pelos incrédulos judeus (perfidis judaeis), para que Deus Nosso Senhor lhes tire o véu dos corações, a fim de que também eles reconheçam a Nosso Senhor Jesus Cristo (…). Deus onipotente e eterno, que nem mesmo à incredulidade dos judeus excluís da vossa misericórdia, ouvi as preces que por este povo obcecado vos dirigimos, a fim de que reconheçam a luz da vossa verdade, que é Cristo, e seja arrancado das trevas em que vive”. O contraste com a nova oração é espantoso, tanto como o é com o discurso de João Paulo II na sinagoga de Roma em abril de 1986, no qual louvava a “legítima pluralidade religiosa” e afirmava que é preciso esforçar-se em “suprimir toda forma de preconceito (…) a fim de apresentar a verdadeira face dos judeus e do judaísmo”. “Preconceito” que a antiga oração da Sexta-feira Santa expressava de maneira cabal, o que certamente explica seu desaparecimento da nova liturgia… Mas não se pode negar que isto seja um grande problema, pois segundo reza o célebre adágio do século V atribuído ao papa São Celestino I: lex orandi, lex credendi – a lei da oração determina a lei da crença, ou seja, modificando o conteúdo da oração, pode modificar-se também o conteúdo da Fé. E o que aconteceu no século XVI como resultado das inovações litúrgicas de Lutero na Alemanha e de Cranmer na Inglaterra já é suficiente para demonstrá-lo.
Infelizmente, o episódio da carta enviada por Francisco ao rabino de Roma no dia de sua eleição não foi o único. Com efeito, doze dias mais tarde, Francisco reincidiu enviando uma segunda carta ao rabino, desta vez por ocasião da páscoa judaica, dirigindo-lhe suas “felicitações mais fervorosas pela grande festa de Pessach”. Aqui surge uma pergunta inevitável: a partir de uma perspectiva católica, qual pode ser a natureza dessas “felicitações” por ocasião de uma celebração na qual Jesus Cristo é ultrajado, Ele que é o único e verdadeiro Cordeiro Pascal imolado na Cruz em redenção de nossos pecados? Tais “felicitações” só servem para confortar os judeus em sua cegueira espiritual e, portanto, mantê-los longe de seu Messias e Salvador, o que é no mínimo paradoxal vindo de um soberano pontífice… Que prossegue dizendo: “Que o Onipotente, que libertou seu povo da escravidão do Egito para guiá-lo à Terra prometida, continue a libertá-lo de todo o mal e a acompanhá-lo com sua benção”. Palavras extremamente embaraçosas, dado que manifestamente Deus não os libertou ainda de todo mal, uma vez que não existe mal maior que o de ser considerados “inimigos do Evangelho” (Rom. 11, 28) e fazer parte da “Sinagoga de Satanás” (Ap. 3, 9). Como conceber que Deus possa continuar “acompanhando-lhes com sua bênção” quando eles continuam rejeitando com obstinação Aquele que Ele enviou? Quero salientar aqui, para evitar qualquer tipo de mal-entendido, que de nenhum modo ataco os judeus de maneira pessoal, já que não me cabem dúvidas de que são excelentes pessoas e que professam suas crenças com toda boa fé. Ao referir-me aos judeus, entendo situar-me no plano dos princípios teológicos, o único que é pertinente a esta questão. E nesse terreno se verifica uma inimizade irredutível entre a Igreja, que busca estabelecer o reino de Jesus Cristo na sociedade, e o judaísmo talmúdico, o qual, havendo-se estruturado em oposição a Jesus Cristo e à Igreja, busca obstaculizar sua missão evangelizadora, em total coerência com sua teologia, que não lhe permite ver em Jesus de Nazaré mais que a um impostor e a um blasfemador, a um falso messias que impede a vinda do verdadeiro, que eles aguardam ansiosamente com o objetivo de restaurar o reino de Israel e de governar as nações desde Jerusalém transformada na capital de seu reino messiânico mundial. Portanto, não se trata em absoluto de “racismo” nem de um pretendido “antissemitismo” conceitualmente absurdo – segundo o velho refrão que não cessam de entoar quando alguém se atreve a abordar o tema, em uníssona e alta voz, os formadores de opinião mediáticos, autêntica polícia ideológica do sistema mundial, para desviar a atenção do verdadeiro problema quem planteia o judaísmo talmúdico e sionista, cuja índole é estritamente teológica, embora dele surjam necessariamente consequências políticas, econômicas e culturais.
Com este esclarecimento, voltemos à carta de Francisco, que conclui dizendo: “Peço que rezem por mim, enquanto eu asseguro minha oração a vocês, confiando na possibilidade de poder aprofundar os laços de estima e de amizade recíproca”. Somos forçados a constatar que aqui chegamos ao cume no âmbito do absurdo. Com efeito, como é possível imaginar que a oração dos que estão, segundo São João, sob o império de Satanás, poderia ser atendida por Deus? E em boa lógica, se os judeus aceitassem rezar pelo papa – coisa inimaginável, considerando que a missão daqueles se opõe diametralmente à deste – se veriam obrigados a pedir sua apostasia do Cristianismo e sua conversão ao judaísmo. Ou seja, Francisco implicitamente estaria pedindo-lhes nada menos que rezassem para que ele pudesse rejeitar Nosso Senhor Jesus Cristo, tal como eles o fazem! Na realidade, se esta questão não revestisse uma gravidade inaudita, estaríamos diante de uma gague desopilante por suas incongruentes e grotescas implicações. E isto sem mencionar os laços de “amizade recíproca” que Francisco evoca na conclusão de sua mensagem, já que a incoerência desta expressão não é menos flagrante que a da anterior.
Expliquemo-nos: um amigo é um alter ego, um outro eu, de onde decorre que a verdadeira amizade não é viável se os amigos não possuem uma correspondência de pensamentos, de sentimentos e de objetivos que torne possível a comunhão das almas. Pois bem, os pensamentos e a ação da Igreja e da Sinagoga são, como já dissemos, diametralmente opostos; seus projetos são incompatíveis, a oposição que existe entre elas é radical, de sorte que, enquanto os judeus insistirem em não aceitar Cristo como o seu Messias e Salvador, a inimizade entre ambas permanecerá irredutível, por razões teológicas evidentes, do mesmo modo que o são a luz e as trevas, Deus e Satanás, Cristo e o Anticristo… Com este tipo de desejos pisamos no solo do terreno da utopia, do sentimentalismo humanista, da negação da realidade e, sobretudo, na falsificação da linguagem e na perversão dos conceitos: encontramo-nos plenamente na esfera da ilusão, da manipulação intelectual e da mentira. Mentira da qual sabemos seguramente quem é o pai…
Monsenhor Jorge Mario Bergoglio, quando era arcebispo de Buenos Aires e cardeal primaz da Argentina, tinha já o mui peculiar costume de acudir regularmente a sinagogas para participar em encontros ecumênicos, o último dos quais remonta ao dia 12 de dezembro de 2012, apenas três meses antes de sua eleição pontifical, por ocasião da celebração de Hanukkah, a festa das luzes, na qual se acende a cada noite uma vela em um candelabro de nove braços durante oito dias consecutivos; liturgia cujo significado é, do ponto de vista espiritual, a expansão do culto judaico. O cardeal Bergoglio participou ativamente na cerimônia do quinto dia, acendendo a vela correspondente. Não é preciso dizer que evento semelhante jamais se produziu na história da Igreja. E que constitui um fato altamente perturbador, embora não pareça ser menos inquietante o fato de que este tipo de gestos escandalosos passe completamente despercebido pela imensa maioria dos católicos, profundamente letárgica, imbuída até a alma do pensamento revolucionário que causa danos à Fé e debilita o sensus fidei dos fiéis, compenetrados da ideologia pluralista, humanista, ecumênica, democrática e direito-humanista que seus pastores lhes inculcam sem cessar há mais de meio século, ideologia que é totalmente estranha ao depósito da Revelação e que se tornou o leitmotiv dos discursos oficiais da hierarquia eclesiástica desde o Vaticano II.
Para concluir este aparato, eis aqui um pequeno extrato do que Bergoglio dizia aos judeus em outra sinagoga de Buenos Aires, Bnei Tikva Slijot, em setembro de 2007, durante sua participação na cerimônia de Rosh Hashanah, o ano novo hebreu: “Hoje, aqui nesta sinagoga, tomamos novamente consciência de ser povo a caminho e nos colocamos na presença de Deus. Paramos em nosso caminho para olhá-lo e nos deixarmos olhar por Ele”. Que interpretação pode ser atribuída ao “nós” empregado por Bergoglio? Que realidade quisera designar utilizando a palavra “Deus”? Em todo caso, dado o contexto, não poderia designar a Deus Pai, pois senão seria óbvio que os judeus não rejeitariam o Filho. Com efeito, Nosso Senhor lhes disse: “Se Deus fosse o vosso Pai, vós me amaríeis, porque eu saí e vim de Deus (…). Vós tendes por pai o Diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai (…). Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso vós não as ouvis, porque não sois de Deus” (Jo. 8, 42-47). Feito ainda mais surpreendente, durante seu extenso discurso pronunciado nessa sinagoga da capital argentina, quem na época não era “senão” Monsenhor Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires e cardeal primaz da Argentina, não se dignou a pronunciar nem sequer uma vez o Santo Nome de Jesus…
3. Francisco e a laicidade do Estado
Em primeiro lugar, é mister ter presente em que consiste o chamado princípio de laicidade: trata-se da pedra angular do pensamento iluminista, pela qual Deus é excluído da esfera pública e o Estado é emancipado da revelação divina e do magistério eclesiástico no exercício de suas funções, estando assim habilitado para atuar de maneira totalitária, ao negar-se a admitir toda instância moral superior capaz de esclarecê-lo intelectualmente e de orientá-lo moralmente em sua ação, seja tratando-se da lei natural, da lei divina ou da lei eclesiástica. O Estado moderno se concebe a si mesmo como absolutamente desligado de qualquer tipo de transcendência espiritual ou ética à qual submeter-se a fim de estabelecer e conservar sua legitimidade. Deste modo, o Estado liberal não reconhece outra legitimidade que não seja a emanada da vontade geral, que se funda unicamente na lei positiva que os homens se dão a si mesmos. A separação Igreja-Estado é o resultado lógico deste princípio, pelo qual se exonera a sociedade politicamente organizada de render a Deus o culto público que lhe é devido, de respeitar a lei divina em sua legislação e de submeter-se ao ensinamento da Igreja em matéria de fé e moral. Esta suposta independência do poder temporal em relação ao poder espiritual não deve confundir-se com a legítima autonomia da qual a sociedade civil goza em relação à autoridade religiosa em seu próprio âmbito de ação, isto é, na busca do bem comum temporal, o qual por sua vez está ordenado à busca do bem comum sobrenatural, a saber, a salvação das almas. Esta é a doutrina tradicional da distinção dos poderes espiritual e temporal, e da subordinação indireta deste em relação àquele. A laicidade viola a ordem natural existente entre ambos os poderes e erige o Estado em poder absoluto, transformando-o assim em uma maquinaria de guerra com o objetivo de descristianizar as instituições, as leis e a sociedade em seu conjunto. O grande artesão da pretendida neutralidade religiosa do Estado é a franco-maçonaria, inimigo jurado da civilização cristã. Dita neutralidade não é mais que uma fraude, dado que o poder temporal é incapaz de prescindir de uma instância espiritual de ordem superior que lhe forneça os princípios morais que regram sua atividade. O Estado laico não é neutro senão em aparência, uma vez que recebe seus princípios orientadores em matéria espiritual e moral dessa contra Igreja que é a franco-maçonaria: “A laicidade é a pedra preciosa da liberdade. A pedra pertence a nós, maçons. Recebemo-la em estado bruto; esculpimo-la progressivamente e nos é preciosa porque nos servirá para edificar o templo ideal, o futuro deleitoso do homem, do qual desejamos que ela seja o único senhor” (La laïcité: 1905-2005, Edimaf, 2005, p. 117, publicado pelo Grande Oriente de França em comemoração do centenário da lei de separação Igreja-Estado de 1905).
Tendo feito este lembrete básico, sem o qual se pode perder de vista as implicaç

ões cruciais associadas a este assunto, examinemos a posição de Francisco a este respeito. Em um discurso dirigido à classe dirigente brasileira em 27 de julho, durante o transcurso das Jornadas Mundiais da Juventude, celebradas no Rio de Janeiro, Francisco fez um elogio entusiasta da laicidade e do pluralismo religioso, a ponto de regozijar-se pela função social desempenhada pelas “grandes tradições religiosas, que desempenham um papel fecundo de fermento da vida social e de animação da democracia”, para continua dizendo que “a laicidade do Estado (…) sem assumir como própria nenhuma posição confessional, respeita e valoriza a presença do fator religioso na sociedade”. Laicismo, pluralismo, ecumenismo, relativismo religioso, democratismo: o número e a grandeza dos erros contidos nessas poucas palavras, condenados formalmente e em múltiplas ocasiões pelo magistério, requereria uma prolongada exposição que excederia amplamente os limites deste artigo. Para aqueles que queiram aprofundar-se na doutrina católica sobre o assunto, eis aqui os documentos essenciais: Mirari Vos (Gregório XVI, 1832); Quanta Cura, com o Syllabus (Pio IX, 1864); Immortale Dei e Libertas (Leão XIII, 1885 e 1888); Vehementer Nos e Notre Charge Apostolique (São Pio X, 1906 e 1910); Ubi Arcano e Quas Primas (Pio XI, 1922 e 1925); Ci Riesce (Pio XII, 1953).

Leiamos, à guisa de exemplo, uma passagem da encíclica Quas Primas, pela qual Pio XI instituiu a solenidade de Cristo Rei: “Com a celebração ânua desta festa hão de relembrar-se, outrossim, os Estados que aos governos e à magistratura incumbe a obrigação, bem assim como aos particulares, de prestar culto público a Cristo e sujeitar-se às suas leis. Lembrar-se-ão também os chefes da sociedade civil do juízo final, quando Cristo acusará aos que o expulsaram da vida pública, e a quantos, com desdém, o desprezaram ou desconheceram; de tamanha afronta há de tomar o Supremo Juiz a mais terrível vingança; seu poder real, com efeito, exige que o Estado se reja totalmente pelos mandamentos de Deus e os princípios cristãos, quer se trate de fazer leis, ou de administrar a justiça, quer da educação intelectual e moral da juventude, que deve respeitar a sã doutrina e a pureza dos costumes”. A leitura desse texto do magistério permite compreender que o Estado laico – supostamente neutro, não confessional, incompetente em matéria religiosa e outras falácias do gênero – não é mais que uma aberração filosófica, moral e jurídica moderna, uma monstruosidade política, uma mentira ideológica que pisoteia a lei divina e a ordem natural. A distinção, sem separação, dos poderes temporal e espiritual é algo muito diferente da pretendida independência do temporal em relação ao espiritual, em relação a Deus, à Igreja, à lei divina e à lei natural: isso tem nome, e se chama a apostasia das nações. Esta apostasia é o fruto maduro do Iluminismo, da franco-maçonaria, da Revolução Francesa e de todas as seitas infernais que dela procedem (liberalismo, socialismo, comunismo, anarquismo etc.). Esses são os inimigos implacáveis de Deus e de sua Igreja, que alcançaram seu diabólico objetivo de destruir inteiramente a sociedade cristã e de erigir em seu lugar a cidade do homem sem Deus, criatura insensata embriagada pela falaz autonomia da qual pretende gozar em relação a Deus: nele [no homem sem Deus] reside o aspecto essencial do que tem sido chamado de modernidade, apesar de seus rostos variados e multiformes, cujo desenlace, por fim, não pode ser outro que o do reino do Anticristo. Esta figura escatológica do homem ímpio conduzirá inelutavelmente a sociedade moderna, secularizada e apóstata, ao paroxismo de sua revolta contra tudo que se encontra acima de sua própria vontade autônoma e soberana, da qual já nos oferece as aziagas primícias: pensemos – para citar um punhado de exemplos representativos – nessas aberrações inimagináveis que são o matrimônio homossexual, a adoção homoparental, o direito ao aborto, a legalização da indústria pornográfica, a escola sem Deus mas com ideologia de gênero e educação sexual obrigatórias para corromper a infância e macular a inocência das pequenas almas… Personificação aterradora da criatura que entende fazer de sua liberdade, considerada como absoluta, a única fonte da lei e da moral; criatura imbuída de sua vacuidade ontológica e enceguecida por sua arrogância irrisória que pretende assombrosamente ocupar o lugar de Deus. Reitero que é nesta pretensão insensata da criatura de prescindir de seu Criador que radica a característica definidora da modernidade; é ela que constitui a raiz do mal moderno, desvario metafísico que se manifesta com uma atitude de redobramento do indivíduo sobre sua própria subjetividade, acompanhada pela rejeição categórica de uma ordem objetiva da qual deveria reconhecer duplamente a anterioridade cronológica e a superioridade ontológica, e à qual está chamado a submeter-se livremente para realizar plenamente sua humanidade. Esta atitude moderna se declina em múltiplas facetas: nominalismo, voluntarismo, subjetivismo, individualismo, humanismo, racionalismo, naturalismo, protestantismo, liberalismo, relativismo, utopismo, socialismo, feminismo, homossexualismo – das quais a raiz é sempre a mesma, a saber, o sujeito autônomo pretendendo emancipar-se da ordem objetiva das coisas e cujo desenlace trágico e inevitável é o projeto insano que tem como objetivo criar uma civilização que, depois de haver expulsado Deus da sociedade, se funde exclusivamente no livre arbítrio soberano do homem, convertido na fonte de toda legitimidade. E hoje, mais do que nunca, torna-se indispensável proclamá-lo aos quatro ventos: o princípio de laicidade constitui sua mais acabada encarnação e é sua figura emblemática: “No dia em que comerdes (do fruto proibido) se abrirão os vossos olhos, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gn. 3, 5) – sugeriu a serpente a Eva, quem, dando mostra de uma grande abertura mental e de uma sincera adesão ao pluralismo religioso, se adentrou com maturidade e confiança em um diálogo mutuamente enriquecedor com seu respeitável interlocutor… O desenlace é bem conhecido e certamente fatal para a humanidade: Adão e Eva terminaram comendo, encontraram-se desnudos, foram castigados por Deus e expulsos do Paraíso. As velhas nações europeias que conformavam a Cristandade também comeram do fruto, desta vez chamado Direitos Humanos, Democracia e Laicidade. E agora encontram-se desnudas. Quanto ao castigo, inelutavelmente, acabará chegando, cedo ou tarde: “Vi subir do mar uma besta que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre os seus chifres dez diademas, e sobre as suas cabeças um nome de blasfêmia (…). Foi-lhe permitido fazer guerra aos santos, e vencê-los; e deu-se-lhe poder sobre toda a tribo, e língua, e nação” (Ap. 13, 1/7). Mas o Anticristo, “o homem ímpio, o filho da perdição” (2 Tes. 2, 3) não chegará sozinho: será precedido por um falso profeta, paródia diabólica do papel precursor que outrora exercera São João Batista dispondo os corações para a chegada iminente do Messias: “E vi subir da terra outra besta, e tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro; e falava como o dragão” (Ap. 13, 11). As duas bestas, a do mar e a da terra, o Anticristo e o Falso Profeta, são indissociáveis, do mesmo modo que o são o poder temporal e o poder espiritual na sociedade. Em regime cristão, os dois poderes cooperavam a fim de fazer respeitar a lei divina na sociedade. Mas, no caso que nos ocupa, os
dois poderes mudaram de sentido e se dedicaram ao serviço de Satanás, a segunda besta – o poder religioso prevaricador – abrindo o caminho à primeira e induzindo os homens a que se lhe submetam: “E fazia a terra e seus habitantes adorarem a primeira besta” (Ap. 13, 12). A primeira besta representa o poder temporal apóstata, o do regime democrático laico e secularizado, inimigo de Deus, poder mundano que um dia será ostentado por uma pessoa concreta, o Anticristo. A segunda besta, por sua parte, representa o poder religioso corrompido, à cabeça do qual se encontrará também um dia uma pessoa concreta, o falso profeta ou Anticristo religioso. Quão longe se encontra a época em que veremos desdobrar-se diante de nossos olhos atônitos o cumprimento destas profecias? Não é fácil ter certezas de ordem prática neste terreno, nem, portanto, dar uma resposta categórica. No entanto, não é arriscado sustentar que quando o novo papa louva apaixonadamente a laicidade do Estado, seguindo nisto o exemplo de seus predecessores e conformando-se ao magistério pós-conciliar, a necessidade de escutar as profecias que acabamos de expor cobra uma urgência manifesta.

II parte:

4. A ideologia homossexual
Durante uma coletiva de imprensa dada em 29 de julho de 2013 no voo entre Rio de Janeiro e Roma, de regresso das JMJ, Francisco pronunciou a seguinte frase: “Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”. Frase extremamente ambígua e perturbadora, já que o termo “gay” não designa genericamente aos homossexuais, mas especialmente àqueles que reivindicam publicamente a “cultura” e o estilo de vida da impureza contranatural. Por que utilizou uma palavra que gera confusão, totalmente estranha ao vocabulário católico e tomada justamente do jargão do lobby gay, endossando deste modo, indiretamente, sua linguagem subversiva e manipuladora? Por que não se apressou a acrescentar, para evitar mal-entendidos, que embora não se deve julgar moralmente a pessoa que padece nesta tendência, a passagem ao ato, no entanto, constitui um comportamento gravemente desordenado no plano moral? Surpreendentemente, não o fez, e naturalmente, no dia seguinte, a esmagadora maioria da imprensa mundial intitulou o artigo dedicado à atípica coletiva de imprensa pontifical retomando textualmente a pergunta formulada por Francisco (“Quem sou eu para julgar?”). Poderá falar-se de imperícia vinda de alguém que domina com perfeição a arte da comunicação mediática? É difícil de acreditar… E ainda se assim fosse, o contexto exigia eliminar todo risco de ambiguidade, indicando imediatamente os detalhes do caso. Mas os detalhes jamais chegaram. Nem durante a coletiva de imprensa, nem depois. Nem de sua boca, nem da do serviço de imprensa do Vaticano. Enquanto isso, a imprensa mundial se regozijava impudicamente com a infeliz saída bergogliana…

Na extensa entrevista concedida por Francisco às revistas culturais jesuítas nos dias 19, 23 e 29 de agosto e publicada no L’Osservatore Romano em 21 de setembro, poderia ter sido suposto que Francisco não deixaria passar a oportunidade para esclarecer esta espinhosa questão, dando fim às polêmicas que suas desafortunadas declarações haviam suscitado e dissipando drasticamente a confusão e a inquietude generalizada que haviam provocado. Vejamos se aproveitou a ocasião para fazê-lo: “Em Buenos Aires, recebi cartas de pessoas homossexuais que estavam ‘socialmente feridas’ porque me diziam que a Igreja sempre os tinha rejeitado. Mas essa não é a intenção da Igreja. No avião de regresso do Rio de Janeiro, disse: ‘Se um gay busca Deus, quem sou eu para julgá-lo’. Ao dizer isso, disse o que indica o Catecismo [da Igreja Católica]. A religião tem o direito de expressar suas próprias opiniões a serviço das pessoas, mas Deus na criação nos fez livres: não é possível uma ingerência espiritual na vida pessoal. Uma vez uma pessoa, para me provocar, me perguntou se eu aprovava a homossexualidade. Eu então lhe respondi com outra pergunta: ‘Diga-me, Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou a rechaça e a condena?’. Sempre é preciso ter em conta a pessoa. E aqui entramos no mistério do ser humano. Nesta vida, Deus acompanha as pessoas e é nosso dever acompanhá-las a partir de sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia. Quando isto acontece, o Espírito Santo inspira ao sacerdote a palavra oportuna”. Há muito que dizer sobre estas declarações. Muito, para utilizar um eufemismo, exceto que se destaquem por sua claridade. Por uma questão de concisão, só farei algumas observações:
1. Contrariamente ao que afirma, seus ditos brilham por sua ausência no Catecismo. Neste se encontra claramente exposta a doutrina da Igreja (§ 2357 a 2359), precisamente o que Francisco não fez na entrevista, durante a qual cultivou a ambiguidade, usou uma linguagem demagógica e acrescentou ainda mais confusão.
2. É inconcebível escutá-lo dizer que “a religião tem o direito de expressar suas próprias opiniões a serviço das pessoas”. Perdão: A religião? Qual? Ou acaso trata-se das religiões em geral, isto é, das “grandes tradições
religiosas, que desempenham um papel fecundo de fermento da vida social e de animação da democracia”? Linguagem surpreendente na boca de quem se encontra sentado no trono de São Pedro… Por que não dizer simplesmente “a Igreja”? E, sobretudo, corresponde proclamar de forma inequívoca que a Igreja não expressa de nenhuma maneira “sua opinião”; Ela instrui as nações, em conformidade com a ordem que recebera de seu Divino Mestre: “Ide e ensinai a todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar tudo o que vos prescrevi” (Mt. 28, 19-20).
3. E logo a seguir acrescenta: “mas Deus na criação nos fez livres: não é possível uma ingerência espiritual na vida pessoal”. Ambiguidade sibilina, característica detestável vinda de quem recebeu a missão de “ensinar às nações”, mas que já é clássica nos lábios de Francisco… Porque se o homem pode, em virtude de seu livre arbítrio, negar-se a obedecer à Igreja, não é, no entanto, moralmente livre para fazê-lo: a Igreja recebeu de Jesus Cristo o poder de obrigar as consciências de seus fiéis (cf. Mt. 18, 15-19). Pretender que “não é possível uma ingerência espiritual na vida pessoal” equivale a divinizar a consciência individual e a fazer dela um absoluto: estamos diante do princípio fundamental da religião humanista e maçônica de 1789: “Ninguém deve ser inquietado por suas opiniões, inclusive religiosas” (Declaração dos direitos do homem e do cidadão, artigo X). Esta liberdade de consciência falaz e revolucionária foi condenada pelo magistério da Igreja: Gregório XVI afirmou que pretender “garantir a cada um a liberdade de consciência” não só é absurdo como também “um delírio” (Mirari Vos, 1832).
4. Finalmente, o fato de responder a uma pergunta (aprovava a homossexualidade?) com outra pergunta – o que é, aliás, de um hermetismo pouco comum – é indigno daquele a quem foi confiada a tarefa de ensinar à universalidade dos fiéis. Resposta na qual se encontra novamente esta ambiguidade exasperante que o caracteriza, aqui ao não distinguir entre a condenação do pecado e a do pecador, e dando a entender que o fato de “aprovar a existência” (sic!) do pecador tornaria inútil a reprovação que seu ato pecaminoso exige. No entanto, Nosso Senhor nos ensinou a falar de outro modo: “Que vossa linguagem seja sim, sim; não, não; todo o resto provém do Maligno” (Mt. 5, 37).
Mas retornemos à nossa coletiva de imprensa aérea, depois da celebração das JMJ no Rio de Janeiro. Francisco acrescentou que essas pessoas “não devem ser discriminadas, mas integradas na sociedade”. Perdão, mas a que pessoas alude? Àquelas que sem pudor algum se proclamam “gay” ou às que, padecendo sem culpa de sua parte a mortificante inclinação contranatural, se esforçam meritoriamente por viver decentemente? Uma ambiguidade suplementar que naturalmente permanecerá sem esclarecimento do Vaticano, mas cuja interpretação “progressista” abandonada aos “meios de informação massiva” será a que se imporá massivamente no imaginário coletivo. Na realidade, há algo pior que a recorrente ambiguidade bergogliana presente nesta afirmação e que se manifesta nesse dilema não resolvido. Refiro-me a que suas palavras não só cultivam a ambiguidade, elemento suficiente para questioná-las, mas que são pura e simplesmente falsas. Elas se inscrevem no marco da ideologia igualitarista da luta “contra as discriminações” promovida pelos partidários do feminismo e do homossexualismo, genuína maquinaria de combate a serviço da legitimação de quanta aberração o partido do “progresso” se esmera em confeccionar, principalmente o infame “matrimônio” homossexual. E onde reside a falsidade? No fato de que, inclusive no segundo caso do dilema, é perfeitamente legítimo e razoável efetuar certas discriminações que, atendendo ao bem comum social, marginalizam essas pessoas em determinados contextos. E isso é, por exemplo, o que a Igreja sempre fez no tocante ao sacerdócio, à vida religiosa e à educação das crianças. Nem é preciso dizer que ditas discriminações são mais legítimas ainda quando se trata de pessoas que, além de padecer nesta tendência desordenada, levam uma vida homossexual ativa, ainda que de maneira discreta, e, a fortiori, se tiver que lidar com quem exibe pública e desavergonhadamente seus maus costumes, reivindicando orgulhosamente seus fantásticos direitos: refiro-me aos “gays”, para empregar o atípico vocabulário bergogliano, certamente inusitado na linguagem de um sucessor de São Pedro. Os indivíduos pertencentes a esta última categoria, a dos ideólogos da causa homossexual – por exemplo, os organizadores das Gay Pride Parades (Paradas do Orgulho Gay) e os militantes de associações subversivas do estilo da Act-Up – têm tanto menos direito a ser “integrados na sociedade” quanto que justamente deveriam ser excluídos dela sem contemplações; os acólitos da seita LGBT possuem tanto menos o direito a ver-se isentos de “toda forma de discriminação” quanto que deveriam precisamente ver-se privados de liberdade e apartados sem constrangimento da vida social por atentado contra o pudor e corrupção da juventude.
Retomando o fio da coletiva pontifical em pleno voo, assistimos atordoados à prossecução do estranho discurso de Francisco diante de um auditório cativado por sua desarmante espontaneidade e pelo tenor altamente mediático de suas palavras: “O problema não é ter essa tendência (…). O problema é o lobby dessas tendências (…). Esse é o principal problema”. Desafortunadamente, esta asseveração é perfeitamente gratuita e não resiste à menor análise: que o fato de possuir essa tendência constitua um grave problema de ordem psicológica e moral para a pessoa afetada, assim como um sério motivo de inquietude para seu ambiente, é algo indiscutível. E pretender que a homossexualidade não seja algo problemático, mas somente o fazer “lobbying”, é uma falácia notória que contribui para trivializar a homossexualidade e torná-la aceitável. Por último, é mister afirmar que, contrariamente ao que sustenta Francisco, nenhum lobby é intrinsecamente perverso. Efetivamente, dado qu

e um lobby é “um grupo organizado para atingir determinados objetivos ou para defender determinados interesses” (Priberam), ele será bom na medida em que combata por causas justas e será mau quando o faça por causas injustas. Para dar um exemplo, as ações conduzidas pelos grupos feministas em favor do aborto são reprováveis, enquanto que as realizadas pelos grupos pró-vida em sua luta contra a legalização de dito crime são louváveis. Todas estas declarações de Francisco são particularmente agravadas pelo contexto internacional no qual se produzem, a saber, em meio a uma violenta batalha cultural entre partidários e opositores do “matrimônio” homossexual, que se estende como rastilho de pólvora em escala planetária. É difícil atribuí-las somente a eventuais imprecisões de linguagem, assim como tampouco parece possível negar a cumplicidade objetiva de suas palavras com os propósitos manifestos do lobby gay: a normalização da homossexualidade e a legitimação de suas insustentáveis reivindicações sociais. Essas declarações têm semeado confusão entre os católicos e favorecido objetivamente os inimigos de Deus, que lutam encarniçadamente para que se aceitem os supostos “direitos” dos homossexuais no interior da Igreja e na sociedade civil. Prova irrefutável disso é que a mais influente publicação da comunidade LGBT dos Estados Unidos, The Advocate, elegeu Francisco como a “Pessoa do ano de 2013”, desfazendo-se em louvores a ele por sua atitude de abertura e de tolerância para com os homossexuais [1].

Eis aqui, à guisa de ilustração, três casos que permitem tomar consciência da gravidade do contexto no qual se situam essas desafortunadas declarações. Elas foram produzidas apenas dois meses depois de o cardeal Angelo Bagnasco, presidente da Conferência Episcopal Italiana, celebrar em Gênova as exéquias de Don Gallo, famoso sacerdote comunista e anarquista, adepto ao aborto e defensor incondicional da causa homossexual, durante as quais fez um panegírico seu e autorizou que dois transexuais fizessem apologia à ideologia LGBT na leitura da “oração universal”, durante a qual agradeceram ao clérigo apóstata por tê-los ajudado a “sentir-se criaturas transgênicas (sic) desejadas e amadas por Deus”; momentos depois, o cardeal distribuiu a comunhão a esses dois transexuais, profanando assim as santas espécies eucarísticas, escandalizando gravemente os fiéis e semeando a confusão nas almas. Mais inquietante ainda: não houve nenhuma reação oficial do Vaticano reprovando os fatos. É importante ressaltar que Don Gallo exercia seu “ministério pastoral” com total impunidade, sem jamais haver sido importunado nem sancionado pela hierarquia eclesiástica. E cabe acrescentar que os funerais foram oficiais, celebrados com grande pompa, nada menos que pela figura mais destacada do episcopado italiano, com homilia ditirâmbica incluída.
Outro fato sintomático, selecionado entre muitos outros: a Pontifícia Universidade São Francisco Xavier de Bogotá, na Colômbia, fundada e dirigida por jesuítas, há doze anos organiza anualmente um “Ciclo Rosa Acadêmico”, que fomenta descaradamente o estilo de vida gay. Em 2013, pela primeira vez, ia ter lugar nas instalações da universidade, de 28 a 30 de agosto. Isso provocou uma importante reação de leigos escandalizados que, graças a uma ação digna de um autêntico “lobby” católico, forçara a universidade a buscar outro lugar para organizar seu imundo colóquio de degenerados. Não é preciso dizer que não foi registrada nenhuma sanção contra os organizadores do infame evento da parte das autoridades universitárias. Algo que não é necessário dizer, na era do culto ao “diálogo” com o erro e em tempos de exaltação do “pluralismo” ideológico… E esta impunidade dura já doze longos anos. Nenhuma sanção sequer da parte da Conferência Episcopal Colombiana. É desnecessário ressaltar o silêncio absoluto do Vaticano. É interessante destacar a reação do reitor da universidade, padre Joaquín Emilio Sánchez: ela foi imediata e sumamente edificante. Com efeito, em um áspero comunicado de imprensa dirigido à “comunidade educativa”, registrou sua indignação diante da “violação da legítima autonomia universitária”, declarando que “nenhuma discriminação seria tolerada”, e advertiu ameaçadoramente os seus adversários: “atualmente, tomamos as providências necessárias ante as autoridades competentes para que uma situação tão irregular e dolorosa como a que vivemos por ocasião do ‘Ciclo Rosa’ não se repita nunca mais”. Por outro lado, o padre Carlos Novoa, antigo reitor da universidade, professor titular de teologia moral e titular com doutorado em “ética sexual”, promotor descarado do aborto, sustentou que a medida “testemunha um retorno da Inquisição em um setor da Igreja católica e é a resultante de grupos obscurantistas e fanáticos”. Sua posição pública contrária ao ensinamento do magistério eclesial não lhe arrecadou nenhuma sanção da parte da hierarquia de seu país e menos ainda das autoridades da citada universidade “pontifícia”. Este sacerdote continua exercendo afanosamente seu “ministério pastoral” e dispensando com afinco seu “ensinamento universitário” a estudantes que, imaginando receber uma educação católica, são objeto de uma perversão sistemática de suas inteligências.
Terceiro e último exemplo: o da Universidade Católica de Córdoba, na Argentina, que também é dirigida por jesuítas. Em uma entrevista publicada em 12 de agosto de 2013, o padre Rafael Velasco, reitor desde 2005, grande especialista em “Direitos Humanos”, em meio a uma litania de sentenças heterodoxas, nos deu a honra de nos fazer participar de sua profunda visão teológica: “Se a Igreja quer ser um sinal do fato de que Deus está próximo de todos, o que deve fazer, antes de tudo, é não excluir ninguém. Deve encarar reformas muito importantes: os divorciados têm de ser admitidos à comunhão; os homossexuais, quando vivem de maneira estável com seus companheiros, também deveriam poder comungar. Dizemos que a mulher é importante, mas a excluímos do ministério sacerdotal. Esses são sinais que seriam mais compreensíveis”.
Esses três casos, tomados de uma interminável lista de situações similares, ilustram cabalmente o progresso contínuo, consentido e alentado da ideologia homossexual e da “ideologia de gênero” no interior da Igreja. E é justamente nesse contexto alarmante de avanço permanente e irrefreável das ideias LGBT, tanto na sociedade civil como no seio do clero, que se inscrevem essas palavras inauditas de Francisco em uma coletiva de imprensa internacional em pleno voo, à guisa de broche de ouro, de toque final das arquimediáticas JMJ do Rio de Janeiro: “Quem sou eu para julgar uma pessoa gay?”. Francamente, devo admitir que isto se assemelha a um pesadelo indescritível do qual desejaria despertar-me o quanto antes…
5. Francisco e a maçonaria
Em 1999, o cardeal Bergoglio foi eleito membro honorário do Rotary Club da cidade de Buenos Aires. Em 2005, recebeu o prêmio anual que o Rotay atribui ao “homem do ano”, o Laurel de Prata. Esta entidade, fundada em 1905 na cidade de Chicago, EUA, pelo maçom Paul Harris, é uma associação cujos vínculos com a franco-maçonaria são de conhecimento público: é um viveiro de maçons e o marco no qual se desenvolvem suas iniciativas de “caridade”. Uma porcentagem importante de rotarianos pertence às lojas, a tal ponto que o Rotary, junto com o Lions Club, é considerado o átrio do templo maçônico. Eis aqui o que dizia o bispo de Palência, Espanha, em uma declaração oficial: “O Rotary professa um laicismo absoluto, uma indiferença religiosa universal, e busca moralizar as pessoas e a sociedade por meio de uma doutrina radicalmente naturalista, racionalista e, inclusive, ateia” (Boletim eclesiástico do bispado de Palência, nº 77, 1/9/1928, p. 391). Esta condenação foi confirmada por uma declaração solene do arcebispo de Toledo, cardeal Segura y Sáenz, primaz da Espanha, em 23 de janeiro de 1929. Duas semanas mais tarde, a Sacra Congregação Consistorial proibiu a participação dos sacerdotes em reuniões rotarianas, em qualidade tanto de membros como de convidados: é o célebre “non expedire” de 4 de fevereiro de 1929. Esta proibição seria reiterada por um decreto do Santo Ofício de 20 de dezembro de 1950.
No dia da eleição pontifical do cardeal Bergoglio, em 13 de março de 2013, o grão-mestre da franco-maçonaria argentina, Ángel Jorge Clavero, rendeu tributo ao novo pontífice saudando-o calorosamente. A loja maçônica judaica B’nai B’rith fez o mesmo: “Estamos convencidos de que o novo papa Francisco continuará trabalhando com determinação para reforçar os laços e o diálogo entre a igreja católica e o judaísmo e continuará na luta contra todas as formas de antissemitismo”, declarou a loja francesa, enquanto que a argentina asseverou reconhecer em Francisco “um amigo dos judeus, um homem dedicado ao diálogo e comprometido com o encontro fraterno”, e garantem estar convencidos de que durante o seu pontificado “conservará o mesmo compromisso e poderá pôr em prática suas convicções no caminho do diálogo inter-religioso”. O diretor de assuntos inter-religiosos da B’nai B’rith, David Michaels, assistiu à cerimônia de investidura do novo papa, em 19 de março, e no dia seguinte participou da audiência concedida por Francisco aos líderes das diferentes religiões na Sala Clementina. Haviam se reunido dezesseis personalidades judaicas em representação de oito organizações judaicas internacionais, entre as quais se encontrava o rabino David Rosen, diretor do Comitê Judaico Americano (American Jewish Committee), que declarou, em uma entrevista concedida à agência Zenit, que desde o Concílio Vaticano II “houve uma transformação revolucionária no ensino da Igreja e no seu enfoque em relação aos judeus, ao judaísmo e a Israel”.
No dia seguinte à sua eleição, o Grande Oriente da Itália emitiu um comunicado no qual o grão-mestre Gustavo Raffi dizia que “com o Papa Francisco, nunca mais nada será como antes. Esta eleição foi uma aposta indiscutível da fraternidade por uma Igreja de diálogo, não contaminada pela lógica nem pelas tentações do poder temporal (…). Nossa esperança é a de que o pontificado de Francisco marque o regresso da Igreja-Palavra no lugar da Igreja-Instituição, e que ele promova o diálogo com o mundo contemporâneo (…) seguindo os princípios do Vaticano II (…). Tem a grande oportunidade de mostrar ao mundo o rosto de uma Igreja que deve recuperar o anúncio de uma nova humanidade, não o peso de uma instituição que defende seus privilégios”. Em 16 de março, em um novo artigo do Grande Oriente da Itália, desta vez anônimo, o leitor fica sabendo de que existem três visões diferentes nos membros desta obediência maçônica: a dos que são céticos quanto ao progressismo de Francisco, a dos que preferem guardar um cauto silêncio e julgá-lo mais tarde por seus atos e, finalmente, a dos que exibem a convicção de que será um papa “inovador e progressista, baseando-se no fato de que alguns Irmãos garantem haver contribuído indiretamente, no interior do Conclave, por intermédio de amigos fraternos, para a eleição de um homem capaz de regenerar a Igreja Católica e a sociedade humana em seu conjunto”. Esse ponto de vista é reforçado pelo fato de que o cardeal Bergoglio, durante o conclave de 2005, foi promovido pelo cardeal Carlo Maria Martini, cujo falecimento, em 31 de agosto de 2012, foi lembrado pelo Grande Oriente da Itália em um comunicado interno de 12 de setembro nos seguintes termos: “Agora que as celebrações retóricas e as condolências pomposas deram lugar ao silêncio e ao luto, o Grande Oriente da Itália saúda com afeto o Irmão Carlo Maria Martini, que partiu para o Oriente Eterno”. E em 28 de julho de 2013, por ocasião do decesso do cardeal Ersilio Tonini, maçom reconhecido, o grão-mestre Gustavo Raffi rendeu-lhe tributo dizendo que chora “pelo amigo, pelo homem do diálogo com os maçons, pelo mestre do Evangelho social. Hoje a humanidade é mais pobre, como o é igualmente a Igreja Católi

ca”. Mas imediatamente depois se apressa a acrescentar que, a despeito dessa grande perda, “a Igreja do Papa Francisco é uma Igreja que promete ser respeitosa da alteridade, compartilhando a ideia de que o Estado laico favorece a paz e a coexistência das diferentes religiões”. A límpida homenagem tributada a Francisco pelo grão-mestre do Grande Oriente da Itália é um testemunho por demais inquietante em relação a seu pontificado. Como prova disso, e limitando-nos a tão somente um dos abundantes textos pontificais sobre a maçonaria, eis aqui o que dizia Leão XIII em sua encíclica Humanum Genus, de 20 de abril de 1884: “Nesta época, os partisans(guerrilheiros) do mal parecem estar se reunindo e combatendo com veemência unida, liderados ou auxiliados por aquela sociedade fortemente organizada e difundida, a sociedade dos franco-maçons. Não mais fazendo qualquer segredo de seus propósitos, eles estão agora abruptamente levantando-se contra o próprio Deus. Eles estão planejando a destruição da santa Igreja pública e abertamente, e isso com o propósito estabelecido de despojar completamente as nações da Cristandade, se isso fosse possível, das bênçãos obtidas para nós através de Jesus Cristo nosso Salvador”.

* * *
[1] Nota da tradução
A revista trouxe, na capa de sua edição de dezembro de 2013, uma imagem de Francisco com o “NOH8” inscrito em seu rosto, resultado de uma montagem fotográfica. “NOH8” quer dizer, em virtude da pronúncia em língua inglesa, “no hate” (nenhum ódio), e é o lema de uma campanha (NOH8 Campaign) oficialmente lançada nos EUA em fevereiro de 2011. Em seu site, lemos:
“Em 04 de novembro de 2008, foi aprovada na Califórnia a Proposição 8, que altera a Constituição do Estado para proibir o casamento homossexual. A derrota provocou uma onda de iniciativa dentro da comunidade LGBT em nível popular, com muitas novas organizações políticas e protestos sendo formados em resposta. A campanha NOH8 é um protesto fotográfico silencioso criado pelo fotógrafo de celebridades Adam Bouska e pelo seu parceiro Jeff Parshley em resposta direta à aprovação da Proposição 8. As fotos apresentam indivíduos com fita adesiva sobre a boca, simbolizando vozes sendo silenciadas pela Proposição 8 e pelas legislações similares em todo o mundo, com “NOH8” pintado na face em sinal de protesto. Cinco anos desde a sua criação, a Campanha NOH8 fotografou cerca de 33 mil rostos e continua a crescer a um ritmo exponencial”.

Parte III


 Um ano de pontificado, um ano de confusão
1. Na noite de sua eleição, Francisco apresentou-se como o “Bispo de Roma”, sem pronunciar a palavra “Papa”. Esse proceder, reiterado depois em várias ocasiões, foi confirmado pela nova edição do Anuário Pontifício, publicada em maio. Qualificando-se a si mesmo exclusivamente com o título de Bispo de Roma, e já não de Papa, Soberano Pontífice ou Vigário de Cristo, Francisco realiza um gesto inédito na história da Igreja, claramente revolucionário, que desfalca de maneira brutal a autoridade da Sé Romana.
2. Por ocasião das JMJ celebradas em julho de 2013 no Rio de Janeiro, Francisco declarou, durante uma entrevista concedida à televisão brasileira, que “se uma criança recebe sua educação dos católicos, dos protestantes, dos ortodoxos ou dos judeus, não importa. O que me importa é que a eduquem e saciem a sua fome”. Tais palavras não requerem comentário. Desde que, é claro, não tenha perdido a Fé.

3. Em 16 de março de 2013, no fim da audiência outorgada aos jornalistas do mundo inteiro na sala Paulo VI do Vaticano, Francisco lhes deu uma bênção totalmente atípica, uma “bênção silenciosa, respeitando a consciência de cada um”. Não se dignou a fazer o sinal da Cruz sobre a multidão de jornalistas nem a pronunciar o santo nome das Três Pessoas Divinas. O que Jesus nos ensinou situa-se nas antípodas dessa falsa noção de respeito: “É-me dado todo o poder no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado” (Mt 28, 18-20). Nosso Divino Mestre nos disse também: “Qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei também diante de meu Pai, que está nos céus. Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt. 10, 32-33). Falemos claramente: o “respeito da consciência” alegado por Francisco para dispensar-se de exercer sua suprema autoridade apostólica carece de todo fundamento bíblico, patrístico e magisterial. Trata-se de uma noção cuja origem se encontra nos “filósofos” do Iluminismo e que faz parte do ensinamento dado nas lojas maçônicas. Na encíclica Mirari Vos (1832), Gregório XVI afirma que da “fonte lodosa do indiferentismo promana aquela sentença absurda e errônea, digo melhor aquele disparate, que afirma e defende a liberdade de consciência, erro do mais contagioso (…) que certos homens, por um excesso de impudência, não hesitam em apresentar como vantajoso para a religião”.
4. Durante essa mesma audiência, Francisco disse que desejava “uma Igreja pobre para os pobres”. É um desejo inovador e completamente estranho ao ensinamento e à prática bimilenar da Igreja. “Maria, tomando um arrátel de unguento de nardo puro, de muito preço, ungiu os pés de Jesus, e lhe enxugou os pés com os seus cabelos; e encheu-se a casa do cheiro do unguento. Então, um dos seus discípulos, Judas Iscariotes, filho de Simão, o que havia de traí-lo, disse: – Por que não se vendeu este unguento por trezentos dinheiros e não se deu aos pobres?” (Jo. 12, 3-5).
5. Em 11 de setembro, Francisco recebeu em audiência privada o religioso peruano Gustavo Gutiérrez, sacerdote modernista, esquerdista e subversivo, quem deu origem ao nome “teologia da libertação” graças a seu livro homônimo publicado em 1971. Este “teólogo”, cúmplice dos movimentos marxistas e terceiro-mundistas latino-americanos comprometidos com a luta armada revolucionária, considera que a salvação cristã passa pela emancipação das servidões terrenas: “A criação de uma sociedade justa e fraterna é a salvação dos seres humanos, se por salvação entendemos o passo do menos humano ao mais humano. Não se pode ser cristão hoje sem um compromisso de libertação”, isto é, sem recorrer a uma práxis histórica marxista ordenada à emancipação revolucionária das massas “oprimidas” socialmente, no seio de uma “igreja popular” que, graças a sua “consciência de classe”, toma partido na luta dos pobres contra a classe opressora e contra a hierarquia eclesiástica. É interessante notar que na semana anterior o L’Osservatore Romano lhe havia consagrado um longo artigo por ocasião da publicação de um livro que havia co-escrito com Monsenhor Gerhard Müller, atual prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, intitulado “Da parte dos pobres, teologia da libertação, teologia da Igreja”.
6. No dia de sua eleição, antes de transmitir a bênção apostólica aos fiéis congregados na Praça São Pedro, Francisco pediu à multidão que rezasse primeiro por ele para que Deus o abençoasse. O simbolismo do gesto é claro: a bênção já não procede do alto, através do papa que recebeu sua investidura de direito divino, e que ele faz descer depois diretamente sobre os fiéis: encontramo-nos diante de um gesto que evoca os princípios democráticos revolucionários, segundo os quais o poder emana do povo, única fonte de legitimidade para o exercício da autoridade.
7. Durante sua homilia na Casa Santa Marta, no Vaticano, em 22 de maio de 2013, Francisco disse que o Senhor salvou “todos os homens” pelo Sangue de Cristo, e que deste modo se convertem em “filhos de Deus não só os católicos, mas todos, inclusive os ateus”. Gregório XVI, na encíclica citada anteriormente, censurava “o indiferentismo, essa perversa teoria espalhada por toda parte, graças aos enganos dos ímpios, e que ensina poder-se conseguir a vida eterna em qualquer religião, contanto que se amolde à norma do reto e honesto”.
8. Francisco organizou uma jornada de oração e jejum pela paz na Síria, o que é em si mesmo algo louvável. Desgraçadamente, este evento foi convocado seguinte o espírito do falso ecumenismo conciliar da Nostra Aetate e de Assis, uma vez que estende o convite “a todos os cristãos de outras confissões, aos homens e mulheres de cada religião, assim como aos irmãos e irmãs não crentes”. Isto se opõe diametralmente tanto à doutrina como à prática constante da Igreja até o Vaticano II. Eis aqui o que dizia Pio XI a respeito: “(…) Convocam, promiscuamente, a todos: pagãos de todas as espécies, fiéis de Cristo (…). Estes esforços não podem, de nenhum modo, ser aprovados pelos católicos, pois eles se fundamentam na falsa opinião dos que julgam que quaisquer religiões são, mais ou menos, boas e louváveis, pois, embora não de uma única ma

neira, elas alargam e significam de modo igual aquele sentido ingênito e nativo em nós, pelo qual somos levados para Deus e reconhecemos obsequiosamente o seu império. Erram e estão enganados, portanto, os que possuem essa opinião: pervertendo o conceito da verdadeira religião, eles repudiam-na (…). Daí segue-se claramente que quem concorda com os que pensam e empreendem tais coisas afasta-se inteiramente da religião divinamente revelada” (Mortalium Animos, 1928). Francisco prossegue dizendo que “a cultura do diálogo é o único caminho para a paz”. Pois bem, isto supõe uma concepção errônea da paz, fundada numa visão naturalista da vida e no relativismo religioso: estamos diante de uma utopia humanista e de um desconhecimento caracterizado da natureza humana real, decaída e redimida pelo Sangue de Cristo, redenção que se comunica aos homens através de seu Corpo Místico, a Igreja, fora da qual a humanidade, individual e socialmente considerada, permanece cativa do pecado e submetida ao império de Satanás. Em tais condições, falar de “diálogo” como o “único caminho para a paz” é um embuste grotesco e repulsivo. Perdoem-me a extensa citação que me vejo forçado a reproduzir para provar o que digo: “No dia em que Estados e governos considerarem ser um dever sagrado o atinar-se aos ensinamentos e às prescrições de Jesus Cristo em suas relações interiores e exteriores, só assim chegarão a gozar de uma paz proveitosa; manterão relações de confiança recíproca e resolverão pacificamente os conflitos que possam surgir. (…) Segue-se então que não poderá existir nenhuma paz verdadeira, a saber, a tão desejada paz de Cristo, se os homens insistirem em não seguir na vida pública e privada, com fidelidade, os ensinamentos, os preceitos e os exemplos de Cristo. Uma vez assim constituída ordenadamente a sociedade, possa por fim a Igreja, desempenhando sua divina missão, fazer valer todos e cada um dos direitos de Deus tanto sobre os indivíduos como sobre as sociedades. Nisto consiste a breve formula: o reino de Cristo (…). Tudo isso deixa claro que não há paz de Cristo sem o reino de Cristo” (Ubi Arcano, Pio XI, 1922). E também: “Se os homens reconhecessem a autoridade real de Cristo em sua vida particular e pública, imensos benefícios – uma justa liberdade, a ordem e a tranquilidade – se propagariam infalivelmente sobre toda a sociedade” (Quas Primas, Pio XI, 1925).

9. Por ocasião da cerimônia do lava-pés da Quinta-feira Santa, celebrada em um centro de detenção de menores de Roma, entre as pessoas que representavam os doze apóstolos havia mulheres e muçulmanos, o que infringe gravemente a tradição litúrgica, que sempre recorreu a homens batizados, já que as mulheres não são admitidas no sacerdócio cristão nem os infiéis nas cerimônias litúrgicas. A menos que se pretenda utilizar o culto divino como uma oportunidade de promover o feminismo e buscar transformar a santa liturgia em um espaço consagrado ao relativismo e ao indiferentismo religioso; a menos que se procure converter a Santa Missa em uma vulgar representação de humanitarismo miserabilista e demagógico, através de uma indigna operação de comunicação destinada ao serviço mediático planetário, sempre ávido do menor gesto “humanista” e “progressista” de Francisco… A Missa da Santa Ceia do Senhor não foi, pois, celebrada na basílica de São Pedro, nem na basílica de São João de Latrão, na presença do clero e dos fiéis romanos e dos peregrinos procedentes do mundo inteiro para assistir às festividades da Semana Santa, mas nada menos que num cárcere, lugar completamente inconveniente para uma ação litúrgica, na presença de uma maioria de não católicos, em uma cerimônia confidencial, inacessível para os fiéis… E como por casualidade, esse gesto insólito de ruptura com a tradição litúrgica teve lugar no dia em que a Igreja celebrava solenemente a instituição da Santa Eucaristia e do Sacerdócio por Nosso Senhor Jesus Cristo… Visitar os prisioneiros é certamente uma ação mui louvável, uma vez que é uma obra de misericórdia. No entanto, servir-se dela como pretexto para rebaixar o culto divino celebrando a Missa in Coena Domini em uma prisão, sem clero nem assembleia, sem pregação sobre a instituição da Eucaristia e do Sacerdócio cristão por Nosso Senhor, convidando a participar os infiéis na cerimônia, está muito longe de ser uma ação louvável: trata-se simplesmente de um sacrilégio. Fiéis, quase não havia. Fotos e imagens para a televisão, sim. E deram a volta ao mundo. Ao que tudo indica, a operação foi um sucesso.
10. Em 28 de agosto, Francisco recebeu na basílica de São Pedro um grupo de 500 jovens peregrinos da diocese de Piacenza-Bobbio. Ao final, pediu-lhes: “rezem por mim, porque este trabalho é insalubre, não faz bem”. A missão de pastor universal das almas, de vigário de Nosso Senhor Jesus Cristo na terra para “apascentar as suas ovelhas” (Jo. 21, 17) e para “confirmar seus irmãos na fé” (Lc. 22, 32) não constitui para ele mais que um trabalho, e ainda por cima, insalubre… Jamais se escutou um papa expressar-se nesses termos, nos quais a vulgaridade e o ridículo concorrem a uma dessacralização notória do ministério petrino.
11. Assim como a primeira missiva oficial de Francisco não teve por destinatários os católicos, mas os judeus de Roma, assim também sua primeira viagem oficial teve por beneficiários os adeptos de outra religião, optando por um deslocamento altamente simbólico e extremamente mediático, com sinais de manifesto ideológico. Com efeito, em 8 de julho foi a Lampedusa, em memória dos imigrantes clandestinos muçulmanos que se afogaram tentando alcançar essa ilha italiana vindos da África, no decorrer dos últimos quinze anos. E isso no mesmo instante em que a Europa, inteiramente descristianizada, observa como o islã se torna de maneira irresistível a religião preponderante, especialmente graças à imigração massiva de muçulmanos procedentes da África.
12. Na reportagem concedida às revistas culturais jesuítas no mês de agosto, organizada pelo padre Antonio Spadaro S.J., diretor da La Civiltà Cattolica, publicada no L’Osservatore Romano em 21 de setembro, Francisco expresso

u um ponto de vista totalmente inovador no que concerne a natureza da virtude teologal da Fé, asseverando que a dúvida e a incerteza deveriam fazer parte dela, sob pena de cair na “arrogância”, de encontrar um Deus que seria “à nossa medida”, de ter sobre Ele uma visão “estática e não evolutiva”, de ter de um modo exagerado a “segurança doutrinal”… Pode-se considerar honestamente que se trata, como de costume, da nossa parte, de uma enésima citação mal-intencionada, de caráter tendencioso e tomada fora de seu contexto? Eis aqui as declarações incriminadas: “Neste procurar e encontrar Deus em todas as coisas fica sempre uma zona de incertezas. Tem de ser assim. Se uma pessoa diz que encontrou Deus com certeza total e não aflora uma margem de incerteza, então não está bem (…). O risco no procurar e encontrar Deus em todas as coisas é, pois, a vontade de explicar demasiado, de dizer com certeza humana e arrogância: ‘Deus está aqui’. Encontraremos somente um Deus à nossa medida (…). Quem hoje procura sempre soluções disciplinares, quem tende de modo exagerado à ‘segurança’ doutrinal, quem procura obstinadamente recuperar o passado perdido, tem uma visão estática e não evolutiva. E deste modo a fé torna-se uma ideologia entre tantas”. Francisco reiterou a mesma ideia em sua Mensagem para a Jornada das comunicações sociais, apresentada em 24 de janeiro, na qual sustenta que “dialogar significa estar convencido de que o outro tem algo de bom para dizer, dar espaço ao seu ponto de vista, às suas propostas. Dialogar não significa renunciar às próprias ideias e tradições, mas à pretensão de que sejam únicas e absolutas”. Observar-se-á a contradictio in terminis flagrante da última frase, e forçoso é comprovar que com tais princípios se firma, nem mais nem menos, a sentença de morte da Fé, para naufragar nos abismos do subjetivismo e do relativismo modernistas mais explícitos.

13. Em sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (§ 247 a 249), publicada em 24 de novembro, Francisco afirma que a Antiga Aliança “nunca foi revogada”, que não se deve considerar o judaísmo talmúdico atual, estruturado na oposição a Cristo e à missão evangelizadora da Igreja, como “uma religião alheia”, nem dizer que os judeus são chamados a “deixar os ídolos para se converter ao verdadeiro Deus”, uma vez que juntos cremos “no único Deus que atua na história” e “acolhemos com eles a Palavra revelada comum”. Mas para a infelicidade de Francisco, o cristão verdadeiro sabe bem que seus ensinamentos são falsos e que eles não podem provir senão do pai da mentira, já que aprendeu que “todo aquele que nega o Filho, também não reconhece o Pai; aquele que confessa o Filho, reconhece também o Pai” (1 Jo. 2, 23) e também que “todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne, é de Deus; e todo espírito que divide Jesus, não é de Deus” (1 Jo. 4, 2-3). Francisco prossegue em suas afirmações insensatas, em ruptura total com o magistério e a tradição unânime da Igreja durante vinte séculos, dizendo que “Deus continua a operar no povo da Primeira Aliança e faz nascer tesouros de sabedoria que brotam do seu encontro com a Palavra divina. Por isso, a Igreja também se enriquece quando recolhe os valores do Judaísmo (…). Há uma rica complementaridade que nos permite ler juntos os textos da Bíblia hebraica e ajudar-nos mutuamente a desentranhar as riquezas da Palavra”. Perdão, mas a Palavra de Deus é idêntica ao Verbo de Deus, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que “se fez carne e habitou entre nós” (Jo. 1, 14) e da qual se diz igualmente que “veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo. 1, 11): os “seus” são os judeus, que em sua grande maioria rejeitaram Jesus Cristo, o Verbo encarnado, a Palavra de Deus feita carne. Atrever-se a sustentar, contra o ensinamento explícito da Sagrada Escritura, que “acolhemos com eles a Palavra revelada comum” e que “tesouros de sabedoria brotam do seu encontro com a Palavra divina” supõe ou uma ignorância supina, ou uma má-fé diabólica. Em qualquer caso, estamos diante de um sério problema, se se me permite o eufemismo… E confesso que não posso deixar de interrogar-me: chegará acaso o dia em que se proibirá os fiéis de rezarem pela conversão dos judeus, por ser considerado um ato de “intolerância religiosa”, “discriminação” e “antissemitismo”? Veremos o dia em que nos será imposta coativamente a nova teologia conciliar a fim de deixar-nos assim “enriquecer com os valores do judaísmo” atual, falso, talmúdico e anticristão? Seremos por fim obrigados a adotar a exegese judaica para “ler juntos os textos bíblicos” e “aprofundar as riquezas” contidas nas Escrituras? Até onde nos conduzirá a loucura desatada pela Nostra Aetate? Não é preciso ser profeta para prever que se a lógica interna desse documento revolucionário for implantada até as suas últimas consequências (e, humanamente falando, é difícil enxergar um resultado diferente), chegar-se-á inelutavelmente à apostasia generalizada dos fiéis, devidamente aclimatados há décadas por lobos despiedados disfarçados de ovelhas a essa mutação radical da Fé que é a imposição do ecumenismo “judaico-cristão”; encontrar-se-iam preparados para acolher o “messias” esperado pela Sinagoga, que não é outro que o Anticristo, como nos adverte claramente Nosso Senhor profetizando diante dos judeus incrédulos de sua época: “Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis” (Jo. 5, 43). Nessas proféticas palavras de Nosso Senhor se encontra a chave interpretativa dos tempos históricos nos quais nos é dado viver, ao lado de 2 Tessalonicenses 2 e Apocalipse 13.
14. Em uma entrevista com o jornalista ateu Eugenio Scalfari em 24 de setembro no Vaticano, publicada pelo jornal esquerdista La Repubblica em 1 de outubro, Francisco fez algumas declarações espantosas. Cabe destacar que esta entrevista foi publicada na página web oficial da Santa Sé, o que lhe conferiu um feixe magisterial. Foi retirada depois de um mês e meio, por causa das incessantes polêmicas e dos numerosos protestos que havia suscitado em ambientes católicos conservadores. Mas a entrevista permanece considerada “confiável em linhas gerais”, conforme garante o padre Federico Lombardi, diretor da sala de imprensa da Santa Sé. Além disso, o texto foi integralmente publicado pelo jornal do Vaticano, L’Osservatore Romano, inclusive em sua versão semanal italiana, de 8 de outubro. Sem essas polêmicas e protestos, a entrevista ainda estaria na página web oficial do Vaticano, entre os documentos oficiais do novo pontificado… Assim, tendo definido o contexto, lemos algumas passagens: “O mais grave dos males que afligem o mundo nestes anos é o desemprego dos jovens e a solidão em que são deixados os idosos”. Diante de semelhante sentença, é impossível não interrogar-se: mais graves inclusive que a legalização da pornografia e do aborto, do divórcio e da contracepção, do “matri

mônio” homossexual e da adoção “homoparental”? Mais graves ainda que a apostasia das nações outrora católicas, que a escola sem Deus, que a “cultura” de massa hedonista e que a ignorância religiosa quase absoluta da juventude? Logo em seguida, o jornalista, ao supor que Francisco poderia tentar convertê-lo, recebe uma resposta tranquilizadora em termos inverossímeis: “O proselitismo é uma solene besteira, não tem sentido. É preciso que nos conheçamos, nos escutemos e cresçamos no conhecimento do mundo que nos circunda (…). Parece-me que já disse que o nosso objetivo não é o proselitismo, mas a escuta das necessidades, dos desejos, das desilusões, do desespero, da esperança. Devemos voltar a dar esperança aos jovens, ajudar os idosos, abrir para o futuro, difundir o amor”. Afirmações deste tenor poderiam ser rubricadas sem hesitação por um maçom, um “livre-pensador” ou um filósofo “humanista”… Não é à toa que Scalfari pôde dizer acerca das declarações de Francisco que “uma abertura para a cultura moderna e laica dessa amplitude, uma visão tão profunda entre a consciência e a sua autonomia, nunca tinha sido sentida da cátedra de São Pedro”. Eis aqui outra sentença bergogliana: “Cada um de nós tem uma visão do Bem e também do Mal. Devemos incitar a proceder para aquilo que cada um pensa que seja o Bem (…). E o repito: cada um de nós tem uma ideia do Bem e do Mal e deve fazer a escolha de seguir o Bem e combater o Mal como o concebe”. Isto não é mais que um puro naturalismo, um relativismo moral e um indiferentismo religioso. E pensar que nós acreditávamos, sem dúvida ingenuamente, que a principal tarefa dos clérigos consistia em anunciar aos homens a salvação em Jesus Cristo! Mas retomemos a seriedade: é evidente a todo fiel medianamente instruído que a doutrina católica se situa nas antípodas dessas palavras inauditas e escandalosas, expelidas da boca de quem ocupa a sede de São Pedro… Aqui temos duas das proposições solenemente reprovadas por Pio IX em seu Syllabus de 1864: “As leis morais não carecem da sanção divina, e não é necessário que as leis humanas sejam conformes ao direito natural ou recebam de Deus o poder obrigatório” (nº 56); “A ciência das coisas filosóficas e morais e as leis civis podem e devem ser livres da autoridade divina e eclesiástica” (nº 57). Passemos agora a outro disparate de Francisco: “Eu creio em Deus. Não em um Deus católico, porque não existe um Deus católico, existe Deus (…). De minha parte, vejo que Deus é luz que ilumina as trevas, inclusive se não as dissipa, e que uma chispa desta luz divina se encontra dentro de cada um de nós (…). [Mas] a transcendência permanece, porque esta luz, toda a luz que se encontra em todos, transcende o universo e as espécies que o habitam durante esta fase”. Francisco faz sua a posição teológica de seu amigo e mentor, o cardeal jesuíta Carlo Maria Martini, que em duas oportunidades o cita elogiosamente em sua conversa com Scalfari, consignada em seu último livro, editado em 2008 e intitulado “Diálogos noturnos em Jerusalém: sobre o risco da fé”, no qual este eclesiástico progressista e franco-maçom, reconhecido como tal pelo Grande Oriente da Itália, afirmava que “não se pode converter Deus em católico. Deus está além dos limites e das definições que estabelecemos”. As palavras apavorantes de Francisco eximem de maior comentário: elas correspondem mais a uma gnose naturalista e panteísta à la Teilhard de Chardin (outro jesuíta! Santo Inácio de Loyola deve estar se revirando em sua tumba…) que ao que nos ensina a revelação divina e o magistério da Igreja sobre a natureza de Deus, a criação e a ordem sobrenatural.

15. Durante uma homilia pronunciada na sexta-feira, 20 de dezembro, na capela da Casa Santa Marta, no Vaticano, Francisco deu a entender que a Santíssima Virgem Maria experimentou sentimentos de rebeldia ao pé da Cruz, que foi tomada de improviso pela Paixão de seu divino Filho, que acreditou que as promessas formuladas pelo anjo Gabriel no dia da Anunciação eram mentiras e que, portanto, havia sido enganada. Cito suas palavras: “Ela estava silenciosa, mas, dentro do coração, quantas coisas ela devia falar com Deus! ‘Tu me disseste que ele ia ser grande; tu me disseste que darias a ele o Trono de Davi, seu pai, que ele reinaria para sempre, e agora ele está aqui [na cruz]!’. Maria era humana! E talvez ela sentisse o desejo de dizer: ‘Era mentira! Eu fui enganada!’”. Essas palavras são simplesmente escandalosas. A tradição nunca atribuiu a Maria sentimentos de revolta diante do sofrimento. Sua disposição permanente em toda circunstância foi assumida no dia da Anunciação: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc. 1, 38). A Igreja venera Maria como Rainha dos Mártires, o que não seria possível se não houvesse consentido em realizar o infinito sacrifício que Deus lhe pedia: entregar a vida de seu divino Filho à salvação da humanidade decaída, coisa da qual ela era plenamente consciente desde a profecia que lhe fizera Simeão no dia da Apresentação do Menino Jesus no Templo: “E uma espada transpassará a tua alma a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações” (Lc. 2, 35). Como explica Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja, em sua obra As Glórias de Maria: “Com o aumento do amor, mais aumentava também a dor, à só lembrança de perder esse Filho por uma tão cruel morte. E quanto mais se avizinhava o tempo da Paixão, mais cruelmente a espada, predita por Simeão, atravessava o coração materno de Maria” (Segunda parte, Primeira Dor). E também: “(…) Maria, que por amor de nós consentiu em vê-lo imolado à justiça divina pela barbárie dos homens. Os espantosos tormentos que Maria padeceu, tormentos que lhe significaram mais de mil mortes (…). Contemplemos por alguns instantes a amargura desta pena, que fez da divina Mãe a Rainha dos mártires, dado que seu martírio supera o de todos os mártires (…). Como a Paixão de Jesus começou em seu nascimento, segundo São Bernardo, assim Maria, semelhante em tudo a seu divino Filho, sofreu o martírio durante toda sua vida” (Segunda parte, Discurso XI). Nenhum sinal de rebeldia nem de ignorância em Maria, mas uma completa submissão à vontade divina e uma total consciência em seu ato livre e voluntário de consentimento na imolação de seu divino Filho pela salvação dos homens. Assim como Eva foi intimamente associada à falta de Adão, assim também Maria, a nova Eva, foi associada estritamente ao sacrifício redentor de Jesus, o novo Adão, sobre o altar da Cruz. Essa é a doutrina tradicional da Santa Igreja de Deus, em conformidade com a revelação divina, nas antípodas das palavras ímpias e blasfematórias proferidas por quem ocupa a cátedra de São Pedro.
16. Francisco recebeu José Mujica, presidente do Uruguai, no dia 1 de junho para uma longa audiência privada. Logo depois, declarou à imprensa sentir-se “muito contente por ter se reunido com um homem sábio”. Este homem “sábio” foi membro dos Tupamaros, uma das principa

is organizações terroristas latino-americanas durante as décadas de 60 e 70, cuja atividade criminal começou muito antes do golpe de estado militar de 1973. Passou 15 anos na prisão, condenado por assassinato, sequestro e atos de terrorismo. Foi libertado em 1985, “anistiado” pelo governo de Julio Sanguinetti. Mijuca se negou a assistir à cerimônia de inauguração do novo pontificado, em virtude de seu ateísmo militante. Cabe destacar que seu governo aprovou a lei autorizando o aborto em outubro de 2010, a do “matrimônio” homossexual e da adoção “homoparental” em abril de 2013 e a da legalização do cultivo, da venda e do consumo de marijuana em dezembro de 2013. Que um homem da Igreja possa receber em audiência pública um indivíduo como este, deixar-se fotografar ao seu lado sorridente e dando-lhe um abraço, para depois fazer a ele um elogio incendido à imprensa é algo que supera o imaginável. Sobretudo considerando que esse “homem da Igreja” é nada mais nada menos que quem aos olhos do mundo passa como o sucessor de São Pedro…

17. Como consequência de todos esses gestos politicamente mui corretos e mediaticamente irresistíveis, Francisco foi eleito “Homem do ano” pela edição italiana da revista Vanity Fair. O mesmo fez a revista norte-americana Time três dias depois, dedicando-lhe a capa com o título “O Papa do povo”. A Vanity Fair interrogou várias celebridades sobre o novo papa, todas fascinadas por sua humildade e seu carisma. Assim, por exemplo, o famoso cantor sodomita “Sir” Elton John declara que “Francisco é um milagre da humildade na era da vaidade. Espero que sua mensagem chegue até os mais marginalizados da sociedade. Penso, por exemplo, nos homossexuais. Este Papa parece querer trazer a Igreja de volta aos antigos valores de Cristo e, ao mesmo tempo, trazê-la para o século XXI”. Outra “celebridade” de fama mundial, o estilista pederasta alemão Karl Lagerfeld, disse por sua vez que gostou do novo papa: “Tem um sei lá o que de divino, com um grande senso de humor”, mas acrescenta em seguida que não necessita “da Igreja” e que não crê “nem no pecado nem no inferno”. Tempos depois, em dezembro, a revista Time o elegeu também “Homem do ano de 2013”, tornando-o sucessor do militante pró-aborto e pró “matrimônio” gay Barack Obama. No mesmo mês de dezembro, a famosa revista da comunidade homossexual norte-americana, The Advocate, lhe outorgou igualmente o prêmio de “Pessoa do ano de 2013”, explicando a seus leitores que as declarações de Francisco são “as mais alentadoras que um pontífice já pronunciou em relação aos gays e às lésbicas” e que, graças a ele, “os católicos LGBT têm agora fundadas esperanças de que o tempo propício à mudança chegou”. A Francisco foi dedicada a capa da famosíssima revista pop norte-americana Rolling Stone do mês de fevereiro, sob o título “Pope Francis: The times they are a-changin” (Papa Francisco: Os tempos estão mudando), que retoma o nome da lendária canção contestatária de Bob Dylan dos anos 60 para aplicá-lo à sua ação durante seu primeiro ano de pontificado. Time, Vanity Fair, The Advocate, Rolling Stone: estamos falando de quatro das publicações emblemáticas da cultura subversiva, libertária e decadente que prevalece no mundo ocidental desde o final da Segunda Guerra Mundial. As quatro fazem de Francisco o “herói” do “progresso”, o ícone da “mudança”; veem nele a encarnação da abertura mental à “modernidade”, e as quatro se desfazem em louvores ditirâmbicos à sua pessoa. De nada serve negar a realidade, por mais difícil que seja encará-la: isto é algo que não tem precedentes na história da Igreja e não pode senão perturbar profundamente a alma dos fiéis. Nestes tempos diabólicos em que a confusão reina soberanamente na imensa maioria das almas, não se deve perder de vista que, no que toca às nossas relações com o mundo, que se encontra “inteiramente sob o império do Maligno” (1 Jo. 5, 19), Nosso Divino Mestre nos advertiu explicitamente: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim. Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas, porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia” (Jo. 15, 18-19).
Estou desacorçoado por ver-me em consciência obrigado a escrever tudo isto. Entristecido em sumo grau. Aturdido, para dizer a verdade. Como desejaria que as coisas fossem diferentes! Poder confiar e deixar-me guiar. Horroriza-me a oposição à autoridade, a disputa, o conflito: é uma atitude alheia à minha natureza. Todos os dias imploro ao Senhor para que abrevie esta situação tão penosa, humanamente insuportável. À espera de que Ele se digne intervir, considero impossível guardar silêncio, embora eu gostaria de fazê-lo, mais do que poderia imaginar-se. Mas simplesmente não posso: sentir-me-ia envergonhado de mim mesmo. A hora é grave. A confusão reina. O mal é profundo. Calar é tornar-se cúmplice. O que está em jogo é vital: trata-se, nada mais nada menos, de conservar a Fé e de seguir professando-a publicamente, dentro e fora da Igreja. Ser testemunhos da Verdade diante de nossos contemporâneos, presa do erro e da mentira tornados sistema. Institucionalizados. É preciso dar testemunho “a tempo e fora de tempo”, nos exorta São Paulo (2 Tim. 4, 2). Como sabem, “testemunha” em grego quer dizer “mártir”. Essa é a nossa situação. No sentido literal, quiçá ainda não em nossos países, mas no figurado muito frequentemente, e em todas as partes. Saúdo-os fraternalmente no Senhor. Queira Ele alumbrar nosso caminho terrestre com sua luz divina e guiar nossos passos à glória de seu Reino próximo. Maranatha: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap. 22, 20).
Terminado em dois de fevereiro de 2014, na solenidade da Apresentação do Menino Jesus no Templo e da Purificação da Santíssima Virgem Maria.




# DESAFIO – "LANÇAI….."

Pe. Marcélo Tenorio

Multiplica-se pela internet um movimento de desafios chamado de “Lançai a Palavra”. Consiste em alguém desafiar pessoas para que, no espaço de 24 horas, elas coloquem um vídeo na internet “proclamando” a Palavra de Deus e lançando, também, desafios a tantas outras. E, como as pessoas gostam de “novidades”, isso tem se alastrado consideravelmente.

O fato de se fazer uma leitura da Sagrada Escritura, não há nada de mal; como minha mãe dizia, “mais vale um Deus-te-abençoe do que um diabo-te-carregue”. Entretanto é necessário entender não o que se ver, mas o espírito que move e a direção para onde se vai.

Não é novidade para ninguém que após o Vaticano II, houve um vendaval decorrente daquilo que o cardeal Ratzinger chamava de “anti-espírito” do Concílio e que Mons. Lefèbvre chamava, por sua vez, de “espírito mesmo do Concílio” E, com esse vendaval (que Paulo VI morreu e não descobriu por onde ele entrou – basta ler suas palavras angustiadas no décimo ano de seu pontificado, no dia 29 de junho de 1972, Solenidade de S. Pedro e S. Paulo: “ ..por alguma fissura a fumaça de Satanás entrou no Templo de Deus”) entrou também um espírito de romantismo que corrompeu tudo, não deixando nada sem ser atingido pelo seu veneno, sobretudo a Sagrada Liturgia, expressão máxima daquilo que se crer e professa. Ora, se consegue contaminar o que se crer com uma “diabetes espiritual” protestante e romântica, que resultado nós teremos? Quais as consequências disso tudo? Uma protestantização da Fé , da Liturgia e dos Costumes, visto que o romantismo sustenta o protestantismo.

As bases do protestantismo liberal é o romantismo. Toda tese protestante é romântica e não pode ser diferente. Ela não é objetiva, porque abstrata, introspectiva, individualista. Fundamenta-se no subjetivismo da fé que gera o relativismo moral e religioso.

Citemos aqui, como base, Schleiermacher. Friedrich Danill Ernst Schleiermacher. Ele nasceu em 1768, na Breslávia e faleceu em 1834. Em 1797, já em Berlim, foi grande colaborador da revista romântica “Athenaeum”. Em sua teologia orientava as almas para o “sentimento de Salvação em Cristo”. Foi considerado o pai da teologia romântica, sofrendo grande influência dos filósofos Kant , Spinoza, entre outros.

Síntese de sua teologia romântica:

“Há de rechaçar a tendência de estabelecer seres e de determinar naturezas […] a investigar as ultimas causas e a formular verdades eternas […] não deve servisse do Universo para deduzir deveres, ela não deve conter nenhum código de leis […] não pretende, como a metafísica, explicar e determinar o Universo de acordo com sua natureza, ela não pretende aperfeiçoá-lo e consumá-lo, como a moral […] sua essência, não é pensamento nem ação, senão intuição e sentimento.”(1)

Eis o triunfo do subjetivismo romântico em sua doutrina protestante.

“Uma religião não é válida por ser verdadeira, senão porque engendra um sentimento de piedade”, ensinava ele.

A Santa Doutrina Católica, por sua vez se opõe ao subjetivismo romântico, visto que a Fé aqui é entendida e definida como “ adesão da inteligência à Verdade”, como ensina o Aquinate e não um sentimento meramente romântico como pretendia Lutero, seus sequazes e, como vimos, esse aí, doutor de coisa-nenhuma.

Para Santo Tomás há uma correlação profunda e rigorosa entre Fé e Razão, antídotos contra um fanatismo perigoso ou um racionalismo etéreo. Aliás, desde a antiguidade se tem a tentação de separar a Fé da Razão. O germe do protestantismo sempre presente desde a origem das civilizações, visto que proveniente do pecado original, inspirado pelo “diábolos”, o divisor.
Encontramos entre os gregos já duras críticas contra essa dissociação. Heráclito, Pitágoras e Xenofontes, já falavam sobre isso.

Noutros momentos da história religiosa, percebemos um movimento interessante: ora, a Fé que busca a razão ( isso bem presente na época dos Santos Padres), ora a Razão que busca a fé ( época escolástica tomista). Aqui entra S. Tomás com a sua “Veritas Prima”. Para ele a Verdade Primeira era o objeto da Fé. Esse pensamento do “doutor angélico” é doutrina católica e sobre ele se fundamenta o que a Igreja acredita e entende por Fé.(2)

Li hoje uma parte da homilia de D. Henrique Soares, recentemente nomeado bispo de Palmares, zona da Mata de Pernambuco. É muito propícia para o que discorremos agora. Dizia ele: “Não sou cristão porque Cristo falou coisas bonitas. Buda também falou coisas bonitas, Gandhi também falou coisas bonitas…Sou cristão porque Cristo é Deus. Morreu e ressuscitou por nós. Esta é a Verdade!”

Fomos invadidos de todos os lados por um romantismo protestante. Muitos já não tem a Fé católica baseada na Verdade objetiva, mas em sentimentos “bonzinhos” e “bonitinhos” e “lindinhos”. Nossas liturgias, catequeses e até movimentos (antigos e os inventados recentemente) são usados para despertar os sentidos e alimentá-los. Encontros são planejados para despertar não a Fé, mas os sentimentos. Passou a ser termômetro não a convicção no que se crer, mas a emoção que chega antes e, por vezes, sozinha. Maneiras novas de rezar, tais como: “cristotecka”, ‘cristofolia”, cristo-rock, “carnaval-com-Cristo” e tantas outras engenhocas. Isso sem falar em bandinhas de “samba-católico”, “funckcatólico” e derivados, passando pela banda dos tatuados da “Rosa de Saron” que de católica nem o nome tem; com péssimas músicas, condizentes com ausência total de doutrina. “Bonitinha”, mas ordinária, não Verdadeira. Pouco tempo atrás essa mesma banda em programas de televisão, fazendo uso de um exacerbado relativismo teológico, falava heresias como se fossem “pérolas”.

Claro que com esse “romantismo protestante”- oriundo de movimentos pentecostais e neopentecostais , que entraram nos meios eclesiásticos, como a rcc, por exemplo, surge, em nosso meio, uma nova “maneira de ser”. Jovens e adultos católicos com cara de protestantes, jeito de protestantes, maneira de protestantes, “gingas” de protestantes….

Nós temos dois mil anos de Fé, de atos e de maneiras de ser.

De longe pode se reconhecer um ortodoxo, justamente por sua “maneira de ser”. De longe pode se reconhecer um judeu, pela sua forma judia de ser. De longe pode se reconhecer um roqueiro, um testemunha de Jeová, um hare krisna….justamente pela sua maneira de ser, de portar e até de falar..

Também dentro da Igreja há maneiras diversas, mas num mesmo espírito católico. Certa vez vi um rapaz entrar numa igreja e, pela maneira como fez a vênia para o altar, sabia que era um beneditino e acertei-na-mosca! Se me puserem, de olhos vendados dentro de um mosteiro, ao retirarem minhas vendas, saberei imediatamente se aquela casa é franciscana ou cisterciense…,beneditina ou jesuíta. São maneiras, gestos diferentes, mas um mesmo espírito católico assimilado por 20 séculos.

O que não podemos dizer de muitos grupos, pessoas, movimentos. Certos “slogans “, maneiras de saudação que não fazem parte de nossa forma de ser. “A PaiXX de jesuiXX” ou “ JesuiX ti ama”, ou ainda “Allelluyaaa”, “ôooo Glória”, nunca estiveram em nosso vocabulário de católicos. Nunca coresponderam à Verdade católica, mas à uma linguagem r

omântica, adocicada, protestantizada…Em coisas bem sutis esconde-se o próprio “espírito da coisa”.Como diz Nosso Senhor: “A boca fala do que o coração está cheio”. Primeiro engole-se a doutrina por várias vias: pela música, pelas ideias, pela convivência. Segundo, torna-se o que se come. Por que desde de sua origem a rcc tem cara e jeito de protestante? Simples: porque bebeu “na fonte” (experiência de Duquesne, a “ cruz e o punhal”, e até pregação conjunta: pastores heréticos com pregadores da Canção Nova – “ fratres in unum” – entre outras influências.

A coisa está tão grave que até Adélia Prado – imaginem! Até ela protestou. Vou citar, com a devida licença do Ozuna:

“… Nós começamos a copiar os evangélicos no que eles têm de pior e a qualidade caiu. A qualidade da música […] começamos a ter animadores de missa, palmas […] Tudo equivocado! Os valores se misturaram. Perde-se a sacralidade da liturgia. Em momento de adoração que tem que ser com silêncio e as pessoas cantam sem parar músicas horríveis…” (3)

Mais importante que “ Lançar a Palavra” pela Palavra, é viver a Fé católica sem equívocos nem “misturebas”

Esses vídeos podem ser feitos por católicos e protestantes, sem diferença alguma. É a bíblia pela bíblia e nada mais.
O que nos diferencia dos protestantes é justamente a Verdade, a Verdade Católica. E esta Verdade deve nos impregnar em tudo: mente e corpo, gestos e palavras.

A Sagrada Escritura é uma das fontes da Revelação, mas não a única, apenas. Rodopiar em cima da Bíblia pela bíblia não é católico. Sem a autoridade da Igreja , a Bíblia nada seria.
Ensina Santo Agostinho:

“Eu não creria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da Igreja Católica”
(St. Agostinho – Contr. Epist. Manichaei. v, 6)

Alguns podem objetar: “mas padre, conheço tantos que se converteram escutando a Palavra”!…
Respondo: conheço muito mais que por“escutarem a Palavra” estão nas seitas, enchendo galpões e auditórios. É o efeito da “Sola Scriptura”.

Não são os meios capazes de converter alguém à Verdade, mas a vontade do próprio Deus que se manifesta na sua Igreja. Deus , quando quer, se utiliza de tudo, até do profano, para salvar… Ele é capaz de fazer das pedras “filhos de Abraão”….E se é capaz de fazer das pedras “ filhos-de-Abraão”, também pode ser capaz de fazer deste péssimo artigo, escrito por mim, antídoto contra diabetes espiritual…

No mais, sejamos católicos, apenas católicos sem afetações importadas.
Morramos católicos, com jeito de católicos e não protestantizados.

As palavras até convencem, mas o exemplo é que arrasta.

No mais, nesta quaresma, ofereçamos a Deus o sacrifico de uma alma contrita, embora com ouvidos incomodados

Mas antes de ir embora, quero deixar aqui também o meu # DESAFIO:

IDE A TOMÁS DE AQUINO!

Desafio feito, desafio cumprido?

” A todos quantos agora sentem sede da verdade,dizemo-lhes: ide a Tomás de Aquino!” ( Pio XI)

***

(1)(Schleiermacher, Sobre la religion. Discursos, p.11-12. apud CARLÉS, Frederico Rivanera – Bibliografia:
http://www.pfilosofia.xpg.com.br/geocities/encfil/schleiermacher.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Schleiermacher

(2)Summa Contra Gentiles e Summa Theologiae

(3) Em ” Roda Viva”

BISPO COM PODER DE PAPA: SANTOS FORA DA REGRA


Todos sabem que Francisco gosta de se apresentar apenas como ” Bispo de Roma”.Desde o início de seu pontificado foi assim. Como consequência, renunciou todos os demais títulos, como pode-se ver no Anuário Pontifício, bem como demais símbolos de primazia, que o ressaltava como Príncipe Supremo entre os príncipes. Mas quando o assunto é o exercício de sua autoridade e a nova linha eclesial que traz consigo, não é apenas a autoridade de “bispo de Roma” que ele utiliza…
********* Em poucos meses, seis novos santos canonizados fora das regras Ou seja, sem um milagre comprovado após sua beatificação. Trata-se de um procedimento excepcional, poucas vezes usado na história. Mas o Papa Francisco recorreu a ele com uma frequência sem precedentes. A reportagem é de Sandro Magister e publicada no sítio Chiesa, 19-03-2014. A tradução é de André Langer.
Ao receber em audiência D. Bernardo Álvarez Afonso, bispo de San Cristóbal de la Laguna, em Tenerife, nas Ilhas Canárias, o Papa Francisco anunciou que no próximo dia 02 de abril proclamará santo a um ilustre filho dessas ilhas: o jesuíta José de Anchieta (1534-1597), definido como o Apóstolo do Brasil. A notícia já foi antecipada no final de fevereiro pelo cardeal Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida e presidente da CNBB. Mas D. Álvarez divulgou a notícia no sítio da sua diocese no mesmo dia da audiência, no dia 8 de março, proporcionando ulteriores detalhes do evento.
Com efeito, explicou que Anchieta será incluído na lista dos santos junto com dois beatos nascidos na França e que tiveram um desempenho de suma importância na evangelização do Canadá: a mística missionária Maria da Encarnação, cujo nome de batismo é Marie Guyart (1599-1672), e o bispo Francisco de Montmorency-Laval (1623-1708). Os três foram beatificados no dia 22 de junho de 1980 por João Paulo II junto com outros dois veneráveis que viveram na América, que, entretanto, já foram canonizados pelo procedimento ordinário: Pedro de Betancour (1626-1667) e a jovem virgem indígena Catarina Tekakwitha (1656-1680), proclamados santos, respectivamente, por João Paulo II, no dia 30 de julho de 2002, e por Bento XVI, no dia 21 de outubro de 2012. Tudo normal? Não. O bispo de Tenerife revelou que os três beatos serão proclamados santos não pelo procedimento ordinário, que exige o reconhecimento canônico de um milagre atribuído à sua intercessão, mas através de um canal extraordinário historicamente definido como “canonização equivalente”. Em que consiste este procedimento especial, que “esteve sempre esteve presente na Igreja e efetuado regularmente, embora não de forma frequente”, ilustrou no L’Osservatore Romano de 12 de outubro de 2013 o cardeal Angelo Amato, prefeito da Congregação para a Causa dos Santos. Explica o cardeal: “Para este tipo de canonização, segundo a doutrina de Bento XIV, requerem-se três elementos: a possessão antiga do culto, o testemunho constante e comum de historiadores dignos de fé sobre as virtudes ou sobre o martírio e a fama ininterrupta de prodígios”. E o cardeal Amato prossegue dizendo: “Caso se cumprirem estas condições – é doutrina também do Papa Prospero Lambertini – o Sumo Pontífice, por sua autoridade, pode recorrer à ‘canonização equivalente’, ou seja, estender à Igreja universal a oração do ofício divino e a celebração da missa [em honra do novo santo], ‘sem nenhuma sentença formal definitiva, sem ter concluído algum processo jurídico, sem ter cumprido as cerimônias habituais”. Com efeito, o próprio Papa Lambertini – em um volume da sua monumental obra De servorum Dei beatificatione et beatorum canonizatione agora disponível também em italiano em uma edição da Libreria Editrice Vaticana – enumera 12 casos de santos canonizados deste modo antes do seu pontificado (1740-1758). São eles: Romualdo (canonizado em 1595), Norberto (em 1621), Bruno (em 1623), Pedro Nolasco (em 1655), Ramón Nonato (em 1681), Estevão da Hungria (em 1686), Margarida da Escócia (em 1691), Juan de Mata e Félix de Valois (em 1694), Gregório VII (em 1728), Wenceslau da Boêmia (em 1729), Gertrudes de Helfta (em 1738). Além disso, e sempre segundo o L’Osservatore Romano de 12 de outubro passado, o cardeal Amato enumera também as “canonizações equivalentes” posteriores a Bento XIV: Pedro Damião e Bonifácio mártir (canonizados em 1828); Cirilo e Metódio, da Salônica (1880); Cirilo de Alexandria, Cirilo de Jerusalém, Justino mártir e Agostinho de Canterbury (1882); João Damasceno e Silvestre Abade (1890); Beda o venerável (1899); Efrén o sírio (1920); Alberto Magno (1931); Margarida da Hungria (1943); Gregório Barbarigo (1960); João de Ávila e Nicolas Tavelic e três companheiros mártires (1970); Marcos de Križevci, Esteban Pongrácz e Melchor Grodziecki (1995). Como se pode ver, João Paulo II, que também proclamou sozinho mais santos e beatos que todos os seus antecessores juntos – desde o momento em que os Papas reservaram para si tal poder –, utilizou uma única vez o procedimento da “canonização equivalente”.
Também Bento XVI o utilizou apenas uma vez, com Hildegarda de Bingen, proclamada santa no dia 10 de maio de 2012. Mas o Papa Francisco já utilizou duas vezes este procedimento excepcional. Em 9 de outubro de 2013 com Ángela de Foligno (1248-1309) e em 17 de dezembro com o jesu] ]>