Homilia de Natal

Pe. Marcelo grande

“Nasceu-vos um Salvador, o Cristo Senhor”. ( Lc 2,11)

Caríssimos Paroquianos,

 Aqui reunidos em torno da manjedoura, ao lado de José e da Virgem Mãe, contemplemos o Menino nascido por nós e para nós.

O Mistério  se encontra com a miséria que somos.

E nós, os miseráveis, podemos olhar Aquele que nos é igual na carne, semelhante nosso. Carne de nossa Carne.

Nós, com mácula e vergonha; Ele sem mácula e sem vergonha. Divinamente Humanado. Humanamente  Divino.

No início de tudo, cantamos as Kalendas que trata-se  do antigo calendário romano que conta o primeiro dia de cada mês. Com ela faz-se uma retrospectiva desde a criação do mundo, passando por Abraão, pelos anos da criação de Roma, até à Plenitude dos Tempos, no Império de Cesar Otaviano Augusto, quando nos nasce o Messias, Salvador do Mundo.

Estamos nesta Noite Santa. Podemos escutar o anúncio dos anjos aos pastores e os seus celestes cânticos: “ Paz na Terra aos Homens de boa vontade”

A grande mensagem da Noite Santa é a Mensagem da Paz. “ Paz na terra” aos homens de Boa Vontade.

Sabemos que a Paz não trata-se de um sentimento do coração do homem, mas uma Pessoa mesma. A Pessoa do Verbo que vem ao mundo para se dá a nós, pois “ Ele é a Nossa Paz”

Ora, se Cristo é a nossa Paz, todas as portas devem ser abertas para Ele, sobretudo onde há situações gritantes de dor, desespero, guerras e ódio entre os homens.

O grande papa Pio XI, ( 1922-1939), já nos lembrava na Urbi Arcano, que era evidente que nem os indivíduos, nem a sociedade, nem os povos encontraram ainda a paz tão desejada.

Estamos no século 21, e a situação não melhorou, mas muito pelo contrário, caminhamos na iminência de nova guerra, já que é testemunhado, por todos, os grandes conflitos que afundam o mundo, a sociedade, até mesma a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ao mundo que esperava a paz, parafraseamos o profeta Jeremias: “ Esperamos a paz e  nada de bom obtivemos; o tempo do remédio, e aí está o terror, o tempo de cura, e aí está a perturbação” ( Jr 59, 9-11)

Ao clero que cantava a chegada de uma bela primavera nos anos 60, lembramos o que Paulo VI mesmo falou: “ Esperamos uma primavera e eis que nos veio uma tempestade!” Nesse mesmo discurso, Paulo VI chegou a falar sobre uma “autodemolição” da Igreja..palavras graves, saídas da boca de um pontífice!

O que vemos hoje, em todas as esferas, mostra o drama no qual se encontra a humanidade inteira.

Há guerras  entre os povos, nações. Há guerras na sociedade, na família. Guerras ideológicas, guerras religiosas, guerras teológicas, políticas, filosóficas.. Homem contra homem, nação contra nação, filho contra pai, pai contra filho…

A questão é que esquecemos Aquele que nos veio trazer a paz e, da sua paz fizemos pouco caso.

Lembra o Papa Pio XI na “Urbi Arcano”’, de 1922:

“No dia em que os Estados e os governos regulamentarem a sua vida política quer interna quer externa, com base nos ensinamentos e nos preceitos de Jesus Cristo, então, e só então, poderão usufruir de uma verdadeira paz, manterão relações de mútua confiança e conseguirão resolver pacificamente os seus problemas”.

Esse mesmo Papa nos lembra que só pode haver a verdadeira Paz que Cristo no Reino de Cristo e esse Reino já deve começar aqui, por isso o Estado, toda sociedade, a Família, tudo e todos devem ter como centro o Ensinamento de Nosso Senhor que veio trazer Luz para o mundo envolto em trevas.

Queres a paz em tua família¿ Promova ali o Reino de Cristo! Queres a paz na Sociedade¿ Que ela se deixe conduzir por Cristo! Queres a paz nos Estados¿ Que se estabeleça neles o Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo!

Voltemos ao presépio. Nele está a nossa Paz. Olhemos a criança com sua Mãe. Neles nossa essencial vitória. A encarnação atinge, em cheio, o dragão maldito que nos traz a guerra.

Aqui também somos encarnados, pacificados.

Aqui também está a tua glória, oh Mãe Celestial, que foge ao todo nosso entendimento. Por isso basta-nos dizer que és a Mãe de Deus !

Pelo teu “SIM” tudo aconteceu. O céu se uniu a nós, de novo.

Há uma bela canção do século XVIII, chamada de Cachua Serranita, ela relata a alegria das almas em purgatório quando, aos sábados, lá desce a Mãe de Deus, levando  socorro imediato, apagando, com sua presença maternal todo fogo devorador, concedendo refrigério e alívio.

Neste mundo, Ó Mãe, desce com teu Menino nesta noite Santa, Senhora.

Daí-nos, neste vale de lágrimas, a Paz por nós perdida e tão desejada.

Por ti hoje nos é dada, Senhora

Toda a alegria do céu!

O Menino deitado

No monte Carmelo sem igual!

Deus conosco,

Para nós, Emanuel!

Homilia de Natal, 2015

Pe. Marcélo Tenorio

Cônego de Santa Maria

Os “misericordiosos”: O retorno de uma heresia

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Salve Maria!

Nesses tempos em que se fala tanto de Misericórdia Divina, onde muitos chegam a negar qualquer ação punitiva da parte de Deus, é necessário reafirmar a Doutrina de sempre sobre a Misericordia e a Justiça divinas

Boa leitura.

Apoiando-se na Sagrada Escritura, que exalta a misericórdia de Deus imensa e universal, os misericordiosos chegaram a negar a existência do inferno

Hirpinus | Sí, sí, no, no | Adelante la Fe| Tradução Sensus fidei: Em seu tempo, Santo Agostinho, teve que combater, entre outras, uma heresia difundida dentro da Igreja por alguns autores, que para nós são anônimos, chamados os misericordiosos por suas opiniões (V. Bartman, Manuale di teologia dogmatica, Vol. I, pág. 230 y Vol. III, págs. 403 y ss).

Apoiando-se na Sagrada Escritura, que exalta a misericórdia de Deus imensa e universal, os misericordiosos chegaram a negar a existência do inferno.

Para Santo Agostinho não foi difícil fazer notar que os pontos das Escrituras alegados por aqueles hereges, referem-se todos à vida presente e nenhum para o futuro; e que, portanto, não são absolutos ao excluir o juízo final, pessoal e universal, a partir dos diferentes destinos de salvação e de perdição que, na Eternidade, aguardam os bons e os réprobos.

É indubitável que Moisés, os profetas e os Salmos proclamam, continuamente, a misericórdia de Deus; e que Nosso Senhor Jesus Cristo, Verbo Encarnado, ilustrou-a através de comovedoras parábolas (o filho pródigo, a ovelha perdida, etc); e praticou-a pessoalmente com os pecadores (Mateus, a Madalena, Zaqueu, o bom ladrão, etc). No entanto, a misericórdia de que falam o Antigo e o Novo Testamento, não é uma misericórdia incondicional: pressupõe sempre a conversão do pecador (“há mais alegria no céu por um pecador que se arrepende…”). Portanto, Deus não é um Deus dimidiatus: sua misericórdia não exclui sua justiça.

“Deus é amigo dos homems? — escreve São João Crisóstono — Sim, mas é também um justo juiz. Perdoa os pecados: Sim, mas dá a cada um segundo suas obras. Olvida a iniquidade? Sim, mas também a castiga. Não há nestas coisas uma contradição? Não, se dissociamos estes acontecimentos no tempo”.

“Aqui embaixo Ele apaga as culpas pelo batismo e a penitência, mas as castiga no outro mundo com o fogo e os tormentos” (Homilia na Epístola aos efésios, 4,10). Por isso, Santo Agostinho, pode opor às teses escriturais citadas pelos misericordiosos; aquelas teses que ameaçam com castigos eternos aos pecadores que não se arrependem. E Santo Tomás explica (S. TH., Suppl. Q. 99 a. 2, ad 1) que: “Deus, porquanto está Nele, ter misericórdia para com todos, [mas], sua misericórdia, porque está ordenada em sua sabedoria, não se estende àqueles que se tornaram indignos de misericórdia”.

Que diriam os padres e os doutores da Igreja, da atual e inspirada “misericórdia” que se quer estender, também, aos impenitentes?

“O grande benefício da alma não é pensar muito sobre Deus, mas o amá-lO muito”.

San Francisco de Sales

Tradução ao espanhol por H.A.

Fonte: http://www.sensusfidei.com.br/2015/12/21/os-misericordiosos-o-retorno-de-uma-heresia/

Discurso do Papa à Cúria: Relembra ” doenças”, mas, enfim, agradece…

discursocuria

Encontro do Papa Francisco com a Cúria Romana para as felicitações de Natal
Sala Clementina – Vaticano
Segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Rádio Vaticano

Queridos irmãos e irmãs!

Com alegria, vos dirijo os meus votos mais cordiais de um santo Natal e feliz Ano Novo, que estendo a todos os colaboradores, aos Representantes Pontifícios e de modo particular àqueles que, tendo chegado à idade da reforma durante este ano, terminaram o seu serviço. Recordamos também as pessoas que foram chamadas à presença de Deus. Para vós todos e vossos familiares, a minha estima e gratidão.

No meu primeiro encontro convosco, em 2013, quis salientar dois aspectos importantes e inseparáveis do trabalho curial: o profissionalismo e o serviço, apontando a figura de São José como modelo a imitar. Ao passo que no ano passado, a fim de nos prepararmos para o sacramento da Reconciliação, abordámos algumas tentações e «doenças» – o «catálogo das doenças curiais» – que poderiam afectar cada cristão, cúria, comunidade, congregação, paróquia e movimento eclesial; doenças, que requerem prevenção, vigilância, cuidado e, em alguns casos infelizmente, intervenções dolorosas e prolongadas. Continue lendo

NATAL EM CARMELO

 

 

NATAL EM CARMELO

Pe. Marcélo Tenorio

Em ti, Oh Mãe Querida
No Carmelo deste Presépio,
O Mistério se encontra com a miséria
que somos, y
toma en ti nuestra carne.

E nós, os miseráveis, podemos olhar
Aquele que nos é igual
na carne,
Semelhante nosso.
Carne da nossa Carne!
Nós com mácula e vergonha;
Ele num corpo sem mácula e sem vergonha!
Semelhante a Ti!
Dessemelhante a nós!
Del verbo que se humano, tomando en ti nuestra carne.

O que o pecado afastou, a Tua maternidade reuniu!
Criatura e Criador,
Divinamente humanado!
Humanamente divino!
E aqui está a Tua glória, oh mãe celestial,
Que foge ao todo entendimento! Por isso,
solo basta desir que eres La Madre de Dios!

E da condenação livres,
O céu se torna Pátria!
O fogo é aplacado,
E as almas tornam-se livres das penas!
Aplaudem a Tua Presença,
que o purgatório esvazia!
Más y más misericórdia
le muestras al que te clama!

Por ti nos é dado Senhora,
Toda a alegria do céu!
O Menino deitado nas palhas,
No monte,
Carmelo sem igual!
Deus Conosco,
Para nós,
Emanuel!

Natal de 2015

Inspiração: Música CACHUA SERRANITA (Anónimo, Sec. XVIII)

Aberta Porta Santa em Moscou

moscou

Moscou (RV) – Pela primeira vez na história a capital russa conta com a Porta Santa por ocasião do Ano da Misericórdia. A abertura ocorreu no último domingo (13/12), na Catedral da Imaculada Conceição, pelo Arcebispo de Moscou, Dom Paolo Pezzi.

Em sua mensagem pelo Ano Santo, Dom Paolo convidou “cada cristão”, leigo e clérigo, a descobrir o ministério da caridade e praticá-lo a com regularidade a cada dia, voltando-se principalmente para aqueles que estão mais próximos:  uma família carente, um hospital, um orfanato.  Já na homília da abertura da Porta Santa, o Arcebispo focou na misericórdia de Deus.

Experiência da misericórdia

“Como todos, vivo essa experiência da misericórdia graças aqueles me amam e me aceitam”, disse Dom Paolo, ressaltando que “na vida não há nada mais belo e valioso do que uma outra pessoa que é feliz apenas por se ver assim, sem nenhuma razão especial, porque a única razão é você mesmo. Apenas você.”

A abertura do Ano Santo acontece no período do Advento, “um tempo de espera, de profunda saudades de Cristo. Deus é amor, descobrimos que não é somente nós que ansiamos por Ele, mas Ele também anseia por nós. Este é o ponto: Deus é aquele que a gente sente falta. Também podemos saciar a sede de Deus retornando para casa, em resposta a sua chamada eterna”, ressaltou Dom Paolo citando como o exemplo da parábola do filho pródigo.

Homem e Deus

“A misericórdia – disse o prelado – é essa inquietação no coração de Deus. Não existe nenhuma possibilidade de atrair o homem senão pela manifestação de um amor desinteressado, que é introduzida na sua vida.” “Não há razão mais convincente para retornar à casa de um pai senão o pressentimento ou a recordação deste amor incondicional. Amamos, mesmo que não mereça isso, e acreditamos que essa é a ordem das coisas, embora, na realidade, é um fato extraordinário”, afirmou o prelado.

De acordo com Dom Paolo, “se uma pessoa reconhece esse amor misericordioso e desinteressado – afirmou o prelado –, perceberá a incansável iniciativa de Deus e, consequentemente, encontrará o milagre de Deus: o homem aceita a si mesmo e entrega-se nas mãos deste amor que o transforma.” (PS)

(from Vatican Radio)

“A Cúria pode até ter 15 doenças, mas o papa também não está nada bem”

papa doente

Aproxima-se o dia em que o Papa Franciscovai entregar os seus votos natalícios aos dirigentes da Cúria Romana, com muito discurso.

A nota é de Sandro Magister, publicada no seu blog Seu Settimo Cielo, 11-12-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E muitos se perguntam o que ele vai dizer desta vez, depois do golpe do ano passado, quando derramou sobre os curiais a lista das15 vergonhosas “doenças” pelas quais ele os julgava afetados.

Desde então, o Vaticano, o murmúrio das críticas contra Jorge Mario Bergoglio foi crescendo, mas sempre protegida pelo anonimato, sendo conhecida a reatividade do papa contra qualquer um que o critique ou o irrite.

A mais instrutiva antologia desses rumores de bispos e cardeais da Cúria foi, no fim de abril de 2015, o serviço do vaticanista suíço Giuseppe Rusconi, que apareceu em alemão na revista berlinense Cicero e, em italiano, no seu blogRosso Porpora.

Mas agora, novamente na Alemanha, e desta vez na revista Focus, saiu mais uma bordoada, sob a forma de uma carta aberta ao papa, por obra de um ex-curial de longo curso, de nacionalidade presumivelmente alemã.

O autor é conhecido da direção da Focus, mas nem mesmo ele assina com nome e sobrenome, não só pelo “clima de medo” que ele diz reinar hoje no Vaticano, mas também para “proteger da ira do papa” os seus anteriores superiores na Cúria.

O que se segue é a tradução integral da carta publicada na Focus no dia 29 de novembro.

Eis o texto.

Padre Santo,

no seu discurso para o Natal de 2014, você chamou os seus colaboradores da Cúria para fazerem, em primeiro lugar, um exame de consciência. De fato, o Advento é uma ocasião para refletir sobre o que Deus nos promete e espera de nós. Você afirmou que os seus colaboradores no Vaticano devem ser um exemplo para toda a Igreja e, depois, elencou uma série de “doenças” das quais a Cúria sofreria.

Naquele momento, eu senti esse julgamento como bastante duro e até mesmo injusto contra muitos no Vaticano que eu conheço pessoalmente, enquanto você parecia falar como alguém que conhece o Vaticano apenas de fora ou apenas de cima. No entanto, justamente aquele seu discurso inspirou esta carta que eu lhe escrevo. Seguindo o seu próprio exemplo, vou deixar de lado todas as coisas boas que você faz e diz, e vou listar apenas aqueles aspectos do seu exercício do ministério papal que me parecem problemáticos.

1. Uma atitude emotiva e anti-intelectual

A alternativa a uma Igreja da doutrina é uma Igreja do arbítrio, não uma Igreja do amor. Entre muitos dos seus colaboradores e conselheiros, há uma real falta de competência em termos de doutrina e teologia; são homens que muitas vezes têm pelas costas uma carreira no governo eclesial ou na administração de uma universidade, e muito frequentemente preferem raciocinar em termos pragmáticos e políticos. Você, como sumo mestre da Igreja, deveria mostrar com mais clareza o primado da fé, para você mesmo e para todos os católicos. A fé sem a doutrina não é nada.

2. Autoritarismo

Você está se distanciando da sabedoria que é conservada na disciplina eclesial, no direito canônico e também na práxis histórica da Cúria. Junto com a sua aversão a um ensinamento supostamente teórico, essa inclinação leva a um autoritarismo que nem mesmo Santo Inácio, o fundador da sua ordem dos jesuítas, teria aprovado. Você realmente escuta as advertências daqueles que lhe apontam aquilo que você, sozinho, imediatamente não viu nem entendeu? O que aconteceria se você viesse a conhecer o meu nome? Agir de modo menos autoritário ajudaria a mudar o atual clima de medo.

3. Populismo da mudança

Invocar a mudança está na moda hoje. Mas especialmente o sucessor de Pedro tem o dever de recordar a si mesmo e aos outros coisas que mudam apenas lentamente, e ainda mais coisas que não mudam em nada. Você realmente acredita que o consenso que obtém dos gurus da política e da mídia é um bom sinal? Cristo não prometeu a Pedro a popularidade na mídia e o culto de uma celebridade (Jo 21, 18). Muitas das suas afirmações levantam falsas expectativas e dão a impressão prejudicial de que a doutrina e a disciplina da Igreja poderiam e deveriam ser adaptadas às opiniões mutáveis da maioria. O apóstolo Paulo pensa de modo diferente sobre isso (Rm 12m 2; Ef 4, 14).

4. Nada de “humildade” diante da herança dos seus antecessores

O seu comportamento é percebido como uma crítica ao modo pelo qual os seus antecessores (muitas vezes canonizados) viveram, falaram e agiram. Eu não consigo ver como isso se concilia com a humildade que você tantas vezes invocou e exigiu. Essa humildade seguramente é necessária, sobretudo quando se trata de continuar a tradição que remonta a Pedro. O seu comportamento sugere implicitamente a ideia de que você quer, de algum modo, reinventar o ministério petrino. Em vez de preservar fielmente a herança dos seus antecessores, você quer se apropriar dela de um modo muito criativo. Mas São João não disse que “é preciso que Ele, o Cristo, cresça, e eu diminua” (Jo 3, 30)?

5. Pastoralismo

Recentemente, você disse que o que mais lhe agrada em ser papa é quando pode agir como pastor. Naturalmente, nem um papa nem qualquer outro pastor deve pôr minimamente em dúvida que a Igreja segue a doutrina de Cristo em tudo aquilo que faz (pastoral, sacramentos, liturgia, catequese, teologia, caridade), porque, em última análise, tudo depende da fé revelada assim como ela nos chega nas Santas Escrituras e na sagrada tradição, e portanto ela é vinculante para a consciência dos fiéis. Não podemos nem mesmo viver a fé e transmiti-la aos outros se não a conhecemos. Sem uma boa teoria, não podemos agir bem no longo prazo. Sem um ensinamento doutrinal, no campo do cuidado pastoral, nos encontraremos apenas com alguns sucessos emocionais e principalmente efêmeros.

6. Exibição exagerada da simplicidade do seu estilo de vida

Certamente, você quer dar o exemplo; mas convém se ocupar, você mesmo, de cada mínima atividade cotidiana? No campo ascético, a mão esquerda não deve saber o que faz a mão direita (Mt 6, 3); caso contrário, o conjunto parece de algum modo artificial. Se você realmente quer dirigir carros ecológicos, é preciso pagar muito mais, ou fazer com que outro pague o preço das tecnologias mais caras: a ecologia tem o seu preço.

7. Particularismo

Há um particularismo que muitas vezes subordina os objetivos da Igreja universal aos pontos de vista de apenas uma parte da Igreja. Essa atitude em um papa é quase cômica, se pensarmos como o nosso mundo está muito mais interconectado, mais móvel e mais aproximado do que nunca. Especialmente hoje, é um tesouro que a Igreja Católicaseja sempre a mesma em todo o mundo, que os católicos em todos os países vivam, rezem e pensem de modo similar e, juntos, uns com os outros, correspondam à realidade global da vida.

8. Uma contínua vontade de espontaneidade

Uma falta de profissionalismo não é um sinal da obra do Espírito Santo. Expressões como “proliferar como coelhos” ou “quem sou eu para julgar?” podem impactar muitas pessoas, mas levam a graves mal-entendidos. Todas as vezes, outros têm que correr para explicar o que você realmente queria dizer. Agir fora do programa e fora do protocolo tem os seus tempos e lugares; mas não pode se tornar a norma. Trata-se também do devido direito aos seus colaboradores em Roma e em todo o mundo. Para um papa, a medida da espontaneidade deve ser muito inferior ao dos pastores.

9. Falta de clareza sobre a relação entre liberdade religiosa, política e econômica

Muitas das suas declarações indicam que o Estado deveria sempre governar mais, controlar mais e ser mais responsável, em particular no campo econômico e social. Na Europa, estamos acostumados a Estados muito fortes. Mas o fato de que o Estado pode cuidar de tudo é refutado pela história. A Igreja deve defender organizações não governamentais que podem fornecer bens que o Estado não pode fornecer do mesmo modo. Contra a tendência de esperar tudo da parte do Estado, a Igreja deve ajudar as pessoas a cuidar da própria vida. O estado de bem-estar social também pode se tornar poderoso demais e, com isso, paternalista, autoritário e não liberal.

10. Metaclericalismo

De um lado, você mostra pouco interesse pelo clero, mas, de outro, critica um clericalismo que é mais imaginário do que real. Essa falta de interesse não pode ser compensada por boas intenções ou por declarações diante de pequenos grupos.

Os bispos e os sacerdotes precisam saber que o papa está às suas costas quando defendem o Evangelho, “no tempo e fora do tempo”, mesmo que façam isso de um modo que, pessoalmente, não agrade ao papa. Não é bom que algumas pessoas pensem que o papa vê muitas coisas de um modo diferente do Catecismo, e que outras o imitem a fim de fazer carreira neste pontificado.

Como papa, você presta um serviço necessário para a continuidade e a tradição da Igreja, e também cristãos não católicos são da mesma opinião. Seria melhor que você reduzisse as suas inovações e provocações; já temos muitas pessoas que fazem isso. O seu magistério, como tal, já é, por si só, palavra definitiva de provocação e de inovação, e, no fim das contas, você é o representante de Cristo e o mestre supremo da nossa fé sobrenatural.

“Graça, misericórdia e paz” vêm “da parte de Deus Pai e de Jesus Cristo, o Filho do Pai, na verdade e no amor” (2Jo 1, 3); e só vêm em bloco. Enquanto neste ano de misericórdia você também se prepara para o Natal, por favor, acolha esta ocasião como um incentivo para descobrir o que você negligenciou nos últimos tempos.

Deixe-se ajudar pelos seus colaboradores, que vão aprender com você apenas se você estiver disposto a aprender alguma coisa com eles. Como eu, muitos outros se encontram em dificuldade com o modo pelo qual você às vezes fala e age. Mas isso pode ser ajustado, se ficar claro que você escuta o que outros têm a dizer.

Infelizmente, eu sei que você não tolera bem esse tipo de crítica e, por esse motivo, não escrevo o meu nome no fim desta carta. Quero proteger os meus superiores da sua ira, sobretudo os sacerdotes e bispos com os quais eu trabalhei por muitos anos em Roma e dos quais eu aprendi tanto. Mas você pode agir de modo a varrer de mim e dos outros os nossos temores ou, melhor ainda, pode tornar supérfluas cartas como esta, simplesmente aprendendo alguma coisa com os outros.

Nesse espírito, desejo-lhe um abençoado e meditativo tempo de Advento!

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/550166-qa-curia-pode-ate-ter-15-doencas-mas-o-papa-tambem-nao-esta-nada-bemq