Dom Schneider: Num malabarismo elegante, análise de uma Exortação

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Caríssimos, Salve Maria!

Abaixo a posição oficial de Mons. Schneider, sobre AL. Sabemos que esse bispo assumiu a missão de, no meio tradicional, “unir” e “fazer pontes”. Por isso ele transita tranquilamente pelos corredores da TFP, pelas salas dos opostos e pelos terraços dos neo-conservadores.

De vários pronunciamentos lidos por mim, este é o que mais assume o “modus operandis” da AL, justamente por falar tudo e não dizer nada. Ora, não se pode negar que no documento não haja algo de positivo, já que até no inferno existe a presença divina, pelo menos como princípio mantenedor. Também o superior da FSSPX reconheceu alguma coisa de bom, todavia o Titanic não afundou devido a um grande buraco. Posso dizer algo muito bom e, mais adiante neutralizar tudo com uma só afirmação. Quem não se “encanta” com a beleza da caridade dos espíritas? Mas é justamente o objetivo, o sentido, a seta para onde aponta que muda tudo.;seta direciona ao alvo para o qual se deseja chegar.

Vemos um bispo criando – mais que uma interpretação – um novo documento – em linhas gerais para tentar salvar o original  e superior – que naufraga  ante à clareza da Fé de sempre.

A avaliação de Dom Schneider – de um malabarismo elegante – agrada tanto aos bergolianos quanto aos da “pax romana”

Mas a verdade é que AL abre , sim, um buraco na barca…um grande, grande buraco….um perigoso buraco, tão fatal quanto disfarçado de eminente misericórdia.

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Segue abaixo a tradução da resposta escrita por Sua Excelência Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana, Cazaquistão. Essa é a resposta oficial à Exortação Apostólica Amoris Lætitia [vinda] do bom Bispo. Ele deseja que ela seja lida por todos, então, por favor, reposte e passe para a frente.

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Amoris lætitia: a necessidade de esclarecimento para evitar uma confusão generalizada

O paradoxo de interpretações contraditórias de “Amoris lætitia”

A recentemente publicada Exortação Apostólica Amoris lætitia (AL), que contém a pletora de riquezas espirituais e pastorais que dizem respeito à vida no Matrimônio e na família Cristã em nossos tempos, infelizmente, em um curto período de tempo, levou a interpretações muito contraditórias mesmo entre o episcopado.

Há bispos e sacerdotes que, pública e abertamente, declararam que a AL representa uma abertura muito clara à comunhão para divorciados e recasados, sem a necessidade de eles praticarem continência. Em suas opiniões, é este aspecto da prática sacramental que, de acordo com eles, irá agora passar por uma mudança significativa, que dá à AL seu verdadeiro caráter revolucionário. Interpretando a AL quanto aos casais irregulares, um presidente de uma Conferência episcopal atestou, em um texto publicado no site dessa mesma Conferência: “Essa é uma disposição da misericórdia, uma abertura de coração e de espírito que não precisa de lei, não espera orientação, nem aguarda para seguir em frente. Ela pode e deve acontecer imediatamente”.

Essa opinião foi confirmada por declarações recentes do padre Antônio Spadar S.J., depois do Sínodo dos Bispos em 2015, que estabeleceu os “fundamentos” para o acesso de casais divorciados e recasados à comunhão ao “abrir uma porta” que se mantinha fechada durante o último Sínodo, em 2014. Agora, como alega o Padre Spadaro em seu comentário sobre a AL, essa previsão se confirmou. Há rumores que o Padre Spadaro era um membro do grupo editoral por trás da AL.

O caminho para as interpretações abusivas parece ter sido pavimentado pelo próprio Cardeal Cristoph Schönborn que disse, durante uma apresentação oficial da AL em Roma, em relação às uniões irregulares, que: “Meu grande júbilo, como resultado desse documento, reside no fato de que ele coerentemente vence a evidente, superficial e artificial divisão entre ‘regular’ e ‘irregular’”. Tal declaração sugere que não há diferença clara entre um casamento válido, sacramental, e uma união irregular, entre pecado venial e mortal.

Por outro lado, há Bispos que alegam que a AL deve ser lida à luz do Magistério perene da Igreja, e que ela não garante acesso à comunhão por casais divorciados ou recasados, nem mesmo em casos excepcionais. Essa declaração é fundamentalmente correta e desejável. De fato, o conteúdo de todo texto magisterial deve, como regra, ser em seu conteúdo consistente com ensinamentos anteriores do Magistério da Igreja, sem qualquer quebra.

Não é segredo, entretanto, que casais divorciados e recasados são admitidos à Sagrada Comunhão em um sem número de igrejas, sem serem obrigados a praticarem a continência. Deve-se admitir que certas declarações na AL poderiam ser usadas para justificar uma prática abusiva que já vem ocorrendo há algum tempo em vários lugares e circunstâncias na vida da Igreja.

Certas declarações da AL são objetivamente vulneráveis a más interpretações

Nosso Santo Padre, o Papa Francisco, convidou-nos todos a fazer uma contribuição à reflexão e ao diálogo nos assuntos sensíveis acerca do Matrimônio e da família. “A reflexão dos pastores e teólogos, se for fiel à Igreja, honesta, realista e criativa, ajudar-nos-á a alcançar uma maior clareza” (AL, 2).

Se analisarmos certas declarações da AL com honestidade intelectual dentro do seu contexto adequado, nos pegamos face a dificuldades quando tentamos interpretá-las de acordo com a doutrina tradicional da Igreja. Isso se deve à ausência de afirmações concretas e explícitas da doutrina e práticas constantes da Igreja, fundadas na Palavra de Deus e reiteradas pelo Papa João Paulo II, que disse, “A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem objetivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e atuada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do Matrimônio. A reconciliação pelo Sacramento da Penitência – que abriria o caminho ao Sacramento eucarístico – pode ser concedida só àqueles que… estão sinceramente dispostos a uma forma de vida não mais em contradição com a indissolubilidade do Matrimônio. Isto tem como consequência, concretamente, que… «assumem a obrigação de viver em plena continência, isto é, de abster-se dos atos próprios dos cônjuges»” (Familiaris Consortio, 84).

O Papa Francisco não estabeleceu “uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos” (AL n. 300). Ele diz, no entanto, na nota 336: “E também não devem ser sempre os mesmos na aplicação da disciplina sacramental, dado que o discernimento pode reconhecer que, numa situação particular, não há culpa grave”. Obviamente referindo-se aos divorciados e aos recasados, o Papa diz na AL, n. 305 que, “por causa dos condicionalismos ou dos fatores atenuantes, é possível que uma pessoa, no meio duma situação objetiva de pecado – mas subjetivamente não seja culpável ou não o seja plenamente –, possa viver em graça de Deus, possa amar e possa também crescer na vida da graça e de caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja”. Na nota 351, o Papa esclarece essa declaração dizendo que “em certos casos, poderia haver também a ajuda dos Sacramentos”.

No mesmo capítulo VIII da AL, n. 298, o Papa fala dos divorciados envolvidos em “uma nova união, por exemplo, podem encontrar-se em situações muito diferentes, que não devem ser catalogadas ou encerradas em afirmações demasiado rígidas, sem deixar espaço para um adequado discernimento pessoal e pastoral. Uma coisa é uma segunda união consolidada no tempo, com novos filhos, com fidelidade comprovada, dedicação generosa, compromisso cristão, consciência da irregularidade da sua situação e grande dificuldade para voltar atrás sem sentir, em consciência, que se cairia em novas culpas. A Igreja reconhece a existência de situações em que «o homem e a mulher, por motivos sérios – como, por exemplo, a educação dos filhos – não se podem separar»”. Na nota 329, o Papa cita o documento Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II; infelizmente, ele faz isso de uma maneira incorreta, porque na passagem em questão, o Concílio refere-se apenas ao válido Matrimônio cristão. A aplicação dessa declaração às pessoas divorciadas pode causar a impressão de que um casamento válido deva ser igualado à união de pessoas divorciadas, se não na teoria, ao menos na prática.

A admissão de pessoas divorciadas e recasadas à Santa Comunhão e suas consequências

Infelizmente, a AL não contém citações verbais dos princípios subjacentes ao ensinamento moral da Igreja, no formato no qual são formulados no n. 84 da Exortação Apostólica Familiares Consortio e na encíclica Veritatis Splendor do Papa João Paulo II, particularmente nos seguintes tópicos de suma importância: “opção fundamental” (Veritatis splendor, nos. 67-68), “pecado mortal e venial” (ibid., n. 69-70), “proporcionalismo, consequencialismo” (ibid., n. 91 et seq.). Entretanto, uma citação verbal da Familiaris Consortio, n. 84, e algumas das afirmações mais significativas naVeritatis splendor tornaria a AL incontestável por interpretações heterodoxas. Alusões gerais a princípios morais e à doutrina da Igreja são certamente insuficientes em uma questão controversa que é tanto delicada quanto de fundamental importância.

Representantes do clero, e mesmo os do episcopado, já estão afirmando que, de acordo com o espírito do Capítulo VIII do AL, a possibilidade de que em casos excepcionais os divorciados e recasados possam ser admitidos à Santa Comunhão sem que seja necessário viverem em perfeita continência.

Se aceitarmos tal interpretação do teor e do espírito da AL, nós devemos, se quisermos ser intelectualmente honestos e respeitar a lei da não-contradição, também aceitar as seguintes conclusões lógicas:

  • O sexto Mandamento, que proíbe qualquer ato sexual que não seja dentro de um Matrimônio, não mais seria universalmente válido, mas admitiria exceções. No presente caso, isso significa que os divorciados poderiam praticar o ato conjugal, sendo mesmo encorajados a fazê-lo para manterem uma “fidelidade mútua”, cf. AL, 298. Poderia haver, portanto, “fidelidade” em um estilo de vida que contradiz diretamente a vontade manifesta de Deus. Entretanto, encorajar e legitimar atos que são e sempre serão, como tais, contrários à vontade de Deus, significaria contradizer a Revelação Divina.
  • As palavras do próprio Cristo: “Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu” (Mt 19,6) não mais se aplicaria a todos os esposos, sem exceção.
  • Seria possível, em um caso especial, receber o Sacramento da Penitência e Sagrada Comunhão enquanto pretende continuar uma violação direta aos Mandamentos de Deus: “Não cometerás adultério” (Ex 20,14) e “Portanto, não separe o homem o que Deus uniu” (Mt 19,6; Gn 2,24).
  • A observância desses Mandamentos e da Palavra de Deus seria, em tal caso, uma questão de teoria ao invés de prática e conduziria, portanto, os divorciados e recasados a “enganarem-se” (Tg 1,22). Seria, portanto, possível crer perfeitamente na natureza divina do sexto Mandamento e na indissolubilidade do Matrimônio sem, no entanto, agir de acordo.
  • A palavra divina de Cristo: “Quem repudia sua mulher e se casa com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher repudia o marido e se casa com outro, comete adultério” (Mc 10,11s) não mais seria universalmente válida, mas seria sujeita a exceções.
  • Uma permanente, deliberada e gratuita violação do sexto Mandamento de Deus e da sacralidade e indissolubilidade do verdadeiro e válido Matrimônio (no caso de casais divorciados e recasados) não mais seria um pecado grave, isto é, uma oposição à vontade de Deus.
  • Poderia haver casos de séria, permanentemente deliberada e livre violação de um ou de mais Mandamentos de Deus (e.g. no caso de um estilo de vida corrupto) no qual poderia ser dado acesso aos Sacramentos para o interessado mitigando-se as circunstâncias, sem que tal acesso seja feito condicionado a uma sincera resolução, desde então, a abster-se de tais atos de pecado e escândalo.
  • O ensinamento permanente e infalível da Igreja não mais seria universalmente válido, particularmente, o ensinamento confirmado pelo Papa João Paulo II naFamiliaris Consortio, n. 84, e pelo Papa Bento XVI em Sacramentum Caritatis, 29, de acordo com o qual a condição prévia para admissão aos Sacramentos do divorciado e recasado é a perfeita continência.
  • A observância do sexto Mandamento de Deus e da indissolubilidade do Matrimônio iria tornar-se um ideal inalcançável para todos, mas apenas para uma espécie de elite.
  • As firmes palavras de Cristo ordenando os homens a observarem os Mandamentos de Deus, sempre e em todas as circunstâncias, e mesmo para tomarem para si sofrimento considerável de forma a fazê-los, em outras palavras, aceitar a Cruz, não mais seria válido como uma verdade absoluta: “E se a tua mão direita te faz pecar, corta-a e lança-a fora de ti; porque melhor te é que se perca um dos teus membros, do que todo o teu corpo vá para o inferno” (Mt 5, 30).

Admitir casais vivendo em “uniões irregulares” à Sagrada Comunhão e permiti-los praticar atos que são reservados para esposos em um casamento válido, seria equivalente à usurpação de um poder que não pertence a nenhuma autoridade humana, porque fazê-lo seria uma pretensão de corrigir a Palavra do próprio Deus.

O perigo da colaboração da Igreja na disseminação da “praga do divórcio”

Professando a doutrina eterna de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Igreja ensina: “Fiel ao Senhor, a Igreja não pode reconhecer como Matrimônio a união dos divorciados recasados civilmente. «Quem repudia a própria mulher e casa com outra comete adultério contra ela; se a mulher repudia o marido e casa com outro, comete adultério» (Mc 10, 11-12). Para com eles, a Igreja desenvolve uma atenta solicitude, convidando-os a uma vida de fé, à oração, às obras de caridade e à educação cristã dos filhos. Mas eles não podem receber a absolvição sacramental nem se abeirar da comunhão eucarística, nem exercer certas responsabilidades eclesiais enquanto perdurar esta situação, que objetivamente contrasta com a lei de Deus” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 349).

Viver em uma união marital inválida e ir de encontro constantemente à ordem de Deus e a sacralidade e indissolubilidade do Matrimônio significa não viver na verdade. Declarar que a prática deliberada, livre e habitual de atos sexuais em uma união conjugal inválida poderia, em casos específicos, não constituir um pecado grave não é a verdade, mas uma grave mentira, e nunca trará, portanto, a alegria genuína no amor. Consequentemente, garantir a permissão a essas pessoas de receber a Sagrada Comunhão seria um blefe, uma hipocrisia e uma mentira. A Palavra de Deus na Escritura ainda é válida: “Aquele que diz “‘Eu O conheço’, mas não guarda os Seus mandamentos é mentiroso e a verdade não está nele” (I Jo 2,4).

O Magistério da Igreja ensina-nos sobre a universal validade dos Mandamentos do Decálogo: “Uma vez que exprimem os deveres fundamentais do homem para com Deus e para com o próximo, os Dez Mandamentos revelam, no seu conteúdo primordial, obrigações graves. São basicamente imutáveis e a sua obrigação impõe-se sempre e em toda a parte. Ninguém pode dispensar-se dela” (Catecismo da Igreja Católica, 2072). Aqueles que afirmaram que os Mandamentos de Deus, inclusive o Mandamento “Não cometerás adultério”, admitem exceções e que, em alguns casos, as pessoas não devem ser responsabilizadas pelo divórcio foram os fariseus e, posteriormente, os gnósticos cristãos dos séculos II e III.

As seguintes declarações do Magistério ainda são válidas porque são parte do Magistério infalível, pois são expressas pelo Magistério universal e ordinário: “Ospreceitos negativos da lei natural são universalmente válidos: obrigam a todos e cada um, sempre e em qualquer circunstância. Trata-se, com efeito, de proibições que vetam uma determinada ação semper et pro semper, sem exceções. … há comportamentos que em nenhuma situação e jamais podem ser uma resposta adequada. … A Igreja sempre ensinou que nunca se devem escolher comportamentos proibidos pelos mandamentos morais, expressos de forma negativa no Antigo e no Novo Testamento. Como vimos, Jesus mesmo reitera a irrevogabilidade destas proibições: «Se queres entrar na vida, cumpre os mandamentos (…): não matarás; não cometerás adultério; não roubarás, não levantarás falso testemunho» (Mt 19,17-18)” (João Paulo II, Carta EncíclicaVeritatis Splendor, 52).

O Magistério da Igreja ensina ainda mais claramente: “A consciência boa e pura é iluminada pela fé verdadeira. Porque a caridade procede, ao mesmo tempo, «dum coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera» (I Tm 1,5. cf. 3,9; II Tm 1,3; I Pe 3,21; At 24,16)” (Catecismo da Igreja Católica, 1794).

No caso de, objetivamente, uma pessoa cometer atos moralmente pecaminosos, com plena advertência da pecaminosidade de tais atos, livre e deliberadamente, e com a intenção de repeti-los no futuro, é impossível aplicar o princípio da inimputabilidade de uma falta por causa de circunstâncias atenuantes. A aplicação do princípio da inimputabilidade a casais divorciados e recasados constituiria hipocrisia e sofisma gnóstico. Se a Igreja admitisse essas pessoas à Sagrada Comunhão, mesmo em um único caso, estaria em contradição com sua própria doutrina, dando testemunho público contra a indissolubilidade do Matrimônio e, assim, contribuindo para a disseminação da “praga do divórcio” (Concílio Vaticano II, Gaudium et spes, 47).

A fim de evitar uma intolerável e escandalosa contradição, a Igreja, na sua interpretação infalível da verdade divina da lei moral e da indissolubilidade do Matrimônio, tem, por dois mil anos, firmemente observado a prática de apenas admitir à Sagrada Comunhão aqueles divorciados que vivem em perfeita continência e “remoto scandalo”, sem qualquer exceção ou privilégio excepcional.

A primeira tarefa pastoral que o Senhor confiou à Sua Igreja foi ensinar a doutrina (cf. Mt 28,20). A observância dos Mandamentos de Deus está intrinsecamente ligada à doutrina. Por este motivo, a Igreja sempre rejeitou qualquer contradição entre doutrina e vida prática, referindo-se a tais contradições como “gnósticas” ou como a teoria herética luterana do simul iustus e peccator. Não deve haver contradições entre a fé e a vida diária dos filhos da Igreja.

Ao lidar com a observância do que é expressamente mandado por Deus e a indissolubilidade do Matrimônio, não podemos falar de interpretações teológicas opostas. Se Deus diz “tu não cometerás adultério”, nenhuma autoridade humana poderia dizer “em alguns casos excepcionais ou por um bom motivo você pode cometer adultério”.

As seguintes assertivas do Papa Francisco são muito importantes; o Papa fala sobre a integração do divorciados e recasados na vida da Igreja: “Este discernimento não poderá jamais prescindir das exigências evangélicas de verdade e caridade propostas pela Igreja. Para que isto aconteça, devem garantir-se as necessárias condições de humildade, privacidade, amor à Igreja e à sua doutrina … Evita-se o risco de que um certo discernimento leve a pensar que a Igreja sustente uma moral dupla” (AL, 300). Estas louváveis declarações na AL, no entanto, permanecem sem especificações concretas sobre a questão da obrigação de divorciados recasados se separarem ou, ao menos, viver em continência perfeita.

Quando é uma questão de vida ou morte do corpo, nenhum médico expressaria suas opiniões de forma ambígua. O médico não pode dizer ao paciente: “Você tem que decidir se quer ou não tomar o medicamento de acordo com a sua consciência, ao mesmo tempo que respeita a ética médica”. Tal comportamento por parte de um médico, muito provavelmente, é considerado irresponsável. E, no entanto, a vida de nossa alma imortal é mais importante, uma vez que é da saúde da alma que depende o seu destino eterno.

A verdade libertadora da penitência e o mistério da Cruz

Dizer que divorciados recasados não são pecadores públicos na Igreja é uma ocultação com fatos errados. A verdadeira condição de todos os membros da Igreja militante, aliás, é a de pecadores. Se os divorciados e recasados dizem que seus voluntários e deliberados atos contra o sexto Mandamento de Deus não são sempre pecaminosos, ou, pelo menos, não se constituem em pecados graves, eles enganam a si mesmos e a verdade não estará neles, como diz São João: “Se dissermos que estamos sem pecado, nós mesmos nos enganamos, e não há verdade em nós. Porém se nós confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar esses nossos pecados, e para nos purificar de toda a iniquidade. Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo a Ele mentiroso, e a Sua palavra não está em nós” (I Jo 1,8-10).

A aceitação por parte dos divorciados e recasados da verdade de que são pecadores e mesmo pecadores públicos não os priva de sua Esperança cristã. Apenas a aceitação da realidade e verdade permitirá a eles seguir um caminho de frutuosa penitência de acordo com as palavras de Jesus Cristo.

Seria muito benéfico restaurar o espírito dos primeiros Cristãos e do tempo dos Padres da Igreja, quando havia uma solidariedade viva com os pecadores públicos por parte dos fieis; entretanto, essa solidariedade era baseada na verdade. Não havia nada de discriminatório em tal solidariedade; ao contrário, toda a Igreja participava no progresso penitencial dos pecadores públicos com orações de intercessão, lágrimas, atos de expiação e atos de caridade em seu benefício.

A Exortação Apostólica Familiaris Consortio ensina que “mesmo aqueles que se afastaram do Mandamento do Senhor e vivem agora nesse estado (divorciados e recasados), poderão obter de Deus a graça da conversão e da salvação, se perseverarem na oração, na penitência e na caridade” (n. 84).

Durante os primeiros séculos, pecadores públicos eram integrados na comunidade de oração dos fiéis e eram instruídos a ajoelhar-se, com braços levantados, para implorar a intercessão dos seus irmãos. Tertuliano nos dá este comovente testemunho: “O corpo não pode regozijar-se quando um dos seus membros sofre. Ele deve sofrer e lutar para recuperar-se por inteiro. Quando você estende suas mãos em direção aos joelhos de seus irmãos, é Cristo que você toca, é Cristo que você implora. Do mesmo modo, quando choram por você, é Cristo quem se compadece” (De pænitentia, 10, 5-6). Santo Ambrósio de Milão encontrou palavras semelhantes: “Toda a Igreja toma para si o fardo do pecador público, sofrendo com ele através de lágrimas, orações e dor” (De pænitentia1, 81).

É verdade, claro, que as formas de disciplina penitencial da Igreja mudaram. Entretanto, o espírito dessa disciplina deve permanecer vivo na Igreja em todos os tempos. Hoje, padres e Bispos, confiando-se de certas declarações da AL, estão começando a sugerir aos divorciados e recasados que sua condição não os torna pecadores públicos de um ponto de vista objetivo. Eles os tranquilizam declarando que suas relações sexuais não são pecado grave. Tal atitude não corresponde à verdade. Eles estão privando os divorciados e recasados da possibilidade de uma conversão radical à obediência de Deus, permitindo que essas almas vivam em uma ilusão. Tal aproximação pastoral é fácil, barata e nada custa. Não há lágrimas, orações ou obras de intercessão inspiradas por amor fraternal a serem oferecidas em benefício dos divorciados e recasados.

Ao admitir os divorciados e recasados à Santa Comunhão, mesmo em casos excepcionais, sem exigir que eles parem de realizar atos contrários ao sexto Mandamento de Deus e também, presunçosamente, declarando que seu modo de vida não é um pecado mortal, tomamos o caminho fácil, afastando o escândalo da Cruz. Tal cuidado pastoral dos divorciados e recasados é efêmero e enganador. A todos aqueles que advogam caminho ordinário e fácil para divorciados e recasados, Jesus ainda dirige as palavras “Tira-te diante de Mim, Satanás, que Me serves de escândalo; porque não tens gosto das coisas que são de Deus, mas das que são dos homens” (Mt 16,23). O que Jesus disse aos seus discípulos foi que “Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz e siga-Me” (Mt 16,24).

Quanto ao cuidado pastoral dos casais divorciados e recasados, devemos reacender em nosso tempo o espírito de seguir Cristo através da verdade da cruz e da penitência, o qual, sozinho, pode trazer alegria duradoura, evitando prazeres efêmeros que são, em última instância, enganosos. As seguintes palavras do Papa São Gregório Magno não são apenas verdadeiramente aplicáveis a nossa atual situação, mas também a ilumina: “Não devemos nos tornar demasiado apegados ao nosso exílio terreno, as conveniências da vida não devem nos fazer esquecer nossa verdadeira pátria, para que nossos espíritos não fiquem sonolentos no meio dessas amenidades. Por esta razão, Deus alia Seus dons a visitações ou punições, para assegurar que tudo quanto nos deleita neste mundo torne-se amargo para nós e que nossa alma seja repleta com a chama que sempre reacende em nós o desejo das coisas celestes e permite-nos progredir. Esse fogo faz-nos sofrer com prazer, crucifica-nos gentilmente e enche-nos com uma jubilosa alegria” (In Hez., 2, 4, 3).

O espírito da genuína disciplina penitencial da Igreja primitiva sempre se manteve vivo na Igreja de todos os tempos, até hoje. Tem um notável exemplo disso em Laura Vicuna del Carmen, nascida em 1891 no Chile. A irmã Azocar, que tomava conta de Laura, recorda: “Eu lembro a primeira vez que expliquei o Sacramento do Matrimônio, Laura desfaleceu, provavelmente porque entendeu das minhas palavras que sua mãe estava vivendo em pecado mortal enquanto permanecesse com aquele cavalheiro. Durante aquele tempo em Junín, apenas uma família vivia de acordo com a vontade de Deus”. Assim, Laura intensificou suas orações e penitências por sua mãe. Ela recebeu sua primeira comunhão em 2 de junho de 1901 com grande fervor; ela escreveu as seguintes resoluções: “1. Quero amá-lO e servi-lO toda minha vida, oh meu Jesus; para isso, ofereço-Te minha alma, meu coração e todo meu ser. – 2. Eu prefiro morrer a ofendê-lO em pecado; então quero distanciar-me de tudo quando me separa de Ti. – 3. Prometo fazer o melhor de mim, mesmo que eu tenha de fazer grandes sacrifícios, para seres mais conhecido e amado, e para reparar as ofensas infligidas a Ti diariamente pelos homens que não Te amam, especialmente aquelas que recebes dos que são próximos a mim – Oh, meu Deus, conceda-me uma vida de amor, mortificação e sacrifício!”. Mas sua maior alegria foi perturbada por ver sua mãe, presente na cerimônia, não receber a comunhão. Em 1902, Laura ofereceu sua vida por sua mãe, que estava vivendo com uma homem em uma união irregular na Argentina. Laura multiplicou suas orações e sacrifícios pela verdadeira conversão de sua mãe. Algumas horas antes de morrer, ela chamou sua mãe para seu leito e disse: “Mãe, eu vou morrer. Pedi a Jesus por isso e minhas orações foram atendidas.Quase dois anos atrás, ofereci minha vida pela graça de sua conversão. Mãe, não terei a felicidade de vê-la arrepender-se antes de morrer?”. Sua mãe, chocada e arrasada, fez a promessa: “Amanhã de manhã irei à igreja e vou me confessar”. Laura chamou a atenção do padre que a estava atendendo e disse: “Padre, minha mãe acabou de prometer abandonar esse homem; seja testemunha de sua promessa!”. Então acrescentou, feliz: “Agora posso morrer alegre!”. Com essas palavras, ela expirou no dia 22 de janeiro de 1904, em Junín de Los Andes (Argentina), aos 13 anos, nos braços de sua mãe, que redescobriu a Fé e pôs fim a sua união irregular na qual estava vivendo.

O admirável exemplo de vida de uma jovem garota, agora conhecida com “bem-aventurada” Laura, é uma demonstração da seriedade com a qual um verdadeiro católico trata o sexto Mandamento de Deus e a sacralidade e indissolubilidade do Matrimônio. Nosso Senhor Jesus Cristo nos exige evitar mesmo a aparência de aprovar uma união irregular ou adúltera. A Igreja sempre preservou fielmente e transmitiu esse Mandamento divino na sua doutrina e na sua prática, sem nenhuma ambiguidade. Oferecendo sua juventude, Laura certamente não pretendia representar uma das muitas possibilidades diferentes de interpretação doutrinal ou pastoral. Não se oferece a vida por uma possível interpretação pastoral ou doutrinal, mas por uma imutável e universalmente válida verdade Divina. Essa verdade foi demonstrada por um grande número de Santos que ofereceram suas vidas, começando com São João Batista até o simples fiel dos nossos dias cujo nome só Deus sabe.

A necessidade da “Veritatis lætitia”

Felizmente, não há dúvidas de que a AL contém afirmações teológicas, bem como orientações espirituais e pastorais, de grande valor. No entanto, falando pragmaticamente, não é suficiente dizer que a AL deve ser interpretada de acordo com a doutrina tradicional e a prática da Igreja. Se num documento eclesiástico – que, no nosso caso, não é nem definitivo nem infalível – são encontrados elementos que por ventura possam dar origem a interpretações e aplicações que levariam a consequências espirituais perigosas, todos os membros da Igreja, especialmente os Bispos, como colaboradores fraternos do Sumo Pontífice na colegialidade efetiva, têm o dever de denunciá-las e respeitosamente solicitar uma interpretação autêntica.

Em questões relativas à Fé Divina, aos Mandamentos divinos e à sacralidade e indissolubilidade do Matrimônio, todos os membros da Igreja, desde os simples fiéis ao mais alto representante do Magistério, devem se unir no esforço para manter intacto o tesouro da Fé e da moral. Na verdade, foi o Concílio Vaticano II que ensinou: “A totalidade dos fiéis que receberam a unção do Santo (cfr. Jo 2,20 e 27), não pode enganar-se na Fé; e esta sua propriedade peculiar manifesta-se por meio do sentir sobrenatural da Fé do povo todo, quando este, «desde os Bispos até ao último dos leigos fiéis» (S. Agostinho, De Praed. Sanct. 14, 27: PL 44, 980.), manifesta consenso universal em matéria de Fé e costumes. Com este sentido da Fé, que se desperta e sustenta pela ação do Espírito de verdade, o Povo de Deus, sob a direção do sagrado Magistério que fielmente acata, já não recebe simples palavra de homens mas a verdadeira Palavra de Deus (cfr. I Ts 2,13), adere indefectivelmente à Fé uma vez confiada aos Santos (cfr. Jd 3), penetra-a mais profundamente com juízo acertado e aplica-a mais totalmente na vida” (Lumen gentium, 12). O Magistério, por sua vez, “não está acima da Palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido” (Concílio Vaticano II, Dei Verbum, 10).

Foi o Concílio Vaticano II que encorajou todos os fiéis e, especialmente, os Bispos a expressar suas preocupações e observações sem medo, para o bem da Igreja como um todo. Servilismo e politicagem introduziram um mal pernicioso para a vida da Igreja. O famoso Bispo e teólogo do Concílio de Trento, Melchior Cano OP, disse estas memoráveis palavras: “Pedro não precisa de nossas mentiras ou bajulações. Aqueles que fecham os olhos para os fatos e indiscriminadamente defendem cada decisão do Sumo Pontífice são os mesmo que mais contribuem para minar a autoridade da Santa Sé. Eles destroem seus alicerces, em vez de fortalecê-los”.

Nosso Senhor nos ensinou claramente o que constitui o verdadeiro amor e a verdadeira alegria do amor: “Aquele que tem os Meus mandamentos e os guarda, esse é que Me ama” (Jo 14,21). Quando Ele deu ao homem o sexto Mandamento e ordenou-lhe observar a indissolubilidade do Matrimônio, Deus o deu a todos os homens, sem exceção, e não apenas a uma elite. Já no Antigo Testamento, Deus disse: “O Mandamento que hoje te dou não está acima de tuas forças, nem fora de teu alcance” (Dt 30,11) e “Se quiseres, guardarás os Mandamentos para permaneceres fiel à Sua vontade” (Eclo 15, 16). E Jesus disse a todos: “Se queres entrar na vida, observa os Mandamentos”. Que mandamentos? E Ele mesmo respondeu: “Não matarás; não cometerás adultério” (Mt 19,17s). Do ensinamento dos Apóstolos, recebemos a mesma doutrina: “Eis o amor de Deus: que guardemos Seus Mandamentos. E Seus Mandamentos não são penosos” (I Jo 5,4).

Não há vida verdadeira, sobrenatural e eterna, sem guardar os Mandamentos de Deus: “Eu ordeno que guardem os Seus mandamentos. Ponho diante de ti a vida e a morte. Escolhe, pois, a vida!” (Dt 30,16.19). Não há, pois, vida real e nenhuma verdadeira e genuína alegria de amor sem a verdade. “O amor consiste em viver de acordo com os Seus mandamentos” (II Jo 6). A alegria do amor é a alegria da verdade. A autêntica vida cristã consiste na vida e na alegria da verdade: “Não tenho maior alegria do que ouvir dizer que os meus filhos caminham na verdade” (III Jo 4).

Santo Agostinho explica a íntima conexão entre alegria e verdade: “Pergunto a todos se preferem encontrar a alegria na verdade ou no erro; ninguém hesita em declarar que prefere a verdade, como em dizer que querem ser felizes. É que a felicidade da vida é a alegria que provém da verdade, todos nós queremos a alegria da verdade” (Confissões, X, 23).

O perigo de confusão geral quanto à indissolubilidade do Matrimônio

Já há algum tempo, vimos, em alguns lugares e ambientes da vida da Igreja, o abuso tácito da admissão de casais divorciados e recasados à Sagrada Comunhão sem exigir que eles vivam em perfeita continência. As declarações pouco claras no Capítulo VIII da AL deram um novo argumento aos defensores declarados da admissão de casais divorciados e recasados à Santa Comunhão em casos especiais.

Observamos, atualmente, o fenômeno do abuso começando a se espalhar ainda mais na prática, uma vez que aqueles favoráveis a isto estão se sentindo agora justificados de certa maneira. Há obviamente também alguma confusão no que diz respeito à interpretação das afirmações relevantes no Capítulo VIII da AL. Essa confusão é aumentada pelo fato de que todos, tanto os defensores da admissão dos divorciados recasados à Sagrada Comunhão como os seus oponentes, dizem que “A doutrina da Igreja concernente a esse ponto não mudou”.

Tendo em devida conta as diferenças históricas e doutrinais, a nossa situação mostra alguns paralelos e analogias com a confusão geral causada pela crise causada pelo arianismo no século IV. Naquela época, a Fé apostólica e tradicional na verdadeira divindade do Filho de Deus foi garantida por meio do termo “consubstancial” (homoousios), dogmaticamente proclamada pelo Magistério universal do Concílio de Niceia. A profunda crise da Fé, acompanhada por uma confusão quase universal, foi causada principalmente pelas estratégias de recusa ou de evasão em usar e professar palavra “consubstancial” (homoousios). Em vez disso, o clero e sobretudo o episcopado começaram a propor expressões alternativas que eram ambíguas e imprecisas, como, para exemplificar, “semelhante em substância” (homoiousios) ou simplesmente “semelhante” (homoios). A fórmula “homoousios”, aprovada pelo Magistério universal da época, expressava a plena e verdadeira divindade do VERBO com tanta precisão que não deixou nenhum espaço para interpretação equívoca.

Nos anos 357-360, quase todo o episcopado se tornara ariano ou semiariano, como resultado dos seguintes eventos: em 357, o Papa Libério assinou uma das formulações ambíguas de Sirmium, em que o termo “homoousios” foi eliminado. Além disso, o Papa, em um movimento escandaloso, excomungou Santo Atanásio. Santo Hilário de Poitiers foi o único Bispo que se atreveu a censurar o Papa Libério severamente por esses atos ambíguos. Em 359, os sínodos paralelos do episcopado ocidental, em Rimini, e do episcopado oriental, em Selêucia, tinham aceitado as fórmulas exclusivamente arianas, que eram ainda piores do que a fórmula ambígua assinada pelo Papa Libério. Descrevendo a confusão daqueles tempos, São Jerônimo disse: “Todo o mundo ficou surpreso ao perceber que eles haviam se tornado arianos” (“Ingemuit totus orbis, et arianum se esse miratus est“: Adv Lucif, 19).

Indiscutivelmente, no nosso tempo, a confusão já está se espalhando no que concerne à disciplina sacramental para casais divorciados e recasados. Há, portanto, embasamento muito real para supor que essa confusão pode chegar realmente a vastas proporções, se alguém deixar de propor e proclamar a seguinte fórmula do Magistério universal e infalível: “A reconciliação pelo Sacramento da Penitência, o qual abriria o caminho para a Eucaristia, só pode ser concedido àqueles que assumem a obrigação de viver em plena continência, isto é, de abster-se dos atos próprios dos cônjuges” (João Paulo II,Familiaris Consortio, 84). Esta fórmula é, infelizmente e incompreensivelmente, ausente na AL. No entanto, a exortação apostólica inexplicavelmente contém a seguinte declaração: “Nestas situações, muitos, conhecendo e aceitando a possibilidade de conviver «como irmão e irmã» que a Igreja lhes oferece, assinalam que, se faltam algumas expressões de intimidade, «não raro se põe em risco a fidelidade e se compromete o bem da prole»” (AL, 298, n. 329). Esta declaração deixa a impressão de uma contradição com o ensino perene do Magistério universal, como formulada na passagem citada da Familiaris Consortio 84.

Há uma urgente necessidade de que a Santa Sé confirme e reproclame a fórmula citada na Familiaris Consortio 84, talvez sob a forma de uma interpretação autêntica da AL. Esta fórmula pode ser vista, em certa medida, como o “homoousios” dos nossos dias. A falta de uma confirmação formal e explícita da fórmula da Familiaris Consortio 84 por parte da Sé Apostólica poderia contribuir para maior confusão no que diz respeito à disciplina sacramental, com as subsequentes repercussões graduais e inevitáveis em matéria doutrinal. Isto conduziria a uma situação em que seria possível, no futuro, aplicar a seguinte asseveração: “Todo mundo ficou surpreso ao descobrir que o divórcio tinha sido, na prática, aceito” (“Ingemuit totus orbis, et divortium in praxi se accepisse miratus est“).

A confusão na disciplina sacramental em relação ao divorciados e recasados, com suas implicações doutrinárias inevitáveis, estaria em contradição com a natureza da Igreja Católica, tal como foi descrito por Santo Irineu no século II: “A Igreja, tendo recebido este ensinamento e esta Fé, embora espalhados por todo o mundo, mantém-los com cuidado, como que habitasse numa única casa, e [neles] crê igualmente, como se tivesse uma só alma e um só coração, e anuncia-os, ensina-os e transmite-os, com voz unânime, como se tivesse apenas uma boca” (Adversus hæreses, I, 10, 2).

A Sé de Pedro, isto é, o Soberano Pontífice, é a sustentadora da unidade da Fé e da disciplina sacramental apostólica. Avaliando a confusão acerca da prática sacramental em relação aos divorciados e recasados e as variadas e divergentes interpretações da AL entre padres e Bispos, pode-se considerar justificado o pedido de explicação ao nosso amado Papa Francisco, o Vigário de Cristo, o “doce Cristo na terra” (Santa Catarina de Sena), para ordenar a publicação de uma interpretação autêntica da AL, que deve conter, necessariamente, a declaração explícita do princípio disciplinar do Magistério universal e infalível relativo à admissão de casais divorciados e recasados aos Sacramentos, de acordo com a formulação na Familiaris Consortio 84.

Na grande confusão ariana do século IV, São Basílio Magno fez um apelo urgente para o Papa de Roma, pedindo-lhe para dar de sua própria boca uma direção clara, de modo a, finalmente, garantir a unidade no pensamento da Fé e da Caridade (cf. Ep. 70).

Uma interpretação autêntica da AL pela Sé Apostólica traria para toda a Igreja (“claritatis lætitia”) a alegria da clareza. Tal clareza garantirá a alegria no amor (“lætitia amoris”), um amor e uma alegria que não seria “de acordo com as mentes dos homens, mas com a de Deus” (Mt 16,23). E isso é o que garante a alegria, a vida e a salvação eterna dos divorciados e recasados, e de todos os homens.

† Athanasius Schneider, Bispo auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana, Cazaquistão

***

Tradução e revisão: José Napoleão Godoy e Karlos Guedes

Fonte: https://pelafecatolica.com/2016/04/27/alegria-amor-desamor-engano/

Efeito ” Amoris”: Bispos das Filipinas liberam comunhão aos adúlteros

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Mons. Socrates B. Villegas, Arzobispo de Lingayen Dagupan y Presidente de la Conferencia Episcopal de Filipinas, ha escrito una carta en la que asegura que no hay que esperar las directrices de los obispos sobre la exhortación apostólica «Amoris laetitia» y pide que se dé la comunión -«comida para los miserables»- a los «pecadores».

(InfoCatólica) Estas son las palabras de Mons. Lingayen Dagupan, publicadas en la web de la Conferencia Episcopal de Filipinas:

«Después de un discernimiento conjunto, vuestros obispos elaborarán directrices más concretas sobre la implementación de la Exhortación Apostólica. Pero la misericordia no puede esperar. La misericordia no debe esperar. Los obispos y sacerdotes deben recibir ya con los brazos abiertos a los que se mantenían fuera de la Iglesia por un sentimiento de culpa y vergüenza. Los laicos deben hacer lo mismo. Cuando nuestros hermanos y hermanas, debido a relaciones rotas, familias rotas y vidas rotas, permanecen tímidamente en los umbrales de nuestras iglesias y de nuestras vidas, sin saber si van a ser recibidos o no, vayamos a su encuentro, como el Papa nos pide que hagamos, y asegurémosles que, siempre hay un lugar a la mesa de los pecadores, en la que el Señor se ofrece a sí mismo como comida para los miserables. O res mirabilis manducat Dominum pauper, servus et humilis…Oh maravilla, el pobre, el siervo y el humilde reciben al Señor. Se trata de una medida de misericordia, una apertura de corazón y espíritu que no necesita ninguna ley, no espera a ninguna directriz ni aguarda indicaciones. Puede y debe ponerse en práctica inmediatamente».

Texto completo de la carta del arzobispo y presidente de la Conferencia Episcopal de Filipinas

Conviene recordar que la Exhortación Amoris Laetitia no ha cambiado ni la disciplina de la Iglesia ni su doctrina con respecto a la recepción de la comunión. En este sentido, InfoCatólica hace suya la declaración publicada recientemente por Mons. Livio Melina, Presidente del Pontificio Instituto Juan Pablo II. Estamos traduciendo y publicaremos íntegramente sus varias páginas, pero citamos ahora este frase:

«Por lo tanto, hay que decir claramente que, también después de la Amoris Laetitia, admitir a la comunión a los divorciados “vueltos a casar”, excepto en las situaciones previstas en la Familiaris Consortio 84 y en la Sacramentum Caritatis 29 [Nota del traductor: el compromiso de “vivir como hermanos”], va contra la disciplina de la Iglesia y enseñar que es posible admitir a la comunión a los divorciados “vueltos a casar” más allá de estos criterios va contra el Magisterio de la Iglesia»

Fonte: http://infocatolica.com/?t=noticia&cod=26408

Mons. Fellay sobre “Amoris Laetitia”: ” Grave, Gravíssimo!”

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Carísssimos,

Salve Maria

Abaixo o pronunciamento de Mons. Fellay, superior geral da FSSPX, do dia 10 de abril passado, sobre o documento papal ” A Alegria do Amor”. S. Excia considera o documento como Grave, muito Grave. Compara-o com um buraco, feito pelo papa, na Barca de Pedro. “Um documento que nos faz chorar” e “um grande mal para a Igreja”

Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com

À espera de uma análise mais ampla da exortação apostólica que acaba de ser publicada, Mons. Bernard Fellay, em seu sermão no Santuário de Le Puy-en-Velay, no dia 10 de abril, emitiu uma primeira advertência sobre as alterações introduzidas pelo documento em questão.
“Uma exortação apostólica intitulada ‘a alegria do amor’, mas que nos faz chorar. Essa exortação é um resumo dos dois sínodos sobre o matrimônio. Trata-se de um documento muito longo, que contém muitas coisas boas, que são brilhantes — mas, depois de construir um belo edifício, uma bela barca, o Sumo Pontífice fez um buraco na quilha da barca, ao longo da linha de flutuação. Vocês sabem de tudo o que está acontecendo. É inútil dizer que o buraco foi feito tomando todas as devidas precauções; e o buraco é pequeno: a barca afunda! Nosso Senhor mesmo disse que nenhum jota, nem um só jota será tirado da lei de Deus. Quando Deus fala, as suas palavras não admitem exceções; quando Deus manda, Ele o faz com uma paciência infinita que previu todos os casos possíveis. Não há exceções à lei de Deus. E aqui, de repente, afirma-se essa lei do matrimônio, que é conservada pela expressão ‘o casamento é indissolúvel’, mas em seguida se diz que podemos, apesar de tudo, conceder algumas exceções no sentido de que esses divorciados recasados poderiam estar em estado de graça, mesmo estando em pecado mortal, e por isso poderiam receber a comunhão. Isso é gravíssimo! Gravíssimo!Acho que não se mediu suficientemente a gravidade do que foi escrito. Não é preciso dizer que se tratam de palavras escondidas no texto; foi assim que começou a comunhão na mão. E como eu disse, o pequeno buraco já é suficiente: a barca afunda!” [1].
Na continuação do sermão, o Prelado define o documento: “uma exortação terrível que tanto mal faz à Igreja” [21min35].
Depois, descrevendo a situação geral da Igreja, o Superior disse: “há um grande número de prelados, e até de cardeais, e eu diria até o Papa, que dizem não só um absurdo, mas uma heresia, que abre caminho para o pecado (…)” [23min55].
* * *
Nota
[1] Sermão do Mons. Bernard Fellay por ocasião da peregrinação ao Santuário de Le Puy-en-Velay; no áudio, a partir dos 15 minutos.

EM ITALIANO

In attesa di una più ampia analisi dell’Esortazione Apostolica testé pubblicata, Mons. Fellay nella sua predica al Santuario di Puy en Velay di domenica 10 aprile ha espresso un primo biasimo sulle novità introdotte dal documento in questione.

« …un’Esortazione Apostolica che porta come titolo “La gioia dell’amore” ma che ci fa piangere. Quest’esortazione è un riassunto dei due sinodi sul matrimonio. È molto lunga e contiene molte cose che sono giuste, che sono belle, e dopo aver costruito un bell’edificio, una bella barca, il Sommo Pontefice ha fatto un buco nella chiglia della barca, lungo la linea di galleggiamento. Voi sapete tutti ciò che sta accadendo.

È inutile dire che il buco è stato fatto prendendo tutte le precauzioni possibili, è inutile dire che il buco è piccolo: la barca affonda! Nostro Signore stesso ha detto che neanche uno iota, neanche un solo iota sarà tolto dalla legge di Dio. Quando Dio parla, le sue parole non ammettono eccezioni, quando Dio comanda è di una sapienza infinita che ha previsto tutti i casi possibili. Non c’è eccezione alla legge di Dio. Ed ecco che d’un tratto si pretende che questa legge del matrimonio, che si conserva dicendo che “il matrimonio è indissolubile”, (la si ripete questa frase, la si dice), poi si dice che si possono, nonostante tutto, avere delle eccezioni nel senso in cui questi divorziati cosiddetti risposati potrebbero in questo stato di peccato mortale essere in stato di grazia, e quindi potrebbero fare la comunione. È gravissimo! Gravissimo! Credo che non si misuri sufficientemente la gravità di ciò che è stato detto. È inutile dire che sono delle piccole eccezioni messe lì in un angolo; è così che è passata la comunione nella mano e come vi ho detto il piccolo buco nella nave è sufficiente, la barca affonda!»[1]

Nel prosieguo del discorso il Prelato definisce il documento «[…]Esortazione terrificante che fa tanto male alla Chiesa» (min. 21.35)

Più avanti, descrivendo la situazione generale della Chiesa, il Superiore Generale afferma che: «c’è un gran numero di prelati, e perfino di cardinali, e diremmo perfino il Papa, che dicono non soltanto delle sciocchezze ma delle eresie, che aprono la strada al peccato. […]» (min. 23.55)

————

[1] Predica di mons. Bernard Fellay in occasione del pellegrinaggio al Santuario di Puy en Velay; nell’audio, a partire dal minuto 15.00.

Fonte: http://www.sanpiox.it/public/index.php?option=com_content&view=article&id=1776%3Ariflessioni-di-mons-fellay-sull-esortazione-apostolica-amoris-laetitia&catid=67&Itemid=83

Amoris Laetitia: primeiras reflexões sobre um documento catastrófico

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Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com
Com a exortação apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia, publicada em 08 de abril de 2016, o Papa Francisco se pronunciou oficialmente sobre problemas de moral conjugal que vêm sendo discutidos há muitos anos.
No consistório de 20 e 21 de fevereiro de 2014, Francisco havia confiado ao cardeal Kasper a missão de introduzir o debate sobre este tema. A tese de Kasper, segundo a qual a Igreja deve mudar sua praxe matrimonial, foi o tema central dos sínodos sobre a família celebrados em 2014 e 2015, e constitui o núcleo da exortação do Papa Francisco.
Durante esses dois últimos anos, ilustres cardeais, bispos, teólogos e filósofos tomaram parte no debate para demonstrar que entre a doutrina e a praxe da Igreja tem que haver uma íntima coerência. A pastoral funda-se precisamente na doutrina dogmática e moral. “Não pode haver pastoral em desacordo com as verdades e a moral da Igreja, em conflito com suas leis e que não esteja orientada a alcançar o ideal da vida cristã!”, declarou o cardeal Velasio de Paolis em sua alocução ao Tribunal Eclesiástico de Úmbria, em 27 de março de 2014. Para o cardeal Sarah, a ideia de separar o Magistério da praxe pastoral, que poderia evoluir segundo as circunstâncias, modos e paixões, “é uma forma de heresia, uma perigosa patologia esquizofrênica” (La Stampa, 24 de fevereiro de 2015).
Nas semanas que precederam à publicação do documento, multiplicaram-se as intervenções públicas de purpurados e bispos ante o Sumo Pontífice a fim de evitar a publicação de um texto repleto de erros, relativos às numerosíssimas alterações ao projeto propostas pela Congregação para a Doutrina da Fé. Francisco não desistiu. Pelo contrário, parece que confiou o texto definitivo da exortação — ou ao menos algumas das principais passagens — a teólogos de sua confiança que tentaram reinterpretar Santo Tomás à luz da dialética hegeliana. O resultado é um texto que não é ambíguo, mas claro, em sua indeterminação. A teologia da praxe exclui qualquer afirmação doutrinal, deixando que a história trace as linhas da conduta nos atos humanos. Por esta razão, como afirma Francisco, “é compreensível” que, no tema crucial dos divorciados recasados, “não se devia esperar do Sínodo ou desta exortação uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos” (par. 300). Se se tem a convicção de que os cristãos não devem ajustar seu comportamento a princípios absolutos, mas estar atentos a “sinais dos tempos”, seria contraditório formular qualquer classe de regras.
Todos esperavam a resposta a uma pergunta básica: aqueles que, depois de um primeiro matrimônio, voltarem a contrair matrimônio pela via civil, podem receber o sacramento da Eucaristia? A essa pergunta, a Igreja sempre respondeu com um “não” rotundo. Os divorciados recasados não podem receber a comunhão, porque sua condição contradiz objetivamente a verdade natural e cristã sobre o matrimônio, que é representada e atualizada na Eucaristia (conf. Familiaris Consortio, par. 84).
A exortação pós-sinodal responde o contrário: em linhas gerais não, mas “em certos casos” sim (par. 305, nota 351). Os divorciados recasados devem ser “integrados” em vez de excluídos (par. 299). Sua integração “pode exprimir-se em diferentes serviços eclesiais, sendo necessário, por isso, discernir quais das diferentes formas de exclusão atualmente praticadas em âmbito litúrgico, pastoral, educativo e institucional possam ser superadas” (par. 299), sem excluir a disciplina sacramental (conf. par. 300, nota 336).
Na realidade, trata-se do seguinte: a proibição de receber a comunhão já não é absoluta para os divorciados recasados. Por regra geral, o Papa não os autoriza a recebê-la, mas tampouco os proíbe. “Isto — havia destacado o cardeal Caffarra ao refutar o cardeal Kasper — afeta a doutrina. Inevitavelmente. Pode-se inclusive dizer que não o faz, mas o faz. Além disso, introduz-se um costume que a longo prazo inculca no povo, seja ou não cristão, que não existe matrimônio totalmente indissolúvel. E isso desde já se opõe à vontade do Senhor. Não cabe a menor dúvida” (Entrevista ao Il Foglio, 15 de março de 2014).
Para a teologia da praxe não importam as regras, mas os casos concretos. E o que não é possível no abstrato, é possível no concreto. Mas, como acertadamente destacou o cardeal Burke, “se a igreja permitisse (ainda que em um só caso) que uma pessoa em situação irregular recebesse os sacramentos, isso significaria que ou o matrimônio não é indissolúvel e, portanto, a pessoa em questão não vive em estado de adultério, ou que a santa comunhão não é o Corpo e o Sangue de Cristo, que pelo contrário requerem a reta disposição da pessoa, ou seja, o arrependimento do pecado grave e o firme propósito de não voltar a pecar” (Entrevista a Alessandro Gnocchi, Il Foglio, 14 de outubro de 2014).
Não só isso: a exceção está destinada a converter-se em uma regra, uma vez que Amoris Laetitia deixa o critério para receber a comunhão ao “discernimento pessoal”. Esse discernimento é alcançado mediante “o diálogo com o sacerdote, no foro interno” (par. 300), “caso a caso”. E quem será o pastor de almas que se atreverá a proibir que se receba a Eucaristia, se “o próprio Evangelho exige que não julguemos nem condenemos” (par. 308) e é necessário “integrar a todos” (par. 297) e “valorizar os elementos construtivos nas situações que ainda não correspondem ou já não correspondem à sua doutrina sobre o matrimônio” (par. 292)? Os pastores que quiserem invocar os mandamentos da Igreja correriam o risco de atuar, segundo a exortação, “como controladores da graça e não como facilitadores” (par. 310). “Por isso, um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em situações ‘irregulares’, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas. É o caso dos corações fechados, que muitas vezes se escondem até por detrás dos ensinamentos da Igreja ‘para se sentar na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas'” (par. 305).
Essa linguagem inédita, mais dura que a dureza de coração que repreende os “controladores da graça”, é a marca distintiva de Amoris Laetitia, que, não por nenhuma casualidade, foi qualificada pelo cardeal Schönborn na coletiva de imprensa de 08 de abril de 2016 como “um evento linguístico”. “O que mais me alegra neste documento — declarou o cardeal de Viena — é que ele supera de forma coerente a divisão externa artificial que distinguia entre regular e irregular”. A linguagem, como sempre, expressa um conteúdo. As situações que a exortação pós-sinodal define como “chamadas irregulares” são o adultério público e a convivência extramatrimonial. Para Amoris Laetitia, estas realizam o ideal do matrimônio cristão, “de forma parcial e análoga” (par. 292). “Por causa dos condicionalismos ou dos fatores atenuantes, é possível que uma pessoa, no meio de uma situação objetiva de pecado — mas subjetivamente não seja culpável ou não o seja plenamente —, possa viver em graça de Deus, possa amar e possa também crescer na vida de graça e de caridade, recebendo para isso a ajuda da Igreja” (par. 305), “em certos casos, poderia haver também a ajuda dos sacramentos” (nota 351).
Segundo a moral católica, as circunstâncias, que constituem o contexto no qual a ação se desenvolve, não podem modificar a qualidade moral dos atos, fazendo boa e justa uma ação intrinsecamente má. Mas a doutrina dos absolutos morais e do mal intrínseco é anulada por Amoris Laetitia, que se acomoda à “nova moral” condenada por Pio XII em vários documentos e por João Paulo II em Veritatis Splendor. A moral situacionista deixa à mercê das circunstâncias e, em último caso, à consciência subjetiva do homem determinar o que está certo e o que está errado. Assim, uma união sexual extraconjugal não é considerada intrinsecamente ilícita, mas, como um ato de amor, é valorizada em função das circunstâncias. Dito de um modo mais geral, não existe o mal em si nem tampouco pecados graves ou mortais. Comparar pessoas em estado de graça (situações regulares) com pessoas em situação de pecado permanente (situações irregulares) é mais do que uma questão linguística: podemos dizer que está em conformidade com a teoria luterana do homem (que diz que o homem é justo e pecador), condenada pelo Decreto sobre a justificação no Concílio de Trento (conf. Denz-H, nn. 1551-1583).
A exortação pós-sinodal Amoris Laetitia é muito pior que a exposição do cardeal Kasper, contra a qual se dirigiram tantas e tão justas críticas em livros, artigos e entrevistas. Kasper limitou-se a plantear algumas perguntas; Amoris Laetitia [isto é, Francisco] apresenta a resposta: abre as portas aos divorciados recasados, canoniza a moral situacionista e dá início a um processo de normalização de todas as convicções extramaritais.
Tendo em conta que o novo documento pertence ao Magistério ordinário não infalível, é de esperar que seja objeto de uma análise crítica profunda por parte de teólogos e pastores da Igreja, sem a ilusão de que se possa aplicar-lhe a hermenêutica da continuidade.
Se o texto é catastrófico, mais catastrófico é o fato de que ele foi assinado pelo Vigário de Cristo. Pois bem, para aqueles que amam a Cristo e à sua Igreja, esta é uma boa razão para falar, para não ficar em silêncio. Façamos nossa, pois, as palavras de um valente mitrado, Mons. Athanasius Schneider: “Non possumus! Eu não vou aceitar um discurso ofuscado nem uma porta falsa, habilmente ocultada para a profanação do sacramento do Matrimônio e da Eucaristia. Do mesmo modo, não vou aceitar que se brinque com o sexto mandamento da Lei de Deus. Prefiro ser ridicularizado e perseguido do que aceitar textos ambíguos e métodos insinceros. Prefiro a cristã ‘imagem de Cristo, a Verdade, à imagem da raposa adornada com pedras preciosas’ (Santo Irineu), porque ‘eu sei em quem tenho crido’, ‘scio cui credidi’ (II Tm I, 12)” (Rorate Caeli, 2 de novembro de 2015).
Fonte: http://www.renitencia.com/2016/04/amoris-laetitia-primeiras-reflexoes-sobre-um-documento-catastrofico.html

Sobre a “Alegria do Amor”

papa rindo

 

Pe. Marcélo Tenorio

 

Recentemente foi divulgada a nova Exortação Apostólica do Papa Francisco sobre a Família, como conclusão oficial do último Sínodo. O papa escolheu como título ” Amoris Laetitia” – a “Alegria do Amor”. Aliás o tema da “alegria” está bem presente na visão do Papa, basta nos lembrar da Evangelii Gaudium.

Li a referida exortação. Percebe-se, logo de início, que nada tem de gozosa. Ela é extensa por demais, complexa e cansativa.

Dá-se a impressão que se está dentro de uma espiral que ora gira para um lado, ora para o outro, deixando zonzo quem se dá à leitura.

É necessário uma parada, um chazinho bem quente, fôlego e muita determinação para se chegar ao fim do documento.

Repete-se o estilo da Evangelii Gaudium, que prefiro chamar de “Dolor Fidelium”. Mas nesta, por excelência e complexidade, é notada uma ausência de clareza quanto à doutrina e disciplina dos sacramentos. Há um teor pastoral excessivo diante da escassez do fundamento tradicional da Igreja Católica que deveria se ver logo na introdução, para, após ter lugar o embasamento na Verdade Católica, para então avançar nas problemáticas hodiernas e novos desafios pastorais.

Se é verdade que pelos frutos conhecemos a arvore, pelas notas conhecemos um livro. Toda base do documento é eminentemente conciliar, ficando a cargo da Gaudium et Spes, a soberania no assunto. A linha com a Arcanum Divinae Sapíentiae, de Leão XIII – 1880 e com a Casti Connubi, de Pio XI – 1930, parece ter sido interrompida. É bem verdade que esta última aparece uma única vez…O que predomina em todo texto é a Gaudium et spes, Familiaris Consortio, de João Paulo II e um pouco de Paulo VI, em sua Humanae Vitae.

Em todo o corpo há um embate entre Francisco de um lado e o Catecismo e Familiaris Consortio, do outro. Digo isto porque é justamente aqui que se encontra a fragilidade do documento. Se a Verdade católica é colocada e assegurada, noutra parte, nas colocações de Francisco, ou é negada ou obscurecida.

Vejamos alguns aspectos do documento:

  1. “Algumas formas de união contradizem radicalmente este ideal, enquanto outras o realizam pelo menos de forma parcial e analógica. Os Padres sinodais afirmaram que a Igreja não deixa de valorizar os elementos construtivos nas situações que ainda não correspondem ou já não correspondem à sua doutrina sobre o matrimônio.

Ora, as formas que contradizem radicalmente o Matrimônio Sacramental são justamente as uniões naturais ou ainda o as uniões adúlteras ou uniões não naturais, objetivamente Pecado Mortal. Onde estão e quais são, então, esses elementos “construtivos” ? Seria grave afirmar que de um princípio mal, tivéssemos um bem, como nos ensina o aquinate.

«Na abordagem pastoral das pessoas que contraíram matrimônio civil, que são divorciadas novamente casadas, ou que simplesmente convivem, compete à Igreja revelar-lhes a pedagogia divina da graça nas suas vidas e ajudá-las a alcançar a plenitude do desígnio que Deus tem para elas» sempre possível com a força do Espírito Santo…(297).

Mas de que “Graça” se fala aqui?A Santificante? Impossível! Pois não se tem um estado de vida de acordo com os princípios sacramentais. A Graça atual ? Esta até poderia, entretanto ela existe como meio para se voltar à Santificante, pela conversão e mudança de vida.E a extraordinária?Bem temerário esperar por ela, não acham ? Mas além da “’Graça”, onde ficam as obras ?

São colocações sérias de um papa. Os princípios gerais são perigosos à toda disciplina sacramental. A subjetividade do texto deixa brechas para todos os lados e gera entendimentos diversos, interpretações outras em matéria tão importante.

Como negar a comunhão aos irregulares e em pecado objetivo diante de tudo isso ?

“Ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho! Não me refiro só aos divorciados que vivem numa nova união, mas a todos seja qual for a situação em que se encontrem.” (297)

Aqui parece se aplicar a teoria da “Salvação Universal” tão querida por João Paulo II, e a ideia de que se o inferno existe, ele estaria vazio. Não mais condenações, não mais ascese, não mais penitentes, só misericórdia, “Gaudium et gaudium”

E o que faremos agora diante das severas advertências do Senhor de estarmos prontos e preparados para o dia do juízo ?

Dies irae, dies illa

solvet saeclum in favilla

teste David cum Sibylla

Diante das contradições que acabamos de perceber,precisaria de um documento explicando o Documento, prova de fogo para um Pe. Lombardi, se não tivesse sido aposentado…

Por exemplo ,a proibição da comunhão aos que estão em situação de adultério, como sempre foi ensinado pela Igreja, em nenhum momento aparece no texto, há um silêncio ensurdecedor sobre esta disciplina, entretanto podemos ler no 301:

“Por isso, já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada «irregular» vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante.”

Diante desta afirmação do papa, melhor calar.

“ Senhor, a quem iremos ?……” ( Jo 6,68).

É verdade que nos encontramos diante de um pontificado polêmico. São muitos os que aplaudem Francisco e , infelizmente, muitos inimigos da Igreja se regozijam com o papa.

É também verdade que suas falas geram desentendimentos e várias interpretações. O próprio Francisco, ciente disso e sabendo que alguns o acusava de “não muito católico” chegou a dizer que era católico e que se necessário fosse, recitaria publicamente o Credo:

“Perguntam-me se eu sou católico? Se quiserem, posso recitar o Credo…” (durante a viagem de Santiago de Cuba a Washington).

Cena como esta jamais seria imaginada nos tempos em que a clareza e objetividade emanavam da boca do Papa. Antigamente a luz da Igreja iluminava o mundo, hoje parece que a escuridão do mundo ofusca a Verdade da Igreja.

Faço minhas as palavras o filósofo Olavo de Carvalho:

“Notem bem: O Papa não está lá [no trono de Pedro] para desfrutar sempre da nossa paternal condescendência na interpretação das suas palavras. Ele está lá para nos ensinar e guiar. É um pai e não um jovem inexperiente que precise de compreensão e tolerância. Chega de alegar sempre a desculpa da ignorância, das boas intenções mal expressas, das ambigüidades de linguagem, etc. Estamos fazendo isso desde 1962 e vejam no que deu. Pio XII jamais precisou que alguém explicasse “o que ele queria realmente dizer”. Ele dizia o que pensava realmente, e todo mundo compreendia. A simples ambigüidade de expressão, na boca de um papa, já é intolerável”

Rezemos sempre pelo Papa e pela Igreja em seu ocaso

 

A esperança de Chesterton

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Dr. Tiago Bana Franco

Por que é tão interessante ler Chesterton? Eis a pergunta que não me saiu da cabeça desde que iniciei O Homem Eterno. É claro que o autor tem todos os predicados necessários para fazer com que os leitores rapidamente apaixonem-se por seus textos. Perspicaz e inocente. Hiperbólico e simples. Características incompatíveis que ele aliava com muito bom humor ao escrever.

Só que há algo maior. E, ao terminar seu livro, percebi que é a alegria. Mas não a alegria abobalhada, de quem ri do que não se deve rir. Nem a alegria irônica, posto seja ele irônico ao analisar os argumentos de seus adversários. A alegria de Chesterton é a alegria do evangelho. A alegria de quem espera o que há de vir, esperançoso de que a esperança no Deus vivo sempre prevalecerá, até que o próprio Deus vivo volte triunfante para colher aqueles que o esperam.

E por que resolvi escrever sobre a alegria de quem confia, a alegria de quem tem fé?

Eu o fiz porque nós precisamos dessa alegria, uma vez que passamos talvez por um dos momentos mais tristes da existência da Igreja – aquela que haveria de ser o manancial da nossa esperança, a fonte da nossa fé.

Claro que já enfrentamos períodos nebulosos. O arianismo. O nominalismo. O racionalismo. E eis o que interessa: todos esses movimentos contrários à fé passaram. Hoje fazem parte da história, a despeito de cada um deles encontrar eco dentro da Igreja ao seu tempo, a despeito de todos eles praticamente esvaziarem a Igreja da fé apostólica, sintetizada no Credo.

Só que a Igreja, e quem o diz não é só Chesterton, é a esposa de Cristo. E, tal qual seu esposo, ressuscitará, porque Cristo prometeu que as portas do inferno não prevalecerão. Todo mal passará. Restarão aqueles alegres e esperançosos com coragem de bradar: non possumus!

Fonte: http://tiagobanafranco.blogspot.com.br/

Aproximação do Papa Francisco?

 

 

 

Francisco I beija patiarca russo no aeroporto de Havana

 

O súbito e “milagroso” gesto do líder moscovita, empurrado por trás e por cima pelo seu patrão Vladimir Putin, foi repentino demais para não deixar de levantar agudas perguntas, logo depois do desconcertante encontro de Havana.

Alguns chegaram a supor a realização de obscuras profecias apocalípticas, inclusive de místicos cismáticos como Nicolai Berdaiev, sobre uma reconciliação das religiões monoteístas na iminência do Fim do Mundo e da segunda vinda de Cristo em pompa e majestade para encerrar a História e julgar vivos e mortos.

Mas, pondo de lado essas aplicações fantasiosas para o presente caso, o que se passou em Moscou para adoçar tão repentinamente a beligerância cismática contra Roma, vigente durante séculos?

O comentador nacionalista russo Yegor Kholmogorov, conhecido pelos seus posicionamentos afins com gestos gritantes de Putin, apresentou considerações muito mais próximas dos interesses do Kremlin. Elas foram reproduzidas pela agência EuromaidanPress.

Moscou, que pretende ser a Terceira Roma, quereria uma aliança com Roma. A Primeira Roma, segundo sua arbitrária qualificação teria sido o Vaticano antes de ser abandonada pelo Espírito Santo no século XI, e a segunda Roma teria sido Constantinopla antes de ter sido desprezada pelo Espírito Santo após cair nas mãos dos turcos em 1453.

A terceira Roma ,e o correspondente Patriarcado de Moscou, são meras ficções forjadas pelos czares para dar um fundamento religioso ao seu expansionismo militar para o sul.

Yegor Kholmogorov
Yegor Kholmogorov

Hoje, o patriarca grego de Constantinopla, Bartolomeu, está reduzido à última insignificância espiritual e material.

Embora revestido de um título histórico pomposo, ele mal consegue reunir um milhar de fiéis na grande festa da Páscoa, a mais importante no Oriente. E, ainda assim, fretando ônibus provenientes da Grécia.

Constantinopla, ou Istambul segundo o nome turco, é uma cidade maciçamente muçulmana. Nela, os cristãos de qualquer denominação são ferozmente perseguidos e até assassinados. Como aconteceu, aliás, com o Núncio da Santa Sé, Dom Luigi Padovese, apunhalado em junho de 2010 na cidade de Iskenderun.

Na Grécia, o patriarca de Constantinopla é detestado pelo Sínodo dos bispos gregos pelo fato de residir em território do inimigo ancestral: a Turquia.

Mas Kirill quer de Francisco algo muito mais importante para o Kremlin nas circunstâncias atuais. Algo perto do qual a lendária e desaparecida Constantinopla cristã vale bem pouca coisa.

Trata-se, para a Rússia, de abafar o dinâmico surto de catolicismo hostil ao comunismo, e portanto patrioticamente anti-russo, que se verifica na Europa Oriental, e muito especialmente na Ucrânia.

Segundo Kholmogorov, o Papa latino-americano sente uma consonância profunda com o cisma ortodoxo em muitas questões. Além do mais, sempre segundo o comentarista, Francisco I não se importaria com os problemas doutrinários, teológicos ou sociais, como faziam seus predecessores.

Desse Papa assim próximo, Moscou quer obter o abafamento dos ucranianos de rito greco-católico, aos quais se refere com menosprezo como “uniatas”.

Os greco-católicos ucranianos saíram das catacumbas da perseguição soviética em 1991 e, desde então, vêm progredindo velozmente no país. Aliás, eles atraem um número sempre crescente de fiéis que até há pouco se diziam “ortodoxos”.

Igreja greco-católica da Santíssima Ressurreição, Ivano-Frankivsk, Ucrânia. Os católicos estão em constante aumento e Moscou quer abafá-los.
Igreja greco-católica da Santíssima Ressurreição, Ivano-Frankivsk, Ucrânia.
Os católicos estão em constante aumento e Moscou quer abafá-los.

De fato, a Igreja Católica, e especialmente seu rito greco-católico, foi a única que não se vergou à opressão comunista russa. E voltou à luz aureolada com o prestígio da resistência genuína, religiosa e nacional, ao invasor anticristão e inimigo da pátria.

Stalin havia confiscado todos os bens católicos e assimilado ditatorialmente todas as igrejas cristãs ao Patriarcado de Moscou. Esse Patriarcado funcionou interesseiramente à sombra da ditadura marxista como mais um instrumento de opressão.

Assim que cessou a opressão, a parte ucraniana da igreja ortodoxa dependente do Patriarcado de Moscou literalmente explodiu. É difícil dizer quantos, quais e quão grande são seus fragmentos, mas nem entre eles conseguem contabilizá-los.

Baste mencionar que o chefe supremo na Ucrânia do cisma russo separou-se de Moscou e se autoproclamou patriarca de Kiev em luta contra o patriarca de Moscou, apontado como agente da potência materialista que chacinou milhões de ucranianos no genocídio conhecido como Holodomor.

Longe dessa liquefação material, moral e religiosa do cisma russo e de seus incontáveis subdivisões igualmente cismáticas, os greco-católicos progridem velozmente, bafejados pela graça divina.

Então, não podendo opor uma proposta religiosa sincera ou crível, Moscou quer que o Vaticano abafe esses “uniatas”, que ameaçam conquistar as bases populares de Moscou e daqueles que considera seus súbditos.

Se o patriarca russo não conseguir de imediato uma medida tão drástica da parte da Santa Sé, ele quereria pelo menos, escreve Kholmogorov, “obter do Vaticano uma garantia de um mínimo de neutralidade na guerra contra a igreja ortodoxa na Ucrânia” tocada pelos patriotas ucranianos.

Há um outro problema encostado no anterior A perspectiva de Kirill, fiel eco de Putin, é de que na Ucrânia há uma guerra religiosa e que os piores inimigos são os greco-católicos. Mas, nessa guerra, que tira o sono dos lideres da “nova Rússia”, pesa muito a anarquia instalada entre os cismáticos ditos “ortodoxos”.

O rito greco-católico (na foto seu arcebispo-mor D. Sviatoslav Shevchuk) está determinado a continuar inabalavelmente unido a Roma quaisquer sejam as adversidades.
O rito greco-católico (na foto: seu arcebispo-mor D. Sviatoslav Shevchuk) está decidido
a continuar inabalavelmente unido a Roma quaisquer sejam as adversidades.

Kirill e Putin também querem que o Vaticano intervenha para fazer o que Moscou não consegue: reunificar os cismáticos, como afirma a Declaração de Havana. Ou, pelo menos, que os greco-católicos fiquem “neutros” enquanto os agentes de Moscou procedem à “unificação”.

Essa “unificação” está sendo levada a cabo na Crimeia e no leste ucraniano ocupado. Mas é feita na ponta do revólver: quem não se filiar de novo ao Patriarcado de Moscou – seja católico ou cismático dissidente – sofre pesadas punições.

Muitos padres tiveram que fugir, suas igrejas foram confiscadas, e até alguns pastores protestantes apareceram mortos numa vala comum no leste ucraniano.

Para Kholmogorov, na reunião de Cuba, Kirill teria sugerido que a diplomacia vaticana assuma Moscou como o principal parceiro do diálogo com o Oriente, deixando num segundo plano os demais cristãos – greco-católicos, católicos latinos e os incontáveis estilhaços da “ortodoxia” oriental.

Segundo a proposta, o Vaticano deveria inaugurar “conversações imediatas com o cisma de Moscou, considerado como a maior das igrejas ortodoxas do mundo, que opera em sinfonia sincera com a Grande Rússia” [de Vladimir Putin].

Mas os ucranianos católicos e patriotas não querem saber disto. Eles já passaram por outras talvez piores, sob o sopro da graça divina emergiram vitoriosos da ditadura comunista-mocovita, e estão determinados a ficarem fiéis a seu glorioso passado patriótico e/ou católico.

Fonte: http://flagelorusso.blogspot.com.br/2016/03/kholmogorov-proposta-secreta-de-kirill.html

“Amoris laetitia” – Porta Aberta aos ventos impetuosos

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El Diario, 08 de abril de 2016
Tradução: Carlos Wolkartt – Renitencia.com

Nota da Tradução: como já havíamos publicado, o Papa efetivamente abriu caminho às mudanças para os divorciados, além de muitas outras coisas, em sua nova exortação apostólica publicada hoje. O texto a seguir, apesar de apresentar otimismo diante de uma tempestade, expõe os pontos centrais e mais preocupantes do novo documento papal.
*     *     *
Diante da doutrina rançosa, a realidade. “Acompanhar, discernir e integrar” — essas são as três palavras que definam Amoris Laetitia, a tão esperada exortação do Papa Francisco depois do Sínodo da Família. Um texto longo, denso, que evita condenações e abre a porta à comunhão na Igreja dos divorciados recasados, que admite as “bondades” dos matrimônios e uniões civis frente ao matrimônio “tradicional” e, sem dar receitas definitivas, adverte aos rigoristas que nem sempre há uma palavra final para tudo. “Nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais”.
“O caminho da Igreja é o de não condenar eternamente ninguém”, clama o Papa, que pede para “evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações” porque “trata-se de integrar a todos”. Para Francisco, os divorciados recasados “podem encontrar-se em situações muito diferentes, que não devem ser catalogadas ou encerradas em afirmações demasiado rígidas”.
“Não existem receitas simples”, reconhece o Papa, que se nega a “uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos”, mas um “discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares”, e que, em resposta à “lei da gradualidade”, se aplique “a lei da misericórdia pastoral”. Assim, recorda que “não estão excomungados” e que “devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis”, evitando o escândalo mas caminhando até “discernir quais das diferentes formas de exclusão atualmente praticadas em âmbito litúrgico, pastoral, educativo e institucional possam ser superadas”.
“A arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia”, argumenta o Papa, que critica os que agem como “controladores da graça e não como facilitadores”. Porque a Igreja “não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa”.
Quanto aos divorciados [sem segunda união], apesar de defender o matrimônio para toda a vida, o Papa reconhece, pela primeira vez na história, que “há casos em que a separação é inevitável. Por vezes, pode tornar-se até moralmente necessária”. O texto também se refere às dificuldades dos padres celibatários para entender os problemas das famílias, encorajando voltar os olhos à “longa tradição oriental dos sacerdotes casados” — o que indica a instauração de um caminho rumo ao fim do celibato obrigatório na Igreja do Ocidente.
Citações de Martin Luther King
Trata-se de um texto preciso, mas com muitas portas abertas, que ao longo de suas quase 300 páginas, divididas em nove capítulos e 325 parágrafos, encontra-se repleto de citações sinodais e de Papas anteriores, mas também de escritores e intelectuais como Erich Fromm [socialista alemão do século XX], Martin Luther King [pastor protestante e ativista político norte-americano], Jorge Luís Borges [escritor argentino], Octavio Paz [poeta modernista do século XX] e Mario Benedetti [poeta e socialista uruguaio], de quem copia seu fantástico “Se te amo, é porque és o meu amor, o meu cúmplice e tudo, e na rua, lado a lado, somos muito mais que dois” para falar do amor conjugal. Santo Inácio de Loyola, São Paulo e Santo Tomás são outros nomes literários do texto, que também conta com uma referência cinematográfica: “A Festa de Babette” [filme baseado em conto da escritora dinamarquesa pós-modernista Karen Blixen].
A primeira parte do texto contém uma forte autocrítica à Igreja do “não”, que lamentavelmente se instaurou nas últimas décadas. Assim, o Papa pede para “reconhecer que às vezes a nossa maneira de apresentar as convicções cristãs e a forma como tratamos as pessoas ajudaram a provocar aquilo de que hoje nos lamentamos, pelo que nos convém uma salutar reação de autocrítica”.
“Muitas vezes agimos na defensiva e gastamos as energias pastorais multiplicando os ataques ao mundo decadente, com pouca capacidade de propor e indicar caminhos de felicidade. Muitos não sentem a mensagem da Igreja sobre o matrimônio e a família como um reflexo claro da pregação e das atitudes de Jesus, o qual, ao mesmo tempo que propunha um ideal exigente, não perdia jamais a proximidade compassiva às pessoas frágeis como a samaritana ou a mulher adúltera”, constata o Papa.
O documento, contudo, contém uma defesa sem matizes da vida humana frente ao aborto (“de modo nenhum se pode afirmar como um direito sobre o próprio corpo a possibilidade de tomar decisões sobre esta vida que é fim em si mesma e nunca poderá ser objeto de domínio de outro ser humano”), à eutanásia e à pena de morte, embora admita a necessidade de uma paternidade responsável.
O gênero
Apesar de não se deter a isso, o texto mostra sua preocupação com uma ideologia de gênero excessiva, mas reconhece que “na configuração do próprio modo de ser, feminino ou masculino, não confluem apenas fatores biológicos ou genéticos, mas uma multiplicidade de elementos”, e admite que “o masculino e o feminino não são algo rígido”.
O Papa também se refere ao abuso de menores, especialmente na Igreja. “O abuso sexual das crianças torna-se ainda mais escandaloso quando se verifica em ambientes onde deveriam ser protegidas, particularmente nas famílias e nas comunidades e instituições cristãs”.
Quanto às uniões não matrimoniais, o Papa reconhece que “já não se adverte claramente que só a união exclusiva e indissolúvel entre um homem e uma mulher realiza uma função social plena”, e, apesar de reconhecer que “não podem ser simplistamente equiparadas ao matrimônio”, aponta que “devemos reconhecer a grande variedade de situações familiares que podem fornecer uma certa regra de vida”, inclusive “as uniões de fato ou entre pessoas do mesmo sexo”.
No entanto, e embora denuncie “qualquer sinal de discriminação injusta” contra os homossexuais, Francisco não move uma vírgula da doutrina tradicional ao reiterar que “não existe fundamento algum para assimilar ou estabelecer analogias, nem sequer remotas, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimónio e a família”.

Exortação “Amoris laetitia”

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Documento com 325 pontos retrata «complexidade» dos temas e aponta a soluções atentas à realidade de cada local

Cidade do Vaticano, 08 abr 2016 (Ecclesia) – O Papa Francisco publicou hoje a exortação apostólica com as conclusões do Sínodo da Família, sublinhando a “complexidade” dos temas abordados, para os quais são necessárias soluções atentas à realidade de cada local.

“Na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspetos da doutrina ou algumas consequências que decorrem dela”, escreve, num documento que tem como título ‘Amoris laetitia’ (A Alegria do Amor).

O Papa observa que a intenção deste texto não é encerrar o debate, sublinhando que “nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais”.

“Além disso, em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais”, acrescenta.

Os temas da família estiveram no centro de duas assembleias do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2014 e 2015, por decisão de Francisco, antecedidas por inquéritos enviados às dioceses católicas de todo o mundo.

“A complexidade dos temas tratados mostrou-nos a necessidade de continuar a aprofundar, com liberdade, algumas questões doutrinais, morais, espirituais e pastorais”, refere agora o Papa.

Nesse sentido, o pontífice argentino sustenta que as diferentes comunidades “deverão elaborar propostas mais práticas e eficazes, que tenham em conta tanto a doutrina da Igreja como as necessidades e desafios locais”.

A exortação apostólica pós-sinodal, “sobre o amor na família”, recolhe os resultados das duas assembleias de bispos, citando os seus relatórios, juntamente com documentos e ensinamentos dos Papas precedentes e as numerosas catequeses sobre a família do próprio Francisco.

À imagem do que fez noutros documentos magisteriais, o Papa recorre também a contributos de diversas Conferências episcopais de todo o mundo e a citações de personalidades como Martin Luther King ou Erich Fromm.

O texto está dividido em nove capítulos, num total de 325 pontos.

Sem entrar nas questões dogmáticas definidas pelo magistério da Igreja, o Papa afirma que é necessário sair da contraposição entre o desejo de mudar por mudar e a aplicação pura e simples de regras abstratas.

“Os debates, que têm lugar nos meios de comunicação ou em publicações – e mesmo entre ministros da Igreja – estendem-se desde o desejo desenfreado de mudar tudo sem suficiente reflexão ou fundamentação até à atitude que pretende resolver tudo através da aplicação de normas gerais”, adverte.

OC

Arcebispo de Maringá critica documento da CNBB por não fazer referência à corrupção

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Caríssimos,

Salve Maria

Se a CNBB não se posicionar, de forma clara e sem apadrinhamentos, sobre a grave situação política do Brasil, estará cometendo um grande erro histórico imperdoável. Se nos lembrarmos da atuação da CNBB em falas e em documentos, pronunciamentos na década de 80, é por demais estranho o seu silencio na conjuntura hodierna. Onde  se encontram as chamadas “vozes proféticas”?

Há de se fazer um “Mea Culpa”, pois se estamos numa quase Venezuela ( graças a Deus é um país continental, o que impediu a ditadura de esquerda) deve-se a atuação de grande parte do clero e episcopado da época.

Rezemos pelo Brasil.

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Dom Anuar observa que o documento é bem redigido, mas em momento algum fala sobre a corrupção. “Falar de uma conjuntura nacional sem apontar a corrupção é uma falha tremenda”, disparou o arcebispo, e completou: “mais de 60 políticos já foram presos, todos por causa de roubo”.

Ao citar o livro do Papa “O nome de Deus é misericórdia”, em que Francisco diferencia corruptos de pecadores – assim como também havia refletido na Casa Santa Marta – o arcebispo disse que vai lutar para que o documento conclusivo dos bispos ao final da Assembleia sobre a conjuntura nacional considere esta distinção, porque a “corrupção está sangrando o Brasil”, informa o noticiário da Rádio Vaticano em seu site.

Fonte: http://blog.opovo.com.br/ancoradouro/radio-vaticano-arcebispo-de-maringa-critica-documento-da-cnbb-por-nao-fazer-referencia-a-corrupcao/