O “Magnum Principium” de D. Clemente Isnard, OSB – O “Pai” do Missal Brasileiro

Salve Maria
Acabou de ser anunciado o Motu Proprio de Francisco “Magnum Principium” , que entrará em vigor no próximo 1 de outubro. Esse documento além de salientar a “participação ativa dos fieis” na Liturgia, como apregoava o Concílio, ainda aumenta os poderes das conferências episcopais quanto a questão da tradução dos textos litúrgicos. O Canon 838 é modificado e a Cúria Romana apenas fará a “revisão das traduções”, ou seja corta-se a autoridade da Congregação  do Culto Divino sob os textos Sagrados da Liturgia. Se antes , com a autoridade da Cúria , já eram autorizadas barbaridades litúrgicas para o Brasil, tais como as aclamações das Orações Eucarísticas,   a Oração Eucarística do Congresso de Manaus, as Orações Eucarísticas para missa das crianças, etc, imaginemos agora ficando ao cargo da Comissão Litúgica da CNBB.Vale a pena ler o testemunho de um bispo beneditino que foi responsável pela péssima tradução do Missal  que temos hoje para o Brasil, com direito ao ” Ele está no meio de Nós” e tudo o mais.

Depois de ler , com atenção, você verá que esse Moto Proprio  Magnum Principium , melhor teria sido chamado de  “Dolor Fidelium”

Com a palavra, Dom Clemente Isnard, OSB

D. Clemente Isnard conta, com as suas próprias palavras, as maquinações e esquemas engendrados para enganar a Congregação para o Culto Divino e a Conferência Episcopal, e assim conseguir a aprovação da tradução do Missal de Paulo VI para português com várias “novidades” impensáveis até à data.

“O primeiro trabalho que se nos apresentava era o das traduções, para introdução do vernáculo na Liturgia. E aí surgia a questão: será uma tradução brasileira ou portuguesa? Parecia-nos então que o começo seria um entendimento com os Bispos de Portugal. Fomos os quatro ao Seminário Português em Roma, onde estavam hospedados os portugueses, e depois de uma tarde de entendimento, concluímos que seria preciso adoptar uma tradução comum da Bíblia. Chegámos até a combinar algumas coisas práticas. Mas não houve seguimento.
Surgiram logo dificuldades, e entre elas a maior: que tratamento dar a Deus, “tu” ou “vós”. Os portugueses queriam “Vós“ e os brasileiros da comissão queriam “Tu“, mas os Bispos brasileiros estavam divididos. Mais tarde, numa assembleia geral, em São Paulo (no Ipiranga), foi feita a votação por escrito, e o resultado foi surpreendente: empate rigoroso. Enquanto isso, os padres que trabalhavam nas traduções, sob a orientação de D. Timóteo Amoroso Anastácio, optavam pelo “tu “e ‘ciclostilavam’ os primeiros textos em “tu“. Era angustiante, e não se via solução: Portugal era “vós” e Brasil empatado entre “vós” e “tu”.
A discussão “vós” e “tu” voltou mais de uma vez à Assembleia Geral. D. Lamartine citava em apoio do “tu” uns versinhos do século XVI ou XVII: “se a Deus se chama de “tu” e a El-Rey de “vós”, como chamar o Juiz de Igarassi: ‘tu” e “vós” , “vós” e tu”. O mais difícil é que Roma queria um acordo entre Brasil e Portugal, e sem o acordo recusava-se a aprovar qualquer revisão. O assunto chegou ao Papa, e o grande Paulo VI decidiu que não se devia ter todas as versões iguais, em Portugal e no Brasil, mas que seria suficiente ter o texto do povo igual, de modo que o povo pudesse rezar em Portugal e no Brasil da mesma forma. Assim, a Oração Eucarística poderia ter uma tradução em Portugal e outra no Brasil, mas as resposta do povo deveria ser idênticas. E assim foi feito. Mas era preciso resolver o problema do “tu” e “vós”.
Como estavam as coisas não se via possibilidade de solução. Os portugueses no fundo achavam que eles deveriam resolver por serem os donos da língua e por assim fazerem com os países da África, que, na época, eram chamados a opinar. Impunha-se um acordo, ou, caso contrario, não haveria nunca nenhuma tradução aprovada em Roma. O acordo foi feito numa reunião em Portugal. Representando o Brasil fomos eu e o Padre José António de Moraes Busch, do clero de Campinas, então assessor na CNBB, e, representando Portugal três Bispos e três peritos. Reunimo-nos, oito pessoas, na casa de Retiro da Buraca, perto de Lisboa.
Na abertura dos trabalhos estabeleci que os votos seriam por país, quer dizer, os seis votos portugueses teriam o mesmo valor que os dois brasileiros. De contrario, nós estaríamos perdidos. Eles concordaram. E mediante discussões infinitas estabelecemos o texto do povo, tanto no Ordinário da Missa como em outras partes da Liturgia. Foi ai que se fixou “Ele está no meio de nós” como resposta ao “Senhor esteja convosco”, e outras versões pouco literais (nada! literais). Os portugueses até foram liberais ao atender às nossas preferências. Saliento no principio da Missa “Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo”; apenas dois “por minha culpa, minha tão grande culpa” no “Confesso” ; “paz na terra aos homens por Ele amados” no Glória; “desceu a mansão dos mortos” no Credo; “é nosso dever e nossa salvação” no diálogo do Prefácio; “o amor de Cristo nos uniu” como resposta ao “Pax Dominum sit semper vobiscum”. A presença de Padre Busch foi muito importante para convencer os portugueses.
No fim do encontro tínhamos uma fórmula aceitável, que os Bispos da Conferência Portuguesa adoptaram sem modificação e que eu e os assessores de liturgia adoptámos sem consultar a Assembleia da CNBB, sob os protestos de D. Geraldo Fernandes. Ele disse-me uma vez: “D. Clemente, como teve coragem de modificar sozinho o Credo?” Fiz e não me arrependo, pois não havia outro jeito. Lembrem-se do empate entre “tu” e “vós”.
O acordo com Portugal consagrou o “vós” e agradou aos Bispos conservadores. A alma do Encontro da Buraca foi o Padre Busch, um dos mais eficientes assessores que tivemos. (…)
Destacaram-se as Semanas Nacionais de Liturgia de Valinhos (perto de Campinas) e de Belo Horizonte. Não me lembro exactamente de quantas foram. O trabalho de reflexão, indispensável para uma reforma, fazia-se nas reuniões mensais especialmente nas Semanas de Liturgia, onde se estabelecia o contacto e o convívio com liturgistas de outros lugares. Assim conhecemos Pe. Reginaldo Veloso, de Recife, e outros, como o Pe. Jocy Rodrigues, do Maranhão, que é o compositor da Oração Eucarística número V (enfim conheci o nome do Gregório Magno do Maranhão!) e de belíssimos outros cantos litúrgicos. Desta maneira a reforma era obra não de um pequeno grupo do Sul e do Centro, mas abrangia a colaboração de gente de todo o Brasil, com apoio em Pernambuco e no Maranhão, sem falar no Centro Oeste. Iniciamos, ao voltar de Portugal, a redacção do Ordinário da Missa com “vós”.
É pena que não tenha havido um episcopado tão numeroso e tão diversificado em matéria de opiniões aquilo que alcançamos em Lisboa. Resolvi então proceder por própria conta – coisa de admirar mas não de imitar e que tanto irritou D. Geraldo Fernandes, que chegou a ser Vice-Presidente da CNBB. Apresentei em Roma, e a Congregação para o Culto Divino aprovou nossa versão.
A nossa sorte foi que naquele momento não havia, na Congregação, nenhum perito em língua portuguesa. Desta forma obtivemos apuração da simplificação do Cânon Romano, que tinha sido apresentada pelos franceses e negada… Nós simplesmente havíamos copiado a proposta francesa. A aprovação do Ordinário da Missa era um grande passo dado. Mas não era o mais longo. Era preciso traduzir o Missal. Já haviam circulado traduções parciais. Aproveitando na medida do possível o trabalho feito, uma comissão de liturgia, presidida pelo Pe. Busch, assumiu o trabalho de preparar a tradução completa do Missal Romano. Padre Busch obteve para isso a cooperação do venerável Arcebispo de Campinas, D. Alves de Siqueira, que durante muitos meses vinha passar uma semana no Rio de Janeiro, hospedando-se na própria CNBB e trabalhando intensivamente na companhia do Padre Busch. Foi uma grande alegria quando pudemos enviar à Congregação do Culto Divino o pacote do missal traduzido.
Hoje, usando o Missal, achamos alguns textos merecedores de melhoramento. Mas na época, D. Siqueira, com enorme paciência, traduziu sobretudo o texto das orações, e quase sempre chegou a resultado satisfatório. Quem trabalha para liturgia faz uma obra anónima: não consta no Missal o nome dos tradutores, como não consta o nome dos redactores das Orações Eucarísticas e de outras peças importantes. É um trabalho de amor e desinteressado. Quem iria reconhecer os méritos de Bugnini e de Martimort e de outros grandes liturgistas, também brasileiros? Só Deus. A impressão do Missal foi uma grande vitória.
Entrementes conseguimos preparar a tradução de outros livros litúrgicos e mandar a Roma para aprovação. Não vou apresentar um catálogo das edições litúrgicas. (…)
À medida que os textos iam sendo aprovados em Roma, nós iniciávamos a tradução aqui. O processo de aprovação de textos em Roma foi lento; alguns eram elaborados mais rapidamente, outros encalhavam em dificuldades, como o do sacramento da Penitência e o dos Ministérios, antigas Ordens Menores. A Liturgia das Horas era uma outra maratona, talvez mais complicada do que o Missal. Foi o ultimo livro que vi com a edição definitiva. Lembro-me de que quando D. Celso Queiroz me apresentou o primeiro volume, não contive as lágrimas. O trabalho final foi feito em Brasília e para isso contamos com a dedicação em tempo integral de duas pessoas. Era preciso ter uma boa tradução dos salmos, como que a matéria prima do livro. Disso se encarregou o Padre José Weber, que eu havia pescado em Roma por indicação de Cónego Amaro.
Precisaríamos de uma tradução exacta, recitável e bonita. Creio que o nosso texto do saltério em português é magnifico. Graças ao acordo da Buraca com os portugueses, os textos da Liturgia das Horas não precisavam ser comuns aos dois países, o que facilitou muito. (…)
O trabalho dos tradutores seria corrigido por uma comissão de Bispos. Houve uma, que deveria rever a tradução do Evangelho de S. João, e que envergonhou a CNBB. Mandou para Roma um texto tão mau que obrigou a Congregação a rever ela mesma. Ainda bem que fizeram em Roma esse trabalho que não lhes cabia. (…)
Cada vez que se editava em português do Brasil um livro Litúrgico, sentíamos alegria e alivio. Era o caminho andado para o cumprimento da missão. Mas não era tudo o que devíamos fazer. Era preciso comentar os livros, animar a vida litúrgica e descobrir o que deveríamos fazer para enriquecer a própria liturgia. Não éramos apenas tradutores, mas tínhamos de ser criativos!, e isso nos preocupava desde o inicio.
Numa de nossas reuniões mensais no Rio, foi feita sugestão de compor uma Oração Eucarística para o Congresso Eucarístico Nacional de Manaus. Naqueles dias nós contávamos em Roma com o apoio clarividente de Bugnini. Eu ia duas vezes por ano a Roma para reuniões do Conselho e depois da Congregação para o Culto Divino e podia advogar a causa. Encontrei boa receptividade em Bugnini, e mãos a obra. Marcamos reunião preparatória no Cenáculo, com a assessoria dilatada. E preparámos dois textos: um meu, e outro do padre maranhense.
Eu li o meu texto e enquanto ouvia o do padre maranhense tinha vontade de imitar o que fizera o concorrente de Santo Tomás de Aquino para textos da festa de Corpus Christi: ir rasgando silenciosamente. Mas não fiz… Evidentemente, o grupo reunido escolheu o do padre maranhense, que é o texto da Oração Eucarística número V.
Esse foi levado a Comissão Episcopal de Pastoral (CEP), onde recebeu uma ou duas pequenas modificações, e depois enviado a Roma. Em Roma, sem levar em consideração o ritmo do nosso texto, também fizeram duas pequenas modificações. Parece que, além do Culto Divino, o projetco enfrentou a Doutrina da Fé, mas venceu as etapas. E a Oração número V, bastante breve, é usada, apesar de não agradar a alguns.
A aprovação de uma Oração Eucarística brasileira era um sinal dos tempos. Bugnini estava no auge do seu prestigio e podia permitir-se gestos de benevolência para com uma Conferência Episcopal numerosa mas sem prestigio.
Infelizmente, os ventos não tardaram a mudar em Roma. Bugnini cada vez mais ousado e contando com a confiança de Paulo VI, aprovou a Oração Eucarística para a Missa com crianças e outras coisas mais. A oposição romana, tendo como porta voz o Cardeal Felici, conseguiu derrubá-lo de modo insidioso; foi supressa a Congregação para o Culto Divino e unida a Congregação para a Disciplina dos Sacramentos. Bugnini estava fora de Roma, em férias. Para ele não ter a notícia pela imprensa, o Cardeal Tabera foi onde se encontrava para avisar.
Cada Congregação tinha um Prefeito e um Secretário; unindo duas Congregações sobraria um Prefeito e um Secretario. Ora, o secretário dos Sacramentos era mais antigo como Bispo (era um antigo Núncio, que nada entendia de Liturgia), e teve prudência para continuar no cargo da nossa Congregação. Bugnini não era mais nada. Eu escrevi uma carta ao Papa e o Cardeal Secretário de Estado, Cardeal Villot, respondeu perguntando se o Papa não tinha direito de escolher os seus auxiliares. Eu não podia negar isso, mas diria que deve escolher bem, e não como fez dessa vez. Esse facto lançou uma sombra sobre o pontificado de Paulo VI, que estava envelhecido e fazendo algo em contradição com toda a sua linha de conduta anterior.
A saída de Bugnini foi desastrosa, não só para a Congregação em Roma, mas para o mundo inteiro. Uma das últimas vezes que conversei com Bugnini em Roma, uma das melhores conversas que tivemos, ele falou dosseus planos. Disse que faltava um Directório para Missas “cum rudibus” e que pretendia fazer isso. Mas não teve tempo; os inimigos já estavam a movimentar-se e o golpe preparado. Voltando para o Brasil, na primeira reunião mensal dos assessores, falei do assunto e encontrei bom acolhimento. Com efeito, o Brasil precisava de um Directório para gente simples. Foi nome que dei. E pusemos mão à obra.
Como não tratava de uma tradução de um documento romano, usei de grande cautela, evitando cuidadosamente coisas que pudessem criar dificuldades em Roma. O Directório para Missas com gente simples foi preparado e levado à Assembleia Geral, onde foi aprovado, sem grande oposição, e baptizado por D. Waldyr como “Directório para Missas com Grupos Populares”. O nome me pareceu bom, mas não foi feliz, porque era a época em que o colombiano Lopes Trujillo fazia uma campanha contra a “Igreja Popular” em toda a América Latina. Eu achei que nosso Directório não continha nada de avançado, e que por isso não precisava ser submetido a Roma.
Mas Roma recebeu as actas da Assembleia Geral e ficou a saber de tudo o que se passou. Um belo dia na CNBB, que ainda estava no Rio, disseram-me que a Congregação tinha pedido nosso Directório para examinar. Fiquei surpreso, disse que não havia necessidade, mas acabei tendo de mandar. Não tardou muito a chegar uma proibição de usar o Directório, que já estava impresso e distribuído.
Foi a grande humilhação que tive no relacionamento com Roma. Humilhação injusta, pois o Directório não tinha nada que merecesse essa condenação. Mas não ficou nisso; como eu também actuava no CELAM, e o perito do CELAM, Álvaro Botero, um colombiano inteligente e bem orientado, havia apreciado nosso Diretório e feito traduziu em castelhano, a Secretaria de Estado mandou uma circular aos Núncios do mundo inteiro comunicando a condenação. Assim o nosso modesto Directório transformou-se num perigo para a Igreja!
Ainda tenho em meu poder um exemplar da 4ª edição do Diretório. Depois de redigir esta breve noticia, dei-me ao trabalho de reler todo o Directório. Desafio qualquer perito em Liturgia para mostrar algo que motivasse sua condenação. Tudo o que é aconselhado no Directório está hoje posto em prática nas comunidades. Se não me engano, a razão decisiva para a condenação romana está na expressão “Grupos populares”. À época, D. Afonso Lopes Trujillo movia no ambiente latino-americano uma guerra ao que chamava “Iglesia Popular”, e que ele considerava uma perversão da Igreja Católica. Acontece que ao pensar nos “Grupos populares”, nós brasileiros nem de longe tínhamos em vista a fenómeno cismático que estava a acontecer em alguns países latino-americanos.
Apesar desta atitude, depois da saída de Bugnini, houve durante anos a fio uma boa colaboração da Congregação para o Culto Divino com a CNBB. Primeiro a compreensão dos problemas de língua entre Brasil e Portugal.
Neste caso Bugnini disse-me que o Papa Paulo VI havia recomendado não exigir demais porque conhecia as diferenças de linguagem; e a solução foi boa: unidade para as partes do povo e liberdade para o resto. Segundo, a Oração Eucarística brasileira, a V, que foi uma bela concessão ao Brasil, que nenhum outro pais da América Latina tem. Terceiro, as aclamações na Oração Eucarística, que nem todos os países da Europa têm. Quarto, a aprovação da versão do Cânon Romano com as simplificações. Quinto, o tratamento cordial dado ao Brasil durante as negociações. “
D. Clemente Isnard, osb
Conferência – testemunho
Encontro dos Liturgistas do Brasil
Belo Horizonte, 28 de janeiro de 2002
Fonte: http://senzapagare.blogspot.com.br/2017/09/a-fraude-que-deu-origem-traducao-do.html