A Conta, o Tempo e a Música

 

DA SEPTUAGÉSIMA À QUARESMA

Pe. Marcélo Tenorio

Já nos encontramos no Tempo da Septuagésima. A Igreja toda se reveste de roxo, omite o Glória, cessa o Alelluia!. Em alguns costumes, faz-se o ritual do “enterro do Alelluia”, para  expandir seu ressoar na vigília da Páscal.

É aqui que se abre o Tempo do Retorno. Da decadência da humanidade e sua servidão ao pecado à Vida nova em Cristo Ressuscitado.

Nas sagradas leituras, tudo se inicia rumo ao calvário e ao monte da ressurreição. No primeiro domingo da também chamada “Grande Quaresma”, a Septuagésima, deparamo-nos com a queda de nossos pais Adão e Eva, a firmação do pecado original, a desgraça que atinge a humanidade inteira. O domingo da Sexagésima traz as consequências do pecado original originante, ressaltado na malícia dos homens e no castigo de Deus pelo dilúvio. No domingo da Quinquagésima, o prenuncio do sacrifício de Cristo, que será único e eterno, com a atitude de Abraão em querer oferecer, sem hesitar, seu filho único em sacrifício, em obediência profunda aquilo que Deus tinha lhe ordenado.

O Introito dos três domingos constitui um  confiante e grave apelo ao socorro divino. Nos Evangelhos, que balsamo! Cheios de uma grande esperança na Salvação que se aproxima. A parábola dos operários, a do semeador, a cura do cego de Jericó, mostram vivamente que a salvação de Cristo é estendida à humanidade inteira, mas é necessário a adesão pessoal. Será para todos, mas dependerá de cada um.

 Na Quarta-Feira de cinzas, a Igreja solenemente nos lembrará a grande e terrível verdade objetiva que paira sobre todos nós: “Memento Homo!…” “Lembra-te, homem, que és pó, e que ao pó tu hás te tornar.” A Igreja não nos diz: “Lembra-te, homem que sereis pó”, mas afirma: “Lembra-te que és pó.”

O padre Antonio Vieira, num dos seus sermões da Quaresma – o Sermão da Quarta-Feira de Cinzas – coloca isso bem claro para nós. É verdade que outros sermões do citado padre não eram tão ortodoxos assim, mas este sermão vale a pena ser lido. “Lembra-te que és pó e em pó te tornarás”! Ou seja, já somos pó; a miséria nos atinge como um raio. Somos nada, pó, poeira que passa. Seremos o que já somos: pó, poeira… “Memento homo” – “Lembra-te, homem.”

O homem que busca “imortalizar-se” em suas obras, naquilo que constrói. Mas, o que encontramos nos sepulcros quando os abrimos? Pó, apenas pó. Reis e plebeus, simples e nobres, papas e imperadores… Ao abrirmos os seus sepulcros, o que encontramos? Pó envolto em alguma seda já acabada pelo tempo, já decomposta pelos vermes.

Certa vez, visitando a capela dos ossos em Évora – capela toda decorada com ossos e crânios – vislumbrei uma frase, logo na entrada. Frase que depois descobri noutros cemitérios antigos : “ Nos ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos!”

 Somos pastos de vermes. Parece-nos uma tragédia, uma lembrança terrível que nos poderia causar uma angústia espiritual, se entendermos este pó, este nada, para aquém  do que vemos, e que, por graça, fomos chamados a ser.

Então, quando a Igreja lembra que o homem é pó, e que ele será pó, ela quer dizer que ele é, humanamente, apenas isso: pó. Se ele vive na carne, se ele se fixa na carne, aí está a sua tragédia. Será aquilo que já é: nada e pó.

Nos dias  que antecederão a Santa Quaresma, teremos a “festa da carne”, o Carnaval ,o  “reinado de Momo” e justamente-aqui deveríamos pensar na efemeridade da vida.

Memento Mori! – Lembra-te que morrerás!

 E mais uma vez a cerimônia tocante das cinzas! – que deveria impregnar a alma de todos com um sincero desejo de retorno para Deus –  quando o sacerdote, usando vestes de penitência, impõe, em nossas cabeças, as sagradas cinzas com uma admoestação severa e solene:

” Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris” (Gn 3, 19)

“Lembra-te, ó homem, que és pó e que em pó te hás de tornar.

Santo Inácio de Loyola, falando sobre o objetivo central do homem nesta terra, dizia ter sido  o homem feito para “amar a Deus e salvar a sua alma”.

“Amar a Deus e salvar a  alma”, deveria ser para todos a única preocupação iminente durante a vida inteira, já que fomos criados para Deus e, perde-lo, por culpa, significa a falência completa, a infelicidade eterna.

Como salvar a nossa alma? Praticando os mandamentos! E todos estão contidos no primeiro: ” Amar a Deus sobre todas as coisas!”

Estamos vivendo em tempos piores do que o do dilúvio. Nesses dias verdadeiramente das trevas, a humanidade rompeu com seu Criador, a criatura torna-se senhor de sua própria existência. Deus é banido da sociedade e das leis do Estado. Cresce uma nova humanidade que brada aos quatro ventos o seu laicismo : sem religião, sem Deus, sem nada.

No carnaval,  festa pagã e da carne, afloram, de maneira mais escancarada todas as inclinações para o mal. E se existe alguma barreira ainda não rompida, o espírito carnavalesco corrói sem muitas dificuldades toda e qualquer resistência, visto que é comum nesses dias de folia, a abolição de toda ou quase toda moralidade.

Não preciso aqui lembrar  como os santos enxergavam essa festa e como condenavam veementemente esses dias de folia. E olha que eles viveram em tempos remotos, mais tranquilos, quando não havia, ainda, o total declínio dos valores. O que diriam eles hoje?

Os santos levaram a sério a sua meta: “amar a Deus e salvar a alma”. Sabiam eles que tudo isso aqui era passageiro e que, cedo ou tarde, estariam  diante de Deus para um julgamento contra o qual ninguém poderá escapar.

Vivemos no cronos e nele devemos melhorar a cada instante, renunciando sempre ao mal, crescendo na prática das virtudes e eliminando o que não presta em nós.

Paulo gostava de comparar a vida espiritual, à busca da santidade, que exige renúncias, com o atleta que prepara-se a vida inteira, no labor constante, para poder ganhar a coroa da vitória. Ora, se alguém é capaz de fazer isso por glórias passageiras, não deveríamos nós, cientes do nosso fim terreno, já que somos pó, empenharmos para , amando a Deus sobre todas as coisas, salvar a nossa alma?

Fala-nos a “Imitação de Cristo”:

“Mui depressa chegará teu fim neste mundo; vê, pois, como te

preparas: hoje está vivo o homem, e amanhã já não existe.

Entretanto, logo que se perdeu de vista, também se perderá da

memória. Ó cegueira e dureza do coração humano, que só cuida

do presente, sem olhar para o futuro! De tal modo te deves haver

em todas as tuas obras e pensamentos, como se fosse já a hora

da morte. Se tivesses boa consciência não temerias muito a morte.

Melhor fora evitar o pecado que fugir da morte. Se não estás

preparado hoje, como o estarás amanhã? O dia de amanhã é

incerto, e quem sabe se te será concedido?..” ( Cap 23)

 

É no cronos que devemos militar para salvar a nossa alma, pois na eternidade estaremos para sempre como  sairmos deste mundo. Na amizade de Deus ou Dele afastados eternamente.

Frei Antônio das Chagas, em sua Antologia Poética, nos fala sobre o Cronos que nos foi dado e que dele, um dia daremos conta:

“Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo…”

 Quando eu estudava num famoso colégio de freiras de congregação belga, nos intervalos de aulas tocava-se musica pelo som que cercava o enorme prédio. De uma aula para outra, uma música de piano e orquestra. A diferença estava no término do recreio, pois a música era sempre a mesma: o Guarani, de Carlos Gomes. Sempre! Todo dia. Acontecia que nos acostumávamos com a música e inconsciente aprendíamos o seu tempo. Assim que tocava imponentemente, ficávamos onde estávamos: uns jogando, outros lanchando, outros conversando…Quando a música chegava ao segundo plano, entendíamos que devíamos caminhar, concluir; automaticamente, íamos fazendo. E quando  chegava na terceira e última parte, onde os acordes ressoavam em nós como trombetas apocalípticas, o fim estava iminente, rapidamente nos dirigíamos à sala de aula. Parada a música, portas fechadas; quem estava fora não mais entrava, quem estava dentro não podia mais sair! Mas, ai do funcionário desavisado que, em vez de por “ O Guarani”, colocava outra! Transtorno geral! Terminava a música e o colégio inteiro fora das salas, balbúrdia, confusão, desordem completa!

Assim a nossa vida sobre a terra. Uma música em três tempos. Já  a conhecemos e sabemos que não mais que três. No primeiro a saída, no segundo a construção, no terceiro o retorno com os frutos! Disso sabemos! A sabedoria consiste em perceber a transição de um tempo para o outro. Perigoso achar que se encontra no segundo tempo, quando na verdade, é o terceiro que já se iniciou. Mas o mais perigoso ainda é não entender que esses tempos podem ser interrompidos a qualquer instante.

 Diferente do meu colégio, ninguém poderá mudar a música , será sempre a mesma, mas poderá sim, ter interrompido o Tempo.

Bem cedo chegará o nosso fim . Bem cedo a música será concluída. É necessário ouvidos atentos capazes de perceber os últimos acordes que, como trombetas finais, ressoarão em nossa alma a nos falar: “ Santifica-te, Santifica-te, Santifica-te!

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