A Casa Varrida pelos Ventos

arvore

Até o ano seguinte ao da morte de Evan, quando Cessi percebia uma mudança no ar, era sempre uma questão de vagas sensações interiores. Mas o primeiro presságio de mudança nos anos sessenta foi diferente. Foi específico, e suficientemente inquietante e significativo como para que não só ela o reconhecesse como um primeiro tremor que prognosticava terremotos vindouros.

Posto que os famosos mandatos de Fátima ordenavam ao «papa de 1960» revelar ao mundo o terceiro segredo de Fátima, e dirigir os bispos da Igreja universal na consagração da Rússia a Santa Maria, sob seu título de Imaculada Conceição, todo o mundo esperava que isso fizesse o papa João. Mas este se negou a obedecer dito mandato. Não se levou a cabo a consagração da Rússia. Não se revelou o famoso terceiro segredo a milhões de católicos expectantes. Cessi estava acossada de pressentimentos.

-Pode ser que o chamem bom papa. Mas nem sequer o papa pode negar-se a obedecer o mandato da rainha dos céus e esperar sair-se bem -advertiu.

Cessi e Declan aperceberam-se da lamentável e inaceitável realidade da decisão do bom papa quando, na qualidade de privilegiati di Stato, assistiram à inauguração oficial do Concílio Vaticano II em 11 de outubro de 1962, e ocuparam seus assentos na tribuna da basílica de São Pedro.

Os dois Gladstone ouviram como o sumo pontífice declarava ante os bispos reunidos de todas as dioceses, a Igreja universal e o mundo em geral, os objetivos que seu concílio se propunha alcançar. Falou de modernizar e atualizar sua organização eclesiástica, de abrir a Igreja aos que não compartilhavam a fé católica e a fé cristã, e da necessidade de relaxar as rigorosas normas que castigavam a quem quebrantava a lei da Igreja ou rejeitava sua sagrada doutrina.

Para Cessi e Declan, com isso a Igreja não só renunciava à forte posição que sempre havia mantido, senão que o bom papa parecia desculpar-se, em lugar de sentir-se orgulhoso, pelo que a

Igreja havia feito e sido até aquele momento. Mas o pior era que o bom papa parecia estar convencido de que a Igreja atual devia recorrer ao mundo, para aprender a ser uma verdadeira Igreja.

Não havia tido forma de apaziguar a ira de Cessi, nem de mitigar seu desprezo. Se pôs furiosa inclusive antes de que ela e seu pai abandonassem a basílica, sem preocupar sequer de não levantar a voz.

-Não sei o que o senhor opina, papai, mas a meu parecer se nos concederam assentos de primeira fila para presenciar a declaração pública da execução da Igreja. Esse velho papa gordo esbofeteou na cara a todos os católicos, bispos, padres e fieis incluídos!

O melhor que podiam fazer, disse, era marchar-se de Roma e regressar quanto antes a «A casa varrida pelos ventos».

Cessi havia observado as inovações introduzidas pelos bispos do concílio com uma desconfiança que calava até sua medula. Como Gladstone que era, possuía um profundo instinto arraigado em sua família desde seus primeiros tempos em Cornualha, quando seus antepassados reconheceram o inimigo que fustigava sua fé, seus valores mais queridos e a eles como pessoas. Não obstante, em 1962, ninguém antecipou com precisão até que ponto Roma, seus bispos e

seus papas, abraçariam a quem mais adiante seriam caracterizados como lobos com pele de clérigo, cujos objetivos eram nefastos para a doutrina e a moral católicas.

A princípio o concílio introduziu inovações isoladas. Entretanto, não tardaram em

converter-se em um pequeno fluxo sistemático e logo em uma inundação. Sem o consentimento nem a aprovação sequer do papa nem dos bispos do concílio, começaram a trabalhar novos exércitos de autodeterminados «expertos litúrgicos», «mestres catequistas» e «especialistas arquitetônicos» da Igreja. Todas as dioceses dos Estados Unidos, Galveston incluída, se viram impregnadas do que Cessi e Declan interpretavam como moral liberal, liturgia anticatólica, Igrejas adulteradas e crenças aguadas. Inclusive as missas celebradas na catedral de Santa Maria, agora em inglês, se convertiam, com bastante frequência, em manifestações folclóricas de costumes locais e causas políticas, em lugar da profissão e celebração da cerimônia central da fé católica. Em Galveston, como em outros lugares, se ordenava aos fiéis sentar-se, levantar-se e dar-se a mão. Já somente se ajoelhavam raramente na presença de Deus.

Cessi compreendeu que as mudanças procedentes de Roma transformariam de tal modo a sociedade em geral que, apesar das medidas que tomaram seus filhos, se veriam mui afetados.

Por conseguinte, de forma engenhosa e devota, mudou o ritmo da vida cotidiana n’«A casa varrida pelos ventos». Ela e Declan participavam de modo muito menos frequente na vida social de Galveston. Cessi dedicava agora a vida inteira à educação de seus filhos, a defesa da fé católica em sua vida como fieis papistas que eram, e a cultivar sua própria vocação como professora de dança.

Quando começaram a multiplicar-se os efeitos do Concílio Vaticano II, os Gladstone só assistiam a missa na capela da torre d’«A casa varrida pelos ventos». Os três filhos receberam instrução religiosa privada, em lugar das novas «classes de catecismo». Quando deixou de ser prático educar às crianças em casa, Cessi se assegurou de que tanto a madre superiora da escola à que assistia Tricia como os irmãos da escola que havia escolhido para Christian e Paul compreenderam que seus generosos aportes financeiros só continuariam enquanto conservassem um alto nível acadêmico e uma sólida doutrina católica.

A fins dos anos sessenta, as profundas mudanças na vida secular que Cessi havia antecipado começaram a converter-se em realidade. A vida privada e pública da sociedade se desprendia de seus princípios morais, e não havia forma de isolar seus filhos de ditas mudanças. O melhor que podia fazer, segundo lhe disse a Declan, era advertir a Christian, Paul e Tricia dos perigos da nova conformidade secular, que emergia como o que Cessi considerava uma nova religião estatal, seguir facilitando-lhes uma ampla compreensão de sua fé católica, apostólica e romana, e alentar a independência intelectual que constituiria uma característica permanente da vida e personalidade de cada um deles.

Tão completa, autocontida e autossuficiente era a vida que Cessi e Declan haviam organizado n’«A casa varrida pelos ventos», que em 1969 quase parecia que nada lograria transformá-la. Não obstante, teve então lugar algo rotineiro que adquiriu dimensões críticas e reforçou ainda mais a atitude de Cessi a respeito das difundidas consequências do Concílio Vaticano II do bom papa.

Havia sido solicitado a presença de Cessi e Declan em Washington para celebrar uma reunião com funcionários da tesouraria sobre certas propriedades dos Gladstone, em zonas muito

delicadas da América do Sul. Apesar de haver reservado suas habitações com muita antecipação no hotel Hay Adams, descobriram à sua chegada que todavia não estavam prontas. O problema, ao que parecia, se devia a uma populosa assembleia de sacerdotes a favor de um clérigo casado.

Um clérigo casado era uma contradição tão absurda e disparatada para Cessi e Declan como um neurocirurgião paraplégico ou Satanás livre de pecado. Contudo, enquanto esperavam no vestíbulo do hotel, estavam rodeados de sacerdotes de todas as idades e descrições. Uns poucos de barba grisalha vestiam roupa clerical, mas a maioria levava calças e camisas esportivas. Nas mãos dos presentes se viam alguns breviários, mas eram muito mais numerosas as mulheres que assistiam em qualidade de ajudantes ou, como comentou um recepcionista depois de piscar o olho, de «donas de chaves». Várias centenas de delegados trintões e quarentões não mostravam indício externo algum de sua condição sacerdotal, e nada parecia dar-lhes mais gosto como alternar no bar, enquanto outros ainda mais jovens, provavelmente recém saídos do seminário, deambulavam pelo vestíbulo do hotel como estudantes depois de um campeonato universitário de basquete. Ataviados com grande diversidade de roupa desportiva, parecia que lhes apetecia formar grupos que desafinavam cantando O sonho impossível, acompanhados de violões.

Presas de uma mistura de curiosidade e horror, Cessi e Declan consultaram a tabela de anúncios no vestíbulo, onde se exibia o programa de atividades para aquela assembleia de sacerdotes. Uma das conferências trataria d’«a antropologia do sacerdócio», outra exploraria «o papel das mulheres na vida da redenção», o resto examinaria temas como «a sexualidade ao serviço de Deus» e «a androgenia do amor humano como se descreve na Bíblia» que enfureceram Declan.

A fúria lhe impediu dormir aquela noite. Pela manhã, Cessi encontrou seu pai, temendo e pálido como a cera, sentado ainda junto ao escritório. As explorações médicas de urgência levadas a cabo em Washington não permitiram chegar a nenhuma conclusão. Mas os especialistas chamados por Cessi para que acudissem a Galveston depois de seu regresso descobriram que Declan havia sofrido um pequeno infarto.

Ainda que prontamente privado da robusta saúde que havia desfrutado toda sua vida, e incapaz de ocupar-se como costumava fazê-lo dos negócios, ou de galopar pelo campo com os filhos de Cessi, Declan se contentava em passar a maior parte do tempo sem sair da casa. Na sua idade, dizia com um humor um tanto amargo, era de esperar que as rodas e polias de sua maquinaria precisassem certo ajuste.

Declan nunca se recuperou. Sobreviveu uns oito meses, mas a avalanche das denominadas «reformas» que manavam da burocracia pós-conciliar foi excessivo para ele. Faleceu pacificamente e rodeado de sua família. Francesca Gladstone se converteu então na dona d’«A casa varrida pelos ventos». E do mesmo modo que havia defendido seus filhos dos abusos de seu marido, se defenderia agora a si mesma, a seus filhos e a todas as pessoas vinculadas com «A casa varrida pelos ventos» dos desaforos perpetrados na missa católica imemorial. O novus ordo nunca se celebraria na capela da torre. Agora mais que nunca, Cessi se converteu na personificação do lema de sua família: lutaria «sem quartel» ao largo de sua vida para permanecer fiel ao catolicismo romano de seus antepassados papistas.

“A Casa Varrida pelos Ventos” – Malachi Martin. Tradução não oficial do espanhol “El ultimo Papa”, edição digital, por Frei Zaqueu (freizaqueu@gmail.com)

Créditos: Fr. Zaqueu

Belíssimas Aclamações à Nossa Senhora do Carmo

 

Imaginemos a alegria das almas em purgatório quando no Sábado, lá, desce, Nossa Senhora do Carmo.

LETRA:

No ai entendimiento humano
que diga tus glorias hoy,
y solo basta desir
que eres la Madre de Dios.

A na na na na na na…

En la mente de Dios Padre,
fuiste electa para Madre
del vervo que se humano,
tomando en ti nuestra carne.

A na na na na na na…

Una eres en la substancia,
y en advocaciones barias ;
pero en el Carmen, refugio
y consuelo de las Almas.

A na na na na na na…

Tu manto en el purgatorio
es con que el fuego le aplacas,
a Él porque Madre te clama
y en Sábado lo rescatas.

A na na na na na na…

No tiene la criatura
otro auxilio si no clama,
pues por tus Ruegos se libra
de la Sentencia más Santa.

A na na na na na na…

Más y más misericordia
le muestras al que te clama ;
y pues que somos tus hijos,
llevanos a buestra Patria.

A na na na na na na…

El devoto fervoroso
que a celebrarte se inclina,
lleva el premio mas seguro,
como que eres Madre pía.

A na na na na na na…

Pues no habrá quien siendo esclavo,
al fin no se vea libre,
de las penas de esta vida,
si con acierto te sirve.

A na na na na na na…

Viva Nossa Senhora do Carmo!

 

 

 

 

O que mudou na reforma da polêmica escultura de João Paulo II?‏


Comentário Lucia Zucchi
Sobre o noticiário de Vatican Insider 
O município de Roma reinaugura estátua de João Paulo II, retirada para reforma após sua criticadíssima instalação por ocasião da beatificação. Colocada inicialmente diante de estação ferroviária Termini, a imagem foi doada à cidade de Roma por seu autor, que se encarregou também de reformá-la diante das queixas generalizadas. A obra, de cinco metros de altura, se resumia a um manto oco e uma cabeça de traços pouco distintos e olhar severo. A nova versão lembra, agora um pouco menos vagamente, os traços do Pontífice e faz um gesto de acolhimento com a capa. Ainda que essa permaneça vazia.
“Um santo de pau oco”, mostrava às gargalhadas meu filho de doze anos. Parece Mussolini, afirmam muitos italianos, que manifestaram em 86% não gostarem da estátua, segundo pesquisa online do jornal La Stampa. Mau gosto dos restantes 14%!
Por que a insistência em expor algo tão feio e desagradável? São os direitos soberanos da modernidade? Poderia se supor uma simples afirmação agressiva de que o Papa e, em consequência, a Igreja são grandes estruturas vazias e insinceras. Entretanto, o autor está em perfeita sintonia com os teólogos da arte sacra em moda, até muito recentemente, pois ostenta um diploma de Arte e Liturgia do Instituto Teológico Santo Anselmo, de Roma.
Aí está provavelmente o sentido de sua obra: a tese modernista da kenosis, que vê na santidade o esvaziamento do próprio eu até atingir a divindade vazia. Tese condenada por Pio XII, no documento Sempiternis Rex e triunfante na Nova Teologia que conduziu o Concílio Vaticano II.

Fonte:http://www.montfort.org.br/index.php/secoes/noticias/joao-paulo-ii-vazio-reinaugurado-em-roma/