Diocese publica um “Solene” decreto sobre culto à Virgem Maria

Caríssimos,

Salve Maria!

Fazia tempo, muito tempo, desde quando aboliram, quase que completamente, as ” Cartas Pastorais” que eu não lia um Decreto Diocesano tão Solene. Esta solenidade de reveste de uma linguagem que a priori parece  de um Documento lá das épocas de Pio IX. Mas se a linguagem é antiga, a teologia é bem nova e se baseia no Capítulo VIII ,da Lumen Gentium… Um Decreto tão solene para algo tão simples?  Não se combate a religiosidade tradicional do povo por decreto,  isso não funciona, a não ser, talvez, nas terras de Hugo Chaves….. Bastaria o pároco, que é cura das almas,promover as consagrações com uma boa formação anterior, mas sem trair  a doutrina do Tratado da Verdadeira Devoção, caindo na desgraça dos ” devotos escrupulosos”.

O Decreto ainda ameaça com “punição canônica” quem contraria-lo. Cruz-credo! Mas, não estamos em tempos de Misericordias?  As palavras do Papa Francisco não são de acolhimento e de se fugir de Condenações Punitivas?…

Acredito que esse documento diocesano é fruto de um grande zelo. E se há zelo nesse assunto, deve haver também noutros, tais como: sagrada liturgia, disciplina dos sacramentos, formação no seminário, etc…

No fim das contas, ficamos com nossos Decretos datados e carimbados, e o povo vai adiante, do mesmo jeito, com suas devoções …. o povo é fogo!

Lembro-me bem de um “causo mineiro” de um padre jovem que quis  retirar a velha imagem de Nossa Senhora do Carmo do altar, podo-lhe outra mais nova e bonita. O povo calou-se. Nada disse. E, chegada a festa da padroeira, pensando que os fieis tinham aceitado, quando a Imagem Nova descia as escadarias , no andor, para a procissão,  ao grito do padre ” Viva Nossa Senhora!”, o povo inteiro respondeu: ” A Velha!”

Pe. Marcélo Tenório

ESCRAVO da Santíssima Virgem Maria.

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DOM MESSIAS DOS REIS SILVEIRA

Por mercê de Deus e da Sé Apostólica
Bispo de Uruaçu-GO

DECRETO
VERUM ET AUTHENTICUM CULTUM BEATAM MARIAM SEMPER
VIRGINEM

Sobre o verdadeiro culto a Bem-aventurada sempre Virgem Maria

Aos que este nosso Decreto virem, saudação, paz e bênção em nosso Senhor Jesus Cristo.

Considerando que Maria exaltada por graça do Senhor e colocada, logo a seguir a seu Filho, acima de todos os anjos e homens, Maria que, como mãe santíssima de Deus, tomou parte nos mistérios de Cristo, é com razão venerada pela Igreja com culto especial (LG n.66)

Considerando o Cân. 1186 que diz que a Igreja recomenda à veneração especial e filial dos fiéis a Bem-aventuradas sempre Virgem Maria, Mãe de Deus, a quem Cristo constituiu Mãe de todos os homens, bem como promove o verdadeiro e autêntico culto dos outros Santos, por cujo exemplo os fiéis se edificam e pela intercessão dos quais são sustentados;

Considerando que a doutrina católica, recomenda a todos os filhos da Igreja que fomentem generosamente o culto da Santíssima Virgem, sobretudo o culto litúrgico, que tenham em grande estima as práticas e exercícios de piedade para com Ela, aprovados no decorrer dos séculos pelo magistério, e que mantenham fielmente tudo aquilo que no passado foi decretado acerca do culto das imagens de Cristo, da Virgem e dos santos. (Cone. Niceno II, em 787: Mansi 13, 378-379: Denz. 302 (600-601) ; Cone. Trident., sess. 25: Mansi 33, 171-172).

Tendo em vista que a verdadeira devoção não consiste numa emoção estéril e passageira, mas nasce da fé, que nos faz reconhecer a grandeza da Mãe de Deus e nos incita a amar filialmente a nossa mãe e a imitar as suas virtudes. (LG 67)

Considerando o Cân. 392 § 2 que diz que o Bispo deve vigiar para que não se introduzam abusos na disciplina eclesiástica, principalmente no culto de Deus e dos Santos;
Havemos por bem decretar, como de fato decretamos, que o Culto a Maria na Diocese de Uruaçu: Deve seguir o que a Tradição da Igreja ensina sobre o Culto a Maria;Para evitar quaisquer manifestações cultuais contrárias à reta praxe católica no que se refere ao Culto a Maria;

Deve evitar qualquer tipo de Consagração a Nossa Senhora que fomente manifestações contrárias à reta praxe cristã;

Que os Sacerdotes devem impedir a ereção de grupos sectários que usam sinais como: véus, correntes (no sentido estrito do termo), e outros tipos de manifestações próprias, que ao invés de promover a verdadeira Devoção a Nossa Senhora, cria-se uma devoção obscura que mais confunde do que promove piíssima devoção;

Que os Sacerdotes estejam atentos, principalmente, aos fiéis que cultivam a Consagração a Nossa Senhora sob a espiritualidade de São Luís Maria Grignion de Montfort – a qual propõe aos cristãos a consagração a Cristo pelas mãos de Maria, como meio eficaz para viverem fielmente os compromissos batismais – para que estes não desvirtuem esta bela devoção ou a resumam numa emoção estéril e passageira que não expressa a realidade e profundidade de tal espiritualidade;

Que qualquer manifestação de espiritualidades advinda de outras realidades e/ou pessoas que queiram promover estas, devem ser submetidas ao conhecimento do Pároco, o qual, encaminhará ao Bispo Diocesano que aprovará ou não sua praxe no território da Diocese;

Que o termo Escravo de Nossa Senhora não seja empregado, tendo em vista que não vos chamo escravos (õovilovç), porque o escravo (5ov2oç), não sabe o que faz seu senhor; mas Eu vos chamo de amigos”, (Jo 15,15); nem vos tenho como escravo (cSov2ov), mas muito mais do que um escravo ((ovilov), como irmão querido” (Flm 15-16).

Recordamos aos Sacerdotes e fiéis leigos o que determina o cân. 1371, 2°: Seja punido com justa pena: quem […] não obedecer à Sé Apostólica, ao Ordinário ou ao Superior quando legitimamente mandam ou proíbem alguma coisa, e, depois de avisado, persistir na desobediência (Redação dada pela Carta Apostólica sob a forma de Motu Próprio “Ad Tuendam Fidem” de 18 de maio de 1998).

Exortamos todos os filhos da Igreja a renovar pessoalmente a sua própria consagração a Nossa Senhora, e a viver este nobilíssimo ato de culto com uma vida cada vez mais conforme à Vontade Divina, e em espírito de serviço filial e de devota imitação da sua celeste Mãe.

Exprimimos, por fim, a confiança de que o clero e o povo cristão confiados ao nosso ministério pastoral corresponderão generosamente a esta nossa Exortação, demonstrando para com a Virgem Mãe de Deus uma piedade mais ardente e uma confiança mais firme. Enquanto nos conforta a certeza de que a excelsa Rainha do Céu e nossa Mãe dulcíssima não deixará de assistir todos e cada um dos seus filhos e não retirará de toda a Igreja de Cristo o seu celeste patrocínio.

Dado e passado em nossa Cúria Diocesana, aos 21 dias do mês de dezembro de dois mil e dezesseis, memória de São Pedro Canísio.

Fonte: http://diocesedeuruacu.com.br/dom-messias-publica-decreto-sobre-culto-virgem-maria.html#

A Carta Aberta dos cardeais ao Papa Francisco – na íntegra

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1. Uma premissa necessária

O envio desta carta ao Papa Francisco por parte de quatro cardeais nasce de uma profunda preocupação pastoral.

Temos observado a desorientação de muitos fiéis, e a confusão em que se encontram, relativamente a questões de grande importância para a vida da Igreja. Temos notado também que inclusive no seio do colégio episcopal se fazem interpretações contrastantes do capítulo oitavo de “Amoris laetitia”.

A grande Tradição da Igreja ensina-nos que o caminho para sair de situações como esta passa pelo recurso ao Santo Padre, pedindo à Sé Apostólica que resolva as dúvidas que são causa de desorientação e de confusão.

O nosso é, pois, um acto de justiça e de caridade.

De justiça: ao tomar esta iniciativa estamos a professar que o ministério petrino é o ministério da unidade, e que a Pedro, ao Papa, cabe o serviço de confirmar na fé.

De caridade: é nossa intenção ajudar o Papa a prevenir divisões e contraposições na Igreja, pedindo-lhe que dissipe todas as ambiguidades.

Fazendo-o, cumprimos também um estrito dever que nos incumbe. Segundo o Código de Direito Canónico (câns. 349, 358 e 360), aos cardeais está confiada a missão de ajudar o Papa na solicitude pela Igreja universal.

O Santo Padre decidiu não responder. Interpretamos esta sua soberana decisão como um convite para continuar a reflexão e a discussão, de modo sereno e respeitoso.
Por essa razão, damos agora a conhecer a nossa iniciativa a todo o povo de Deus, fornecendo para isso toda a documentação pertinente.

Esperamos que ninguém interprete este facto nos termos do esquema “progressistas-conservadores”; seria um engano. Estamos profundamente preocupados com o verdadeiro bem das almas, que é a suprema lei da Igreja, e não em fazer avançar dentro da Igreja um qualquer tipo de política.

Esperamos também que ninguém, julgando injustamente, nos tenha na conta de adversários do Santo Padre e de pessoas privadas de misericórdia. O que fizemos e o que estamos a fazer nasce do profundo afecto colegial que nos une ao Papa, e da preocupação apaixonada pelo bem dos fiéis.

Card. Walter Brandmüller
Card. Raymond L. Burke
Card. Carlo Caffarra
Card. Joachim Meisner

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2. A carta dos quatro cardeais ao Papa

Ao Santo Padre Francisco
e com conhecimento a Sua Em. Rev. Senhor Cardeal Gerhard L. Müller

Beatíssimo Padre,

No seguimento da publicação da Vossa Exortação Apostólica “Amoris laetitia”, foram propostas, por parte de teólogos e estudiosos, interpretações não só divergentes, mas também contrastantes, sobretudo no que respeita ao cap. VIII. Além do mais, os meios de comunicação têm vindo a pôr em realce esta diatribe, provocando, desse modo, incerteza, confusão e desorientação por entre muitos dos fiéis.

Por essa razão, chegaram-nos, a nós que nos subscrevemos, como também a muitos Bispos e Presbíteros, numerosos pedidos da parte de féis pertencentes a diversas condições sociais, a respeito da correcta interpretação a dar ao cap. VIII da Exortação.

Assim, movidos em consciência pela nossa responsabilidade pastoral, e desejando praticar sempre melhor aquela mesma sinoladidade a que Vossa Santidade nos exorta, permitimo-nos, com profundo respeito, vir pedir-Vos, Santo Padre, que, como Mestre supremo da fé, chamado pelo Ressuscitado a confirmar os irmãos na fé, dirimais as incertezas e crieis clareza, dando benevolamente resposta aos “Dubia” que nos consentimos juntar à presente.

Apraza a Vossa Santidade abençoar-nos, deixando-Vos a nossa promessa de uma constante presença na nossa oração.

Card. Walter Brandmüller
Card. Raymond L. Burke
Card. Carlo Caffarra
Card. Joachim Meisner

Roma, 19 de Setembro de 2016.

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3. Os “Dubia”

1.    Pergunta-se se, de acordo com quanto se afirma em “Amoris laetitia”, n. 300-305, se tornou agora possível conceder a absolvição no sacramento da Penitência, e, portanto, admitir à Sagrada Eucaristia, uma pessoa que, estando ligada por vínculo matrimonial válido, convive “more uxorio” com outra, sem que estejam cumpridas as condições previstas por “Familiaris consortio”, n. 84, e entretanto confirmadas por Reconciliatio et paenitentia, n. 34, e por “Sacramentum caritatis”, n. 29. Pode a expressão “[e]m certos casos”, da nota 351 (n. 305) da exortação “Amoris laetitia”, ser aplicada a divorciados com uma nova união que continuem a viver “more uxorio”?

2.    Continua a ser válido, após a exortação pós-sinodal “Amoris laetitia” (cf. n. 304), o ensinamento da encíclica de São João Paulo II “Veritatis splendor”, n. 79, assente na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, acerca da existência de normas morais absolutas, válidas sem qualquer excepção, que proíbem actos intrinsecamente maus?

3.    Depois de “Amoris laetitia” n. 301, pode ainda afirmar-se que uma pessoa que viva habitualmente em contradição com um mandamento da lei de Deus, como, por exemplo, aquele que proíbe o adultério (cf. Mt 19, 3-9), se encontra em situação objectiva de pecado grave habitual (cf. Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, Declaração de 24 de Junho de 2000)?

4.    Após as afirmações de “Amoris laetitia”, n. 302, relativas às “circunstâncias atenuantes da responsabilidade moral”, ainda se deve ter como válido o ensinamento da encíclica de São João Paulo II “Veritatis splendor”, n. 81, assente sobre a Sagrada Escritura e sobre a Tradição da Igreja, segundo o qual: “as circunstâncias ou as intenções nunca poderão transformar um acto intrinsecamente desonesto pelo seu objecto, num acto ‘subjectivamente’ honesto ou defensível como opção”?

5.    Depois de “Amoris laetitia”, n. 303, ainda se deve ter como válido o ensinamento da encíclica de São João Paulo II “Veritatis splendor”, n. 56, assente sobre a Sagrada Escritura e sobre a Tradição da Igreja, que exclui uma interpretação criativa do papel da consciência, e afirma que a consciência jamais está autorizada a legitimar excepções às normas morais absolutas que proíbem acções intrinsecamente más pelo próprio objecto?

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4. Nota explicativa dos quatro cardeais

O CONTEXTO

Os “dubia” (do latim, “dúvidas”) são questões formais dirigidas ao Papa e à Congregação para a Doutrina da Fé, pedindo uma clarificação acerca de temas particulares relativos à doutrina ou à prática.

O que estes pedidos têm de particular é o facto de serem formulados de modo a pedirem como resposta um “sim” ou um “não”, sem argumentações teológicas. Não fomos nós a inventar esta modalidade da forma de se dirigir à Sé Apostólica; é uma prática secular.

Tratemos agora do que está em jogo.

Depois da publicação da exortação apostólica pós-sinodal “Amoris laetitia”, sobre o amor na família, levantou-se um amplo debate, em especial a respeito do capítulo oitavo. Mais especificamente ainda, os parágrafos 300-305 têm sido objecto de interpretações divergentes.

Para muitos – bispos, párocos, fiéis –, estes parágrafos fazem alusão, ou ensinam explicitamente, uma mudança da disciplina da Igreja a respeito dos divorciados que vivem numa nova união, ao passo que outros, admitindo embora a falta de clareza, ou mesmo a ambiguidade das passagens em questão, argumentam que estas mesmas páginas podem ser lidas em continuidade com o magistério precedente e não contêm uma modificação quanto à prática e aos ensinamentos da Igreja.

Animados por uma preocupação pastoral para com os fiéis, quatro cardeais enviaram uma carta ao Santo Padre sob a forma de “dubia”, esperando assim obter clareza, dado que a dúvida e a incerteza são sempre em grandíssimo detrimento do cuidado pastoral.

O facto de que os intérpretes cheguem a diferentes conclusões deve-se também à existência de vias divergentes a propósito da compreensão da vida cristã. Nesse sentido, o que está em jogo em “Amoris laetitia” não é somente a questão de se saber se os divorciados que iniciaram uma nova união – sob certas circunstâncias – podem ser readmitidos ou não aos sacramentos.

É mais do que isso, já que a interpretação do documento implica maneiras diferentes e contrastantes de encarar o estilo de vida cristão.

Assim, enquanto a primeira questão dos “dubia” diz respeito a um tema prático relativo aos divorciados recasados civilmente, as restantes quatro questões são relativas a temas fundamentais da vida cristã.

AS PERGUNTAS

Dúvida número 1:

Pergunta-se se, de acordo com quanto se afirma em “Amoris laetitia”, n. 300-305, se tornou agora possível conceder a absolvição no sacramento da Penitência, e, portanto, admitir à Sagrada Eucaristia, uma pessoa que, estando ligada por vínculo matrimonial válido, convive “more uxorio” com outra, sem que estejam cumpridas as condições previstas por “Familiaris consortio”, n. 84, e entretanto confirmadas por Reconciliatio et paenitentia, n. 34, e por “Sacramentum caritatis”, n. 29. Pode a expressão “[e]m certos casos”, da nota 351 (n. 305) da exortação “Amoris laetitia”, ser aplicada a divorciados com uma nova união que continuem a viver “more uxorio”?

A primeira pergunta refere-se, em particular, ao n. 305 de “Amoris laetitia” e à nota de pé de página 351. A nota 351, pese embora falar especificamente dos sacramentos da penitência e da comunhão, não menciona, nesse contexto, os divorciados recasados civilmente, como também não o faz o texto principal.

O n. 84 da exortação apostólica “Familiaris consortio”, do Papa João Paulo II, já contemplava a possibilidade de admitir os divorciados recasados civilmente aos sacramentos. Mencionavam-se aí três condições:

– as pessoas interessadas não podem separar-se sem cometer uma nova injustiça (poderia acontecer, por exemplo, que fossem responsáveis pela educação dos próprios filhos);

– os interessados assumem o compromisso de viver de acordo com a verdade da própria situação, cessando de viver juntos como se fossem marido e mulher (“more uxorio”), e abstendo-se dos actos próprios dos esposos;

– os interessados evitam dar escândalo (isto é, evitam a aparência do pecado para evitar o risco de levar os outros a pecar).

As condições indicadas em “Familiaris consortio”, n. 84, e nos sucessivos documentos acima mencionados mostram-se imediatamente razoáveis, assim que se recorda que a união conjugal não se baseia apenas na mútua afeição, e que os actos sexuais não são apenas uma actividade mais entre outras que o casal possa praticar.

As relações sexuais são para o amor conjugal. São algo de tão importante, de tão grande bondade e de tão precioso, que requerem um contexto particular: o contexto do amor conjugal. Por conseguinte, não só os divorciados que vivem numa nova união se devem abster, mas também qualquer pessoa que não esteja casada. Para a Igreja, o sexto mandamento, “não cometer adultério”, sempre abrangeu qualquer exercício da sexualidade que não fosse conjugal, ou seja, qualquer tipo de acto sexual além do que se tem com o próprio esposo.

Parece que, se fossem admitidos à comunhão os fiéis que iniciaram uma nova união no âmbito da qual vivem como se fossem marido e mulher, a Igreja estaria a ensinar, através de tal prática de admissão, uma das seguintes afirmações a propósito do matrimónio, da sexualidade humana e da natureza dos sacramentos:

– O divórcio não dissolve o vínculo matrimonial, e os parceiros da nova união não estão casados. Apesar disso, as pessoas que não estão casadas podem, em certas condições, realizar legitimamente actos de intimidade sexual.

– O divórcio dissolve o vínculo matrimonial. As pessoas que não estão casadas não podem realizar legitimamente actos sexuais. Os divorciados recasados são esposos legitimamente, e os seus actos sexuais são actos conjugais licitamente.

– O divórcio não dissolve o vínculo matrimonial, e os parceiros da nova união não estão casados. As pessoas que não estão casadas não podem praticar actos sexuais. Por isso, os divorciados recasados civilmente vivem numa situação de pecado habitual, público, objectivo e grave. Todavia, admitir uma pessoa à Eucaristia não significa para a Igreja aprovar o seu estado de vida público; o fiel pode abeirar-se da mesa eucarística, mesmo com a consciência de pecado grave. Para se receber a absolvição no sacramento da penitência não é sempre necessário o propósito de mudar a própria vida. Por conseguinte, os sacramentos estão desligados da vida: os ritos cristãos e o culto estão numa esfera diferente relativamente à da vida moral cristã.

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Dúvida número 2:

Continua a ser válido, após a exortação pós-sinodal “Amoris laetitia” (cf. n. 304), o ensinamento da encíclica de São João Paulo II “Veritatis splendor”, n. 79, assente na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, acerca da existência de normas morais absolutas, válidas sem qualquer excepção, que proíbem actos intrinsecamente maus?

A segunda pergunta diz respeito à existência dos assim chamados actos intrinsecamente maus. O n. 79 da encíclica “Veritatis splendor”, de João Paulo II, assevera que é possível “qualificar como moralmente má segundo a sua espécie […] a escolha deliberada de alguns comportamentos ou actos determinados, prescindindo da intenção com que a escolha é feita ou da totalidade das consequências previsíveis daquele acto para todas as pessoas interessadas”.

Ensina, pois, a encíclica que há actos que são sempre maus, proibidos por aquelas normas morais que obrigam sem admitir qualquer excepção (“absolutos morais”). Estes absolutos morais são sempre negativos, isto é, dizem-nos o que não deveríamos fazer. “Não matar”. “Não cometer adultério”. Somente as normas negativas podem obrigar sem qualquer excepção.

De acordo com “Veritatis splendor”, no caso dos actos intrinsecamente maus, não é necessário qualquer discernimento das circunstâncias ou das intenções. Ainda que um agente secreto pudesse arrancar informações valiosas à mulher de um terrorista cometendo adultério com ela, tanto que pudesse até salvar a própria Pátria (isto, que soará a um exemplo saído de um filme de James Bond, fora já contemplado por São Tomás de Aquino em De Malo, q. 15, a. 1). João Paulo II afirma que a intenção (neste caso, “salvar a Pátria”) não muda a espécie do acto (“cometer adultério”), e que é suficiente saber a espécie do acto (“adultério”) para se saber que não se deve praticá-lo.

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Dúvida número 3:

Depois de “Amoris laetitia” n. 301, pode ainda afirmar-se que uma pessoa que viva habitualmente em contradição com um mandamento da lei de Deus, como, por exemplo, aquele que proíbe o adultério (cf. Mt 19, 3-9), se encontra em situação objectiva de pecado grave habitual (cf. Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, Declaração de 24 de Junho de 2000)?

No parágrafo 301, “Amoris laetitia” recorda que a “Igreja possui uma sólida reflexão sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes”, e conclui que “por isso, já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada “irregular” vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante”.

Com a Declaração de 24 de Junho de 2000, o Pontifício Conselho para os Textos Legislativos pretendeu clarificar o cânone 915 do Código de Direito Canónico, que determina que “não sejam admitidos à Sagrada Comunhão” aqueles que  “obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto”. A Declaração do Pontifício Conselho afirma que este cânone é aplicável também aos fiéis divorciados e recasados civilmente. Esclarece ainda que o “pecado grave” deve ser entendido objectivamente, dado que o ministro da Eucaristia não tem meios para julgar da imputabilidade subjectiva da pessoa.

Vemos assim que, para a Declaração, a questão da admissão aos sacramentos tem que ver com o juízo da situação de vida objectiva da pessoa, e não com o juízo de que tal pessoa se encontra em estado de pecado mortal. De facto, subjectivamente poderia não ser plenamente imputável, ou até nem sê-lo de todo.

Na mesma linha, na sua encíclica “Ecclesia de Eucharistia”, n. 37, São João Paulo II recorda que, “[t]ratando-se de uma avaliação de consciência, obviamente o juízo sobre o estado de graça compete apenas ao interessado”. Por conseguinte, a distinção mencionada em “Amoris laetitia”, entre a situação subjectiva de pecado mortal e a situação objectiva de pecado grave, já se encontrava bem estabelecida no ensinamento da Igreja.

Contudo, João Paulo II continuava, insistindo em que, “em casos de comportamento externo de forma grave, ostensiva e duradoura contrário à norma moral, a Igreja, na sua solicitude pastoral pela boa ordem comunitária e pelo respeito do sacramento, não pode deixar de sentir-se chamada em causa”. Fazendo-o, reafirmava ainda o ensinamento colhido no cânone 915, já mencionado.

Vê-se assim que a questão 3 dos “dubia” pretende que se esclareça se, mesmo depois de “Amoris laetitia”, é ainda possível dizer que as pessoas que habitualmente vivem em contradição com o mandamento da lei de Deus, vivem em situação objectiva de grave pecado habitual, mesmo quando, por qualquer razão, não for certo que elas sejam subjectivamente imputáveis quanto à sua transgressão habitual.

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Dúvida número 4:

Após as afirmações de “Amoris laetitia”, n. 302, relativas às “circunstâncias atenuantes da responsabilidade moral”, ainda se deve ter como válido o ensinamento da encíclica de São João Paulo II “Veritatis splendor”, n. 81, assente sobre a Sagrada Escritura e sobre a Tradição da Igreja, segundo o qual: “as circunstâncias ou as intenções nunca poderão transformar um acto intrinsecamente desonesto pelo seu objecto, num acto ‘subjectivamente’ honesto ou defensível como opção”?

No parágrafo 302, “Amoris laetitia” sublinha que “um juízo negativo sobre uma situação objectiva não implica um juízo sobre a imputabilidade ou a culpabilidade da pessoa envolvida”. Os “dubia” fazem menção do ensinamento – tal como foi expresso por João Paulo II em “Veritatis splendor” –, segundo o qual as circunstâncias e as boas intenções jamais podem fazer com que um acto intrinsecamente mau passe a ser um acto bom ou sequer desculpável.

A questão está em saber se “Amoris laetitia” concorda em dizer que qualquer acto que transgrida os mandamentos de Deus, como o adultério, o furto, o perjúrio, consideradas as circunstâncias que mitigam a responsabilidade pessoal, jamais se pode tornar num acto bom ou sequer desculpável.

Continuam estes actos, a que a Tradição da Igreja chamou de pecados graves e maus em si, a ser destrutivos e danosos para quem quer que os cometa, qualquer que seja o estado de responsabilidade moral em que se encontre?

Ou podem estes actos, dependendo do estado subjectivo da pessoa, das circunstâncias e das intenções, deixar de ser danosos e tornar-se louváveis ou, pelo menos, desculpáveis?

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Dúvida número 5:

Depois de “Amoris laetitia”, n. 303, ainda se deve ter como válido o ensinamento da encíclica de São João Paulo II “Veritatis splendor”, n. 56, assente sobre a Sagrada Escritura e sobre a Tradição da Igreja, que exclui uma interpretação criativa do papel da consciência, e afirma que a consciência jamais está autorizada a legitimar excepções às normas morais absolutas que proíbem acções intrinsecamente más pelo próprio objecto?

Em “Amoris laetitia”, n. 303, afirma-se que a “consciência pode reconhecer não só que uma situação não corresponde objectivamente à proposta geral do Evangelho, mas reconhecer também, com sinceridade e honestidade, aquilo que, por agora, é a resposta generosa que se pode oferecer a Deus”. Os “dubia” pedem uma clarificação destas afirmações, por isso que as mesmas são susceptíveis de interpretações divergentes.

Para os que propõem a ideia de uma consciência criativa, os preceitos da lei de Deus e a norma da consciência individual podem estar em tensão, ou até em oposição, ao mesmo tempo que a palavra final sempre deveria caber à consciência, que decide em última instância acerca do bem e do mal. De acordo com “Veritatis splendor”, n. 56, “sobre esta base, pretende-se estabelecer a legitimidade de soluções chamadas “pastorais”, contrárias aos ensinamentos do Magistério, e justificar uma hermenêutica “criadora”, segundo a qual a consciência moral não estaria de modo algum obrigada, em todos os casos, por um preceito negativo particular”.

Segundo esta perspectiva, para a consciência moral, jamais será suficiente saber que “isto é adultério”, “isto é homicídio”, para saber se se trata de algo que não pode e não deve fazer-se.

Em lugar disso, dever-se-ia ainda olhar para as circunstâncias e para as intenções, a fim de se saber se um tal acto poderia, apesar de tudo, ser desculpável ou mesmo obrigatório (cf. pergunta 4 dos “dubia”). Para estas teorias, de facto, a consciência poderia decidir legitimamente que, num certo caso, a vontade de Deus para mim consiste num acto mediante o qual eu transgrido um dos seus mandamentos. “Não cometer adultério” passaria a ser visto como uma norma geral, quando muito. Aqui e agora, vistas as minhas boas intenções, cometer adultério seria, afinal, o que Deus realmente me está a pedir. Nesses termos, seria possível pôr-se a hipótese – no mínimo – de casos de adultério virtuoso, de homicídio legal e de perjúrio obrigatório.

Isto significaria conceber a consciência como uma faculdade para decidir autonomamente acerca do bem e do mal, e a lei de Deus como um fardo que é arbitrariamente imposto e que, a dada altura, poderia opor-se à nossa felicidade.

Sucede, porém, que a consciência não decide do bem e do mal. A ideia de “decisão em consciência” é enganadora. O acto próprio da consciência é o de julgar e não o de decidir. Ela diz tão-só “isto é bom”, “isto é mau”. Essa bondade ou maldade não dependem dela. O que ela faz é aceitar e reconhecer a bondade ou a maldade de uma acção, e para isso, ou seja, para julgar, a consciência necessita de critérios; ela é inteiramente dependente da verdade.

Os mandamentos de Deus são uma ajuda bem-vinda oferecida à consciência para que colha a verdade e para que, assim, possa julgar segundo a verdade. Os mandamentos de Deus são uma expressão da verdade sobre o bem, sobre o nosso ser mais profundo, mostrando algo de crucial acerca de como viver bem.

Também o Papa Francisco se exprime nestes mesmos termos em “Amoris laetitia”, n. 295: “também a lei é dom de Deus, que indica o caminho; um dom para todos sem excepção”.

Fonte: http://chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1351410

Café Teológico – 04: Um Seminarista medroso escreve

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No  “Café Teológico”, desta semana, coloco aqui a resposta dada a um seminarista medroso que escreveu ao prof. Orlando Fedeli. A resposta do velho professor provoca no seminarista uma profunda e corajosa mudança de atitude. Mais que isso: uma conversão.
Leia logo abaixo.
Pe. Marcélo Tenorio
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Salve Maria.
Atendi o seu pedido de não publicar a sua carta com o seu nome. Mas lamento que me tenha pedido isso. Agora, você tem medo que saibam de seu posicionamento católico a favor da Missa tridentina, porque poderão não recebê-lo num antro modernista, como normalmente são, hoje, os seminários no Brasil.
    Quando você estiver num seminário, intoxicado de heresias, você esconderá seu posicionamento católico, por medo de ser expulso do seminário, porque você dirá que para poder ser padre, e padre bom, terá que esconder que prefere a Missa de sempre. Por isso, se calará, nada dizendo contra a Missa Nova, e nada dizendo a favor da Missa de sempre, senão não lhe permitirão ser ordenado. E você adiará sua confissão de fé — traindo a Fé — para poder ser ordenado padre… covarde.
    São omissões desse tipo que preparam as grandes traições e os silêncios cúmplices. Se os mártires tivessem sido como você é, hoje, jamais teriam morrido na arena. Eles só teriam a “glória” de ter passado muitos anos de vida… de boca fechada.
    Que “gloria”!
    Que vergonha!
    Veja o que você me escreveu sem ficar ruborizado:
Aqui a maioria dos padres é modernista e nem um usa batina, um padre chegou a falar que se mandarem ele celebrar a missa em latim ele manda a pessoa reclamar com o Vaticano, outro falou que existe salvação fora da Igreja Católica, mas quando foi esplicar caiu em contradição. Não conseguiu argumentar de forma coerente. Como ele é da equipe de seleção dos candidatos a seminarista, fiquei de boca fechada“.
    Como você é valente! Conseguiu ficar de boca fechada!
    Vergonha!
    Você é bem pior que esse padre modernista. Ele pelo menos, disse o que pensava.
    Você… Você ficou de “boca fechada” !
    Vergonha!
    Quando você for ordenado sacerdote, tendo praticado a vida inteira uma política de disfarce, de silêncios covardes, e de traições silenciosas, você continuará a pedir que não se publique o que pensa e calará o que você crê, porque o Bispo poderá puni-lo, e mandá-lo a ser pároco no Alto do Goloso do Grogotó dos Pimentas.
    E quando você, por acaso, por desgraça, for Bispo, — porque sendo assim “prudente” você tem grande chance de ser Bispo — você se calará, porque terá medo do que dirão de você na CNBB. E depois terá medo dos padres progressistas que o criticarão, e você terá esperança de vir a ser Cardeal…
    Para se calar, quando for Cardeal, para ver se, ficando de “boca fechada”, será eleito Papa. E se ficar Papa, será um Papa omisso, porque aprendeu, desde jovem, a ser cobra. E não como Cristo, que jamais temeu dizer a verdade em face dos inimigos de Deus.
     Com esse medo, tenho certeza de sua vocação para ser
um sacerdote… covarde, segundo os moldes dos atuais padres conservadores: todo padre conservador é um medroso omisso, que procura ocultar — “prudentemente” — o que pensa, e só busca compactuar com erros …”moderada” e silenciosamente… Padre conservador é aquele que fará depois de amanhã os sacrilégios que os padres mais radicais fizeram anteontem… Em nome da prudência e da moderação…
    Padre conservador é o que fica de “boca fechada” diante dos hereges, e, se algum dia for forçado a falar, fará um sem número de distinções para desculpar o mal, e camuflará a heresia que outros proclamam ousadamente, com mil distinções e ambigüidades. Foi assim que o Vaticano II foi gestado e aprovado pela maioria que aprendeu a ficar de “boca fechada” desde a juventude.
Prudentemente…
Em nome da moderação…
    Nos seminários. E até antes de entrar nos seminários…
    Que vergonha!
    Seja homem, rapaz, e tenha a coragem de proclamar bem alto o que você Crê.
    Seja católico de verdade e publicamente.
    Lembre-se do que Nosso Senhor disse na sétima carta do Apocalipse aos católicos da Igreja de Laodicéia:Antes foras frio ou quente, e não morno. Mas porque és morno, nem frio e nem quente, começarei a te vomitar de minha boca

Antes foras sinceramente, quente ou frio, negro ou branco, bom ou mau, mas jamais camuflado… Indefinido. Omisso. Cinzento. Disfarçado…
    Você quer aprender a dizer a Missa de sempre…
    Escondido?
    Em público, você dirá a missa nova, e irá dançar as musiquinhas do Padre Zezinho e do Padre Marcelo Rossi, para estar bem com a maioria. Para uivar como os lobos … Para sibilar como as cobras.
    Vergonha!
    Antes de comprar um Missal para aprender a dizer Missa de sempre, aprenda a ser homem. Aprenda a ser valente. Aprenda a ser leão.
    Tão acostumado você está a ser covarde, e a esconder o que pensa, que, no seu e mail — que deseja que permaneça secreto –, você confessa, sem nenhum pudor, sem perceber o horror do que diz, sem perceber o horror de como você mesmo se pinta: como covarde assumido, pois você me diz:
No orkut tenho 2 perfis. em um deles falo poco. No outro, que não boto meu nome verdadeiro, posso falar o que realmente acredito sem me preocupar com represálias de quem quer que seja“.
Então, você só fala o que pensa quando “não bota seu nome verdadeiro“.
    Então você tem “dois perfis”… Você me confessa que tem duas caras. Duas palavras…
    Que vergonha!
    E você conclui com uma promessa de valentia:“Mas quando me tornar padre aí vou poder falar a vontade. Vou sair das catacumbas pra luz do dia!”.

Esse dia nunca lhe chegará. A menos que você mude radicalmente. A menos que se converta. E é o que eu viso com esta carta, chamando-o a ter brio.
    Que ilusão você acalenta!
Quem se calou a vida toda, quando não tinha responsabilidade maior a não ser a de ser francamente católico, ficará de “boca fechada“, quando tiver qualquer responsabilidade sobre os ombros.
    Sabe de uma coisa? Tomara que você jamais fique sacerdote. Porque de padres covardes — silenciosos traidores da verdade–, já temos muitos.
Até demais.
    Antes foras frio ou quente…
    Antes de querer ser padre, queira ser homem.
    E valente.
    A força dos hereges vem da covardia dos padres silenciosos.
    Que Nossa Senhora tenha pena de você e o converta.
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli
Fonte: http://www.montfort.org.br/repreensao-dura-e-caridosa-produz-arrependimento/

CARTA DO PAPA SOBRE INDULGÊNCIAS PARA O JUBILEU DA MISERICÓRDIA

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CARTA DO PAPA FRANCISCO
COM A QUAL SE CONCEDE A INDULGÊNCIA
POR OCASIÃO DO JUBILEU EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA

Ao Venerado Irmão
D. Rino Fisichella
Presidente do Pontifício Conselho
para a Promoção da Nova Evangelização

A proximidade do Jubileu Extraordinário da Misericórdia permite-me focar alguns pontos sobre os quais considero importante intervir para consentir que a celebração do Ano Santo seja para todos os crentes um verdadeiro momento de encontro com a misericórdia de Deus. Com efeito,  desejo que o Jubileu seja uma experiência viva da proximidade do Pai, como se quiséssemos sentir pessoalmente a sua ternura, para que a fé de cada crente se revigore e assim o testemunho se torne cada vez mais eficaz.

O meu pensamento dirige-se, em primeiro lugar, a todos os fiéis que em cada Diocese, ou como peregrinos em Roma, viverem a graça do Jubileu. Espero que a indulgência jubilar chegue a cada um como uma experiência genuína da misericórdia de Deus, a qual vai ao encontro de todos com o rosto do Pai que acolhe e perdoa, esquecendo completamente o pecado cometido. Para viver e obter a indulgência os fiéis são chamados a realizar uma breve peregrinação rumo à Porta Santa, aberta em cada Catedral ou nas igrejas estabelecidas pelo Bispo diocesano, e nas quatro Basílicas Papais em Roma, como sinal do profundo desejo de verdadeira conversão. Estabeleço igualmente que se possa obter a indulgência nos Santuários onde se abrir a Porta da Misericórdia e nas igrejas que tradicionalmente são identificadas como Jubilares. É importante que este momento esteja unido, em primeiro lugar, ao Sacramento da Reconciliação e à celebração da santa Eucaristia com uma reflexão sobre a misericórdia. Será necessário acompanhar estas celebrações com a profissão de fé e com a oração por mim e pelas intenções que trago no coração para o bem da Igreja e do mundo inteiro. Continue lendo

Leitor recomenda diálogo amoroso e sem preconceito com os hereges



Publicamos aqui uma carta de “Cláudio” ao site “Defesa Católica”, na qual ele condena o tom jocoso ou mesmo o uso da ironia contra os inimigos da Fé Católica. Publicamos também a resposta do Prof. Eder Silva. O Assunto é interessante e já serve como respostas aos “amorosos” que por acaso possam transitar também por aqui

Boa leitura

Pe. Marcélo Tenorio

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De Cláudio:


Caríssimos irmãos, 

 

Que a Paz de Deus habite os vossos corações. 
 
Já há alguns meses venho acompanhando o conteúdo do site Defesa Católica, gosto demais do que encontro, especialmente no que tange formação na doutrina e dogmas católicos. Acredito ser um instrumento eficaz para elucidar tudo o que ainda é obscuro na cabeça do nosso povo. Estamos vivendo tempos em que por falta de conhecimento da própria fé, os pseudo-católicos deixam a Igreja e partem para as falsas doutrinas como um meio de suprir as próprias necessidades e ilusões, deixando a religião mais confortável aos próprios interesses. 
 
Evidentemente, precisamos combater esse flagelo religioso católico e concordo que a principal arma é o conhecimento. Às vezes sinto-me em meio a uma disputa territorial, nela há um constante ir e vir de escravos (fiéis) que são adquiridos através de batalhas vencidas, como acontecia na antiguidade. A disputa é pelo número de fiés e pelo domínio da Verdade absoluta. Eu sou estudante de Teologia e graças a Deus tenho a oportunidade de ir bem a fundo nas concepções religiosas, acredito que a Igreja se preocupa sim em conquistar fiéis, mas especificamente para salvar suas almas, como nos pede nosso Senhor, porém acredito que falta de nós – incluindo-se os leigos – a preocupação de formar o povo de Deus na doutrina e especialmente na Sagrada Escritura. O povo católico é desleixado e por interpretar mal o livre arbítrio que Deus nos concedeu, trata as coisas da fé ao seu bel prazer. 
 
Sei que é necessário que sejamos duros quando falamos a verdade, mas quero registrar aqui um sentimento que sempre tenho ao ler os artigos do site: Parece-me que na maioria das vezes que as religiões protestantes são citadas, há por detrás uma cortina de fumaça, um sentimento de ódio, um certo azedume nas palavras, e convenhamos que não é sequer velado, já é bem explícito. Sendo bem franco, irmãos, acredito ser desnecessário este teor de raiva, uma vez que o Amor é o principal mandamento, é aquele mandamento que Jesus mais mostrou e pregou durante sua trajetória terrena, convivendo com as diferenças, dialogando sem preconceito e acima de tudo, amando indistintivamente. Não podemos nos esquecer jamais que São Paulo trocou a espada pela caridade, passou de perseguidor a perseguido. Também nos dias de hoje, mesmo inflamados pelo ardor da Verdade e em posse dela, precisamos ter cautela e administrar bem nosso fator emocional para não gerarmos nas pessoas falsas impressões que venham a esfumaçar “o vidro translúcido” da nossa fé.
 
Outra coisa que julgo desnecessária nos comentários postados é o desprezo e um tom de zombaria pelas novas comunidades. Como vocês, também vejo muitos exageros e situações que contrapõem o bom senso, mas também estes devem ser tratados e criticados com equilíbrio e sensatez. Primeiramente maldizer e zombar vai de encontro a própria unidade da Igreja (Muito embora, com suas práticas, algumas novas comunidades também o façam), em segundo lugar, as novas comunidades representam sim um carisma dentro da Igreja como deveras nos comunicou João Paulo II, sendo assim, trate a Igreja de podar aquilo que não é devidamente católico. Podar a árvore, não decepá-la. Compreende? Eu já acho que existem “facções” dentro da Igreja, se tratarmos situações como estas com “sangue no olho” com certeza só pioraremos o prontuário. Cabe sempre o diálogo amoroso e sincero. 
 
Enfim, já fazia algum tempo que eu desejava partilhar minhas impressões a respeito desse trabalho desenvolvido por vocês através do site, que julgo de grande valor e que acredito ser muito eficiente, especialmente levando em consideração a grande realidade cibernética do nosso século. Espero que eu tenha sido compreendido em minhas palavras, caso eu tenha falado alguma coisa que esteja em desacordo com a nossa Amada Igreja, peço desculpas, pois com certeza terá sido por algum resquício de igonorância que ainda tenho. 
 
Grande abraço em Cristo! Que Nossa Senhora seja a exelsa protetora desse Projeto evangelizador! 
 
Um abraço especial para o Eder Silva. Sou admirador de sua capacidade de contextualizar e argumentar! Você é fera!

 
 
RESPOSTA
 
 
Prezado Claudio,
Salve Maria!
 
Agradou-me o tom cordial de sua missiva.
 
Apesar das críticas ao método que por vezes utilizamos nas polêmicas contra os hereges, você exprime uma sincera busca pela verdade, apresentando-se disposto a renunciar qualquer pensamento que esteja em desacordo com o ensino da Igreja Católica.
 
O cerne de sua carta diz respeito ao amor para com o próximo. Certamente influenciado pelo pensamento corrente, triunfante nas paróquias e seminários, suas considerações sobre o assunto estabelecem uma absoluta incompatibilidade entre a virtude do amor e o ódio, como se não fosse possível, de forma alguma, odiar e amar ao mesmo tempo.
 
Por causa dessa concepção, seu discurso eleva o dialogo e a tolerância como virtudes imprescindíveis, reprovando o enérgico combate aos erros contra a fé.
 
Virtuoso seria conviver pacificamente com as diferenças, dialogando sem ódio com palavras extremamente adocicadas. Cristãos e hereges convivendo harmoniosamente sem qualquer aversão odiosa ao que professam de contrário em matéria religiosa.
 
Essa seria a suprema lei do evangelho e do amor.
 
Entenda bem, seria…
 
Mas não é!
 
Perdoe-me a franqueza, caro Claudio, mas isso não é amor cristão. É qualquer coisa, menos amor verdadeiro. Poderíamos chamá-lo de liberalismo maçônico, visto que se coaduna perfeitamente com os anseios da maçonaria de “igualdade, liberdade e fraternidade”. É essa seita que pretende produzir a nova ordem mundial, estabelecida sobre o diálogo fraterno e a união entre todas as religiões. De mãos dadas, todos cantariam um dogma comum, isto é, a renúncia de todo dogma pelo triunfo da “paz”, da qual a ONU seria a grande arquiteta. Nessa nova civilização do amor, edificada sobre o culto do homem, não haveria uma única religião verdadeira fundada por Nosso Senhor. Todas as religiões seriam boas e necessárias. Cristo, Buda e Maomé, igualmente venerados. Mentira e verdade niveladas. Nem Cristo, e muito menos a Igreja Católica, poderiam se arrogar o privilégio de únicos detentores da verdade.
 
Em suma, todas as seitas teriam parcelas de verdade. O diálogo ecumênico, com toda a sua tolerância, docilidade e ausência de ódio, seria o método para promover a reunião dessas “verdades” dispersas em seitas, em uma única religião ecumênica e universal.
 
Essa é razão pela qual hoje em dia se busca conviver com as diferenças, dialogando sem preconceito. No fundo, querem dizer que em qualquer seita existe esperança de salvação. Assim como a Igreja Católica, as demais religiões também proporcionariam a bem-aventurança do Céu. Deste modo, não haveria motivo para discutir em defesa de uma religião. Seria preciso então trocar a espada do combate intolerante pelo amor fraterno e pagão da maçonaria.
 
Como você me conta que é estudante de teologia, penso que seja de seu conhecimento a doutrina da Igreja sobre a eterna salvação das almas.
 
Que fora da Igreja Católica não existe possibilidade de salvação é dogma da Igreja proclamado pelo IV Concílio infalível de Latrão.
 
Ademais, o próprio Credo da Igreja descarta a esperança de salvação para aqueles que partem desta vida sem terem guardado integralmente a fé católica:
 
“Esta é a fé católica, e quem não a professar fiel e firmemente não se poderá salvar” (Credo de Santo Atanásio)
 
Sob a luz desse dogma, como poderíamos conviver respeitando as diferenças que ofendem a Deus e precipitam as almas no inferno? Cristo não veio promover o reino da tolerância, do respeito a toda e qualquer diferença ou do diálogo relativista e ecumênico. Inflamado de zelo pela verdade, Nosso Senhor ensinou em várias ocasiões que o mal deve ser odiado, denunciado e, quando possível, extirpado. 
 
Amorosamente, Nosso Senhor pregou a intolerância, o ódio e o combate às diferenças que se opõem as verdades da fé. Ele não dialogou com os fariseus. Não os tratou com palavras suaves. Chamou-os publicamente de “cobras, filhos do diabo, sepulcros caiados, guias cegos, hipócritas, raça de víboras, etc.”. Contra os vendilhões que profanavam o Templo, reagiu com justa cólera, expulsando-os com “suaves” e “desrespeitosas” chicotadas.   
 
Que diriam os ecumênicos? Que Nosso Senhor exagerou no azedume das palavras, deixando o sentimento de ódio prevalecer sobre o amor? Que sua raiva contra os fariseus e os profanadores do Templo foi desnecessária e preconceituosa? Segundo as diretrizes ecumênicas, Cristo teria sido um péssimo modelo para os cristãos.
 
Os ecumênicos buscam a união pela paz.
 
Nosso Senhor trouxe a divisão pela espada:
 
“Não julgueis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra” (Mt. X, 34-35).
 
Como essas palavras devem ofendem os corações ecumenistas!
 
Contra a trindade do amor: “diálogo, tolerância e paz”, Nosso Senhor contrapõe com “guerra, espada e divisão”.
 
Por amor, Cristo trouxe a espada a este mundo.
 
Por amor, São Paulo se armou com a espada do Evangelho.
 
Por amor, São Pedro tinha duas espadas.
 
Por amor, todos devem “comprar uma espada”:
 
“… e aquele que não tiver uma espada, venda sua capapara comprar uma” (São Lucas XXII,36).
 
Ou seja: Nosso Senhor quer católicos combatentes. Que saibam manusear a espada da verdade. Que queiram sofrer e, se necessário, morrer por sua Causa. Se Deus quisesse o convívio respeitador das diferenças, Ele não teria sido brutalmente assassinado numa Cruz.
 
Mas Ele morreu. Por vontade própria se entregou aos seus algozes. Por amor subiu ao calvário de seu martírio. Por uma lança foi transpassado.
 
Sofreu e morreu.
 
Ele não dialogou.
Ele não tolerou.
Ele não respeitou as diferenças.
 
Ele ensinou.
Atacou intolerantemente os pecados e a seita dos fariseus.   
Amou a verdade e odiou a mentira.
 
E pela violência do calvário, Cristo nos trouxe a paz da salvação.
 
A paz provém da justiça. E a justiça consiste em dar a cada um o que merece.
 
A verdadeira paz não será alcançada com diálogo e respeito às diferenças. Como disse uma santa guerreira (Joana D’arc), “a paz só será alcançada pela ponta de uma lança”.
 
Sem guerra não haverá paz…
 
Nesse mundo existe uma batalha espiritual entre Deus e o diabo. E cabe a nós, caro Claudio, escolher por quem lutar.
 
Não há trégua.
 
O demônio não dorme.
 
Como um leão faminto, persegue suas vítimas até lançá-las na perdição eterna.
 
Infelizmente os pastores trocaram a espada pelo dialogo. A verdade imutável pelos delírios da modernidad
e. O ensino do Catecismo foi abandonado quando não destruído pelo relativismo moderno. A apologética censurada pela intolerância dos defensores da tolerância.
 
Dir-me-á você que o Clero seguiu o exemplo de São Paulo, que abandou a espada pela caridade. Oxalá a caridade deste Apóstolo fosse o atual modelo de caridade.
 
Conhece você as palavras antiecumenicas desse Apóstolo de Cristo? Segue o texto paulino:
 
“Com efeito, há muitos insubmissos, charlatães e sedutores, principalmente entre os da circuncisão. É necessário tapar-lhes a boca (…) repreende-os severamente, para que se mantenham sãos na fé” (Tito 1, 10-13).
 
Mandar fechar a boca de alguém com repreensões severas não nos parece uma postura favorável ao convívio das diferenças e ao diálogo sem preconceito.
 
Parece então que o azedume nas palavras pode ser necessário na polêmica contra os hereges.
 
Em todo caso, nossas respostas são bem suaves se comparadas com os termos que os santos utilizaram em suas discussões com os hereges.
 
São Bernardo, por exemplo, chamou o herege Arnaldo de Brescia caridosamente de:
 
“Desordenado, vagabundo, impostor, vaso de ignomínia, escorpião vomitado de Brescia, visto com horror em Roma, com abominação na Alemanha, desdenhado pelo Romano Pontífice, louvado pelo diabo, obreiro de iniquidades, devorador do povo, boca cheia de maldição, semeador de discórdias, fabricador de cismas, lobo feroz”.
 
Santo Inácio de Antioquia designava os hereges com os seguintes termos:
 
“bestas ferozes, cães danados que atacam traiçoeiramente, bestas com rostos de homens, ervas do diabo, plantas destinadas ao fogo eterno”.
 
Esses são alguns modelos de santidade que devemos com esforço procurar imitar.  
 
Assim como a violência nas palavras, a humilhação dos inimigos da fé também pode ser caridosa se aplicada com as devidas proporções.
 
Em seu livro Filotéia (Capítulo XXVIII) São Francisco de Sales ensina que:
[
“Os inimigos declarados de Deus e da Igreja devem ser difamados tanto quanto se possa, desde que não se falte à verdade, sendo obra de caridade gritar ‘eis o lobo!’ quando está entre o rebanho ou em qualquer lugar onde seja encontrado”.
 
Na Ladainha de todos os santos rogamos a Deus para que os inimigos da Igreja sejam humilhados: “Para que vos digneis humilhar os inimigos da Santa Igreja, nós Te rogamos, ó Senhor”.
 
Na Sagrada Escritura, temos muitos outros exemplos de que a humilhação do herege não contraria a lei do amor.
 
Santo Elias, que desafiou os seguidores do ídolo baal, zombou deles com as seguintes ironias:
 
“Elias escarnecia-os, dizendo: Gritai mais alto, porque ele é um deus, e talvez esteja falando em alguma estalagem, ou dorme, ou necessita que o acordem.” (I Reis XVIII 27).
 
Ironia e zombaria nas palavras de um grande Santo.
 
E Deus aprovou o seu ato!
 
Contra o diálogo!
Contra o respeito aos hereges!
 
A própria Sabedoria de Deus diz zombar dos nãos cristãos: “Mas vós, Senhor, vos rides deles, zombais de todos os pagãos” (Salmos LVIII, 9).
 
Aplicada convenientemente, Deus não reprova a ridicularizarão dos maus.
 
A raiva e o ódio, caro Claudio, também são necessários. Quem ama o bem, inevitavelmente odeia o mal. Quem ama a verdade, obrigatoriamente odeia a mentira. Todo amor a um bem produz ódio ao que é oposto a esse bem. Se amamos a Deus, odiamos tudo que se opõe a Ele. E é pelo grau de ódio que se mede o grau de amor. Quanto mais odiamos o pecado mais demonstramos amor a virtude.
 
Resumindo: não existe amor sem ódio!
 
Como diz um ditado: “Quem ama detesta. Quem detesta combate”.
 
Ensina-nos Deus em seus Provérbios: “A minha boca publicará a verdade, e meus lábios detestarão o ímpio” (Provérbios,VII, 7).
 
E foi o próprio Deus que introduziu o ódio entre os filhos da luz e os filhos das trevas: “Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela” (Gênesis 3,15).
 
Portanto, o sentimento de ódio, quando produzido por amor a Deus, é virtude!
 
Por isso declarou o Santo Rei Davi:
 
“Porventura não odiei eu, Senhor, os que te odiavam? E não me consumia, por causa dos teus inimigos? Com ódioperfeito eu os odiei; e eles tornaram-se meus inimigos” (Salmo 139, 20-21).
 
Esse ódio perfeito consiste em odiar os pecados de alguém, procurando combatê-los no intuito de conduzir o pecador ao arrependimento e à salvação eterna.  
 
E se, por vezes, a raiva aparece em nossas cartas, é por uma causa justa. Ora, assim como reagimos com força e irritação contra os que ofendem nossa Mãe, assim também nos irritamos e atacamos com energia os que ofendem a Igreja e a Mãe de Deus.
 
Fazemos segundo nos ensinou São Paulo: “Mesmo em cólera, não pequeis” (Efésios IV, 26).
 
Irritar sem pecar. Logo, existe uma raiva santa!
 
Citando São Gregório Magno, diz Santo Tomás de Aquino: “… deve procurar-se a todo custo que a ira, considerada como instrumento da virtude, não prevaleça sobre a inteligência indo adiante como uma senhora, mas que, como uma escrava disposta a obedecer, nunca deixe de ir atrás da razão” (Suma Teológica Parte II-II, Q. 158, Art. 1).
 
Essas palavras do Aquinate encerram a questão.
 
Para finalizar, ressalto duas contradições em sua missiva. E espero que não entenda isso como desprezo ou zombaria. Faço por caridade. Porque o verdadeiro amor sobrenatural consiste em corrigir os erros do próximo ensinando a verdade.
 
De modo preconceituoso, isto é, sem apresentar os fundamentos, você me garantiu que Cristo optou por conviver com as diferenças de seu tempo.
 
Ora, caro Claudio, se devemos conviver com as diferenças e não censurá-las, por que você não procurou aceitar e conviver tolerantemente com nossas intolerantes diferenças? Por que resolveu atacar o nosso modo de tratar os hereges, simplesmente porque difere do seu método ecumênico respeitador das diferenças? Veja que seu princípio é contraditório, pois, para ser coerente, até mesmo os que não respeitam as diferentes deveriam ser respeitados em suas diferenças.
 
Depois você me diz: “… trate a Igreja de podar aquilo que não é devidamente católico”.
 
Ora, podar o que não é católico não condiz com o preceito de respeito às diferenças. Ou se convive com elas ou se as poda. As duas coisas são impossíveis.
 
Podar o que não é católico é justamente o que fazemos.
 
Por que então nos censura?
 
Mas você objeta: “podar e não decepar a árvore”.
 
Meu caro, o problema da árvore protestante da Renovação Carismática, a qual você se refere, está na raiz. Por isso não adianta podar os galhos se o mal está na origem. O câncer carismático deve ser extirpado e não podado. 
 
Diz São João Batista: “Já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada ao fogo” (S. Mateus III, 10).
 
Ora, a RCC é uma árvore má que não pode produzir bons frutos. Logo, deve ser cortada e lançada no fogo.
 
Que Nossa Senhora te ajude a compreender e a aceitar essas verdades.
 
Escreva-nos sempre que quiser.
 
 
In Corde Jesu, semper
Eder Silva

CARTA ABERTA A TODOS OS TRADICIONAIS

Carta aberta a todos os católicos tradicionais 

                                                               
Caríssimos irmãos:

A graça do Espírito Santo esteja em vossas almas!


Entrando, com a Igreja, neste tríduo Pascal, na solene celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, elevemos nossas preces pela Santa Igreja de Deus! Cristo amou a Igreja e se entregou por Ela! (Ef. 5,25) A Igreja é o amor do Coração de Jesus. Neste dia, amando-nos até o fim (Jo 13), Nosso Senhor instituiu a eucaristia e o sacerdócio. No cenáculo, dotou a sua Igreja de toda a economia da salvação, consumando esta promessa na abundância do derramamento do seu sangue que começou a escorrer logo em seguida no horto das oliveiras. Factus obediens usque ad mortem. (Fil. 2) Obedeceu ao Pai e agora Ele é autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem. (Hb. 5,9) A obediência à vontade de Deus é o único meio seguro de salvação. Esta é a verdadeira teologia da Cruz, na qual depende toda a teologia. Só nela há vida e ressurreição! (Gal. 6,11) Ave Crux, Spes Única!
 Nestes últimos tempos, enfrentei duras tribulações que procurei viver em união com os sofrimentos de Nosso Senhor… Mas tive o consolo de sofrer pela Igreja. “Com efeito, à medida que em nós crescem os sofrimentos de Cristo, crescem também por Cristo as nossas consolações.” (II Cor. 1,5) Vemos claramente, como seu corpo místico, a Igreja está sangrando (Mc 5,25), despedaçada sobre a cruz da apostasia. Fiquei estarrecido com os ataques em tom de extremo desrespeito e arrogância que recebi, desde que questionei a atitude do Padre Leonardo. Meu nome foi largamente ridicularizado nas arenas virtuais dos zombadores. Percebi que há muita gente de péssimo nível, que se arroga o direito de ensinar a santa doutrina católica usando palavras de baixo calão… “qui exacuérunt ut gladium línguas suas”  (Ps 63) Isto, com certeza, não é o que Mons. Lefebvre ou Dom Antônio preconizavam! Parece estar surgindo uma geração de gente desequilibrada e mal formada que se aproveita da crise da Igreja como ocasião para suprir suas frustrações pessoais… Alguém chegou a escrever assim: “que ele fique com o Papa e fique com sua Igrejinha!” Outro chegou a dizer: “este fradezinho que vá estudar e veja que não se pode confiar nesta falsa Igreja (!) Outra argumentou: “não podemos mais permanecer na Igreja Oficial!” Outro também disse: “Eu vou obedecer a Fraternidade pois ela é a única igreja verdadeira que nos restou” (!) Além destas “pérolas” tenho arquivadas outras tantas que por questão de ética não se convém comentar… Tais afirmações podem não traduzir a posição oficial da FSSPX, mas mostra um espírito que, infelizmente está infiltrado nela, pois vêm de leigos que são formados nos ambientes dela… Pessoas fanáticas, guiadas pelas paixões e não pelo verdadeiro amor de Cristo! Quiseram me intimidar com uma mensagem que o Padre Daniel Maret nega ter enviado… Ontem pela manhã, recebi uma ligação dele que, numa voz conciliadora, me pedia desculpas pelos atropelos e reafirmava não ter enviado a tal mensagem. Acreditei nele e nos despedimos em tom de concórdia. Entretanto, quando ele publicou no site da Fraternidade a nota de esclarecimento, espantei-me com a afirmação de eu concordava plenamente com os termos do comunidado. Porém, isso não reflete o meu pensamento. O fato é que alguém enviou tal mensagem em nome dele… Porém não creio que alguém da Associação Cultural Montfort  tenha tido interesse em fazer isso só para criar animosidades. Até porque a intenção clara de quem escreveu foi de que eu me retratasse… Comento estas coisas para estabelecer a gravidade da situação e, assim, possamos chegar no argumento principal que tenho defendido: NÃO SE PODE REFORMAR A IGREJA FORA DELA! A estratégia do demônio agora é usar os próprios “tradicionalistas” para destruir o Papa e a verdadeira tradição… Espero poder prosseguir estes argumentos, sem precisar sofrer intimidações… Afirmo estar movido unicamente por zelo pela Santa Igreja Católica!


A intenção de Nosso Senhor em fundar a Igreja


Se escrevo é com a intenção de dar aos simples o discernimento (Prov. 1,4) já que a eles aprouve ao Pai revelar os segredos de seu Reino. (Mt 11,26) Sabemos que muitas pessoas bem intencionadas, levados por palavras sedutoras (I Pe. 2,3), acabaram se desviando da verdadeira tradição! Em vista da crise gravíssima que se alastra pela Igreja, muitos estão concluindo que: Não é mais possível permanecer na “Igreja Oficial”, temos que buscar a nossa “Igreja perfeita”. Esta frase, humanamente correta e muito prudente é, no entanto, perigosa e intrinsecamente má. Esta confusão deu origem a diversos gêneros de cismas e heresias na história do cristianismo. Os primeiros “tradicionalistas” que se levantaram contra a autoridade dos Apóstolos são conhecidos hoje como judaizantes. Pregavam que se podia ser cristão, desde que não se deixasse de observar as tradições judaicas, como a circuncisão, tão antigas e veneráveis, mas dispensadas pelo magistério da Igreja no primeiro concílio em Jerusalém. Gostavam de confundir a mente das pessoas com sérias crises de consciência para os que não os seguissem.  Também surgiram muitas seitas gnósticas que desprezavam os outros com a idéia de serem cristãos mais evoluídos. Surgiram também outros como os montanistas de Tertuliano que julgavam o Papa e o clero e tinham a certeza de que só eles eram perfeitos e iam se salvar. Mais modernamente, o movimento protestante teve a sua raiz numa mesma pretensão de se julgar mais perfeito que a própria Igreja, com seus pecados, seus abusos e suas riquezas… Assim também foi a índole dos jansenistas e muitos outros mais… Percebemos, portanto, que não é nova a tática do demônio de formar uma igreja paralela, muito mais perfeita no cumprimento das leis morais ou da doutrina, que faça uma competição com a Igreja oficial, como eles sempre costumam dizer. Eis o grande perigo que se encontra nos argumentos de alguém que fala da Igreja como quem está fora e não dentro. Cabe aqui citar alguns trechos da belíssima encíclica de Leão XIII, Satis cognitum: “A Igreja pelo fim último e pelas causas que nela produzem a santidade é espiritual, mas se se contemplam os membros que se compõe e os meios que conduzem aos dons espirituais é exterior e necessariamente visível. Por ser corpo, a Igreja é visível aos olhos… segue-se daí que andam em grande e pernicioso erro aqueles que imaginam uma Igreja a seu gosto e a representam como oculta e de nenhum modo visível… Quando Nosso Senhor Jesus Cristo fala deste edifício místico, somente menciona uma única Igreja, à qual chama sua: “edificarei a minha Igreja” (Mt. 16,18) Qualquer outra que se imagine fora desta, como não foi fundada por Jesus Cristo, não pode ser a a verdadeira Igreja de Cristo… segundo a vontade do seu autor, é necessário que ela seja única para toda terra em toda a duração dos tempos… Para se conservar na unidade da Igreja, se requer, necessariamente a unidade da fé e se requer a unidade de governo em que se realiza a comunhão… A Igreja de Cristo é, portanto, única e perene: quem se separa dela aparta-se da vontade e do preceito de Cristo e, deixando o caminho da salvação, caminha para a perdição.” Consideremos esta doutrina que nos esclarece que há duas formas de se afastar da Igreja: seja perdendo a fé (modernistas), seja se mantendo fora desta unidade de governo – hierarquia legitimamente constituída. Ambos estão fora dela. É preciso também considerar que o ato fundante da Igreja foi acompanhado de uma promessa: “portae inferi non praevalebunt adversum eam”  Nosso Senhor teve a intenção de fundar esta Igreja visível e institucional e nos garantiu, por esta solene promessa que poderíamos ter confiança de que esta barca nunca irá afundar, (Mc 4,37) apesar das ondas e turbulências internas e externas… O que tais pessoas não entenderam ainda, em sua presunção molinista é que quem salva a Igreja é Deus! “Sine me nihil potestis facere”! (Jo 15,5) Nada, mas nada mesmo!!! Confiam tanto em suas palavras, mas não têm vida da graça e, portanto, não produzem fruto… e nem podem ter, pois o ramo que não permanece na videira não pode dar fruto! (Jo 15,4). Nosso Senhor Jesus Cristo não somente fundou a Igreja, mas a fez sair do seu santo lado aberto (Jo 19, 34) Esta expressão muito cara aos Padres e Santos doutores, nos lembra que a Igreja é um dom, não é algo que nós construímos com nossas forças e virtudes humanas, mas uma manifestação da graça de Deus, ou, mais propriamente, uma conquista do Senhor na sua paixão.

O Bem-aventurado Papa Pio IX expressou de forma muito clara que: “ninguém pode contestar ou duvidar que o próprio Cristo Jesus, para aplicar a todas as gerações humanas os frutos de sua redenção, tenha edificado aqui na terra, sobre Pedro, a sua única Igreja, isto é, a una, santa, católica, apostólica e que lhe conferiu todo o poder necessário para que seja guardado íntegro e inviolado o depósito da fé e que esta fé seja transmitida a todos os povos e nações para que todos os homens sejam unidos ao seu corpo místico e para que a mesma Igreja que constitui seu Corpo Místico persista na sua própria natureza sempre estável e firme até a consumação dos séculos… Todas as sociedades que estão visívelmente separadas da unidade católica estão desprovidas daquela autoridade viva e constituída por Deus e sempre sujeitas a mudanças e instabilidade… não podendo, seus membros estar seguros de sua própria salvação.” (Carta Apostólica Iam vos omnes)


A missão de Pedro na Igreja


Nós, porém, apegando-nos à tradição recebida desde o início da fé cristã, sustentamos que a figura de Pedro subsiste na figura do Papa. Podemos meditar neste testemunho registrado na terceira sessão do Concílio de Éfeso: “Ninguém duvida que o santo e beatíssimo Pedro, príncipe e chefe dos Apóstolos recebeu de nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador e Redentor do gênero humano as chaves do Reino; e ele, até agora e sempre, em seus sucessores, os bispos da Sé Romana, por ele fundada e consagrada com seu sangue, vive  e preside e exerce o juízo. (11 de julho de 431) Notemos a expressão: “nos seus sucessores Pedro vive!” E muito precisamente entendemos que “o Romano Pontífice é o sucessor do bem-aventurado Pedro, príncipe dos Apóstolos, verdadeiro vigário de Cristo, cabeça de toda a Igreja, pai e doutor dos cristãos e Nosso Senhor Jesus Cristo transmitiu a ele, na pessoa do bem-aventurado Pedro, o pleno poder de apascentar, reger e governar a Igreja Universal.” (Bula lætentur Cæli 6 jul. 1439) Como ensinou o Bem-aventurado Papa Pio IX: “o Romano Pontífice, sucessor de Pedro possui o primado sobre todo o mundo, é autêntico vigário de Cristo e cabeça de toda a Igreja, pai e doutor de todos os cristãos. Não há como se manter na profissão de fé católica, quando não se conserva em comunhão e obediência ao Romano Pontífice.” (Encíclica Nostis et nobiscum) Estas são palavras eternas. Devemos entender o sentido desta referência de Pedro no evangelho como um desejo de Deus de sublinhar a dimensão da autoridade como antídoto contra o veneno do orgulho que tão sutilmente pode ser introduzido em nossa alma pela serpente soberba que é incapaz de obedecer. (Jer. 2,31) Assim, quando Nosso Senhor ressuscitou, não disse à Madalena: agora vamos constituir outra hierarquia porque Pedro me negou três vezes, mas o confirmou nesta missão de Príncipe dos Apóstolos (Jo 21, 15-17) Sem dúvida que o grande alvo do demônio é o Papa e não há estratégia mais perfeita para destruir a Igreja de Cristo que “desmistificar” e desautorizar o Papa. Infelizmente muitos destes “nossos amigos” não percebem isto e desejam colaborar neste plano de ferir o Papado de morte!


O magistério de Pedro


Enfim, para que o povo não seja levado “para lá e para cá por qualquer vento de doutrina” (Ef. 4, 14), Nosso Senhor Jesus Cristo estabeleceu o Magistério da Igreja, conferindo-lhe sua própria autoridade: Quem vos ouve, a mim ouve! (Lc 16,10) Se Ele não garantisse a Igreja desta capacidade, estaríamos induzidos ao erro pelo próprio Deus, o que é absurdo… “Senhor, se é um erro, é por ti que fomos enganados”. (Ricardo de São Vítor, De Trinitate I 2.) Mas, prevendo a instabilidade humana, o Senhor quis confirmar a graça do Magistério. Acreditar nisto, é ser católico de verdade! Mais do que isto devemos ter a certeza de que nunca se destruirá o verdadeiro depósito da fé. Como afirma o Concílio de Trento: “o Símbolo da fé em uso na santa Igreja Romana, é o princípio no qual todos os que professam a fé em Cristo convergem necessariamente e é o único fundamento sólido, contra o qual as portas do inferno não prevalecerão.” (3ª sessão) Talvez poucos entendam o alcance da promessa de Cristo: Non prævalebunt. Isto quer dizer que por mais que vejamos erros, abusos, relativismos, há uma fé objetiva cuja força não pode ser abalada por nenhuma potência deste mundo! E esta é a força da Igreja! Porém, nos nossos dias surgem certos talentos petulantes que ousam interpretar livremente o magistério da Igreja e, sem saber o que dizem, anatematizam o Papa e se auto- proclamam doutores infalíveis. Assim também na História surgiram muitos, principalmente nas épocas em que os Papas não eram tão virtuosos… João Wyclif, um dos pais dos protestantes, afirmava que o Papa era mau e devia ser censurado e que a Igreja Romana era a Sinagoga de Satanás e a própria Babilônia descrita nos profetas, sendo necessário sair dela para estar no favor de Deus. Outro filho da perdição, João Hus, afirmava que Pedro não foi e não é a cabeça da santa Igreja Católica, e que o Papa é o vigário de Judas Iscariotes. E daí muitos outros, como denunciava o Papa Gregório XVI: “não faltaram todavia, os sectários da nova escola de Jânsenio, que recopiaram as palavras dos luteranos e não temeram criticar a prudência da Sé Apostólica.” (Inter Præcipuas) Entretanto, sabemos que a Sé de São Pedro permanecerá sempre intacta de todo erro, segundo a divina promessa de nosso Salvador feita ao Príncipe dos seus discípulos: “eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça; e tu uma vez convertido, confirma teus irmãos” (Lc 22,32).


Seguir Pedro ou seguir Cristo?


Ao afirmar tais coisas, alguns, mais treinados nas disputas, já se levantariam logo a dizer: se é assim, como explicar este estado calamitoso da Igreja de hoje!? Ora, refutar tal argumento é muito simples: o que estamos vendo na Igreja de nossos dias é uma atitude de rebeldia e desobediência generalizada e sem precedentes, causada pelo abandono da linguagem objetiva, racional e precisa da fé. Assumiram uma linguagem dúbia, imprecisa e permeada de humanismo, denunciada já pelo Apóstolo como “sabedoria humana” (I Cor. 1,21) Isto seria o fim da Igreja Católica? Não. É apenas um castigo necessário, pois como vimos pela citação do Concílio de Trento, nada, nem mesmo tamanha revolução dentro da Igreja pode destruir o poder do dogma da fé. O que muitas pessoas confundem, sendo causa de muito prejuízo, é o fato de que reconhecer o ministério de Pedro não significa confiar em Pedro. Pois não se deve confiar em nenhum ser-humano (Jer 17,5) já que só Deus é bom. (Mc 10,18) Somente pela graça de Deus é que alguém pode permanecer no bem, por isso é que devemos rezar muito pelo Papa! Não é nele que depositamos nossa esperança, mas unicamente em Nosso Senhor Jesus Cristo. É Ele próprio que governa sua Igreja e que dispõe em sua providência todas as coisas, para nosso consolo e para nosso castigo. Não nos cabe questionar os desígnios de Deus… Nenhum Papa e nenhum Bispo tem poder para dissolver os artigos de fé ou os dogmas já definidos na Religião. Nem podem inventar uma nova doutrina. Como ensina o Concílio Vaticano I: O Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de Pedro para que, por revelação sua, manifestassem uma nova doutrina, mas para que, com sua assistência, conservassem santamente e expusessem fielmente a revelação transmitida pelos Apóstolos, ou seja, o depósito da fé (Pastor æternus). Baseados nestes ensinamentos, podemos ter toda tranqüilidade de nos mantermos unidos ao Papa, pois, esta é a verdadeira garantia de aderirmos ao magistério de todos os Papas da história, a quem o Papa atual deve inteira obediência, já que sua função não é outra senão garantir a autoridade do que já se assentou nesta mesma edificação, cujo alicerce é o próprio Cristo. Todas as vezes que o Papa não cumpre este seu papel, não somos obrigados a segui-lo, pois, como afirmamos, não seguimos Pedro, mas Cristo e se Pedro vai atrás de Cristo, obviamente estamos indo com ele, se não vai, apenas esperamos que ele perceba e, chorando amargamente, retome o Caminho, sem, porém, nunca deixar de ser Pedro. Neste sentido, entendemos porque foi do desígnio de Deus que o chefe dos Apóstolos não fosse um homem brilhante e imune de fraquezas e erros.


A verdadeira causa da crise


Devemos notar, sob pena de não ir a fundo na questão, que a verdadeira causa da crise da Igreja são os próprios pecados do povo cristão! Isto é o que nenhum destes “teólogos” percebeu… O Beato Francisco Palau, carmelita eremita, em meados do século XIX, no silêncio da sua cela, escondido em profunda intercessão pela Igreja, que já enfrentava grandes batalhas, teve conhecimento dos bastidores de todos estas terríveis aflições: “Formam, por fim, o cume da montanha, os pecados de heresia, de apostasia, e de toda a espécie de impiedade. E no cume estão colocados os pecados daqueles que com um punhal na mão, vomitando blasfêmias contra o Onipotente, e apertando a espuma de seu ódio, furor e raiva contra todo o sagrado, estão jurando que o cravariam, se pudessem, no Coração de nosso adorável Redentor Jesus, e o afiam contra o Coração de sua Igreja e de seus Sacerdotes. Outras vezes, o mistério da iniqüidade se me apresenta como um mar tumultuoso que, rompendo os diques, inunda todo o mundo e arrebata com fúria a todos com exceção de um pequeno número, que puderam se salvar na navezinha de Pedro, porém que estão em grande risco de afundar-se ou de chocar-se com algum escolho ou penhasco, se não cuidam logo de despertar a Jesus, que está dormindo, para que mande aos ventos e acalme a tempestade [Mt 8, 23-27; Lc 8, 22-25]. Diante da montanha de iniqüidade que fabricaram com seus pecados, e o mar de crimes em que vive afogado o povo, não é um grande clamor que desperta a ira do Senhor Deus das vinganças? Vê como o povo pecou e peca… aí está, pois, a causa dos males que lhe oprimem e lhe oprimirão. Com seus pecados, como já lhe fiz observar, perde o povo o direito à glória de possuir a Religião. Por isso, tem dado Deus permissão aos demônios para que, como instrumentos de sua justiça, subam do inferno, cubram com as trevas do erro a pobre humanidade, formem e organizem seitas de impiedade e com elas lhe arrebatem a fé católica. O povo pecou… aí tens a causa porque se está ficando sem Religião, e, por conseguinte, sem sacerdotes, sem solenidades, sem templos, sem Deus e abandonado aos caprichos das seitas de impiedade, que, para zombarem mais dEle, fazem celebrar com grande pompa as funções da Semana Santa, enquanto o clero está nas agonias da morte pela espantosa miséria em que se encontra. Quantas vezes, ó cegueira!, Nos sentimos cheios de indignação contra os que consideramos como causas primarias de tanto estrago. Ímpios! Lhes dizemos cheios de uma cólera que acreditamos ser santa, ímpios! Mais que ímpios! Satanases! Querem arrebatar a Igreja! Querem roubar-nos o único consolo nosso, a Religião de nossos pais! Desalmados! Queimaram-nos as Igrejas e os Conventos! Nem mesmo vendo, conseguimos acreditar que haja no mundo homens tão perversos.. Porém uma alma verdadeiramente ilustrada pela Luz do Espírito Santo, pensa e diz o mesmo, ainda que de modo bem distinto. Não se irrita contra eles, antes lhes tem compaixão, e os olha como homens, por sua culpa e orgulho, abandonados por Deus e que estão à disposição do inferno para que, por eles, sejamos castigados no plano espiritual por causa de nossos próprios pecados.” (Luta da alma com Deus – 2ª Conferência, nº 12, 13, 14). Nisto se comprova que não são os ímpios modernistas ou protestantes ou judeus a causa da destruição, mas os pecados do povo cristão! Lembremo-nos que não lutamos contra homens de carne e sangue, mas contra os Principados e Potestades! (Ef. 6)

A graça do Motu Proprio


Enfim, apesar de tantos insucessos pastorais e de tanta desorientação reinante, vemos a impressionante e misteriosa ação de Deus acontecendo na nossa história. A meu ver, o Pontificado de Bento XVI já está registrado como uma reviravolta destes fatos penosos que recaíram sobre a Igreja nos últimos 50 anos, que, aliás, não foram senão um resultado do trabalho sutil que se realizou desde o Renascimento. Podemos visualizar claramente um duplo golpe que o Magistério do atual Pontífice lançou sobre este mistério da iniqüidade. (II Tes. 2,7) Como as pequenas pedras que Davi usou para vencer o gigante, o Santo Padre, com pequenas afirmações, já nos deu todo o recurso para fazer desabar o inimigo aterrador. A primeira, num famoso discurso à Cúria Romana em que se consagrou a expressão: “hermenêutica da continuidade”. Ora, a força do Concílio era justamente a autorização para a descontinuidade. Quando o Papa falou nestes termos, brilhou o Espírito Santo, anulando toda treva do erro que está contido em qualquer ensinamento que não mantém a mesma linha da doutrina tradicional da Igreja. Isto já foi o fim do fantasma Vaticano II, entendido como ruptura ou Igreja nova que já podemos sepultar de vez… Outro golpe de mestre foi, sem dúvida o Motu Proprio Summorum Pontificum (vejamos que nome significativo!) Afirmar que o “Rito da Missa de São Pio V nunca foi abolido” significou dizer: toda esta reforma litúrgica não foi capaz de se impor como verdadeira liturgia católica. De fato, muitas liturgias antigas foram superadas por reformas e nunca mais ressurgiram! Restaurar oficialmente o chamado “Rito Extraordinário” foi um fato inédito que reconheceu que o novo rito não deu certo. De fato, o Papa surpreendeu a muitos que foram formados na mentalidade de que o novus ordo teria substituído para sempre a missa antiga, por isso tanto ódio ao Motu Proprio. Não tenho receio em afirmar que isso significou um golpe mortal no esquema litúrgico produzido nos escritórios do Concilium. É só questão de tempo… No sonho do Rei que Daniel interpretou, havia uma enorme estátua de cabeça de ouro, peito de prata, ventre de bronze, pernas de ferro e pés de barro. Uma pequena pedra (a missa de sempre) se deslocou da montanha (Pedro), sem mão de homem (pois esta missa não foi feita por mão de homem) e batendo nos pés de barro (a geração atual) fez toda a estátua (modernismo) se reduzir a migalhas sem deixar sinal algum. (Dn. 2, 31-35) Esta estátua é o ídolo que o homem colocou para ser adorado na Igreja. O culto ao próprio homem, que é a essência do Vaticano II. A abominação da desolação! (Mt. 24, 15) Teve, no entanto, um fim muito dramático: cada geração foi perdendo a força, representada pelos materiais, até que veio esta pedrinha (a missa verdadeira) para destruir esta idolatria e restituir o verdadeiro culto a Deus realizado pela sua Igreja. 

Conclusão


Concluindo esta exortação, volto a afirmar que todo este debate teve início quando decidi me levantar contra o argumento do Pe. Leonardo de que era necessário abandonar sua Arquidiocese, desconsiderando as propostas que já lhe tinham sido feitas em prol da Missa Tridentina, para se manter fiel a Deus. Com isto eu jamais concordarei! E, em vista da fragilidade e da orfandade em que os fiéis católicos se encontram, julguei por bem, contar a experiência negativa que tive com a Fraternidade. Agora, a questão não é saber quem foi o desafortunado que mandou tal e-mail, mas saber o que significa ser católico para a FSSPX! As gravíssimas indagações feitas pelo Professor Alberto Zucchi permanecem sem resposta… Gostaríamos de saber qual é a doutrina que a FSSPX professa hoje. Seria muito importante que adotassem uma postura mais coerente, pois, está prescrito: seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não. (Mt. 5,37) Com estes argumentos, provamos, pelo Magistério e pela Sagrada Escritura que quem se desvia desta Tradição e rompe, ainda que veladamente, com a unidade formal com o sucessor de Pedro, está fora da Igreja e corre o risco de perder a salvação. No entanto, por mais argumentos que possamos dar, vemos que isto não se pode entender somente pela inteligência, mas é uma graça que precisa ser dada pelo alto. (Jo 6,65) Tenho zelo também pela salvação deles, pois, acredito que se acabarem se acomodando com este confortável sede-vacantismo prático cada vez se afundarão mais. Acredito que o mínimo que se deve esperar de católicos que se dizem fiéis à tradição é coerência, probidade e respeito… Deixemos para trás as discórdias e partidos que são obras da carne (Gal. 5,20) bem como os rancores e ódios, pois tudo agora é novo (II Cor. 5,17). A questão agora é saber quem realmente está disposto a carregar a cruz (Mt 16,24) com a Igreja e pela Igreja. Esperamos que a FSSPX, juntamente com seus fiéis adotem uma postura de respeito e consideração por todos os sacerdotes, religiosos e leigos que também lutam pela tradição, permanecendo dentro de seus muros, não rompendo a túnica inconsútil do Cristo Senhor. Que os sentimentos de Cristo permaneçam em nós, a fim de que revivendo na liturgia a Paixão do Senhor, completemos em nossa carne o que falta à paixão da Igreja. (Col 1, 24) E assim, possamos ser dignos de participar da glória da Ressurreição!


Mosteiro Santo Elias, 21 de Abril de 2011, Quinta-feira Santa



Fr. Tiago de S. José ECarm.