Patriarca de Lisboa vê Lutero como uma “grande fonte de inspiração”

 

 

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa caracteriza Martinho Lutero como “um reformador que procurava voltar às fontes bíblicas”

Martinho Lutero, figura central da Reforma Protestante há 500 anos, é “uma grande fonte de inspiração” para o cardeal patriarca de Lisboa. Manuel Clemente considera que há que “valorizá-lo dentro deste ambiente geral de Reforma do século XVI”.

O Cardeal Müller acusa o Papa Francisco de não basear sua autoridade magisterial numa teologia “competente”.

Incomoda ao cardeal que o papa pense que “a religião e a política são uma coisa só”. O Cardeal denuncia que o Papa se preocupa mais por “questões de diplomacia e poder do que pelas questões da fé”. A fé cristã deveria estar no centro e o Papa deveria ser simplesmente um “servo da salvação”

” Magnum Principium”ou ” Dolor Fidelium”?

Cardeal Ferdinand Antonelli
Pe. Marcélo Tenorio
De Bugnini à ” Boca de forno – forno!”
Acabamos de saber do novo Motu Proprio de Francisco chamado “Magnum Principium”,  pelo qual retira a plena autoridade da Cúria Romana sobre os textos litúrgicos e coloca a questão nas mãos das Conferencias Episcopais. Imaginemos então o que sucederá depois disto. O que virá de bom da Alemanha, da Holanda e de tantas outras conferências? Basta olhar o nosso texto do missal brasileiro, cuja obra deve-se ao finado beneditino Dom Clemente Isnard e seus colaboradores.
Olhemos para o nosso Breviárium, editado no Brasil. Na página 2032, dos Hinos, número 4,  ano 200, aprovado pela CNBB através do Frei Alberto Beckhauser, OFM, encontramos esse Hino parafraseando aquela brincadeira de criança, onde cantávamos:
” Boca de Forno – Forno!…
Seu Rei mandou dizer…””
Agora um pedacinho do Hino:
” Boca do povo – povo!
gritando de Novo, Novo!
Senhor Deus mandou dizer..”
Dá para pensar no que pode vim de uma comissão litúrgica a serviço da ideologia. Aqui esta o perigo do Magnum Principium  se transformar, rapidinho, em ” Dolor Fidelium.
Mas tudo teve seu início e não podemos esquecer a gênese dos fatos. De Mons. Annibale Bugnini até Dom Clemente Isnard, no Brasil . Da Reforma Liturgica à Reforma da Reforma!
Todos sabem que o grande ponto de divisão na Igreja se deu quando, no Concílio Vaticano II, se tocou na questão da Reforma Lirtúrgica , liderada por  Mons. Annibale Bugnini
É bem verdade que o grande Papa Pio XII já havia iniciado uma Reforma Litúrgica . Aliás já era desejo do Papa Pio IX e também de S. Pio X . Assim, no Reinado de Pio XII, ocorreu a reforma da Liturgia da Vigília Pascal, em 1951 e de toda a Semana Santa, em 1955.
O  Pe Ferdinando Antonelli  , que depois se tornou cardeal , esteve  frente a frente com esta  reforma que em nada trouxe alarde ou preocupação com o depósito da Fé, culminando com a Encíclica Mediator Dei, que fundamentava e alicerçava tudo.
O citado padre ficou entusiasmado com o Concílio Vaticano II, quando anunciado. Aliás, diga-se de passagem – não somente ele, mas também  Mgr Lefebvre, que esteve na sua Comissão Preparatória . A diferença entre ambos é que o arcebispo de Tulle percebeu logo quem era Mons. Annibale  Bugnini e e suas reais intençoes,  enquanto o Padre Antonelli, na igenuidade e frescor conciliar acreditava numa ótima oportunidade de colocar em prática as reformas segundo o pensamento de Pio XII.  Assim Pe. Antonelli chegou a ser  Relator Geral da “Seção Histórica” dos Ritos, criada por Pio VI, além de membro da Comissão Pontifícia para a Reforma Litúrgica, instituída por Pio XII, de 1948 a 1960, Promotor Geral da Fé a partir de 1959, na Sagrada Congregação dos Ritos, perito e secretário da Comissão da S. Liturgia no Concílio Vaticano II.
No início de tudo, com entusiamo escrevia o Pe. Antonelli em seu diário :
Os ossos de São Pio X devem ter exultado. A Constituição da Liturgia não é outra coisa que o fruto precioso duma pequena semente que ele lançou” (op. cit., p. 204).
Com o andar da carruagem,  Pe. Antonelli já não estava tão feliz  assim. Percebia que a direção tomava outro caminho:
Não estou entusiasmado com os trabalho … um grupo de pessoas muito incompetentes, e mais ainda, avançadas nas trilhas das novidades. Discussões inteiramente de vanguarda, à base de impressões, desejos caóticos. O que mais me desagrada é que as atas do que é exposto e as questões correspondentes estão sempre numa linha avançada e freqüentemente numa forma sugestiva. Direção fraca” (p. 229,  depois da Segunda reunião dos consultores )
Após a quinta sessão, escreve o Liturgista:
“Foi uma sessão construtiva. Mas o espírito não me agrada. Há um espírito de crítica e intolerância para com a Santa Sé que não pode conduzir a bom termo. E, ademais, um estudo muito acentuado de racionalidade na liturgia, e nenhuma preocupação com a verdadeira piedade. Temo que num dia se deva dizer de toda esta reforma […]: “a liturgia tomou tudo e a devoção se afastou“” (p.234).
Sobre Paulo VI, escrevia o Padre Antonelli:
Paulo VI se declarou contristado porque se faziam experiências caprichosas na Liturgia e mais aflito ainda por certas tendências para uma dessacralização da Liturgia. Contudo, ele reconfirmou a sua confiança no “Consilium”. E o Papa não percebe que todas as desgraças vêm da maneira com que se organizaram as coisas nesta reforma pelo “Consilium” (p. 237, seg)
Padre Antonelli também se espanta como as sessões são conduzidas sem métodos nem responsabilidades, apenas com o desejo de avançar e avançar, como vai falar sobre o Mons. Bugnini:
“… os esquemas se multiplicam sem chegar a uma forma verdadeiramente pensada… O cardeal Lercaro não é homem para dirigir uma discussão. O Pe. Bugnini só se interessa por uma coisa: atirar-se para a frente e acabar. O sistema de votação é pior. Ordinariamente os votos são dados com a mão levantada, mas ninguém conta quem levanta a mão e quem não o faz; ninguém diz: tantos aprovam e tantos não. Uma verdadeira vergonha. Em segundo lugar, jamais se pode saber, e a questão foi posta muitas vezes, que maioria era necessária: maioria de dois terços ou maioria absoluta […] Um outro defeito grave é a ausência de processo verbal das sessões, ao menos nunca se falou dele e certamente jamais foi lido”. ( 23 de abril de 1967)
Mons. Bugnini
Tudo vai ficando mais explícito para o Padre Antonelli, que percebe o espírito dessacralizador da comissão, além da fraqueza teológica dos bispos. Escreve ele:
“Confusão. Ninguém possui mais o sentido sagrado e coercitivo da lei litúrgica… nos estudos em maior escala continua o trabalho de dessacralização, que se chama agora secularização; donde se vê que a questão litúrgica […] se insere […] num problema muito mais vasto e de fundo doutrinal; a grande crise, portanto, é a crise da doutrina tradicional e do magistério”.
A venda começa a cair dos olhos do Pe. Antonelli; não se trata só de incompetência, duma espantosa superficialidade de trabalho “a toda a pressa”; trata-se dum fato muito mais grave: a reforma litúrgica é um instrumento nas mãos dos “inovadores” triunfantes (do mesmo modo que já tinha sido, em parte, o movimento litúrgico nas mãos dos “modernistas em declive”).
Sobre a falta de preparação teológica dos membros e de alguns bispos, diz o Pe. Antonelli:
No “Consilium” há poucos Bispos que tenham uma preparação litúrgica, muitos poucos que sejam verdadeiramente teólogos […]. E este é um lado perigoso. Na liturgia, cada palavra, cada gesto traduz uma idéia que é uma idéia teológica. Dado que atualmente toda a teologia está em discussão, as teorias correntes entre os teólogos avançados desmoronam sobre a fórmula e o rito: com esta gravíssima conseqüência que, enquanto a discussão teológica se mantém no nível elevado dos homens de cultura, uma vez descida na fórmula e no rito, ela toma caminho para a sua divulgação no povo”
(p. 257, seg.).
É isso a consequência da instrumentalização litúrgica a partir de correntes teológicas nutridas pela Nouvelle theologie, mas que já avançaram, ambas, além dela.
Padre Antonelli não é qualquer um a observar. É perito. É o secretário da Congregação para os Ritos, além de membro do ” Consilium” e sua conclusão não poderia ser  mais drástica que essa:
O que, contudo, é triste […], é um elemento profundo, uma atitude mental, uma posição preestabelecida, a saber, que muitos do que têm uma influência na reforma […] e outros não têm nenhum amor, nenhuma veneração por aquilo que nos foi transmitido. Eles desprezam, logo de início, tudo o que existe atualmente. Uma mentalidade negativa, injusta e nociva. Infelizmente, mesmo o papa Paulo VI está um pouco deste lado. Todos eles terão as melhores intenções, mas com estas intenções, mas com esta mentalidade eles são levados a demolir e não a restaurar” (p. 258).

Por fim , em 1969, precisamente 08 de maio, Paulo VI, retira definitivamente o Pe. Antonelli da questão, ao dividir a Sagrada Congregação para os Ritos em duas. Isso aconteceu pela Constituição Apostólica Sacrorum Rituum Congregatio. Bugnini, o predileto de paulo VI torna-se Secretário da Congregação nascente para o Culto Divino, e fazendo valer o ” promover para remover, Padre Antonelli assume a Congregação para os Santos.

A visão do Padre Antonelli sobre o Mons. Bugnini era justamente esta:
Eu podia dizer muita coisa deste homem. Devo acrescentar que ele foi sempre apoiado por Paulo VI. Não me quereria enganar, mas a lacuna mais importante no Pe. Bugnini é a falta de formação e de sensibilidade teológicas. Tenho a impressão de que se concedeu muito, sobretudo em matéria de sacramentos, à mentalidade protestante. Não que seja o Pe. Bugnini que se tenha criado para si mesmo estas concessões. Absolutamente não foi ele que as criou. Ele se serviu de muitas pessoas e, não sei por que, introduziu neste “trabalho” pessoas hábeis, mas de colorações teológicas progressistas”.
Já o abade D. Pietro Salvini O.S.B., comentando sobre o Mons. Bugnini e pelo fato dele ter desejado sbstituir a homilia pela dança, desabafou:
“Li que o Bispo Bugnini… teria desejado substituir a homilia na Missa pela dança. Um hotentote desse gênero pode desejar isto e pior ainda” (Divagazioni di una lunga vita ― Divagações duma longa vida, ed. Stella del Mare, Livourne).
É o próprio Mons. Annibale  Bugnini que declara, no jornal oficial do Vaticano, o seu plano e objetivo  com a Reforma Liturgica:
“Desejo eliminar [do futuro Rito em elaboração] cada pedra que pudesse se tornar ainda que só uma sombra de possibilidade de obstáculo ou de desagrado aos irmãos separados” (L’Osservatore Romano, de 11 de março de 1965; Doc. Cath. Nº 1445, de 4/4/1965, coll. 603-6040).
É bom lembrar que foi nomeado em 5 de maio de 1964 , Secretário da Comissão responsável pela elaboração do Novo Ordo, pelo Papa Paulo VI.
.Segundo Jean Guiton, amigo pessoal de Paulo VI,  a intenção do Papa era , sim, de aproximar a liturgia católica com a ceia protestante.: ” […] repito que Paulo VI fez tudo o que estava em seu poder para aproximar a Missa católica — apesar do Concílio de Trento — da Ceia protestante” ( debate “Lumière101”da Rádio Courtoise (19/12/1993).
No epílogo de tudo, Mons. Annibale Bugnini termina seus dias isolado do Vaticano, na Palestina. Já Paulo VI, em sua velhice – dizem os de perto – que sempre repetia: ”  Eu não quero trair Nosso Senhor! Eu não quero trair Nosso Senhor!”
O fato é que perdemos a nossa unidade litúrgica. Já não mais nos entendemos nessa matéria. E Se há uma profunda crise litúrgica é porque a teologia católica foi atingida. A Fé católica foi atingida em seu âmago. O que Celebramos na Sagrada Liturgia? Aquilo mesmo que acreditamos. E como já não mais se acredita nas mesma coisas, nos mesmos artigos, então já não mais nos unimos  na mesma Liturgia.
Que Nossa Senhora  apresse o que Ela mesma profetizou em Fátima:
” Por fim o meu Imaculado Coração Triunfará!”
Cf. Sim Sim Não Não, no. 94-95 Jan-Fev./2001

O “Magnum Principium” de D. Clemente Isnard, OSB – O “Pai” do Missal Brasileiro

Salve Maria
Acabou de ser anunciado o Motu Proprio de Francisco “Magnum Principium” , que entrará em vigor no próximo 1 de outubro. Esse documento além de salientar a “participação ativa dos fieis” na Liturgia, como apregoava o Concílio, ainda aumenta os poderes das conferências episcopais quanto a questão da tradução dos textos litúrgicos. O Canon 838 é modificado e a Cúria Romana apenas fará a “revisão das traduções”, ou seja corta-se a autoridade da Congregação  do Culto Divino sob os textos Sagrados da Liturgia. Se antes , com a autoridade da Cúria , já eram autorizadas barbaridades litúrgicas para o Brasil, tais como as aclamações das Orações Eucarísticas,   a Oração Eucarística do Congresso de Manaus, as Orações Eucarísticas para missa das crianças, etc, imaginemos agora ficando ao cargo da Comissão Litúgica da CNBB.Vale a pena ler o testemunho de um bispo beneditino que foi responsável pela péssima tradução do Missal  que temos hoje para o Brasil, com direito ao ” Ele está no meio de Nós” e tudo o mais.

Depois de ler , com atenção, você verá que esse Moto Proprio  Magnum Principium , melhor teria sido chamado de  “Dolor Fidelium”

MOTU PROPRIO “Magnum principium”- Reforma Litúrgica de Francisco

O motu proprio do Papa Francisco «Magnum principium» – Para continuar a renovação da vida litúrgica
A oração litúrgica tem que se «adaptar à compreensão do povo» para ser plenamente vivida, com um estilo expressivo, fiel aos textos originários, mas capaz de comunicar o anúncio de salvação em qualquer contexto linguístico e cultural. E com o objetivo de favorecer a participação de todos na liturgia «de maneira consciente, ativa e proveitosa», como recomendavam os padres do Vaticano II na constituição Sancrosanctum concilium de 1963. São estas as intenções que levaram o Papa Francisco, com base no trabalho de uma comissão de bispos e peritos por ele instituída, a modificar o cânone 838 do Codex iuris canonici relativo à publicação dos livros litúrgicos e às suas versões nas diversas línguas.
Com o motu proprio Magnum principium, com data de 3 de setembro, que entrará em vigor a 1 de outubro próximo, o Pontífice coloca-se mais uma vez no sulco do «renovamento de toda a vida litúrgica» empreendido pelo Vaticano II. E por isso indica a oportunidade de que «alguns princípios transmitidos desde a época do Concílio sejam reafirmados mais claramente e postos em prática» no campo da tradução dos livros litúrgicos. Matéria delicada e difícil, como demonstram o debate aceso destes decénios e os problemas específicos que surgiram do trabalho realizado sobre os textos. Trabalho orientado e regulado pelos critérios sugeridos de tempos a tempos por alguns documentos normativos fundamentais, em particular pelas instruções Comme le prévoit de 1969 e Liturgiam authenticam de 2001.
Ponto-chave do motu proprio é a relação entre Sé Apostólica e conferências episcopais na preparação e na tradução dos textos litúrgicos. E precisamente para «tornar mais fácil e frutuosa» a sua colaboração, através de um clima de «confiança recíproca, vigilante e criativa», o Papa reformula o cânone em questão, definindo em particular a distinção entre «revisão» (recognizio) e «confirmação» (confirmatio). Ambas as tarefas são de competência da Sé Apostólica.
A primeira tem por critério a verificação da fidelidade ao rito romano e à sua substancial unidade. E consiste numa obra de «revisão» e avaliação das adaptações que cada conferência episcopal pode fazer aos textos litúrgicos, a fim de valorizar as legítimas diversidades de povos e etnias no culto divino. A segunda é relativa às traduções preparadas e aprovadas pelos bispos para as regiões de sua competência. Sobre estas a Sé Apostólica exerce unicamente um ato de «confirmação», ratificando em substância o trabalho dos episcopados e obviamente pressupondo a sua fidelidade e a correspondência das versões ao texto litúrgico original.
Via: L’Osservatore Romano