APOSTASIA: Bispos Alemães: ” É possivel dar comunhão aos divorciados em segunda união”

Conferência Episcopal da Alemanha

Na Alemanha, os católicos, depois de uma separação e de um casamento posterior, não estão mais, em princípio, excluídos da comunhão. A decisão é da Conferência Episcopal Alemã, que chegou a essa conclusão a partir da exortação apostólica Amoris laetitia, do ano passado.

A reportagem é do sítio do jornal Frankfurter Allgemeine, 01-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nesse documento, o Papa Francisco ressaltou a importância da decisão em consciência, comunicaram os bispos na quarta-feira em Bonn. Assim, em casos individuais, a decisão de se aproximar da Eucaristia deve ser respeitada. O processo de decisão deve ser acompanhado por um diretor espiritual.

Não se trataria, portanto, de uma liberalização geral, enfatizaram os bispos: “Nem todos os fiéis cujo matrimônio fracassou e que estão separados e se casaram de novo podem receber os sacramentos indiscriminadamente”.

Até agora, os divorciados que contraíram um novo matrimônio não podem receber a comunhão, porque, segundo a doutrina católica, vivem em estado de culpa grave. Durante um ano inteiro, os bispos católicos alemães tentaram chegar a uma declaração pastoral comum, para poderem implementar as indicações do documento do papa em todas as dioceses.

Alguns bispos conservadores alertavam contra uma liberalização dos sacramentos, o que colocaria em discussão a indissolubilidade do matrimônio. Os cardeais alemães Joachim Meisner e Walter Brandmüller, por isso, se opuseram à linha proposta pelo papa. Junto com outros dois cardeais, um italiano e um estadunidense, pediram a Francisco, no ano passado, um esclarecimento sobre alguns pontos ambíguos, na opinião deles.

A Conferência Episcopal Alemã também anunciou que quer melhorar a preparação para o matrimônio e dar mais peso para a pastoral para os cônjuges.

O Comitê Central dos Católicos Alemães e o movimento de leigos católicos “Nós somos Igreja” acolheram favoravelmente a declaração dos bispos. No entanto, o “Nós somos Igreja” lamentou o fato de os bispos alemães terem levado nada menos do que nove meses antes de chegarem a um acordo sobre uma declaração conjunta. E que, do ponto de vista ecumênico, justamente no ano do 500º aniversário da Reforma, é decepcionante uma declaração dos bispos alemães que ainda afirma que “nos casamentos mistos também não é possível a plena comunhão na ceia do Senhor”.

Declaração dos Bispos:

Os bispos alemães confirmam a abertura sobre a comunhão aos divorciados em segunda união nas diretrizes publicadas nessa quarta-feira para a aplicação da Amoris laetitia, ressaltando que a exortação do Papa Francisco sobre a família, que está provocando um intenso debate no seio da Igreja Católica, embora sem estabelecer “uma regra geral ou um automatismo”, prevê, em casos individuais e depois de um processo de discernimento dentro da comunidade católica, a admissão à Eucaristia em alguns desses casos.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada no jornal La Stampa, 01-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A Conferência Episcopal Alemã, liderada pelo cardeal Reinhard Marx, de Munique, um dos nove purpurados conselheiros de Francisco, publicou nessa quarta-feira o documento “A alegria do amor que é vivida nas famílias é também a alegria da Igreja” (subtítulo: “Introdução a uma renovada pastoral do matrimônio e da família à luz da Amoris laetitia”), aprovado no dia 23 de janeiro passado pelo Conselho Permanente do mesmo episcopado.

Quem tomou posição em favor de uma leitura aberturista do texto papal nas últimas semanas foi, antes ainda que a alemã, a Conferência Episcopal de Malta, com um documento depois republicado pelo jornal L’Osservatore Romano. Nem todos parecem se inclinar para uma atitude desse tipo. Prova disso, por exemplo, é a entrevista com o cardeal prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Ludwig Müller, também alemão, publicada também nessa quarta-feira pela “revista mensal de apologética” Il Timone.

As diretrizes dos prelados da Alemanha abordam uma série de questões sobre as quais o papa escreveu na exortação apostólica que concluiu o duplo Sínodo sobre a Famíliade 2014 e 2015: da preparação ao matrimônio ao acompanhamento pastoral das famílias, da fé vivida nas famílias às famílias que vivem situações de fragilidade, detendo-se também na antiga questão sobre se os casais de divorciados recasados podem receber os sacramentos. Sobre o tema, os bispos não veem “nenhuma regra geral e nenhum automatismo”. Na opinião deles, são necessárias soluções diferenciadas, que levem em conta o caso individual.

“A Amoris laetitia – sublinham os bispos alemães – não negligencia nem a pesada culpa que muitas pessoas vivem em tais situações de fratura e de fracasso da relação matrimonial, nem a questão problemática de que as segundas bodas contradizem o sinal visível do sacramento do matrimônio, mesmo quando a pessoa envolvida tenha sido deixada sem culpa. A Amoris laetitia, no entanto, não permanece na proibição categórica e irreversível do acesso aos sacramentos.”

A nota de rodapé 336 do texto papal, lembram os prelados, ressalta que também pode haver consequências sacramentais diferentes para situações diferentes no que diz respeito à culpa no fracasso matrimonial, e a nota de rodapé 351 reitera a ajuda que a Igreja pode dar com a Eucaristia em alguns casos e, portanto, ela também “prevê a possibilidade de acesso aos sacramentos nesses casos”. A Conferência Episcopal especifica ainda que “nem todos os fiéis cujo matrimônio fracassou e que se separaram e se casaram de novo civilmente podem receber os sacramentos indiscriminadamente. Ao contrário, são necessárias soluções diferenciadas que levem em conta o caso individual, quando as bodas não podem ser anuladas. Nesses casos, encorajamos todos aqueles que têm a fundamentada dúvida sobre a validade do seu matrimônio que levem em consideração o serviço dos juízes matrimoniais eclesiais para verificar se são possíveis novas bodas na Igreja”.

Nos casos em que o casamento não é nulo, em vez disso, “a Amoris laetitia parte de um processo de discernimento que deve ser acompanhado por um pastor” e, nesse contexto, sublinha o documento dos bispos alemães, “abre para a possibilidade de receber os sacramentos da reconciliação e da Eucaristia. Na Amoris laetitia, o Papa Francisco salienta o significado da decisão com consciência, quando diz: ‘Também nos custa deixar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las’. No fim desse processo espiritual, que sempre diz respeito à integração, no entanto, não há o acesso aos sacramentos da reconciliação e da Eucaristia. A decisão individual de receber ou não os sacramentos, sob certas condições, merece respeito e atenção. Mas também uma decisão de receber os sacramentos deve ser respeitada. Deve-se rejeitar uma atitude de laxismo, sem um intenso exame no acompanhamento, discernimento e integração, assim como uma atitude rigorista, que consiste em julgamentos precipitados sobre as pessoas nas chamadas situações irregulares. Em vez dessas atitudes extremas, o discernimento (latim, discretio) deve ocorrer em um diálogo pessoal. Vemos como é nossa tarefa aprofundar o caminho da formação das consciências dos fiéis. Para esse fim, devemos tornar nossos pastores idôneos e fornecer critérios a eles. Tais critérios de uma formação da consciência são fornecidos de modo difuso e excelente pelo Santo Padre na Amoris laetitia”.

Fontes: http://www.ihu.unisinos.br/166-sem-categoria/564564-bispos-alemaes-comunhao-para-divorciados-em-segunda-uniao-em-alguns-casos

http://www.ihu.unisinos.br/564563-bispos-alemaes-afirmam-que-e-possivel-dar-a-comunhao-a-divorciados-em-segunda-uniao

A Crise Ariana e a controvérsia por Amoris Laetitia: um paralelo

sonho do papa liberio

Traduzido por Frei Zaqueu

Um renomado acadêmico compara ambas situações

PROF. CLAUDIO PIERANTONI

 

As reflexões que seguem derivam sua origem de uma coincidência bastante curiosa. Nos primeiros dias de abril deste ano, em efeito, na Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Santiago do Chile se pôs em movimento um grupo de estudo sobre a controvérsia ariana.


Na primeira reunião do grupo refletiram sobre a extraordinária rapidez com a que a controvérsia suscitada pelo presbítero alexandrino Ario no ano 318 ou 319 [d. C.], aparentemente reprimida com a condenação deste por parte de Alexandre (o bispo da metrópole), se difundiu rapidamente na Palestina, e desde ali e em poucos anos incendiou todo o Oriente romano, obrigando inclusive o imperador Constantino a convocar um concílio ecumênico para resolvê-la. Aparentemente se trata só de um punhado de frases imprudentes sobre a relação do Filho com o Pai, mas que puseram a descoberto profundas diferenças doutrinais existentes no episcopado, e desencadearam uma polêmica evidentemente latente há muito já instalada.


Pois bem, justamente nesses mesmos dias de abril de 2016 se publicou a exortação apostólica “Amoris laetitia”, e pouco tempo depois […] apareceram as reações do cardeal Burke e as do cardeal Müller, e começou a polêmica. Não passou muito tempo para compreender que o incêndio que se estava propagando rapidamente, justamente como nos tempos de Ario, era de vastas proporções, apesar das modestas aparências de basear-se só em um par de notas imprudentes ao pé da página, das que o Papa afirmava que nem sequer as recordava.


Me pareceu então natural começar a fazer um paralelo entre as duas crises. […] Em efeito, os dois momentos podem ser vistos em analogia, porque em ambos casos muitos católicos percebem uma intervenção importante do magistério como em conflito com a doutrina anterior. E ademais, em ambos casos se percebe um silêncio ensurdecedor da hierarquia da Igreja Católica, naturalmente com suas exceções.


Quanto ao conteúdo, as duas crises são certamente diferentes. No primeiro caso, o tema da discórdia é estritamente teológico, referido ao fundamento da doutrina cristã sobre o Deus uno e trino, enquanto que no segundo caso é teológico-moral, referido principalmente ao tema do matrimônio.


Não obstante, me parece que o elemento principal que aproxima as duas crises é o fato que ambos afetam a um pilar da mensagem cristã, que se é destruído a mensagem mesma perde sua fisionomia fundamental. […]


  1. Paralelo entre as duas crises, nos documentos doutrinais 


Desde o ponto de vista dos documentos doutrinais, o elemento paralelo que maiormente chama a atenção é o carácter de ambiguidade presente nas fórmulas filo-arianas dos anos 357-360 d. C.


Em efeito, […] a minoria filo-ariana, ainda estando no poder, não se arriscou a propor uma posição que se opusesse muito claramente à visão tradicional. Não diz expressamente que o Filho é inferior ao Pai, mas utiliza uma expressão genérica, “semelhante” ao Pai, que podia prestar-se a diversos graus de subordinacionismo. Em síntese, ainda estando no poder, a minoria filo-ariana tenta esconder-se.


De modo análogo, a atual exortação apostólica “Amoris laetitia”, no famoso capítulo VIII, não nega abertamente a indissolubilidade do matrimônio, a afirma explicitamente. Mas na prática nega as consequências necessárias que se derivam da indissolubilidade matrimonial, e o faz através de um discurso sinuoso e enviesado, com formulações que abarcam uma gama de posições diferentes, algumas mais extremas, outras mais moderadas.


Por exemplo, diz que “em alguns casos” poderia dar-se a “ajuda dos sacramentos” às pessoas que vivem em uniões “chamadas irregulares”. Não se dizem quais são estes casos, por isso a partir do texto podem se dar ao menos quatro interpretações, das quais as mais restritivas são obviamente incompatíveis com as mais amplas. Por claridade interpretativa, é então útil classificá-las com base no distinto grau de amplitude, partindo da mais restritiva até a mais extensa:


  1. Sobre a base do princípio de continuidade hermenêutica, a expressão “em alguns casos” deveria interpretar-se como referidos aos casos especificados nos documentos do magistério vigente, como “Familiaris consortio”, a qual diz que se pode dar a absolvição e a comunhão eucarística nesses casos nos que os conviventes prometem conviver como irmão e irmã.


Esta interpretação tem desde já um princípio hermenêutico fundamental, o qual poderia parecer irrefutável, mas essa interpretação está refutada pela nota 329, que afirma de forma explícita que justamente este comportamento (isto é, a convivência como irmão e irmã) seria potencialmente daninho, por isso há que evitá-lo.


  1. “Em alguns casos” pode interpretar-se em sentido mais amplo como referido à certeza subjetiva da nulidade do matrimônio anterior, supondo que por motivos particulares não é possível prová-la em um tribunal.


Em tais casos poderia dar-se certamente que em segredo de consciência não haja culpa na nova união: isto poderia ser visto, no plano da doutrina moral, de forma concorde com “Familiaris consortio”. Mas se mantém uma diferença fundamental no plano eclesiológico: a Eucaristia é um ato sacramental, público, não que não possa tomar-se em consideração uma realidade em si mesma invisível e publicamente incontrolável.


  1. “Em alguns casos” pode interpretar-se, mais amplamente ainda, como referido a uma responsabilidade subjetiva menor ou também nula, devido a ignorância da norma, ou bem à incapacidade de compreendê-la; ou também a uma “força maior”, na que alguma circunstância especial pode ser tão forte como para “forçar” a uma convivência “more uxorio”, que então não constituiria culpa grave; mais bem, inclusive, segundo o documento, o abandono da convivência poderia fazer incorrer em uma culpa mais grave.


Aqui temos já sérios problemas também de teologia moral. Ignorância e incapacidade de compreender podem limitar efetivamente a responsabilidade pessoal, mas parece incongruente, por não dizer contraditório, invocá-las neste discurso, no que se fala de um itinerário e de um discernimento “acompanhado”, os quais são processos que precisamente deveriam culminar na superação dessa ignorância e incapacidade de compreender.

Quanto à força maior, não é para nada obvio, mais ainda é contrário a toda a tradição e a importantes pronunciamentos dogmáticos que ela possa justificar o não cumprimento da lei divina. É verdade que não se pode excluir a priori que possa existir circunstâncias particulares, nas que a situação pode mudar a espécie moral de um ato externamente igual, também consciente e voluntário. Por exemplo, o ato de subtrair um bem de alguém não pode configurar-se como furto, mas como ato de um pronto socorro a uma pessoa ou como um ato direto para evitar um mal maior. Mas ainda supondo, sem concedê-lo, que isto possa aplicar-se ao adultério, o que aqui impede decididamente uma justificação deste gênero é o carácter de permanência do comportamento objetivamente negativo: o que é justificável em um momento pontual, de emergência, não pode sê-lo em uma situação estável, conscientemente elegida.


De todo modo, se mantém firme também o princípio eclesiológico pelo qual em nenhum caso pode fazer-se magicamente visível a nível público o que por sua natureza pertence ao segredo de consciência.


  1. Na interpretação mais extensa de todas, “em alguns casos” pode ampliar-se até incluir todos esses casos – que são além disso esses casos reais, concretos e frequentes que todos temos em mente – nos que se dá um matrimônio pouco feliz, que fracassa por uma série de mal-entendidos e incompatibilidades e aos quais lhes segue uma convivência feliz, estável no tempo, com fidelidade recíproca, etc. (cf. AL 298).


Nestes casos, pareceria que o resultado prático, em particular a duração e a felicidade da nova união contra a brevidade e infelicidade da anterior, pode interpretar-se como uma espécie de confirmação da bondade e, em consequência, legitimidade da nova união. Neste contexto (AL 298) se silencia qualquer consideração sobre a validez do matrimônio anterior e sobre a incapacidade de compreender e sobre a força maior. E em efeito, quando mais adiante (AL 300) se passa a considerar o tipo de discernimento que deverá fazer-se nestes casos, resulta ainda mais claro que os temas em discussão no exame de consciência e no arrependimento respectivo não serão outros que o bom ou mal comportamento frente ao fracasso matrimonial e o bom êxito da nova união.


É claro aqui que o “arrependimento” que há que considerar não se refere em absoluto à nova união em presença de uma união legítima anterior; pelo contrário, se refere ao comportamento durante a crise anterior e as consequências (no melhor dos casos) da nova união sobre a família e sobre a comunidade.


É então evidente que o documento tenta ir mais além, tanto dos casos nos que se tem certeza subjetiva da invalidez do vínculo anterior, como também dos casos de ignorância, de dificuldade para compreender e de força maior ou de suposta impossibilidade de cumprir a lei.


Agora bem, é suficientemente claro que se a medida válida para julgar a licitude da nova união é, em última instância, seu êxito prático, sua felicidade visível e empírica, contra o fracasso e a infelicidade do matrimônio anterior – licitude que obviamente se supõe para receber a absolvição sacramental e a Eucaristia –, a consequência inevitável é que agora o matrimônio anterior é considerado implicitamente, e também publicamente, sem efeito e, em consequência, dissolvido: isto é, o matrimônio é dissolúvel. Deste modo, na Igreja Católica se introduz de fato o divórcio, enquanto que se continua afirmando de palavra sua indissolubilidade.


É também suficientemente claro que se o êxito do novo matrimônio basta para estabelecer sua licitude, isto inclui a justificação praticamente de todos os casos de nova união. Em efeito, se se tivesse que demonstrar que a nova união carece de êxito, não subsistirá o estímulo para justificá-la e se passará ainda a uma união ulterior, na esperança de um êxito maior. Em suma, esta e não outra é precisamente a lógica do divórcio.

Disto se pode logo deduzir que a discussão sobre casos que poderíamos chamar “intermediários”, isto é, os situados entre a posição tradicional e a mais ampla – que como temos mostrado inclui de fato todos os casos –, se por uma parte permite a muitos, mais moderados, reconhecer-se em uma ou outra gradação e, em consequência, pode ter um valor “tranquilizador”, pelo contrário, desde o ponto de vista prático termina por ser muito pouco relevante. Em efeito, em essência e em linhas gerais, o documento outorga carta branca para resolver a grande maioria das situações reais com um critério muito mais simples e em linha com a mentalidade dominante em nossa civilização: em uma palavra, está perfeitamente em linha com a ideologia do divórcio.


*


Voltando ao nosso paralelo, tudo isto lembra muito proximamente a política do imperador Constâncio, ao buscar uma expressão suficientemente genérica que se propusesse manter contentes as muitas posições diferentes. Na controvérsia ariana, o caráter genérico da expressão “semelhante ao Pai segundo as Escrituras” encontra uma perfeita confirmação no carácter genérico da expressão “em alguns casos” que encontramos em “Amoris laetitia”. Em teoria, é possível reconhecê-lo em quase todas as posições.

Como consequência, as situações resultam análogas também quanto ao resultado prático. Da mesma maneira que quase todo o episcopado do império aceitou a fórmula de Rimini-Constantinopla do 359-60 d. C., assim também hoje a esmagadora maioria do episcopado tem aceitado sem queixar-se o novo documento, ainda sabendo que isto legitima de fato uma série de posições incompatíveis entre elas, algumas das quais é manifestamente herética.


Hoje em dia muitos bispos e teólogos acalmam sua própria consciência afirmando, tanto em público como a si mesmos, que dizer que “em certos casos” os divorciados que se “recasaram” podem receber os sacramentos não é em si errôneo e pode interpretar-se, em uma hermenêutica da continuidade, como em linha com o magistério anterior. Justamente da mesma maneira os antigos bispos pensavam que não era em si errôneo dizer que “o Filho é semelhante ao Pai segundo as Escrituras”.


Mas em ambos casos, se bem em uma e em outra fórmula tomada isoladamente se pode reconhecer uma ampla gama de posições, no contexto dos respectivos documentos é muito claro que a posição ortodoxa, verdadeiramente em linha com o magistério anterior, é precisamente a que é justamente excluída. […]


No caso de “Amoris laetitia”, isto se leva a cabo:


– com a negação da formulação de “Familiaris consortio” sobre a abstenção da convivência “more uxorio” como condição do acesso aos sacramentos;

– com a eliminação dos limites anteriores entre certeza da consciência e normas eclesiológicas sacramentais;

– com a instrumentalização dos preceitos evangélicos da misericórdia e do não julgar, usados para sustentar que na Igreja não seria possível a aplicação de censuras gerais a determinados comportamentos objetivamente ilícitos;

– e por último, ainda que não menos importante, censurando duramente a quem tivesse a “mesquinha” e “farisaica” pretensão de invocar normas jurídicas precisas para julgar qualquer caso individual, que pelo contrário deve ser rigorosamente deixado ao discernimento e ao acompanhamento pessoal.


Deste modo, ainda com a boa vontade de respeitar um princípio hermenêutico certamente válido – o da continuidade com os documentos anteriores -, se corre o risco de olvidar outro princípio ainda mais importante e evidente: o do contexto imediato no que se formula uma proposição.


Se se lê as afirmações particulares de “Amoris laetitia” não isoladamente, mas em seu contexto, e o documento por sua vez é lido em seu contexto histórico imediato, se descobre facilmente que a “mens” geral que o guia é essencialmente a ideia do divórcio, além da ideia hoje difundida de não colocar limites claros entre um matrimônio ilegítimo e uma união irregular. […]

  1. Paralelo entre as duas crises, no desenvolvimento histórico


Também se pode advertir um paralelo evidente desde o ponto de vista do desenvolvimento histórico da heresia ariana. Se assiste a sua preparação durante a segunda metade do século terceiro; ao fazer-se pública, é condenada pelo Concílio de Niceia, mas no Oriente, pelo contrário, recebe uma rejeição generalizada. Não obstante, a rejeição de Niceia é mais moderada em uma primeira fase, e o arianismo verdadeiro e genuíno é tolerado somente como um mal menor, mas pouco a pouco esta tolerância lhe permite retomar vigor, até que dadas as favoráveis circunstâncias políticas chega ao poder. Uma vez alcançado este, sente contudo a necessidade de camuflar-se: não se expressa de forma franca e direta, mas em uma forma indireta, apoiando-se sobre a pressão e a intimidação pública. Mas o fato mesmo de impor-se, ainda quando o arianismo era uma minoria, sobre uma maioria covarde e indecisa, o expõe de todos os modos a uma refutação muito mais forte e clara por parte do setor mais ortodoxo e consciente do episcopado que prepara, de forma gradual mas inexorável, a derrota definitiva nas duas décadas que seguem.


Analogamente, no caso da heresia atual, que a causa do nome de seu expoente principal podemos chamar “kasperiana”, temos assistido a uma lenta preparação, a partir da segunda metade do século XX. Se fez pública e foi condenada nos documentos de João Paulo II (sobretudo em “Veritatis splendor” e “Familiaris consortio”). Mas desde um setor do episcopado e da teologia culta estes documentos foram rejeitados de forma mais ou menos aberta e radical, e a práxis ortodoxa foi omitida em amplas e importantes zonas da catolicidade. Esta rejeição foi tolerada amplamente, tanto a nível teórico como prático, e desde ali adquiriu força, até que, dadas as circunstâncias favoráveis, políticas e eclesiásticas, chegou ao poder. Mas apesar de haver alcançado o poder, o erro não se expressa de forma franca e direta, senão melhor através das não de todo claras atividades sinodais (2014-2015), e desemboca logo em um documento apostólico exemplar por sua tortuosidade. Mas o fato mesmo de haver chegado a aparecer em um documento magisterial suscita uma indignação moral e uma reação intelectual muito mais forte e dinâmica, e obriga a todo aquele que tem os instrumentos intelectuais a repensar a doutrina ortodoxa, por uma formulação ainda mais profunda e clara de sua parte, para preparar uma condenação definitiva não só do erro pontual examinado, mas também de todos os erros vinculados a ele, que chegam a incidir sobre toda a doutrina sacramental e moral da Igreja. Ademais permite, e isto não é pouco, pôr a prova, reconhecer e também reunir os que aderem verdadeira e solidamente ao depósito da fé.


Podemos dizer que esta é justamente a fase na que nos encontramos neste momento. Recém começou e se preanuncia não privada de obstáculos. Não podemos prever quanto durará, mas devemos ter a certeza da fé de que Deus não permitiria esta gravíssima crise se não fosse para um bem superior das almas. Será certamente o Espírito Santo o que nos dê a solução, iluminando este Papa ou a seu sucessor, talvez também através da convocatória a um novo concílio ecumênico. Enquanto isso, cada um de nós está chamado, na humidade e na oração, a dar seu testemunho e sua contribuição. E a cada um de nós certamente o Senhor nos pedirá contas.

Fonte: Chiesa

Fonte: http://panoramacatolico.info/articulo/la-crise-ariana-y-la-controvérsia-por-amoris-laetitia-un-paralelo

Quem quer destruir a Ordem de Malta?

Malta-Brasao

Por Roberto de Mattei

Muito antes que as Nações tivessem chegado a estabelecer uma lei internacional; muito antes que tivessem podido forjar o sonho — ainda não realizado — de uma força armada comum para proteção da sã liberdade humana, da independência dos povos e de uma pacífica equidade nas suas relações mútuas, a Ordem de São João já havia reunido em uma irmandade religiosa e sob a disciplina militar, homens de oito ‘línguas’ diferentes, votados à defesa dos valores espirituais, que constituem o apanágio comum da Cristandade: a fé, a justiça, a ordem social e a paz.”

Essas palavras, dirigidas em 8 de janeiro de 1940 pelo Papa Pio XII aos Cavaleiros da Soberana Ordem Militar de São João de Jerusalém, dita de Rodes e depois de Malta, resumem as características da mais antiga das Ordens de Cavalaria, o único Estado soberano cuja bandeira ondulou no campo das Cruzadas. Uma ordem cujo carisma tem sido sempre o da “Tuitio fidei et Obsequium pauperum”[Defesa da fé e serviço dos pobres]. É imaginável que um Papa queira destruir essa instituição, glória da Cristandade? Infelizmente, é precisamente esta a impressão que se tem dos últimos acontecimentos relativos à Ordem de Malta.

O patrono da Ordem de Malta, o Cardeal Raymond Leo Burke

burke

Correspondência Romana ofereceu uma primeira reconstrução dos fatos em 24 de dezembro de 2016. Edward Pentin aprofundou e enriqueceu o cenário com novos detalhes no National Catholic Register de 7 de janeiro de 2017. O quadro, em resumo, é o seguinte: em 6 de dezembro, o Grão-Mestre da Ordem de Malta, Fra Matthew Festing, na presença de duas testemunhas, uma das quais era o cardeal- patrono Raymond Leo Burke [foto ao lado], pediu ao chanceler Albrecht Freiherr von Boeselager que renunciasse. Com efeito, tinha vindo à luz que o chanceler Boeselager, durante o período em que foi o Grande Hospitalário da Ordem, havia abusado de seu poder promovendo a distribuição de milhares de preservativos e contraceptivos, inclusive abortivos, em alguns países do Terceiro Mundo. Apesar da promessa de obediência que o liga ao Grão-Mestre, o Grão-Chanceler recusou-se a renunciar. Contra ele foi então iniciado um procedimento para suspendê-lo de todas as posições que ocupava.

Boeselager pediu ajuda à Secretaria de Estado do Vaticano, que nomeou uma comissão de inquérito para “recolher elementos susceptíveis de informar plena e rapidamente a Santa Sé” sobre o assunto. Em 23 de dezembro, o Grão-Mestre da Ordem definiu como “inaceitável” a decisão do Secretário de Estado, observando que a remoção Boeselager é um “ato de administração interna do governo da Ordem Soberana de Malta e, em consequência, recai exclusivamente na sua competência”. Com uma declaração subsequente de 10 de janeiro, o Grande Magistério reiterou a sua intenção de não cooperar com a comissão de investigação do Vaticano, “também a fim de proteger sua esfera de soberania com relação a iniciativas que se apresentam objetivamente (e, portanto, além das intenções, que são juridicamente irrelevantes) como visando questionar ou pelo menos restringir dita esfera”.

A iniciativa do Vaticano parece ter sido uma enorme gafe. O sistema jurídico da Ordem de Malta é regulado pela Constituição de 1997. O artigo 3º da Constituição, parágrafo 1, afirma que “a Ordem é sujeito de direito internacional e exerce funções soberanas”. Estas são: o Poder Executivo, representado pelo Grão-Mestre, assistido pelo Conselho Soberano; o Poder Legislativo, representado pelo Capítulo Geral; o Poder Judiciário, representado pelos Tribunais Magisteriais. A Ordem de Malta emite passaportes diplomáticos e possui escritórios extraterritoriais em Roma, onde oficialmente recebe os representantes de mais de cem países com os quais mantém relações de igual para igual.

Grão-Priorado da Ordem de Malta em Roma (Monte Aventino) [Foto PRC]

A Ordem tem relações privilegiadas com a Santa Sé, mas com plena autonomia. A Santa Sé nomeia um cardeal-patrono e a Ordem o seu embaixador, de acordo com as normas do Direito internacional. Como observa o Prof. Paolo Gambi, apesar de ser detentora da natureza religiosa própria às Ordens dependentes da autoridade eclesiástica, a Ordem tem uma posição muito peculiar, “gozando de uma autonomia quase única na cena eclesiástica e limitando o influxo dessa natureza aos membros que emitiram votos” (La soberana militar Ordem de Malta en el orden jurídico eclesial e internacional, Ius Canonicum, XLIV, n. 87 (2004), pp. 197-231). O artigo 4, parágrafo 6 da Constituição da Soberana Ordem de Malta é claro ao afirmar que “a natureza religiosa não exclui o exercício das prerrogativas soberanas relativas à Ordem enquanto sujeito de direito internacional reconhecido pelos Estados”.

A confirmação de tal status de direito internacional, inclusive em relação à Santa Sé, encontra-se no Anuário Pontifício, onde a Ordem é mencionada apenas uma vez, e não entre as Ordens religiosas, mas antes como uma das Embaixadas dos Estados acreditados junto à Santa Sé. A Constituição de 1997 também eliminou várias intervenções eclesiásticas previstas anteriormente, como a aprovação da Santa Sé para a validade da eleição do Grão-Mestre e o consentimento expresso dela para que a profissão solene de votos seja válida.

Fra Ludovico Chigi Albani della Rovere (1866-1951), Príncipe e Grão-Mestre da Ordem de 1931 a 1951

A competência da Santa Sé sobre a vida religiosa dos Cavaleiros diz respeito apenas àqueles pertencentes à primeira classe, os Cavaleiros de Justiça, que emitem, de forma solene, os três votos monásticos. Os membros da segunda classe, os Cavaleiros na Obediência, cuja promessa nada tem a ver com o voto de obediência dos Cavaleiros de Justiça, estão subordinados apenas aos seus superiores na Ordem. O ex-Grão-Chanceler Albrecht von Boeselager, casado e pai de cinco filhos, é um leigo que pertence à segunda classe, não dependendo de nenhum modo da Santa Sé. Além disso, os Cavaleiros de Justiça, que devem ser considerados “religiosos para todos os efeitos”(artigo 9 parágrafo 1 da, Constituição), não têm vida em comum e representam um unicum na vida da Igreja. Fra Ludovico Chigi Albani della Rovere (1866-1951), Príncipe e Grão-Mestre da Ordem de 1931 a 1951 [foto ao lado], após a morte de sua esposa (1898) pronunciou os votos religiosos como Cavaleiro da Justiça, mas continuou a viver no Palazzo Chigi [foto abaixo] (atual sé do Grande Magisteriado da Ordem), que até 1916 era propriedade de sua família, levando uma vida de grande senhor, como competia à sua condição.

Palazzo Chigi, numa gravura do séc. XVI

Naturalmente, a Igreja tem sobre a Ordem de Malta os mesmos direitos que tem em relação a cada Estado, quando estão em jogo questões que afetam diretamente a fé e a moral. O Papa, de fato, tem o direito e o dever de intervir em toda questão social e política relacionada com a consecução do fim supremo do homem, que é a vida eterna. Se, por exemplo, um Estado legitima as uniões sexuais contra a natureza, o Papa tem o dever de intervir, denunciando a grave violação da Lei divina e natural. E se a Ordem de Malta estiver promovendo a contracepção e o aborto, o Papa tem o dever de fazer ouvir sua voz. Hoje, pelo contrário, a Igreja se abstém de pronunciar-se sobre problemas morais que Lhe são próprios [a distribuição de preservativos], e intervém em questões políticas e administrativas que fogem de sua alçada [a suspensão do ex-Grão-Chanceler].

Christopher Lamb cita no Tablet de 5 de Janeiro uma carta enviada em 21 de dezembro a Fra Matthew Festing pelo Secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, na qual se nota que o Papa Francisco deseja que a remoção de von Boeselager não ocorra. “Como já expressei em minha carta anterior, de 12 de dezembro de 2016: sobre o uso e a difusão de métodos e meios contrários à lei moral, Sua Santidade pediu um diálogo sobre o modo pelo qual podemos enfrentar e resolver eventuais problemas. Mas ele jamais disse para exonerar ninguém!”.

Portanto, com relação àqueles que violam a lei divina e natural, o caminho é o do diálogo e da mão estendida. Para quem, pelo contrário, defende a fé e a moral católica, está pronta a vara do comissariado político e da comissão de inquérito.

O grupo de cavaleiros que faz coro com Albrecht von Boeselager representa a corrente secularista, que gostaria de transformar a Ordem de Malta numa ONG humanitária, enquanto a atual equipe dirigente representa a fidelidade às raízes religiosas da Ordem. Mas esse é, aliás, o seu grande pecado, ao qual se soma outro. Ao longo de nove séculos de história, a Soberana Ordem Militar de Malta nunca perdeu sua fisionomia aristocrática, cavalheiresca e soberana. Esta fisionomia representa a antítese do miserabilismo e do igualitarismo professados por aqueles que hoje governam a Igreja. O resultado é que se denuncia o clericalismo, mas se o aplica de fato, com desastrosas consequências. A truculenta intervenção da Secretaria de Estado em nome do Papa Francisco está de fato causando caos e divisões dentro da Ordem.

A Soberana Ordem Militar de Malta superou todas as vicissitudes ao longo de sua história. Durante dois séculos na Palestina, dois séculos em Rodes e dois séculos e meio em Malta, muitas vezes sua missão pareceu caducar. Mas a instituição sempre se reergueu, mesmo quando se alastrou pela Europa o turbilhão da Revolução Francesa e de Napoleão. Deve-se esperar que o Grão-Mestre Fra Matthew Festing e o Conselho Soberano que o assiste saibam resistir com firmeza às fortes pressões que estão recebendo nestes dias.

Bula Pontifícia Pie postulatio voluntatis, documento de 15 de fevereiro de 1113

Ninguém teria podido duvidar do amor ao Papado do Grão-Mestre Ludovico Chigi Albani, que na sua qualidade de Marechal da Santa Igreja Romana participou de três eleições pontifícias. No entanto, ele se opôs tenazmente a qualquer tentativa eclesiástica de ingerência na vida da Ordem. A Santa Sé devia reconhecer a natureza soberana da Ordem de Malta, “sem a interferência de outras autoridades seculares ou religiosas”, como recordou Bento XVI ao receber os cavaleiros, por ocasião do nono centenário da bula pontifícia Pie postulatio voluntatis [foto ao lado] de 15 de fevereiro de 1113, que reconheceu a Ordem e outorgou-lhe seus privilégios. Com este ato solene, disse o Papa Bento XVI, “Pascoal II colocava a recém-nascida ‘fraternidade hospitalar’ de Jerusalém, em homenagem a São João Batista, sob a tutela da Igreja, e a tornava soberana”.

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(*) Fonte: “Corrispondenza Romana”, 11-1-2017. Matéria traduzida do original italiano por Hélio Dias Viana.

Fonte: http://www.abim.inf.br/quem-quer-destruir-a-ordem-de-malta/#.WHd5JC0rLIU

Cardeal Burke explica como será a correção do Papa

Como indica o titulo desta postagem, e em claro contraste com as palavras ditas pelo Cardeal Muller no Programa de Televisão italiano “Stanze Vaticane”, do Canal TGCOM24 e comentado durante todo o dia em páginas católicas na Internet, o Cardeal Burke afirmou em uma recente entrevista, que a ”Amoris Laetitia” Se supõe como um perigo para a Fé e que se fará a correção do Papa. Ademais disse que não teme perder a Púrpura Cardinalicia, mas sim que teme o juízo de Deus. A entrevista se deu ao periódico The Remnant  publicada no dia 09 de Janeiro.
No Domingo passado(08 de Janeiro) o Cardeal Muller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em uma entrevista entrou em contradição com sua postura previa(A respeito das Dúbias). Assegurou que não se fará a correção do Papa a curto prazo porque no existe perigo para a fé “Uma correção fraterna ao Papa me parece muito distante, neste momento não é possível, por que não há nenhum perigo para a fé”.  
 
O Cardeal Burke, ademais, voltou a reiterar que a “Amoris Laetitia” não é um documento magisterial, como indica o mesmo Papa Francisco no documento. Segundo Burke, algumas afirmações confusas do documento embora não sejam heréticas materialmente necessitam ser esclarecidas, porque podem induzir os fieis ao erro em questões muito sérias. Para ele se não chegar um esclarecimento por parte do Papa o resultado será devastador.
E quanto ao medo de perder o Barrete Cardinalício, Burke assegurou que conhece qual seu dever e que não teme dizer a verdade. Disse temer estar defronte a Nosso Senhor no juízo final e ter que dizer: “Não te defendi quando estavas sendo atacado e a verdade que tu ensinastes estava sendo traída”.
Ao ser perguntado se a situação atual se parece com o tempo da heresia Ariana no Século IV, disse que de certo modo sim: “Agora está em jogo as verdades da fé: As que se refere ao Sacramento do Matrimonio e as que se refere ao Sacramento da Eucaristia. E se a confusão atual for preservada, chegará um momento que haverá setores amplos de fieis sem a Fé Católica, como  se encontrava quando Santo Ambrósio foi nomeado Arcebispo de Milão.
E em relação sobre quando e como seria essa correção formal, o Cardeal Burke declarou que não seria muito diferente das “Dubias”, em outras palavras aquelas verdades que parecem ser postas em questão pela Amoris Laetitia simplesmente se confrontaria com o que a Igreja tem ensinado, praticado e anunciado sempre em seu magistério oficial, desta maneira os ditos erros serão corrigidos.
 
 
Fonte: http://institutobentoxvi.blogspot.com.br/2017/01/cardeal-burke-explica-como-sera.html

“O que tenhas que fazer, faze-o logo”

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MARCELO GONZÁLEZ

tradução frei zaqueu

 

E após o bocado (a Eucaristia), nesse momento, entrou nele Satanás.

Jesus então lhe disse: “O que tenhas que fazer, faze-o logo”.

João XIII, 27

Estamos vivendo um tempo de esperança.

O leitor habitual talvez possa surpreender-se. A Esperança é uma virtude sobrenatural que sustenta nosso desejo de ir ao céu e alcançar as promessas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Neste sentido, todos os momentos da história são de esperança.

Mas afastando-nos de certo modo da definição estritamente teológica, ainda que sustentados por ela, se pode falar da esperança em sentido mais humano: há etapas da cristandade de grandes triunfos. Para nós tudo isso pertence ao passado. Há séculos, a Igreja e a ordem social cristã vão retrocedendo, até chegar, nas últimas décadas à beira do abismo.

Sempre nos sustenta a Esperança sobrenatural, mas uma coisa é essa Esperança em si e outra encarnada nos fatos históricos, como por exemplo antes e depois da batalha de Lepanto. Antes era, talvez mais puramente, sobrenatural. Em seguida se converteu na prova tangível do poder de Deus para dirigir a história em um sentido contrário ao que todos previam, normalmente concedendo estes triunfos quando as causas segundas, isto é, o que o homem faz para alcançá-los, movem sua Misericórdia e lhe dão a vitória.

Aprofundando o vastíssimo tema que expõe Fátima, nestas vésperas do centenário, se tem a impressão de que os católicos em geral, os bons e fiéis, conhecem somente de um modo superficial o que ali se iniciou. E para muitos é uma devoção a mais. Mas não é assim.

Quanto mais se aprofunda, mais se adverte que Fátima é a inauguração dos tempos finais da história. Inclusive se em La Salette as profecias foram cruéis e explícitas: “Roma perderá a fé e se converterá na sede do Anticristo”. Fátima, cuja mensagem pode suspeitar-se hoje com fundamentos não ter sido completamente revelada, foi, sim, ratificada pela santidade extraordinária dos videntes (extraordinária inclusive se se a compara com os santos de toda a história no caso das crianças), pela certeza de suas profecias, pelo papel que tem tido como advertência para evitar a crise final da Igreja (a mensagem devia revelar-se em 1960) e pelo que ainda não se cumpriu, mas que no texto que irmã Lúcia nos deixou fica em forma assertiva: “Finalmente meu Coração Imaculado Triunfará”.

Promessa não condicionada. Como não foi condicionada a promessa de realizar o grande milagre, o do Sol, em outubro de 1917, ante crentes e incrédulos, piedosos e ímpios. Visto por dezenas de milhares de pessoas, em um raio de mais de 50 kms. Em torno da Cova da Iria.

Certamente, os milagres devem merecer-se. Nosso Senhor os realizou somente a pedido dos que humildemente podiam recebê-los ou por sua própria vontade, quando as multidões de pecadores punham sua esperança nesse extraordinário profeta que logo descobriram era o Messias, o Filho de Deus Vivo. “Tua fé te salvou”. “Vai e não peques mais”. Não realizou milagres ante Herodes, nem ante Pilatos nem muito menos ante os fariseus ao pé da Cruz.

Vivemos a Crucificação da Igreja. Se espera sua Ressurreição ainda que exista muitos momentos terríveis, sem dúvida, pelos que temos de atravessar.

Hoje, os planos de destruição da Igreja estão postos em xeque por diversas circunstâncias que pareciam impensáveis há alguns anos atrás. Tão impensável como que chegasse ao pontificado um personagem tão particular como Bergoglio. A quem curiosamente, em Buenos Aires, muitos católicos apodavam “Judas”, para escândalo de outros muitos.

Hoje esta impressão de um Bergoglio-Judas se tem estendido a todo o mundo. Não é só o pânico que reina na Santa Sé entre os membros dos dicastérios e comissões, de alto e de baixo nível. É também a espionagem (já praticada com frequência em Buenos Aires) dos professores das distintas universidades de Roma que devem alinhar-se sem reservas com a orientação de Amoris Laetitia, a grande pedra com a que tem tropeçado Francisco.

Os mesmos jornalistas, até as agências internacionais, que costumam guardar notável silêncio sobre estes temas, lamentam o destrato e a censura das preguntas que “não são amigáveis”, ou seja, as que se referem ao katejon, ao grande obstáculo para o triunfo da doutrina kasperiana com a que Francisco se tem embandeirado, exposto tão simplesmente por uns cardeais.

Que causou esta soçobra em Francisco e em seu entorno de confiança que o levou a dizer coisas impensáveis, como que os que se empenham em manter a doutrina tradicional e quem os apoiam são espiritualmente “coprófagos”. Sim, já o sabemos: as dubia dos quatro (ou seis, ou trinta segundo os últimos dados) cardeais que apoiam o direito de colocá-las e a necessidade de respondê-las.

Por que não respondê-las e já? Para que gastar tanta energia em insultar a quatro cardeais que pedem esclarecimentos doutrinais? Para que assinalar-lhes tão grosseiramente na imprensa mundial? Para que dedicar-lhes todo o discurso do Papa à Cúria Romana destes dias com motivo do fim de ano, que nesta ocasião se centrou exclusivamente na “resistência” a suas mudanças definida como uma tentação do Demônio?

O motivo é simplíssimo, como o é o Evangelho. Se Francisco responde no sentido kasperiano, fica exposto a ser declarado herege formal. Se responde em sentido tradicional, seus promotores e mantenedores o abandonariam à sua sorte. Os poderes do mundo, com os que tão bem se leva, não lhe perdoariam um passo atrás, nem por razões estratégicas. Talvez ele mesmo, ainda que pudesse, não estaria disposto a dá-lo.

Francisco está entre a espada e a parede.

Quanto mais demore em responder, maior será o poder da oposição a seus desvarios doutrinais. Mais tempo terão as forças conservadoras e tradicionais para articular uma pressão insuportável. O Card. Burke, com sua habitual serenidade, tem dito que considera conveniente fazer uma “correção fraterna” (apresentar um documento assinado por – quantos? – cardeais e bispos corrigindo os erros doutrinais de sua Exortação Apostólica e convidando-o a retratar-se deles. E também que o tempo adequado seria o de Epifania. Isto é, se lhe sugeriu um ultimatum.

A rejeição desta correção produziria um efeito jurídico. O papa Francisco passaria da heresia material à heresia formal, segundo a opinião dos mais respeitados doutores da Igreja através da história. Em seguida vem uma instância ainda discutida. Deve ser deposto? Deve se declarar sua renúncia ao ofício petrino por causa de sua heresia e como tal estabelecer que a Sede ficou vacante e proceder à eleição de outro papa? São as opiniões mais comuns dos doutores. O Card. Burke tem dado a entender que apoia a segunda opinião: deve se deixar o governo da Igreja em mãos de quem habitualmente substitui o Papa durante a transição da Sede Vacante.

Quem podia imaginar um conjunto de cardeais dizendo publicamente estas coisas apenas uns meses atrás? Esta novidadeira intrepidez –bendita seja!- se faz presente apenas a poucos meses do centenário de Fátima. Os tradicionalistas tem reclamado, ao menos a correção fraterna, desde há décadas, sobre matérias doutrinais gravíssimas.

A visão do Segredo de Fátima nos fala de dois bispos. Um que parecia ser o papa, outro que o era. Um deles é morto pelos inimigos da Igreja enquanto caminha pelas ruínas de uma cidade, em meio de cadáveres de clérigos e fiéis. Dois anjos proclamam a necessidade de “Penitência” três vezes, enquanto recolhem em distintos cálices o sangue dos mártires que procede dos braços de uma tosca cruz.

“Finalmente, Meu Coração Imaculado triunfará. O papa consagrará a Rússia, que se converterá. Será dado ao mundo um certo tempo de paz”.

Estamos entrando por fim nesse momento? Eu creio que sim. E isso é um motivo de alegria e esperança. Se para chegar a ele, como para chegar à Redenção, é necessário que alguém entregue Cristo às mãos de seus inimigos (algo que vem sucedendo há muito, mas mais claramente agora), e esse agente do mal é Francisco, “o que deva fazer, que o faça logo”. Se pelo contrário, sua retratação e seu retorno ao caminho da fé fosse um milagroso desígnio de Deus, e o motivo para que sofresse o martírio, também rogamos que faça logo o que deva fazer.

Esclarecimento. Os leitores inadvertidos podem pensar que estes fatos referidos são vaticanofição. Cada afirmação tem fundamento em notícias comprovadas. A imprensa em geral e a TV em particular, formadora da agenda das “coisas que passam”, tem guardado astuto silêncio sobre estes temas, ou os trata superficialmente com um olhar ignorante ou tendencioso. Os fatos, não obstante, parecem iminentes.

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Fonte: http://panoramacatolico.info/articulo/lo-que-tengas-que-hacer-hazlo-pronto

Tradução: Fr. Zaqueu

Os quatro cardeais têm uma vantagem de 14 a 9. Mas também Leonardo Boff faz seu jogo

segundafeira

(Ilustração publicada em “The Remnant” em 30 de dezembro de 2016)

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Pouco antes do Natal eram dezoito os cardeais e bispos que se haviam pronunciado a favor ou contra às cinco dúvidas tornadas públicas em 14 de novembro por quatro cardeais em relação aos pontos controversos de “Amoris laetitia”, com a petição ao Papa Francisco de “trazer claridade”, petição que ainda não teve resposta.

Neste site de www.chiesa de 21 de dezembro havia uma resenha precisa de suas declarações:

> O Papa não responde aos quatro cardeais. Mas são poucos os que o justificam

Em um “Post Scriptum” se indicavam ademais outras três intervenções que elevavam o total a vinte e uma, das quais só oito eram contrárias à iniciativa dos quatro cardeais.

Mas depois disto outras duas vozes de cardeais e bispos se têm alçado, uma a favor e a outra contra.

A voz a favor dos quatro cardeais é a do bispo auxiliar de Salzburgo Andreas Laun, entrevistado em 23 de dezembro por Maike Hickson para o blog OnePeterFive:

> Bishop Andreas Laun on Amoris Laetitia and the Four Cardinals’ Dubia

A que apoia o Papa é a do cardeal Walter Kasper, em uma entrevista de 22 de dezembro à Radio Vaticana em língua alemã:

> Kardinal Kasper: “Amoris Laetitia ist klar”

Segundo Kasper, “naturalmente que se podem apresentar dúvidas e perguntas ao Papa, cada cardeal pode fazê-lo. Mas sobre o fato de que fosse uma boa ideia tornar pública esta petição de esclarecimento, tenho minhas dúvidas. Em minha opinião, a exortação apostólica é clara; há também declarações sucessivas do próprio Papa, a carta aos bispos argentinos, ou as declarações do cardeal vigário de Roma. Tem-se esclarecido o que o Papa diz e como o vê. Não há nenhuma contradição com as declarações de João Paulo II. É um desenvolvimento homogêneo. Esta é minha posição, tal como o vejo eu. A este propósito não existem dúvidas para mim”.

Portanto, no dia de hoje, entre os vinte e três cardeais e bispos que intervieram a pontuação é de 14 a 9 a favor dos quatro cardeais, sinal evidente de que suas “dubia” não são para nada consideradas inconsistentes e que a espera de um esclarecimento é cada vez mais firme e estendida.

*

Há que assinalar também que um dos quatro cardeais subscritores das “dubia”, o alemão Walter Brandmüller, interpelado por Andrea Tornielli para Vatican Insider, tem precisado o sentido da “correção formal” do Papa que manifestou outro dos signatários, o cardeal Raymond L. Burke:

> Brandmüller: “Any fraternal correction proposed to the Pope must be presented in camera caritatis”

“O cardeal – pontualizou Brandmüller – não disse que a correção formal tenha que ser pública, nem indicou uma data limite e estou convencido de que, em primeira instância, a correção terá lugar ‘in camera caritatis’[1]. O cardeal Burke expressou com plena autonomia sua opinião, que poderia ser compartilhada por outros cardeais, que de todas as formas procederão ‘in solido’[2]“.

“A intenção das ‘dubia’ – continua Brandmüller – é promover na Igreja o debate, como está sucedendo, enquanto se espera uma resposta, a falta da qual é vista por amplos setores da Igreja como uma rejeição a aderir-se de maneira clara e coerente à doutrina definida”.

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E se se estende esta resenha para além dos cardeais e bispos, há pelo menos uma intervenção que se é obrigado assinalar.

É a ampla entrevista publicada na Alemanha, no dia de Natal, com o teólogo brasileiro Leonardo Boff no periódico “Kölner Stadt-Anzeiger”:

> Leonardo Boff im Interview: “Papst Franziskus ist einer von uns”

Passagens da entrevista estão disponíveis tanto em inglês como em italiano.

Boff dedica esta passagem às “dubia”:

“O Papa sente a dureza dos ventos contrários que procedem das altas hierarquias, sobretudo dos Estados Unidos. Este cardeal Burke que agora, junto ao seu cardeal jubilado Meisner de Colônia, escreveu uma carta ao Papa, é o Donald Trump da Igreja católica (risos). Mas à diferença de Trump, Burke tem sido neutralizado na cúria. Graças a Deus. Esta gente crê de verdade que lhes corresponde a eles corrigir o Papa, como se estivessem por cima do Papa. Algo assim é inusual, não tem precedentes na história da Igreja. Alguém pode criticar o Papa, pode ter uma discussão com ele. Isto é algo que eu tenho feito continuamente. Mas que uns cardeais acusem publicamente o Papa de difundir erros teológicos ou inclusive heresias, penso que é demasiado. É uma afronta que o Papa não pode permitir. O Papa não pode ser julgado, este é o ensinamento da Igreja”.

Salvo que depois, na mesma entrevista, é ele, Boff, quem acusa de “grave erro teológico” e de “terrorismo religioso” a declaração “Dominus Iesus” publicada no ano 2000 pelo então cardeal Joseph Ratzinger com a plena aprovação do Papa João Paulo II.

Mas há outras passagens interessantes na entrevista.

Por exemplo, essa onde Boff explica por que o Papa Francisco teve que cancelar a audiência que lhe havia concedido a princípios do sínodo de 2015:

“Havia recebido um convite e já havia aterrissado em Roma. Mas precisamente nesse dia, justo antes do início [dos trabalhos] do sínodo sobre a família de 2015, treze cardeais – entre os quais o cardeal alemão Gerhard Müller – organizaram uma revolta contra o Papa com uma carta dirigida a ele que depois foi publicada, que casualidade!, por um periódico. O Papa estava furioso e me disse: ‘Boff, não tenho tempo. Tenho que reestabelecer a calma antes de que comece o sínodo. Nos veremos em outro momento'”.

Ou também onde diz “ter ouvido que o Papa quer acolher a petição explícita dos bispos brasileiros e, sobretudo, de seu amigo cardeal Cláudio Hummes de utilizar de novo no serviço pastoral os sacerdotes casados, ao menos durante um certo período de prova”.

Sem que, por outra parte, Boff esteja esperando do Papa esta via livre. Na entrevista, de fato, ele conta que ainda que esteja casado e, portanto, seja formalmente proibido de exercer seu ministério, faz “o que tenho feito sempre e quando estou em uma paróquia onde não há sacerdote celebro eu a missa junto ao povo e nunca nenhum bispo tem contestado isto ou mesmo proibido. Pelo contrário, os bispos estão contentes e me dizem: ‘A gente tem direito à eucaristia. Siga assim!’. Meu mentor teológico, o cardeal Paulo Evaristo Arns – que faleceu faz poucos dias – era, por exemplo, muito aberto neste sentido. Até o ponto de que se via sacerdotes casados sentados na nave durante a missa, os fazia subir ao altar e concelebrava a eucaristia com eles”.

(Traducción en español de Helena Faccia Serrano, Alcalá de Henares, España)

(Tradução ao português de Frei Zaqueu, Brasília, Brasil)

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Fonte: http://magister.blogautore.espresso.repubblica.it/2017/01/03/los-quatro-cardeais-têm-una-vantagem-de-14-a-9-mas-tambien-leonardo-boff-faz-su-jogo/?refresh_ce

[1] No sigilo da intimidade. No sentido da discrição que pede inicialmente a caridade. (ndt)

[2] Solidariamente. (ndt)

Créditos: Fr Zaqueu

Leonardo Boff: Francisco é um de Nós

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Leonardo Boff concedeu uma entrevista histórica ao jornal alemão Kölner Stadt-Anzeigerpublicada em 25 de dezembro de 2016. Segue-se a tradução que recolhi do site católico espanhol Religion Digital, em espanhol, e traduzi livremente.

É preciso lê-la completa. Alguns pontos que destaco: o bastidor da colaboração entre ele e o Papa na redação da encíclica Laudato Sii; a reabilitação da Teologia da Libertação; uma concepção renovada (e ao mesmo tempo ortodoxa) da encarnação de Cristo; a história do encontro frustrado com Francisco; o isolamento dos cardeais rebelados contra o Papa; a possibilidade concreta do diaconato das mulheres e do retorno dos padres casados ​​ao ministério -no caso dos padres, Boff antevê uma experiência exatamente no Brasil, a partir de um pedido dos bispos. Por fim, uma revelação bonita: com autorização e apoio dos bispos, Boff continua a presidir a missa quando está em comunidades sem padres, mesmo casado. Depois de anos e anos de perseguição da Cúria romana e dos conservadores no Brasil, Leonardo Boff continua fiel à Igreja.

Como é a fé em um “Deus da paz” de que nos fala o Natal, em meio à discórdia que experimentamos em toda parte?

A maior parte da fé é promessa. Ernst Bloch diz: “O verdadeiro Gênesis não acontece no início, mas no final, e seu começo é quando a sociedade e a existência são radicais.” A alegria do Natal é esta promessa: a terra e as pessoas não estão condenadas eternamente a viver como nós vemos agora – todas as guerras, a violência, o fundamentalismo. A fé nos promete que, ao final, tudo vai ficar bem: que, apesar de todos os erros e contratempos teremos um bom final. O verdadeiro significado do Natal não é que “Deus se fez homem”, mas que Ele veio para nos dizer. “Você, seres humanos, pertencem a mim e quando vier a morte vocês voltarão para casa” [a mim, editor deste Caminho pra Casa, este é um trecho que causou funda emoção, pois é este mesmo o espírito que levou ao nome deste blog]

O Natal significa então que Deus vem nos buscar?

Sim. A encarnação significa que algo em nós é divino e imortal. O Divino está dentro de nós. Em Jesus, isso demonstrou-se mais claramente. Mas está em todos os homens. Em uma perspectiva evolutiva Jesus não veio do exterior ao mundo, mas cresce a partir dele. Jesus é a manifestação do divino em evolução – mas ele não é o único. O Divino também aparece em Buda, Mahatma Gandhi e outras grandes figuras religiosas.

Isso não soa muito católico.

Não diga isso. Toda a teologia franciscana da Idade Média compreendia Cristo como parte da criação, não apenas como o redentor da culpa e do pecado, que vem de fora do mundo. Encarnação é redenção, sim. Mas, acima de tudo, é uma celebração, uma divinização da criação. E outra coisa é importante no Natal: Deus aparece sob a forma de uma criança. Não como um velho de cabelos brancos e barba branca longa …

Então, como você? …

Nada disso, eu me pareço mais com Karl Marx. No que me concerne: quando nós terminamos nossas vidas e devemos responder ao juiz divino, então estamos diante de uma criança. Uma criança não condena ninguém. Uma criança que quer brincar e estar com os outros. Precisamos voltar a sublinhar este aspecto da fé.

A Teologia da Libertação na América Latina, da qual você é um dos representantes proeminentes, teve uma revalorização com Francisco. Há perspectiva de uma reabilitação pessoal a você, depois de décadas de luta com o Papa João Paulo II e seu guardião supremo da fé, Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI?

Francisco é um de nós. Ele partiu do patrimônio comum da Igreja da Teologia da Libertação. E o tem expandido. Aqueles que falam dos pobres têm agora a falar da terra, porque também é saqueada e profanada. “Ouvi o grito dos pobres”, o que significa que para ouvir o grito dos animais, das florestas, ouvir a totalidade do sofrimento da criação. Toda a terra chora. Assim diz o Papa, referindo-se ao título de um de meus livros; há que se escutar o grito dos pobres e o da terra hoje. E ambos têm de ser libertados. Eu mesmo trabalhei com esta expansão da Teologia da Libertação. E isto é fundamentalmente novo na “Laudato si” …

… A “eco-Encíclica” do Papa de 2015. Quanto há de Leonardo Boff em Jorge Mario Bergoglio?

A encíclica pertence ao Papa. Mas muitos especialistas foram consultados.

Ele já leu seus livros?

Mais que isso. Ele me pediu material para “Laudato si”. Eu dei o meu conselho e enviei-lhe um pouco do que escrevi. E foi utilizado. Algumas pessoas me disseram que ao ler, pensaram:  “isto é Boff!”. A propósito, Francisco disse: “Boff, por favor, não envie documentos diretamente para mim.”

E porque não?

Ele disse: “Porque senão os secretários da Cúria pegam eu eu não recebo… Envia tudo ao sim o embaixador argentino com quem tenho um bom relacionamento, e chegará tudo com segurança às minhas mãos.” Você tem que entender que o atual embaixador argentino para o Vaticano é um velho amigo do tempo Papa em Buenos Aires. Muitas vezes beberam mate juntos. Um dia antes da publicação da encíclica, o Papa fez me chamar para expressar sua gratidão por minha ajuda.

Um encontro pessoal com o Papa ainda está pendente?

Ele procurou a reconciliação com os principais representantes da Teologia da Libertação, Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino … até a mim. Eu disse a respeito de Bento, Joseph Ratzinger, “mas ele ainda está vivo!”. O Papa não retrucou. “Não”, ele disse, “sono io il Papa” – “sou eu o Papa.” Ficamos em silêncio. Assim você pode ver sua coragem e determinação.

Francisco brinca com filhos de presidiários, em Roma (2014)

Por que então ele não houve a sua visita?

Recebi o convite e cheguei a desembarcar em Roma. Mas neste dia, pouco antes do Sínodo da Família, 2015, 13 cardeais – incluindo o cardeal alemão Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé tentaram uma rebelião contra o Papa. Mandaram uma carta privada  a ele, e então – maravilha das maravilhas! – ela apareceu nos jornais. O Papa ficou furioso e disse: “Boff, eu não tenho tempo agora. Tenho que acalmar as coisas antes do Sínodo Irei vê-lo em outra ocasião…”

Mas ele não conseguiu acalmar as coisas, não é?

O Papa sentiu o sopro dos ventos contrários dentro de suas próprias fileiras, especialmente dos Estados Unidos. Este cardeal Burke, Leo Burke, que agora – juntamente com o Meisner, cardeal emérito de Colônia – escreveu uma carta, é o Donald Trump da Igreja Católica (risos). Mas, ao contrário de Trump, Burke está congelado na Curia. Graças a Deus. Essas pessoas realmente acreditam que deveriam corrigir o Papa. Como se fossem acima do Papa. Isso é incomum, senão inédito na história da Igreja. Pode-se criticar o Papa, discutir com ele. Eu o fiz com bastante freqüência. Mas esses cardeais acusam publicamente o Papa de propagação de erros teológicos ou heresias – em minha opinião – o que é demasiado. É uma afronta que o próprio Papa não pode tolerar. O Papa não pode ser condenado, isso é doutrina da Igreja

Apesar de seu entusiasmo com o Papa o que acontece com as reformas da igreja, que muitos católicos esperavam de Francisco, mas que não estão realmente acontecendo?

Pelo que entendi, o centro de seu interesse não é mais a Igreja, não é a atuação da Igreja, mas a sobrevivência da humanidade, o futuro da Terra. Ambos estão em perigo, e você tem que se perguntar se o cristianismo pode ajudar a superar esta grave crise da humanidade, que está sob ameaça de perecer.

Francisco se preocupa com o meio ambiente, e, entretanto, ele continua sua igreja antes de uma parede?

Eu acho que, para ele, existe uma hierarquia de problemas. Quando se destrói a Terra, há uma carga enorme de novos problemas. Mas, quanto aos assuntos internos da Igreja, temos que esperar! Ainda no outro dia, o cardeal Walter Kasper, um homem de confiança do Papa, disse que em breve haverá grandes surpresas.

O que você espera?

Quem sabe? Talvez o diaconato das mulheres. Ou a possibilidade de padres casados ​​poderem ser reintegrados ao ministério. Este é um pedido formal ao Papa feito pelos bispos brasileiros, especialmente seu amigo, o cardeal emérito brasileiro Claudio Hummes. Ouvi dizer que o Papa quer responder a este pedido com uma primeira fase experimental no Brasil. Este país tem 140 milhões de católicos e deveria ter pelo menos 100 mil sacerdotes. Mas há apenas 18 mil. Do ponto de vista institucional, é um desastre. Não é de se admirar que os fiéis migrem em massa para os evangélicos e pentecostais, que preenchem este vazio pessoal. Agora, se milhares de padres casados ​​voltarem ao exercício de suas funções novamente, seria um primeiro passo para melhorar a situação – enquanto um impulso para a Igreja Católica para resolvem o cativeiro do celibato obrigatório.

Se o Papa decidir a este respeito, você também assumiria funções sacerdotais novamente, como um ex-padre franciscano?

Pessoalmente, eu não preciso de uma decisão deste tipo. Não mudaria o que estou fazendo hoje, o que sempre fiz: batismo, funeral e, quando eu chego a uma comunidade sem um padre, também celebro a missa junto com as pessoas.

Carinho com o professor, dom Paulo Evaristo Arns

Uma questão alemã: isso é admissível?

Até agora, nenhum bispo que eu conheço nunca se opôs ou mesmo proibiu. Os bispos também se alegram e dizer: “As pessoas têm o direito à Eucaristia.Siga fazendo isso com tranquilidade!” Meu professor de teologia, que infelizmente morreu há poucos dias, o cardeal Paulo Evaristo Arns, por exemplo, teve um elevado grau de abertura. Ele foi muito longe: quando via padres casados nos bancos da Igreja em uma celebração, convidava-os ao altar para celebrar a Eucaristia com eles. Eu o vi dizer muitas vezes: “Você é sacerdote e continua a ser.”

Fonte: http://outraspalavras.net/maurolopes/2017/01/03/uma-entrevista-historica-de-leonardo-boff/

Bispo Conley: da mesma forma que toda pessoa consciente de graves pecados, os divorciados adúlteros não podem comungar

bispo

Em uma carta dirigida a seus sacerdotes e seminaristas, Mons. James Conley, bispo de Lincoln (Nebraska, EUA), assegurou que a clareza e a renovação podem ser o fruto das disputas e desacordos sobre a exortação apostólica Amoris laetitia. 17/12/16 13:22

(CNA/InfoCatólica) – Tradução Frei Zaqueu – «Amoris Laetitia continuará sendo discutida entre os bispos da Igreja e o Santo Padre, para trazer clareza e entendimento a perguntas difíceis», escreveu o bispo Conley em uma carta fechada em 5 de dezembro passado.

O prelado assegurou que compreende «que o desacordo público na Igreja possa converter-se em uma fonte de desânimo. A história da Igreja inclui grandes disputas teológicas, que têm sido a fonte de divisão, mas que, em última instância, têm levado à clareza e à renovação».

Mons. Conley recordou que «a Igreja é a Esposa de Cristo, está protegida e guiada pelo Espírito Santo… Podemos ter confiança na graça perdurável de Deus para conduzir-nos, como o tem feito em muitos momentos de dificuldade ou desacordo na história da Igreja. As lições da história são que não devemos sentir-nos consternados ou ansiosos pelos desafios de nosso próprio tempo».

«O desacordo e o conflito na Igreja pode ser inquietante», escreve o bispo. «Não obstante, momentos de sincero desacordo proporcionam a ocasião para que o Espírito Santo traga uma clareza mais profunda a nossa compreensão e proclamação da fé. As perguntas que se fazem ao Santo Padre pretendem ajudar a lograr a clareza».

Mons. Conley agregou que a discussão sobre Amoris laetitia «é uma oportunidade para crescer em nossa compreensão do ensinamento da Igreja sobre os sacramentos, a natureza da misericórdia, o processo de evangelização e conversão e a missão pastoral de solidariedade e acompanhamento. Sei que muitos dos senhores têm perguntas sobre o significado de Amoris Laetitia, e seu impacto em nosso ministério pastoral. Estou escrevendo para tratar essas perguntas».

O bispo reconheceu que a exortação contém «reflexões profundas sobre a vida familiar no mundo moderno e sobre o significado da misericórdia e da caridade no ministério pastoral … o Santo Padre nos chama a discernir os corações dos confiados a nosso cuidado, para facilitar um encontro significativo com Jesus Cristo, que nos ama e que nos chama ao amor de maneira única, exclusiva e irrevogável».

Também afirmou que Amoris laetitia «inclui algumas passagens que têm demostrado ser difíceis de interpretar e entender, especialmente no que se refere à atenção pastoral dos católicos que se divorciam e tornam a unir-se1 civilmente, ou coabitam».

O bispo Conley afirmou que a exortação «não repudia a indissolubilidade do matrimônio nem os ensinamentos morais da Igreja com respeito ao divórcio», e tampouco «muda o entendimento da Igreja de que a consciência deve ser formada segundo a verdade e que uma consciência bem formada não pode guiar-nos de uma maneira contrária à revelação divina».

«As relações sexuais fora dos vínculos do matrimônio constituem circunstâncias de grave pecado», disse o bispo Conley. «O Senhor chama aos que estão divorciados e se tornem a unir2 civilmente, ou que estão convivendo, à continência … como toda pessoa que é consciente de graves pecados, divorciados e unidos3 civilmente, os católicos que se envolvem em relações sexuais contínuas não podem aproximar-se à Santa Comunhão».

Por último, o prelado indicou que «a fiel atenção pastoral requer que alentemos aos católicos a viver segundo o ensinamento do Evangelho, e os acompanhemos à medida que cresçam na compreensão e aceitação do chamado do Senhor … a meta de nosso ministério pastoral é a salvação das almas. E dito ministério se leva a cabo mediante a cooperação com a graça, e a obediência à verdade».

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Fonte: http://www.infocatolica.com/?t=noticia&cod=28057

Créditos; Fr Zaqueu