Sobre a “Alegria do Amor”

papa rindo

 

Pe. Marcélo Tenorio

 

Recentemente foi divulgada a nova Exortação Apostólica do Papa Francisco sobre a Família, como conclusão oficial do último Sínodo. O papa escolheu como título ” Amoris Laetitia” – a “Alegria do Amor”. Aliás o tema da “alegria” está bem presente na visão do Papa, basta nos lembrar da Evangelii Gaudium.

Li a referida exortação. Percebe-se, logo de início, que nada tem de gozosa. Ela é extensa por demais, complexa e cansativa.

Dá-se a impressão que se está dentro de uma espiral que ora gira para um lado, ora para o outro, deixando zonzo quem se dá à leitura.

É necessário uma parada, um chazinho bem quente, fôlego e muita determinação para se chegar ao fim do documento.

Repete-se o estilo da Evangelii Gaudium, que prefiro chamar de “Dolor Fidelium”. Mas nesta, por excelência e complexidade, é notada uma ausência de clareza quanto à doutrina e disciplina dos sacramentos. Há um teor pastoral excessivo diante da escassez do fundamento tradicional da Igreja Católica que deveria se ver logo na introdução, para, após ter lugar o embasamento na Verdade Católica, para então avançar nas problemáticas hodiernas e novos desafios pastorais.

Se é verdade que pelos frutos conhecemos a arvore, pelas notas conhecemos um livro. Toda base do documento é eminentemente conciliar, ficando a cargo da Gaudium et Spes, a soberania no assunto. A linha com a Arcanum Divinae Sapíentiae, de Leão XIII – 1880 e com a Casti Connubi, de Pio XI – 1930, parece ter sido interrompida. É bem verdade que esta última aparece uma única vez…O que predomina em todo texto é a Gaudium et spes, Familiaris Consortio, de João Paulo II e um pouco de Paulo VI, em sua Humanae Vitae.

Em todo o corpo há um embate entre Francisco de um lado e o Catecismo e Familiaris Consortio, do outro. Digo isto porque é justamente aqui que se encontra a fragilidade do documento. Se a Verdade católica é colocada e assegurada, noutra parte, nas colocações de Francisco, ou é negada ou obscurecida.

Vejamos alguns aspectos do documento:

  1. “Algumas formas de união contradizem radicalmente este ideal, enquanto outras o realizam pelo menos de forma parcial e analógica. Os Padres sinodais afirmaram que a Igreja não deixa de valorizar os elementos construtivos nas situações que ainda não correspondem ou já não correspondem à sua doutrina sobre o matrimônio.

Ora, as formas que contradizem radicalmente o Matrimônio Sacramental são justamente as uniões naturais ou ainda o as uniões adúlteras ou uniões não naturais, objetivamente Pecado Mortal. Onde estão e quais são, então, esses elementos “construtivos” ? Seria grave afirmar que de um princípio mal, tivéssemos um bem, como nos ensina o aquinate.

«Na abordagem pastoral das pessoas que contraíram matrimônio civil, que são divorciadas novamente casadas, ou que simplesmente convivem, compete à Igreja revelar-lhes a pedagogia divina da graça nas suas vidas e ajudá-las a alcançar a plenitude do desígnio que Deus tem para elas» sempre possível com a força do Espírito Santo…(297).

Mas de que “Graça” se fala aqui?A Santificante? Impossível! Pois não se tem um estado de vida de acordo com os princípios sacramentais. A Graça atual ? Esta até poderia, entretanto ela existe como meio para se voltar à Santificante, pela conversão e mudança de vida.E a extraordinária?Bem temerário esperar por ela, não acham ? Mas além da “’Graça”, onde ficam as obras ?

São colocações sérias de um papa. Os princípios gerais são perigosos à toda disciplina sacramental. A subjetividade do texto deixa brechas para todos os lados e gera entendimentos diversos, interpretações outras em matéria tão importante.

Como negar a comunhão aos irregulares e em pecado objetivo diante de tudo isso ?

“Ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho! Não me refiro só aos divorciados que vivem numa nova união, mas a todos seja qual for a situação em que se encontrem.” (297)

Aqui parece se aplicar a teoria da “Salvação Universal” tão querida por João Paulo II, e a ideia de que se o inferno existe, ele estaria vazio. Não mais condenações, não mais ascese, não mais penitentes, só misericórdia, “Gaudium et gaudium”

E o que faremos agora diante das severas advertências do Senhor de estarmos prontos e preparados para o dia do juízo ?

Dies irae, dies illa

solvet saeclum in favilla

teste David cum Sibylla

Diante das contradições que acabamos de perceber,precisaria de um documento explicando o Documento, prova de fogo para um Pe. Lombardi, se não tivesse sido aposentado…

Por exemplo ,a proibição da comunhão aos que estão em situação de adultério, como sempre foi ensinado pela Igreja, em nenhum momento aparece no texto, há um silêncio ensurdecedor sobre esta disciplina, entretanto podemos ler no 301:

“Por isso, já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada «irregular» vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante.”

Diante desta afirmação do papa, melhor calar.

“ Senhor, a quem iremos ?……” ( Jo 6,68).

É verdade que nos encontramos diante de um pontificado polêmico. São muitos os que aplaudem Francisco e , infelizmente, muitos inimigos da Igreja se regozijam com o papa.

É também verdade que suas falas geram desentendimentos e várias interpretações. O próprio Francisco, ciente disso e sabendo que alguns o acusava de “não muito católico” chegou a dizer que era católico e que se necessário fosse, recitaria publicamente o Credo:

“Perguntam-me se eu sou católico? Se quiserem, posso recitar o Credo…” (durante a viagem de Santiago de Cuba a Washington).

Cena como esta jamais seria imaginada nos tempos em que a clareza e objetividade emanavam da boca do Papa. Antigamente a luz da Igreja iluminava o mundo, hoje parece que a escuridão do mundo ofusca a Verdade da Igreja.

Faço minhas as palavras o filósofo Olavo de Carvalho:

“Notem bem: O Papa não está lá [no trono de Pedro] para desfrutar sempre da nossa paternal condescendência na interpretação das suas palavras. Ele está lá para nos ensinar e guiar. É um pai e não um jovem inexperiente que precise de compreensão e tolerância. Chega de alegar sempre a desculpa da ignorância, das boas intenções mal expressas, das ambigüidades de linguagem, etc. Estamos fazendo isso desde 1962 e vejam no que deu. Pio XII jamais precisou que alguém explicasse “o que ele queria realmente dizer”. Ele dizia o que pensava realmente, e todo mundo compreendia. A simples ambigüidade de expressão, na boca de um papa, já é intolerável”

Rezemos sempre pelo Papa e pela Igreja em seu ocaso

 

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Após 10 dias que estivemos em Recesso, nosso Blog volta com suas atualizações. Na Terra Santa, onde estávamos, rezamos por todos os nossos leitores, colaboradores e amigos.

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Pe. Marcélo Tenorio