PORQUE OS CATÓLICOS ESTÃO PERPLEXOS?

Lefebvre1
Que os católicos deste final do século XX estejam perplexos, quem o negará? Que o fenômeno seja relativamente recente, correspondendo aos vinte últimos anos da História da Igreja, basta observar o que sucede para estar persuadido disto. Há pouco tempo, o caminho estava inteiramente traçado; ou se seguia ou não. Tinha-se a fé, ou então se tinha perdido, ou ainda jamais se tivera. Mas quem a possuía, quem havia entrado na santa Igreja pelo batismo, renovado suas promessas pela idade de onze anos, recebido o Espírito Santo no dia de sua confirmação, este sabia o que devia crer e o que devia fazer.
Hoje, muitos não mais o sabem. Ouvem-se nas igrejas tantos ditos estarrecedores, lêem-se tantas declarações contrárias ao que tinha sido sempre ensinado, que a dúvida se insinuou nos espíritos.
No dia 30 de junho de 1968, encerrando o Ano da Fé, S.S. Paulo VI fazia, diante de todos os bispos presentes em Roma e de centenas de milhares de fiéis uma profissão de fé católica. Em seu preâmbulo, ele prevenia cada um deles contra os danos causados à doutrina pois, dizia, “seria engendrar, como infelizmente se vê hoje, a perturbação e a perplexidade de muitas almas fiéis”.
A mesma palavra se encontra numa alocução de S.S. João Paulo II a 6 de fevereiro de 1981: “Os cristãos de hoje em grande parte, se sentem perdidos, confusos, perplexos e mesmo decepcionados.” O Santo Padre resumia as causas deste fato da seguinte maneira:
“De todos os lados espalharam-se idéias que contradizem a verdade que foi revelada e sempre ensinada. Verdadeiras heresias foram divulgadas nos domínios do dogma e da moral, suscitando dúvidas, confusão, rebelião. A própria liturgia foi violada. Mergulhados num ”relativismo” intelectual e moral, os cristãos são tentados por um iluminismo vagamente moralista por um cristianismo sociológico, sem dogma definido e sem moralidade objetiva.” Esta perplexidade se manifesta a todo o instante nas conversas, nos escritos, nos jornais, nas emissões radiofônicas ou televisionadas, no comportamento dos católicos, traduzindo-se este último numa diminuição considerável da prática como o testemunham as estatísticas, uma desafeição relativamente à missa e aos sacramentos, um relaxamento geral dos costumes.
Foi-se levado a perguntar, por conseguinte, o que provocou um tal estado de coisas. A todo efeito corresponde uma causa. É a fé dos homens que diminuiu, por um eclipse da generosidade da alma, um apetite de gozo, uma atração pelos prazeres da vida e pelas múltiplas distrações que oferece o mundo moderno? Não são estas as verdadeiras razões, elas sempre existiram dum modo ou de outro; a queda rápida da prática religiosa provém antes do espírito novo que se introduziu na Igreja e que lançou a suspeita sobre um passado inteiro de vida eclesiástica, de ensino e de princípios de vida. Tudo isto se fundava sobre a fé imutável da Igreja, transmitida pelos catecismos que eram reconhecidos por todos os episcopados.
A fé se estabelecia sobre certezas. Abalando-as, semeou-se a perplexidade.
Tomemos um exemplo: a Igreja ensinava — e o conjunto dos fiéis acreditava — que a religião católica era a única verdadeira. Com efeito, ela foi fundada pelo próprio Deus, enquanto que as outras religiões são obra dos homens. Em conseqüência disto o cristão deve evitar toda relação com as falsas religiões e de outra parte, fazer tudo para trazer os seus adeptos à religião de Cristo.
Isto é ainda verdadeiro? Com toda a segurança. A verdade não pode mudar, senão jamais teria sido verdade. Nenhum dado novo, nenhuma descoberta teológica ou científica — se é que podem existir descobertas teológicas — jamais fará com que a religião católica não seja mais o único caminho da salvação.
Mas eis que o próprio papa assiste a cerimônias religiosas destas falsas religiões, reza e prega nos templos de seitas heréticas. A televisão espalha no mundo inteiro as imagens destes contatos estarrecedores. Os fiéis não compreendem mais.
Lutero — e eu tornarei a isto nas páginas que seguem — separou da Igreja povos inteiros, transtornou a Europa espiritual e politicamente, arruinando a hierarquia católica, o sacerdócio católico, inventando uma falsa doutrina da salvação, uma falsa doutrina dos sacramentos. Sua revolta contra a Igreja será o modelo seguido por todos os futuros revolucionários que lançarão a desordem na Europa e no mundo. É impossível, quinhentos anos mais tarde, fazer dele, como alguns quereriam, um profeta ou um doutor da Igreja, quando não um santo.
Ora, se eu leio a Documentation Catholique1 ou as revistas diocesanas, encontro escrito aí, pela pena da Comissão mista católico-luterana, oficialmente reconhecida pelo Vaticano I:
“Entre as idéias do concílio Vaticano II, onde se pode ver um acolhimento dos postulados de Lutero, se acham por exemplo:
— a descrição da Igreja como “Povo de Deus” (idéia mestra do novo direito canônico: idéia democrática e não mais hierárquica);
— o acento colocado sobre o sacerdócio de todos os batizados;
— o compromisso em favor do direito da pessoa à liberdade em matéria de religião.
Outras exigências que Lutero tinha formulado em seu tempo podem ser consideradas como sendo satisfeitas na teologia e na prática da Igreja de hoje: o emprego da língua vulgar na liturgia, a possibilidade da comunhão sob as duas espécies e a renovação da teologia e da celebração da Eucaristia.”
Que confissão considerável! Satisfazer às exigências de Lutero, que se mostrou o inimigo resoluto e brutal da missa e do papa! Dar acolhimento aos postulados do blasfemador que dizia: “Eu afirmo que todos os lupanares, os homicídios, os roubos, os adultérios são menos maus que esta abominável missa!” Desta reabilitação tão aberrante não se pode tirar senão uma conclusão: ou se deve condenar o concílio Vaticano II que a autorizou, ou se deve condenar o concílio de Trento e todos os papas que, desde o século XVI, declararam o protestantismo herético e cismático.
Compreende-se que diante de uma tal reviravolta os católicos estejam perplexos. Mas eles têm tantos motivos de o estar! No decurso dos anos presenciaram a transformação do fundo e da forma das práticas religiosas que os adultos tinham conhecido na primeira parte de sua vida. Nas igrejas, os altares foram destruídos ou mudados de destino em proveito de uma mesa, freqüentemente móvel ou encaixada. O tabernáculo não ocupa mais o lugar de honra, na maior parte das vezes; foi dissimulado sobre um sustentáculo e posto ao lado: onde ele ficou no centro o sacerdote ao rezar a missa, lhe volta as costas. Celebrante e fiéis face a face, dialogando em conjunto. Qualquer um pode tocar os vasos sagrados, freqüentemente substituídos por cestos, pratos, tigelas de louça; leigos, inclusive mulheres, distribuem a comunhão que se recebe na mão. O Corpo de Cristo é tratado com uma falta de reverência que insinua a dúvida sobre a realidade da transubstanciação.
Os sacramentos são administrados dum modo que varia conforme os lugares; tomarei como exemplos a idade do batismo e da confirmação, o da bênção nupcial acompanhada de cantos e de leituras que nada têm a ver com a liturgia, tomadas de empréstimo a outras religiões ou de uma literatura decididamente profana, quando não exprimem simplesmente idéias políticas.
O latim, língua universal da Igreja, e o gregoriano desapareceram de um modo quase geral. A totalidade dos cânticos foi substituída por cantigas modernas, nas quais não é raro encontrar os mesmos ritmos que os dos lugares de prazer.
Os católicos ficaram surpresos também pelo brusco desaparecimento do hábito eclesiástico, como se os sacerdotes e as religiosas tivessem vergonha de aparecer com tais.
Os pais que enviam seus filhos ao catecismo verificam que não mais se lhes ensinam as verdades da fé, mesmo as mais elementares: a Santíssima Trindade, o mistério da Encarnação, a Redenção, o pecado original, a Imaculada Conceição. Daí se origina um sentimento de profunda confusão: tudo isto não é mais verdade, está caduco, “ultrapassado”? As próprias virtudes cristãs não são mais mencionadas; em que manual de catequese, por exemplo, se fala da humildade, da castidade, da mortificação? A fé se tornou um conceito flutuante, a caridade uma espécie de solidariedade universal e a esperança é sobretudo a esperança num mundo melhor.
Tais novidades não são aquelas que, na ordem humana, aparecem com o tempo, às quais nos habituamos, a que assimilamos depois de um primeiro período de surpresa e de hesitação. No decorrer da vida de um homem, muitas maneiras de comportamento se transformam; se eu fosse ainda missionário na África dirigir-me-ia para lá de avião e não mais de navio quando não fosse senão pela dificuldade de encontrar uma companhia marítima que fizesse ainda o trajeto. Neste sentido pode-se dizer que é preciso viver com o seu tempo e ademais se está obrigado a isso.
Mas os católicos aos quais se quis impor novidades na ordem espiritual e sobrenatural em virtude do mesmo princípio, compreenderam bem que isto não era possível. Não se muda o Santo Sacrifício da Missa, os sacramentos instituídos por Jesus Cristo, não se muda a verdade revelada uma vez por todas, não se substitui um dogma por outro.
As páginas que vão seguir quereriam responder às questões que vós vos pondes, vós que conhecestes uma outra face da Igreja. Elas quereriam também esclarecer os jovens nascidos depois do concílio e aos quais a comunidade católica não oferece o que eles têm direito de esperar dela. Desejaria, enfim, dirigir-me aos indiferentes ou aos agnósticos que a graça de Deus tocará num dia ou noutro mas que correm o risco de encontrar então igrejas sem sacerdotes e uma doutrina que não corresponde às aspirações de sua alma.
E ademais é com toda a evidência, uma questão que interessa a todo o mundo, se se julga pelo interesse que nisto demonstra a imprensa de informação geral, em particular  em nosso país. Os jornalistas também dão mostras de perplexidade. Alguns títulos ao acaso: “O cristianismo vai morrer?”, “Haverá ainda sacerdotes no ano 2000?”
A estas perguntas eu quero responder, não trazendo de minha parte teorias novas, mas me referindo à Tradição ininterrupta e entretanto tão abandonada nestes anos que a muitos leitores ela aparecerá como qualquer coisa de novo.

1.La Documentation Catholique, 3 de julho de 1983, n.º 1085, pp. 696-697.

Carta Aberta aos Católicos Perplexos – D. Marcel Lefebvre

FSSPX: CRIADA OFICIALMENTE A “CASA AUTÔNOMA DO BRASIL”

Conforme anunciado anteriormente, nesse último domingo, 19/03, foi criada oficialmente a Casa Autônoma da FSSPX no Brasil.

A data foi escolhida para que essa nova etapa da Fraternidade no Brasil esteja sob o patrocínio de São José, patrono da Igreja.

Mais de 300 pessoas se apertaram no Priorado Pe. Anchieta para assistir a Missa solene cantada pelo Pe. Pablo Suárez (ecônomo da FSSPX), tendo como assistentes o Pe. Juan María de Montagut (antigo Prior do Priorado de São Paulo, agora Superior da Casa Autônoma) e o Pe. Mario Trejo (Superior do Distrito da América do Sul).

Nessa nova etapa, pelos regulamentos internos da FSSPX, haverá maior autonomia na administração dos 3 Priorados existentes no Brasil (São Paulo/SP, Santa Maria/RS e Bom Jesus do Itabapoana/RJ) que são responsáveis por 16 centros de Missa e capelas pelo Brasil, bem como na abertura de novas Missões. Hoje a Fraternidade conta com 10 padres aqui no país (inclusive 1 recém ordenado em 2016) e mais 5 seminaristas brasileiros que serão ordenados em 2017/2018 em La Reja (Arg) e que contribuirão na expansão do apostolado em nossa terra.

Após a Missa houve um almoço comemorativo em umHOTEL da cidade.

No final da tarde houveram também: o Canto solene das Vésperas e a Benção do Santíssimo.

Rezemos para que a FSSPX cresça no seu trabalho em favor da Igreja. Que São José e São Pio X mantenha seus incansáveis padres firmes em suas missões e que Nossa Senhora (ouvindo nossas orações – na Cruzada de Rosários pelo centenário de Fátima) dê uma proteção especial à Fraternidade.

“Senhor, dai-nos sacerdotes,

Senhor, dai-nos santos sacerdotes,

Senhor, dai-nos muitos santos sacerdotes,

Senhor, dai-nos muitas santas vocações religiosas,

Senhor, dai-nos famílias católicas, 

São Pio X, rogai por nós”

Fonte: http://catolicosribeiraopreto.com/criada-oficialmente-a-casa-autonoma-do-brasil/

SÃO VICENTE DE LÉRINS: REGRA PARA DISTINGUIR A VERDADE CATÓLICA DO ERRO

sao

Tradução de Airton Vieira – São Vicente de Lérins foi um Padre da Igreja do século V. Sobre sua vida se possuem escassos dados; só os de uma breve notícia que lhe dedica o marselhês Genadio (De viris illustribus, 64; PL 58,1097-98) e os que se desprendem de sua obra mais importante: o Commonitorio. Era de origem francesa, ainda que se ignora o lugar de seu nascimento e onde passou sua vida, somente que, se fez religioso uma vez «afugentados os ventos da vaidade e da soberba, aplacando a Deus com o sacrifício da humildade cristã». Teve um passado tempestuoso, como parece deduzir-se de certa alusão que faz em um de sus livros? Não é seguro, possivelmente a ênfase que põe em suas palavras há que atribui-la à severidade com que os santos costumam julgar-se a si mesmos.

O que sim é indubitável é que foi um homem muito douto nas Escrituras e nos dogmas e com profundos conhecimentos das letras clássicas. Sacerdote no mosteiro da ilha de Leríns (chamada hoje de São Honorato), com o pseudônimo de Peregrino compôs um tratado contra os hereges. Genadio narra também que é autor de outra obra de tema análogo, cujo manuscrito foi roubado, pelo que elaborou um breve resumo, que sim se conserva. Morreu no reinado de Teodosio e Valentiniano, pouco antes do 450. O Commonitorio está escrito três anos depois do Concílio de Éfeso, ou seja, o ano 434.

Este pequeno livro, cheio de vigor e ciência, tem atraído a atenção dos estudiosos sobretudo a partir do s. XVI, e suas afirmações têm sido muito tidas em conta em momentos de confusão doutrinal, desde as polêmicas entre protestantes e católicos do s. XVII até a crise modernista, porque nele se encontra um excelente testemunho cristão e resposta ante os riscos de ceticismo e de relativismo teológico. Em efeito, os temas chaves do tratado são: fidelidade à Tradição e progresso dogmático. O Conmonitorio é um dos livros que mais história deixou a posteriori. Hoje passam de 150, entre edições e traduções a diversas línguas.

A palavra Conmonitorio, bastante frequente como título de obras naquela época, significa notas ou apontamentos postos por escrito para ajudar à memória, sem pretensões de compor um tratado exaustivo. Nesta obra, São Vicente de Lérins se propôs facilitar, com exemplos da Tradição e da história da Igreja, os critérios para conservar intacta a verdade católica.

Não recorre a um método complicado. As regras que oferece para distinguir a verdade do erro podem ser conhecidas e aplicadas por todos os cristãos de todos os tempos, pois se resume em uma notória fidelidade à Tradição viva da Igreja.

O Conmonitorio constitui uma joia da literatura patrística. Seu ensino fundamental é que os cristãos têm de crer quod semper, quod ubique, quod ab ómnibus: só e tudo quanto foi crido sempre, por todos e em todas as partes. Vários Papas e Concílios têm confirmado com sua autoridade a validez perene desta regra de fé. Segue sendo plenamente atual este pequeno livro escrito em uma ilha do sul da França, há mais de quinze séculos.

Vejamos agora um resumo das ensinos de São Vicente que seguem plenamente atuais:

REGRA PARA DISTINGUIR A VERDADE CATÓLICA DO ERRO

Havendo interrogado com frequência e com o maior cuidado e atenção a numerosíssimas pessoas, sobressalentes em santidade e em doutrina, sobre como poder distinguir por meio de uma regra segura, geral e normativa, a verdade da fé católica da falsidade perversa da heresia, quase todas me têm dado a mesma resposta: «Todo cristão que queira desmascarar as intrigas dos hereges que brotam ao nosso redor, evitar suas armadilhas e manter-se íntegro e incólume em uma fé incontaminada, deve, com a ajuda de Deus, apetrechar sua fé de duas maneiras: com a autoridade da lei divina antes de tudo, e com a tradição da Igreja Católica»… É pois, sumamente necessário, ante as múltiplas e enrevesadas tortuosidades do erro, que a interpretação dos Profetas e dos Apóstolos se faça seguindo a pauta do sentir católico. Na Igreja Católica há que pôr o maior cuidado para manter o que tem sido crido em todas as partes, sempre e por todos. Isto é o verdadeira e propriamente católico, segundo a ideia de universalidade que se encerra na mesma etimologia da palavra. Mas isto se conseguirá se nós seguimos a universalidade, a antiguidade, o consenso geral. Seguiremos a universalidade, se confessamos como verdadeira e única fé a que a Igreja inteira professa em todo o mundo; a antiguidade, se não nos separamos de nenhuma forma dos sentimentos que notoriamente proclamaram nossos santos predecessores e padres; o consenso geral, por último, se, nesta mesma antiguidade, abraçamos as definições e as doutrinas de todos, ou de quase todos, os Bispos e Mestres.

EXEMPLO DE COMO APLICAR A REGRA

Qual deverá ser a conduta de um cristão católico, se alguma pequena parte da Igreja se separa da comunhão na fé universal?

-Não cabe dúvida de que deverão antepor a saúde do corpo inteiro a um membro podre e contagioso.

-Mas, e se se trata de uma novidade herética que não está limitada a um pequeno grupo, mas que ameaça com contagiar à Igreja inteira?

-Em tal caso, o cristão deverá fazer todo o possível para aderir-se à antiguidade, a qual não pode evidentemente ser alterada por nenhuma nova mentira.

E se na antiguidade se descobre que um erro tem sido compartilhado por muitas pessoas, ou inclusive por toda uma cidade, ou por uma região inteira?

-Neste caso porá o máximo cuidado em preferir os decretos -se os há- de um antigo Concílio Universal, à temeridade e à ignorância de todos aqueles.

E se surge uma nova opinião, acerca da qual nada há sido ainda definido?

-Então indagará e confrontará as opiniões de nossos maiores, mas somente daqueles que, sempre permaneceram na comunhão e na fé da única Igreja Católica e vieram a ser mestres provados da mesma. Todo o que ache que, não por um ou dois somente, mas por todos juntos de pleno acordo, há sido mantido, escrito e ensinado abertamente, frequente e constantemente, saiba que ele também o pode crer sem vacilação alguma.

EXEMPLOS HISTÓRICOS DE RECURSO À UNIVERSALIDADE E À ANTIGUIDADE CONTRA O ERRO


…Quando o veneno da heresia ariana contaminou não já uma pequena região, mas o mundo inteiro, até o ponto de que quase todos os bispos latinos cederam ante a heresia, alguns obrigados com violência, outros sacerdotes reduzidos e enganados.

Uma espécie de neblina ofuscou então suas mentes, e já não podiam distinguir, em meio de tanta confusão de ideias, qual era o caminho seguro que deviam seguir. Somente o verdadeiro e fiel discípulo de Cristo que preferiu a antiga fé à nova perfídia não foi contaminado por aquela peste contagiosa. O que por então sucedeu mostra suficientemente os graves males a que pode dar lugar um dogma inventado.

Tudo se revolucionou: não só relações, parentescos, amizades, famílias, como também cidades, povos, regiões. O mesmo Império Romano foi sacudido até seus fundamentos e transtornado de, acima abaixo quando a sacrílega inovação ariana, como nova Bellona ou Furia, seduziu inclusive ao Imperador, o primeiro de todos os homens.

Depois de haver submetido a suas novas leis inclusive os mais insignes dignitários da corte, a heresia começou a perturbar, transtornar, ultrajar toda coisa, privada e pública, profana e religiosa. Sem fazer já distinção entre o bom e o mau, entre o verdadeiro e o falso, atacava de perto a tudo o que se pusesse adiante….

E qual foi a causa de tudo isto? Uma só: a introdução de crenças humanas no lugar do dogma vindo do céu. Isto ocorre quando, pela introdução de uma inovação vazia, a antiguidade fundamentada nos mais seguros embasamentos é demolida, velhas doutrinas são pisoteadas, os decretos dos Padres são desgarrados, as definições de nossos maiores são anuladas; e isto, sem que a desenfreada concupiscência de novidades profanas consiga manter-se nos nítidos limites de uma tradição sagrada e incontaminada.

a mesma natureza da religião exige que tudo seja transmitido aos filhos com a mesma fidelidade com a qual foi recebido dos pais, e que, ademais, não nos é lícito levar e trazer a religião por onde nos pareça, mas que antes somos nós os que temos que segui-la por onde ela nos conduza. E é próprio da humildade e da responsabilidade cristã não transmitir a quem nos sucedam nossas próprias opiniões, mas conservar o que tem sido recebido de nossos maiores.

[A respeito dos erros do Bispo Agripino]  houve um tal desenvolvimento de inteligências, uma tal profusão de eloquência, um número tão grande de partidários, tanta verossimilhança nas teses, tal cúmulo de citações da Sagrada Escritura, ainda que interpretada em um sentido totalmente novo e errado, que de nenhuma maneira, creio eu, se teria podido superar toda aquela concentração de forças, se a inovação tão acerrimamente abraçada, defendida, louvada, não se tivesse vindo abaixo por si mesma, precisamente a causa de sua novidade.

ASTUCIA TÁTICA DOS HEREGES


Com frequência se apropriavam de passagens complicadas e pouco claras de algum autor antigo, os quais, por sua mesma falta de claridade parecia que concordavam com suas teorias; assim simulavam que não eram os primeiros nem os únicos que pensavam dessa maneira. Esta falta de honradez eu a qualifico de duplamente odiosa, porque não têm escrúpulo algum em fazer que outros bebam o veneno da heresia, e porque maculam a memória de pessoas santas, como se espalhassem ao vento, com mão sacrílega, suas cinzas dormidas.

…Devemos ter horror, como se de um delito se tratasse, a alterar a fé e corromper o dogma; não só a disciplina da constituição da Igreja nos impede fazer uma coisa assim, como também a censura da autoridade apostólica.

Todos conhecemos com quanta firmeza, severidade e veemência São Paulo se lança contra alguns que, com incrível frivolidade, se haviam afastado em pouquíssimo tempo daquele que os havia chamado à graça de Cristo, para passar-se a outro Evangelho, ainda que a verdade é que não existe outro Evangelho; ademais, se haviam rodeado de uma turba de mestres que secundavam seus caprichos próprios, e apartavam os ouvidos da verdade para dá-los às fábulas, incorrendo assim na condenação de haver violado a fé primeira. Se haviam deixado enganar por aqueles de quem escreve o mesmo Apóstoloo em sua carta aos irmãos de Roma: Os rogo, irmãos, que os guardeis daqueles que originam entre vós dissensões e escândalos, ensinando contra a doutrina que vós haveis aprendido; evitai sua companhia. Estes tais não servem a Cristo Senhor nosso, mas a sua própria sensualidade; e com palavras doces e com adulações seduzem os corações dos simples.

ADVERTÊNCIA DE SÃO PAULO AOS GALATAS

Indivíduos dessa raça, que recorriam as províncias e as cidades fazendo mercado com seus erros, chegaram até os Gálatas. Estes, ao escutá-los, experimentaram como uma certa repugnância rumo à verdade; rejeitaram o maná celestial da doutrina católica e apostólica e se deleitaram com a sórdida novidade da heresia.

A autoridade do Apóstoloo se manifestou então com sua maior severidade: ainda quando nós mesmos, ou um anjo do céu os pregasse um Evangelho diferente do que nós os temos anunciado, seja anátema.

E por que diz São Paulo ainda quando nós mesmos, e não diz ainda que eu mesmo? Porque quer dizer que inclusive se Pedro, ou André, ou João, ou o Colégio inteiro dos Apóstolos anunciassem um Evangelho diferente do que os temos anunciado, seja anátema.

Tremendo rigor, com o que, para afirmar a fidelidade à fé primitiva, não se exclui nem a si mesmo nem aos outros Apóstolos.

Mas isto não é tudo: ainda que um anjo do céu os pregasse um Evangelho diferente do que nós os temos anunciado, seja anátema.

Para salvaguardar a fé entregada uma vez para sempre, não lhe bastou recordar a natureza humana, como que quis incluir também a excelência angélica: ainda que nós -diz- ou um anjo do céu. Não é que os santos ou os anjos do céu possam pecar, mas é para dizer: inclusive se sucedesse isso que não pode suceder, qualquer que fosse o que tentasse modificar a fé recebida, este tal seja anátema.

Mas talvez o Apóstolo escreveu estas palavras às pressas, movido mais por um ímpeto passional humano que por inspiração divina! Continua, não obstante, e repete com insistência e com força a mesma ideia, para fazer que penetre: qualquer que os anuncie um Evangelho diferente do que haveis recebido, seja anátema.

Não diz: se um os pregasse um Evangelho diferente do nosso, seja bendito, louvado, acolhido; mas diz: seja anátema, isto é, separado, afastado, excluído, com o fim de que o contágio funesto de uma ovelha infectada não se estenda, com sua presença mortífera, a todo o rebanho inocente de Cristo.



De tudo o que temos dito, aparece evidente que o verdadeiro e autêntico católico é o que ama a verdade de Deus e à Igreja, corpo de Cristo; aquele que não antepõe nada à religião divina e à fé católica: nem a autoridade de um homem, nem o amor, nem o gênio, nem a eloquência, nem a filosofia; mas que desprezando todas estas coisas e permanecendo solidamente firme na fé, está disposto a admitir e a crer somente o que a Igreja sempre e universalmente tem crido..”

Pode ler-se o Commonitorio inteiro neste link

Fonte: http://adelantelafe.com/san-vicente-de-Lérins-regra-para-distinguir-la-verdad-catolica-del-erro/#at_pco=smlwn-1.0&at_si=58b085c7e713ef7b&at_ab=per-2&at_pos=0&at_tot=1

A Crise Ariana e a controvérsia por Amoris Laetitia: um paralelo

sonho do papa liberio

Traduzido por Frei Zaqueu

Um renomado acadêmico compara ambas situações

PROF. CLAUDIO PIERANTONI

 

As reflexões que seguem derivam sua origem de uma coincidência bastante curiosa. Nos primeiros dias de abril deste ano, em efeito, na Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Santiago do Chile se pôs em movimento um grupo de estudo sobre a controvérsia ariana.


Na primeira reunião do grupo refletiram sobre a extraordinária rapidez com a que a controvérsia suscitada pelo presbítero alexandrino Ario no ano 318 ou 319 [d. C.], aparentemente reprimida com a condenação deste por parte de Alexandre (o bispo da metrópole), se difundiu rapidamente na Palestina, e desde ali e em poucos anos incendiou todo o Oriente romano, obrigando inclusive o imperador Constantino a convocar um concílio ecumênico para resolvê-la. Aparentemente se trata só de um punhado de frases imprudentes sobre a relação do Filho com o Pai, mas que puseram a descoberto profundas diferenças doutrinais existentes no episcopado, e desencadearam uma polêmica evidentemente latente há muito já instalada.


Pois bem, justamente nesses mesmos dias de abril de 2016 se publicou a exortação apostólica “Amoris laetitia”, e pouco tempo depois […] apareceram as reações do cardeal Burke e as do cardeal Müller, e começou a polêmica. Não passou muito tempo para compreender que o incêndio que se estava propagando rapidamente, justamente como nos tempos de Ario, era de vastas proporções, apesar das modestas aparências de basear-se só em um par de notas imprudentes ao pé da página, das que o Papa afirmava que nem sequer as recordava.


Me pareceu então natural começar a fazer um paralelo entre as duas crises. […] Em efeito, os dois momentos podem ser vistos em analogia, porque em ambos casos muitos católicos percebem uma intervenção importante do magistério como em conflito com a doutrina anterior. E ademais, em ambos casos se percebe um silêncio ensurdecedor da hierarquia da Igreja Católica, naturalmente com suas exceções.


Quanto ao conteúdo, as duas crises são certamente diferentes. No primeiro caso, o tema da discórdia é estritamente teológico, referido ao fundamento da doutrina cristã sobre o Deus uno e trino, enquanto que no segundo caso é teológico-moral, referido principalmente ao tema do matrimônio.


Não obstante, me parece que o elemento principal que aproxima as duas crises é o fato que ambos afetam a um pilar da mensagem cristã, que se é destruído a mensagem mesma perde sua fisionomia fundamental. […]


  1. Paralelo entre as duas crises, nos documentos doutrinais 


Desde o ponto de vista dos documentos doutrinais, o elemento paralelo que maiormente chama a atenção é o carácter de ambiguidade presente nas fórmulas filo-arianas dos anos 357-360 d. C.


Em efeito, […] a minoria filo-ariana, ainda estando no poder, não se arriscou a propor uma posição que se opusesse muito claramente à visão tradicional. Não diz expressamente que o Filho é inferior ao Pai, mas utiliza uma expressão genérica, “semelhante” ao Pai, que podia prestar-se a diversos graus de subordinacionismo. Em síntese, ainda estando no poder, a minoria filo-ariana tenta esconder-se.


De modo análogo, a atual exortação apostólica “Amoris laetitia”, no famoso capítulo VIII, não nega abertamente a indissolubilidade do matrimônio, a afirma explicitamente. Mas na prática nega as consequências necessárias que se derivam da indissolubilidade matrimonial, e o faz através de um discurso sinuoso e enviesado, com formulações que abarcam uma gama de posições diferentes, algumas mais extremas, outras mais moderadas.


Por exemplo, diz que “em alguns casos” poderia dar-se a “ajuda dos sacramentos” às pessoas que vivem em uniões “chamadas irregulares”. Não se dizem quais são estes casos, por isso a partir do texto podem se dar ao menos quatro interpretações, das quais as mais restritivas são obviamente incompatíveis com as mais amplas. Por claridade interpretativa, é então útil classificá-las com base no distinto grau de amplitude, partindo da mais restritiva até a mais extensa:


  1. Sobre a base do princípio de continuidade hermenêutica, a expressão “em alguns casos” deveria interpretar-se como referidos aos casos especificados nos documentos do magistério vigente, como “Familiaris consortio”, a qual diz que se pode dar a absolvição e a comunhão eucarística nesses casos nos que os conviventes prometem conviver como irmão e irmã.


Esta interpretação tem desde já um princípio hermenêutico fundamental, o qual poderia parecer irrefutável, mas essa interpretação está refutada pela nota 329, que afirma de forma explícita que justamente este comportamento (isto é, a convivência como irmão e irmã) seria potencialmente daninho, por isso há que evitá-lo.


  1. “Em alguns casos” pode interpretar-se em sentido mais amplo como referido à certeza subjetiva da nulidade do matrimônio anterior, supondo que por motivos particulares não é possível prová-la em um tribunal.


Em tais casos poderia dar-se certamente que em segredo de consciência não haja culpa na nova união: isto poderia ser visto, no plano da doutrina moral, de forma concorde com “Familiaris consortio”. Mas se mantém uma diferença fundamental no plano eclesiológico: a Eucaristia é um ato sacramental, público, não que não possa tomar-se em consideração uma realidade em si mesma invisível e publicamente incontrolável.


  1. “Em alguns casos” pode interpretar-se, mais amplamente ainda, como referido a uma responsabilidade subjetiva menor ou também nula, devido a ignorância da norma, ou bem à incapacidade de compreendê-la; ou também a uma “força maior”, na que alguma circunstância especial pode ser tão forte como para “forçar” a uma convivência “more uxorio”, que então não constituiria culpa grave; mais bem, inclusive, segundo o documento, o abandono da convivência poderia fazer incorrer em uma culpa mais grave.


Aqui temos já sérios problemas também de teologia moral. Ignorância e incapacidade de compreender podem limitar efetivamente a responsabilidade pessoal, mas parece incongruente, por não dizer contraditório, invocá-las neste discurso, no que se fala de um itinerário e de um discernimento “acompanhado”, os quais são processos que precisamente deveriam culminar na superação dessa ignorância e incapacidade de compreender.

Quanto à força maior, não é para nada obvio, mais ainda é contrário a toda a tradição e a importantes pronunciamentos dogmáticos que ela possa justificar o não cumprimento da lei divina. É verdade que não se pode excluir a priori que possa existir circunstâncias particulares, nas que a situação pode mudar a espécie moral de um ato externamente igual, também consciente e voluntário. Por exemplo, o ato de subtrair um bem de alguém não pode configurar-se como furto, mas como ato de um pronto socorro a uma pessoa ou como um ato direto para evitar um mal maior. Mas ainda supondo, sem concedê-lo, que isto possa aplicar-se ao adultério, o que aqui impede decididamente uma justificação deste gênero é o carácter de permanência do comportamento objetivamente negativo: o que é justificável em um momento pontual, de emergência, não pode sê-lo em uma situação estável, conscientemente elegida.


De todo modo, se mantém firme também o princípio eclesiológico pelo qual em nenhum caso pode fazer-se magicamente visível a nível público o que por sua natureza pertence ao segredo de consciência.


  1. Na interpretação mais extensa de todas, “em alguns casos” pode ampliar-se até incluir todos esses casos – que são além disso esses casos reais, concretos e frequentes que todos temos em mente – nos que se dá um matrimônio pouco feliz, que fracassa por uma série de mal-entendidos e incompatibilidades e aos quais lhes segue uma convivência feliz, estável no tempo, com fidelidade recíproca, etc. (cf. AL 298).


Nestes casos, pareceria que o resultado prático, em particular a duração e a felicidade da nova união contra a brevidade e infelicidade da anterior, pode interpretar-se como uma espécie de confirmação da bondade e, em consequência, legitimidade da nova união. Neste contexto (AL 298) se silencia qualquer consideração sobre a validez do matrimônio anterior e sobre a incapacidade de compreender e sobre a força maior. E em efeito, quando mais adiante (AL 300) se passa a considerar o tipo de discernimento que deverá fazer-se nestes casos, resulta ainda mais claro que os temas em discussão no exame de consciência e no arrependimento respectivo não serão outros que o bom ou mal comportamento frente ao fracasso matrimonial e o bom êxito da nova união.


É claro aqui que o “arrependimento” que há que considerar não se refere em absoluto à nova união em presença de uma união legítima anterior; pelo contrário, se refere ao comportamento durante a crise anterior e as consequências (no melhor dos casos) da nova união sobre a família e sobre a comunidade.


É então evidente que o documento tenta ir mais além, tanto dos casos nos que se tem certeza subjetiva da invalidez do vínculo anterior, como também dos casos de ignorância, de dificuldade para compreender e de força maior ou de suposta impossibilidade de cumprir a lei.


Agora bem, é suficientemente claro que se a medida válida para julgar a licitude da nova união é, em última instância, seu êxito prático, sua felicidade visível e empírica, contra o fracasso e a infelicidade do matrimônio anterior – licitude que obviamente se supõe para receber a absolvição sacramental e a Eucaristia –, a consequência inevitável é que agora o matrimônio anterior é considerado implicitamente, e também publicamente, sem efeito e, em consequência, dissolvido: isto é, o matrimônio é dissolúvel. Deste modo, na Igreja Católica se introduz de fato o divórcio, enquanto que se continua afirmando de palavra sua indissolubilidade.


É também suficientemente claro que se o êxito do novo matrimônio basta para estabelecer sua licitude, isto inclui a justificação praticamente de todos os casos de nova união. Em efeito, se se tivesse que demonstrar que a nova união carece de êxito, não subsistirá o estímulo para justificá-la e se passará ainda a uma união ulterior, na esperança de um êxito maior. Em suma, esta e não outra é precisamente a lógica do divórcio.

Disto se pode logo deduzir que a discussão sobre casos que poderíamos chamar “intermediários”, isto é, os situados entre a posição tradicional e a mais ampla – que como temos mostrado inclui de fato todos os casos –, se por uma parte permite a muitos, mais moderados, reconhecer-se em uma ou outra gradação e, em consequência, pode ter um valor “tranquilizador”, pelo contrário, desde o ponto de vista prático termina por ser muito pouco relevante. Em efeito, em essência e em linhas gerais, o documento outorga carta branca para resolver a grande maioria das situações reais com um critério muito mais simples e em linha com a mentalidade dominante em nossa civilização: em uma palavra, está perfeitamente em linha com a ideologia do divórcio.


*


Voltando ao nosso paralelo, tudo isto lembra muito proximamente a política do imperador Constâncio, ao buscar uma expressão suficientemente genérica que se propusesse manter contentes as muitas posições diferentes. Na controvérsia ariana, o caráter genérico da expressão “semelhante ao Pai segundo as Escrituras” encontra uma perfeita confirmação no carácter genérico da expressão “em alguns casos” que encontramos em “Amoris laetitia”. Em teoria, é possível reconhecê-lo em quase todas as posições.

Como consequência, as situações resultam análogas também quanto ao resultado prático. Da mesma maneira que quase todo o episcopado do império aceitou a fórmula de Rimini-Constantinopla do 359-60 d. C., assim também hoje a esmagadora maioria do episcopado tem aceitado sem queixar-se o novo documento, ainda sabendo que isto legitima de fato uma série de posições incompatíveis entre elas, algumas das quais é manifestamente herética.


Hoje em dia muitos bispos e teólogos acalmam sua própria consciência afirmando, tanto em público como a si mesmos, que dizer que “em certos casos” os divorciados que se “recasaram” podem receber os sacramentos não é em si errôneo e pode interpretar-se, em uma hermenêutica da continuidade, como em linha com o magistério anterior. Justamente da mesma maneira os antigos bispos pensavam que não era em si errôneo dizer que “o Filho é semelhante ao Pai segundo as Escrituras”.


Mas em ambos casos, se bem em uma e em outra fórmula tomada isoladamente se pode reconhecer uma ampla gama de posições, no contexto dos respectivos documentos é muito claro que a posição ortodoxa, verdadeiramente em linha com o magistério anterior, é precisamente a que é justamente excluída. […]


No caso de “Amoris laetitia”, isto se leva a cabo:


– com a negação da formulação de “Familiaris consortio” sobre a abstenção da convivência “more uxorio” como condição do acesso aos sacramentos;

– com a eliminação dos limites anteriores entre certeza da consciência e normas eclesiológicas sacramentais;

– com a instrumentalização dos preceitos evangélicos da misericórdia e do não julgar, usados para sustentar que na Igreja não seria possível a aplicação de censuras gerais a determinados comportamentos objetivamente ilícitos;

– e por último, ainda que não menos importante, censurando duramente a quem tivesse a “mesquinha” e “farisaica” pretensão de invocar normas jurídicas precisas para julgar qualquer caso individual, que pelo contrário deve ser rigorosamente deixado ao discernimento e ao acompanhamento pessoal.


Deste modo, ainda com a boa vontade de respeitar um princípio hermenêutico certamente válido – o da continuidade com os documentos anteriores -, se corre o risco de olvidar outro princípio ainda mais importante e evidente: o do contexto imediato no que se formula uma proposição.


Se se lê as afirmações particulares de “Amoris laetitia” não isoladamente, mas em seu contexto, e o documento por sua vez é lido em seu contexto histórico imediato, se descobre facilmente que a “mens” geral que o guia é essencialmente a ideia do divórcio, além da ideia hoje difundida de não colocar limites claros entre um matrimônio ilegítimo e uma união irregular. […]

  1. Paralelo entre as duas crises, no desenvolvimento histórico


Também se pode advertir um paralelo evidente desde o ponto de vista do desenvolvimento histórico da heresia ariana. Se assiste a sua preparação durante a segunda metade do século terceiro; ao fazer-se pública, é condenada pelo Concílio de Niceia, mas no Oriente, pelo contrário, recebe uma rejeição generalizada. Não obstante, a rejeição de Niceia é mais moderada em uma primeira fase, e o arianismo verdadeiro e genuíno é tolerado somente como um mal menor, mas pouco a pouco esta tolerância lhe permite retomar vigor, até que dadas as favoráveis circunstâncias políticas chega ao poder. Uma vez alcançado este, sente contudo a necessidade de camuflar-se: não se expressa de forma franca e direta, mas em uma forma indireta, apoiando-se sobre a pressão e a intimidação pública. Mas o fato mesmo de impor-se, ainda quando o arianismo era uma minoria, sobre uma maioria covarde e indecisa, o expõe de todos os modos a uma refutação muito mais forte e clara por parte do setor mais ortodoxo e consciente do episcopado que prepara, de forma gradual mas inexorável, a derrota definitiva nas duas décadas que seguem.


Analogamente, no caso da heresia atual, que a causa do nome de seu expoente principal podemos chamar “kasperiana”, temos assistido a uma lenta preparação, a partir da segunda metade do século XX. Se fez pública e foi condenada nos documentos de João Paulo II (sobretudo em “Veritatis splendor” e “Familiaris consortio”). Mas desde um setor do episcopado e da teologia culta estes documentos foram rejeitados de forma mais ou menos aberta e radical, e a práxis ortodoxa foi omitida em amplas e importantes zonas da catolicidade. Esta rejeição foi tolerada amplamente, tanto a nível teórico como prático, e desde ali adquiriu força, até que, dadas as circunstâncias favoráveis, políticas e eclesiásticas, chegou ao poder. Mas apesar de haver alcançado o poder, o erro não se expressa de forma franca e direta, senão melhor através das não de todo claras atividades sinodais (2014-2015), e desemboca logo em um documento apostólico exemplar por sua tortuosidade. Mas o fato mesmo de haver chegado a aparecer em um documento magisterial suscita uma indignação moral e uma reação intelectual muito mais forte e dinâmica, e obriga a todo aquele que tem os instrumentos intelectuais a repensar a doutrina ortodoxa, por uma formulação ainda mais profunda e clara de sua parte, para preparar uma condenação definitiva não só do erro pontual examinado, mas também de todos os erros vinculados a ele, que chegam a incidir sobre toda a doutrina sacramental e moral da Igreja. Ademais permite, e isto não é pouco, pôr a prova, reconhecer e também reunir os que aderem verdadeira e solidamente ao depósito da fé.


Podemos dizer que esta é justamente a fase na que nos encontramos neste momento. Recém começou e se preanuncia não privada de obstáculos. Não podemos prever quanto durará, mas devemos ter a certeza da fé de que Deus não permitiria esta gravíssima crise se não fosse para um bem superior das almas. Será certamente o Espírito Santo o que nos dê a solução, iluminando este Papa ou a seu sucessor, talvez também através da convocatória a um novo concílio ecumênico. Enquanto isso, cada um de nós está chamado, na humidade e na oração, a dar seu testemunho e sua contribuição. E a cada um de nós certamente o Senhor nos pedirá contas.

Fonte: Chiesa

Fonte: http://panoramacatolico.info/articulo/la-crise-ariana-y-la-controvérsia-por-amoris-laetitia-un-paralelo

Cardeal Muller contra os 4 Cardeais e o Cardeal Napier dispara ironias contra Amoris Laetitia

cardeal-gerhard-muller

cardealnapier

 

O Cardeal  Müller, Prefeito da Conregação para a Doutrina da Fé, interveio  durante a transmissão do  “Stanze Vaticane”,da  Tgcom24,  em relação  a “dubia”  dos 4 cardeais. Foi claro em dizer que não concordou com a publicação da carta além de afirmar que : “Uma  correção ao Papa não teria sentido já que  não existe , no momento, nenhum perigo à Fé. 

Talvez ele veja o texto da Amoris Laetitia  como vê os seus escritos sobre a Virgindade Perpétua de Nossa Senhora. Vejamos o que o cardeal escreveu outrora:

“” …Não se apartou das particularidades fisiológicas no processo natural do parto, como fatos semelhantes à não abertura do canal endocervical, o não rompimento do himen e o não sentir as dores do parto.” ( 2003 – dogmas católicos para estudo e prática)

 

Por outro lado, ataca o Cardeal Napier, veja abaixo.

 

****

 

 

O cardeal Napier pergunta se também se pode dar de comungar aos polígamos

Ante a postura de vários cardeais e bispos do Ocidente a favor de que os divorciados “recasados” possam comungar, o cardeal Napier, arcebispo de Durban (África do Sul), perguntou ironicamente em sua conta de Twitter se também deve admitir-se à comunhão os polígamos da África.

7/01/17 10:32 AM

(InfoCatólica) – Tradução Frei Zaqueu – O cardeal Napier, usuário habitual do Twitter, comentou em dita rede social o artigo «O debate de Amoris Laetitia: um olhar ao futuro», do Pe. Raymond  J. de Souza (traduzido ao espanhol por InfoCatólica).

Previamente Josep Shaw lhe havia enviado em um tuite o link a dito artigo:

O purpurado africano, respondeu com três tuites:

O cardeal, após agradecer a Shaw o link, disse que o artigo do Pe. De Souza é interessante de ler porque apresenta uma série de «perguntas chave para nós na África: Estava totalmente equivocada a fé que nos ensinaram os missionários, p. ex., que a poligamia é moralmente equivocada porque a Escritura ensina um homem com uma mulher para toda a vida?». E: «Se os Ocidentais em situação irregular podem receber a comunhão, devemos dizer a nossos polígamos e outras “ovelhas negras” que também se lhes permite [comungar]?»

____________

Fonte: http://infocatolkica.com/?t=noticia&cod=28231

Batismo de urgência, de desejo e de sangue

batixxmo

Escrito por Padre Lucas Prados

Traduzido por Frei Zaqueu

 

Estudaremos neste artigo outros tipos de Batismo; alguns aceitos pela Igreja católica como válidos e outros rejeitados. Assim pois, consideraremos os seguintes tipos de Batismo:

  1. O Batismo de urgência.
  2. O Batismo de desejo.
  3. O Batismo de sangue.
  4. O Batismo em confissões cristãs não católicas.
  1. O Batismo de urgência

Se conhece com este nome o Batismo celebrado de urgência ante o perigo de morte iminente de um não batizado, normalmente neonato.

Tal como a Igreja nos diz, ante o perigo de morte iminente, e dada a necessidade do Batismo visando a salvação (CIC, c. 849), se a pessoa não está batizada, qualquer outra pessoa, seja cristão ou não, poderia efetuar o Batismo.

Recordemos também que ninguém pode batizar-se a si mesmo validamente, porque a pessoa do batizante deve ser totalmente distinta da pessoa batizada; já que Cristo, ao instituir o Batismo, manifestamente distingue entre ministro e sujeito do Batismo. O Batismo é uma regeneração espiritual; portanto, como ninguém pode engendrar-se a si mesmo, assim tampouco pode regenerar-se a si mesmo.

Este Batismo será válido se se utiliza a matéria prescrita (derramando água sobre a cabeça do que vai ser batizado), a forma adequada (Eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo), e se faz com a intenção que tem a Igreja ao celebrar este sacramento.

Se uma pessoa batizasse a outra empregando este método, e não houvesse perigo iminente de morte, o Batismo seria válido mas ilícito.

Se uma vez batizada a pessoa, esta não morresse, tem-se a obrigação de avisar ao sacerdote para que este termine de celebrar os ritos próprios do Batismo que, por ter sido celebrado em situação de urgência, não se puderam realizar. O ritual do Batismo especifica claramente os ritos que se têm de realizar nestas circunstâncias.

Em caso de urgência, um neonato poderia ser batizado inclusive contra a vontade dos pais, pois o direito da criança à salvação é anterior ao dos pais a escolher que ela se batize ou não: “A criança de pais católicos, e inclusive de não católicos, em perigo de morte, pode licitamente ser batizada, ainda contra a vontade de seus pais.” (CIC, c. 868 § 2).

Se a pessoa em perigo de morte fosse um adulto sem batizar, não se lhe poderia batizar de urgência a não ser que este o pedisse. No caso de que o adulto estivesse morrendo e não pudesse manifestar seu desejo de pedir o Batismo, se lhe poderia batizar se se soubesse que quando estava são desejava ser batizado e estava arrependido de seus pecados. Supondo que não se soubesse, e a pessoa adulta não pudesse manifestar seu desejo por encontrar-se sem consciência, se lhe poderia batizar de urgência “sob condição”.

O Código de Direito Canônico especifica: “Pode ser batizado um adulto que se encontre em perigo de morte se, tendo algum conhecimento sobre as verdades principais da fé, manifesta de qualquer modo sua intenção de receber o Batismo e promete que observará os mandamentos da religião cristã”. (CIC, c. 865 § 2).

Um tipo muito concreto de Batismo de urgência é no caso dos fetos abortivos. O código de direito canônico nos diz: “Na medida do possível deve se batizar os fetos abortivos, se vivem” (CIC, c. 871). Tal como nos diz Capellmann, o Batismo se fará sobre o mesmo feto e não sobre as membranas que o envolvem.[1] No caso de que morresse a mãe estando grávida e se soubesse que o feto estava vivo, pratique-se a cesárea para tirar o feto, e se este se encontrara em perigo de morte, batize-se o quanto antes[2]

  1. O Batismo de desejo

O Batismo de desejo é o anelo explícito (p. ex., catecúmeno) ou implícito (p. ex., pagão ou infiel) de receber o Batismo, desejo que deve ir unido à contrição perfeita.

Naqueles casos extraordinários nos que resulta impossível receber o Batismo de água, a misericórdia divina dispôs dois remédios: o voto do Batismo e o martírio que, por semelhança nos efeitos com o Batismo de água, se chama também Batismo: de desejo e de sangue, respectivamente.

O Catecismo da Igreja Católica ensina a respeito que os catecúmenos que morrem antes de seu Batismo, o desejo explícito de receber o Batismo, unido ao arrependimento de seus pecados e à caridade, lhes assegura a salvação que não puderam receber pelo sacramento.

“Aos catecúmenos que morrem antes de seu Batismo, o desejo explícito de receber o Batismo, unido ao arrependimento de seus pecados e à caridade, lhes assegura a salvação que não puderam receber pelo sacramento” (CEC, n. 1259).[3]

Para aquele que conheceu a revelação cristã, o desejo de recebê-lo tem de ser explícito. Pelo contrário, para o que não tenha nenhuma notícia do sacramento basta o desejo implícito. Desta forma, a misericórdia infinita de Deus tem posto a salvação eterna ao alcance real de todos os homens.

É, pois, conforme ao dogma, crer que os não cristãos que de boa-fé invocam a Deus, estão arrependidos de seus pecados, têm o desejo de fazer todo o necessário para salvar-se (cumprem a lei natural e ignoram inculpavelmente à verdadeira Igreja), ficam justificados pelo Batismo de desejo.[4]

Supondo que uma pessoa que tivesse “recebido” este Batismo de desejo, mais tarde tivesse a opção de receber o Batismo sacramental, deveria se realizar o ritual completo do Batismo.

O Batismo de desejo, ademais, não sempre perdoa todos os pecados veniais nem a pena temporal. Tal como nos diz Santo Tomás:

“A remissão dos pecados de alguns se conseguia antes do Batismo segundo se tinha o Batismo de desejo, seja explícito ou implícito; e entretanto quando se recebia realmente o Batismo, se produzia a remissão plena quanto à liberação de toda a pena”.[5]

Finalmente, para que o Batismo de desejo justifique se requer necessariamente a caridade perfeita, isto é, a contrição, ainda que, como é natural, não se requeira em sumo grau. No martírio é suficiente a atrição”. [6]

O Papa Inocêncio III (1198-1216) assevera com relação ao Batismo de desejo, também chamado “flaminis”, de caridade ou de desejo:

“Nos tens comunicado que certo judeu, posto no artigo da morte, como se encontrasse só entre judeus, se imergiu a si mesmo na água dizendo: ‘Eu me batizo em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém’. Respondemos que tendo que haver diferença entre o batizante e o batizado, como evidentemente se colige das palavras do Senhor: Ide, batizai a todas as nações em nome etc. (Mt 28:19), o judeu em questão tem que ser batizado de novo por outro, para mostrar que um é o batizado e outro o que batiza… Ainda que se tivesse morrido imediatamente, tivesse voado instantaneamente à pátria celeste pela fé no sacramento, ainda que não pelo sacramento da fé” (DS 788).

A Igreja, ademais, se pronunciou sobre o assunto do significado do dogma fora da Igreja não há salvação e do Batismo de desejo com a excomunhão realizada pelo Papa Pio XII em 1953 e o decreto do Santo Ofício do 8 de agosto de 1949 diz:

“Agora sim, entre as coisas que a Igreja sempre tem pregado e nunca deixará de pregar, está contida a declaração infalível pela qual nos ensina que não há salvação fora da Igreja. Não obstante, este dogma deve ser entendido nesse sentido no que a Igreja mesma o entende. Porque não foi aos juízos privados que nosso Salvador deu uma explicação àquelas coisas que estão contidas no depósito da fé, mas à autoridade magisterial da Igreja. (…) Portanto, que alguém pode obter a salvação eterna, que não sempre é necessário que se lhe incorpore à Igreja em realidade como membro, mas é necessário que pelo menos esteja unido a Ela pelo desejo e o anelo. No entanto, este desejo não sempre tem que ser explícito, como é nos catecúmenos, posto que, se uma pessoa está na ignorância invencível, Deus aceita também um desejo implícito, assim chamado porque está incluído nessa boa disposição da alma, pela qual uma pessoa deseja que sua vontade seja conforme à vontade de Deus. Estas coisas foram claramente ensinadas na carta dogmática emitida pelo Sumo Pontífice, o Papa Pio XII, em 29 de junho de 1943, na Mystici Corporis. Nesta carta, o Soberano Pontífice distingue claramente entre os que estão incorporados na Igreja como membros, e os que estão unidos à Igreja só pelo desejo. (…) com estas sábias palavras que reprova tanto aos que excluem da salvação eterna a todos os que estão unidos à Igreja só pelo desejo implícito, e os que falsamente afirmam que os homens podem salvar-se igualmente em todas as religiões”.

 

  1. O Batismo de sangue

O Batismo de sangue é o martírio de uma pessoa que não recebeu o Batismo; isto é, o suportar pacientemente a morte violenta por haver confessado a fé cristã ou praticado a virtude cristã.

Jesus mesmo deu testemunho da virtude justificativa do martírio: “A todo aquele que me confessar diante dos homens eu também o confessarei‚ diante de meu Pai que está nos céus” (Mt 10:32); “O que perder sua vida por amor a mim, a encontrará” (Mt 10:39).

Tal como afirmam os Santos Padres, o martírio tem força para perdoar toda a culpa e toda pena, tanto nos adultos como nas crianças; invocando para isso o privilégio que Cristo concedeu ao martírio de produzir o mesmo efeito de justificação que produz o Batismo.

A Igreja venera como mártir Santa Emerenciana, que antes de ser batizada foi martirizada sobre o sepulcro de sua amiga Santa Inês, ao que tinha ido para orar.

De Valentiniano II, que foi assassinado enquanto se dirigia a Milão para receber o Batismo, disse são Anselmo: “Seu desejo o purificou”.[7]

Conforme o testemunho da Tradição e a liturgia (por exemplo, a festividade dos Santos Inocentes), também as crianças que não tenham chegado ao uso de razão podem receber o Batismo de sangue.

E o Catecismo da Igreja Católica nos diz:

“Desde sempre, a Igreja possui a firme convicção de que quem padece a morte por razão da fé, sem haver recebido o Batismo, são batizados por sua morte com Cristo e por Cristo. Este Batismo de sangue como o desejo do Batismo, produz os frutos do Batismo sem ser sacramento” (CEC, n. 1258).

Para que haja martírio se requer:

  • Um tormento capaz de causar a morte, ainda que após esta não se siga por uma graça especial de Deus.
  • Infligido ao paciente por ódio à fé ou virtudes cristãs.
  • E que seja pacientemente tolerado.

Tanto o Batismo de desejo como o de sangue justificam, pois ambos incluem de algum modo a caridade perfeita, que sabemos justifica. Agora sim, nem o Batismo de desejo nem o de sangue produzem, contudo, todos os efeitos que se derivam do Batismo de água. São efeitos comuns aos dois: o perdão dos pecados mortais, a infusão da graça, a filiação divina com o direito à vida eterna.

Em troca, nem o Batismo de desejo nem o martírio, imprimem carácter, nem fazem ao que o recebe membro da Igreja. Daqui que, se mais tarde houvesse possibilidade de receber o Batismo de água, existiria a obrigação de receber-lhe, e enquanto não se receba, tampouco se lhe podem administrar os demais sacramentos.

  1. Acerca da validez do Batismo nas confissões cristãs não católicas

Não todas as confissões que se denominam a si mesmas como “cristãs” o são. São confissões cristãs as que: Creem que Deus é Uno e Trino, ou seja, Pai, Filho e Espírito Santo. E ademais aceitam a Jesus Cristo como a segunda pessoa da Trindade e como Deus e homem verdadeiro, que morreu e ressuscitou por nossa salvação tal como aparece expressado na Bíblia.

Os orientais separados da Igreja Romana, ortodoxos, nestorianos, coptos, etc., têm a mesma doutrina sobre o Batismo que a Igreja católica, e praticam também o Batismo das crianças. Características peculiares do Batismo entre os orientais são: usar a fórmula deprecativa em lugar da indicativa; administrar o Batismo por imersão: administrar ao mesmo tempo os três sacramentos da iniciação cristã: Batismo, Confirmação e Eucaristia.

Quanto aos protestantes, falando em termos gerais, quase todas as confissões admitem o Batismo como verdadeiro sacramento instituído por Jesus Cristo, ainda que no curso da história lhe têm desvirtuado de tal modo sua natureza, que em algumas nada resta do verdadeiro Batismo.

  • anglicanismoreconhece em seu livro litúrgico oficial, o Prayer book, toda a doutrina tradicional e ortodoxa sobre o Batismo. Nos 39 artigos, por influência presbiteriana, se borram um pouco esses traços, até o ponto de que no s. XVIII é considerado como um rito sem importância. Desde 1835, graças ao movimento de Oxford, o Batismo recobra sua importância na Igreja anglicana.
  • luteranismo e a Igreja evangélicaconservam a princípio, em seus textos litúrgicos, as ideias fundamentais sobre o Batismo cristão; mas desde o s. XVIII há uma reação contra o dogmatismo luterano, e o sacramento é relegado à categoria de signo cuja função é excitar a fé. Socino e o socinianismo deixam a liberdade de administrar ou não o Batismo, porque consideram que só foi instituído para os primeiros tempos do cristianismo; ademais negam que as crianças possam recebê-lo, porque não são capazes de fazer uma profissão de fé.
  • Os puritanos ingleses, na Confissão de fé de Westminster de 1647, se inspiram nas doutrinas de Calvino; esta mesma confissão é aceitada pelos presbiterianos escoceses. Os congregacionalistas, o metodismo e outras seitas dissidentes da Inglaterra e Gales têm exigido para a validez do Batismo que fosse administrado por um ministro sagrado, mas em não poucas ocasiões o consideram como um rito sem importância, chegando inclusive a variar a fórmula.
  • Os batistassó o administram aos adultos, negando sua validez nas crianças.
  • Os quakersreconhecem somente o “Batismo do Espírito”, fundados em uma má interpretação de um texto do evangelho de S. Mateus; o Batismo de água seria só uma figura desse “Batismo do Espírito”; a fé em Cristo e a santidade de vida, dizem, expressa esse Batismo com mais plenitude que uma ablução exterior com água.

A Igreja considera válidos os Batismos dos não católicos se tiverem os requisitos essenciais. Em 20 de novembro de 1878, respondendo à pergunta de “se todos os hereges que se convertem devem ser rebatizados sob condição”, o Santo Ofício respondeu assim:

 

“Na conversão dos hereges, de qualquer lugar ou de qualquer seita que venham, há que inquirir sobre a validez do Batismo recebido na heresia. Tido, pois, em cada caso o exame, se se averiguar que não se conferiu Batismo, ou foi conferido nulamente, têm de batizar-se de modo absoluto. Mas se, praticada a investigação conforme ao tempo e à razão dos lugares, nada se descobre em prol ou contra da validez, ou resta ainda dúvida provável sobre a validez do Batismo, então batize-se privadamente sob condição. Finalmente, se constar que o Batismo foi válido, têm de ser só recebidos à abjuração ou profissão de fé” (DS 3128).

Modo de atuar da Igreja nos casos concretos:

  • Batismo sub conditione só quando há dúvida consistente ou positiva sobre a validez do Batismo anteriormente administrado. Não obstante, a Santa Sé tem dado umas normas de atuação no caso de que o converso proceda de determinadas confissões protestantes. A maioria dessas regras são concreções do princípio geral exposto mais acima.
  • Somente em dois casos manda a Igreja rebatizar de modo solene: se o novo fiel pertencia à seita unitária, entre os que se corrompeu a fórmula ou há outros defeitos essenciais, e no caso de proceder da confissão quaker, que não administra o Batismo.
  • Pelo contrário, quando o converso militou na confissão anglicana, não é preciso geralmente rebatizá-lo, basta receber sua abjuração e ministrar-lhe a absolvição de suas censuras e pecados.
  • Diga-se o mesmo no caso de volta à comunhão de cristãos ortodoxos.
  • Nos demais casos, se costuma rebatizar sub conditione e logo se administra o sacramento da Penitência.

Sobre a validez do Batismo nas confissões de fé mais comuns

Se considera válido o Batismo das Igrejas que, em seu ritual utilizam água e a fórmula Trinitária, seja por imersão, seja por infusão.

Apresentamos agora uma lista que é meramente indicativa

Tenha-se como válido o Batismo das Igrejas Ortodoxas:

* Patriarcado Ecumênico de Constantinopla.
* Patriarcado de Alexandria.
* Patriarcado de Antioquia.
* Patriarcado de Jerusalém.
* Patriarcado de Moscou.
* Patriarcado de Belgrado.
* Patriarcado de Bucareste.
* Patriarcado de Sofia.
* Igrejas Auto-céfalas de Chipre, Grécia, Polônia e Albânia.

Se reconhece como válido (se não há uma causa grave para duvidar de seu Batismo), o celebrado nas chamadas Igrejas Históricas do S. XVI:

* Comunhão Anglicana.
* Episcopalianos.
* Presbiterianos.
* Luteranos.
* Calvinistas.
* Metodistas.

Se considera inválido o Batismo das seitas:

* Testemunhas de Jehová.
* Mórmons.
* Evangélicos.
* Cruzada Evangelista Mundial.
* Igreja Aliança Cristã e Missionária.
* Igreja Cristã unida.
* Igreja Evangélica dos Peregrinos.
* Igreja Evangélica Missionária.

Se considera inválido o Batismo dos Pentecostais:

* Igrejas Pentecostais.
* Assembleias de Deus.
* Igrejas de Deus.
* Igreja Batista do sétimo dia.
* Igreja Cristã Bethel.
* Igreja Cristã Interdenominacional.
* Igreja Cristã Nacional das Assembleias de Deus.
* Igreja de Deus Pentecostal.
* Igreja do Evangelho Quadrangular.
* Igrejas Evangélicas Independentes.
* Movimento de Igrejas Evangélicas.
* União de Igrejas Evangélicas Independentes.
* A Santa Igreja de Deus da Inundação Apostólica.
* Igreja Internacional do Evangelho Inquebrantável.
* Grupo Evangélico Gedeão.
* Conselho Latinoamericano de Igrejas Cristãs.
* Igreja Apostólica da fé em Jesus Cristo.
* Igreja Cristã das Assembleias de Deus.
* Igreja de Deus da Profecia.
* Igreja de Deus em Cristo pelo Espírito Santo.
* Igreja de Deus Pentecostal.
* Igreja de Deus (Evangelho Completo).
* Igreja do Bom Pastor.
* Igreja Luz do Mundo.
* Igrejas Evangélicas Independentes.
* Movimentos de Igrejas Evangélicas Independentes.
* Cruzada Evangelística Mundial.
* Igreja Aliança Cristã e Missionária.
* Igreja Evangélica dos peregrinos.
* Igreja Livre Metodista Evangélica.
* Empresa Apostólica dos Intérpretes.
* Da Vontade de Deus (EAINVOD).

Se considera inválido o Batismo dos adventistas:

* Igreja Adventista do Sétimo Dia (Sabatistas).
* Igreja de Deus do Sétimo Dia.
* Quakers.
* Exército de Salvação.
* Luz do Mundo.

Se considera inválido o Batismo de outras seitas:

* Espiritistas.
* Espiritualistas.
* Rosacruzes.
* Teósofos.
* Igreja Gnóstica.

Se considera inválido o Batismo dos Batistas (deram origem a grupos considerados como pentecostais):

* Assembleias de Deus.

Esta lista é meramente indicativa. Ante qualquer dúvida, o melhor é pôr-se em contato com a diocese própria de cada um e perguntar ao vigário encarregado da seção de sacramentos.

Dado que está em jogo a validez do sacramento do Batismo, e como consequência, a salvação de uma pessoa, estar seguros neste ponto concreto é muito importante.

Padre Lucas Prados

[1] Capellmann, Medicina pastoralis, p. 242.

[2] Ritual Romano, tit. 2. c. 1, n. 20.

[3] outros textos do Magistério podem verse en: Dz. 388, 413, 796, 847. Ver também CIC, c. 849.

[4] Vaticano II, Lumen gentium, n. 16

[5] Santo Tomás de Aquino, Summa Theologica, III q. 69, a. 4, ad. 2.

[6] Catecismo Romano, ed. BAC, Madrid 1956, nota 55, p. 376-377.

[7] Santo Anselmo, De obitu Valent, 51.

58

___________________

Fonte: http://adiantelafe.com/batismo-urgência-desejo-sangue/

Os quatro cardeais têm uma vantagem de 14 a 9. Mas também Leonardo Boff faz seu jogo

segundafeira

(Ilustração publicada em “The Remnant” em 30 de dezembro de 2016)

*

Pouco antes do Natal eram dezoito os cardeais e bispos que se haviam pronunciado a favor ou contra às cinco dúvidas tornadas públicas em 14 de novembro por quatro cardeais em relação aos pontos controversos de “Amoris laetitia”, com a petição ao Papa Francisco de “trazer claridade”, petição que ainda não teve resposta.

Neste site de www.chiesa de 21 de dezembro havia uma resenha precisa de suas declarações:

> O Papa não responde aos quatro cardeais. Mas são poucos os que o justificam

Em um “Post Scriptum” se indicavam ademais outras três intervenções que elevavam o total a vinte e uma, das quais só oito eram contrárias à iniciativa dos quatro cardeais.

Mas depois disto outras duas vozes de cardeais e bispos se têm alçado, uma a favor e a outra contra.

A voz a favor dos quatro cardeais é a do bispo auxiliar de Salzburgo Andreas Laun, entrevistado em 23 de dezembro por Maike Hickson para o blog OnePeterFive:

> Bishop Andreas Laun on Amoris Laetitia and the Four Cardinals’ Dubia

A que apoia o Papa é a do cardeal Walter Kasper, em uma entrevista de 22 de dezembro à Radio Vaticana em língua alemã:

> Kardinal Kasper: “Amoris Laetitia ist klar”

Segundo Kasper, “naturalmente que se podem apresentar dúvidas e perguntas ao Papa, cada cardeal pode fazê-lo. Mas sobre o fato de que fosse uma boa ideia tornar pública esta petição de esclarecimento, tenho minhas dúvidas. Em minha opinião, a exortação apostólica é clara; há também declarações sucessivas do próprio Papa, a carta aos bispos argentinos, ou as declarações do cardeal vigário de Roma. Tem-se esclarecido o que o Papa diz e como o vê. Não há nenhuma contradição com as declarações de João Paulo II. É um desenvolvimento homogêneo. Esta é minha posição, tal como o vejo eu. A este propósito não existem dúvidas para mim”.

Portanto, no dia de hoje, entre os vinte e três cardeais e bispos que intervieram a pontuação é de 14 a 9 a favor dos quatro cardeais, sinal evidente de que suas “dubia” não são para nada consideradas inconsistentes e que a espera de um esclarecimento é cada vez mais firme e estendida.

*

Há que assinalar também que um dos quatro cardeais subscritores das “dubia”, o alemão Walter Brandmüller, interpelado por Andrea Tornielli para Vatican Insider, tem precisado o sentido da “correção formal” do Papa que manifestou outro dos signatários, o cardeal Raymond L. Burke:

> Brandmüller: “Any fraternal correction proposed to the Pope must be presented in camera caritatis”

“O cardeal – pontualizou Brandmüller – não disse que a correção formal tenha que ser pública, nem indicou uma data limite e estou convencido de que, em primeira instância, a correção terá lugar ‘in camera caritatis’[1]. O cardeal Burke expressou com plena autonomia sua opinião, que poderia ser compartilhada por outros cardeais, que de todas as formas procederão ‘in solido’[2]“.

“A intenção das ‘dubia’ – continua Brandmüller – é promover na Igreja o debate, como está sucedendo, enquanto se espera uma resposta, a falta da qual é vista por amplos setores da Igreja como uma rejeição a aderir-se de maneira clara e coerente à doutrina definida”.

*

E se se estende esta resenha para além dos cardeais e bispos, há pelo menos uma intervenção que se é obrigado assinalar.

É a ampla entrevista publicada na Alemanha, no dia de Natal, com o teólogo brasileiro Leonardo Boff no periódico “Kölner Stadt-Anzeiger”:

> Leonardo Boff im Interview: “Papst Franziskus ist einer von uns”

Passagens da entrevista estão disponíveis tanto em inglês como em italiano.

Boff dedica esta passagem às “dubia”:

“O Papa sente a dureza dos ventos contrários que procedem das altas hierarquias, sobretudo dos Estados Unidos. Este cardeal Burke que agora, junto ao seu cardeal jubilado Meisner de Colônia, escreveu uma carta ao Papa, é o Donald Trump da Igreja católica (risos). Mas à diferença de Trump, Burke tem sido neutralizado na cúria. Graças a Deus. Esta gente crê de verdade que lhes corresponde a eles corrigir o Papa, como se estivessem por cima do Papa. Algo assim é inusual, não tem precedentes na história da Igreja. Alguém pode criticar o Papa, pode ter uma discussão com ele. Isto é algo que eu tenho feito continuamente. Mas que uns cardeais acusem publicamente o Papa de difundir erros teológicos ou inclusive heresias, penso que é demasiado. É uma afronta que o Papa não pode permitir. O Papa não pode ser julgado, este é o ensinamento da Igreja”.

Salvo que depois, na mesma entrevista, é ele, Boff, quem acusa de “grave erro teológico” e de “terrorismo religioso” a declaração “Dominus Iesus” publicada no ano 2000 pelo então cardeal Joseph Ratzinger com a plena aprovação do Papa João Paulo II.

Mas há outras passagens interessantes na entrevista.

Por exemplo, essa onde Boff explica por que o Papa Francisco teve que cancelar a audiência que lhe havia concedido a princípios do sínodo de 2015:

“Havia recebido um convite e já havia aterrissado em Roma. Mas precisamente nesse dia, justo antes do início [dos trabalhos] do sínodo sobre a família de 2015, treze cardeais – entre os quais o cardeal alemão Gerhard Müller – organizaram uma revolta contra o Papa com uma carta dirigida a ele que depois foi publicada, que casualidade!, por um periódico. O Papa estava furioso e me disse: ‘Boff, não tenho tempo. Tenho que reestabelecer a calma antes de que comece o sínodo. Nos veremos em outro momento'”.

Ou também onde diz “ter ouvido que o Papa quer acolher a petição explícita dos bispos brasileiros e, sobretudo, de seu amigo cardeal Cláudio Hummes de utilizar de novo no serviço pastoral os sacerdotes casados, ao menos durante um certo período de prova”.

Sem que, por outra parte, Boff esteja esperando do Papa esta via livre. Na entrevista, de fato, ele conta que ainda que esteja casado e, portanto, seja formalmente proibido de exercer seu ministério, faz “o que tenho feito sempre e quando estou em uma paróquia onde não há sacerdote celebro eu a missa junto ao povo e nunca nenhum bispo tem contestado isto ou mesmo proibido. Pelo contrário, os bispos estão contentes e me dizem: ‘A gente tem direito à eucaristia. Siga assim!’. Meu mentor teológico, o cardeal Paulo Evaristo Arns – que faleceu faz poucos dias – era, por exemplo, muito aberto neste sentido. Até o ponto de que se via sacerdotes casados sentados na nave durante a missa, os fazia subir ao altar e concelebrava a eucaristia com eles”.

(Traducción en español de Helena Faccia Serrano, Alcalá de Henares, España)

(Tradução ao português de Frei Zaqueu, Brasília, Brasil)

______________

Fonte: http://magister.blogautore.espresso.repubblica.it/2017/01/03/los-quatro-cardeais-têm-una-vantagem-de-14-a-9-mas-tambien-leonardo-boff-faz-su-jogo/?refresh_ce

[1] No sigilo da intimidade. No sentido da discrição que pede inicialmente a caridade. (ndt)

[2] Solidariamente. (ndt)

Créditos: Fr Zaqueu

Leonardo Boff: Francisco é um de Nós

leonardo_boff

Leonardo Boff concedeu uma entrevista histórica ao jornal alemão Kölner Stadt-Anzeigerpublicada em 25 de dezembro de 2016. Segue-se a tradução que recolhi do site católico espanhol Religion Digital, em espanhol, e traduzi livremente.

É preciso lê-la completa. Alguns pontos que destaco: o bastidor da colaboração entre ele e o Papa na redação da encíclica Laudato Sii; a reabilitação da Teologia da Libertação; uma concepção renovada (e ao mesmo tempo ortodoxa) da encarnação de Cristo; a história do encontro frustrado com Francisco; o isolamento dos cardeais rebelados contra o Papa; a possibilidade concreta do diaconato das mulheres e do retorno dos padres casados ​​ao ministério -no caso dos padres, Boff antevê uma experiência exatamente no Brasil, a partir de um pedido dos bispos. Por fim, uma revelação bonita: com autorização e apoio dos bispos, Boff continua a presidir a missa quando está em comunidades sem padres, mesmo casado. Depois de anos e anos de perseguição da Cúria romana e dos conservadores no Brasil, Leonardo Boff continua fiel à Igreja.

Como é a fé em um “Deus da paz” de que nos fala o Natal, em meio à discórdia que experimentamos em toda parte?

A maior parte da fé é promessa. Ernst Bloch diz: “O verdadeiro Gênesis não acontece no início, mas no final, e seu começo é quando a sociedade e a existência são radicais.” A alegria do Natal é esta promessa: a terra e as pessoas não estão condenadas eternamente a viver como nós vemos agora – todas as guerras, a violência, o fundamentalismo. A fé nos promete que, ao final, tudo vai ficar bem: que, apesar de todos os erros e contratempos teremos um bom final. O verdadeiro significado do Natal não é que “Deus se fez homem”, mas que Ele veio para nos dizer. “Você, seres humanos, pertencem a mim e quando vier a morte vocês voltarão para casa” [a mim, editor deste Caminho pra Casa, este é um trecho que causou funda emoção, pois é este mesmo o espírito que levou ao nome deste blog]

O Natal significa então que Deus vem nos buscar?

Sim. A encarnação significa que algo em nós é divino e imortal. O Divino está dentro de nós. Em Jesus, isso demonstrou-se mais claramente. Mas está em todos os homens. Em uma perspectiva evolutiva Jesus não veio do exterior ao mundo, mas cresce a partir dele. Jesus é a manifestação do divino em evolução – mas ele não é o único. O Divino também aparece em Buda, Mahatma Gandhi e outras grandes figuras religiosas.

Isso não soa muito católico.

Não diga isso. Toda a teologia franciscana da Idade Média compreendia Cristo como parte da criação, não apenas como o redentor da culpa e do pecado, que vem de fora do mundo. Encarnação é redenção, sim. Mas, acima de tudo, é uma celebração, uma divinização da criação. E outra coisa é importante no Natal: Deus aparece sob a forma de uma criança. Não como um velho de cabelos brancos e barba branca longa …

Então, como você? …

Nada disso, eu me pareço mais com Karl Marx. No que me concerne: quando nós terminamos nossas vidas e devemos responder ao juiz divino, então estamos diante de uma criança. Uma criança não condena ninguém. Uma criança que quer brincar e estar com os outros. Precisamos voltar a sublinhar este aspecto da fé.

A Teologia da Libertação na América Latina, da qual você é um dos representantes proeminentes, teve uma revalorização com Francisco. Há perspectiva de uma reabilitação pessoal a você, depois de décadas de luta com o Papa João Paulo II e seu guardião supremo da fé, Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI?

Francisco é um de nós. Ele partiu do patrimônio comum da Igreja da Teologia da Libertação. E o tem expandido. Aqueles que falam dos pobres têm agora a falar da terra, porque também é saqueada e profanada. “Ouvi o grito dos pobres”, o que significa que para ouvir o grito dos animais, das florestas, ouvir a totalidade do sofrimento da criação. Toda a terra chora. Assim diz o Papa, referindo-se ao título de um de meus livros; há que se escutar o grito dos pobres e o da terra hoje. E ambos têm de ser libertados. Eu mesmo trabalhei com esta expansão da Teologia da Libertação. E isto é fundamentalmente novo na “Laudato si” …

… A “eco-Encíclica” do Papa de 2015. Quanto há de Leonardo Boff em Jorge Mario Bergoglio?

A encíclica pertence ao Papa. Mas muitos especialistas foram consultados.

Ele já leu seus livros?

Mais que isso. Ele me pediu material para “Laudato si”. Eu dei o meu conselho e enviei-lhe um pouco do que escrevi. E foi utilizado. Algumas pessoas me disseram que ao ler, pensaram:  “isto é Boff!”. A propósito, Francisco disse: “Boff, por favor, não envie documentos diretamente para mim.”

E porque não?

Ele disse: “Porque senão os secretários da Cúria pegam eu eu não recebo… Envia tudo ao sim o embaixador argentino com quem tenho um bom relacionamento, e chegará tudo com segurança às minhas mãos.” Você tem que entender que o atual embaixador argentino para o Vaticano é um velho amigo do tempo Papa em Buenos Aires. Muitas vezes beberam mate juntos. Um dia antes da publicação da encíclica, o Papa fez me chamar para expressar sua gratidão por minha ajuda.

Um encontro pessoal com o Papa ainda está pendente?

Ele procurou a reconciliação com os principais representantes da Teologia da Libertação, Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino … até a mim. Eu disse a respeito de Bento, Joseph Ratzinger, “mas ele ainda está vivo!”. O Papa não retrucou. “Não”, ele disse, “sono io il Papa” – “sou eu o Papa.” Ficamos em silêncio. Assim você pode ver sua coragem e determinação.

Francisco brinca com filhos de presidiários, em Roma (2014)

Por que então ele não houve a sua visita?

Recebi o convite e cheguei a desembarcar em Roma. Mas neste dia, pouco antes do Sínodo da Família, 2015, 13 cardeais – incluindo o cardeal alemão Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé tentaram uma rebelião contra o Papa. Mandaram uma carta privada  a ele, e então – maravilha das maravilhas! – ela apareceu nos jornais. O Papa ficou furioso e disse: “Boff, eu não tenho tempo agora. Tenho que acalmar as coisas antes do Sínodo Irei vê-lo em outra ocasião…”

Mas ele não conseguiu acalmar as coisas, não é?

O Papa sentiu o sopro dos ventos contrários dentro de suas próprias fileiras, especialmente dos Estados Unidos. Este cardeal Burke, Leo Burke, que agora – juntamente com o Meisner, cardeal emérito de Colônia – escreveu uma carta, é o Donald Trump da Igreja Católica (risos). Mas, ao contrário de Trump, Burke está congelado na Curia. Graças a Deus. Essas pessoas realmente acreditam que deveriam corrigir o Papa. Como se fossem acima do Papa. Isso é incomum, senão inédito na história da Igreja. Pode-se criticar o Papa, discutir com ele. Eu o fiz com bastante freqüência. Mas esses cardeais acusam publicamente o Papa de propagação de erros teológicos ou heresias – em minha opinião – o que é demasiado. É uma afronta que o próprio Papa não pode tolerar. O Papa não pode ser condenado, isso é doutrina da Igreja

Apesar de seu entusiasmo com o Papa o que acontece com as reformas da igreja, que muitos católicos esperavam de Francisco, mas que não estão realmente acontecendo?

Pelo que entendi, o centro de seu interesse não é mais a Igreja, não é a atuação da Igreja, mas a sobrevivência da humanidade, o futuro da Terra. Ambos estão em perigo, e você tem que se perguntar se o cristianismo pode ajudar a superar esta grave crise da humanidade, que está sob ameaça de perecer.

Francisco se preocupa com o meio ambiente, e, entretanto, ele continua sua igreja antes de uma parede?

Eu acho que, para ele, existe uma hierarquia de problemas. Quando se destrói a Terra, há uma carga enorme de novos problemas. Mas, quanto aos assuntos internos da Igreja, temos que esperar! Ainda no outro dia, o cardeal Walter Kasper, um homem de confiança do Papa, disse que em breve haverá grandes surpresas.

O que você espera?

Quem sabe? Talvez o diaconato das mulheres. Ou a possibilidade de padres casados ​​poderem ser reintegrados ao ministério. Este é um pedido formal ao Papa feito pelos bispos brasileiros, especialmente seu amigo, o cardeal emérito brasileiro Claudio Hummes. Ouvi dizer que o Papa quer responder a este pedido com uma primeira fase experimental no Brasil. Este país tem 140 milhões de católicos e deveria ter pelo menos 100 mil sacerdotes. Mas há apenas 18 mil. Do ponto de vista institucional, é um desastre. Não é de se admirar que os fiéis migrem em massa para os evangélicos e pentecostais, que preenchem este vazio pessoal. Agora, se milhares de padres casados ​​voltarem ao exercício de suas funções novamente, seria um primeiro passo para melhorar a situação – enquanto um impulso para a Igreja Católica para resolvem o cativeiro do celibato obrigatório.

Se o Papa decidir a este respeito, você também assumiria funções sacerdotais novamente, como um ex-padre franciscano?

Pessoalmente, eu não preciso de uma decisão deste tipo. Não mudaria o que estou fazendo hoje, o que sempre fiz: batismo, funeral e, quando eu chego a uma comunidade sem um padre, também celebro a missa junto com as pessoas.

Carinho com o professor, dom Paulo Evaristo Arns

Uma questão alemã: isso é admissível?

Até agora, nenhum bispo que eu conheço nunca se opôs ou mesmo proibiu. Os bispos também se alegram e dizer: “As pessoas têm o direito à Eucaristia.Siga fazendo isso com tranquilidade!” Meu professor de teologia, que infelizmente morreu há poucos dias, o cardeal Paulo Evaristo Arns, por exemplo, teve um elevado grau de abertura. Ele foi muito longe: quando via padres casados nos bancos da Igreja em uma celebração, convidava-os ao altar para celebrar a Eucaristia com eles. Eu o vi dizer muitas vezes: “Você é sacerdote e continua a ser.”

Fonte: http://outraspalavras.net/maurolopes/2017/01/03/uma-entrevista-historica-de-leonardo-boff/

Só a religião verdadeira tem direitos

leao-xiii

Escrito por Javier Navascués

Traduzido por Frei Zaqueu

O liberalismo é una das ideologias mais deletérias para a religião católica, a única verdadeira, posto que concede os mesmos direitos ao erro que à verdade. Esta perniciosa doutrina está tristemente presente na Igreja carcomendo o reto ensino, sacudindo seus mesmos cimentos e causando um grande dano às almas. Como consequência dela, hoje em dia se nos propõe um herético ecumenismo onde a religião verdadeira e as falsas crenças estão ao mesmo nível.

Se nos convida a não fazer proselitismo da verdade católica em prol de um mortífero ecumenismo casado com a heresia e em conivência com as falsas religiões de Satanás. A liberdade de cultos, hoje tão apregoada, foi rotundamente condenada pelo Magistério da Igreja. Numerosos Papas nos advertiram de seus graves perigos, entre eles Leão XIII na encíclica Libertas praestantissimum sobre a liberdade e o liberalismo.

Borja Ruiz, historiador, tem estudado em profundidade a mencionada encíclica. Seguindo a solidíssima doutrina deste Pontífice, de feliz memória, expõe o daninho que é conceder direitos ao mal e ao erro. Tendo como base um profundo pensamento

filosófico e teológico, denuncia o gravíssimo câncer do liberalismo e uma de suas funestas consequências: a liberdade de cultos.

Como se define na encíclica a autêntica liberdade?

Nos lembra Leão XIII que atualmente, o homem pós-moderno, tende a considerar-se livre por ter-se desprendido da religião e por fazer aquilo que a vontade e suas paixões lhe ordenam. Ademais empunha a bandeira da liberdade, mas de uma falsa liberdade, aquela que nasce do NON SERVIAM. Em primeiro lugar, a liberdade só a temos os humanos (por ter inteligência e razão) a qual nos faz responsáveis de nossos atos. A razão julga a maldade ou bondade dos atos, consequência da lei natural. Assim pois, a liberdade é um meio para alcançar um fim. A liberdade tem por objeto um fim conforme a razão.

Não obstante, a vontade e a razão que a guia, podem julgar por bom algo que não o é e ao atuar, portanto, estaria produzindo-se um abuso da liberdade. Desta forma como se diz na encíclica: a liberdade de pecar, não é tal, é una escravidão da razão e a vontade. De tal forma, para que seja autêntica liberdade pois, é necessário que a razão esteja formada em reta doutrina e iluminada pela graça sobrenatural, que a aperfeiçoa.

Qual seria por tanto a falsa concepção liberal sobre a liberdade?

A concepção do liberalismo sobre a liberdade, principalmente não é mais que uma pura licença (ou conjunto delas), dado que têm apartado e negado a graça sobrenatural e a identificação e busca clara e desejável do Bem e a Verdade.

Em consequência, o juízo sobre a Verdade e o Bem fica abandonado à razão por si só. Não há diferença objetiva entre bem e mal, o vício e a virtude não se distinguem. Tudo isso provem da proclamação do homem como ser soberano frente a Deus, que alcança sua máxima expressão no NON SERVIAM de Lúcifer.

Portanto, por que não deveria estar permitida a liberdade de cultos?

É obvio, que o bem deve fazer-se e o mal evitar-se, como diz Leão XIII: aquele que é aplicável ao homem o é também para a sociedade e seu bem comum. Tendo presente que o objetivo mais elementar de um Estado (que não seja tirânico) é o bem comum de seus cidadãos, se compreende no mesmo, seu bem moral, que é frontalmente atacado pelo liberalismo ao não obedecer este a uma razão suprema e eterna que é o fim da liberdade humana: Deus.

Havendo exposto o prudente pensamento e ordem da liberdade, procederemos à explicação do que seja a liberdade de cultos ou de religião e seu mal intrínseco. Não se nos escapa, tendo em conta o erro do liberalismo, que tantas almas direta o indiretamente têm levado ao inferno, todas aquelas “liberdades” que se derivem deste não são mais que licenças e vícios, dos mais daninhos para o bem terrenal (dos povos e os homens) e o bem espiritual (o de sua salvação).

Esta falsa liberdade, estabelece que cada um pode professar a religião que queira ou não professar nenhuma. Mas isto é contrário à verdade, por quê?

Porque a mais alta e importante obrigação que nos manda Deus é dar-lhe culto que merece através da religião verdadeira. O Amarás a Deus sobre todas as coisas, não só deve dar-se a nível particular mas também ao dos Estados que perseguem o bem comum de seus cidadãos. A gravidade radica em ser infiel à obrigação santíssima de dar-lhe culto.

Por que não é lícito que gozem dos mesmos direitos todas as religiões?

Porque só a verdade tem direitos, o mal não os tem. Pio XII ensina: O que não responde à verdade e à norma moral não tem objetivamente nenhum direito de existência, nem à propaganda nem à ação.

Acerca disto, os Papas têm falado claramente e resumem as razões pelas que não é lícito que todas as religiões gozem de idênticos direitos:

* Não é lícito, porque suprime a fundamental busca do bem comum.

* Não. Porque anula os deveres de honra pública e exclusiva (salvo prudências circunstanciais) do Estado a Deus. Exceção por prudência:

Leão XIII: Ainda concedendo direitos só e exclusivamente à verdade e à virtude não se opõe à Igreja, entretanto, à tolerância por parte dos poderes públicos de algumas situações contrárias à verdade e à justiça para evitar um mal maior ou para adquirir um maior bem.

* Não, porque se permite manifestar e propagar o erro religioso, coisa que põe em perigo a mais importante missão do homem, sua salvação eterna.

Que mais consequências se derivam desta liberdade de cultos?

Propicia a separação da Igreja e do Estado (a separação moral), o qual deriva em tirania. Se nega a realeza de Jesus Cristo, que é Rei de céus e terra. A realeza implica instaurar todas as coisas em Cristo, que fundou uma só Igreja. Com a liberdade de cultos não é possível portanto implantar na sociedade a realeza de Jesus Cristo.

Laicização dos Estados e sua descristianização acelerada. Pois quando se outorgam os mesmos direitos a todos os erros, a verdadeira fé desaparece cada vez mais. Em uma sociedade católica as almas se salvarão mais facilmente, mas em uma onde a Igreja deve coexistir junto às falsas religiões e seitas, essa salvação se torna muito mais difícil.

Para concluir, por que os Estados devem proibir a liberdade de imprensa?

Reconhecendo a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo e assumindo que todos os direitos são e provêm dele e como afirmava Leão XIII na encíclica Inmortale Dei: não é lícito publicar e expor à vista dos homens o que é contrário à virtude e à verdade, e é muito menos lícito favorecer e amparar essas publicações e exposições com a tutela das leis.

Javier Navascués

________________

Fonte: http://adelantelafe.com/solo-la-religion-verdadera-derechos/

Créditos: Fr. Zaqueu