Papa Francisco: Mais uma “amigável” mensagem de Natal à Cúria

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Nesta quinta-feira, 22 de dezembro, na Tradicional saudação aos cardeais e bispos da Cúria Romana para abordar a reforma que deseja fazer. Em suas palavras falou sobre as várias formas de “Resistências” que surgem no seio da própria Igreja. Lendo a atualidade, pode-se  dizer que o Papa Francisco tenha dado indiretas aos quatro cardeais ?

A MÃE, O MENINO E A NOITE ( Revendo)

NOSSA SENHORA DO “Ó” E DOS “AIS”

Pe. Marcélo Tenorio



    

    Por esses dias estive em S. Paulo e lá pude assistir uma apresentação natalina dos jovens da  Montfort, na bela Igreja de S. Bento. Entre tantas peças executadas, uma chamou-me bastante atenção. Trata-se da canção “ Convidando está la Noche”, de Juan Garcia de Zéspedes, mexicano, falecido em 1678. Uma canção natalina,  com uma marcação que soa, a cada instante, como que um convite  ao júbilo, à alegria  pelo Menino nascido em Belém, mas ao mesmo tempo, um avanço, a cada estrofe em direção à cruz velada pelas luzes da noite santa.
Com  rápidos movimentos, numa sonoridade agradabilíssima, inicia-se a canção jubilosa, mas entre um verso e outro aparece sempre um “AY”, imperativo, peremptório.

“ Ay, que me abraso, ay! Divino dueño, ay!
Em la hermosura, ay! de tus ojuelos, iay!

A freqüente repetição do “Ai”, indica a exultação da Virgem Mãe, ao contemplar nas  palhinhas o Menino Deus, o Verbo que se fez carne. Fica  “pasma” quando da anunciação do Anjo, em sua casa, em Nazaré. Ela que nada desejava a não ser Deus mesmo, recebe a visita do céu e um comunicado solene: “serás Mãe!” e “ o Espírito santo descerá sobre ti”. A criança  “chamar-se-á Emanuel, que quer dizer: Deus conosco,” Deus entre nós, Deus para nós. Que suspiros! Que “Ais” não pronunciaram os lábios fecundos da Virgem Mãe? Na casa de Isabel esses “ais” vieram em canto. Diante da mudez daquele que duvidou, canta Aquela que “ acreditou no que da parte do Senhor lhe foi dito” – e um Magnificat fez-se ouvir do alto das montanhas.
Lembrei-me de Nossa Senhora do “Ó”, que aparece no Advento, sobretudo no tempo alto, de 17 a 23, quando se entoam as  belas Antífonas do “Oh”. Ela que, acolhendo o Mistério da Encarnação em si mesma, fica “maravilhada” diante do sinkatábasis de um Deus que vem. Silencia  e contempla espantada Aquele que a gerou: “ tu quae genuisti, natura mirante, tuum sanctum Genitorem..”

Canta Santo Afonso em sua novena de natal:

    “Recebe, Virgem Maria, no casto seio materno, dos céus o Verbo Divino vindo da boca do Eterno.
Fecunda, a sombra do Espírito do alto céu te ilumina, para gerares um Filho de natureza divina.
A porta santa do templo eternamente fechado, feliz e pronta se abre, somente ao Rei esperado.”

A canção também nos revela um outro “Ai”, aquele predito por Simeão: “ E quanto a vós, Maria…..um gládio transpassará o vosso coração.”(Lc 2 34,45). É a hora do gládio que esses “Ais” indicam…apontam para cruz…O “Ai” da Mãe,..tem o eco do “Ai” da profecia que silenciosamente caminha  ao seu lado…E assim Ela contempla a sua criança…., o cordeiro para o sacrifício…Essas mãos que a mãe beija, um dia se abrirão cravadas no madeiro, num abraço eterno e único à toda humanidade. Os pequeninos pés que a Mãe afaga, um dia serão ungidos com os aromas da urna de alabastro. A cabecinha que repousa em seu seio, um dia penderá, sem vida no seu colo. Assim a Virgem observa o pequeno Redentor..Em seu peito um coração humano que pulsa, o lado que lhe será aberto  – “pie pelicane” – para Vida do mundo.

Ay, que su madre, ay! como en su espero, ay!
mira em su lucencia, ay! sus crecimientos, iay! “

E a festa começa. Os pastores chegam! Os magos se apressam! As multidões angélicas cantam….presentes são oferecidos….o Menino é adorado.

“ Ay, que la gloria, ay! del portaiiño, ay!
ya viste rayos, ay! si arroja hielos, iay! “

A cena  nos lembra aquela do ícone do Perpétuo Socorro. O menino nos braços da Virgem,  docemente confortado ante o susto, que  o faz agarra-se mais à sua Mãe. No susto quebra-lhe uma das sandálias. E o que vê a criança? Vê dois anjos que lhe mostram a cruz e os  cravos do martírio.

“ Pero el chicote, ay! a um mismo tiempo, ay!
llora y se rie, ay! qué dos extremos, iay..”

Era o querido professor Fedeli que apreciava muito esta canção justamente pela  melodia e pelos “ais” . Eles lembram o “Vai”, que a mãe certamente disse ao filho, impulsionando-o à missão. O “ai” com o “vai”- acredito que aqui está toda beleza que nos leva a contemplar Nossa Senhora, nesta noite Santa de Natal. Ela ,por graça, foi isenta das dores do parto, mas não da dor do gládio. E sua maior dor será justamente esta: não descer tanto quanto seu Filho. Ele desce no mistério da Encarnação e continuará descendo até o extremo na cruz. E Ela desce  também com Ele.

 Na manjedoura Ela está!..Olha para o Filho e no “ai” de sua dor extrema que prevê o porvir,  exclama: “Vai, meu filho, vai!”…
Assim acontecerá também quando do encontro, no templo, ao escutar palavras misteriosas “ Não sabíeis que devo ocupar-Me das coisas do meu Pai?”(Lc 2, 49)…A Virgem, silenciada, no coração lhe dizia: “Vai, filho, vai! Á Belém, à Galileia, a Cafarnaum, Vai!…Vai a  Jerusalém e lá ofereça o peito para o rasgão bendito!..”
É este o Mistério que celebramos: o Mistério de amor  e de dor, do “oh” e dos “ais”.

Entre as luzes de Natal e os “glórias” dos anjos, entre o ouro dos reis e o incenso dos sacerdotes, encontra-se em algum lugar…também a mirra…
E o galo canta. E as velas são acesas. E a missa começa. A criança está pronta! Vai o cordeiro ao sacrifício…

“Mas o Menino, Ai! Ao mesmo tempo, ai!
Chora e rir, ai! Que dois extremos, ai”

Letra da  canção: