Ordenações no Instituto Bom Pastor, em S. Paulo

No último sábado 22 de agosto aconteceram em São Paulo, na Paróquia S. Paulo Apóstolo ,as Sagradas Ordenações  sacerdotais e diaconais oficiadas por S. Excia Revma. D. Athanasius Schneider.

Nossas Felicitações aos novos sacerdotes: Pe. Pedro Gubitoso e Pe Thomas Parra

e aos novos diáconos: José  Luis Zucchi e Tiago Bonifácio

Gaudeamus in Domino

 

o1

 

 

 

Capítulo geral do Instituto do Bom Pastor é contestado




O capítulo geral do Instituto do Bom Pastor reuniu-se em Courtalain (Departamento francês de Eure-et-Loir), e anunciou na sexta-feira, 6 de julho, que o Pe. Roch Perrel, atual Superior do Seminário de Courtalain, foi designado como o novo Superior Geral do Instituto, sucedendo assim ao Pe. Philippe Laguérie.

O capítulo também designou o Pe. Paul Aulagnier como Primeiro Assistente e o Pe. Leszek Krolikowski como Segundo Assistente, os Padres Stefano Carusi e Louis-Numa Julien, respectivamente, como Terceiro e Quarto Conselheiros.

No entanto, no mesmo dia, o site do Instituto do Bom Pastor na Internet não fez menção a esta eleição. Somente uma mensagem assinada pelo “Secretário do Superior Geral, Sr. Pe. Philippe Laguérie”, explicou que “qualquer comunicação oficial do Instituto do Bom Pastor deve evidentemente ser publicada neste site. Todo o resto é uma farsa.


A COMMISSIÃO ECCLESIA DEI DEVERÁ SE PRONUNCIAR


Parece que a eleição foi contestada pelo padre Philippe Laguérie. “Eu vou submeter o caso a Roma”, anunciou a La Croix logo após, através de seu blog, responsabilizar “alguns” conselheiros” que creriam que o direito canônico é “tão maleável quanto uma pele de… coelho!“.


“O Pe. Laguérie nos fez sabe
r que ele impetrará um recurso para contestar a eleição”, confirmou o Pe. Perrel. 
“Enviamos todas as informações à Comissão Ecclesia Dei. Esperaremos para ver.

O Instituto do Bom Pastor (IBP) foi  fundado em setembro de 2006 por antigos membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (a saber, os padres Laguérie, Aulagnier e Guillaume de Tanouarn) que decidiram se unir a Roma. O Pe. Laguérie foi então nomeado o primeiro Superior Geral pela Comissão Ecclesia Dei, encarregada em Roma dos fiéis tradicionalistas.

Em março passado, ao final de uma visita canônica realizada após cinco anos de experiência concedidos por Roma no momento da criação do IBP, a ComissãoEcclesia Dei pediu ao Instituto para se integrar melhor ao Vaticano II, especialmenteem sua formação sacerdotal e sua vida litúrgica.

Nicolas Senèze

O “rito próprio” e a “hermenêutica da continuidade” são suficientes?


              Bernini. Santo Ambrósio e Santo Atanásio sustentam a Cátedra de São Pedro

O texto abaixo foi publicado no blog “Disputationes Theologicae”mantido pelos padres Stefano Carusi e Mathieu Raffray, do Instituto do Bom Pastor. O artigo responde às especulações e críticas levantadas pela publicação misteriosa de umacarta de Monsenhor Guido Pozzo, da Comissão Pontifícia Ecclesia Dei e de um relatório da visita canônica ao IBP, acontecida por ocasião do fim do período de experiência concedido pela Santa Sá, após sua fundação, em 2006.
Padre Stefano Carusi em “Disputationes Theologicae”
Tradução Montfort
 Nossa Redação, após a publicação do relatório da visita canônica do Instituto do Bom Pastor, tem recebido perguntas que podem ser resumidas pelo título deste artigo. A questão nos parece ter um relevante interesse eclesial, ainda mais se levarmos em conta as solicitações a que nos pronunciássemos presentes em vários artigos aparecidos sobre esse assunto, como aquele do superior do distrito italiano da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Exporemos, portanto, algumas considerações a nossos leitores, as quais, evidentemente, comprometem apenas a linha editorial desta revista livre.
O texto produzido pela Reverenda Comissão Pontifícia Ecclesia Dei oferece ao Instituto do Bom Pastor algumas indicações, em parte de ordem prático-jurídica, e em parte teológico-eclesial.  Essas indicações tocam a “especificidade” do Instituto, não em termos peremptórios, mas antes em forma de conselho: a respeito da celebração da Missa tradicional tal como é prevista pelos Estatutos, a Comissão convida a falar de “rito próprio”, nós citamos literalmente, “sem falar de exclusividade” (é um convite a modificar os Estatutos fundadores?). Ela pede também – e sobre esse segundo ponto com uma formulação um pouco mais forte – para diminuir a “crítica, mesmo séria e construtiva” dos aspectos do Concílio Vaticano II que levantam dificuldades, para insistir mais “sobre a hermenêutica da renovação na continuidade” adotando “como base” o “Novo Catecismo”.
Quanto a esses dois pontos, a questão, longe de ser uma simples discussão terminológica, nos parece crucial para o futuro do Bom Pastor. No mais, a Comissão parece ter querido, em seu conjunto, apresentar seu próprio ponto de vista teológico-litúrgico e, sempre sem se tratar de ordens formais, ela deixa a escolha ao Capítulo Geral.
A natureza do texto de Monsenhor Pozzo e as circunstâncias históricas
O documento é o resultado da visita canônica efetuada após o prazo de seis anos desde a fundação do Instituto. Nós lembramos que o reconhecimento desse último foi querido pessoalmente pelo Santo Padre Bento XVI, para oferecer a possibilidade da “experiência da Tradição”, com duas especificidades expressamente previstas pelos Estatutos (aprovados por Roma) e em virtude das quais se falou de um “avanço” da causa tradicional: a celebração exclusiva da “Missa gregoriana” (conforme a expressão do Cardeal Castrillon Hoyos) e a possibilidade explícita de uma “crítica séria e construtiva” dos pontos do Concílio Vaticano II que parecem dificilmente conciliáveis com a Tradição.
Ora, do ponto de vista litúrgico, o texto afirma que seria desejável uniformizar os Estatutos do Instituto com o “espírito” do Motu Proprio Summorum Pontificum, aparecido um ano mais tarde, eliminando a palavra “exclusiva”, e substituindo-a pela expressão “rito próprio” (o termo, já presente nos Estatutos em dois pontos, é, no entanto, invoca
do em contraposição ao outro e não em integração com ele). Notemos, entretanto, que tal termo, assim como na redação aprovada pela Santa Sé em 2006, não é incompatível com a recente legislação na matéria, sendo antes o reconhecimento jurídico de uma peculiaridade. Na Igreja, a existência de uma lei geral (e, nesse caso, simplesmente de uma orientação) não impede o reconhecimento de um direito próprio:a fortiori em presença de uma precedente aprovação de autoridade eclesiástica. Nesta perspectiva, pode-se compreender que tal indicação da Comissão esteja na ordem do convite.
Do ponto de vista teológico, o documento convida a privilegiar a “hermenêutica da renovação na continuidade” sobre a “crítica, mesmo séria e construtiva” e, mais geralmente, a atitude “positiva”. A Comissão parece reconhecer que a atitude do Bom Pastor não é aquela de uma crítica selvagem, desrespeitosa, extremista e temerária, mas permaneceu no âmbito dos compromissos assumidos em 2006. Naquele contexto, o Instituto, não havendo pleno acordo sobre algumas questões doutrinárias, subscrevia um “acordo prático-canônico” – incluindo também os dois pontos supramencionados – em um espírito de filial colaboração com a Santa Sé e levando a sério as declarações de Sua Eminência Cardeal Castrillon Hoyos, o qual repetia que, se há evidência de incoerências, “a crítica construtiva é um grande serviço a prestar à Igreja”.
Uma proposta de reflexão
O citado texto deve ser acolhido com o respeito que é devido a um documento proveniente de um Dicastério Romano, e, ao mesmo tempo, naquele mesmo espírito de abertura e de franqueza no qual agora nos empenhamos.
Ele contém algumas indicações de ordem prático-jurídica que são inspiradas pela solicitude em vista de um aperfeiçoamento da justiça administrativa que deve caracterizar toda sociedade; mostra-se preciosa a solicitação a aprofundar “o pastoreio de Cristo”; inevitavelmente, em uma fundação jovem, há aspectos a melhorar e a Comissão oferece indicações que não devem ser desprezadas. Mas o documento pede também a reconsideração de dois pontos que constituem a especificidade do Instituto; sob este aspecto, nosso ponto de vista discorda daquele do relator.
A celebração “exclusivamente” no rito tradicional
Não vemos uma incompatibilidade legislativa entre tal faculdade e o Motu ProprioSummorum Pontificum mesmo porque a aludida referência que manda não “excluir, em princípio a celebração segundo os livros novos”, não está contida na parte normativa, mas na carta argumentativa. Além disso, a passagem pode ser entendida como recomendação a não excluir que outros sacerdotes católicos celebrem segundo os novos livros, em vista de condenações generalizadas que muitas vezes foram pronunciadas em alguns ambientes, os quais afirmam categoricamente que a celebração segundo os ritos novos é ipso facto matéria de pecado mortal. Em todo caso, não foi posto pelo Supremo Legislador como obrigação de lei. Também a Instrução Universae Ecclesia (o artigo 19, por exemplo) afirma a impossibilidade de uma exclusividade que é acompanhada de ataques violentos (sint infensae) e sentenças categóricas contra textos aprovados pela Santa Sé: o documento todavia não exclui a possibilidade de nutrir reservas teológicas, não impede de agir consequentemente (leia-se aqui), não impõe como obrigação o birritualismo.
Escrevemos no passado que a esse propósito fazemos nossas as reservas que expressou Sua Eminência o Cardeal Ottaviani ao escrever a carta de acompanhamento ao Breve exame crítico do Novus Ordo Missae. Tanto prelados, aliás, dos quais não é o último o atual Pontífice Reinante, já escreveram pedindo uma “reforma da reforma”: evidentemente, haverá motivos… Parece-nos então que o termo “exclusivo” exprima bem a nossa posição e como tal foi admitido em nossos Estatutos pela Santa Sé, em uma recíproca atitude de lealdade. Sem querermos substituirmo-nos a um futuro pronunciamento da autoridade eclesiástica, afirmamos, com prudência e moderação, mas sem subterfúgios, nossa opinião; esse não é peremptória, mas quer ser franca e supõe consequências. Se não agíssemos assim e escondêssemos o pensamento de nossos corações, ou pior ainda, se agíssemos contra a consciência, faltaremos realmente com o respeito à Autoridade que queremos servir na clareza de posições. Pensamos, portanto, que o termo exclusivo deve ser mantido, mesmo por observância dos compromissos por nós publicamente assumidos. O Bom Pastor, de fato,  não nasceu para ocupar-se do próprio interesse pessoal –  vitam suam dat pro ovibus suis– mas para oferecer um testemunho da possibilidade de uma posição eclesial que inclua os citados pressupostos.
A “crítica séria e construtiva”
 Com efeito, nestes seis anos nos esforçamos – também no cumprimento dos compromissos assumidos com a Santa Sé – por analisar os documentos mais recentes em um espírito sereno, obsequioso, mas que não esconde aprioristicamente nenhuma real dificuldade de conciliação com a Tradição. Teria sido esconder essas dificuldades uma atitude não só pouco científica teologicamente, mas sobretudo desleal em relação à Igreja. Isso não basta? Este posicionamento não exclui –  aprioristicamente – que alguns pontos problemáticos de certos pronunciamentos possam ser interpretados segundo uma leitura de “continuidade da hermenêutica teológica”, ainda que apresentando algumas vezes expressões ambíguas. A crítica “séria e construtiva” não exclui forçosamente a eventualidade,  sempre que possível, de ler em continuidade com o Magistério anterior algumas passagens recentes; mas quer exprimir também a possibilidade – e o dever filial – de dizer abertamente à Santa Sé que certas coisas poderiam pedir uma reconsideração. Em razão do poder das Chaves, no supremo obséquio à Verdade e no interesse da Igreja, o Sumo Pontífice pode fazê-lo com textos magisteriais não infalíveis, especialmente onde a continuidade fosse não demonstrada. Se, com nossa história, deliberadamente ofuscássemos tal humilde testemunho, essa poderia ser a maior falta de respeito em relação à Sé Apostólica; estaríamos em busca de um imediato benefício pessoal – ainda que social – “pro domo sua” , abandonando o compromisso em virtude do qual alguns aderiram justamente a essa Congregação, compromisso que a Santa Sé aprovou por escrito no recente 2006.
O perigo da obediência indevida ou servilismo e da perda daquilo que representamos
Quisemos oferecer nossas considerações, levando em conta a natureza do Instituto do Bom Pastor. Se este se privasse de suas especificidades estatutárias, seria – é a opinião de nossa revista – radicalmente desnaturado e perguntamos: sem a “exclusividade” e deixando de lado a “crítica séria e construtiva”, o Bom Pastor conservaria sua razão de existir? Por que não preferir então qualquer outra Congregação? Depois do “espírito do Concílio” há realmente necessidade do “espírito do Motu Proprio”, erigido em norma? Nas disputas atuais, não é importante pedir uma clara distinção entre uma argumentação e uma obrigação, um convite e uma lei, uma opinião (ainda que autorizada) e um claro ensinamento? Se confirmássemos a impressão que as concessões previstas em acordos são instáveis, renderíamos um serviço à Igreja? Um estudioso como Mons. Nicola Bux evitou “dogmatizar”, enfatizando-a excessivamente, a hermenêutica da continuidade (que os progressistas continuam tranquilamente a ignorar), dizendo sobriamente que essa “forneceu um critério para enfrentar a questão e não para fecha-la”. Seremos críveis se quiséssemos ser (ou simular ser) mais ratzingerianos que  Mons. Bux?
Além disso, é realista esperar que a Fraternidade São Pio X adote, agora ou dentro de seis anos, as orientações que foram sugeridas? Mais ainda, se determinados pontos fossem juridicamente incompatíveis e eclesialmente impossíveis, isso nós já o saberíamos, em um espírito de direito, tanto quanto à Fraternidade São Pio X quanto  ao Instituto do Bom Pastor (que ainda por cima não pretendeu a “contrapartida” dos preliminares). Devemos portanto considerar, confiantes na Providência, que são precisamente sugestões. Não esqueçamos de que há hoje, na Igreja, pressões desagregadoras e gravíssimas dificuldades; mas parece que as citadas peculiaridades do Instituto do Bom Pastor, mais que um obstáculo ao bem do Corpo Místico, sejam um humilde e sincero serviço à Igreja.
 Pe. Stefano Carusi, IBP

A FSSPX DISSE SIM! VIVA O PAPA! ALELUIA!

Compartilhamos das alegrias e das esperanças do RP Navas Ortiz., do IBP. Nesse tempo pascal, eis o triunfo do Papa, eis o triunfo da Igreja.

Segue o comentário do Pe. Navas ( IBP)

Sto Padre-FSSPX:

” ¿será que se destapa el cisma modernista?”


Entre les comités de la jupe, les scandales de moeurs, les rébellions autrichiennes, les 


autonomies de certains dicastères en roue 


libre, les humiliations des épiscopats, le pape n’a plus d’autre choix que de contre-balancer 

tout l’équilibre de l’Eglise.
Regina Coeli: Gaude et laetare… Aleluya!!!

Pe. Aulagnier: Do Motu Proprio Summorum Pontificum a seu Decreto de Aplicação Universae Ecclesiae.




Padre Paul Aulagnier, IBP
Em 7 de julho de 2007, o Papa Bento XVI publicou o Motu Proprio intituladoSummorum Pontificum. Nesse texto, ele reconhece explicitamente que o Missal tradicional nunca foi abrogado, que ele não poderia sê-lo e que, em conseqüência todo padre permanece livre de utilizá-lo. É o que exprimem essas palavras do artigo 1: “Por isso é licito celebrar o Sacrifício da Missa segundo (…) Missal Romano (tradicional) (…) que não foi jamais ab-rogado “.
“Jamais ab-rogado”“nunquam abrogatam”. Em duas palavras, o Motu Proprio determina a sorte da proibição odiosa, injusta e ilegal que há quarenta anos, pretendia atingir a missa tradicional.
 Esta afirmação é fortalecida pelo comentário que faz o próprio Papa em sua Carta aos Bispos:  este Missal nunca foi juridicamente ab-rogado e, consequentemente, em princípio sempre continuou permitido”.
 Isso quer dizer que a proibição inúmeras vezes repetida era ilícita, como faz notar Jean Madiran.
E mais adiante, o Papa escreve: “Aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós, e não pode ser de improvisototalmente proibido ou mesmo considerado como nefasto”.
 Isso equivale a confirmar a importância do costume na Igreja: “Aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós…”.Isso acontece com a Missa tridentina. Ela é um costume imemorial, o que lhe dá, unicamente sob esse ponto de vista, “uma perenidade intrínseca enquanto monumento incomparável da fé”. Em conseqüência,  “a “perenização” da missa tradicional não deve ser concedida nem retirada”, como escrevia o Sr. de Saventhem a Monsenhor Ré, na época substituto da Secretaria de Estado, ela deve ser simplesmente reconhecida e respeitada nas disposições que regulamentam seu emprego ao lado, eventualmente de ritos novos, se houver”. E os há.
Isso é precisamente o que faz o Papa Bento XVI em seu Motu Proprio Summorum Pontificum. Ele quer fazer respeitar por uma disposição legal a missa tridentina.
 É por isso que o Motu Proprio foi recebido pelo mundo da Tradição com uma imensa alegria, um imenso reconhecimento, um grande encantamento. Todos esses sentimentos foram expressos, para muitos, através do canto do eterno Te Deum, com o temor, entretanto, de que ele não fosse recebido facilmente pelos episcopados e que sua aplicação fosse assim dificultada.
A – Breve história do Motu Proprio Summorum Pontificum
 Com efeito, há quarenta anos os episcopados do mundo inteiro, mas particularmente o francês e mesmo o episcopado suíço, se levantaram contra essa “missa de sempre”. -Vocês conhecem alguma coisa disso, aqui no Brasil, com a oposição feroz de Dom Navarro, que sucedeu de Dom Mayer na diocese de Campos em 15 de novembro de 1981.
Tomemos nossos exemplos na Suiça: Dom Adam, bispo de Sion, publicava, em janeiro de 1973, uma “atualização” em que afirmava ser proibido celebrar segundo o rito de São Pio V “que foi abolido (sic) pela Constituição Missale Romanum de 1969”. E Dom Adam precisava: “A presente declaração é baseada em informação autêntica e indicação formal da Autoridade”. No mês de janeiro seguinte, era a Assembléia Plenária dos Bispos Suiços que proclamava: “Não é mais permitido celebrar a Missa conforme o rito de São Pio V”. Em toda a parte era o mesmo refrão oficial: “A obediência à Igreja proíbe celebrar a missa conforme o rito de São Pio V, em qualquer circunstância que seja”.
E a catástrofe foi o discurso consistorial de 24 de maio de 1976, que declarou que a Nova Missa “foi promulgada para tomar o lugar da antiga” substituição à qual era preciso dar “uma pronta submissão em nome da autoridade suprema”. “É em nome da Tradição”, dizia o Papa, por ocasião desse Consistório, “que nós pedimos a todos os nossos filhos, a todas as comunidades católicas, que celebrem na dignidade e no fervor a liturgia reformada”.
 Assim a Missa Nova tornava-se obrigatória; só ela deveria ser celebrada. Só ela era a lei. A missa tradicional estava proibida.
 “É portanto com uma profunda amargura, mas também com uma paternal esperança que  nos dirigimos uma vez mais a esse confrade [Dom Lefebvre], a seus colaboradores e àqueles que se deixaram arrastar por eles… Nós compreendemos seu apego sentimental à formas de culto e de disciplina aos quais eles estavam habituados, que, durante longo tempo foram para eles um apoio espiritual e nos quais eles haviam encontrado um alimento espiritual. Mas Nós temos a firme esperança de que eles saibam refletir com serenidade e sem partidarismo e que queiram admitir que eles podem encontrar agora o apoio e o alimento aos quais aspiram nas formas renovadas que o Concílio Vaticano II e Nós mesmo decretamos como necessárias para o bem da Igreja, para seu progresso no mundo contemporâneo, para sua unidade”.
 As “intenções pontificais” não podiam ser expressas de maneira mais clara. As formas canônicas talvez não tenham sido respeitadas – é a tese do padre Dulac, defendida com brio na época – mas a Missa tradicional, entretanto, no pensamento ao menos, da hierarquia, estava morta. Ela não existia mais.
 Essa foi a versão oficial até 1978.
 A partir de 1978, mais nitidamente a partir de 1984, com a carta Quattuor abhinc annos, e ainda mais com o Motu Proprio de João Paulo II Ecclesia Dei adflicta,  viu-se a linguagem tornar-se menos categórica, evitando os termos obrigação do rito novo eproibição do rito tradicional. Passou-se então, pouco a pouco, diz Jean Madiran, a um regime de autorização prévia – era a “prática” da carta Quattuor abhinc annos, assim como da Ecclesia Dei adflicta – era preciso pedir a autorização do bispo do lugar – o que permitia supor, mas implicitamente desta vez, que a proibição continuava a existir. Todavia, ela não era mais absoluta. Licenças podiam ser obtidas, dispensas dadas.
 Tanto mais que a Cúria Romana e certos cardeais, arcebispos e bispos – certamente os mais competentes – compreendiam que a proibição tinha sido um abuso de poder. Mas eles não o disseram apesar da tendência crescente aos arrependimentos de todo tipo.
 Eles não o disseram imediatamente, eles até mesmo o “esconderam”. 
Por exemplo: soube-se, mas somente em 1995, por  uma revelação do Cardeal Stickler, que João Paulo II tinha reunido uma comissão ad hoc, composta de nove cardeais, à qual ele tinha feito duas questões:
– a missa tridentina foi abolida?
– pode um bispo proibir a um de seus padres, em situação canônica normal, de celebrar a missa tridentina?
 À primeira questão, oito cardeais sobre nove responderam que a missa tridentina não tinha jamais sido abolida. À segunda, que um bispo não podia proibir a seu padre de celebrar essa missa. Eles chegaram a fazer propostas ao Soberano Pontífice, uma das quais reconhecendo a legalidade, a legitimidade do rito de João XXIII, de 1962: “Para cada missa celebrada em língua latina – com ou sem fiéis presentes – o celebrante tem o direito de escolher livremente entre o missal de Paulo VI (1970) e aquele de João XXIII (1962). Se o celebrante escolhe o missal de Paulo VI, ele deve se ater às rubricas do dito missal. Se o celebrante escolhe o Missal de João XXIII, ele é obrigado a empregar as rubricas do dito missal, mas pode:
– empregar seja a língua latina, seja a língua vulgar para as leituras;
– escolher nos Prefácios e nas orações do Próprio da missa suplementares, contidas no missal de Paulo VI e introduzir preces universais (as famosas intercessões). O calendário litúrgico para as festas será aquele escolhido pelo celebrante”.
O Papa, embora favorável a tal medida, no dizer do próprio Cardeal Stickler, não publicou nada por causa da pressão de certos episcopados.
Estávamos em 1986.
Assim, em razão do silêncio dos melhores, a proibição de fato da missa tridentina continuava a ser a regra. A proibição ainda permanecia. Com efeito, o Motu ProprioEcclesia Dei adflicta de 1988 não modificou substancialmente a “legislação” de Paulo VI. A lei geral em matéria litúrgica era ainda nessa época a favor da Missa Nova.
  Apresento como prova a resposta de Monsenhor Re ao Sr. de Saventhem, presidente honorário de Una Voce. Ele escrevia em 18 de janeiro de 1994: “pelo MP Ecclesia Dei o uso do missal romano foi concedido em certas condições. As diversas disposições tomadas desde 1964 tinham por finalidade facilitar a vida eclesial de certo número de fiéis, sem perenizar com isso as formas litúrgicas anteriores. A lei geral permanece o uso do rito renovado desde o Concílio, enquanto o uso do rito anterior depende atualmente de privilégios que devem manter o caráter de exceções.
Os termos do prelado são claros: “a lei geral permanece o uso do rito renovado desde o Concílio enquanto o uso do rito anterior depende atualmente de privilégios que devem manter o caráter de exceções”.
 Estávamos em 17 de janeiro de 1994.
 Todavia, certas personalidades importantes, na mesma época, como o Cardeal Ratzinger apoiado pelo Cardeal Stickler, começavam a tomar distância de tais afirmações, de tal legislação. Sim, desde 1994, é a data de seu livro O sal da terra, o Cardeal Ratzinger escrevia: “Eu sou certamente da opinião de que se deveria conceder muito mais generosamente a todos aqueles que o desejarem o direito de conservar o antigo rito. Não se vê, aliás, o que isso teria de perigoso ou de inaceitável. Uma comunidade que declara de repente estritamente proibido o que era até então para ela tudo o que há de mais sagrado e de mais alto, e a quem se apresenta como inconveniente o desgosto que ela tem com isso, [essa comunidade]  põe a si mesma em questão. Como se creria nela ainda?Será que ela não vai proibir amanhã o que ela prescreve hoje ? Infelizmente, a tolerância para com as fantasias aventurosas é entre nós quase ilimitada, mas ela é praticamente inexistente para com a antiga liturgia. Estamos assim certamente no mau caminho”.
 Em seu livro testamento, “Minha vida. Lembranças”, ele diz ter ficado “consternado pela proibição do antigo missal. Pois isso nunca se tinha visto em toda a história da liturgia” Ele retomou essa idéia em 1998 em Roma, por ocasião da peregrinação das comunidades Ecclesia Dei. Apoiando-se na autoridade co Cardeal Newman, ele lhes diz:“Convém lembrar aquilo que constatou o Cardeal Newman, que dizia que a Igreja em toda sua história não havia jamais abolido nem proibido formas litúrgicas ortodoxas, o que seria inteiramente estranho ao Espírito da Igreja… Tais ritos podem morrer, se o sujeito que os conduzia historicamente desaparecer ou se esse sujeito se inserir em outro quadro de vida. A autoridade da Igreja pode definir e limitar o uso de ritos em situações históricas diversas – mas jamais Ela os proíbe pura e simplesmente”.  
 Tais declarações de um Cardeal, do Cardeal Prefeito da Congregação da Fé eram, compreende-se, muito importantes… e iriam cedo ou tarde modificar as coisas e os espíritos…
Mas, nos fatos, mesmo em 1998-1999, a proibição da liturgia antiga estava ainda de pé.
O Cardeal Medina teve a ocasião de lembrá-lo em 1999, no dia 3 de julho de 1999, ao Cardeal Bonicelli, ou em 17 de outubro de 1999 naquilo que se chamou, na França,  o caso da FSSP [Fraternidade Sacerdotal São Pedro]: a todos, Roma lembrava que “a lei geral permanecia o uso do rito renovado desde o Concílio enquanto o uso do rito anterior depende atualmente de privilégios que deviam manter o caráter de exceção”.
 O mal feito na Igreja por essa proibição ainda não tinha sido reparado nessa época. Nas paróquias, nas escolas, nos movimentos católicos, continuava-se a professar que a missa tradicional não era mais permitida. Isso foi, portanto, repetido durante quarenta anos. Largamente, o espaço de uma geração.
 Foi preciso esperar 2001 para ver a legislação “Medina”, do nome do Prefeito da época da Congregação dos Sacramentos e da Liturgia, mostrar suas primeiras fissuras e deixar de ser aplicada na totalidade de uma diocese. Foi na ocasião da criação da Administração Apostólica São João Maria Vianney em Campos, no Brasil. O Papa João Paulo II, em sua carta de 25 de dezembro de 2001, Ecclesia unitas, declarava:“Confirmar-se-á à Administração Apostólica a faculdade de celebrar a eucaristia e a liturgia das horas segundo o rito romano e a disciplina litúrgica codificados por Nosso predecessor São Pio V, com as adaptações introduzidas por seus sucessores até o Beato João XXIII”. Assim, a lei geral para essa diocese não era mais o novo missal, mas sim o missal anterior.
O que foi confirmado pelo Decreto de Ereção assinado pelo Cardeal Re: “A faculdade é concedida à Administração Apostólica de celebrar a Santa Eucaristia, os outros sacramentos, a Liturgia das Horas e as outras ações litúrgicas segundo o rito romano e a disciplina litúrgica de São Pio V, com as adaptações que seus predecessores introduziram até o Beato João XXIII”.
 O ensinamento do Cardeal Ratzinger trazia seus primeiros frutos. Enfim! Ele tinha declarado, em 1994, como já vimos: “É importante também cessar de banir a forma da liturgia em vigor até 1970”. É o que estava feito para a Administração Apostólica São João Maria Vianney, em 2001.
 Foi preciso esperar ainda sete anos para ver essa nova legislação aplicada à Igreja universal.
Assim, como o Motu Proprio de Bento XVI, a missa tradicional era não liberalizada, como muitos escreveram, mas liberada, como fez notar justamente Jean Madiran.
 Por que ela não podia ser validamente proibida.
 Essa impossível proibição foi lembrada sem interrupção até agora nos meios da Tradição.
Isso tinha sido dito imediatamente desde o princípio. Os refratários à proibição, em nome do direito natural com Louis Salleron, em nome do direito canônico com o Padre Raymond Dulac, em nome do dogma, com o Pe. Calmel, de Dom Castro Mayer, de Dom Lefebvre e do Cardeal Ottaviani, protestaram, desde 1969-1970,  que um mandamento tão injusto como a proibição da Missa tradicional não podia obrigar em consciência.
O Cardeal Ottaviani, em sua carta de apresentação ao Breve Exame Crítico ao Papa Paulo VI escrevia:
Estamos certos de que estas considerações [expostas no Breve Exame Crítico]inspiradas pelo que ouvimos da voz vibrante dos pastores e do rebanho,  encontrarão eco no coração paternal de Sua Santidade, sempre tão profundamente solícito com as necessidades espirituais dos filhos da Igreja. Os sujeitos pelo bem dos quais é feita a lei sempre tiveram o direito, mais do que o direito, o dever, se a lei se revela ao contrario, nociva, de pedir ao legislador com confiança filial sua ab-rogação.
 É  por isso que nós suplicamos instantemente a Vossa Santidade que não queira – em um momento em que a pureza da fé e a unidade da Igreja sofrem tão cruéis lacerações e perigos sempre maiores, que encontram um eco aflito, cada dia, nas palavras de nosso Pai comum, – que nos seja tirada a  possibilidade de continuarmos a recorrer ao íntegro e  fecundo do Missale Romanun de São Pio V, tão altamente louvado por Vossa Santidade e tão profundamente  venerado e amado por todo o mundo católico”. Vocês imaginam o peso de tais afirmações, sob a pluma de um Cardeal!
 A declaração do Padre Calmel também causou sensação. Escrita em novembro-dezembro de 1969, alguns meses apenas após a publicação do novo Ordus Missae, ela apareceu em janeiro de 1970. “Ela foi a primeira desse gênero e de tal brilho”, diz Jean Madiran. Ela permanece na primeira linha das apologias da missa católica tradicional, latina e gregoriana conforme o Missal Romano de São Pio V. “Com uma resolução tranqüila, continua Jean Madiran, ela se compromete: ‘Eu me atenho à Missa tradicional’ […] A declaração do Padre Calmel foi uma obra-prima, ela foi um ato, ela é um exemplo”.
Assim, durante quarenta anos, toda uma geração de católicos militantes, membros religiosos ou leigos da Igreja militante – duas gerações – sofreu essa oposição à Missa tridentina sem ceder, contestou abertamente a proibição arbitrária da Missa tradicional. Nós pensamos em nossos mortos: o Cardeal Ottaviani, o Padre Calmel, o Padre Raymond Dulac; Dom Renato Pozzi, Dom Lefebvre, Dom Castro Mayer, o Padre Guérard des Lauriers. E entre os leigos: Cristina Campo, Luce Quénette, Louis Salleron, Eric de Saventhem.
 Sem essa viril reação dos católicos e muito particularmente de Dom Lefebvre e de Dom Castro Mayer, não há nenhuma dúvida de que o Motu Proprio de Bento XVI não teria visto o dia, muito simplesmente porque ele teria estado sem objeto, a Missa tradicional teria simplesmente desaparecido de nossas igrejas.  
B- Análise do MP Summorum Pontificum
 Como nós dissemos na introdução, a qualidade essencial do Motu Proprio está no reconhecimento explícito de que o Missal tradicional não foi revogado, que ele não poderia ter sido, como uma tradição imemorial na Igreja que é, e que, consequentemente, todo padre permanece livre de usá-lo.
 É o que explica muito claramente o art. 1 p. 2 do MP “É pois permitido celebrar o Sacrifício da Missa no rito romano promulgado pelo Beato João XXIII em 1962 e jamais ab-rogado”. Esse rito do Beato João XXIII é chamado  “forma extraordinária da liturgia da Igreja”. O padre Barthe reconhece que o termo “forma extraordinária” é perfeitamente conveniente a esse rito, sendo o outro, o de Paulo VI conhecido como “rito ordinário
 Essa declaração da livre celebração na Igreja do rito tradicional, dito extraordinário, foi corroborado na carta anexa aos bispos. Nela, Bento XVI lhes diz: “esse Missal nunca foi juridicamente ab-rogado, e, portanto, em  princípio, esteve sempre autorizado”. E um pouco abaixo, Bento XVI acrescenta: “O que era sagrado para as gerações anteriores, continua ainda grande e sagrado para nós, e não pode de repente ser totalmente proibido, ou até mesmo ser considerado como nefasto”.
 Tudo isso foi, como eu disse, recebido e acolhido com grande alegria.
 Contudo o MP afirma a pretendida continuidade doutrinal entre a missa tridentina e o Novus Ordo Missae.
É o que afirma o art 1 p. 1 do MP: “O Missal romano promulgado por Paulo VI é a expressão ordinária da ‘lex orandi’ da Igreja católica de rito latino. O Missal romano promulgado por São Pio V e reeditado pelo Beato João XXIII deve ser considerado como a expressão extraordinária da mesma ‘lex orandi’ da Igreja e ser honrado em razão de seu uso venerável e antigo. Essas duas expressões da ‘lex orandi’ da Igreja não induzem a nenhuma divisão na ‘lex credendi’ da Igreja; são, com efeito, duas expressões do único rito romano”.
 O decreto de aplicação, assinado pelo cardeal William Levada, prefeito da Congregação, no dia 13 de maio de 2011, disse, da mesma forma: “Os textos do Missal romano do Papa Paulo VI e da última edição daquele do Papa João XXIII são duas formas da liturgia romana, chamadas respectivamente de ordinária e extraordinária: trata-se de duas expressões justapostas do único rito romano. Uma e outra formas exprimem a mesma lex orandi da Igreja”. (no 6)
 É a afirmação clara, como ressalta o padre Celier na “Carta a nossos irmãos padres”, de junho de 2011, “a equivalência teológica e espiritual entre o Missal de Paulo VI e o Missal tradicional” (p.2)
 Esse princípio de “equivalência” está expresso em diversos lugares do Summorum Pontificum, bem como na Carta aos Bispos, como, por exemplo: “Não é conveniente falar das duas versões do Missal Romano, como se se tratasse de dois Ritos (…) não há nenhuma contradição entre uma e outra edição do Missale romanum”.
 É surpreendente ler essa afirmação da pena de Bento XVI, sendo que é sabido que ele elogiou enormemente Monsenhor Gamber, sendo que é sabido que ele o apresentou como um mestre em matéria de liturgia, de uma grande cultura histórica. Ele o indica como exemplo. Ora, esse último, em seu livro “A Liturgia em Questão”, quando  fala do rito de Paulo VI e do rito tradicional, ele fala muito claramente de dois ritos diferentes, chamando o rito tradicional de ritus romanus, e ao rito de Paulo VI, de ritus modernus. Para ele, um não é o outro.
 Eu tenho a posição de Monsenhor Gamber.
 Como eu disse acima, Dom Lefebvre, com o Padre Calmel, com Dom Castro Mayer… e seus discípulos, mostraram sempre “criticas” a muitos pontos do Missal de Paulo VI e criticas doutrinárias. Dom Lefebvre, como Dom  Castro Mayer – o qual, assim que recebeu o Breve Exame Crítico o fez traduzir para o português para o enviar a seus padres – afirmou sempre com o cardeal Ottaviani, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em sua carta ao Papa Paulo VI de 3 de setembro de 1969 que: “o novoOrdo Missae se distancia de uma maneira impressionante, tanto no conjunto quanto no detalhe, da teologia católica da santa missa, definida perpetuamente pelo Concílio de Trento”.
 E o Cardeal Alfons Maria Stickler, bibliotecário da Santa Igreja Romana e arquivista dos Arquivos Secretos do Vaticano, escreveu em 27 de novembro de 2004, por ocasião da reedição do Breve Exame Crítico dos Cardeais Ottaviani e Bacci: “A análise do Novus Ordo feita por esses dois cardeais não perdeu nada de seu valor nem, infelizmente de seu caráter atual… Os resultados da reforma são considerados devastadores por muitos hoje. Foi mérito dos Cardeais Ottaviani e Bacci terem descoberto muito rapidamente que a modificação dos ritos levaria a uma mudança fundamental na doutrina”.
 É devido às graves deficiências do Novus Ordo Missae e das reformas introduzidas sob Paulo VI que se pode interrogar-se seriamente, se não sobre a validade de princípio, mas ao menos sobre a “legitimidade da Santa Missa” segundo a forma ordinária. É difícil, como tinha notado em sua declaração de janeiro de 1970 o padre Calmel, considerar a Missa de São Pio V e a de Paulo VI dentro de uma mesma “tradição apostólica ininterrupta”.
 Essa idéia, expressa ontem pelos nossos mestres, acaba de encontrar uma nova atualização e novos defensores, por ocasião de um simpósio que ocorreu em julho de 2011 em Cork, na Irlanda, sob a presidência do Cardeal Burke, prefeito da Congregação da Assinatura Apostólica. Dom Cassian Folson, prior do mosteiro beneditino de Núrsia (Itália) deu a primeira palestra. Ele citou exatamente o Motu Proprio Summorum Pontificum que afirma que os dois missais exprimiriam “uma mesma fé”. Ele se perguntava sobre essa afirmação. Para ele, ela é dificilmente aceitável tendo em vista os fatos. Ele ressaltou que o missal de 1970 deixa transparecer posições contestáveis da teologia contemporânea. É a posição do Monsenhor Gamber. Ele a toma para si. Para Dom Folsom, assim como para Mons. Gamber, assim como para nós, o Novus Ordo Missae introduziu uma ruptura radical com o antigo missal. Além disso, ele possui um forte espírito anti-rubricista. É o que reconhecia aliás o Cardeal Ratzinger na sua conferência de encerramento em Fontgombault em 24 de julho de 2001 dizendo que era preciso acabar com todas as improvisações litúrgicas atuais. Dessa forma, para Dom Folsom e para Mons. Gamber, o rito de Paulo VI é não um desenvolvimento do rito romano, mas um rito completamente novo. Então, como entender a afirmação do Papa quando ele diz que os dois missais “exprimem uma mesma fé”? O beneditino propôs que seja sobretudo “um objetivo a alcançar”  por ocasião da execução da Reforma da Reforma que deseja o Papa e que deverá permitir corrigir a liturgia resultante do Concílio Vaticano II.
Eu não estou longe de compartilhar esse ponto de vista. Como quer que seja, é preciso que as profundas divergências entre a missa tradicional e o Novus Ordo Missae sejam levantadas.
Mas reconheçamos contudo, que o MP Summorum Pontificum de 2007 e seu decreto de aplicação de 2011 constituem uma etapa importante no reconhecimento dos direitos da missa tradicional.
 E sob esse ponto de vista, esse texto é uma coisa excelente, porque, como diz o Padre Barthe em seu artigo no jornal Présent “ele favorece a reabilitação do sacrifício da missa, e portanto, do sacerdócio católico” e consequentemente ele favorece a reabilitação da Santa Igreja. Ele conclui seu artigo no Present com essas palavras: “Sob esse aspecto, a afirmação aparentemente modesta, mas definitiva, de que a liturgia anterior à reforma do Vaticano II nunca foi abolida é um dos germes mais preciosos da revitalização futura do catolicismo”.
 É o que reconhece também a FSSPX, na sua Carta a Nossos Irmãos Padres do mês de junho: “A Fraternidade São Pio X se alegra com o fato de que, graças ao MP, cada vez mais padres possam celebrar de acordo com o Missal tradicional, cada vez mais fiéis possam se beneficiar dessas celebrações. E portanto, tudo o que tornar mais fácil, mais perene, mais larga, mais universal a liberdade reconhecida pelo MP é acolhido com fervor pela FSSPX. Porque, cada vez que o Missal tradicional ganha espaço, é a influência espiritual, apostólica e missionária da Igreja que cresce”. (p 3)
 C- Sobre a recente instrução Universae ecclesiae
 Nós seguimos aqui a apresentação que fez dela, por ocasião de sua publicação, o padre Celier na sua Carta a Nossos Irmãos Padres. Eu imagino que eu deva ser um deles! É uma simples análise dos artigos do documento:
 “Anunciado desde 30 de dezembro de 2007 pelo cardeal Tarcisio Bertone, a InstruçãoUniversae Ecclesiae sobre a aplicação do Motu Proprio Summorum Pontificum (7 de julho de 2007) foi publicada em 13 de maio de 2011 pela Comissão Pontifical Ecclesia Dei.
Assinada pelo Cardeal William Levada, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. E por Mons. Guido Pozzo, Secretário da Comissão Ecclesia Dei, esse documento romano aparece depois que os bispos do mundo todo puderam enviar a Roma o balanço de três anos decorridos desde a publicação do Motu Proprio, de acordo com o desejo de Bento XVI em sua carta de acompanhamento de 7 de julho de 2007.
Esse atraso considerável mostra como a aplicação do Summorum Pontificumencontrou dificuldades junto aos bispos. De maneira que a Universae Ecclesiae teve oficialmente a função de “garantir uma interpretação correta e uma justa aplicação do Motu Proprio Summorum Pontificum” (no12), mas também e sobretudo, de facilitar uma aplicação à qual os Ordinários consentem apenas com parcimônia. A defasagem previsível entre o direito à missa tradicional, reconhecido pelo Motu Proprio, e o fatodesse reconhecimento pelos bispos era previsível.
 Sob esse aspecto, o da reafirmação da missa tradicional, “é com um espírito positivo que nós recebemos essa instrução. Ele nos parece, em substância, fortificar, consolidar a doutrina do MP, e portanto a liberdade do Missal tradicional, e nesse sentido ela merece ser considerada como um feliz progresso. A maior parte dos pontos dessa instrução dão peso ao MP e seu princípio essencial, a saber, o valor e a liberdade do Missal Tradicional.
  Esse MP, diz a instrução, é uma lei universal para a Igreja (no2), um ato do Magistério do Romano Pontífice e de seu múnus próprio (no8).
 O missal tradicional deve ser conservado com a honra que lhe é devida (no6), como um tesouro precioso (no8 ) que deve ser acessível a todos os fiéis e mesmo garantido e assegurado realmente (n8 ) e principalmente pelo bispo diocesano que tomará as medidas necessárias nesse sentido (no14) de acordo com a mens que o Romano Pontífice exprimiu claramente no MP (no13).
 A comissão Ecclesia Dei foi munida pelo Soberano Pontífice de poderes ordinários para velar pela aplicação do MP podendo doravante produzir decretos e textos, velar pela edição dos textos litúrgicos tradicionais e receber recursos jurídicos (no 9-11).
 O grupo de fiéis não tem um número fixo, ele pode ser muito pequeno, de paróquias e até de dioceses diferentes; os lugares de peregrinação devem oferecer a possibilidade do rito tradicional (no 15-18).
 Os Ordinários devem oferecer aos padres, mas também aos seminaristas, a possibilidade de aprender a celebrar o rito tradicional (no 21).
 A questão do Triduum Pascal, que não tinha sido bem compreendida, foi precisada de maneira compreensível a todos e além do mais, foi ressaltado que os ofícios desses dias podiam ser repetidos em benefício do rito tradicional (no 33).
 As ordem religiosas beneficiárias de livros litúrgicos tradicionais próprios podem utilizá-los (no 34), o que abre a via ao reconhecimento futuro dos ritos tradicionais locais, como o rito de Lyon, etc.
 O artigo 30 é interessante em seu testemunho de uma colisão entre os ritos tradicionais e o novo direito canônico de 1983, que tornou algumas opções incompatíveis: aqui, entre os ritos litúrgicos (as quatro ordens menores e o sub-diaconato) representando claramente um desenvolvimento do sacramento da ordem e um direito canônico que reconhece a entrada no clero somente pelo diaconato.
 Pode-se ver o mesmo tipo de dificuldade com o artigo 31 sobre o Pontifical tradicional para ordenações diocesanas: alguns indultos vão, sem dúvida ser pedidos por certos bispos  quando o futuro padre se prepara a exercer um ministério ligado, pelo menos em parte, ao rito tradicional. É provável que outras dificuldades desse tipo apareçam e que nasça assim progressivamente um direito canônico parcialmente próprio ao rito tradicional”.
 Quanto ao artigo 19 do decreto que deu muito o que falar, eu me aterei ao julgamento de Jean Madiran, expresso no Présent de sábado, 21 de maio de 2011.
 Eis, primeiramente o próprio artigo: “Os fiéis que pedem a celebração da forma extraordinária não devem nunca ajudar ou pertencer a grupos que neguem a validade ou a legitimidade da Santa Missa ou dos sacramentos celebrados segundo a forma ordinária, ou que se oponham ao Pontífice Romano como Pastor Supremo da Igreja universal”.
Eis o artigo de Jean Madiran, sob o título “Uma outra leitura”:
O décimo nono parágrafo da Instrução, brandido pelo jornal La Croix contra os tradicionalistas, se opõe a que se negue ‘a validade ou a legitimidade’ da Missa nova. Voltemos portanto às bases clássicas de sua contestação: a validade e a legitimidade do Missal de Paulo VI não são postas em questão no Breve Exame Crítico apresentado pelo cardeal Ottaviani, e muito menos no livro de Louis Salleron A Missa Nova, ao qual se referia Dom  Lefebvre por ocasião de seu interrogatório pelos cardeais inquisidores. As críticas fundamentais da Missa Nova promulgada em 1969 não se referiam nem à legitimidade nem à validade.
Parênteses. Poder-se-ia dizer talvez que a FSSPX “se pergunta seriamente sobre a legitimidade” do Missal de Paulo VI. Mas legitimidade não parece ter o mesmo sentido na Instrução e no questionamento da FSSPX. Na Instrução, trata-se de afirmar que o Papa tem o poder legítimo de promulgar um Missal. Essa “legitimidade” de origem é distinta do fato de que o Missal de Paulo VI “se separa de uma maneira impressionante, tanto no conjunto, como no detalhe, da teologia católica da Santa Missa, definida para sempre no Concílio de Trento (Ottaviani).
 Para mim, o Missal de Paulo VI tinha começado a entrar na ilegitimidade com o uso, que foi logo feito, como arma destinada contra a missa tradicional, cuja proibição foi inválida e gravemente culpável. Fim do parênteses.
 Quanto ao artigo 8: O decreto Universae ecclesiae fala abertamente no seu artigo 8 c da necessária “reconciliação na Igreja”. É claramente expresso no p. 8 c: “O Motu Proprio Summorum Pontificum constitui uma expressão notável do magistério do Pontífice Romano e de seu múnus próprio – regrar e ordenar a santa liturgia da Igreja – e ele manifesta sua solicitude de Vigário de Cristo e Pastor da Igreja universal.
 Ele se propõe:
a) a oferecer a todos os fiéis a liturgia romana no seu usus antiquior, como um tesouro a ser conservado preciosamente
b) a garantir e assegurar realmente o uso da forma extraordinária a todos os que o pedirem, deixando bem claro que o uso da liturgia latina em vigor em 1962 é uma faculdade dada para o bem dos fiéis e portanto a ser interpretada em um sentido favorável aos fiéis, que são os principais destinatários;
c) a favorecer a reconciliação no seio da Igreja”.
Sobre esse assunto muito importante, permitam-me alguns comentários:
 Essa reconciliação, ou será doutrinária e litúrgica, ou não ocorrerá.
 Ela deve portanto começar nos seminários. Se nós queremos de fato “chegar a uma reconciliação interna no seio da Igreja”, como pede expressamente o Cardeal Levada, é preciso tomar os meios. A “reconciliação” passa necessariamente pela formação no seminário. Serão precisas gerações. É preciso querer. Aos seminaristas, é portanto preciso aprender o sentido das coisas litúrgicas; é preciso aprender latim. Bento XVI o pediu expressamente. A liturgia, sua ordem, seu simbolismo exigem todo um estudo, um aprendizado, uma prática. Os anos de seminários são necessários para isso. Quais são os meios?
O texto romano que precisa as resoluções do Motu Proprio Summorum Pontificumprevê que os seminaristas aprendam a missa também no rito “tridentino”. Já era  tempo! Isso caminha no bom sentido. Se isso não for feito, nós corremos o risco de ter um justaposição de comunidades, de padres. Eles procurarão viver na amizade, uma amizade encontrada no âmbito das dioceses, das paróquias. É importante. Mas não é suficiente. Como o conflito diz respeito à doutrina, é preciso necessariamente restaurar o ensino da teologia tomista, o sentido da liturgia no clero.
 Mas esta reconciliação será difícil. Por quê?
 É preciso medir a crise que toma a Igreja. Ela é doutrinária e litúrgica.
No plano litúrgico, dois mundos se confrontam: a liturgia tridentina, a liturgia “modernista”. Elas são incompatíveis entre si. Sobre esse assunto, me parece que o Padre Barthe exprime muito bem em uma síntese dificilmente superável, em seu último livro: “A missa do lado certo”, nas páginas 11 e 12. Nós assistimos na liturgia moderna uma “desritualização”. Venham assistir à uma missa de crisma e vocês ficarão convencidos! Vocês verão igualmente um “pluralismo” ritual… O que se tornou em muitas igrejas a Missa de Paulo VI? Vocês verão igualmente “um achatamento do simbolismo litúrgico”, a invasão de uma “pedagogia de admoestações”, muito claramente “a mudança do altar, se possível colocado no meio da assembléia, a mutação do celebrante hierárquico em ator pessoal”. Sim! São algumas características da liturgia moderna. “Tudo contribuiu, disse ele, a fazer (bem desajeitadamente,aliás) do culto divino um tipo de teatralidade concedida à modernidade, e portanto, a fazer com que a dramaturgia litúrgica cesse de ser em grande parte… uma reprovação desse mundo”. Ora, a verdadeira “liturgia cristã, no seio do mundo moderno, só pode ser uma crítica desse mundo”. Está certo. A liturgia clássica é “ teândrica”. O mundo moderno é “antropocêntrico”. O culto divino é louvor e adoração a Deus. O mundo moderno está voltado para si mesmo. Assim, “se adaptar a esse mundo é desaparecer. Foi o que aconteceu”…  Desde então, “o aspecto de ruptura do universo ritual católico em relação à modernidade individualista desapareceu também em grande escala. A conciliação – ainda mais desajeitada por ser necessariamente parcial – com a ‘cultura’ que essa modernidade secreta faz com que o culto divino tenha cessado de ter a plena força de convidar a tudo ‘restaurar em Cristo’. É assim que o profano, de uma maneira não total, com certeza, mas no entanto de uma maneira bastante maciça, entrou no santuário: “ideologicamente, pela refabricação de ritos onde o subjetivo da celebração do grupo centrado sobre si mesmo, se impõe sensivelmente por um abandono do hieratismo ritual, da língua sagrada, da oração ‘voltada para o Senhor’, da adoração expressa por meio de um gestual e de um silêncio de prosternação. Foi concedida assim à sociedade moderna uma atenuação do que ela não era mais capaz de compreender: o valor da missa como sacrifício oferecido pelos pecados, a presença real de Cristo sob as espécies eucarísticas, a diferença/similitude do sacerdócio do Homem-Deus exprimindo precisamente a ação do Cristo-Cabeça”. (p11-12)
Esses últimos valores, lembrados felizmente aqui pelo padre Barthe, são essenciais à doutrina católica e perfeitamente expressos no rito tridentino. Sim! Seu ‘gestual’ e suas orações os exprimem perfeitamente. Eles são da essência do sacrifício da missa.
  São, portanto, dois mundos que se afrontam. Eles são incompatíveis, inconciliáveis. Essa crítica não é excessiva. Ela é justa. Eis a realidade, mesmo se ela não é expressa por toda parte, nas igrejas paroquiais, felizmente, com toda essa acuidade. As coisas estão assim hoje.
 É preciso deter o que se tornou uma verdadeira subversão. É preciso, como disse o padre Barthe, “subverter essa ideologia de abertura”.
 Nós podemos legitimamente nos pôr a questão: a liturgia de Paulo VI, aqui descrita, é somente reformável?
 A Igreja deve necessariamente restaurar sua tradição litúrgica.
 Não haverá reconciliação profunda e portanto, união de espíritos e de corações no mundo sacerdotal – o que é altamente desejável – sem a reforma litúrgica. A reconciliação pela reforma litúrgica deve ser a palavra chave de hoje… na Igreja.
 Mas nessa reforma que conduzirá a uma verdadeira reconciliação, é preciso ter o senso do possível, e, no campo litúrgico, ir para o bem maior. O padre Barthe sugere, em um primeiro momento, tomar cinco pontos:
 -“Reintroduzir o uso do latim litúrgico, especialmente no uso do canto gregoriano (kyriale, Pater, se possível o canto de partes próprias da missa),
– Distribuir a comunhão de acordo com o modo tradicional,
– Uso da primeira oração eucarística, se possível em latim, e sem elevar muito a voz,
– Orientar a celebração para o Senhor, ao menos a parte do ofertório,
– Uso em silêncio do ofertório tradicional.
Paralelamente, a celebração da ‘forma extraordinária’, a forma tridentina, que se integrará naturalmente em uma vida litúrgica paroquial animada por essa reforma e que a sustentará eficazmente. E é por isso que Bento XVI pede a celebração paroquial do rito tridentino junto com o rito ‘ordinário’”. (p.96)
 Eis o que já será muito. Eis o que favoreceria realmente uma reconciliação sacerdotal.
Eis o que quer o Papa.