DIANTE DO ESPELHO

Uma senhora sensata escreveu o seguinte:

Muitas vezes tenho feito este raciocínio: gastar alguém três ou quatro horas a toucar-se, ou gastar só meia hora, que diferença poderá haver no fim do dia, se não é a diferença do tempo perdido? De ordinário nem fica melhor toucada, nem mais bela, nem mais estimada. Se é para atrair olhares indiferentes ou maliciosos, para ser aplaudida quando a toucagem saiu bem, que mesquinho resultado! E, quando à noite volta a casa, toca a tirar todos esses aprestos, despir a indumentária, descalçar os sapatos, buscar de novo a própria estatura, numa palavra, adaptar de novo a sua postura normal, mesmo que seja desajeitada ou desengraçada“.
A mulher de boa fé há de concordar que três quartos dos seus gastos de tempo e de dinheiro foram perdidos; com atavios menos rebuscados teria sido tão bem ou melhor sucedida; ninguém se pôs a examinar as minúncias dos seus enfeites, ninguém reparou neles senão talvez para se rir. É verificação que pode parecer amarga, pensar que tantos esforços não tiveram outro resultado senão torná-la ridícula“.
Afinal o que é que ela busca, desperdiçando tantas horas com a sua toucagem?
Agradar.
Sem dúvida. Mas a quem?

Às outras mulheres? “Não o conseguirá, pelo contrário, provocará os seus sarcasmos ou ciúmes, far-se-á criticar a mais não pode ser“.

Aos outros homens? “E para quê, se não é com um fim inconfessável?”

Ao marido? “Pode consegui-lo sem gastar todo essse tempo precioso“. E o marido que se compraz na beleza da esposa, deve também, se não é tolo, desejar que essa beleza se consiga com a maior economia possível – economia de dinheiro, economia de tempo.

Se se empenha em que a esposa vista com gosto, o marido sensato não se empenha em que ela seja frívola. Lamentará que a sua casa não ande mais bem arranjada, que a esposa não seja mais solícita em cultivar o espírito, em se aformosar o intelectual ou espiritualmente, em se ocupar dos filhos, em lhes fazer recitar as lições, em lhes ensinar o catecismo. E é possível, quanto há tantas coisas que fazer, tão úteis e tão urgentes, gastar miseravelmente o tempo em vaidades ridículas?

O necessário. Não mais do que o necessário. Na medida do necessário. Essa é a regra.

Que personagem lendária que se vê a um espelho e que recua apavorada ao descobrir, não uma silhueta viva, mas uma figura cadavérica de carne carcomida e esverdeada? – O que ela há-de ser a poucos anos.

Isso lê-se, mas ninguém aprende; ou então acham que é mau gosto: “Ora vejam lá! Fazer-nos agora pensar na morte! A todo o tempo é ocasião de pensar na derradeira toilette. Assuntos tristes deixemo-los para amanhã!” E retiram-se a gracejar.

Consentir que o espelho me mostre o que um dia hei-de ser.

(Cristo no lar, meditações para pessoas casadas, por Raúl Plus, S.J, tradução de Pe. José Oliveira Dias, S.J. ; 2ª Edição, Livraria Apostolado da Imprensa, 1947, com imprimatur)


A TERRÍVEL VISÃO DE LEÃO XIII



Muitos de nós recordamos de que, antes da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, os celebrantes e os fiéis, no fim de cada Missa, ajoelhavam-se para rezar uma oração a Nossa Senhora e outra a S. Miguel Arcanjo.
Reportamo-nos ao texto desta última porque é uma oração bonita que pode ser rezada por toda a gente para seu próprio benefício:

“São Miguel Arcanjo, protegei-nos no combate, sede nosso auxilio contra a malícia e ciladas do demônio. Exerça Deus sobre ele império, como instantemente vos pedimos, e Vós, Príncipe da milícia celeste, pelo divino poder, precipitai no Inferno a Satanás e os outros espíritos malignos que vagueiam pelo mundo para perder as almas”.


Como é que nasceu esta oração?


Transcrevo um artigo que foi publicado na revista: Ephemerides Liturgicae escrito pelo Pe. Domenico Pechenino em 1955, a págs. 58-59.

“Não me lembro exatamente do ano. Uma manhã, o grande Pontífice Leão XIII tinha celebrado a Stª Missa e estava a assistir a uma outra de ação de graças, como de costume. De repente, viu-se ele virar energicamente a cabeça, depois de fixar qualquer coisa intensamente, sobre a cabeça do celebrante. Mantinha-se imóvel, sem pestanejar, mas com uma expressão de terror e de admiração, tendo o seu rosto mudado de cor. Adivinhava-se nele qualquer coisa de estranho, de grande.


Finalmente voltando a si, bate ligeira, mas energicamente com a mão, levanta-se. Dirige-se ao seu escritório particular. Os mais próximos seguem-no com preocupação e ansiedade. E perguntam-lhe em voz baixa: Santo Padre, não se sente bem? Precisa se alguma coisa? Responde: “Nada, nada”.

Daí a uma meia hora manda chamar o Secretário da Congregação dos Ritos, e estendendo-lhe uma folha de papel, manda fazê-la imprimir e enviar a todos os Ordinários do mundo. Que assunto continha? A oração que rezávamos no fim da missa com o povo, com a súplica a Maria e a invocação ardente ao Príncipe das milícias celestes, implorando a Deus que precipite Satanás no inferno.

Naquele escrito ordenava-se igualmente que as orações fossem rezadas de joelhos. Também foi publicado no jornal La Settimana del Clero, em 30 de Março de 1947, não sendo citada a fonte que deu origem à notícia. Será contudo notada a maneira insólita como esta oração, enviadas aos Ordinários em 1886, foi mandada rezar.

Para confirmar aquilo que o Pe. Pechenino escreveu, dispomos do testemunho irrefutável do Cardeal Natalli Rocca, que na sua carta pastoral para a Quaresma, emanada de Bolonha em 1946, diz: “Foi mesmo Leão XIII quem redigiu esta oração. A fase (Satanás e os outros espíritos malignos) que vagueiam pelo mundo para perder das almas tem uma explicação histórica que o seu secretário particular Mons. Rinaldo Angeli, nos contou várias vezes; Leão XIII teve verdadeiramente a visão de espíritos infernais que se adensavam sobre a cidade eterna (Roma).


Foi desta experiência que nasceu a oração que ele quis toda a Igreja rezasse. Esta oração rezava-a ele com voz viva e vibrante: ouvimo-la muitas vezes na Basílica do Vaticano. Mas isto não é tudo: ele escreveu também por suas próprias mãos um exorcismo especial que figura no Ritual Romano (ed. 1954, tit. XII, c.III, pág.863 e seg.). Recomendava aos bispos e aos sacerdotes que rezassem muitas vezes estes exorcismos nas suas dioceses e paróquias. Ele próprio o fazia muitas vezes durante o dia.


Também é interessante ter em conta um outro acontecimento que reforça ainda mais o valor desta oração que se rezava no fim de cada Missa. Pio XI quis que, ao serem rezadas estas orações, se pusesse uma intenção particular pela Rússia (alocução de 30 de Junho de 1930). Nesta alocução, depois de ter lembrado as orações pela Rússia que ele próprio tinha pedido a todos os fiéis a quando da festa do Patriarca S. José (19 de março de 1930) e, depois de ter lembrado a perseguição religiosa na Rússia, concluiu com estas palavras:


“E para que todos possam sem fadiga e sem obstáculos continuar esta santa cruzada, decidimos que as orações que o nosso bem amado predecessor Leão XIII ordenou aos sacerdotes e aos fiéis que rezassem depois da Missa, sejam ditas por esta intenção particular, isto é, pela Rússia. Que os bispos e o clero secular e regular tomem ao seu cuidado informar os fiéis e aqueles que assistem ao Santo Sacrifício, e que não se esqueçam de lhes lembrar estas orações (Civiltà Cattolica, 1930, vol.III).



Conforme se pode constatar a presença aterrorizadora de Satanás foi claramente tida em conta pelo Pontífice; e a intenção que Pio XI, tinha acrescentado, visava mesmo o fundamento das falsas doutrinas difundidas no nosso século, que envenenaram não só a vida dos povos mas também dos próprios teólogos.


Se a disposição tomada por Pio XI não foi respeitada, a falta deve-se àqueles a quem tinha sido confiada;inseria-se perfeitamente no âmbito dos avisos carismáticos que o Senhor havia dado à humanidade através das aparições de Fátima, embora mantendo-se independente desta: Fátima ainda era desconhecida do mundo.



Fonte: Extraído do Livro “Um Exorcista Conta-nos” – Pe. Gabriele Amorth – Ed. Paulinas.
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