A Casa Varrida pelos Ventos

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Até o ano seguinte ao da morte de Evan, quando Cessi percebia uma mudança no ar, era sempre uma questão de vagas sensações interiores. Mas o primeiro presságio de mudança nos anos sessenta foi diferente. Foi específico, e suficientemente inquietante e significativo como para que não só ela o reconhecesse como um primeiro tremor que prognosticava terremotos vindouros.

Posto que os famosos mandatos de Fátima ordenavam ao «papa de 1960» revelar ao mundo o terceiro segredo de Fátima, e dirigir os bispos da Igreja universal na consagração da Rússia a Santa Maria, sob seu título de Imaculada Conceição, todo o mundo esperava que isso fizesse o papa João. Mas este se negou a obedecer dito mandato. Não se levou a cabo a consagração da Rússia. Não se revelou o famoso terceiro segredo a milhões de católicos expectantes. Cessi estava acossada de pressentimentos.

-Pode ser que o chamem bom papa. Mas nem sequer o papa pode negar-se a obedecer o mandato da rainha dos céus e esperar sair-se bem -advertiu.

Cessi e Declan aperceberam-se da lamentável e inaceitável realidade da decisão do bom papa quando, na qualidade de privilegiati di Stato, assistiram à inauguração oficial do Concílio Vaticano II em 11 de outubro de 1962, e ocuparam seus assentos na tribuna da basílica de São Pedro.

Os dois Gladstone ouviram como o sumo pontífice declarava ante os bispos reunidos de todas as dioceses, a Igreja universal e o mundo em geral, os objetivos que seu concílio se propunha alcançar. Falou de modernizar e atualizar sua organização eclesiástica, de abrir a Igreja aos que não compartilhavam a fé católica e a fé cristã, e da necessidade de relaxar as rigorosas normas que castigavam a quem quebrantava a lei da Igreja ou rejeitava sua sagrada doutrina.

Para Cessi e Declan, com isso a Igreja não só renunciava à forte posição que sempre havia mantido, senão que o bom papa parecia desculpar-se, em lugar de sentir-se orgulhoso, pelo que a

Igreja havia feito e sido até aquele momento. Mas o pior era que o bom papa parecia estar convencido de que a Igreja atual devia recorrer ao mundo, para aprender a ser uma verdadeira Igreja.

Não havia tido forma de apaziguar a ira de Cessi, nem de mitigar seu desprezo. Se pôs furiosa inclusive antes de que ela e seu pai abandonassem a basílica, sem preocupar sequer de não levantar a voz.

-Não sei o que o senhor opina, papai, mas a meu parecer se nos concederam assentos de primeira fila para presenciar a declaração pública da execução da Igreja. Esse velho papa gordo esbofeteou na cara a todos os católicos, bispos, padres e fieis incluídos!

O melhor que podiam fazer, disse, era marchar-se de Roma e regressar quanto antes a «A casa varrida pelos ventos».

Cessi havia observado as inovações introduzidas pelos bispos do concílio com uma desconfiança que calava até sua medula. Como Gladstone que era, possuía um profundo instinto arraigado em sua família desde seus primeiros tempos em Cornualha, quando seus antepassados reconheceram o inimigo que fustigava sua fé, seus valores mais queridos e a eles como pessoas. Não obstante, em 1962, ninguém antecipou com precisão até que ponto Roma, seus bispos e

seus papas, abraçariam a quem mais adiante seriam caracterizados como lobos com pele de clérigo, cujos objetivos eram nefastos para a doutrina e a moral católicas.

A princípio o concílio introduziu inovações isoladas. Entretanto, não tardaram em

converter-se em um pequeno fluxo sistemático e logo em uma inundação. Sem o consentimento nem a aprovação sequer do papa nem dos bispos do concílio, começaram a trabalhar novos exércitos de autodeterminados «expertos litúrgicos», «mestres catequistas» e «especialistas arquitetônicos» da Igreja. Todas as dioceses dos Estados Unidos, Galveston incluída, se viram impregnadas do que Cessi e Declan interpretavam como moral liberal, liturgia anticatólica, Igrejas adulteradas e crenças aguadas. Inclusive as missas celebradas na catedral de Santa Maria, agora em inglês, se convertiam, com bastante frequência, em manifestações folclóricas de costumes locais e causas políticas, em lugar da profissão e celebração da cerimônia central da fé católica. Em Galveston, como em outros lugares, se ordenava aos fiéis sentar-se, levantar-se e dar-se a mão. Já somente se ajoelhavam raramente na presença de Deus.

Cessi compreendeu que as mudanças procedentes de Roma transformariam de tal modo a sociedade em geral que, apesar das medidas que tomaram seus filhos, se veriam mui afetados.

Por conseguinte, de forma engenhosa e devota, mudou o ritmo da vida cotidiana n’«A casa varrida pelos ventos». Ela e Declan participavam de modo muito menos frequente na vida social de Galveston. Cessi dedicava agora a vida inteira à educação de seus filhos, a defesa da fé católica em sua vida como fieis papistas que eram, e a cultivar sua própria vocação como professora de dança.

Quando começaram a multiplicar-se os efeitos do Concílio Vaticano II, os Gladstone só assistiam a missa na capela da torre d’«A casa varrida pelos ventos». Os três filhos receberam instrução religiosa privada, em lugar das novas «classes de catecismo». Quando deixou de ser prático educar às crianças em casa, Cessi se assegurou de que tanto a madre superiora da escola à que assistia Tricia como os irmãos da escola que havia escolhido para Christian e Paul compreenderam que seus generosos aportes financeiros só continuariam enquanto conservassem um alto nível acadêmico e uma sólida doutrina católica.

A fins dos anos sessenta, as profundas mudanças na vida secular que Cessi havia antecipado começaram a converter-se em realidade. A vida privada e pública da sociedade se desprendia de seus princípios morais, e não havia forma de isolar seus filhos de ditas mudanças. O melhor que podia fazer, segundo lhe disse a Declan, era advertir a Christian, Paul e Tricia dos perigos da nova conformidade secular, que emergia como o que Cessi considerava uma nova religião estatal, seguir facilitando-lhes uma ampla compreensão de sua fé católica, apostólica e romana, e alentar a independência intelectual que constituiria uma característica permanente da vida e personalidade de cada um deles.

Tão completa, autocontida e autossuficiente era a vida que Cessi e Declan haviam organizado n’«A casa varrida pelos ventos», que em 1969 quase parecia que nada lograria transformá-la. Não obstante, teve então lugar algo rotineiro que adquiriu dimensões críticas e reforçou ainda mais a atitude de Cessi a respeito das difundidas consequências do Concílio Vaticano II do bom papa.

Havia sido solicitado a presença de Cessi e Declan em Washington para celebrar uma reunião com funcionários da tesouraria sobre certas propriedades dos Gladstone, em zonas muito

delicadas da América do Sul. Apesar de haver reservado suas habitações com muita antecipação no hotel Hay Adams, descobriram à sua chegada que todavia não estavam prontas. O problema, ao que parecia, se devia a uma populosa assembleia de sacerdotes a favor de um clérigo casado.

Um clérigo casado era uma contradição tão absurda e disparatada para Cessi e Declan como um neurocirurgião paraplégico ou Satanás livre de pecado. Contudo, enquanto esperavam no vestíbulo do hotel, estavam rodeados de sacerdotes de todas as idades e descrições. Uns poucos de barba grisalha vestiam roupa clerical, mas a maioria levava calças e camisas esportivas. Nas mãos dos presentes se viam alguns breviários, mas eram muito mais numerosas as mulheres que assistiam em qualidade de ajudantes ou, como comentou um recepcionista depois de piscar o olho, de «donas de chaves». Várias centenas de delegados trintões e quarentões não mostravam indício externo algum de sua condição sacerdotal, e nada parecia dar-lhes mais gosto como alternar no bar, enquanto outros ainda mais jovens, provavelmente recém saídos do seminário, deambulavam pelo vestíbulo do hotel como estudantes depois de um campeonato universitário de basquete. Ataviados com grande diversidade de roupa desportiva, parecia que lhes apetecia formar grupos que desafinavam cantando O sonho impossível, acompanhados de violões.

Presas de uma mistura de curiosidade e horror, Cessi e Declan consultaram a tabela de anúncios no vestíbulo, onde se exibia o programa de atividades para aquela assembleia de sacerdotes. Uma das conferências trataria d’«a antropologia do sacerdócio», outra exploraria «o papel das mulheres na vida da redenção», o resto examinaria temas como «a sexualidade ao serviço de Deus» e «a androgenia do amor humano como se descreve na Bíblia» que enfureceram Declan.

A fúria lhe impediu dormir aquela noite. Pela manhã, Cessi encontrou seu pai, temendo e pálido como a cera, sentado ainda junto ao escritório. As explorações médicas de urgência levadas a cabo em Washington não permitiram chegar a nenhuma conclusão. Mas os especialistas chamados por Cessi para que acudissem a Galveston depois de seu regresso descobriram que Declan havia sofrido um pequeno infarto.

Ainda que prontamente privado da robusta saúde que havia desfrutado toda sua vida, e incapaz de ocupar-se como costumava fazê-lo dos negócios, ou de galopar pelo campo com os filhos de Cessi, Declan se contentava em passar a maior parte do tempo sem sair da casa. Na sua idade, dizia com um humor um tanto amargo, era de esperar que as rodas e polias de sua maquinaria precisassem certo ajuste.

Declan nunca se recuperou. Sobreviveu uns oito meses, mas a avalanche das denominadas «reformas» que manavam da burocracia pós-conciliar foi excessivo para ele. Faleceu pacificamente e rodeado de sua família. Francesca Gladstone se converteu então na dona d’«A casa varrida pelos ventos». E do mesmo modo que havia defendido seus filhos dos abusos de seu marido, se defenderia agora a si mesma, a seus filhos e a todas as pessoas vinculadas com «A casa varrida pelos ventos» dos desaforos perpetrados na missa católica imemorial. O novus ordo nunca se celebraria na capela da torre. Agora mais que nunca, Cessi se converteu na personificação do lema de sua família: lutaria «sem quartel» ao largo de sua vida para permanecer fiel ao catolicismo romano de seus antepassados papistas.

“A Casa Varrida pelos Ventos” – Malachi Martin. Tradução não oficial do espanhol “El ultimo Papa”, edição digital, por Frei Zaqueu (freizaqueu@gmail.com)

Créditos: Fr. Zaqueu

O Papa disse ou não disse? E..quem foi que disse?

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Caríssimos,

Salve Maria!

Triste dias em que vivemos onde a Verdade objetiva foi posta de lado e instaurou-se um “disse-que-me-disse”, gerando confusão e perplexidade. Bons tempos aqueles em que a Igreja falava  e ecoava, sendo entendida de forma clara, sem deixar brechas. O ódio dos inimigos à Igreja e ao Papado consistia justamente na força e transparência de sua Verdade que condenava o erro e exaltava as virtudes.

Quem, em algum momento, já ousou interpretar a Urbi arcano Dei consilio, a Pascendi Dominici gregis ou mesmo a Quanta Cura?  Hoje já não basta a palavra  do Papa por ela mesma, há de ser explicada, interpretada, entendida.

Tal fato acontece por dois motivos: ou não está sendo clara ou estamos distantes de uma compreensão, ou….. ainda.. as duas juntas.

Por: Sandro Magister

Tradução: Gercione Lima

Na  pirotécnica conferência de imprensa no vôo de regresso do México para Roma, o Papa Francisco entre outras coisas sacou a história segundo a qual “Paulo VI – o grande – em uma situação difícil, teria permitido às freiras na África, o uso de contraceptivos em casos de violência sexual “. Ele acrescentou que “para evitar a gravidez não é um mal absoluto, e em certos casos, como ao que referi do Beato Paulo VI, [que] foi claro.”

Dois dias depois, até o padre Federico Lombardi se saiu com a mesma história, em entrevista à Rádio Vaticano realizada com o intuito de endireitar o que saiu errado nas declarações do Papa publicadas pelos meios de comunicação, e que interpretado com aparente sinal verde para os contraceptivos, já estavam cantando vitória.

“O contraceptivo ou preservativo, especialmente em casos de emergência e gravidade, podem igualmente ser objeto de um discernimento de consciência sério. Isso diz o papa. […] O exemplo que [Francisco] fez de Paulo VI e da autorização para uso da pílula para as religiosas que estavam em risco muito sério e contínuo de  violência sexual pelos rebeldes no Congo, naqueles tempos da tragédia da guerra do Congo, sugere que não era uma situação normal em que tal medida foi considerada ” .

Agora, que Paulo VI tenha dado explicitamente aquela permissão é questionável. Ninguém  jamais foi capaz de citar uma única palavra dele a esse respeito. No entanto, esta lenda urbana continua de pé por décadas, e no presente estão sendo usadas até mesmo por Francisco e seu porta-voz.

Para reconstruir como é que esta história nasceu é necessário voltar não ao pontificado de Paulo VI, mas ao do seu antecessor, João XXIII.

Era o ano 1961, e a questão : “se era lícito para as freiras em perigo de serem estupradas recorrer aos contraceptivos, em uma situação de guerra como aquela que assolava o Congo”, foi submetida a três teólogos morais de autoridade:

– Pietro Palazzini, então secretário da Sagrada Congregação do Conselho que depois se tornou cardeal;

– Francesco Hurth, professor jesuíta na Pontifícia Universidade Gregoriana;

– Ferdinando Lambruschini, professor da Pontifícia Universidade Lateranense.

Os três juntos formularam as suas opiniões em um artigo na revista do Opus Dei “Estudos Católicos”, número 27, 1961, pp. 62-72, sob o título: “Uma mulher pergunta:.. Como negar-se à violência? Moral exemplificada. Um debate”

Todos três eram a favor de se admitir a legalidade desse ato, embora com argumentos diferentes entre eles. E este parecer favorável não só passou ileso, sem qualquer consideração submissa ao Santo Ofício, mas tornou-se doutrina comum entre os moralistas católicos de todas as escolas.

Em 1968, Paulo VI publicou a encíclica “Humanae Vitae”, que condenou como “intrinsecamente má toda a ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou durante a sua realização, quer no desenrolar das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação “. E essa condenação foi posteriormente publicada em 1997, com as mesmas palavras, no Catecismo da Igreja Católica.

Mas, mesmo após a publicação da “Humanae Vitae”, a legalidade do hipotético comportamento das freiras congolesas continuou a ser pacificamente admitida sem que Paulo VI e seus sucessores dissessem uma palavra a esse respeito.

Aliás, de fato em 1993, no pontificado de João Paulo II, essa questão voltou mais uma vez ao centro das atenções, desta vez não por causa da guerra no Congo, mas na Bósnia. O teólogo moral que naquele ano se tornou porta-voz de autoridade para a doutrina comum em favor da legalidade foi o jesuíta Giacomo Perico, com um artigo na revista “La Civiltà Cattolica” impresso com o imprimatur das autoridades do Vaticano, com o título: “O estupro, o aborto e anticoncepcionais. “

Na verdade, a controvérsia entre os moralistas, a partir de então e até hoje, não diz respeito à legalidade do ato em questão, mas aos fundamentos desta legalidade.

Há quem retém a legalidade deste ato como uma “exceção” a qual poderiam ser associadas outras, avaliando-se caso a caso, e invalidando assim o status de “intrinsecamente mau” – e, assim, sem exceção – poderia ser aplicada à “Humanae vitae “no que diz respeito à contracepção.

E há aqueles que consideram o comportamento das freiras congolesas ou bósnias como um ato de legítima defesa contra os efeitos de um ato de violência que não tem nada a ver com o ato sexual livre e voluntário do qual se deseja excluir a procriação, que é o único sobre o qual recai a sentença – sem exceção –  da ” Humanae vitae” .

O estudioso que reconstruiu com mais clareza o choque entre essas duas correntes é Rhonheimer Martin, professor de ética e filosofia política na Universidade Pontifícia da Santa Cruz, no livro “Ética da procriação e da defesa da vida humana”,  Universidade Católica de Imprensa Americana, Washington, 2010, nas páginas 133-150.

Na opinião de Rhonheimer é a segunda tese, a mais fiel ao Magistério da Igreja, enquanto a primeira, tipicamente casuística e ” proporcionalista”, é uma crítica à “Veritatis Splendor”, a encíclica de João Paulo II sobre a teologia moral.

Mas, curiosamente, é precisamente sobre essa primeira tese que parecem se inclinar tanto o Papa Francisco, na conferência de imprensa em 17 de fevereiro, como ainda mais o padre Lombardi na entrevista de 19 a Rádio Vaticano.

Tanto um como o outro, de fato, fazem uma distinção entre o aborto, um mal absoluto que não admite nenhuma exceção, e a contracepção, que segundo o que – eles dizem – “não é um mal absoluto”, mas “um mal menor” e, portanto, pode ser permitido em “casos de emergência ou situações especiais”.

Padre Lombardi cita uma outra destas exceções permitidas: o uso do preservativo em situações de riscos de contágio da AIDS, comentado por Bento XVI em seu livro-entrevista “Luz do Mundo”, em 2010.

Mas, de fato, isso também é reduzido a um caso de exceção. Ignorando a nota de esclarecimento – de parecer bem diferente – que a Congregação para a doutrina da fé, dando voz ao Papa Bento, publicou em 21 de dezembro de 2010, com relação  à polêmica que explodiu como resultado daquele livro.

Fontes: http://magister.blogautore.espresso.repubblica.it/2016/02/22/paolo-vi-e-le-suore-violentate-in-congo-cio-che-quel-papa-non-disse-mai/?refresh_ce

               http://fratresinunum.com/2016/02/22/paulo-vi-e-o-caso-das-freiras-violentadas-no-congo-o-que-o-papa-jamais-disse/

O CONSELHO DE D. HELDER A PAULO VI, SEU AMIGO

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No livro “Dom Helder – misticismo e santidade”, do jornalista Marcos de Castro (admirador de Dom Helder Câmara), o escritor relata quais eram, segundo o próprio Dom Helder Câmara, as mudanças que o Arcebispo desejava para a Igreja. São 3 sugestões que Dom Helder fizera ao própria Papa Paulo VI, seu amigo de longa data, em uma das muitas conversas particulares que tiveram. A mais chocante de todas, é a terceira sugestão, que transcrevo a seguir:


” o fim do Vaticano tal como existe hoje.
Sobre o último dos três gestos Dom Helder faz a explanação mais longa:


– Com razão ou sem razão, o Vaticano se tornou um contra-sinal, sobretudo para os jovens. Ah, como seria bom se o senhor pudesse doar o Vaticano à Unesco, a serviço da cultura mundial! O Vaticano com os seus jardins, a sua biblioteca, a sua pinacoteca, que maravilha! Santo Padre, o senhor conhece Roma palmo a palmo. Ah, como seria bom – eu sei que por enquanto o senhor não pode -, o senhor, que conhece cada recanto de Roma, descobrir uma casa pequena, uma casa de dimensão humana, que passasse a ser sua nova casa! Uma casa abrindo para uma praça, de tal maneira que o senhor pudesse receber os peregrinos do mundo, mas recebê-los como gente. Santo Padre, o senhor sabe do respeito imenso que eu tenho por Pedro. Pedro, que tem de fato um papel em nome de Cristo, no seio da colegialidade episcopal, um papel no seio de toda a comunidade cristã universal. E o senhor sabe a amizade pessoal, a devoção pessoal que lhe tenho. Mas eu lhe digo, me perdoe, eu já não posso participar daquelas assembléias de domingo, quando o senhor aparece naquela janela e fica ali tão longe, fazendo aqueles gestos…Ah, me perdoe, mas me dá a impressão de uma marionete! Como eu gostaria de vê-lo no meio do povo! O povo segurando o papa, empurrando o papa, todo mundo dando a mão ao papa, como com certeza faziam com o Cristo. Naturalmente, seus conselheiros dirão que não pode ser, que há o perigo até de um atentado. Me perdoe, Santo Padre, mas todas as noites eu peço para que o papa um dia seja morto. Há tanto tempo que um pastor não morre pelas suas ovelhas…


– Me escreva tudo isso, me escreva tudo isso – foi a reação imediata e pressurosa de Paulo VI.


E, naquele momento, ele mesmo ensinou a Dom Helder como fazer a carta chegar diretamente às mãos dele.”
(Dom Helder, Misticismo e Santidade, páginas 206 e 207, do jornalista Marcos de Castro).

AGORA É OFICIAL: PAULO VI SERÁ BEATO EM 19 DE OUTUBRO






O papa Paulo VI será beatificado no dia 19 de outubro deste ano no Vaticano. O papa Francisco autorizou, em audiência particular, sexta-feira (9) à tarde, o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, cardeal Angelo Amato, a divulgar a promulgação do decreto de aprovação de um milagre atribuído ao futuro beato e a anunciar a data da beatificação.

Giovanni Batistta Montini, que foi arcebispo de Milão e, em 1963, foi eleito sucessor de São João XXIII, canonizado em 27 de abril, governou a Igreja durante 15 anos, até 1978. Ele deu continuidade ao Concílio Ecumênino Vaticano II, encerrado em dezembro de 1965 e escreveu encíclicas de grande repercussão, entre elas a Populorum Progressio (O Desenvolvimento dos Povos) e a Evangelium Vitae (O Evangelho da Vida).
Na encíclica Evagelium Vitae, Paulo VI manteve a proibição da Igreja ao controle de natalidade, vetando o uso da pílula e outros métodos anticoncepcionais não naturais. A decisão foi um momento de grande angústia para o papa, porque ele assumiu uma posição tradicional e conservadora, apesar de uma comissão de teólogos ter se manifestado a favor da liberação.
Duas semanas atrás, informava-se em Roma que Paulo VI seria beatificado em Milão, provavelmente pelo arcebispo Angelo Scola, seu sucessor na arquidiocese. O fato de a cerimônia de beatificação ser marcada para o Vaticano significa que o papa Francisco, que presidirá o ato, pretende dar maior destaque à figura de Montini. 

PAULO VI E A MISSA "DE SEMPRE"






Por Prof. Orlando Fedeli


Nas vésperas da liberação da Missa de São Pio V para todo o mundo, é muito conveniente citar o que pensava Paulo VI sobre isso.
No livro de Jean Guitton, Paulo VI Secreto, Guitton conta que apresentou a Paulo VI um texto de Proposições tratando dos problemas da Fé na França .

Vejamos essas Propositions”, disse o Papa. Estendo-lhe o documento. Havia um primeiro parágrafo sobre a fé, no qual se dizia que o problema principal de nossa época era o da fé, da sua permanência. Porque a fé somente é verdadeira se é permanente, isto é, se a fé de hoje é a mesma que a de ontem e que a de amanhã. 
O Papa diz: “O progresso supõe a tradição. Nós afirmamos isso sempre, solenemente, particularmente em nossa profissão de fé”.

“A dificuldade – respondo – provém do fato que se fala da igreja conciliar como se esta igreja obscurecesse tudo quanto existia antes. Ora, se a igreja conciliar cancela e modifica em pontos essenciais a igreja precedente, reconhece que no passado pode ter errado. E se ela errou no passado, por que não poderá errar atualmente e no futuro?”

“O Santo Padre me disse: ‘Considere a reforma litúrgica. Vou ainda mais longe que o senhor. Não só mantivemos todo o passado, mas reencontramos a fonte que é a tradição mais antiga, a mais primitiva, a mais próxima das origens. Ora, esta tradição fora obscurecida no curso dos séculos, e particularmente no Concílio de Trento”.

“Respondo: Difícil é não dar a impressão que Trento tenha abandonado ou rejeitado o que existia antes de Trento, por exemplo, que a Missa de Trento, lá onde o Concílio insistiu sobre o caráter sacrifical da missa (que renova misticamente o sacrifício da cruz) foi disfarçado por uma reação antiluterana; que Lutero estava mais na verdade do que o Concílio, já que Lutero afirmava retornar à fonte primitiva”.

Mas – diz o Papa – aqui não está em questão a identidade da fé, a sua verdade permanente. A norma de Vicente de Lérins, quod semper, quod ubique, quod ab omnibus (aquilo que foi acreditado sempre, em toda a parte, por todos), permanecerá sempre o critério da fé”.

O Papa leu, então, o terceiro ponto de meu documento onde se diz que seria desejável a autorização da missa de São Pio V, por um período experimental e provisório; conseqüentemente a anulação da interdição feita na França de celebrar essa missa de São Pio V (que o concílio jamais pretendeu abolir).

O Papa me diz severamente:

Isso jamais! Desde que se trata de uma disputa má, pois que o cânon de São Pio V eu o conservei na nova liturgia, onde ele é colocado em primeiro lugar”.

[Guitton:]“Mas não se trata do cânon. Trata-se do Ofertório onde, na nova liturgia, a idéia de sacrifício parece restringida”.

[Paulo VI]: “Reconheço que a diferença entre a liturgia de São Pio V, e a liturgia do Concílio (chamada freqüentemente, não sei por que, de liturgia de Paulo VI) é muito pequena. Na aparência,a diversidade [no ofertório das duas Missas] repousa numa sutileza. Mas essa missa dita de São Pio V, como se a vê em Ecône, se torna o símbolo da condenação do Concílio. Ora, jamais aceitaremos, em nenhuma circunstância, que se condene o Concílio por meio de um símbolo”. [destaque nosso].

“Se fosse acolhida essa exceção, o Concílio inteiro arriscaria de vacilar. E conseqüentemente a autoridade apostólica do Concílio”.

(Jean Guitton, Paulo VI Secreto, editora San Paolo, Milano, 4 a edição, 2.002, versão integral do francês aos cuidados de David M. Turoldo e Francesco M. Geremia, pp. 143-144-145 – Título original Paul VI Secret, Desclée de Brouwer, Paris).

     
     E que a Missa de Paulo VI é aquilo pelo qual o povo fiel mais conhece o Concílio, e que essa Missa é a expressão do Vaticano II foi afirmado por João Paulo II e pelo Sínodo Episcopal de 1985:

 
A renovação litúrgica é o fruto mais visível de toda a obra conciliar ‘ (Synodi Extr. Episc. 1985 «Relatio finalis», II, B, b. 1). Para muitos, a mensagem do Concílio Vaticano II foi percebida antes de tudo por meio da reforma litúrgica .” (João Paulo II, Carta Apostólica Vicesimus Quintus Annus, sobre o vigésimo-quinto aniversário da promulgação da constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, 4 de dezembro de 1988, n. 12, tradução e sublinhado nossos, http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_letters/documents/hf_jp-ii_apl_04121988_vicesimus-quintus-annus_it.html ).
 


     Esses textos de Paulo VI falam por si..

     Destacaremos três pontos gravíssimos nessas afirmações de Paulo VI:
 
1 – A afirmação inacreditável de que a “tradição [da Igreja] fora obscurecida no curso dos séculos, e particularmente no Concílio de Trento”.
O Concílio de Trento foi infalível!
Como Paulo VI se atreveu a acusar um Concílio infalível de ter obscurecido a Tradição da Igreja?
 
2 – “Trata-se do Ofertório onde, na nova liturgia, a idéia de sacrifício parece restringida”, disse Guitton, ao que respondeu Paulo VI:
Reconheço que a diferença entre a liturgia de São Pio V, e a liturgia do Concílio (chamada freqüentemente, não sei por que, de liturgia de Paulo VI) é muito pequena. Na aparência,a diversidade repousa numa sutileza”.
 
Por essas palavras, Paulo VI reconheceu que um dos pontos divergentes fundamentais entre a Missa de sempre e a Nova Missa, que ele impôs contra toda a tradição da Igreja, está no Ofertório.

Ele admite que na sua Nova missa a idéia de sacrifício parece restringida, diminuída, mas que a diversidade repousa apenas numa subtileza.
O que é outra confissão gravíssima, pois aproxima a Nova Missa da noção luterana de ceia.
 
3 –  A afirmação categórica que liberar a Missa de sempre é, simbolicamente condenar o Concílio Vaticano II, já que, conforme diz João Paulo II: “Para muitos, a mensagem do Concílio Vaticano II foi percebida antes de tudo por meio da reforma litúrgica “.

Repito a frase de Paulo VI:

“Isso—liberar a Missa de São Pio V – jamais! (…) essa missa dita de São Pio V, como se a vê em Ecône, se torna o símbolo da condenação do Concílio. Ora, jamais aceitaremos, em nenhuma circunstância, que se condene o Concílio por meio de um símbolo”.      
 
     Realmente, hoje o que o povo conhece como símbolo do Vaticano II é a Nova Missa de Paulo VI.

     Portanto, liberar a Missa é entendido como condenação do Vaticano II.

     E foi isso que proclamaram vários Bispos franceses.

     E Dom Jean-Pierre Longeat, O.S.B., Abade de Ligugé, em recentíssimo artigo intitulado “A Unidade da Liturgia Romana em Questão”, publicado no dia 23/10/06 no Jornal LA CROIX,  mostrou que a questão de fundo é a oposição entre uma noção sacrifical na Missa de sempre, que renova misticamente o sacrifício da Cruz, realizado pelo sacerdote, agindoin persona Christipermitindo a transubstanciação do pão e do vinho em Corpo e sangue de Cristoenquanto que issoé contrariado na Nova Missa de Paulo VI, fundamentada no Vaticano II, em sua Constituição Lumen Gentium que entende a Missa como ação sacerdotal em nome do povo de Deus na qual os sacerdotes “agem como ministros da comunidade eclesial (in persona Ecclesiae, ministros da Cabeça e do Corpo)”. (cf.http://qien.free.fr/2006/200610/20061023_longeat.htm).

     Portanto, a Nova Missa exprime uma nova teologia diversa da teologia de Trento. A Nova Missa é a expressão da teologia democrática e antropocêntrica de Igreja da Lumen Gentium do Vaticano II. Por isso, permitir a Missa antiga de São Pio V é abandonar a teologia do Vaticano II, e, como afirmou rotundamente Paulo VI, isso equivale a condenar o Concílio simbolicamente.

     Eis as palavras do Abade de Ligugé, revoltado com a notícia de que Bento XVI ia liberar a Missa de São Pio V para todo o mundo.
 
Querer encorajar na Igreja Latina o retorno a um outro acento teológico por extensão do Ordo de 1962, é gerar uma perturbação muito profunda no povo de Deus”.
     

     Para o Abade de Ligugé… “A liturgia é um lugar teológico. O Ordo Missae de 1969 — [o da Missa de Paulo VI] – põe em ação em particular a teologia da constituição dogmática da Igreja. Lumen Gentium apresenta a Igreja ao mesmo tempo como Corpo Místico de Cristo e como Povo de Deus reunido em nome de Cristo; assim , o Concílio diz que a Igreja é “ de algum modo o sacramento, quer dizer ao mesmo tempo o sinal e o meio da união íntima com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (Lumen Gentium, n0 1).

Face aos perigos do individualismo ligado à evolução das mentalidades há vários séculos, o Vaticano II e a reforma litúrgica que saiu dele insistem sobre a reunião eclesial como sacramento global. Um tal sacramento se desenvolve na liturgia, mas também em relação com a comunidade fraternal no interior das comunidades eclesiais e entre elas. A comunidade por excelência é o povo de Deus reunido na Igreja local em torno de seu Bispo, cada membro tendo os eu lugar nessa única eucaristia em estreita comunhão com todos: assembléia, presbyterium (de onde se compreende bem, nessa perspectiva, que seja encorajada a concelebração), diáconos e outros ministros”.

“A prioridade teológica do Concílio de Trento era outra ( ainda que o aspecto eclesial aí estava presente): valorizar a realidade da presença de Cristo no pão e no vinho eucaristicizados e o papel sacramental do padre, contra a reforma protestante. É por isso que a ação sagrada do padre aí é tão valorizada. As palavras que ele pronuncia in persona Christi permitem a transubstanciação do pão e do vinho em Corpo e Sangue de Cristo. Certo, no ritual de 1969, os ministros mantêm um papel essencial nesse domínio, mas a insistência é posta também sobre o fato de que eles agem como ministros da comunidade eclesial (in persona Ecclesiae, ministros da Cabeça e do Corpo)”.
     

     Em suma, a grande afirmação de Paulo VI a Jean Guitton foi que


“Isso—liberar a Missa de São Pio V – jamais! (…) essa missa dita de São Pio V, como se a vê em Ecône, se torna o símbolo da condenação do Concílio. Ora, jamais aceitaremos, em nenhuma circunstância, que se condene o Concílio por meio de um símbolo”.    

 
     A liberação da Missa de sempre é, no fundo, pelo menos simbolicamente, uma condenação do Concílio Vaticano II.

     E Bento XVI vai liberar a Missa de sempre.
     Logo…  

São Paulo, 24 de Outubro de 2.006

Orlando Fedeli

CARDEAL AVIZ: " BEATIFICAÇÃO DE PAULO VI SERÁ POSITIVA PARA AMÉRICA LATINA"






A beatificação e posterior canonização de Paulo VI será importante para a Igreja e especialmente importante para a América Latina, por causa de sua atuação no Concílio Vaticano II, ao qual deu continuidade após a morte de João XXIII”, declarou ao Estado o cardeal brasileiro d. João Brás Aviz, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, mais conhecida como Congregação para os Religiosos.


O cardeal lembrou também o apoio que Paulo VI deu com sua presença à Conferência do Episcopado da América Latina de Medellín, realizada na Colômbia, em 1968. 
Para o cardeal Aviz, a beatificação de Paulo VI dará novo impulso aos documentos aprovados pelo Concílio Vaticano II. “Já se passaram 50 anos e, no entanto, metade das conclusões do Concílio ainda não foram postas em prática, o que significa que falta fazer muita coisa”, disse o cardeal. Ele citou como exemplo o que pode ser atualizado, à luz do Vaticano II, na área dos religiosos. 
“Precisamos de mais diálogo, porque não funciona mais o autoritarismo de tempos passados”, afirmou.

BISPO PORTUGUÊS EXPRESSA SEU CONTENTAMENTO PELA BEATIFICAÇÃO DE PAULO VI





Angra do Heroísmo, Açores, 07 mai 2014 (Ecclesia) – O bispo da Diocese Angra, D. António Sousa Braga, saudou as notícias que dão conta da próxima beatificação de Paulo VI, o Papa que o ordenou como padre.

“Estou muito contente com a canonização de São João XXIII porque teve a coragem de convocar o Concílio; estou igualmente contente com a canonização de São João Paulo II porque teve um longo pontificado e veio três vezes a Portugal, inclusive aos Açores; estou contentíssimo com a notícia da beatificação de Paulo VI”, disse o prelado açoriano em declarações ao portal da diocese.

D. António Sousa Braga destaca a importância do pontífice italiano, Papa entre 1963 e 1978, na implementação do Concilio Vaticano II (1962-1965), e diz que esta beatificação era a peça “que faltava” para completar o ciclo dos Papas que foram decisivos na abertura da Igreja ao mundo.

O bispo de Angra destaca a ação de Paulo VI na condução da Igreja, num momento particularmente “difícil” e de “de grande resistência à abertura” proposta pelo Concilio, sublinhando, para além das questões “afetivas”, a “enorme importância e atualidade” dos documentos assinados pelo futuro beato.

“Paulo VI é o meu Papa pois foi ele que me ordenou em 1970 e eu estudei a Teologia nos anos do seu pontificado. Os seus documentos são de uma enorme profundidade, extraordinários para a época e são textos literários da língua italiana”, conclui.

A Congregação para a Causa dos Santos, da Santa Sé, aprovou esta quarta-feira por unanimidade um milagre atribuído à intercessão do Papa Paulo VI, anunciou o portal de notícias do Vaticano.

O prefeito deste dicastério, cardeal Angelo Amato, deverá encontrar-se com o Papa Francisco para a promulgação do decreto, o que poderá ocorrer ainda esta sexta-feira, acrescenta o ‘news.va’.

O mesmo portal adianta como data possível para a beatificação o dia 19 de outubro, data da conclusão do Sínodo Extraordinário sobre a Família.

Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini nasceu a 26 de setembro de 1897 na Lombardia, Itália, e foi ordenado padre em 1920, tendo entrado ao serviço diplomático da Santa Sé.

Nomeado arcebispo de Milão em 1953, foi criado cardeal em dezembro de 1958, por João XXIII, a quem viria a suceder, cinco anos depois, já com o Concílio Vaticano II (1962-1965) em andamento, tendo-lhe dado continuidade.

Entre 1964 e 1970, Paulo VI fez nove viagens internacionais, as primeiras de um Papa moderno, incluindo a passagem por Fátima a 13 de maio de 1967.

O Papa italiano escreveu sete encíclicas, entre as quais a ‘Humanae vitae’ (1968), sobre a regulação da natalidade, e a ‘Populorum progressio’ (1967), sobre o desenvolvimento dos povos; assinou ainda a exortação apostólica ‘Evangelii nuntiandi’ (1975), sobre a evangelização no mundo contemporâneo, e discursou na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque, a 4 de outubro de 1965.

Paulo VI morreu no dia 6 de agosto de 1978.

PAULO VI, BEATIFICADO AINDA ESTE ANO





A Congregação para a Causa dos Santos aprovou a existência de um milagre por intercessão do papa Paulo VI que servirá para sua beatificação, segundo informou a agência de notícias italiana Ansa. A beatificação de Giovanni Battista Montini, o papa que concluiu o Concílio Vaticano 2.º, será em 19 de outubro, quanto terminará o Sínodo dos Bispos sobre a família previsto para esse mês. O papa Francisco deve aprovar o decreto sobre o milagre para que seja efetiva a beatificação.


Oficialmente o Vaticano não se manifestou sobre a decisão da Congregação. A imprensa italiana informou que o milagre que permitirá a beatificação do papa Montini era a cura de um bebê ainda na barriga da mãe, em 2001, nos Estados Unidos. Ele foi proposto pelo postulador da causa de Paulo VI, Antonio Marrazzo.


O caso se refere à história de uma mulher que durante a gravidez descobriu um grave problema cerebral no feto e a quem os médicos aconselharam como possível solução o aborto, porém a jovem se opôs a isso e quis levar a gravidez adiante, acreditando na intercessão de Paulo VI.


Segundo disse Marrazzo em 2012 à Rádio Vaticano, “a criança nasceu sem problemas” e os médicos consideraram o nascimento “um feito verdadeiramente extraordinário e sobrenatural”. A escolha do milagre, continuou  o postulador da causa para o reconhecimento do beato, foi decidida “em acordo com o magistério do papa”, que escreveu a encíclica Humanae Vitae, sobre a defesa da vida, na qual condenava o uso de métodos artificiais de contracepção e o aborto.


No dia 20 de dezembro de 2012, Bento XVI havia assinado o decreto de “virtudes heróicas” de Paulo VI com o qual ele foi declarado “venerável”, o que permtiu a sequência do processo de beatificação.


 

Paulo VI, Beato? – por Mgr. Marcel Lefèbvre






Em 20 de dezembro de 2012, Bento XVI autorizou a Congregação para as Causas dos Santos a promulgar um decreto reconhecendo as “virtudes heróicas” de Paulo VI, papa de 1963 a 1978. Agora basta um milagre obtido por intercessão de Paulo VI para proceder à sua beatificação. 

Aparentemente, o postulador de sua causa, Pe. Antonio Marrazzo, já escolheu um caso para apresentar à comissão médica: a cura de uma criança em gestação diagnosticada com uma grave má-formação. De acordo com Andrea Tornielli, do Vatican Insider de La Stampa, a beatificação poderia ocorrer em 2013.

       Paulo VI é o papa que encerrou o Concílio Vaticano II, aberto por seu predecessor João XXIII. Foi durante o pontificado de Paulo VI que o Novus Ordo Missae foi desenvolvido. Em 1976 ele escreveu sem hesitação a Dom Marcel Lefebvre: “O Concílio Vaticano II não tem menos autoritadade do que o Concílio de Nicéia, mas é até mais importante em alguns aspectos.”

       Dom Lefebvre, que foi suspenso a divinis durante o pontificado de Paulo VI, deu sua opinião sobre Paulo VI aos seminaristas de Ecône na série de palestras que fez sobre o Magistério e que forneceu material para o seu livro Do Liberalismo à Apostasia (Ed. Permanência, 1991). 

O capítulo 31, “Paulo VI – Papa Liberal”, oferece uma forte indicação do que o fundador da Fraternidade São Pio X teria dito sobre essa beatificação. 

DICI introduziu subtítulos na forma de perguntas ao texto de Dom Lefebvre, para melhor seguir a sua análise.

Como Paulo VI será julgado pela Igreja no futuro?

       É evidente que a Igreja, um dia, julgará este Concílio, julgará estes Papas. E em especial, como será julgado o Papa Paulo VI? Alguns afirmam que foi herege, cismático e apóstata; outros crêem poder demonstrar que Paulo VI não tinha em vista o bem da Igreja, e portanto não foi papa, é a tese dos “Sedes Vacans” (sedevacantistas). Não nego que estas opiniões tenham algum argumento a seu favor. Poderão dizer que em trinta anos se descobrirão coisas que estavam ocultas ou se verão melhor elementos que deveriam ter sido mais claros para os contemporâneos, como afirmações deste Papa absolutamente contrárias à tradição da Igreja etc. Pode ser, mas não creio necessário recorrer a estas explicações; penso inclusive que é um erro seguir certas hipóteses.

       Outros pensam, de modo simplista, que havia então dois papas: um, o verdadeiro, estava prisioneiro nos porões do Vaticano, enquanto o outro, o impostor, o sósia, ocupava o trono de São Pedro, para a infelicidade da Igreja. Livros foram escritos sobre “os dois papas”, baseados em “revelações” de uma pessoa possuída pelo demônio e em argumentos pseudocientíficos que afirmam, por exemplo, que a voz do sósia não é a do verdadeiro Paulo VI!
Qual é a sua própria explicação sobre o pontificado de Paulo VI?

        A solução real me parece que é outra, muito mais complexa, penosa e dolorosa. O caminho nos é dado por um amigo de Paulo VI, o Cardeal Daniélou: em suas “Memórias” publicadas por um membro de sua família, o Cardeal diz explicitamente: “É evidente que Paulo VI é um papa liberal”.

       Essa é a solução que parece ser a mais provável, historicamente, porque este papa foi ele próprio um fruto do liberalismo. Toda a sua vida foi permeada com a influência dos homens que ele escolheu para cercá-lo ou que tomou por mestres, e que eram liberais.

       Paulo não escondeu suas simpatias liberais: no Concílio, em lugar dos presidentes designados por João XXIII, colocou homens que chamou de moderadores. Estes moderadores foram: Cardeal Agagianian, cardeal da Cúria sem personalidade, e os Cardeais Lercaro, Suenens e Dopfner; estes três últimos, liberais e seus amigos pessoais. Os antigos presidentes foram relegados a uma mesa de honra e foram os três moderadores que dirigiram os debates do Concílio. Da mesma maneira, Paulo VI sustentou durante todo o Concílio a facção liberal que se opunha à tradição da Igreja, isto é um fato conhecido. Como já lhes d

isse, Paulo VI repetiu ao fim do Concílio as palavras de Lamennais textualmente: “A Igreja não pede mais do que a liberdade.” Doutrina condenada por Gregório XVI e Pio IX!


       É inegável que Paulo VI esteve fortemente influenciado pelo liberalismo. Isto explica a evolução histórica vivida pela Igreja nestas últimas décadas e caracteriza muito bem o comportamento pessoal de Paulo VI. Como já lhes disse, o liberal é um homem que vive sempre em contradição; afirma os princípios mas faz o contrário, vive sempre na incoerência.
O senhor poderia dar alguns exemplos em apoio de sua análise?

       Deixem-me citar alguns exemplos destes binômios tese-antítese, em que Paulo VI se destacava ao propor tantos problemas insolúveis que refletiam seu espírito ansioso e paradoxal. A encíclica Ecclesiam Suam, de 6 de agosto de 1964, que é a carta-programa de seu pontificado, nos ilustra a este respeito:

       “Se verdadeiramente, como dizíamos, a Igreja tem consciência do que o Senhor quer que ela seja, surge nela uma singular plenitude e uma necessidade de expressão, com a clara consciência de uma missão que a excede e uma novidade que deve propagar. É a obrigação de evangelizar, é o mandato missionário, é o dever de apostolado (…). Nós sabemos bem: ‘Ide e ensinai a todas as nações’, é o último mandamento de Cristo a seus apóstolos. Isto define sua irrecusável missão, pelo próprio nome de apóstolos.”

       Esta é a tese, imediatamente seguida pela antítese:

        “A propósito deste impulso interior de caridade que tende a se transformar em um dom exterior, nós usaremos o nome que é atualmente usual: diálogo.

       A Igreja deve manter diálogo com o mundo em que vive. A Igreja se faz palavras, a Igreja se faz mensagem, a Igreja se faz conversação.”

       Finalmente vem a tentativa de síntese, que não faz mais do que consagrar a antítese:
       “(…) inclusive antes de converter o mundo, principalmente para convertê-lo, é necessário acercar-se dele e falar com ele.” (Documentos pontifícios de Paulo VI, 1964. Ed. Saint Augustin, Saint Maurice, págs. 677-679.)
Tem outro exemplo?

       Mais graves e mais características da psicologia liberal de Paulo VI, são as palavras com que logo após o Concílio declara a supressão do latim na liturgia. Logo após haver recordado os benefícios do latim: língua sagrada, língua estável, língua universal, pede em nome da adaptação o “sacrifício” do latim, confessando inclusive que será uma grande perda para a Igreja! Eis aqui as próprias palavras do Papa Paulo VI, citadas por Louis Salleron em sua obra “A Nova Missa” (Coleção “Itineraires”, Nouvelles Editions latines, 2 ª ed., 1976, p. 83):

       Em 7 de março de 1965, Paulo VI declarava à multidão de fiéis reunidos na Praça São Pedro:
       “É um sacrifício da Igreja renunciar ao latim, língua sagrada, bela, expressiva, elegante. Ela sacrificou séculos de tradição e unidade da língua, por uma crescente aspiração à universalidade.”

       E a 4 de maio de 1967, o “sacrifício” era consumado com a instrução “Tres Abhinc Annos”, que estabelecia o uso da língua vulgar na recitação em voz alta do Cânon da missa.
       Este “sacrifício”, no espírito de Paulo VI, parece ter sido definitivo. Em 26 de novembro, ele explica ao apresentar o novo rito da missa:

       “Já não é o latim, mas a língua vernácula a língua principal da missa. Para quem conhece a beleza, o poder do latim, sua capacidade de expressar as coisas sagradas, será certamente um grande sacrifício vê-lo substituído pela língua vulgar.

       Perdemos a língua dos séculos cristãos, nos tornamos intrusos e profanamos o domínio literário da expressão sagrada. Perdemos assim em grande parte esta admirável e incomparável riqueza artística e espiritual que é o canto gregoriano. Sem dúvida, temos razão em sentir tristeza e angústia.”

       Portanto, tudo deveria dissuadir Paulo VI de realizar tal “sacrifício” e persuadi-lo a conservar o latim. Mas não, acomodando-se em sentido oposto em sua “angústia”, de um modo singularmente masoquista, vai agir em sentido oposto aos princípios que acabava de enumerar, e vai decretar o “sacrifício” em nome da compreensão
e da oração, argumento enganador que não passava de um pretexto dos modernistas.

       O latim litúrgico nunca foi obstáculo para conversão dos infiéis ou para a educação cristã; pelo contrário os povos simples da África e da Ásia gostam do canto gregoriano e desta língua una e sagrada, sinal de adesão à catolicidade. A experiência prova que onde o latim não foi imposto pelos missionários da Igreja latina, ficaram ocultos os germes de cismas futuros.
       Paulo VI pronuncia então a sentença contraditória:

       “A resposta parece trivial e prosaica, porém boa por ser humana e apostólica: a compreensão da oração é mais valiosa do que as antigas roupas de seda, elegância real com que estava revestida. Mais preciosa é a participação do povo, deste povo que hoje quer que se fale claramente, de maneira inteligível que se possa traduzir em sua linguagem profana. Se a nobre língua latina nos separasse das crianças, dos jovens, do mundo de trabalho e dos negócios, se fosse um biombo opaco em vez de ser um cristal transparente, nós, pescadores de almas, teríamos uma atitude certa conservando-a na exclusividade da linguagem de oração e da religião?”

       Que confusão mental! Quem me impede de rezar em minha língua? Mas a oração litúrgica não é uma oração privada, é a oração de toda a Igreja. Também outra confusão lamentável, a liturgia não é um ensinamento dirigido ao povo, mas o culto dirigido pelo povo cristão a Deus. Uma coisa é o catecismo, outra a liturgia! Não se trata para o povo reunido na Igreja “que se fale claramente”, mas que este povo possa louvar a Deus de maneira mais bela, mais sagrada e mais solene que exista! “Rezar a Deus com beleza”, tal era a máxima litúrgica de São Pio X. Quanta razão ele tinha!
Como o senhor descreveria um liberal?

       Como vocês podem ver, o liberal é um espírito paradoxal e confuso, angustiado e contraditório; assim foi Paulo VI. Louis Salleron o explica muito bem quando descreve o aspecto físico de Paulo VI. Ele diz: “tem dupla face”. Não fala de duplicidade, pois este termo expressa uma intenção perversa de enganar, que não era a de Paulo VI. É um personagem duplo, cujo rosto contraditório expressa a dualidade: ora tradicional nas palavras, ora modernista em seus atos; ora católico em sua premissas e princípios, ora progressista em sua conclusões, não condenando o que deveria condenar e condenando o que deveria aprovar.

       Com esta debilidade psicológica este papa oferece uma ocasião sonhada, uma grande possibilidade aos inimigos da Igreja de se servir dele. Sempre guardando uma cara (ou meia cara, como queiram) católica, não teve dúvida em contradizer a tradição, mostrou-se favorável às mudanças, batizando-as de mutações e progresso, indo assim na mesma direção dos inimigos da Igreja que o estimularam.

       Não se viu um dia, em 1976 o “Izvestia”, órgão do partido comunista russo, reivindicar a Paulo VI em nome do Vaticano II por minha condenação e a de Ecône?

       Igualmente, o diário comunista “L’Unitá” expressou uma solicitação similar, reservando-lhe uma página inteira, quando pronunciei meu sermão em Lille em 29 de agosto de 1976. Como estava furioso, por causa de meus ataques ao comunismo! Dirigindo-se a Paulo VI, diziam: “Tomai consciência do perigo que representa Lefebvre, e continuai o magnífico movimento de aproximação iniciado com o ecumenismo do Vaticano II.”

       É um pouco incômodo ter amigos como estes, não lhes parece? Triste ilustração de uma regra que temos destacado: o liberalismo leva do compromisso à traição.
Como devem se comportar sob um papa liberal os sacerdotes e fiéis ligados à Tradição ?

       A psicologia de um papa liberal é facilmente compreensível, mas difícil de suportar! Com efeito, nos põe em uma situação muito delicada em relação a tal chefe, seja Paulo VI, seja João Paulo II… Na prática, nossa atitude deve se fundar em um discernimento prévio, necessário para a circunstância extraordinária que significa um papa conquistado pelo liberalismo. Eis aqui este discernimento: quando o papa diz alguma coisa de acordo com a tradição, o seguimos; quando diz alguma coisa contrária à nossa fé, ou quando sustente ou deixe fazer algo que põe em perigo nossa fé, então não podemos segui-lo! Isto pela razão fundamental de que a Igreja, o Papa, e a hierarquia estão a serviço de nossa fé. Não são eles que fazem a fé, devem servir a ela. A fé não se faz, é imutável, a fé se transmite.

       Por este motivo, não podemos seguir os atos destes papas feitos com a finalidade de confirmar uma ação que vai contra a tradição. Seria colaborar com a autodemolição da Igreja, com a destruição de nossa fé!

       Fica claro que o que nos pedem sem cessar: completa submissão ao Papa e ao Concílio, aceitação de toda reforma litúrgica, vai em sentido oposto à tradição na medida em que o Papa, o Concílio e as reformas nos arrastam para longe

da tradição, como os fatos provam através de anos. Assim pedir-nos isto significa pedir-nos colaborar com o desaparecimento da fé. Impossível! Os mártires morreram para defender a fé; temos exemplos dos cristãos prisioneiros, torturados, enviados a campos de concentração por sua fé! Um grão de incenso oferecido à divindade, teria salvo suas vidas. Têm-me aconselhado algumas vezes: “Assinai, assinai que aceitais e tudo continuará como antes!” Não! Não se brinca com a fé!

Traduzido de Dom Marcel Lefebvre, Ils l’ont découronné, Clovis, 3 ª ed, 2008; Pp. 253-260. Disponível em português na Editora Permanência como “Do Liberalismo à Apostasia” (1991).

A PROFECIA DAS TIARAS






Pe. Marcélo Tenorio
A tiara papal não é simplesmente um adorno nem tão pouco uma ostentação de poder, de império e de domínio político. Seu significado é bem mais profundo e grave, de forma que, hoje em dia, um papa já não pode usá-la sem causar grande impacto. Se existe um símbolo eclesiástico temido e rejeitado é, justamente, a tiara papal: osinimigos entendem muito bem o que ela evoca.
A tiara possui três coroas sobrepostas, conhecida mais como “tríplice coroa”, ou triregnum. Isso quer dizer que o Vigário de Cristo detém o poder pleno, supremo e absoluto sobre os três reinos:
–a primeira coroa, “Pai dos Reis”;
–a segunda  coroa, “Pastor Universal”;
–a terceira, “Vigário de Jesus Cristo”.
O último papa a fazer uso da tiara foi o Papa Paulo VI, em 1963. Ele usou de uma tiara nova, presente dos fiéis de Milão, onde foi arcebispo e cardeal. 
A nova tiara de Paulo VI tinha algo de profética. Era essencialmente feia, sem expressão alguma. Os adornos tinham sido retirados e a tríplice coroa não era tão visível: a impressão era de que se desmoronava de cima para baixo..Seu formato não era agradável e, segundo alguns críticos parecia uma “ogiva nuclear”.
No final da II Sessão do Concílio Vaticano II, em 1963, Paulo VI desceu os degraus de seu trono, na Basílica de S. Pedro, e depositou a tiara sobre o altar.
Muitos atribuíram àquela atitude um gesto de humildade.
A verdade é que, depois disso, a tiara não voltou mais a ser usada, a não ser nas ornamentações dos brasões papais ou na cabeça da imagem de São Pedro, na basílica vaticana, pela solenidade dos apóstolos.
Paulo VI manteve na Constituição Apostólica Romano Pontifici Eligendo (1975), sobre as Eleições dos Papas, menções à coroação dos seus sucessores:
“Finalmente, o Pontífice será coroado pelo Cardeal Protodiácono e, dentro de um momento oportuno, irá tomar posse na Arquibasílica Patriarcal de Latrão, de acordo com o ritual prescrito”.
João Paulo I não quis a coroação. Houve apenas uma cerimônia chamada de “inauguração do Sumo Pontífice”, embora tenha usado a Sedia Gestatoria (trono móvel, ricamente adornado, utilizado para transportar o Papa).
Seu sucessor, João Paulo II, não só recusou a coroação como retirou qualquer menção à coroação dos pontífices na Constituição Apostólica de 1996, Universi Dominici Gregis. Assim ele se pronunciou em sua “Inauguração”:
“O último Papa que foi coroado foi Paulo VI em 1963, mas após a cerimônia de coroação solene ele nunca usou a tiara novamente e deixou seus sucessores livres para decidirem a esse respeito. O Papa João Paulo I, cuja memória é tão viva em nossos corações, não gostaria de usar a tiara, nem o seu sucessor deseja hoje. Este não é o momento de voltar a uma cerimônia e um objeto considerado, erradamente, como um símbolo do poder temporal dos papas. Nosso tempo nos chama, nos exorta, nos obriga a olhar para o Senhor e mergulhar na meditação humilde e devota sobre o mistério do poder supremo do próprio Cristo”.
O Papa Bento XVI inicia o seu pontificado com um brasão que não mais apresenta a tiara papal. Em seu lugar uma mitra, embora com três linhas, fazendo uma discretíssima menção à tríplice coroa.
“O Santo Padre Bento XVI decidiu não usar mais a tiara no seu brasão oficial pessoal, mas colocar só uma simples mitra, que não é portanto encimada por uma pequena esfera e por uma cruz como era a tiara”. 
Todavia, inesperadamente – e esse papa sempre nos surpreende -, a tiara papal reaparece, a la Gregório XVI, no brasão papal da nova flâmula da sacada da Basílica de São Pedro .
O problema central da tiara não são as pedras preciosas nela contidas, pois isso poderia ser bem resolvido e não é a questão fundamental. O antigo argumento de que a Igreja deveria “vender” tudo que possui e dar aos pobres, “porque é muito rica”, já não se encaixa mais nas mentes inteligentes. Tudo ali é patrimônio da humanidade e sabe-se que mais gastos provoca que rentabilidade. Basta pensarmos no valor incalculável da restauração de um pequeno pedaço da Capela Sistina e em quem deve pagar essa conta.
Logo, a questão da tiara é teológica! Ela representa o império de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre a humanidade inteira: sobre a Igreja, sobre os Estados, sobre toda a sociedade. Eis aqui o tríplice reino, o tríplice múnus.
Era comum de se ver nas belas igrejas antigas e centenárias, como um marco da passagem de um século para outro, uma cruz, colocada na parede da Igreja, no pórtico de entrada com as seguintes frases: “Cristo vence – Reina – Impera. A Ele o Poder, a Glória, o Domínio e o Império, pelos Séculos dos Séculos”.
A supremacia de Cristo Rei deve resplandecer na face da Igreja e, sobretudo, na pessoa de seu Vigário, o Papa.
A tiara papal na verdade anuncia a Supremacia de Deus sobre os três reinos: Igreja, Estado e Sociedade.
Ao iniciar um novo tempo, a modernidade, onde a “deusa razão” inaugura a época do antropocentrismo, do homem livre, do livre pensamento, da libertação das cadeias de todo e qualquer dogma ou verdade absoluta; onde o triunfo da Revolução Francesa, com seus princípios maçônicos, é amplamente assumido em todas, sobretudo na filosofia e teologia, devastando tudo e destruindo por toda parte o Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo, a tiara simplificada, lisa, sem adornos, oval, de Paulo VI, nos anuncia o “desmoronamento” da Igreja pelo que viria depois…
E hoje, assistimos a toda essa derrocada que começou com a separação oficial da Igreja e do Estado. 
Ora, o Estado existe pelas pessoas que o compõem, de maneira que a ideia da laicidade do Estado é, no mínimo, absurda, visto que, sendo a Lei Divina superior à lei humana positiva, esta existe, com legitimidade, apenas quando em perfeita conformidade e submissa à Lei Divina. 
Incentivando a laicidade do Estado, colaboramos com a destronização de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei e Senhor dos Exércitos e, ao invés de servirmos à Verdade plena, que sempre aponta à Verdade Católica, terminamos como humanistas e doutores do “amor fraterno universal”, oco, visto que desprovido da perfeita caridade que somente existe fundamentada na Verdade, que é Cristo.
A laicidade gera a pluralidade religiosa, que por sua vez, gera o subjetivismo religioso, pai do indiferentismo e avô do ateísmo prático.
Leão XIII, considerava esta questão de extrema importância, tanto que se dedicou ao assunto em sua Encíclica“Immortale Dei”:
“Deus dividiu o governo de toda sociedade humana entre dois poderes: o eclesiástico e o civil; o primeiro, que cuida das coisas divinas e o outro que cuida das humanas. Cada qual na sua esfera é soberano, cada um tem seus limites perfeitamente determinados e traçados conforme a sua natureza e seu fim determinado. Ha assim como que uma esfera de atuação onde cada um exerce sua ação ‘jure’ próprio”.
E ainda:
“Gregório XVI, em sua Carta-Encíclica“Mirare Vos”, de 15 de agosto de 1832, (…) sobre a separação da Igreja e do Estado, dizia o seguinte: ‘Não poderíamos esperar situação mais favorável para a Religião e o Estado, se atendêssemos os desejos daqueles que anseiam por separar a Igreja do Estado e romper a concórdia mútua entre o sacerdócio e o império; pois se vê quanto os que gostam de uma liberdade desenfreada temem esta concórdia, pois ela sempre produziu bons e saudáveis frutos para a causa eclesiástica e civil”.
A laicização do Estado destrona Nosso Senhor. As leis já não se pautam mais na Lei divina, a Igreja, possuidora da Verdade plena e com vinte séculos de existência, é posta ao lado das seitas mais bizarras: Cristo e Baal em pé de igualdade.
Um exemplo claro acontece em nosso dias: a aprovação da lei nazista de extermínio de indefesos. Na fala dos ministros estava estampada essa idéia de calar a voz da Igreja, neutralizá-la. O sucesso do STF advém de outro: o princípio maçônico de igualdade, liberdade e fraternidade.
Não se pode negar a grande dificuldade que a Igreja enfrenta hoje diante de um mundo que odeia a Verdade e que não aceita mais o “jugo” de Deus.
Como insistir no Reinado Social de Nosso Senhor e na Supremacia da Verdade e da Fé? Como fazer com que Ele reine, quando seu trono foi retirado do Estado e, em muitos casos, com  beneplácitos eclesiástico? 
Era um cardeal quem dizia: “O reinado de Nosso Senhor é praticamente impossível em nossos dias!” – uma afirmação terrível!
“Eu sou Rei e para isso vim ao mundo!”, retrucou Jesus a Pilatos.
O Reinado Social de Nosso Senhor é vital! A Europa começa a despencar moralmente, numa crise jamais vista, justamente porque Nosso Senhor foi retirado de seu trono. E as consequências são vistas a olho nu: famílias acabadas, jovens perdidos, sem sentido algum, liberação e supremacia das vontades mais diabólicas do homem. Eis a separação de todo o equilíbrio social, quando se exclui Nosso Senhor Jesus Cristo.
A humanidade caminhando para um paganismo pr
ático encontrará, no fim da linha, apenas o caos, o nada, o “não ser”.
Bento XVI, em sete anos de pontificado, tem surpreendido, positivamente, em muitos pontos, sobretudo na reafirmação de valores já esquecidos pela sociedade cristã. Mesmo pagando um alto preço, não tem se omitido em relação à proclamação da Verdade sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo.
Há pouco tempo, Sua Santidade recebeu no México um presente típico, um chapéu e, imediatamente, o pôs sobre a cabeça. Isto também fizera noutras vezes, com outros estilos. Tempos atrás recebeu de presente dos católicos húngaros uma bela tiara, mas ponderou, olhou, olhou, agradeceu e… a entregou ao secretário.
No auge das invasões de terra pelo MST, aqui, nas terras tupiniquins, Lula pôs em sua cabeça um boné do movimento vermelho. Como falou aquele boné em sua cabeça! Falou-nos muito mais que suas atrapalhadas palavras.
Como ressoou alto aquele gesto de Paulo VI, retirando de sua cabeça a tiara…
Como ecoaria “urbi et orbi” a tiara de volta à cabeça do Vigário de Cristo?
Nós sabemos como.
Esperemos, pois não está tão distante: ela já se encontra em suas mãos.
Como tenho tanta certeza?
As fontes em Roma são falantes..jorram para todos os lados…
Più non ti dico… pìu non ti dico!