Pio XII apoiou planos para derrubar o regime nazista, revela novo livro

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DENVER, 07 Mar. 16 / 08:00 pm (ACI).- O apoio secreto do Papa Pio XII a tentativas de derrocar o ditador nazista Adolf Hitler é o tema de um novo livro, que aborda documentos de guerra e entrevistas com o agente de inteligência americana que os escreveu. O título do livro (tradução livre) é “A Igreja dos Espiões: A guerra secreta do Papa contra Hitler”, do historiador Mark Riebling.

“Este livro é a verdade –o melhor que pude expô-la após vários anos de investigação– sobre as operações secretas do Papa na Segunda guerra mundial”, assegurou a ACI Digital o autor.

A principal premissa do livro, explicou Riebling, “é que Pio decidiu resistir a Hitler com uma ação encoberta em vez de protestar abertamente. Como resultado, envolveu-se em três diferentes complôs dos dissidentes alemães para eliminar Hitler”.

“Pensei que esta ideia –que a Igreja esteja envolvida em operações secretas durante os anos mais sangrentos da história, na parte mais controvertida de sua história recente– não era só uma nota ao pé de página, era algo que valia a pena investigar”, disse.

No final da década de 1990, o debate sobre Pio XII e se ele fez o suficiente para combater os nazistas alcançou o ponto mais alto com a publicação do livro profundamente controvertido chamado “O Papa de Hitler”, do jornalista britânico John Cornwell.

Esse texto foi muito crítico com Pio XII, acusando-o de sustentar um silêncio culpado –ou até mesmo cúmplice– durante o auge do nazismo, quando na verdade ajudou a salvar a mais de 800 mil judeus neste período.

“Até os maiores críticos da Igreja na época nazista, ao menos os principais deles, admitem que Pio XII odiava Hitler e trabalhou secretamente para derrocá-lo”, disse Riebling. Durante sua investigação para um livro prévio, sobre a “guerra secreta entre o FBI e a CIA”, o historiador descobriu documentos de guerra que relacionavam o Papa Pio XII com tentativas de derrocar Hitler.

“Havia ao menos dez documentos implicando Pio XII e seus conselheiros mais próximos em não só um, mas três complôs para eliminar a Hitler –que se estendem de 1939 até 1944.

De acordo com Riebling, seu livro não denuncia que o Papa “tentou matar Hitler”. As ações do Papa foram mais sutis.

“Pio se converte em uma peça chave nas conspirações para eliminar um governante que é uma sorte de anticristo, porque as boas pessoas pedem sua ajuda, e ele procura em sua consciência, e aceita converter-se em um intermediário para os conspiradores –um tipo de agente estrangeiro–, e portanto se converte em um cúmplice de seus complôs”.

Pio XII teve conexões com três complôs contra Hitler. O primeiro, de outubro de 1939 a maio de 1940, envolveu a conspiradores militares alemães. De fins de 1941 à a primavera de 1943, uma série de complôs que envolveram a jesuítas alemães culminaram em uma bomba plantada no avião de Hitler que não explodiu.

O terceiro complô envolveu jesuítas alemães e também o coronel militar alemão Claus von Stauffenberg. Embora o coronel tenha colocado com sucesso uma bomba perto do ditador nazista, não conseguiu matar Hitler. Os sacerdotes tiveram que escapar depois do atentado fracassado.

Em um ponto, Hitler planejou invadir o Vaticano, sequestrar ao Papa e levá-lo a Alemanha. O líder nazista Heinrich Himmler “queria realizar uma execução pública do Santo Padre para a inauguração de um novo estádio de futebol”, disse Riebling.

“Pio se deu conta destes planos, através de seus agentes papais secretos; e, em minha opinião, isso influenciou a decisão do Santo Padre de envolver-se com a resistência anti-nazista”.

“Sabendo o que sei sobre Pio XII, e havendo-o investigado durante muitos anos, acredito que ele queria ser santo. Queria que o povo da Alemanha fosse santo”, acrescentou.

“Quando ele escutava que um sacerdote foi detido por rezar pelos judeus e enviado a um campo de concentração, dizia ‘quisera que todos fizessem o mesmo”. Esta frase, jamais foi dita em público, reconheceu o historiador, mas deixou por escrito em uma carta secreta aos  bispos alemães.

Fonte: http://www.acidigital.com/noticias/pio-xii-apoiou-planos-para-derrubar-o-regime-nazista-revela-novo-livro-40270/#.Vt8sm1di0Ag.facebook

Vaticano esclarece: Bênção do Papa à escritora lésbica não foi aval ao matrimônio gay

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Quando se chega ao ponto de outros terem que explicar o que um Papa quis dizer, e quando isso se repente constantemente, é sinal que a ambiguidade está centralizada e a objetividade da Fé na periferia dos acontecimentos. Não sei se no contexto geral pior é a  emenda ou o soneto.

Aqui vale uma boa releitura da Pascendi.

Salve Maria.

Roma, 28 Ago. 15 / 03:00 pm (ACI).-

O subdiretor da Sala de Imprensa do Vaticano, Pe. Ciro Benedittini, esclareceu que a bênção que o Papa Francisco concedeu a uma escritora lésbica não significa de maneira alguma o aval às uniões homossexuais, como interpretaram alguns meios de comunicação.

Francesca Pardi fundou, junto com sua parceira Maria Silvia Fiengo, uma editoria de livros para crianças chamada ‘Lo Stampatello’ e é autora de livros como ‘Piccola storia di una famiglia: perchè hai due mamme? (Pequena história de uma família. Por que você tem duas mães?”) e Piccolo Uovo (Pequeno ovo).

Há algumas semanas Pardi – que têm quatro filhos com sua parceira lésbica – mandou uma carta ao Papa e lhe enviou alguns livros escritos por ela, assinalando que neles não menciona a ideologia de gênero, mas o “amor ao próximo”. Alguns desses textos foram retirados das escolas de Veneza a pedido do prefeito Luigi Brugnaro.

Hoje, Pardi publicou no seu perfil do Face book uma foto do envelope no qual chegou a resposta da Secretaria de Estado Vaticano, confirmado a recepção do presente. Embora a autora não tenha publicado o texto da carta recebida, intitulou assim sua publicação: “O Papa me respondeu!”.

Pardi admite que a carta não está assinada pelo Papa, mas por Dom Peter Brian Wells, funcionário da Secretaria de Estado Vaticano. Entretanto, atribui ao Pontífice palavras exortativas a respeito do seu trabalho de literatura gay e uma bênção dirigida a ela e a sua parceira.

Esta comunicação de cortesia foi difundida por vários meios italianos e agências internacionais como uma bênção ou aprovação do Santo Padre as uniões homossexuais.

Por isso, o Pe. Ciro Benedittini divulgou um comunicado no qual explica que “em resposta a uma carta de Francesca Pardi ao Santo Padre, em tom educado e respeitoso, a Secretaria de Estado confirmou o recebimento da mesma com um estilo simples e pastoral, precisando em seguida que se tratava de uma resposta privada e por isso não destinada à sua publicação (coisa que aconteceu)”.

“De maneira alguma a carta da Secretaria de Estado pretende aprovar comportamentos e ensinamentos que não estão em consonância com o Evangelho, embora apoie ‘sempre uma atividade mais saudável à serviço das jovens gerações e da difusão dos autênticos valores humanos e cristãos’”, ressalta.

“A bênção que o Papa Francisco concedeu no final da carta foi para a pessoa e não para eventuais ensinamentos que não estão de acordo com a doutrina da Igreja sobre a ideologia de gênero, que não mudou absolutamente em nada, como muitas vezes assinalou o próprio Santo Padre”, precisa o comunicado.

Então, conclui o texto divulgado hoje: “É totalmente descabida uma instrumentalização do conteúdo da carta”.

A ideologia de gênero pretende afirmar que no mundo moderno a diferença entre homem e mulher é um fator social (uma construção) antes de ser algo biológico. Dessa forma a orientação sexual – e com isso a identidade de gênero e o papel do gênero – contaria mais que o sexo biológico.

Em diversas ocasiões o Papa Francisco explicou que a ideologia de gênero contradiz o plano de Deus e não obedece à ordem natural da criação.

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Bolívia – Discurso do Papa Francisco aos Movimentos Populares

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Santa Cruz de la Sierra (RV) –  No final da tarde desta quinta-feira o Papa Francisco concluiu o II Encontro dos Movimento Populares. Eis a íntegra do discurso preparado pelo Pontífice:

Boa tarde a todos!

Há alguns meses, reunimo-nos em Roma e não esqueço aquele nosso primeiro encontro. Durante este tempo, trouxe-vos no meu coração e nas minhas orações. Alegra-me vê-vos de novo aqui, debatendo os melhores caminhos para superar as graves situações de injustiça que padecem os excluídos em todo o mundo. Obrigado Senhor Presidente Evo Morales, por sustentar tão decididamente este Encontro.

Então, em Roma, senti algo muito belo: fraternidade, paixão, entrega, sede de justiça. Hoje, em Santa Cruz de la Sierra, volto a sentir o mesmo. Obrigado! Soube também, pelo Pontifício Conselho «Justiça e Paz» presidido pelo Cardeal Turkson, que são muitos na Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos movimentos populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vós, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada diocese, em cada comissão «Justiça e Paz», uma colaboração real, permanente e comprometida com os movimentos populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais a aprofundar este encontro. Continue lendo

Padre Pio e o Papa

Seguem abaixo três histórias sobre Padre Pio contadas ineditamente no blog Christi Fidei, em que o santo de Gargano expõe de modo admirável sua veneração e seu amor pelo Santo Padre, o Papa. Um conforto para a nossa alma nesses tempos de crise de Fé, e uma potentíssima arma contra os inimigos do Romano Pontífice.
Agradecemos ao Frei Carlo Maria, do Convento di Santa Marie delle Grazie, em San Giovanni Rotondo, idealizador do projeto Casa di Riposo per frati anziani (Casa de Repouso para frades idosos) por nos presentear com tão belas histórias.
O texto é de Carlos Wolkartt.

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Um frei chamado Francesco Antonelli estava sentado com Padre Pio próximo a uma janela, ao anoitecer. Após alguns minutos de silêncio, em que Padre Pio observava admirável a Lua, este disse a frei Antonelli: “Veja Francesco, posso não estar fisicamente perto do Papa, porém, me conforta saber que Ele existe, e que Nosso Senhor não nos abandonou. Ontem, o Papa admirava a Lua das janelas de Roma; hoje, eu admiro esta mesma criação de Deus da pobre janela deste convento. Vede, pois, quão bondoso é o Criador, que faz a Terra e os astros girarem para que eu me sinta mais perto do Papa.”
Certa vez, um coroinha [1] perguntou a Padre Pio: “Padre, quem é o Papa?”. Padre Pio lhe explicou caridosamente: “Meu pequeno filho, saiba que Jesus criou um lindo jardim, com belíssimas flores, e chamou doze jardineiros para ajudá-lo. Este jardim era tão querido por Jesus, que Ele escolheu, entre seus doze jardineiros ajudantes, um para que ficasse em seu lugar de Jardineiro chefe após sua volta ao Céu. E quando Jesus já estava lá em cima com Deus, mandou outro Jardineiro ainda mais potente para ajudar a cuidar de seu jardim. Agora veja meu filho: este belo jardim tão querido por Jesus é a Igreja, e o Jardineiro Chefe é o Papa. Quem Jesus enviou para ajudar o Jardineiro chefe a cuidar do jardim é o Espírito Santo. Este é o Papa: aquele que está no lugar de Jesus cuidando de seu lindo jardim.”
Uma senhora idosa confessa a Padre Pio: “Padre, por mais esforço que eu faça, não consigo enxergar o Papa como o substituto de Jesus no mundo”. Padre Pio então lhe diz: “Minha filha, quem não aceita o Papa como o Vigário de Cristo, também não pode aceitar Maria como Mãe de Deus. Olhe para Nossa Senhora: ela era uma frágil menina que foi escolhida por Deus para trazer Deus aos homens. Agora, olhe para o Papa: ele é um pobre homem que foi escolhido por Deus para levar os homens a Deus”. Após um breve momento de silêncio, Padre Pio continua: “Agora vá, e quando se arrepender, venha reconciliar-se com Deus” [2].
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Notas
[1] Não se tem certeza se o infante era um coroinha. Pode ter sido uma simples criança, mas se supõe que tenha sido, de fato, um ajudante do altar.
[2] No dia seguinte, esta senhora volta ao confessionário de Padre Pio e lhe diz: “Padre, esta noite sonhei com o Papa ajoelhado aos pés de Nossa Senhora. Acordei assustada, e chorei muito por ter cometido um pecado tão grave”. Padre Pio a absolveu, e ela se retirou.

BENTO XVI: DEUS NÃO DEIXARÁ FALTAR AJUDA À SUA IGREJA




Bento XVI comenta os casos de divulgação ilícita de documentos vaticanos

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 1º de junho de 2012 (ZENIT.org) – Em gesto de confiança e transparência, Bento XVI falou nesta quarta-feira (30 de maio), durante a audiência geral semanal, sobre a divulgação ilícita de documentos vaticanos que levou à detenção do seu mordomo.
“Os acontecimentos dos últimos dias, a respeito da cúria e dos meus colaboradores, causaram tristeza ao meu coração, mas não se ofuscou nunca a firme certeza de que, apesar da fraqueza do homem, apesar das dificuldades e das provações, a Igreja é guiada pelo Espírito Santo e o Senhor nunca deixará faltar a sua ajuda para sustentá-la na sua estrada”.
Bento XVI comentou ainda sobre o comportamento de alguns meios de comunicação: “Multiplicaram-se as ilações, amplificadas por alguns meios de comunicação, totalmente gratuitas, que foram muito além dos fatos, oferecendo uma imagem da Santa Sé que não corresponde à realidade”.
 Por último, o papa expressou o desejo de “renovar a minha confiança e o meu incentivo aos meus mais estreitos colaboradores e a todos aqueles que, cotidianamente, com fidelidade, com espírito de sacrifício e no silêncio, me ajudam no cumprimento do meu ministério”.

FESTA DE SANTA INÊS: APRESENTADOS AO PAPA DOIS CORDEIROS



Lã servirá para confeccionar pálios dos arcebispos

ROMA, sexta-feira, 21 de janeiro de 2011 (ZENIT.org) – Como a cada ano, dois cordeiros abençoados hoje na basílica de Santa Inês foram apresentados a Bento XVI, com ocasião da festa desta santa mártir cristã dos primeiros séculos.
Como é tradição, a lã desses cordeiros será utilizada para confeccionar os pálios dos arcebispos recém-nomeados.
O pálio é um ornamento litúrgico que indica honra e jurisdição, usado pelo Papa e os arcebispos metropolitanos. É constituído por uma faixa de lá branca com seis cruzes de seda preta.
No dia 29 de junho, solenidade de Pedro e Paulo, o Papa impõe o pálio aos arcebispos. As irmãs do mosteiro beneditino de Santa Cecília, no bairro romano do Trastevere, encarregam-se da confecção dos pálios.

DISCURSO DO PAPA À CÚRIA ROMANA

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 20 de dezembro de 2010 (ZENIT.org) – 





Apresentamos, a seguir, o discurso de Bento XVI aos cardeais e membros da Cúria Romana, a quem recebeu hoje na Sala Régia do Palácio Apostólico por ocasião do Natal.
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Senhores Cardeais,

Venerados Irmãos no Episcopado e no Presbiterado,

Amados irmãos e irmãs!

É com vivo prazer que vos revejo, amados Membros do Colégio Cardinalício, Representantes da Cúria Roma e do Governatorato, neste encontro tradicional. Dirijo a cada um a minha cordial saudação, a começar pelo Cardeal Angelo Sodano, a quem agradeço as expressões de estima e comunhão e votos ardentes que me formulou em nome de todos. Prope est jam Dominus, venite, adoremus! Contemplemos como uma única família o mistério do Emanuel, de Deus-connosco, como disse o Cardeal Decano. De bom grado retribuo os votos expressos e desejo agradecer vivamente a todos, incluindo os Representantes Pontifícios espalhados pelo mundo, pela competente e generosa contribuição que cada um presta ao Vigário de Cristo e à Igreja.
«Excita, Domine, potentiam tuam et veni» – com estas e outras palavras semelhantes a liturgia da Igreja reza repetidamente nos dias do Advento. Trata-se de invocações formuladas provavelmente quando o Império Romano estava no seu ocaso. O desmoronamento dos ordenamentos basilares do direito e das atitudes morais de fundo, que lhes davam força, causou a ruptura das margens que até então protegeram a convivência pacífica entre os homens. Um mundo estava no seu ocaso. Frequentes cataclismos naturais aumentavam ainda mais esta experiência de insegurança. E não se vendo qualquer força que pudesse pôr um freio a tal declínio, tanto mais insistente era a invocação da força própria de Deus: que Ele viesse e protegesse os homens de todas estas ameaças.
«Excita, Domine, potentiam tuam et veni». Também hoje temos variados motivos para nos associarmos a esta oração de Advento da Igreja. O mundo, com todas as suas novas esperanças e possibilidades, sente-se ao mesmo tempo angustiado com a impressão de que o consenso moral se esteja a dissolver, um consenso sem o qual as estruturas jurídicas e políticas não funcionam; consequentemente, as forças mobilizadas para a defesa de tais estruturas parecem destinadas ao insucesso.
Excita – a oração lembra o brado dirigido ao Senhor, que estava a dormir na barca dos discípulos fustigada pela tempestade e quase a afundar. Quando a sua palavra potente aplacou a tempestade, Ele censurou os discípulos pela sua pouca fé (cf. Mt 8, 26 e paralelos). Queria dizer: em vós mesmos, adormeceu a fé. E o mesmo nos quer dizer a nós; também em nós, muitíssimas vezes, a fé dorme. Por isso peçamos-Lhe que nos acorde do sono de uma fé que se sente cansada e restitua à fé o poder de mover os montes, isto é, de conferir a ordem justa às coisas do mundo.
«Excita, Domine, potentiam tuam et veni»: nas grandes angústias, a que nos vimos expostos neste ano, voltou-me sem cessar à mente e aos lábios esta oração de Advento. Com grande alegria, tínhamos começado o Ano Sacerdotal e, graças a Deus, pudemos concluí-lo também com imensa gratidão, apesar de se ter desenrolado muito diversamente de como o tínhamos esperado. Em nós, sacerdotes, e nos leigos – concretamente nos jovens – renovou-se a consciência do grande dom que representa o sacerdócio da Igreja Católica, que nos foi confiado pelo Senhor. De novo nos demos conta de como é belo que seres humanos estejam autorizados a pronunciar, em nome de Deus e com pleno poder, a palavra do perdão, tornando-se assim capazes de mudar o mundo, a vida; como é belo que seres humanos estejam autorizados a pronunciar as palavras da consagração, pelas quais o Senhor atrai para dentro de Si um pedaço de mundo, e assim, num determinado lugar, transforma-o na sua substância; como é belo poder estar, com a força do Senhor, junto dos homens nas suas alegrias e sofrimentos, tanto nas horas importantes como nas horas negras da existência; como é belo ter na vida por missão não esta pessoa ou aquela, mas pura e simplesmente o ser mesmo do homem, procurando ajudar para que se abra a Deus e viva a partir de Deus. Com tal consciência, ainda mais atónitos ficámos quando, precisamente neste ano e numa dimensão que não podíamos imaginar, tivemos conhecimento de abusos contra os menores cometidos por sacerdotes, que desvirtuam o Sacramento no seu contrário, sob o manto do sagrado ferem profundamente a pessoa humana na sua infância e causam-lhe um dano para a vida inteira.
Neste contexto, veio-me à mente uma visão de Santa Hildegarda de Bingen, que descreve de modo impressionante o que vivemos neste ano. «No ano de 1170 depois do nascimento de Cristo, estive durante longo tempo doente na cama. Então, física e mentalmente acordada, vi uma mulher de uma beleza tal que a mente humana não é capaz de compreender. A sua figura erguia-se da terra até ao céu. O seu rosto brilhava com um esplendor sublime. O seu olhar estava voltado para o céu. Trajava um vestido luminoso e fulgurante de seda branca e uma manto guarnecido de pedras preciosas. Nos pés, calçava sapatos de ónix. Mas o seu rosto estava salpicado de pó, o seu vestido estava rasgado do lado direito. Também o manto perdera a sua beleza singular e os seus sapatos estavam sujos por cima. Com voz alta e pesarosa, a mulher gritou para o céu: “Escuta, ó céu: o meu rosto está manchado! Aflige-te, ó terra: o meu vestido está rasgado! Treme, ó abismo: os meus sapatos estão sujos!”
E continuou: “Estava escondida no coração do Pai, até que o Filho do Homem, concebido e dado à luz na virgindade, derramou o seu sangue. Com este sangue por seu dote, tomou-me como sua esposa.
Os estigmas do meu esposo mantêm-se em chaga fresca e aberta, enquanto se abrirem as feridas dos pecados dos homens. Este facto de permanecerem abertas as feridas de Cristo é precisamente por culpa dos sacerdotes. Estes rasgam o meu vestido, porque são transgressores da Lei, do Evangelho e do seu dever sacerdotal. Tiram o esplendor ao meu manto, porque descuidam totalmente os preceitos que lhes são impostos. Sujam os meus sapatos, porque não caminham por estradas direitas, isto é, pelas estradas duras e severas da justiça, nem dão bom exemplo aos seus súbditos. Em alguns deles, porém, encontro o esplendor da verdade”.
E ouvi uma voz do céu que dizia: “Esta imagem representa a Igreja. Por isso, ó ser humano que vês tudo isto e ouves as palavras de lamentação, anuncia-o aos sacerdotes que estão destinados à guia e à instrução do povo de Deus, tendo-lhes sido dito, como aos apóstolos: ‘Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura’ (Mc 16, 15)”» (Carta a Werner von Kirchheim e à sua comunidade sacerdotalPL 197, 269ss).
Na visão de Santa Hildegarda, o rosto da Igreja está coberto de pó, e foi assim que nós o vimos. O seu vestido está rasgado, por culpa dos sacerdotes. Como ela o viu e expressou, assim nós o vimos neste ano. Devemos acolher esta humilhação como uma exortação à verdade e um apelo à renovação. Só a verdade salva. Devemos interrogar-nos sobre o que podemos fazer para reparar o mais possível a injustiça sucedida. Devemos perguntar-nos o que estava errado no nosso anúncio, em todo o nosso modo de configurar o ser cristão, para que pudesse acontecer semelhante coisa. Devemos encontrar uma nova determinação na fé e no bem. Devemos ser capazes de penitência. Devemos esforçar-nos por tentar tudo o possível, na preparação para o sacerdócio, a fim de que uma tal coisa não possa voltar a acontecer. Este é também o lugar para agradecer de coração a todos quantos se empenham por ajudar as vítimas e suscitar neles de novo a confiança na Igreja, a capacidade de acreditar na sua mensagem. Nos meus encontros com as vítimas deste pecado, sempre encontrei também pessoas que, com grande dedicação, estão ao lado de quem sofre e foi lesado. Esta é a ocasião para agradecer também a tantos bons sacerdotes que transmitem, humilde e fielmente, a bondade do Senhor e, no meio das devastações, são testemunhas da beleza não perdida do sacerdócio.
Estamos cientes da particular gravidade deste pecado cometido por sacerdotes e da responsabilidade que nos cabe. Mas não podemos deixar de falar também sobre o contexto do nosso tempo que é testemunha destes acontecimentos. Existe um mercado da pornografia que envolve as crianças, e que de algum modo parece ser considerado cada vez mais pela sociedade como algo normal. A devastação psicológica de crianças, na qual pessoas humanas são reduzidas a um artigo de mercado, é um terrível sinal dos tempos. Continuo a ouvir, de Bispos de países do Terceiro Mundo, que o turismo sexual está a ameaçar toda uma geração e danificá-la na sua liberdade e na sua dignidade humana. O Apocalipse de São João menciona entre os grandes pecados de Babilónia – símbolo das grandes cidades irreligiosas do mundo – o facto de comercializar os corpos e as almas, fazendo deles uma mercadoria (cf. Ap 18, 13). Neste contexto, coloca-se também o problema da droga, que estende fortemente os seus tentáculos como um polvo por todo o globo terrestre – eloquente expressão da ditadura do dinheiro que perverte o homem. Todo o prazer se torna insuficiente e o excesso no engano da alucinação torna-se uma violência que dilacera regiões inteiras, e isto em nome de um equívoco fatal da liberdade, no qual a própria liberdade do homem acaba minada e por fim completamente anulada.
Para nos opormos a estas forças, devemos lançar um olhar sobre os seus alicerces ideológicos. Nos anos Setenta, teorizou-se sobre a pedofilia como sendo algo totalmente consentâneo ao homem e também à criança. Mas isto fazia parte duma perversão fundamental do conceito de vida moral. Defendia-se – mesmo no âmbito da teologia católica – que o mal em si e o bem em si não existiriam. Haveria apenas um «melhor que» e um «pior que». Nada seria em si mesmo bem ou mal; tudo dependeria das circunstâncias e do fim pretendido. Segundo os fins e as circunstâncias, tudo poderia ser bem ou então mal. A moral é substituída por um cálculo das consequências, e assim deixa de existir. Os efeitos de tais teorias são, hoje, evidentes. Contra elas, o Papa João Paulo II, na sua Encíclica Veritatis splendor de 1993, com vigor profético apontou na grande tradição racional da vida moral cristã as bases essenciais e permanentes do agir moral. Hoje, deve-se colocar de novo no centro este texto como caminho na formação da consciência. É nossa responsabilidade tornar de novo audíveis e compreensíveis entre os homens estes critérios como caminhos da verdadeira humanidade, no contexto de preocupação pelo homem em que estamos imersos.
Como segundo ponto, quero dizer uma palavra sobre o Sínodo das Igrejas do Médio Oriente. Teve início com a minha viagem a Chipre, onde pude entregar o Instrumentum laboris do Sínodo aos Bispos daqueles países lá reunidos. Inesquecível foi a hospitalidade da Igreja Ortodoxa, que pudemos experimentar imensamente agradecidos. Embora ainda não nos tenha sido concedida a plena comunhão, todavia constatámos com alegria que a forma basilar da Igreja antiga nos une profundamente uns aos outros: o ministério sacramental dos Bispos enquanto portador da tradição apostólica, a leitura da Escritura segundo a hermenêutica daRegula fidei, a compreensão da Escritura na unidade multiforme centrada em Cristo desenvolvida graças à inspiração de Deus e, por fim, a fé na centralidade da Eucaristia na vida da Igreja. Assim encontrámos ao vivo a riqueza dos ritos da Igreja antiga mesmo dentro da Igreja Católica. Tivemos liturgias com Maronitas e Melquitas, celebrámos em rito latino e tivemos momentos de oração ecuménica com os Ortodoxos e pudemos ver, em manifestações imponentes, a rica cultura cristã do Oriente cristão. Mas vimos também o problema do país dividido. Tornavam-se visíveis culpas do passado e feridas profundas, mas também o desejo de paz e de comunhão como existiram antes. Todos estamos cientes do facto de que a violência não traz qualquer progresso; de facto, foi ela que criou a situação actual. Só com o acordo e a compreensão mútua se pode restabelecer a unidade. Preparar a gente para esta atitude de paz é uma missão essencial da pastoral.
Depois, no Sínodo, o olhar alargou-se sobre todo o Médio Oriente, onde convivem fiéis pertencentes a religiões diversas e também a variadas tradições e diferentes ritos. No caso dos cristãos, há as Igrejas pré-calcedónias e as calcedónias; Igrejas em comunhão com Roma e outras que estão fora desta comunhão, e em ambas existem, um ao lado do outro, variados ritos. Nos tumultos dos últimos anos, foi abalada a história de partilha, as tensões e as divisões cresceram, de tal modo que somos testemunhas sempre de novo e com terror de actos de violência nos quais se deixou de respeitar aquilo que para o outro é sagrado, e, pior ainda, desmoronam-se as regras mais elementares da humanidade. Na situação actual, os cristãos são a minoria mais oprimida e atormentada. Durante séculos, viveram pacificamente juntos com os seus vizinhos judeus e muçulmanos. No Sínodo, ouvimos palavras sábias do Conselheiro do Mufti da República do Líbano contra os actos de violência aos cristãos. Ele dizia: com o ferimento dos cristãos, acabamos feridos nós próprios. Infelizmente, porém, esta e análogas vozes da razão, pelas quais nos sentimos profundamente agradecidos, são demasiado débeis. Também aqui o obstáculo é a ligação entre avidez de lucro e cegueira ideológica. Com base no espírito da fé e na sua razoabilidade, o Sínodo desenvolveu um grande conceito do diálogo, do perdão, do acolhimento recíproco; conceito esse, que agora queremos gritar ao mundo. O ser humano é um só e a humanidade é uma só. Aquilo que é feito em qualquer lugar contra o homem, no fim fere a todos. Assim, as palavras e os pensamentos do Sínodo devem ser um forte brado, dirigido a todas as pessoas com responsabilidade política ou religiosa, para que detenham a cristianofobia; para que se levantem em defesa dos prófugos e dos atribulados e na revitalização do espírito da reconciliação. Em última análise, a regeneração só pode vir de uma fé profunda no amor reconciliador de Deus. Fortalecer esta fé, alimentá-la e fazê-la resplandecer é a missão principal da Igreja nesta hora.
Deter-me-ia de bom grado a falar detalhadamente da inesquecível viagem à Grã-Bretanha, mas quero limitar-me a dois pontos que estão relacionados com o tema da responsabilidade dos cristãos neste tempo e com a missão eclesial de anunciar o Evangelho. Recordo, antes de mais nada, o encontro com o mundo da cultura na Westminster Hall, um encontro onde a consciência da responsabilidade comum neste momento histórico suscitou grande atenção, que em última análise se concentrou na questão acerca da verdade e da própria fé. Que, neste debate, a Igreja deve prestar a própria contribuição, era evidente para todos. No seu tempo, Alexis de Tocqueville observara que, na América, a democracia se tornara possível e funcionara, porque existia um consenso moral de base que, ultrapassando as diversas denominações, a todos unia. Só se houver um tal consenso acerca do essencial é que podem funcionar as constituições e o direito. Este consenso de fundo proveniente do património cristão está em perigo sempre que no seu lugar, no lugar da razão moral, entra a mera racionalidade dos fins, de que há pouco falei. Combater contra esta cegueira da razão e manter-lhe a capacidade de ver o essencial, de ver Deus e o homem, aquilo que é bom e o que é verdadeiro, é o interesse comum que deve unir todos os homens de boa vontade. Está em jogo o futuro do mundo.
Por fim, queria ainda recordar a beatificação do Cardeal John Henry Newman. Por que motivo foi beatificado? Que tem ele a dizer-nos? A estas perguntas podem-se dar muitas respostas, que foram desenvolvidas no contexto da beatificação. Quero destacar apenas dois aspectos que estão interligados e, no fim de contas, exprimem a mesma coisa. O primeiro é que devemos aprender das três conversões de Newman, porque são passos de um caminho espiritual que nos interessa a todos. Aqui desejo pôr em evidência apenas a primeira: a conversão à fé no Deus vivo. Até àquele momento, Newman pensava como a média dos homens do seu tempo e como a média dos homens também de hoje, que não excluem pura e simplesmente a existência de Deus, mas consideram-na em todo o caso como algo incerto, que não tem qualquer função essencial na própria vida. Como verdadeiramente real apresentava-se-lhe, a ele como aos homens do seu e do nosso tempo, o empírico, aquilo que se pode materialmente agarrar. Esta é a «realidade» segundo a qual nos orientamos. O «real» é aquilo que se pode agarrar, são as coisas que se podem calcular e pegar na mão. Na sua conversão, Newman reconhece precisamente que as coisas estão ao contrário: Deus e a alma, o próprio ser do homem a nível espiritual constituem aquilo que é verdadeiramente real, aquilo que conta. São muito mais reais que os objectos palpáveis. Esta conversão significa uma viragem copernicana. Aquilo que até então lhe apareceu irreal e secundário, revela-se agora como a realidade verdadeiramente decisiva. Onde se dá uma tal conversão, não é simplesmente um teoria que é mudada; muda a forma fundamental da vida. De tal conversão todos nós temos incessante necessidade: então estaremos no recto caminho.
Em Newman, a forma motriz que impelia pelo caminho da conversão era a consciência. Com isto, porém, que se entende? No pensamento moderno, a palavra «consciência» significa que, em matéria de moral e de religião, a dimensão subjectiva, o indivíduo, constitui a última instância de decisão. O mundo é repartido pelos âmbitos do objectivo e do subjectivo. Ao objectivo pertencem as coisas que se podem calcular e verificar através da experiência. Uma vez que a religião e a moral se subtraem a estes métodos, são consideradas como âmbito do subjectivo. Aqui não haveria, em última análise, critérios objectivos. Por isso a última instância que aqui pode decidir seria apenas o sujeito; e é isto precisamente o que se exprime com a palavra «consciência»: neste âmbito, pode decidir apenas o indivíduo, o individuo com as suas intuições e experiências. A concepção que Newman tem da consciência é diametralmente oposta. Para ele, «consciência» significa a capacidade de verdade do homem: a capacidade de reconhecer, precisamente nos âmbitos decisivos da sua existência – religião e moral -, uma verdade, a verdade. E, com isto, a consciência, a capacidade do homem de reconhecer a verdade, impõe-lhe, ao mesmo tempo, o dever de se encaminhar para a verdade, procurá-la e submeter-se a ela onde quer que a encontre. Consciência é capacidade de verdade e obediência à verdade, que se mostra ao homem que procura de coração aberto. O caminho das conversões de Newman é um caminho da consciência: um caminho não da subjectividade que se afirma, mas, precisamente ao contrário, da obediência à verdade que pouco a pouco se abria para ele. A sua terceira conversão, a conversão ao Catolicismo, exigia-lhe o abandono de quase tudo o que lhe era caro e precioso: os seus haveres e a sua profissão, o seu grau académico, os laços familiares e muitos amigos. A renúncia que a obediência à verdade, a sua consciência, lhe pedia, ia mais além ainda. Newman sempre estivera consciente de ter uma missão para a Inglaterra. Mas, na teologia católica do seu tempo, dificilmente podia ser ouvida a sua voz. Era demasiado alheia à forma dominante do pensamento teológico e mesmo da devoção. Em Janeiro de 1863, escreveu no seu diário estas palavras impressionantes: «Como protestante, a minha religião parecia-me miserável, mas não a minha vida. E agora, como católico, a minha vida é miserável, mas não a minha religião». Não chegara ainda a hora da sua eficácia. Na humildade e na escuridão da obediência, ele teve de esperar até que a sua mensagem fosse utilizada e compreendida. Para poder afirmar a identidade entre o conceito que Newman tinha da consciência e a noção subjectiva moderna da consciência, comprazem-se em fazer referência à sua palavra, segundo a qual ele – no caso de ter de fazer um brinde – teria brindado primeiro à consciência e depois ao Papa. Mas, nesta afirmação, «consciência» não significa a obrigatoriedade última da intuição subjectiva; é a expressão da acessibilidade e da força vinculadora da verdade: nisto se funda o seu primado. Ao Papa pode ser dedicado o segundo brinde, porque a sua missão é exigir a obediência à verdade.
Tenho de renunciar a falar das viagens tão significativas a Malta, a Portugal e à Espanha. Nelas, de novo se tornou visível que a fé não é uma realidade do passado, mas um encontro com o Deus que vive e actua agora. Ele chama-nos em causa e opõe-se à nossa preguiça, mas é precisamente assim que nos abre a estrada para a verdadeira alegria.
«Excita, Domine, potentiam tuam et veni». Começámos pela invocação da presença da força de Deus no nosso tempo e pela experiência da sua aparente ausência. Se abrirmos os nossos olhos, precisamente com um olhar retrospectivo sobre o ano que caminha para o seu termo, é possível ver que a força e a bondade de Deus estão presentes de variadas maneiras também hoje. Assim todos nós temos motivos para Lhe dar graças. Com o agradecimento ao Senhor, renovo a minha gratidão a todos os colaboradores. Oxalá Deus nos dê a todos um Santo Natal e nos acompanhe com a sua bondade no próximo ano.
Confio estes votos à intercessão da Vigem Santa, Mãe do Redentor, e de coração concedo a todos vós e à grande família da Cúria Romana a Bênção Apostólica. Feliz Natal!

NOVO LIVRO DO PAPA BENTO XVI

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“Luce del mondo. Il Papa, la Chiesa e i segni dei tempi” (Luz do mundo. O Papa, a Igreja e os sinais dos tempos, em livre tradução) é o título com o qual está para ser publicado o livro que recolhe as conversas de Bento XVI com o jornalista e escritor alemão Peter Seewald.

A nova obra, editada em italiano pela Libreria Editrice Vaticana, será publicada ao mesmo tempo em outras línguas, nesta terça-feira, 23. Nos 18 capítulos que a compõe, agrupados em três partes – “Os sinais dos tempos”, “O pontificado”, “Para onde caminhamos” -, o Papa responde às mais acoloradas questões do mundo de hoje. Do livro, antecipamos alguns trechos.

A alegria do cristianismo
Toda a minha vida foi sempre atravessada por um fio condutor, este: o cristianismo dá alegria, amplia os horizontes. Definitivamente, uma existência vivida sempre e sobretudo a partir do “contra” seria insuportável.

Um mendigo
Naquilo que diz respeito ao Papa, também ele é um pobre mendigo diante de Deus, ainda mais dos outros homens. Naturalmente rezo, antes de tudo, sempre ao Senhor, ao qual sou ligado, por assim dizer, por antiga amizade. Mas invoco também os santos. Sou muito amigo de Agostinho, de Boaventura e de Tomás de Aquino. A eles, portanto, digo: “Ajuda-me!”. A Mãe de Deus, então, é sempre um grande ponto de referência. Nesse sentido, insiro-me na Comunhão dos Santos. Juntamente com eles, reforçado por eles, falo também com o Deus bom, sobretudo mendigando, mas também agradecendo; ou contente, simplesmente.

Capa do novo livro sobre o Papa Bento XVIAs dificuldades
Tinha levado isso em conta.  Mas, antes de tudo, devemos ser muito cuidadosos com a avaliação de um Papa, significativo ou não, quando ele ainda está vivo. Somente em um segundo momento se pode reconhecer qual lugar, na história em seu conjunto, tem uma determinada coisa ou pessoa. Mas que a atmosfera não seria sempre alegre era evidente, levando-se em conta a atual constelação mundial, com todas as forças de destruição que existem, com todas as contradições que nela vivem, com todas as ameaças e erros. Se eu tivesse continuado a receber sobretudo elogios, eu realmente deveria perguntar se estaria verdadeiramente anunciando todo o Evangelho.

O choque dos abusos
Os fatos não me causaram surpresa por completo. Na Congregação para a Doutrina da Fé, ocupei-me dos casos americanos; tinha visto também delinear-se a situação na Irlanda. Mas as dimensões, no entanto, foram um choque enorme. Desde a minha eleição à Sé de Pedro, havia repetidamente encontrado vítimas de abusos sexuais. Três anos e meio atrás, em outubro de 2006, em um discurso aos bispos irlandeses, havia pedido a eles “estabelecer a verdade acerca daquilo que havia acontecido no passado, tomar todos os atos necessários para que não se repetissem no futuro, assegurar que os princípios de justiça fossem plenamente respeitados e, sobretudo, curar as vítimas e todos aqueles que foram atingidos por esses crimes abomináveis”.

Ver o sacerdócio, de repente, manchado dessa maneira e, com isso, a própria Igreja Católica, foi difícil de suportar. Naquele momento, era importante, no entanto, não desviar o olhar do fato de que, na Igreja, o bem existe, e não sobretudo essas coisas terríveis.

Os mídia e os abusos
Era evidente que a ação dos mídia não seria guiada somente pela pura busca da verdade, mas que fosse também um prazer colocar a Igreja na berlinda e, se possível, desacreditá-la. E, todavia, era necessário que isto ficasse claro: desde que se trate de trazer luzes à verdade, devemos ser gratos. A verdade, unida ao amor entendido corretamente, é o valor número um. E, então, os mídia não teriam podido oferecer aqueles relatório se na própria Igreja o mal não existisse. Somente porque o mal estava dentro da Igreja, os outros puderam voltá-lo contra ela.

O progresso
Emerge a problemática do termo “progresso”. A modernidade procurou a sua estrada guiada pela ideia de progresso e de liberdade. Mas o que é o progresso? Hoje, vemos que o progresso pode ser também destrutivo. Por isso, devemos refletir sobre os critérios a adotar a fim de que o progresso seja verdadeiramente progresso.

Um exame de consciência
Para além de simples planos financeiros, um exame de consciência global é absolutamente inevitável. E a isso a Igreja procurou contribuir com a Encíclica Caritas in veritate. Não dá resposta a todos os problemas. Deseja ser um passo adiante para olhar as coisas a partir de outro ponto de vista, que não seja sobretudo aquele da factibilidade e do sucesso, mas do ponto de vista segundo o qual existe uma normatividade do amor pelo próximo que se orienta à vontade de Deus e não sobretudo aos nossos desejos. Nesse sentido, deveriam ser dados os impulsos para que realmente aconteça uma transformação das consciências.

A verdadeira intolerância
A verdadeira ameaça frente à qual nos encontramos é que a tolerância seja abolida em nome da própria tolerância. É o perigo de que a razão, a assim chamada razão ocidental, sustente ter finalmente reconhecido aquilo que é justo e avance assim a uma pretensão de totalidade que é inimiga da liberdade. Creio que é necessário denunciar com força essa ameaça. Ninguém é constrangido a ser cristão. Mas ninguém deve ser constrangido a viver segundo a “nova religião”, como se fosse a única e verdadeira, vinculante para toda a humanidade.

Mesquitas e burca
Os cristãos são tolerantes e, enquanto tal, permitem aos outros a sua peculiar compreensão de si. Alegramo-nos pelo fato de que, nos países do Golfo Árabe (Qatar, Abu Dhabi, Dubai, Quwait), há igrejas nas quais os cristãos podem celebrar a Missa, e esperamos que isso aconteça em todos os lugares. Por isso, é natural que também nós defendamos que os muçulmanos possam reunir-se em oração nas mesquitas.
Papa Bento com o jornalista e escritor alemão Peter Seewald

No que diz respeito à burca, não vejo razão para uma proibição generalizada. Diz-se que algumas mulheres não a usam voluntariamente, e que, na realidade, há uma espécie de violência imposta nisso. É claro que, com isso, não se pode estar de acordo. Se, no entanto, se desejasse usá-la voluntariamente, não vejo por que deveríamos impedi-lo.

Cristianismo e modernidade
O ser cristão traz em si algo de vivo, de moderno, que atravessa, formando-a e plasmando-a, toda a minha modernidade, e que, portanto, em um certo sentido, verdadeiramente a abraça.

Aqui é necessária uma grande luta espiritual, como desejei mostrar com a recente instituição de um “Pontifício Conselho para a nova evangelização”. É importante que busquemos viver e pensar o Cristianismo de modo tal que assuma a modernidade boa e justa, e, portanto, ao mesmo tempo, afaste-se e distinga-se daquilo que está se tornando uma contra-religião.

Otimismo
Se poderia pensar olhando com superficialidade e restringindo o horizonte ao mundo somente ocidental. Mas, se se observa com mais atenção – e é aquilo que me é possível fazer graças às visitas dos bispos de todo o mundo e também através de tantos outros encontros -, percebe-se que o cristianismo, neste momento, está desenvolvendo também uma criatividade de todo nova […].

A burocracia foi consumada e estancada. São iniciativas que nascem a partir do interior, da alegria dos jovens. O cristianismo, talvez, assumirá um rosto novo, talvez também um aspecto cultural diverso. O cristianismo não determina a opinião pública mundial, outros são a guia. E, todavia, o cristianismo é a força vital sem a qual também as outras coisas não poderiam continuar a existir. Por isso, com base naquilo que vejo e posso fazer experiência pessoal, sou muito otimista com relação ao fato de que o cristianismo encontre-se frente a uma dinâmica nova.

A droga
Tantos bispos, sobretudo aqueles da América Latina, dizem que, lá onde passa a estrada do cultivo e do comércio da droga – e isso acontece em grande parte daqueles países –, é como se um animal monstruoso e cativo estendesse a sua mão sobre aquele país para arruinar as pessoas. Creio que esta serpente do comércio e do consumo de droga que envolve o mundo seja um poder sobre o qual nem sempre chegamos a fazer uma ideia adequada. Destrói os jovens, destrói as famílias, leva à violência e ameaça o futuro de nações inteiras.

Também essa é uma terrível responsabilidade do Ocidente: tem necessidade de drogas e, assim, cria países que lhe forneçam aquilo que, então, terminará por consumi-los e destruí-los. Surgiu uma fome de felicidade que não pode saciar-se com aquilo que possui; e que, então, refugia-se, por assim dizer, no paraíso do diabo e destrói completamente o homem.

Na vinha do SenhorCom efeito, eu tinha um papel de liderança, mas nunca fiz nada sozinho e trabalhei sempre em equipe; assim como um dos muitos trabalhadores na vinha do Senhor, que provavelmente fez o trabalho preparatório, mas ao mesmo tempo é aquele que não é feito para ser o primeiro e assumir a responsabilidade por tudo. Entendi que, ao lado dos grandes Papas, devem estar também Pontífices pequenos que dão sua própria contribuição. Assim, naquele momento, eu disse aquilo que senti realmente […].

O Concílio Vaticano II ensinou-nos, com razão, que a estrutura da Igreja é constituída pela colegialidade; ou seja, o fato de que o Papa é o primeiro na partilha e não um monarca absoluto, que toma decisões sozinho e faz tudo por si só.

O judaísmo
Sem dúvidas. Devo dizer que desde o primeiro dia dos meus estudos teológicos ficou de algum modo clara a profunda unidade entre a Antiga e a Nova Aliança, entre as duas partes da nossa Sagrada Escritura. Compreendi que poderíamos ler o Novo Testamento somente em conjunto com aquilo que o precedeu, caso contrário não o teríamos compreendido. Então, naturalmente, tudo quanto aconteceu no Terceiro Reich atingiu-nos como alemães e tanto mais levou-nos a olhar para o Povo de Israel com humildade, vergonha e amor.

Na minha formação teológica, essas coisas foram interligadas e marcaram o caminho do meu pensamento teológico. Então ficou claro para mim – e também aqui em total continuidade com João Paulo II – que, no meu anúncio da fé cristã, devia ser fundamental essa nova conexão, amorosa e compreensiva, entre Israel e a Igreja, baseada no respeito ao modo de ser de cada um e da sua respectiva missão […].

No entanto, nesse ponto, também na antiga liturgia pareceu-me necessário uma mudança. Na verdade, a fórmula era tal que feria verdadeiramente os judeus e, certamente, não expressava de forma positiva a grande, profunda unidade entre o Antigo e o Novo Testamento.

Por esse motivo,  pensei que, na liturgia antiga, fosse necessária uma modificação, em particular, como eu disse, em referência ao nosso relacionamento com nossos amigos judeus. Modifiquei-a de modo tal que permanecesse contida a nossa fé, que Cristo é a salvação para todos. Não existem dois caminhos de salvação e, portanto, Cristo é também o Salvador dos judeus, e não apenas dos pagãos. Mas, também de modo tal que não se rezasse diretamente pela conversão dos judeus em um sentido missionário, mas para que o Senhor apresse o tempo da hora histórica em que todos seremos unidos. Por essa razão, os argumentos utilizados por uma série de teólogos polemicamente contra mim foram irresponsáveis e não fazem justiça ao que foi feito.

Pio XII
Papa Pio XIIPio XII fez todo o possível para salvar pessoas. Naturalmente nós podemos sempre perguntar: “Por que não protestou de maneira mais explícita?”. Creio que havia compreendido quais seriam as consequências de um protesto público. Sabemos que, devido a essa situação, pessoalmente sofreu muito. Sabia que, por si mesmo, deveria falar, mas a situação impedia-o.

Agora, pessoas mais razoáveis reconhecem que Pio XII salvou muitas vidas, mas argumentam que ele tinha ideias antiquadas sobre os judeus e que não estava à altura do Concílio Vaticano II. O problema, no entanto, não é esse. O importante é o que ele fez e o que tentou fazer, e creio que é preciso verdadeiramente reconhecer que era apenas um dos grandes justos e, como nenhum outro, salvou tantos e tantos judeus.

A sexualidade
Concentrar-se somente no preservativo significa banalizar a sexualidade, e essa banalização é precisamente a perigosa razão pela qual tantas e tantas pessoas não veem na sexualidade mais a expressão do seu amor, mas apenas uma espécie de droga, que administram por si só. Por isso, também a luta contra a banalização da sexualidade é parte do grande esforço para que a sexualidade seja valorizada positivamente e possa exercer o seu efeito positivo sobre o ser humano em sua totalidade.

Pode haver casos individuais justificados, por exemplo, quando uma prostituta usa um preservativo, e esse pode ser o primeiro passo rumo a uma moralização, uma primeiro ato de responsabilidade para desenvolver de novo a consciência do fato de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer. No entanto, essa não é a maneira verdadeira e adequada para vencer a infecção do HIV. É verdadeiramente necessária uma humanização da sexualidade.

A Igreja
Paulo, assim, não entendia a Igreja como instituição, como organização, mas como organismo vivo, no qual todos operam para o outro e um com o outro, sendo unidos a partir de Cristo. É uma imagem, mas uma imagem que conduz em profundidade e que é muito realista também somente pelo fato de que nós cremos que, na Eucaristia, verdadeiramente recebemos Cristo, o Ressuscitado. Se todos recebem o mesmo Cristo, então verdadeiramente nós todos somos reunidos neste novo corpo ressuscitado como o grande espaço de uma nova humanidade. É importante compreender isso, e, portanto, compreender a Igreja não como um aparato que deve fazer de tudo – embora o aparato pertença a ela, embora dentro dos limites –, mas antes como organismo vivente que provém do próprio Cristo.

A Humanae vitae
As perspectivas da Humanae vitae permanecem válidas, mas outra coisa é encontrar estradas humanamente percorríveis. Creio que serão sempre das minorias intimamente persuadidas pela justeza daquelas perspectivas e que, vivendo-as, ficam plenamente satisfeitas, de modo a tornar-se para outros fascinantes modelos a se seguir. Somos pecadores. Mas não devemos assumir esse fato como instância contra a verdade, quando aquela moral elevada não é vivida. Devemos procurar fazer todo o bem possível, e apoiarmo-nos e suportarmo-nos mutuamente. Expressar tudo isso também do ponto de vista pastoral, teológico e conceitual no contexto da atual sexologia e da pesquisa antropológica é uma grande tarefa para a qual devemos nos dedicar mais e melhor.

As mulheres
A formulação de João Paulo II é muito importante: “A Igreja não tem, de nenhum modo, a faculdade de conferir às mulheres a ordenação sacerdotal”. Não se trata de não desejar, mas de não poder. O Senhor deu uma forma à Igreja com os Doze e, então, com a sua sucessão, com os bispos e presbíteros (os sacerdotes). Não fomos nós que criamos esta forma da Igreja, mas é constitutiva a partir d’Ele. Segui-la é um ato de obediência, na situação atual talvez um dos atos de obediência mais pesados. Mas exatamente isso é importante, que a Igreja mostre não ser um regime arbitrário. Não podemos fazer aquilo que desejamos. Há, ao invés, uma vontade do Senhor para nós, à qual aderimos, também se isso é cansativo e difícil na cultura e na civilização de hoje.

Por outro lado, as funções confiadas às mulheres da Igreja são tão grandes e significativas que não se pode falar de discriminação. Seria assim se o sacerdócio fosse uma espécie de domínio, enquanto, ao contrário, deve ser completamente serviço. Se se dá uma olhada à história da Igreja, então se percebe que o significado das mulheres – de Maria a Mônica até Madre Teresa de Calcutá – é tão proeminente que, de muitas maneiras, as mulheres definem o rosto da Igreja mais do que os homens.

Os novíssimos
É uma questão muito séria. A nossa pregação, o nosso anúncio efetivamente é amplamente orientado, de modo unilateral, à criação de um mundo melhor, enquanto o mundo realmente melhor quase não é mais mencionado. Aqui devemos fazer um exame de consciência.

Claro, nós tentamos conversar com o público, dizendo-lhes o que está em nosso horizonte. Mas a nossa missão é, ao mesmo tempo, romper esse horizonte, ampliá-lo, e olhar as coisas últimas.

Os novíssimos (as últimas coisas) são como pão duro para os homens de hoje. Eles parecem irreais. Gostariam de colocar em seu lugar respostas concretas para o hoje, soluções para as tribulações cotidianas. Mas são respostas que ficam pela metade se também não permitem apresentar e reconhecer que eu me estendo para além desta vida material, que há um julgamento, e que há graça e eternidade. Nesse sentido, devemos também encontrar novas palavras e formas para permitir que o homem quebre a barreira de som do finito.

A vinda de Cristo
É importante que, em toda a época, esteja junto o Senhor. Que também nós mesmos, aqui e agora, estamos sob o juízo do Senhor e nos deixamos julgar pelo seu tribunal. Discutia-se acerca de uma dúplice vinda de Cristo, uma em Belém e uma no final dos tempos, até quando São Bernardo de Claraval falou de um Adventus medius, de uma vinda intermediária, através da qual Ele periodicamente entra na história.

Creio que tenha compreendido a tonalidade justa. Nós não podemos estabelecer quando o mundo acabará. Cristo mesmo disse que ninguém o sabe, nem mesmo o Filho. Devemos, no entanto, permanecer, por assim dizer, sempre permanecer esperando a sua vinda e, sobretudo, estarmos certos de que, nas dores, Ele está perto. Ao mesmo tempo, devemos saber que, pelas nossas ações, estamos sob o seu juízo.

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Nota da Sala de Imprensa da Santa Sé sobre a polêmica envolvendo as palavras do Papa Bento XVI sobre a camisinha.

Ao fim do capítulo décimo do livro Luz do mundo, o Papa responde a duas questões sobre o combate à AIDS e o uso de camisinhas, questões que remontam a discussões que seguiram algumas palavras ditas pelo Papa a respeito no curso de sua viagem à África, em 2009.
O Papa claramente reafirma que não pretendeu [em 2009] tomar uma posição sobre o problema das camisinhas em geral, mas simplesmente quis afirmar firmemente que o problema da AIDS não pode ser resolvido somente com a distribuição de camisinhas, pois muito mais tem de ser feito: prevenção, educação, auxílio, conselho, estar próximo das pessoas — tanto para que não se adoentem, mas também quando estão doentes.
O Papa observou que mesmo em meios não eclesiais há semelhante consciência, como ocorre com o chamado método “ABC” (abstinência – fidelidade – camisinhas), no qual os dois primeiros elementos (abstinência e fidelidade) são muito mais determinantes e fundamentais para a luta contra a AIDS, ao passo que a camisinha, em última análise, aparece como um atalho quando os outros dois elementos estão ausentes. Deve ficar claro, portanto, que a camisinha não é a solução do problema.
O Papa então amplia o foco, insistindo que concentrar-se apenas na camisinha é equivalente a tornar a sexualidade algo banal, perdendo seu sentido como uma expressão de amor entre pessoas, e tornando-a uma espécie de “droga”. Combater a banalização da sexualidade é “parte de um grande esforço para ver que a sexualidade é posivitamente compreendida, e pode exercer seus efeitos positivos na pessoa humana em sua totalidade”.
À luz desta ampla e profunda visão da sexualidade humana, e seus desafios modernos, o Papa reafirma que “naturalmente, a Igreja não considera a camisinha como uma solução autêntica e moral” ao problema da AIDS.
Logo, o Papa não está reformando ou mudando o ensinamento da Igreja, mas reafirmando-o, ao colocá-lo em um contexto do valor e da dignidade da sexualidade humana enquanto uma expressão de amor e responsabilidade.
Ao mesmo tempo, o papa considera uma situação excepcional na qual o exercício da sexualidade representa um verdadeiro risco à vida de outrem. Neste caso, o Papa não justifica moralmente o exercício desordenado da sexualidade, mas sustenta que o uso de uma camisinha a fim de diminuir o risco de infecção é “uma primeira hipótese de responsabilidade” e “um primeiro passo em direção a um modo diferente, um modo mais humano, de viver a sexualidade”, em vez de não usar a camisinha e expor a outra pessoa a uma ameaça à sua vida.
Neste sentido, o pensamento do Papa certamente não pode ser definido como uma guinada revolucionária. Numerosos teólogos morais e personalidade eclesiásticas de autoridade sustentaram, e ainda sustentam, posições semelhantes. Todavia, é verdade que, até agora, elas não foram ouvidas com tal clareza da boca de um Papa, mesmo se de forma coloquial, e não magisterial.
Bento XVI, portanto, corajosamente nos dá uma importante contribuição de esclarecimento e aprofundamento de uma questão que há muito é debatida. É uma contribuição original, pois, por um lado, permanece fiel aos princípios morais e demonstra lucidez em rejeitar a “fé na camisinha” como um caminho ilusório; por outro, mostra uma visão compreensiva e ampla, atenta a descobrir os pequenos passos — mesmo se apenas iniciais e ainda confusos — de uma humanidade muitas vezes empobrecida espiritual e culturalmente, em direção a um exercício mais humano e responsável da sexualidade.


Pe. Frederico Lombardi.
Porta-voz da Santa Sé
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