UMA TARDE ESTRANHA

Tiago Bana Franco

Na esquina da Rua Rui Barbosa com a Av. Mato Grosso, um dos locais mais movimentados de Campo Grande, um povo estranho entoava cânticos numa língua morta, desconhecida. Portavam ramos e seguiam um sujeito com capa reluzente e solidéu preto, o qual ainda trazia na mão um madeiro.

Resposta do Pe. Clécio às considerações de D. Roque contra a Missa Tridentina‏


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Dom Aloísio Oppermann e o Rito Romano tradicional

O Arcebispo de Uberaba, Dom Aloísio Roque Oppermann, escreveu mais um artigo sobre o Rito Romano tradicional, hoje chamado de Forma Extraordinária do Rito Romano, publicado no site da CNBB. Tenho algumas observações a fazer, não sem antes acrescentar dois detalhes que poderiam soar desnecessários, mas que me parecem importantes para evitar mal entendidos.

Tenho grande admiração pelo senhor bispo, e digo isto para deixar claro que se pode discordar mesmo de quem se admira. É estranho que discordâncias eventuais sejam entendidas como “declaração de guerra”.

Em segundo lugar, celebro no Rito de Paulo VI, hoje chamado de Forma Ordinária do Rito Romano.

Dito isto, vamos ao artigo do senhor bispo:

Bento XVI teve um gesto ousado ao lançar uma ponte de amizade para os católicos tradicionalistas.  Ao abrir, oficialmente, a possibilidade de celebrar a missa no rito de João XXIII (que foi uma adaptação do rito tridentino para 1962), o intento foi diminuir a distância entre esses tradicionalistas e a Igreja de Roma. Uma vez que esse rito litúrgico foi aberto para todos os católicos, resta-nos buscar – através do bom senso – as regras mínimas de uma sadia adesão  a essa possibilidade celebrativa.

(É verdade que foram os tradicionalistas a pedir a possibilidade de se usar o Missal de João XXIII, mas não pediam para si – uma vez que já o usavam – mas para todos os sacerdotes católicos. Ademais o Papa permitiu seu uso não para agradar aos tradicionalistas – embora o tenha feito – mas para corrigir um erro que denunciava há anos: um Papa não está acima da liturgia multissecular da Igreja; pode “ordenar” seu uso, mas não pode extirpá-la. Quanto às regras mínimas, penso que já estão postas pelo motu próprio “Summorum Pontificum”, que devem sempre ser aplicadas amplamente em benefício dos sacerdotes e dos fiéis, e não restritivamente – favorabilia sunt amplianda, odiosa restringenda.)

Antes de tudo, para quem quiser legitimamente, fazer uso desse rito agora facultado, deve aceitar o valor do Concílio Vaticano II. Os Bispos Católicos, estiveram reunidos nesse magno congraçamento, para analisar a situação da Igreja, e dar as orientações pastorais para os novos tempos. Isso equivale a dizer que, além da missa tridentina, se reconhece a autenticidade da Missa do rito de Paulo VI, oriundo desse Concílio.

(É evidente que se deve exigir de qualquer católico que reconheça o valor do Concílio Vaticano II e do Missal de Paulo VI. Parece-me, entretanto, que se exige mais dos que desejam fazer uso da Liturgia Romana tradicional. Permite-se à esmagadora maioria dos que usam o Missal de Paulo VI rejeitar o Concílio Vaticano II – pois é o que se vê, uma brutal distancia entre o que dizem e o que diz o Concílio – e desrespeitar o próprio Missal de Paulo VI. Penso que chegou a hora de se mudar a direção da toada. Insistir menos com uma ínfima minoria – “aceitem o Concílio e o Missal novo” – e de se voltar à maioria – “aceitem o Concílio e o Missal novo”. Deixemos que a minoria discuta em paz as supostas ambigüidades do Concílio e as carências do Missal de Paulo VI, já que há tantos entre a maioria que ignoram em bloco o Concílio e as rubricas do novo Missal.)

Quem quiser fazer uso da celebração eucarística no rito tridentino, deve reconhecer que o rito normal da Liturgia deve ser aquele proposto pelo Concílio, e aprovado por Paulo VI. Esse rito teve uma evolução longa, a partir do início do século XX, através do Movimento Litúrgico. O Vaticano II incorporou suas reflexões, e tornou oficial uma Liturgia que respeitou todos os séculos da história eclesiástica, e a adaptou para os tempos modernos. Portanto, durante o uso normal dessa liturgia não se devem impor os costumes e símbolos vinculados com o rito de 1962. Devem vigorar os costumes relacionados ao rito de Paulo VI.

(“O rito normal da Liturgia” – o atual – nem foi proposto ou oficializado pelo Concílio, como diz Dom Aloísio, nem teve uma longa evolução. O rito novo é uma criatura nova, posterior ao Concílio, e segundo o Papa atual precisa de uma reforma, que o torne de fato uma “evolução orgânica” dentro da única Liturgia Romana. É pena que Dom Aloísio não especificou a que “costumes e símbolos” do Rito tradicional se refere e que não devem ser impostos ao Rito de Paulo VI.)

É desnecessário dizer que o Papa manda mais do que o Bispo Diocesano. Mas os interessados no rito antigo devem reconhecer que o Bispo Diocesano é o grande liturgo de sua Diocese. Portanto, devem ser evitados os confrontos inúteis com a autoridade diocesana, e trabalhar em união com ele. O rito tridentino não é nenhuma atividade clandestina, mas também deve estar em sintonia fina com o Bispo da Diocese.

(Repito: todos devem reconhecer que o bispo diocesano é o “grande liturgo” de sua diocese – inclusive o próprio bispo. No meu modo de ver, o “grande” deve ser o “servidor”, e como tal deverá ser o primeiro a evitar confrontos inúteis e trabalhar em união com todos.)

Decreto em Jerusalem sobre a Liturgia Tridentina‏



O decreto do Patriarca Latino de Jerusalém, publicado hoje, tem muitos pontos favoráveis à Missa tridentina e alguns pontos contrários. Esses entretanto, francamente, me parecem mais de molde a tranqüilizar os opositores do que a limitar severamente a liturgia “extra”. Senão vejamos:
Sobre o uso da Liturgia segundo a Forma Extraordinária do Rito Romano.
Aos Reverendos Reitores das Basílicas e Santuários
Nas paróquias e capelanias da diocese do Patriarcado Latino, a Eucaristia é sempre celebrada segundo a forma ordinária do Missal Romano aprovado pelo Servo de Deus Papa Paulo VI (1970) e promulgado em 3ª. edição pelo Beato Papa João Paulo II (2000).
Em vista do grande número de basílicas e santuários construídos nos Lugares Santos e abertos ao acolhimento de peregrinos vindos do mundo inteiro, a celebração da Eucaristia segundo a forma extraordinária do Rito Romano permanece sempre excepcional. Ela é consentida somente para os grupos de peregrinos já habituados a empregá-la em seu país. Ela está submetida às normas contidas na Instrução sobre a aplicação da Carta apostólica Summorum Pontificum (30 de abril de 2011), publicada pela Pontifícia Comissão  Ecclesia Dei.
Para o bem espiritual desses peregrinos,
o Patriarca FOUAD TWAL,
Ordinário diocesano,
com o consentimento de seu Conselho Episcopal,
ordena que,
nas basílicas e santuários,
sejam observadas as normas contidas na Instrução, assim como as seguintes:
1. O responsável por uma Basílica ou Santuário, seja reitor ou sacristão, deve se caracterizar pelo espírito de acolhimento, zelo pastoral e prudência.
2. Exigir do padre que pede para celebrar que mostre o documento Celebret, antes de preparar o necessário para a celebração da Eucaristia segundo a forma extraordinária.
3. A nenhum padre é permitido celebrar a Eucaristia segundo a forma extraordinária sem um conhecimento suficiente do rito.
4. O reitor tenha o cuidado de dotar a basílica ou o santuário, que é de sua responsabilidade , o Missal Romano promulgado pelo Beato João XXIII em 1962, o Missal de Pio V não deve ser empregado.
5. O responsável da sacristia de uma basílica ou santuário deve se preocupar em ter à disposição os paramentos adaptados e o material litúrgico requerido para a celebração da Eucaristia segundo a forma extraordinária.
6. É recomendável que em cada basílica ou santuário haja um altar colocado em uma capela lateral que permita a celebração da Eucaristia de costas para o povo.
7. Não sendo admitida a concelebração na forma extraordinária do Rito Romano, para não ocupar o lugar santo por celebrações individuais, os padres peregrinos presentes devem participar à Eucaristia celebrada por um dentre eles.
8. O reitor das basílicas ou santuários não permita administrar os sacramentos do batismo, confirmação e matrimônio sem permissão explícita do Ordinário do lugar; é obrigatório seguir suas diretivas.
9. As cerimônias de ordenação diaconal, presbiteral ou episcopal não serão jamais permitidas sem a aprovação formal escrita do Patriarca de Jerusalém. A desobediência é punida pelas sanções previstas pelo Código de Direito Canônico.
10. Os padres da Fraternidade São Pio X, (conhecidos como lefebvristas) podem celebrar nas basílicas ou santuários na forma privada e sem fazer publicidade de suas iniciativas.
Dado em Jerusalém, em 23 de setembro de 2011.
+ Fouad Twal
Patriarca latino de Jerusalém
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Tradução Montfort
Comentários:
  •        É verdade que nas paróquias e capelanias da Terra Santa, a Eucaristia “permanece celebrada segundo a forma ordinária do Missal Romano”. Isso é triste, mas pode significar simplesmente que esses locais não são objeto do presente decreto.
  •         O padre que quer celebrar deve apresentar o celebret. Mas essa exigência é de absoluta prudência: lidando diariamente com desconhecidos, de que outra forma os responsáveis podem se certificar de que estão admitindo um verdadeiro padre e não um impostor?
  •         Pedir o conhecimento suficiente do rito parece ser um simples requisito retórico. Pois como, em meio a um entra-e-sai de peregrinos, que deve caracterizar esses santuários, o reitor – ou o sacristão! – vai fazer um exame sobre liturgia ao padre que pede para celebrar?
  •         A menção à não existência de concelebração no rito antigo faz pensar que a concelebração é exigida nas peregrinações modernas com vários padres. Ou seja, para cada peregrinação se concede uma só missa.
  •        O pedido de permissão para a celebração dos sacramentos do batismo, crisma e matrimônio será ou não excessivo, conforme a vontade de permitir dos responsáveis. Quanto à permissão para a ordenação diaconal, presbiteral e episcopal, será que ela é permitida sem prévia autorização até mesmo no rito moderno?
No mais, o Patriarca manda que suas basílicas e santuários disponham de Missais, paramentos e todo o material necessário para a Missa tradicional, além de um altar adaptado – pena que lateral!
Que bom será quando nos oferecerem tudo isso ao chegarmos a Aparecida, por exemplo!
Isso não é tudo, é claro… Seria bom que um decreto como esse fosse feito em relação a Roma.
Mas, Deus é todo poderoso, e Sua Igreja é indefectível. A restauração da Santa Liturgia ainda será completa….
Ah! E de quantos ordinários no mundo a Fraternidade São Pio X já obteve a permissão – por decreto – para celebrar em basílicas e santuários?
Salve Maria!
Lucia Zucchi