Bênção da Epifania.

 2017
Caríssimos,
Salve Maria!
Na Festa da Epifania é o momento para a Bênção de nossas casas, com a tradicional Bênção da Epifania, ou a ” Bênção dos Reis Magos”. O giz deve ser abençoado pelo padre, mas o próprio Pai de Familia, ao redor dos seus, levando o giz para casa, pode fazer as inscrições nas portas, como o texto abaixo ensina. Essas inscrições sagradas de proteção devem ficar até o primeiro domingo do advento, quando é apagada, para esperar a nova bênção.
Aos Sacerdotes, segue o texto da Bênção:
A Bênção:
 
Benedictio cretae  
 
in Festo Epiphaniae 
 
V/. Adjutorium nostrum in nomine Domini. 
 
R/. Qui fecit caelum et terram.  
 
V/. Dominus vobiscum.  
 
R/. Et cum spiritu tuo. 
 
Bene + dic, Domine Deus, creaturam istam cretae : ut 
sit salutaris humano generi; et praesta per 
invocationem nominis tui sanctissimi, ut, quicumque ex ea 
sumpserint, vel in ea in domus suae portis scripserint 
nomina sanctorum tuorum  Gasparis, Melchioris et 
Baltassar, per eorum intercessionem et merita, corporis 
sanitatem, et animae tutelam percipiant. Per Christum 
Dominum nostrum.  R/.  Amen. 
 
 
Et aspergatur aqua benedicta. 
******

Por ocasião da “Solenidade da Epifania”, existeno Ritual Romano antigo, a louvável tradição deabençoar a casa dos fiéis com a “Bênção da Epifania” ou “Benção para o Ano Novo”.

Este é um sinal que cristãos vivem na casa e um sinal da bênção de Deus sobre ela.

Essa bênção era tradicionalmente feita pelopároco, mas é possível que também os fiéis invoquem esta benção de Deus para o seu lar, até porque seria pastoralmente impossível atender territorialmente toda a paróquia, e a maioria das pessoas, inclusive sacerdotes, nunca ouviu falar desta bênção.

Trata-se é claro, de uma tradição antiga, mas que nunca foi proibida pela Santa Igreja, apenas foi caindo no esquecimento, como muitos costumes bons e salutares da nossa Santa Igreja. Embora não seja muito conhecida no Brasil, tem se difundido cada vez mais esta abençoada tradição.

Pode-se fazer a bênção sozinho(a) ou com seus familiares. Neste caso, enquanto o pai dacasa invoca a benção de Deus, a mãe ou outra pessoas asperge o lugar com água benta, e outro inscreve as letras na parte de fora das passagens e portas.

Este costume, registrado em documentos desde o século XVI, é com certeza de origemanterior. Foi encontrado pela primeira vezno «Sacramentário Gelasianum Vetus» (na metade do século sete), paraabençoar a casa no ano novo ou quando havia uma mudança de residência.

Essa tradição é baseada nos tempos da Igreja primitiva, onde os primeiros cristãos desejavam proteger e abençoar seus lares, identificando-se como Povo de Deus, em analogia ao que fizeram os hebreus no cativeiro do Egito quando marcaram as portas de suas casas com o sangue do Cordeiro Pascal (Ex 12, 12–13) e como as assinalaram também depois na terra prometida (Deut 6, 9).

Com esta inscrição invocamos a benção de Nosso Senhor que em Sua Encarnação no ventre de Maria, pelo poder do Espírito Santo, veio como a Luz do mundo para salvar o homem das trevas do pecado. Assim, invocamos esta benção para os nossos lares e reivindicamos a soberania de Cristo para os espaços onde vivemos e trabalhamos.

A Solenidade da Epifania ocorre no dia 6 de janeiro. No Brasil, se esta data não cai no Domingo, é transferida para o Domingo seguinte, a fim de que todos participem.

Neste ano de 2017, a Epifania cairá numa sexta-feira; portanto, penso que pode-se fazer esta bênção na sexta (dia 6) ou no domingo (dia em que será comemorada liturgicamente).

Deve-se marcar por cima das portas e passagens da casa, do lado exterior, a seguinte inscrição com o giz abençoado: os dois números (cifras) iniciais do ano; as siglas C+M+B, sendo que cada letra é intercalada com o sinal da Cruz; e em seguida os dois números (cifras) finais do ano. Costuma-se colocar também uma cruz em cima da letra ‘M’, ficando três cruzes.

As siglas «C M B» significam: «Christus Mansionem Benedicat», ou seja: «Cristo Abençoe esta Casa».

Santo Agostinho as explicavam também como: «Christus MultorumBenefactor», que significa: «Cristo benfeitor de muitos».

Representa também os tradicionais nomes dos três Reis Magos: Caspar (Gaspar), Melchior (Melquior ou Belquior) e Balthazar (Baltazar). Tradicionalmente esta inscrição deve permanecer até a Solenidade de Pentecostes, ou se desejar, até o próximo ano.

Para este ano de 2017 a inscrição será assim:

2017

Fonte: https://filhasdemariarosamistica.blogspot.com.br/2016/12/a-bencao-das-casas-na-epifania.html

CAFÉ TEOLÓGICO – JOSEPH RATZINGER REFUTA VERSUS POPULUM

 

DEDICADO a todos os  SEMINARISTAS maravilhosamente TEIMOSOS

 

euEBento

 

Caríssimos, Salve Maria!

Esse “Café Teológico” dedico a todos os SEMINARISTAS de boa vontade que, apesar da crise, teimam em continuar Católicos. Bela teimosia!

O motivo da dedicação é justamente pela péssima formação direcionada e ideológica que acontece em muitos institutos teológicos e seminários. Nessas casas,os formadores que são “ecumenicamente” liberais, defendem a pluralidade de pensamento, mas ao mesmo tempo não admitem que os formandos pensem diferente deles, típica democracia petista, verdadeira como uma nota de dez tostões. 

A vocês, seminaristas católicos meu respeito e amizade. Continuem assim: teimosamente católicos.

Sobre a declaração do Cardeal Sarah,  silenciada em muitos sites de Institutos de Teologia, o desmentido do finado Pe. Lombardi ( esse já bem divulgado em sites desses institutos tupiniquis), trago para todos vocês, queridos seminaristas a defesa da Missa ad Orientem do Cardeal Ratzinger, para angústia dos pseudos  doutores malabaristas do País-das-maravilhas..

Boa leitura….e, continuem Teimosos!

Pe. Marcélo Tenorio

 

Ps. Qualquer reclamação dos reitores,  favor endereçar ao Mons. Joseph  Ratzinger.

 

  1. APRESENTAÇÃO

Neste artigo será demonstrado que as interpretações que vêm sendo feitas, por parte de algumas pessoas, da declaração do Padre Frederico Lombardi, ex-porta-voz do Vaticano, não podem ser as mais corretas.

O então porta-voz disse que não haverá nenhuma norma nova para o advento e que o termo «reforma da reforma» deve ser evitado para não causar interpretações erradas. Na mesma linha partidária, o Padre Antonio Spadaro, editor do jornal La Civiltà Cattolica, levantou alguns argumentos contra a Missa «versus Deum», isto é, «de frente para Deus».

Joseph Ratzinger, hoje Papa emérito Bento XVI

O Cardeal Ratzinger, atual Papa emérito Bento XVI, foi quem promoveu o movimento chamado «reforma da reforma» e contribuiu, como tantos outros ótimos liturgistas, para a compreensão da orientação litúrgica. Pois bem, exporemos o seu pensamento, que se apoia também em outros estudiosos, e, desta forma, refutaremos os argumentos levantados pelos amantes da Missa “ao revés”. O versus populum não é inválido ou ilícito, nem pretendemos isso dizer; queremos apenas demonstrar que o versus Deum também é não somente válido e lícito, mas a melhor forma.

Quanto ao termo «reforma da reforma» é suficiente dizer que não oferece nenhuma possibilidade de má interpretação, pois já foi exaustivamente explicado por inúmeros liturgistas, até mesmo pelo próprio Joseph Ratzinger em diversas oportunidades, inclusive já postamos um desses textos aqui no blog.

Cabe, antes de mais nada, avisar que ao final deste artigo poderá o leitor encontrar um índice para melhor visualização da ordenação das partes. E o aconselhamos que assim faça. Boa leitura.

  1.    INTRODUÇÃO

O Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Cardeal Robert Sarah, em um discurso para a Conferência Sacra Liturgia UK 2016, no Oratório de São Filipe Néri (Oratório de Brompton), em Londres, instigou os sacerdotes para que pudessem celebrar também a Forma Ordinária do Rito Romano (segundo o Missal de Paulo VI) de frente para Deus, isto é, «Versus Deum», pois, segundo ele, é “muito importante que retornemos o quanto antes possível para uma comum orientação, dos sacerdotes e fiéis, voltados na mesma direção – para o oriente ou pelo menos para a abside”[2].

O oriente (ou leste) é o símbolo da ressurreição e ascensão do Senhor e, igualmente, de sua segunda vinda, que ocorrerá da mesma forma que partiu (At 1, 11). Se o batistério, colocado à porta da Igreja, no Oeste, é o símbolo do princípio do percurso, o altar ao leste é a meta para qual nos dirigimos, caminhando ao encontro daquele que foi, mas que voltará.

O Cardeal africano, no entanto, esclareceu que esta implementação deve ocorrer “com prudência e com a necessária catequese”[3], por isso, cabe um discernimento pastoral para avaliar como e quando esta prática pode ser aplicada. Neste ponto, ele sugeriu que um bom tempo para que os sacerdotes começassem a implantá-la seria no Advento, isto porque é justamente o tempo em que “esperamos «o Senhor que virá» e «que não tardará» (cf. Introito, Missa da Quarta-feira da Primeira Semana do Advento)”[4]. Trata-se de um tempo litúrgico que está intimamente ligado à orientação litúrgica, por isso, a sugestão deste tempo.

Leia também: A reforma da reforma e o futuro do Missal de Pio V

O purpurado se dedicou a outros temas interessantes (cf. o discurso completo), mas foram estas palavras que criaram alvoroço. Assim, após esse pronunciamento do Prefeito da liturgia surgiram debates em muitos lugares, tudo em torno de uma má compreensão tanto do sentido da orientação litúrgica como da legislação atual.

Nessa onda, até mesmo o Padre Antonio Spadaro, editor do jornal La Civiltà Cattolica, entrou na polêmica através de seu Twitter, incentivando a celebração da Missa de frente para o povo, ou para quem quiser, de costas para Deus. O Padre Spadaro citou como argumento, entre outras coisas, o parágrafo 146 da Instrução Geral do Missal Romano para tentar justificar sua opinião “populista”.

O Vaticano mostrando-se preocupado logo apareceu para pôr panos quentes na história. Através de um pronunciamento do Padre Frederico Lombardi, então porta-voz da sala de imprensa (agora o novo porta-voz é Greg Burke, pois Pe. Lombardi renunciou), foi afirmado que não haverá nenhuma nova normativa para o próximo advento e que o termo «reforma da reforma» pode gerar algumas interpretações erradas, por isso seria melhor evitá-lo. Esta declaração do ex-porta-voz caiu como uma bomba, sendo usada pelo clero mais progressista como arma contra o Cardeal Sarah e os católicos que apoiam tanto a orientação Versus Deum como a «reforma da reforma».

Será que o que disse o Padre Lombardi pode realmente ser usado dessa forma? E a reforma da reforma é um termo tão controverso assim? É o que veremos.

  1.    A ORIENTAÇÃO LITÚRGICA: DEUS OU POVO?

Nesta seção dividiremos a problemática da orientação litúrgica em três partes. A primeira consiste em um resumido aspecto histórico, no qual será elaborada a fundamentação histórica e, por consequência indireta, um pouco da razão teológica; a segunda será uma análise da legislação atual, trazendo os fundamentos para que tal prática seja, além de válida, tida por lícita; a terceira, por fim, responderá a algumas objeções, aquelas que mais comumente são utilizadas e as que foram levantadas sobre o pronunciamento do Cardeal Sarah pelos partidários da Missa invertida. Desta forma acreditamos delinear e abarcar toda a questão.

3.1.   HISTÓRIA

Em todo o período da cristandade se há algo que sempre esteve claro certamente é, segundo Joseph Ratzinger [5], “a orientação da oração ao oriente”, que é uma tradição que remonta às origens do cristianismo. Pois já no início da era cristão se tinha o sol como símbolo cristão, e, como se sabe, o sol nasce ao leste (oriente), daí dizer que a própria palavra «orientação» só possui seu sentido lato quando aplicado na direção ao leste.

Joseph Ratzinger, à época Cardeal Prefeito
da Congregação para a Doutrina da Fé

O eminente teólogo alemão diz[6] que “a orientação da oração comum a sacerdotes e fiéis (cuja forma simbólica era geralmente em direção ao leste/oriente, quer dizer, ao sol que se eleva), era concebida como um olhar lançado ao Senhor, ao verdadeiro sol” e que na liturgia católica existe uma antecipação do retorno de Cristo, onde “sacerdotes e fiéis vão ao seu encontro”. E esta orientação na oração, continua, “expressa no caráter teocêntrico da liturgia obedece à exortação: «Voltemo-nos para o Senhor»”.

E é possível, nos afirma o Mons. Klaus Gamber, “provar com certeza que jamais houve celebrações versus populum (de frente para o povo) nem na Igreja do Oriente nem na do Ocidente”[7]. Confira o quanto da liturgia católica está intimamente ligada com a luz, com o sol, com o astro que ilumina. Jean Fournée nos recorda que no natal encontramos um rito enormemente ligado com a mística da luz e o mesmo podemos dizer da Epifania, na qual lê-se Isaías: “Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Senhor”.

Todo o edifício litúrgico gira em torno deste simbolismo; não esqueçamos, por exemplo, a páscoa que com sua vigília nos oferece uma verdadeira riqueza espiritual, onde o Círio com sua luz é o símbolo de Cristo: “O círio que acendeu as nossas velas possa esta noite toda fulgurar; misture sua luz à das estrelas, cintile quando o dia despontar” (cf. Proclamação da Páscoa). Ainda o Deus que é “a força imutável e luz inextinguível” (cf. Vigília Pascal) é louvado todos os dias na Liturgia das Horas no despontar do sol, onde cantamos o retorno da luz que da noite dissipa as trevas.

Dom N. Le Nourry expõe uma das razões de conveniência da orientação na oração, dizendo que “Cristo, na cruz, olhava para o ocidente, era, pois, normal que os cristãos ao contemplar a cruz se voltassem para o oriente”[8]. Para demonstrar ainda como mais solidez a disposição da Igreja ao oriente, é possível citar, entre muitos outros Padres da Igreja, Clemente de Alexandria (+215) e Orígenes (+255):

O oriente é a imagem do dia que nasce. É deste lado também que cresce a luz, a qual em primeiro lugar faz desaparecer as trevas onde se detém a ignorância e de onde se separou o dia do conhecimento da verdade da mesma maneira como se eleva o sol. Por isto, é normal que se dirijam as orações rumo ao nascimento da manhã. [9]

E agora, a respeito da parte do mundo para a qual se deve dirigir para rezar, serei breve. Sendo quatro essas partes: o norte, o sul, o poente e o nascente, quem pois negará que se deve indicar bem claramente o nascente, e que devemos rezar voltando-nos simbolicamente para esse lado, olhando com a alma de certo modo a saída da verdadeira luz? [10]

Se podemos notar a beleza extraordinária encontrada no simbolismo solar, do oriente, o que dizer da cruz? Não é o sol apenas um símbolo, à título comparativo, enquanto que a Cruz figura realmente o Cristo? Não é a Cruz mais brilhante que todos os astros (“O Crux, splendidior cunctis astris”) [11]? Por que então não ver a Cruz como superior ao sol? A Cruz para nós não representa uma vergonha, mas “o testemunho deslumbrante da glória de Cristo com a qual se iluminará o último amanhecer do cosmo”[12], e nos diz Santo Efrem que a cruz que aparecerá no céu é “como o cetro de Cristo, o grande Rei… superando o brilho do sol e precedendo a vinda do Senhor de todas as coisas”[13] e exclama São João Crisóstomo: “Sinal triunfal, mas resplandecente que o astro dos dias!”[14]

Neste ponto, afirma[15] Joseph Ratzinger que “a orientação ao leste tinha uma estreita relação com o “sinal do Filho do Homem”, com a Cruz que anuncia a segunda vinda do Senhor” e, desta forma, “o oriente se uniu rapidamente ao símbolo da cruz”. À esta afirmação ajunta Jean Fournée, dizendo[16] que “nas origens do cristianismo se associa a oração voltada ao Oriente com o culto da Cruz”, sendo “o culto da cruz, antes de tudo, uma homenagem rendida à glória divina”.

Se a Cruz é o símbolo da glória divina, também o é da esperança. Os primeiros cristãos traçavam uma Cruz na parede oriental de suas casas para rezar diante dela, afirma Fournée, expressando a fé na ressurreição e a esperança do retorno glorioso. Este duplo aspecto da cruz confere o significado do presente e do futuro.

Algumas pessoas não sabem, mas a cruz sobre o altar virada para o sacerdote provém de uma ideia (muito inteligente, por sinal) de Joseph Ratzinger. Ele diz[17] que “onde não seja possível a orientação de uns e outros ao leste, a cruz pode servir como oriente interior da fé” e, assim, novamente “a cruz seria o ponto de referência comum do sacerdote e a comunidade que reza”.  Portanto, essa dica dada é um “tapa-buraco” na orientação litúrgica e mesmo essa ideia tem um problema, apontado por Fournée[18].

Como esquecer toda essa riqueza, deixada como patrimônio cristão? E se seria estranho cantar as Laudes durante do tardar do dia, por que não percebemos a mesma incoerência na orientação litúrgica? Será que ficamos tão insensíveis aos símbolos? Esquecemos que o nosso Deus é a luz do mundo e, no nosso espírito desprezível, perdemos todo o sentido externo? Joseph Ratzinger constata esta insensibilidade do homem moderno.

Infelizmente para os partidários da Missa invertida, será doloroso demonstrar que a primeira pessoa que teve a ideia de uma celebração «versus populum» foi um herege. Martinho Lutero, prova Gamber[19], na sua obra “A Missa alemã e a ordem do culto divino” (“Deutsche Messe und Ordnung des Gottesdienstes“) de 1526, diz assim, no capítulo “O domingo para os leigos”: “Conservaremos os paramentos sacerdotais, o altar e as velas até que se acabem ou até que achemos conveniente mudá-los. Todavia, deixaremos que outros que queiram fazer diferente o façam. Porém, na verdadeira missa, entre verdadeiros cristãos, será necessário que o altar não fique como está e que o sacerdote se volte sempre para o povo (…)”.

Em seu livro, “O ordo divino de Cranmer”, Michael Davies merece crédito por haver demonstrado, especificamente no capítulo 11, que o Livro de Oração de 1549 dos reformadores protestantes desejava a destruição dos altares e a ereção de outros separados da abside. Evidencia é que por toda a Inglaterra foram destruídos altares com a revolução protestante. Constatamos que o mesmo se sucedeu nos tempos modernos. Quer queiramos ou não, esta é a origem do versus populum.

Para citar o Brasil é necessário dizer o que se segue. O movimento litúrgico da década de 20 tinha por meta ótimos objetivos, mas começaram a aparecer diferentes teses, caminhos, conforme o parecer individual de cada liturgista. Nisto residia o perigo, o que culminou em várias correções por parte dos papas, em especial por Pio XII. Aqui no Brasil o movimento estava bem representado, de forma fiel e ortodoxa, por liturgistas como Padre João Batista Reus, S.J., mas também chegaram nestas terras homens com seus desvios, e, em 15 de julho de 1933, o bispo Dom Martinho Michler celebrou para seis rapazes, numa fazendo do interior do Estado do Rio de Janeiro, a primeira missa versus populum e dialogada[20].

Leia também: Revelação de Bento XVI sobre o Movimento Litúrgico

Para finalizar este ponto penso ser interessante destacar o fato descrito por Fournée:

Havia antigamente em Paris uma igreja que se chamava de São Bento o “Bétourné”. A origem deste estranho epíteto é o seguinte. O edifício medieval que havia precedido a construção do séc. XVI estava ‘ocidentado’. Esta anomalia chocou tanto o povo que este batizou a igreja de: São Bento le Mal Tourné (mal virada) ou “Mautourné”. Porém ao ser reconstruída e seu altar mor recolocado no oriente, passou a ser de São Bento le Bétourné (bem virada). [21]

3.2.   LEGISLAÇÃO

Comecemos esclarecendo um fato importantíssimo para nossa questão: a orientação versus populum jamais foi proposta pelos documentos do Concílio Vaticano II. Desnecessário provar, basta consultar os textos, mas mesmo assim fazemos questão de constar que Gamber diz o mesmo: “em vão se buscará na Constituição sobre a Sagrada Liturgia, promulgada pelo Concílio Vaticano II, uma prescrição que exija celebrar a Santa Missa de frente para o povo”[22]. E não foi proposta pelo simples fato de que jamais se passou pela cabeça dos padres conciliares um tamanho absurdo!

Mons. George Eder já em 1989 esclarecia o equívoco em pensar que a orientação versus Deum tenha sido proibida pelo Concílio Vaticano II.

O Concílio não pediu em nenhum texto que haja em cada igreja um altar de frente para o povo. Nem no novo código de Direito Canônico há algo a este respeito. O Concílio deixou liberdade neste terreno. Porém una nova moda apareceu, e depois se aponta com o dedo para os que não têm o altar de frente para o povo! Fazem o mesmo por causa do latim. Desde o princípio, eu lutei pelo bilinguismo na Igreja; é a boa solução. Se se canta em inglês, todos contentes, porém se se dizem três palavras em latim… é anticonciliar! Por isto quero me servir no futuro desta liberdade que o Concílio deixou para a língua e para o altar. [23]

É o mesmo parecer do Mons. Michael Schmitz que diz que a celebração da Missa na qual “o sacerdote fica de frente para a assembleia nunca foi mencionado no Concílio Vaticano II e é atualmente uma introdução posterior”[24]. Também Ratzinger o constata ao dizer que “o texto conciliar não fala da orientação do altar para o povo”[25]. Michael Davies, depois de seu estudo, conclui o mesmo ao dizer que “não existe nenhuma ordem, rubrica, regulamentação ou lei dentro do Rito Romano que estipule que a Missa deva ser celebrada de frente para o povo”[26]. Portanto, fica elucidado que o Concílio jamais admitiu a celebração de frente para o povo.

O Padre Frederico Lombardi fez uma confusão entre orientação e forma do rito, como se a forma ordinária estivesse intrinsecamente relacionada com o versus populum. Nada mais falso, como já foi provado acima. E Mons. Schmitz ratifica isso ao dizer que “a posição do sacerdote voltado para o oriente junto com a assembleia não é exclusiva do Rito Romano Clássico [forma extraordinária]”[27].

A forma ordinária (Missal de Paulo VI) não apenas não proíbe o versus Deum como regulamenta. Em diversos locais a rubrica supõe que o sacerdote esteja virado para o altar e não para o povo. Diz o Mons. Schmitz que “algumas das rubricas do Rito mais novo parecem ainda pressupor que o celebrante esteja na mesma direção que o povo, esteja num altar solto ou num altar-mor que tenha um retábulo”[28]. Com mais certeza, conclui Davies: “certamente, as rubricas do Novus Ordo Missae, especificamente, definem a prática tradicional e instrui o sacerdote a fim de que se vire para a assembleia em várias ocasiões e logo vira-se ao altar, por exemplo nos artigos de número 107, 116, 122, 198 e 199 da Instrução Geral do Missal Romano (Institutio Generalis)”[29].

Leia também: O que não te contaram sobre as Orações Eucarísticas

Os parágrafos citados por Davies possuem numeração diferente, porque ele usa a versão típica ou de 1969 ou 1970, segundo o que pude conferir. Mas os parágrafos em que ele cita se referem aos momentos em que o sacerdote fala com o povo, em diálogo, em por consequência ele deve estar voltado para a assembleia (“versus ad populum”, “stans versus populum”). Atualizando para o Missal de 2002, podemos dizer que o sacerdote volta-se ao povo quando ele, após fazer o sinal da cruz, faz dirige uma breve palavra para o povo (n. 124); após o lavabo, quando convida o povo a rezar, dizendo “Orate, fratres” (n. 146); ao distribuir a paz ao povo, dizendo “Pax Domini sit semper vobiscum” (n. 154); ao fim da Oração Eucarística, ao mostrar a Hóstia consagrada ao povo, dizendo “Ecce Agnus Dei” (n. 157); novamente quando convida o povo a rezar, após a comunhão, dizendo “Oremus” (n. 165); quando abençoa o povo, ao fim da Missa (n. 167 e 185).

O Ritus servandus in celebratione Missae, que é a Instrução Geral do Missal tridentino, também prescreve que o sacerdote esteja voltado para o povo em iguais momentos, conforme podemos notar: “versus populum (…) dicit voce prædicta: Dóminus vobíscum, vel si sit Episcopus: Pax vobis” (cap. V, 1), “ad populum, et extendens ac jungens manus dicit: Dóminus vobíscum” (cap. VII, 1), “ad populum, et versus eum extendens et jungens manus, dicit voce aliquantulum elata: Orate, fratres” (cap. VII, 7), “stans junctis manibus ante pectus versus populum, dicit, si dicendum est: Ite, Missa est” (cap. XI, 1).

A distinção entre o Missal de João XXIII e o de Paulo VI é apenas acidental, pois como a forma extraordinária (tridentina) obriga que a Missa seja versus Deum[30], o tridentino prescreve o virar-se (“vertit se ad populum”), enquanto que o Missal de Paulo VI não tem essa partícula, porque o sacerdote já pode estar voltado para o povo, uma vez que este missal permite a missa versus populum.

O exposto já é suficiente para comprovar que a Missa, segundo o missal de Paulo VI, pode perfeitamente ser celebrada versus Deum; o que para os emitentes teólogos citados é o ideal. Entretanto, para fundamentar ainda mais podemos citar dois argumentos tão fortes quanto os já enunciados: a prática dos papas e a resposta da Congregação para o Culto Divino.

No ano 2000 a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos foi perguntada se na celebração da Missa, de acordo com o Missal de Paulo VI, fica excluída a possibilidade na celebração da “liturgia eucarística, a posição do sacerdote «versus abside»”, isto é, voltado «versus Deum»”. Assim foi a resposta: “A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, «re mature perpensa et habita ratione» (após madura reflexão e tendo em conta) a história litúrgica, responde: «Negative et ad memtem» (Negativo e segundo a opinião) pela qual deve se levar em conta diversos elementos”[31].

Leia também: Qual a necessidade de uma reforma da reforma?

Some-se a isso o fato de que os papas Bento XVI e Francisco celebraram, igualmente, a Missa de Paulo VI com a orientação versus Deum. Em duas ocasiões, o Papa Francisco celebrou, conforme podemos ver no youtube as celebrações[32], enquanto que o Papa Bento XVI o fez incontáveis vezes, já que a sua missa diária em sua capela particular era de tal forma, conforme provamos através de imagens[33] e vídeos[34].

Portanto, comprovamos que o Concílio jamais promoveu ou propôs o versus populum e que a legislação atual permite a celebração versus Deum, conforme parecer apontado por diversos estudiosos, pela resposta da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, bem como através da prática litúrgica dos papas.

3.3.   OBJEÇÕES

Nesta seção serão respondidas[35] as principais objeções que comumente são levantadas contra a orientação versus Deum e também aquelas elencadas nos últimos dias diante do pronunciamento do Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Cardeal Robert Sarah.

A.    O Cardeal Sarah não tem autoridade para legislar sozinho

Esta objeção se discute assim: Parece que o Cardeal Sarah, sem aprovação papal, não tem autoridade para estabelecer uma norma. Logo, a celebração versus Deum não se sustenta.

Ao que respondemos: É verdade, o Cardeal Sarah, sem aprovação papal, não tem autoridade para estabelecer uma norma. Porém, a conclusão dessa premissa é falsa. Isto porque ela não segue nem da premissa nem da realidade dos fatos. Se é verdade que o Cardeal sozinho não tem tal autoridade, verdade é também que ele não desejou nem estabeleceu nenhuma norma nova. O purpurado não criou norma nenhuma, apenas recordou que a legislação atual, já aprovada, permite tal orientação.

Portanto, a celebração versus Deum se sustenta, mas não pelo pronunciamento do purpurado, mas pelas próprias normas já aprovadas, isto é, vigentes.

B.     O Padre Lombardi: “não haverá nova norma”

Esta objeção se discute assim: O Padre Frederico Lombardi afirmou que não haverá nova norma para o Advento. Logo, desmentiu o Cardeal Sarah e, assim, não é permitida a celebração versus Deum.

Ao que respondemos: Esta objeção é bastante semelhante à anterior, tanto na matéria como nos erros que nela são encontrados. O Cardeal Sarah jamais afirmou que o Advento haveria de ter uma nova norma, apenas aconselho este tempo como o início para o uso da orientação, tendo em vista que é um tempo propício, porque o versus Deum está intimamente ligado à esperança do retorno de Cristo. Portanto, o antigo porta-voz da sala de imprensa não desmentiu nada nem ninguém.

A segunda conclusão do nosso oponente (“não é permitida a celebração versus Deum”) é, mais uma vez, uma falácia, pois não segue da premissa, por isso não convém repetir o que já dissemos no item A.

C.     O Cardeal Sarah não obrigou, mas incentivou

Esta objeção se discute assim: O Cardeal Sarah, em seu discurso, não obrigou a celebração orientada, apenas incentivou. Logo, não devemos celebrar versus Deum.

Ao que respondemos: A premissa está correta, pois o purpurado nem mesmo poderia obrigar, tendo em vista o que já dissemos no item A. Entretanto, mais uma vez, a conclusão não segue da premissa, pelo contrário, ela, a conclusão, é contrária à premissa, pois se o purpurado incentivou, como bem disse nosso oponente, como podemos disso concluir que não devemos celebrar versus Deum?

Portanto, esclarecemos novamente que a legislação permite a celebração orientada e que o cardeal, seguindo a mesma linha dos estudiosos já apresentados, prefere a celebração de frente para Deus àquela de frente para o povo, por inúmeros motivos que não cabem neste trabalho resumido. Em outra oportunidade poderemos destacar as razões, além das que já ficaram implícitas aqui, pelas quais a celebração de frente para Deus é a melhor.

D.    O parágrafo 299 da Instrução Geral proíbe o Versus Deum

Esta objeção se discute assim: Parece que o parágrafo n. 299 obriga que o altar esteja separado da parede e que a celebração seja versus populum. Logo, não é permitido celebrar versus Deum.

Ao que respondemos: Essa objeção levantada está equivocada por sua interpretação do parágrafo citado, pois, conforme veremos, a correta interpreta da Igreja é que tal trecho resulta em uma sugestão apenas.

Assim diz o número 299 da Institutio Generalis: “Altare exstruatur a pariete seiunctum, ut facile circumiri et in eo celebratio versus populum peragi possit, quod expedit ubicumque possibile sit.” (O altar seja construído afastado da parede, para que possa facilmente ser circundado e nele se possa celebrar de frente para o povo, o que convém realizar em todo lugar que for possível).

Uma análise dos termos usados nos conclui que, de fato, trata-se de uma sugestão. Toda a questão gira em torno da última oração que diz «quod expedit ubicumque possibile sit», pois parece ser obrigatório que o altar esteja separado da parede e a celebração seja de frente para o povo. No entanto, Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, na resposta de 25 de setembro de 2000, que já citamos, explica que o termo «expedit» (convém) expressa uma sugestão, isto é, permanece uma opção, não uma obrigação.

Antes de tudo, deve-se recordar que o termo «expedit» não constitui uma forma obrigatória, mas uma sugestão, que diz respeito tanto à construção do altar a «pariete seiunctum» [separado da parede], quanto à celebração versus populum [de frente para o povo].

(Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, 25 de setembro de 2000)

Fazendo menção a esta resposta da Congregação para o Culto divino, Ratzinger também explica que a interpretação proibitiva não é a correta.

“Esta interpretação [de que o número 299 proíbe o versus Deum], no entanto, foi rechaçada pela competente Congregação para o Culto Divino, em 25 de setembro de 2000, quando explicou que a palavra “expedit” não expressa uma obrigação, mas um conselho”[36].

Portanto, a interpretação correta nos indica que tanto a posição do altar separado da parede como a celebração de frente para o povo são apenas uma sugestão.

            Além disso, é necessário dizer que o altar separado da parede em nada contraria a celebração versus Deum, ad abside, por que não é a posição do altar em relação ao templo que importa, mas a posição do sacerdote, em conjunto com o povo, em relação ao altar. Em outras palavras, não importa que o altar esteja separado da parede ou não, pois de qualquer modo o sacerdote e o povo podem se colocar diante dele, na mesma direção.

            O Missal da forma extraordinária, tridentino, inclusive regulamenta a forma como deve ser incensado o altar quando ele estiver separado da parede, como diz Gamber:

Que o altar deva estar separado da parede “a fim de ser facilmente circundado” é outra questão. Esta exigência da Congregação dos Ritos está totalmente de acordo com a tradição (o pontifical romano tradicional, no capítulo “Sobre a dedicação das Igrejas”, exige expressamente que o altar não esteja fixo à parede, para que se possa dar a volta por todos os lados a fim de cumprir convenientemente os ritos da consagração. O “Missal de São Pio V” – edição de 1962, por outro lado indica a maneira como a incensação deve ser feita com este tipo de altares. Ao contrário do que se pode normalmente crer, o altar assim disposto está perfeitamente de acordo com a tradição, ainda que a partir da baixa idade média se tenha preferido normalmente fixá-lo à parede). [38]

E.     Deus é espírito, está em todo lugar

Esta objeção se discute assim: Deus é espírito, está em todo lugar, logo não é necessário fixar os olhos no crucifixo para a Ele rezar.

Ao que respondemos: É verdade que Deus é espírito e, por consequência, é onipresente, isto é, está em todo lugar. No entanto, esta doutrina de fé somente existe como consequência do Deus que nos revelou. Se podemos rezar em qualquer lugar, pelo fato de Deus está lá, no ouvindo, também é verdade que este mesmo Deus se encarnou, tomou a matéria, a carne. Deus “tomou um corpo, entrando no espaço e no tempo da terra, assim é apropriado que na oração – pelo menos na liturgia comunitária – nosso falar com Deus seja «encarnado», que seja cristológico, que, através da mediação do Verbo Encarnado, se dirija ao Deus trinitário”[39], assim responde Joseph Ratzinger.

Portanto, o dogma de fé apenas nos possibilita rezar em qualquer lugar, mas devemos viver a fé revelada em sua totalidade, não apenas num único aspecto, e, esta revelação, nos ensina a encarnação que deve transparecer na liturgia. Sendo assim, uma liturgia encarnada, baseada em toda a revelação, pressupõe que todos, sacerdote e fieis, estejam voltados para um símbolo visível, o oriente real ou simbólico.

F.     A Basílica de São Pedro tem altar no centro da Igreja

Esta objeção se discute assim: Parece que nem sempre e em todo lugar foi observada a celebração versus Deum, pois a Basílica de São Pedro possui um altar no centro da nave da Igreja.

Ao que respondemos: O altar foi construído já em tempo tardio, segundo o parecer de Joseph Ratzinger, “provavelmente porque assim ficaria em cima da tumba de São Pedro”[40], fazendo com que o Sacrifício do Senhor expressasse concretamente a comunhão dos santos, conclui o teólogo.

Isso poderia levar alguns a achar que o versus populum era adotado. Entretanto, não é bem assim a realidade dos fatos. A Basílica está “orientada para o ocidente”, por isso o parecer mais provável e seguro é de que o “sacerdote ficava atrás do povo, e, consequentemente, o povo lhe dava as costas”[41], não se tratava de uma celebração cara à cara, mas também orientada, onde todos estavam voltados para a mesma direção, o oriente real (leste).

Acrescenta-se o que diz Fournée sobre este assunto:

[…] em algumas das primeiras basílicas romanas, cuja abside estava para o oeste e a entrada ao leste, e onde, consequentemente, os fiéis olhavam para o ocidente, o sacerdote assim celebrava voltado para o oriente. Tal disposição acarretava forçosamente a Missa versus populum, porém esta não passava de uma consequência e não de uma disposição ritual querida sistematicamente. É, pois, uma afirmação errônea pretender que na Igreja primitiva a Missa se celebrava voltada para o povo. É mais exato dizer que a celebração estava orientada, qualquer que fosse a posição dos fiéis no edifício. Porém quando estes, ao estar situados diante do altar, se encontravam voltados para o oeste, era-lhes prescrito em certos momentos da celebração, especialmente na oratio fidelium, o voltar-se para o leste, e consequentemente, dar as costas ao celebrante e ao altar. Acontecia o mesmo ao convite do Sursum corda. Estas prescrições são anteriores ao primeiro Ordo Romanus, ou seja, pelo fim do séc. VII. O Ordo Romanus I prescreve a orientação durante o Glória, a Coleta e a Oratio fidelium, e reitera a obrigação para o celebrante de estar sempre olhando para o leste durante toda a ação eucarística, desde o prefácio até a doxologia final. [42]

O Pe. Josef Jungmann, um dos mais importantes historiadores do rito romano, diz que “a afirmação, normalmente tão repetida, de que o altar da igreja primitiva supunha sempre que o sacerdote estava voltado para o povo, se comprova que é uma lenda”[43]. Portanto, a objeção não refuta o fato de que, historicamente, jamais a Igreja celebrou missa versus populum, isto é, como sacerdote e fieis olhando-se mutuamente.

G.    A Ceia do Senhor foi celebrada versus populum

Esta objeção se discute assim: Parece que a Ceia do Senhor, nas vésperas de sua Paixão, foi celebrada com os discípulos à sua frente, logo esta é a forma original da Missa.

Ao que respondemos: O argumento é impreciso e carece de fontes históricas. Joseph Ratzinger, para refutar tal objeção, cita[44] Louis Bouyer, eminentíssimo estudioso, que diz que este argumento “se baseia simplesmente em uma concepção equivocada”, pois no início da era cristã “aquele que presidia uma comida jamais sentava na frente dos demais”, “todos estavam sentados, ou encostados, no lado convexo de uma mesa em forma de sigma ou de fechadura”, portanto “todos os participantes se encontravam no mesmo lado da mesa”.

            Acrescenta-se os resultados dos estudos de Gamber e também de Louis Boyer que chegam às mesmas conclusões:

No tempo de Jesus, e em alguns séculos mais tarde, usava-se uma mesa redonda ou uma mesa em forma de sigma (em semicírculo). A parte dianteira ficava livre para permitir servir os diferentes pratos. Os convidados estavam sentados ou deitados por trás da mesa semicircular. Para isso usavam uma espécie de sofá ou um banco, em forma de sigma. [45]

Em todos os banquetes da antiguidade, tanto judeus, como pagãos, nunca se davam a cara… pela simples razão de que todos os participantes estavam situados no lado convexo de uma mesa em forma de sigma, reservando-se o lado côncavo para o vai e vem dos que serviam. De tudo isso resulta que a denominada Missa “de frente para o povo” não é mais que um total contrassenso ou mais ainda uma pura falta de sentido. [46]

            Portanto, é historicamente infundada a objeção levantada.

H.    A Missa é apenas um banquete

Esta objeção se discute assim: Parece que a Missa é apenas um banquete, assim não faz sentido estar olhando para uma direção, menos ainda para a cruz.

Ao que respondemos: Se nosso opositor chegou a tal afirmação, podemos dizer, sem duvidar, que está deixando à largos passos a Fé católica. Joseph Ratzinger diz[47] que neste ponto “os termos comida ou convite não podem descrever adequadamente a Eucaristia” e que, se não há dúvida que nosso Senhor tenha introduzido a ideia do banquete judaico no culto cristão, também não há dúvida que “a Eucaristia remete à cruz”.

A Constituição De Sacra Liturgia, no número 47, explica assim a Missa:

O nosso Salvador, na última Ceia, na noite em que foi traído, instituiu o Sacrifício Eucarístico do seu Corpo e do seu Sangue, para perpetuar o Sacrifício da Cruz pelos séculos afora, até à sua vinda, deixando deste modo à Igreja, sua dileta Esposa, o memorial da sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal, em que se recebe Cristo, se enche a alma de graça e é dado o penhor da glória futura.

E, fazendo menção a estas palavras, o Papa Paulo VI, na Encíclica Mysterium Fidei, diz que elas “exaltam-se ao mesmo tempo não só o Sacrifício, que pertence à essência da Missa, que todos os dias é celebrada, mas também o sacramento, no qual os fiéis comem, pela sagrada comunhão” (grifo nosso). E o Concílio Vaticano II, na Constituição Sacrosanctum Concilium, recolhe a mesma citação no parágrafo 12. Mas friso o que nos interessa: o aspecto sacrifical faz parte da essência da Missa.

Portanto, podemos afirmar que a objeção é, igualmente, falsa e herética.

I.       Jesus está nas pessoas

Esta objeção se discute assim: Parece o homem 1) é imagem e semelhança de Deus, que Jesus 2) está presente em todas as pessoas e que está presente de 3) forma especial no sacerdote. Logo não há necessidade de estarem voltados para o oriente e, mais, seria até mesmo conveniente o olhar mútuo.

Ao que respondemos: Podemos dizer que o ser humano, enquanto criatura especial, 1) é imagem e semelhança de Deus, mas que nem sempre 2) tem Deus no seu coração e que a 3) presença de Cristo no sacerdote é singular. No entanto, estas presenças são diversas, com graus diferentes, e não podem ser usadas como fundamento para uma orientação cara a cara, principalmente pelo fato de serem, sobretudo e ao fim, invisíveis, isto é, não podem ser vistas senão aos olhos da fé.

RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. O ser humano é imagem e semelhança de Deus, conforme professa a doutrina católica, no entanto essa imagem e semelhança não é física, nem visível corporalmente. Joseph Ratzinger desacreditou[48] que este argumento pudesse ser levantado com seriedade, “já que não é tão fácil ver a imagem de Deus no homem”, pois a imagem de Deus não é visível aos olhos, mas “somente com a nova visão da fé”.

Esta imagem e semelhança diz respeito ao fato de Deus ter imprimido, juntamente com o sopro da vida, a razão. É a razão que nos faz semelhantes à Deus, e, por isso, diz Santo Agostinho que “o que faz a excelência do homem é que Deus o fez à sua imagem, pelo fato de lhe ter dado um espírito inteligente que o torna superior aos animais.”

Esta imagem e semelhança não é perfeita, mas imperfeita, sendo usada como advérbio de modo, conforme verifica-se através da preposição “a” da frase, exprimida pela contração com o artigo “a”, resultando em crase. Por dizer que o homem é imagem, ele é semelhança, enquanto que à imagem, demonstra a imperfeição da semelhança, pois a semelhança perfeita somente pode ser encontrada em Jesus, por possuir identidade de natureza com o Pai e o Espírito Santo, conforme o parecer de Santo Tomás.

RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO. Devemos dizer que Deus está no coração não do homem, mas do justo, e que esta presença especial não altera sua natureza, apenas a eleva. Santo Tomás diz assim: “Assim, pois, a não ser a graça santificante, nenhum outro efeito pode ser a razão de um novo modo de presença da Pessoa divina na criatura racional.” (Suma, I, q.43, a.3). Portanto, é falso afirmar que esta presença é encontrada em toda pessoa; verdadeiro é, porém, dizer que toda pessoa é capaz de possuir esta presença, de forma gratuita.

A graça santificante do Espírito é o Amor, que eleva a natureza humana a um nível mais sublime, mas como a graça não destrói a natureza, segundo o Doutor Angélico, e, por isso, segue-se que a natureza humana permanece a mesma, substancialmente humana. De tal forma, igualmente falso é afirmar que podemos, através dos sentidos externos, ver Deus no homem, ainda que supondo a existência da graça.

RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO. É necessário dizer, para ser mais preciso, não que Cristo “está” no sacerdote, mas, ao contrário, que o sacerdote age na pessoa de Cristo. Atuar na pessoa de Cristo não é, em sentido estrito, ser Cristo (embora haja um sentido verdadeiro para tal) substancialmente, uma vez que Pessoa não se multiplica por ser indivisível.

  1. a) Este modo de atuar, in persona Christi, é sacramental, não alterando em nada a natureza do homem ordenado. Por isso, embora o sacerdote aja sacramentalmente na pessoa de Cristo, não pode ser adorado, mesmo celebrando a Missa.
  2. b) Quando o sacerdote, através do caráter a ele conferido pelo sacramento da ordem, atua in persona Christi o faz por um poder a ele concedido. Este poder, ordem, é estrito, no sentido que não se estende para além do conferido, que é a realização do sacramento. Por essa razão, mesmo celebrando uma Missa (agindo in persona Christi) o sacerdote não poderia, por exemplo, ressuscitar um morto através deste caráter sacramental. Se o pode fazer provém, porém, de uma graça distinta, pois pela Ordem é conferido o poder apenas de realizar o sacramento, segundo parecer de Santo Tomás (Suma, III, q.82, a.1).

Conclui-se, portanto, que é de todo falso alegar que o ministro do sacramento da Eucaristia possa ser o centro das atenções, por agir na pessoa de Cristo.

J.      «Não é conveniente rezar voltado para a parede » ou «7 razões para celebrar versus Deum»

Esta objeção se discute assim: A orientação versus abside não traz nenhum benefício à qualidade da celebração. Logo, ou as duas direções, versus populum e versus abside, tem o mesmo peso ou ainda a primeira é superior à segunda.

Ao que respondemos: Nosso adversário em sua apologia à Missa “ao revés”, por fim, esquecendo tudo o que já foi dito afirma, sem fundamentação alguma, que a direção versus populum ou é igual à orientação versus abside ou é melhor. Para refutar, mais uma vez, essa mirabolante direção seria interessante expor todos os bons motivos pelos quais a orientação versus abside é melhor. Porém, como nosso espaço é curto, apenas citaremos algumas, dentre muitas outras, restringindo-nos a dizer alguma palavra somente nos itens que ainda não havíamos citado.

Enumeramos sete razões para o uso da forma «versus abside», «versus Deum» ou «Ad orientem», como queiram nomear, de acordo com as particularidades de cada termo.

  1. Está em total continuidade e harmonia com a tradição católica

Já provamos exaustivamente que a orientação Versus Deum remonta às origens do cristianismo, conforme demonstrado pelos escritos dos primeiros cristãos. Nenhuma palavra a mais é necessária!

  1. Não provém do protestantismo, como é o versus populum

A orientação Versus Deum provém de tradição legitimamente católica, enquanto que o Versus populum remonta às reformas protestantes, conforme já ficou provado. Ninguém pode tirar o puro do impuro (Jó 14, 4)!

  1. Transparece melhor o caráter sacrifical da Missa e não apenas a ideia de banquete

Por que os protestantes rechaçam a ideia de uma celebração orientada? Por causa da doutrina que eles negam: o caráter sacrifical do sacramento. Não é necessário é expor novamente que a Fé católica ensina que o caráter sacrifical faz parte da essência da Missa, o Sacrifício da nova e eterna Aliança, conforme vimos no item H. Convém apenas destacar que a orientação versus populum inverte a Missa, fazendo com que a ideia secundária, isto é, a ideia de banquete, passe a ser a principal.

O grande promotor do movimento litúrgico, Dom Prósper Guéranger, O.S.B., abade de Solesmes, alertou em seu famoso livro Institutions Liturgiques[49], de 1840, que uma das heresias anti-litúrgicas dos sectários era o de substituir o sacrifício pelo banquete: “Nada também de altar, mas simplesmente uma mesa; nada de sacrifício, como em toda religião, mas simplesmente uma ceia.”

A utilização do altar sempre fez referência à sacrifícios, desde das religiões pagãs, passando pelo judaísmo, e chegando no cristianismo como o Sacrifício da Nova Aliança. E Gamber explica que a posição do sacerdote nesses sacrifícios também tem sua correlação.

O sacerdote se coloca diante do altar do sacrifício, não atrás. O mesmo fazia o sacerdote entre os pagãos. No santuário, seu olhar se dirigia para a representação da divindade a quem se oferecia o sacrifício. O mesmo se fazia no Templo de Jerusalém, onde o sacerdote encarregado de oferecer a vítima se colocava diante da “mesa do Senhor” (cf. Ml 1,12), como se chamava o grande altar dos holocaustos situado no centro do Templo, de frente para o templo interior, que guardava a arca da aliança no Santos dos Santos, lugar onde habita o Altíssimo (cf. Sl 16,15). O oficiante está separado da multidão e se põe diante desta, diante do altar e voltado para a divindade. Sempre as pessoas que oferecem um sacrifício estão voltadas para aquele a quem se destina o sacrifício e, nunca, para os que participam na cerimônia. [50]

E essa busca por transformar a celebração da Missa em simples banquete é demonstrado também pelo arranjo do próprio altar, que em muitos lugares nem mais se colocam castiçais e o crucifixo, apenas flores; “deseja-se apenas uma mesa para a comida e não um altar”[51], completa Gamber. A esta ideia também ajunta o Padre Manfred Hauke, no Congresso sobre o Motu Proprio Summorum Pontificum, acontecido em Roma no ano de 2015, que constatou que a orientação favorece enormemente o caráter sacrifical da Missa.

A preeminência do sacrifício pela descrição da Santa Missa tem também suas consequências para a orientação da oração. Ao sacrifício corresponde o voltar-se para Deus por parte do celebrante e de toda a assembleia litúrgica. Quando o sacerdote fala com Deus, não faz sentido pedir que ele se volte em direção à assembleia. É melhor, se o celebrante se volta junto com toda a assembleia para a cruz e para o altar, possivelmente na direção do oriente. O oriente, o sol nascente, está no lugar de Cristo ressuscitado cujo retorno esperamos no fim dos tempos. Um voltar-se ao povo, pelo contrário, é conveniente para a proclamação da Palavra de Deus e pela comunicação da graça nas saudações, na bênção e na distribuição da Comunhão. Esta orientação é possível também no rito de Paulo VI, mas as disposições do rito antigo parecem mais propícias a este fim, colocando no centro a cruz, o altar e o próprio Senhor no Tabernáculo. [52]

  1. A posição física está de acordo com a disposição espiritual e interior

A Congregação para o Culto Divino esclareceu, na resposta já mencionada do ano 2000, que na celebração da Missa devemos distinguir duas orientações: a física e a espiritual. A orientação física, ou topográfica, é a posição do sacerdote em relação ao altar e à assembleia, havendo duas espécies: ad abside e versus populum, enquanto que a orientação espiritual (interior), encontrada em uma única espécie, diz respeito à orientação em relação à Deus.

Textualmente, a Congregação diz assim:

No entanto, qualquer que seja a posição do sacerdote celebrante, é claro que o Sacrifício Eucarístico é oferecido a Deus Uno e Trino, e que o sacerdote principal, Sumo e eterno, é Jesus Cristo, que atua através do ministério do sacerdote que preside visivelmente como Seu instrumento. A assembleia litúrgica participa na celebração em virtude do sacerdócio comum dos fiéis, o qual tem necessidade do sacerdote ordenado para ser exercido na Sinaxis Eucarística. Deve-se distinguir a posição física, relacionada especialmente com a comunicação entre os diversos membros da assembleia, e a orientação espiritual e interior de todos. Seria um grave erro imaginar que a orientação principal do ato sacrificial seja para a comunidade. Se o sacerdote celebra versus populum, o que é legítimo e muitas vezes aconselhável, a sua atitude espiritual deve ser sempre versus Deum per Iesum Christum, como representante de toda a Igreja. Também a Igreja, que assume forma concreta na assembleia que participa, está toda voltada versus Deum como primeiro movimento espiritual. (grifo nosso)[53]

A mesma Congregação já havia explicado esta distinção em uma outra oportunidade, nestas palavras:

Convém explicar claramente que a expressão «celebrar voltados para o povo» não tem um sentido teológico, mas somente topográfico-posicional. Toda celebração da Eucaristia é «ad laudem et gloriam nominis Dei, ad utilitatem quoque nostram, totiusque Ecclesiae sua sanctae». Teologicamente, portanto,a Missa é sempre dirigida a Deus, em favor do povo[54]. Na forma de celebração é preciso estar atento a não confundir teologia e topografia, sobretudo quando o sacerdote está no altar. Somente nos diálogos a partir do altar o sacerdote fala ao povo. Todo o resto é oração ao Pai por meio de Cristo, no Espírito Santo. Esta teologia deve poder ser visível. (grifo nosso)[55]

Desses dois textos da Congregação para o Culto Divino extraímos quatro importantes ensinamentos, enumerados abaixo:

(I)               É necessário distinguir o aspecto externo (físico-topográfico) e o interno (espiritual-teológico);

(II)               O aspecto interno é sempre dirigido ad Deum;

(III)            O aspecto interno deve poder ser visível;

(IV)            É um grave erro imaginar que a Missa é dirigida ao povo.

Assim, portanto, na celebração «ad abside» os dois aspectos (internos e externos) coincidem, garantindo que o item (III) seja observado, isto é, a teologia (culto oferecido à Deus) é expressa no exterior, no visível. Enquanto que na celebração em sentido contrário o culto que é oferecido à Deus não é expresso no exterior, nem sempre cumprindo o item (III).

  1. Demonstra melhor que a Missa é celebrada para Deus

Esta afirmação se deduz da anterior, uma vez que quando o interior coincide com o exterior, coincide, obviamente, que o culto oferecido à Deus é manifestado com maior força nas ações. Isto não somente oferece uma nobre catequese aos fiéis, como também os ajudam a viver a Ação litúrgica, tal qual sua natureza. E como se isto já não fosse suficiente, notamos ainda que somente a celebração da Missa «versus populum» está sujeita ao «grave erro» mencionado no item (IV) da afirmação anterior.

  1. O Versus Deum também não prejudica a audibilidade

Apenas um único argumento plausível é levantado a favor do versus populum, o da melhor audibilidade, isto é, as palavras são melhor entendidas pela assembleia de fiéis. É exatamente esse o fundamento que é citado pela Congregação para o Culto Divino quando na resposta do ano 2000 diz que “a posição versus populum parece ser a mais conveniente visto que torna a comunicação mais fácil”, remetendo-se ao texto de 1993, onde se lê o mesmo.

Não discordamos que quando o sacerdote fala ad abside a onda sonora não se propaga a longas distâncias, pois parte da onda é absorvida e parte transmitida, enquanto que somente a parcela refletida chegará aos fiéis. Mas devemos dizer três coisas a este respeito:

(I)            A audibilidade é algo muito louvável e desejável, sem dúvida alguma. Mas será que vale a pena ganhar audibilidade às custas de uma orientação que traz consigo benefícios doutrinais e pastorais, como já apresentamos?

(II)          Os momentos em que o sacerdote fala à assembleia de fiéis são poucos, se comparados com aqueles em que ele se dirige à Deus. E é, por isso, que o Missal, tanto o da forma extraordinária (João XXIII) como o da ordinária (Paulo VI), regulamentam os momentos em que o sacerdote deve voltar-se para o povo. A audibilidade era difícil justamente durante as leituras, feitas até então do altar, e foi exatamente por isso que o Papa Pio XII restaurou o uso do ambão, permitindo que as leituras fossem feitas em vernáculo e de frente para o povo, e desde então a liturgia da palavra é feita dessa forma. Assim, não há impedimento para que os fiéis possam ouvir.

(III)        Some-se tudo isto ao seguinte fato: não estamos mais no início do século XX. Os aparelhos sonoros (microfone, caixas de som, etc.) vieram para acabar de vez com esses problemas. Era justo que naquela época se falasse em dificuldade, mas hoje isso já não é mais válido, portanto, a essa objeção de audibilidade tem seu prazo de validade já vencido.

Ainda poderiam objetar que o versus populum confere maior visibilidade, mas observemos que este argumento não é levantado pela Congregação para o Culto Divino, isto porque é falso. Ele acentua exageradamente a necessidade de os fiéis verem o altar e os gestos do sacerdote, sendo usado inclusive por aqueles que se opõem à colocação do Crucifixo no centro do altar. Portanto, limitamo-nos a citar o que diz Fournée e Ratzinger, respectivamente, sobre a celebração versus populum e a cruz sobre o altar nesse tipo de celebração.

A Missa por acaso é um espetáculo? E o que se quer mostrar aos espectadores: como se opera a transubstanciação??? Como se faz a fração da hóstia? Como procede o sacerdote para comungar sob as duas espécies? Acaso o povo tem necessidade de ver isso para crer? Deve-se pensar que antigamente estávamos muito mal informados dos ritos sacramentais e que os fiéis agora têm muita sorte? Vamos então! O único olhar capaz de contemplar o mistério é o olhar interior da fé, e se necessita de referências visíveis e audíveis, que eu saiba não lhe faltava até há pouco quando a Missa estava no bom sentido. Não, verdadeiramente não vejo como virar o altar facilita o acesso ao mysterium fidei. Pelo contrário, penso que, nesta Missa onde se vê tudo, há um perigo de considerar os gestos do celebrante por si mesmos, de se ver tentado a humanizá-los, de deter-se em sua expressão formal, de considerar a quem os realiza em função não de sua missão sagrada, mas da maneira como os leva a cabo. [56]

Um dos fenômenos verdadeiramente absurdos das últimas décadas está, ao meu modo de ver, no fato de se colocar a cruz de lado para ver o sacerdote. A cruz é obstrutiva durante a Missa? Acaso o sacerdote é mais importante que o Senhor? Este erro deve ser corrigido o mais rápido possível; e é possível sem novas reformas. [57]

  1. Evita que o padre se torne o centro das atenções, o showman

Geralmente os apologistas que criticam a Missa em sua forma extraordinária (tridentina), dizendo que os fiéis nada fazem, sendo tudo é realizado pelo sacerdote, são os mesmos apologistas da celebração versus populum. Contradição? Sim, porque na imensa maioria das missas versus populum o sacerdote transforma-se no showman, aquele que tudo faz e que é o centro das atenções, nas palavras de Boyer “o sacerdote-ator, que pretende atrair toda a atenção sobre si e que discursa como um vendedor atrás de seu balcão”[58].

Devemos constatar, para não fazer injustiça, que, é verdade, há sacerdotes que não se colocam como centro das atenções, mas estes são poucos, muito poucos. Na celebração versus populum até o altar, que deveria ser aquilo que une, separa o sacerdote dos fiéis, virou uma barreira, distanciando o povo do sacerdote, criando uma clericalização exagerada a tal ponto que Fournée se pergunta se acaso não dever-se-ia substituir o “Ite Missa est” por um feedback.

Cito, para finalizar, o que de Ratzinger e Fournée, respectivamente, dizem a este respeito.

A verdade é que com isso [versus populum] se introduz uma clericalização como nunca antes existiu. De fato, o sacerdote – o presidente, como agora preferem chamar – se transforma no ponto de referência de toda a celebração. Tudo depende dele. É a ele que devemos olhar, participamos em sua ação, a ele respondemos. Sua criatividade é o que sustenta o conjunto da celebração. Por isso é compreensível que agora se tente diminuir o papel a ele atribuído, distribuindo diversas atividades aos outros e confiando a preparação da liturgia à “criatividade” de uns grupos que, antes de tudo, querem e devem “tomar parte ativamente”. Cada vez se dá menos atenção à Deus e mais importância ao que fazem as pessoas que ali se reúnem e que, de forma alguma, querem se submeter a um “esquema pré-determinado”. O sacerdote de frente para o povo transmite à comunidade o aspecto de um círculo fechado em si mesmo. Já não é – por sua própria disposição – uma comunidade aberta para frente e para cima, mas fechada em si mesma. [59]

Para o sacerdote, porém, que celebra de frente para o povo e que se vê como objeto dos olhares, existe o risco de “fazê-lo com pose”. Este risco é máximo nas Missas transmitidas pela TV. Como poderia ser de outra maneira quando no lugar de seu grupo habitual de fiéis, o celebrante sabe que é o alvo de milhares de rostos, estando as câmeras a fazer dele um ator, um protagonista? Este é um caso extremo, sem dúvida. Porém põe em relevo o aspecto de espetáculo da Missa de frente para o povo, na qual, com demasiada frequência, mesmo diante de uma reduzida assistência, as entoações e os gestos do celebrante parecem estudados como os de um ator, com uma busca pela forma que vai além da simples preocupação pela dignidade. Isto é às vezes tão sensível que alguém pode perguntar se tal Missa deveria concluir não com “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe”, mas com “Me vistes? ”[60]

  1. CONCLUSÃO

Os mais eminentes estudiosos da história e teologia litúrgica há bastante tempo provaram o qual infundado é a celebração versus populum, isto é, (des)orientada para o povo e não para o oriente, seja o real (leste) ou o simbólico (crucifixo). Esta disposição não tem respaldo nem na história, seja do ocidente ou do oriente, nem na teologia e nem mesmo na pastoral, enquanto que a correta e perfeita orientação versus Deum está concorde com a tradição católica, tanto ocidental como oriental, com sua doutrina e tem uma pastoral provada pela experiência de dois milênios.

Portanto, através deste trabalho pudemos provar que a orientação versus Deum pode ser perfeitamente ser usada na celebração da Missa, segundo o missal do Papa Paulo VI, e, o leitor há que concordar conosco, que esta disposição é a melhor sob diversos aspectos. Não resta dúvida que o Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, estava certo ao afirmar que é “muito importante que retornemos o quanto antes possível para uma comum orientação, dos sacerdotes e fiéis, voltados na mesma direção – para o oriente ou pelo menos para a abside”[61].

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ÍNDICE

  1. APRESENTAÇÃO
  2. INTRODUÇÃO
  3. A ORIENTAÇÃO LITÚRGICA: DEUS OU POVO?

3.1.      HISTÓRIA

3.2.      LEGISLAÇÃO

3.3.      OBJEÇÕES

  1. O Cardeal Sarah não tem autoridade para legislar sozinho
  2.      O Padre Lombardi: “não haverá nova norma”
  3.      O Cardeal Sarah não obrigou, mas incentivou
  4.     O parágrafo 299 da Instrução Geral proíbe o Versus Deum
  5.      Deus é espírito, está em todo lugar
  6.      A Basílica de São Pedro tem altar no centro da Igreja.
  7.     A Ceia do Senhor foi celebrada versus populum
  8.     A Missa é apenas um banquete
  9.       Jesus está nas pessoas
  10. «Não é conveniente rezar voltado para a parede » ou «7 razões para celebrar versus Deum»
  11. CONCLUSÃO

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NOTAS

[1] – Esse artigo foi escrito com zelo, mas ainda não foi revisado. Assim, qualquer contribuição será bem recebida.

[2] – SARAH, Cardeal Robert. Discurso na Conferência Sacra Liturgia UK 2016. A tradução está disponível no site da Associação Redemptionis Sacramentum – ARS.

[3] – Ibidem.

[4] – Ibidem.

[5] – RATZINGER, Joseph. El Espírito de la Liturgia: Una introducción. Ediciones Cristandad: Madri, 2001. Pag. 97. Tradução nossa.

[6] – RATZINGER, Joseph. Prefácio à edição francesa do livro “Voltados para o Senhor”, de Klaus Gamber. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[7] – GAMBER, Klaus. Voltados para o Senhor. Pag. 13. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[8] – Nourry, Dom N. Le. Citado por Jean Fournée em “A Missa de frente para Deus” (1976), Pag. 12, Nota de rodapé n. 42. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[9] – Clemente de Alexandria, Stromatum., livro VII, cap. 7. P.G. IX, 482-483. Citado por Jean Fournée em “A Missa de frente para Deus” (1976), p. 13. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[10] – Orígenes, P.G. XI, 555. Citado por Jean Fournée em “A Missa de frente para Deus” (1976), p. 13. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[11] – FOURNÉE, Jean. A Missa de frente para Deus. Colección Una Voce: Paris, 1976. Pag. 6. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[12] – Ibidem.

[13] – Ibidem.

[14] – Ibidem.

[15] – RATZINGER, Joseph. El Espírito de la Liturgia: Una introducción. Ediciones Cristandad: Madri, 2001. Pag. 105. (Tradução nossa)

[16] – FOURNÉE, Jean. A Missa de frente para Deus. Colección Una Voce: Paris, 1976. Pag. 6. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[17] – RATZINGER, Joseph. El Espírito de la Liturgia: Una introducción. Ediciones Cristandad: Madri, 2001. Pag. 105. (Tradução nossa)

[18] – Assim diz Fournée em seu livro “A Missa de frente para Deus” (1976): “Onde colocá-lo e em que sentido? (…) Porém, que a Cruz esteja ou não no altar, para onde deve olhar? Se é para o povo, Cristo dá as costas ao ministro do altar, e é mal-educado. Se é para o celebrante, é mal-educado para com os fiéis. (…) Não se poderia imaginar uma pirueta mais desenvolvida para descartar a única solução lógica, que seria voltar a colocar o altar no bom sentido… Em suma, se está em plena contradição, e em plena descortesia: o celebrante está de frente para o povo, mas o divino Crucificado lhe dá as costas! A liturgia se volta a fechar numa relação Cristo-altar-ministro, o que está em flagrante desacordo com todas as boas razões de abertura ao povo que os ardentes defensores da celebração versus populum invocam. E assim se está em ruptura com o simbolismo que, desde o começo do cristianismo, estava unido à cruz do Gólgota, olhando para o oeste, isto é, para o mundo dos redimidos, a que seus braços atraem e reúnem em um mesmo povo.” Assim, ao final, a orientação comum não é seguida por todos, apenas por um, ou o sacerdote ou o povo olham para o crucificado.

[19] – GAMBER, Klaus. Voltados para o Senhor. Pag. 13. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[20] – SILVA, J. Ariovaldo. Citado por Rodrigo Carvalho em “O espírito da Liturgia: De Vagaggini ao Concílio Vaticano II, 2014, p. 28, nota de rodapé n. 72.

[21] – FOURNÉE, Jean. A Missa de frente para Deus. Colección Una Voce: Paris, 1976. Pag. 8. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[22] – GAMBER, Klaus. Voltados para o Senhor. Pag. 15. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[23] – EDER, George, entrevista ao jornal Kleine Zeitung, em 13 de janeiro de 1989. Citado por Gamber em seu livro Voltados para o Senhor. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[24] – SCHMITZ, R. Michael. O Portão para a eternidade: o Rito romano clássico e seu significado para a Igreja. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS

[25] – RATZINGER, Joseph. Prólogo ao livro do Padre Uwe Michael Lang, “Voltados para o Senhor: a orientação da oração litúrgica”. Tradução nossa.

[26] – DAVIES, Michael. La nueva Misa del Papa Pablo: la revolución litúrgica. Volume 3. Pag. 423. Tradução nossa.

[27] – SCHMITZ, R. Michael. O Portão para a eternidade: o Rito romano clássico e seu significado para a Igreja. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS

[28] – Ibidem.

[29] – DAVIES, Michael. La nueva Misa del Papa Pablo: la revolución litúrgica. Volume 3. Pag. 423-424. Tradução nossa.

[30] – Ressalvando o que se diz quanto à orientação topográfica do edifício. Cf. a objeção F.

[31] – Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Resposta em 25 de setembro de 2000, Notitiae, prot. Nº. 2036/00/L. Tradução nossa.

[32] – Há dois vídeos disponíveis no youtube, um de 2014 em <youtube.com/watch?v=DHzunCPE98M> e outro de 2015 em <youtube.com/watch?v=7vlj6SqFV8s>

[33] – Imagens do Papa Bento XVI podem ser encontradas facilmente através do google imagens, tal como essa <liturgiacatolicaoficial.blogspot.com.br/2014/08/missa-em-rito-bizantino-versus-deum.html>. Mas basta fazer uma busca na internet que será possível verificar algumas outras.

[34] – Há um vídeo de 2008 em <youtube.com/watch?v=Q0aPU57zx6Q> onde vemos o Cânon sendo rezado pelo Papa Bento XVI e vemos nesse outro endereço <youtube.com/watch?v=6oeUmtzfGs8> uma pequena matéria sobre as missas diárias do Papa em sua capela particular.

[35] – Não descartamos a possibilidade de respostas ainda melhores serem apresentadas.

[36] – RATZINGER, Joseph. Prólogo ao livro do Padre Uwe Michael Lang, “Voltados para o Senhor: a orientação da oração litúrgica”. Tradução nossa.

[37] – DAVIES, Michael. La nueva Misa del Papa Pablo: la revolución litúrgica. Volume 3. Pag. 423-424. Tradução nossa.

[38] – GAMBER, Klaus. Voltados para o Senhor. Pag. 15. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[39] – RATZINGER, Joseph. El Espírito de la Liturgia: Una introducción. Ediciones Cristandad: Madri, 2001. Pag. 97-98. Tradução nossa.

[40] – Ibidem, pag. 98.

[41] – Ibidem, pag. 99.

[42] – FOURNÉE, Jean. A Missa de frente para Deus. Colección Una Voce: Paris, 1976. Pag. 7. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[43] – JUNGMANN, Josef A. Missarum Sollemnia. Citado por Klaus Gamber em “Voltados para o Senhor” ,Pag. 18Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[44] – RATZINGER, Joseph. El Espírito de la Liturgia: Una introducción. Ediciones Cristandad: Madri, 2001. Pag. 100. Tradução nossa.

[45] – GAMBER, Klaus. Voltados para o Senhor. Pag. 13-14. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[46] – BOYER, Louis. Epílogo ao livro “Voltados para o Senhor”, do Mons. Klaus Gamber. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[47] – RATZINGER, Joseph. El Espírito de la Liturgia: Una introducción. Ediciones Cristandad: Madri, 2001. Pag. 100. Tradução nossa.

[48] – Ibidem, Pag. 105.

[49] – GUÉRANGER, Prosper. Institutions Liturgiques. Paris, 1840. Capítulo XIV. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[50] – GAMBER, Klaus. Voltados para o Senhor. Pag. 27. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[51] – Ibidem.

[52] – HAUKE, Manfred. Conferência. Congresso sobre o Motu Proprio Summorum Pontificum, Roma, 2015.

[53] – Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Resposta em 25 de setembro de 2000, Notitiae, prot. Nº. 2036/00/L. Tradução nossa.

[54] – A tradução fornecida por THANNER diz «e dirigida ao povo», mas preferi substitui-la já que o texto latino citado diz «ad utilitatem» («para a utilidade»), resultando, consequêntemente, em um texto mais fiel ao que diz a doutrina católica.

[55] – Editoriale Pregare “ad orientem versus”, em Notitiae 29 (1993), 245-249. Citado por THANNER (2005) em “O Dinamismo intrínseco da Celebração eucarística e sua expressão externa”.

[56] – FOURNÉE, Jean. A Missa de frente para Deus. Colección Una Voce: Paris, 1976. Pag. 28. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[57] – RATZINGER, Joseph. El Espírito de la Liturgia: Una introducción. Ediciones Cristandad: Madri, 2001. Pag. 106. Tradução nossa.

[58] – BOYER, Louis. Epílogo ao livro “Voltados para o Senhor”, do Mons. Klaus Gamber. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[59] – RATZINGER, Joseph. El Espírito de la Liturgia: Una introducción. Ediciones Cristandad: Madri, 2001. Pag. 101-102. Tradução nossa.

[60] – FOURNÉE, Jean. A Missa de frente para Deus. Colección Una Voce: Paris, 1976. Pag. 29. Tradução de Luís A. R. Domingues, ARS.

[61] – SARAH, Cardeal Robert. Discurso na Conferência Sacra Liturgia UK 2016. A tradução está disponível no site da Associação Redemptionis Sacramentum – ARS

Fonte: http://contemplacoescatolicas.blogspot.com.br/2016/07/suma-contra-o-versus-populum_15.html?m=1

Mensagem de Frei Tiago para o Advento‏

Fonte: http://www.montfort.org.br/frei-tiago-mensagem-de-advento-2012/
MENSAGEM DE ADVENTO – 2012
A todos os amigos e pessoas interessadas:
Desejo, primeiramente, deixar uma mensagem de Esperança para este tempo especial do Advento que estamos vivendo na Igreja. “A noite vai adiantada, e o dia vem chegando. Despojemo-nos das obras das trevas e vistamo-nos das armas da luz… nada de contendas, nada de provocações, ao contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo.” (Rom. 13) Que dEle nos venha a Salvação!
Graças ao bom Deus, estamos sendo muito bem recebidos na Diocese de Ciudad del Este, Paraguai. Como se pode perceber na carta anexa, este Bispo nos acolheu com grande bondade paternal e sensibilidade de Pastor, aceitando a nossa opção de celebrarmos a missa no Rito Tradicional e reconhecendo a legitimidade do nosso Carisma Religioso. Sentimos, porém, a dor de termos que celebrar a última missa em nossa Capela de Atibaia no dia 25, Natal do Senhor, às 10 hs. Todos sejam bem-vindos.
Nestes últimos dias, tivemos notícias de muitos comentários a nosso respeito. Agradecemos profundamente a todas as pessoas que, sensibilizadas pelos nossos sofrimentos, se manifestaram com sentimentos de solidariedade e apoio. Prometemos retribuir com nossas incessantes orações. Agradecemos também aos reverendíssimos sacerdotes da Diocese de Bragança que também nos estenderam a mão e nos honraram com os préstimos de sua fiel amizade. Temos, entretanto, receio de que algumas pessoas nos considerem como rebeldes ou subversivos. Peço, encarecidamente, que revejam o seu julgamento. Obviamente é muito justo dizer que “todos devem obedecer ao Bispo”. Como é também muito razoável pensar que todos os Bispos devem obedecer ao Papa. Assim como não seria absurdo dizer que o Papa deve sempre obedecer a Deus… Sem obediência, não poderíamos jamais nos considerar discípulos daquele que obedeceu até a morte de Cruz. (FI.2) Nunca poderíamos pleitear na Igreja uma fundação religiosa e desejar que os noviços sejam obedientes, se não estamos, igualmente, participando deste mesmo propósito. Portanto, não analisa bem a questão aquele que diz que “este Mosteiro foi expulso por desobediência”. A verdade se resume no fato de que o Mosteiro não foi aceito em seu projeto de aprovação na Diocese de Bragança porque o Bispo atual, ignorando os passos de aprovação anteriores, exigiu que renunciássemos, não só à missa, mas também a qualquer postura “tradicional”. Diante disso, não somente eu, mas toda a nossa comunidade preferiu manter essa mesma linha por considerá-la inerente ao nosso carisma. A Carta que o Bispo recebeu de Roma é simplesmente uma orientação de como ele poderia, se realmente quisesse, completar esse processo de ereção canônica do Instituto. Não consigo ver onde estão essas “muitas irregularidades”… E quem quiser questionar, venha passar uma semana conosco e observe que o sino toca com regularidade, que os ofícios são rezados, que fica cada um na sua cela, na sua clausura e que nos esforçamos por cumprir a fielmente a nossa Regra, bem como todas as normas da Igreja… Estamos, sim, sofrendo tudo isso, mas, não estamos excluídos da Igreja, nem, tampouco, nos sentimos desamparados por Deus. Pode parecer pretensão da nossa parte, mas achamos que o nosso caso pode servir como denúncia proféticaem relação a tantos desmandos e abusos que vemos, em muitas partes, não só do Brasil, mas de todo o mundo. Dom Sérgio é testemunha que nunca deixei de cumprimentá-lo com profunda reverência, osculando seu anel. Os Sacerdotes desta Diocese são testemunhas da minha atuação respeitosa e pacífica nestes quase 11 anos. Fico triste sim, por ter trabalhado como servente de pedreiro, carpinteiro, encanador, vidraceiro e outros serviços gerais, juntamente com outros irmãos durante todo este tempo, e agora nãotermos onde reclinar a cabeça… Quando se diz que “as doações devem ser para a Diocese de Bragança Paulista” pode se pensar que recebemos grande soma de dinheiro para construir estas casas. No entanto, se fizemos tudo isso não foi por termos muito dinheiro, mas porque trabalhamos assim, sem férias e sem salário, durante 10 anos! Todos que nos conhecem sabem que estou dizendo a verdade e que sempre tivemos o critério ético de nunca pedir nada e nunca promover nenhum tipo de festa ou qualquer outra coisa para arrecadar dinheiro. Mas, se acham que é justo, simplesmente nos tomar tudo, já que o “terreno é da Mitra”, que seja… Acredito que a mesma providência que nos sustentou até hoje vai continuar nos socorrendo…
Enfim, apesar de tudo isso, renovo o meu convite para a reconciliação, esperando a justiça apenas de Deus e procurando celebrar o Advento com sincera mística e busca do Senhor, que se revela aos que são verdadeiramente pobres de Coração. “No silêncio e na esperança estará a vossa força!” (Is. 30,15) Confiemos na sua palavra: “No deserto reinará a justiça e meu povo habitará em moradas seguras, em abrigos tranquilos… Bem-aventurados sereis por semear à margem dos cursos de água.” (Is. 32,16-20)
Aprendamos as lições do santo presépio de Belém!
+ Fr. Tiago de S. José

O RETIRO DO PAPA E DA CÚRIA ROMANA




CW: No Vaticano, é uma semana de incomum tranquilidade. Bento XVI está seguindo seu retiro quaresmal anual.

 Nas Crônicas Vaticanas de hoje, falaremos de como o papa e os seus colaboradores conseguem encontrar tempo para a oração e a penitência neste período.

 JT: Como todos os anos, Bento XVI suspendeu todas as atividades esta semana: nada de encontros, nada de discursos, nada de liturgias públicas. Ao invés, transcorreu a semana na sua Capela, junto aos colaboradores da Cúria romana, ouvindo o teólogo salesiano Pe. Enrico dal Covolo, docente de Literatura cristã, que pregou os exercícios espirituais sobre a vocação sacerdotal. Algo que poderia intimidar qualquer um, especialmente porque, no final, o papa oferece um breve comentário sobre o retiro.

CW: É verdade. Mas o retiro por si só não é um diálogo, e não é como um Sínodo, onde o pontífice discursa para dar a própria contribuição. O Papa permanece ajoelhado ou sentado em um nicho de sua Capela, um pouco separado dos outros, e ouve. Os encontros seguem uma forma tradicional, que prevê a leitura das Escrituras, a oração e a reflexão. Um aspecto interessante está relacionado à escolha do pregador dos exercícios espirituais: às vezes, é um cardeal ou um eclesiástico renomado, às vezes, é alguém relativamente desconhecido, como o Pe. dal Covolo.

 JT: Um retiro do gênero, Bento XVI recomendou durante a Quaresma a todos os fiéis católicos. Certamente, nem todos podem parar por uma semana. Por isso, o Papa sugeriu tentar criar um espaço de silêncio e de meditação durante a Quaresma, e de se retirar fisicamente do barulho e da agitação do mundo, para ter um diálogo com Deus. Um método específico recomendado pelo Papa é usado há séculos na Igreja: é chamado “lectio divina”, e, na prática, é uma combinação de leitura da Bíblia, oração e meditação.

CW: O Papa disse uma vez que se todos seguissem esta leitura orante da Escritura, haveria uma nova “primavera espiritual” na Igreja. A Quaresma é também a estação da penitência, das renúncias e das promessas. Bento XVI chamou essas práticas penitenciais de uma forma de “treinamento espiritual”, para tornar as pessoas mais resistentes à tentação. A coisa mais importante, disse, é que não deve ser feito com uma atitude de orgulho, mas de real humildade. 

JT: Creio que isso signifique não anunciar ao mundo quais são as próprias renúncias para a Quaresma. O Papa jamais falou de suas práticas pessoais, mas no ano passado disse que viveu toda a semana, inclusive os momentos de refeição, em silêncio. Além disso, o Papa convidou a descobrir outras tradições, como as obras de caridade e o jejum, para comprazer ao Senhor e não para receber o consenso das pessoas.

CW: Existem também outros tipos de penitências contempladas na tradição da Igreja. Recentemente, foi revelado que João Paulo II praticava várias formas de mortificações corporais, inclusive a autoflagelação. Esses tipos de penitência, sem dúvida, são menos comuns hoje do que 50 anos atrás. 

JT: Os especialistas da Igreja destacaram que essas práticas deverão serão seguidas com moderação e sob o acompanhamento de um diretor espiritual. Certamente, não é algo que o Vaticano tenta promover para a Igreja em todo o mundo. A melhor coisa seria realizar gestos simples durante a Quaresma, a partir de um justo exame de consciência e uma boa confissão. 

Sou John Thavis. 


CW: E eu sou Cindy Wooden http://www.catholicnews.com/

PAPA EM RETIRO QUARESMAL






Papa prossegue retiro quaresmal meditando sobre amor de Deus 


O quarto dia de exercícios espirituais para a Quaresma, no Vaticano, tratou do tema “Deus é amor”. O autor das meditações, o cardeal arcebispo de Kinshasa, Laurent Monsengwo Pasinya, propôs duas reflexões nesta quinta-feira, 01, a Bento xvi e aos membros da Curia Romana reunidos na Capela Redemptoris Mater do Palácio apostólico.


A primeira foi sobre o binômio “Penitência e Reconciliação” e a segunda sobre o “Amor aos irmãos”. À tarde, a terceira meditação prevista no programa trouxe o título “A Virgem “Maria, mãe dos fiéis, modelo de comunhão com o Pai e o Filho”.

Bento XVI iniciou o seu retiro quaresmal no último domingo, 26, o qual terminará no próximo sábado, dia 3 de março. A partir da semana que vem, o Papa retoma suas audiências privadas e catequeses que haviam sido suspensas por causa do retiro
Fonte: 

TEMPO DA QUARESMA



O Papa São Leão I (Magno), no século V, dirigiu ao povo estas palavras: “A sabedoria divina estabeleceu este tempo propício de quarenta dias, afim de que as nossas almas se pudessem purificar, e por meio de boas obras e jejum, expiassem as faltas de outros tempos. Inúteis seriam porém os nossos jejuns, se neste tempo os nossos corações se não desapegassem do pecado“.
As práticas exteriores que devem desenvolver em nós o espírito de Cristo e unir-nos a seus sofrimentos, são o jejum, a oração e a esmola.
jejum é imposto pela santa Igreja a todos os fiéis, depois dos 21 anos completos até atingirem os 60 anos.
A abstinência começa a obrigar desde os 7 anos.
O Prefácio da Quaresma descreve-nos os efeitos salutares do jejum, e aqueles que por motivos justos são dele dispensados, não o estarão do jejum espiritual, isto é, de se privarem de festas, teatros, leituras puramente recreativas, etc…
oração. Assim como a palavra jejum abrange todas as mortificações corporais, do mesmo modo a palavra oração compreende todos os exercícios de piedade feitos neste tempo, com um recolhimento particular, como sejam: a assistência à Santa Missa, a Comunhão frequente, a leitura de bons livros, a meditação, especialmente da Paixão de Jesus Cristo, a Via-Sacra, e a assistência às pregações quaresmais.
esmola compreende as obras de misericórdia para com o próximo. Já no antigo testamento está dito: “Mais vale a oração, acompanhada do jejum e da esmola do que amontoar tesouros” (Tob. XII, 8).
Renovemos em nós a graça do Batismo, e façamos dignos frutos de penitência!
(No mistério do Cristo).

LEMBRA-TE QUE ÉS PÓ!






Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris(Lembra-te homem, que és pó, e em pó te hás de converter)

O pó futuro, em que nos havemos de converter, é visível à vista, mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade? A resposta a essa dúvida será a matéria do presente discurso.

Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer: outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura, mas a futura vêem‑na os olhos, a presente não a alcança o entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, tu in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter. — Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura.
O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, vêem‑no os olhos; o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança. Que me diga a Igreja que hei de ser pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento para o crer. Naquelas sepulturas, ou abertas ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há é o nada que havemos de ser: tudo pó. Vamos, para maior exemplo e maior horror, a esses sepulcros recentes do Vaticano.

Se perguntardes de quem são pó aquelas cinzas, responder‑vos‑ão os epitáfios, que só as distinguem: Aquele pó foi Urbano, aquele pó foi Inocêncio, aquele pó foi Alexandre, e este que ainda não está de todo desfeito, foi Clemente. De sorte que para eu crer que hei de ser pó, não é necessária fé, nem entendimento, basta a vista. Mas que me diga e me pregue hoje a mesma Igreja, regra da fé e da verdade, que não só hei de ser pó de futuro, senão que já sou pó de presente: Pulvis es? Como o pode alcançar o entendimento, se os olhos estão vendo o contrário? É possível que estes olhos que vêem, estes ouvidos que ouvem, esta língua que fala, estas mãos e estes braços que se movem, estes pés que andam e pisam, tudo isto, já hoje é pó: Pulvis es?”


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(Trecho do “Sermão da Quarta-Feira de Cinzas” proferido pelo Padre Antônio Vieira, em Roma, na Igreja de S. Antônio dos Portugueses, no ano de 1670.)

QUARESMA : AGORA É O TEMPO!

Deus pede estrita conta do meu tempo, 
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta; 
Para dar minha conta feita a tempo, 
O tempo foi me dado, e não fiz conta.

Mas, como dar, sem tempo, tanta conta, 
Eu que gastei sem conta, tanto tempo? 
Não quis, sobrando tempo, fazer conta, 
Hoje quero dar conta, e não tenho tempo.

Ó vós, que tendes tempo sem ter conta, 
Não gasteis vosso tempo em passatempo. 
Cuidar, enquanto é tempo, em vossa conta.

Pois aqueles que, sem conta, gastam tempo, 
Quando tempo chegar de prestar conta, 
Chorarão, como eu, o não ter tempo.

Laurindo Rabelo (1826-1864)